quinta-feira, janeiro 23, 2014

Competições jovens (2)... Campeonato do Mundo de Sub-20/Japão 1979

Diego Armando Maradona,
a figura central do Mundial
de júniores de 1979
Descrever a segunda edição do Campeonato do Mundo de Sub-20 numa só palavra afigura-se como um exercício mental demasiado simples para os verdadeiros amantes do futebol espetáculo. Maradona, ai está a mágica palavra que salta de imediato à memória quando se olha para trás no tempo ao recordar os momentos do Japão 1979, a primeira grande aparição internacional daquele que muitos consideram como o maior génio da história do futebol. O Deus do desporto rei. Não duvidamos. A performance de Maradona e da sua Argentina no Mundial realizado no país do Sol Nascente assume contornos de cartaz principal quando se fala dos campeonatos mundiais desta categoria. O que se viu no Japão foi algo de sublime, inolvidável, foi o futebol no seu estado mais encantador.
Kobe, Omiya, Yokohama, e Tóquio foram as quatrro cidades encarregadas de acolher uma competição que começava a atrair os olhares dos principais atores do futebol internacional, que encaravam o torneio como uma autêntica mina de diamantes no seu estado bruto, prontos a lapidar nas grandes joalharias planetárias. Disputada entre agosto e setembro de 79 a prova causou grandes dificuldades à maior parte das seleções presentes, desde logo o fator calor (extremo) aliado ao fuso horário, que mesmo assim não impediu que nos relvados nipónicos se edificassem grandes espetáculos futebolísticos, não só por intermédio da cintilante seleção argentina, como também da campeã mundial em título União Soviética, da Polónia, ou do Uruguai.
Para nós, portugueses, este Mundial fica igualmente na história, por ter sido nesta edição que uma seleção nacional marcou pela primeira vez presença numa competição da qual viria num futuro próximo a sagrar-se bi-campeã. Mas isso são outras histórias para outros capítulos... da história. Foquemos por agora os olhos no Japão 79.

Argélia surpreende vice-campeões do Mundo

O cartaz oficial do Japão 79
O dia 25 de agosto marca o arranque do certame chancelado pela FIFA, tendo a capital Tóquio servido de palco de dois dos primeiros quatro jogos da jornada inaugural. No Grupo A estava a teoricamente frágil - e desconhecida - seleção da casa, o Japão, que enfrentava na estreia uma das favoritas da chave, a Espanha. Orientada tecnicamente pelo tetra campeão europeu - enquanto jogador - ao serviço do lendário Real Madrid dos finais da década de 50, o uruguaio José Santamaria, os castelhanos sentiram grandes dificuldades para derrotar os esforçados nipónicos, não se sabendo se estas mesmas dificuldades se ficaram a dever às complicadas condições atmosféricas, à enorme diferença horária, ou se ao empenho dos jogadores da casa. O que é certo é que la Rojita não foi além de uma magra vitória por 1-0, graças a um tento arrancado a ferros no início do segundo tempo por intermédio do médio Zúñiga.
No outro encontro ocorrido na Estádio Nacional de Tóquio a supresa pairou no ar. Os vice-campeões mundiais, o México, e apontados pela crítica como um dos selecionados favoritos a arrecadar a coroa de campeão baqueou diante da modesta Argélia. Uma igualdade a uma bola premiou o atrevimento dos africanos, que nunca baixaram os braços ao longo de um encontro onde até estiveram atrás no marcador desde o minuto 24.
Dois dias depois, e no mesmo estádio, tem lugar a segunda ronda, a qual teve início com a Espanha a carimbar o passaporte para os quartos-de-final à custa do desolador México. A cerca de 15 minutos do apito final do brasileiro Ramiz Wright o avançado nascido em Valladolid, Luís Gail, apontou o 2-1 final, que não só colocava os castelhanos na fase seguinte como obrigava os mexicanos a vencer o terceiro e último jogo do grupo. Isto, porque no outro encontro da segunda ronda a Argélia voltava a somar um pontinho, desta feita na sequência de uma igualdade a zero ante os japoneses. E como diz o ditado: "grão a grão enche a galinha o papo".

Uma imagem aérea
do Estádio Nacional de Tóquio

Com molduras humanas consideráveis - sempre a rondar os 30 000 espetadores, em especial quando a seleção da casa entrava em ação - o Estádio Nacional engalanou-se para a decisiva terceira jornada do Grupo A.  Ronda que serviu para confirmar o desnorte mexicano, que a precisar de uma vitória como do pão para a boca voltou a tropeçar, desta feita ante os nipónicos, na sequência de um confrangedor empate a um. E nem a temível dupla de avançados mexicanos (Enrique) Hernandez & (Javier) Hernandez - este último pai do atual internacional mexicano do Manchester United, Chicharito Hernandez - salvou os centro-americanos, que desta forma iam mais cedo para casa. E no seu lugar para os quartos-de-final viajou a surpreendente Argélia, que com um golo solitário de Bendjaballah, aos 15 minutos, derrotava a Espanha e agarrava o segundo lugar, com os mesmos quatro pontos somados que os europeus.

O tango mágico de Maradona e companhia

Maradona põe os olhos em bico
a um indonésio
Patenteando um futebol de passes curtos e rápidos, com dribles mágicos e desconcertantes para os oponentes, os argentinos cedo cativaram os olhares do Mundo que seguia este campeonato. Orientada pelo homem que um ano antes havia levado a principal seleção das Pampas ao título mundial, César Luís Menotti, a Argentina cedo mostrou ao que vinha. A primeira vítima foi a frágil Indonésia, que em Omiya foi varrida pelo vendaval de futebol espetáculo dos chiquitos de Menotti. Ramón Díaz, com três golos, e o capitão Diego Maradona com dois, foram os principais atores de uma fácil goleada de 5-0. A equipa funcionou em perfeição, titulavam os jornais argentinos após esta estreia, sendo que pelo futebol praticado a imprensa - não só argentina, como também a internacional - apontava os sul-americanos como naturais candidatos ao ceptro. Tinham um bom naipe de jogadores (Maradona, Ramón Díaz, Osvaldo Escudero, Juan Símon, ou Gabriel Calderón), um treinador campeão do Mundo de futebol sénior, e acima de tudo praticavam um futebol de excelência, argumentos juntos que punham por aquela altura toda a nação argentina em euforia, a sonhar com um novo título mundial. Estado de espírito do povo argentino que chegava ao Japão, e conhecedor desse facto o capitão Maradona dizia ao jornal Clarín que «nos llegaron noticias de que hay una gran euforia en Argentina. Somos conscientes de que tenemos una gran responsabilidd, pero eso no nos va a afectar. Estamos muy tranquilos». Palavra de astro... que já o era.
No outro jogo do Grupo B apareceu outra das boas lembranças deste Mundial de 79. A Polónia, fiel intérprete do frio mas tremendamente eficaz futebol do leste europeu mostrou-se ao Mundo com uma categórica vitória por 2-0 ante outra seleção tradicionalmente muito talentosa, a Jugoslávia.

Tomislav Ivkovic
Jugoslavos cuja baliza era guardada por um jovem mas já deveras talentoso keeper, de nome Tomislav Ivkovic, que anos mais tarde defenderia com vincada perícia a baliza da seleção principal em fases finais de Europeus e Mundiais. E na segunda jornada a equipa europeia mediu forças com a Argentina de Maradona, nascendo aqui um duelo pessoal que viria a ter outros capítulos nos anos próximos. Um mano a mano disputado precisamente entre Ivkovic - que iria desenvolver grande parte da sua carreira no futebol português - e Diego Maradona. Os encontros entre estes dois jogadores ganharam contornos de história em finais dos anos 90, 1989 para sermos mais precisos, ano em que o Sporting de Ivkovic enfrentou o Nápoles de Maradona numa eliminatória da Taça UEFA. Eliminatória essa decidida nas grandes penalidades, e regista a história que quando Diego Maradona se abeira da bola para converter o seu castigo máximo o guardião jugoslavo dele se aproxima e lança-lhe o desafio em como o argentino não o iria bater. Ivkovic apostou 100 dólares em como defenderia a grande penalidade. Maradona aceitou de pronto... e falhou. Ivkovic ganhou. E voltaria a ganhar um ano depois na fase final do Mundial de Itália, quando voltou a defender um penalti do número 10 argentino. Porém, em 1979 não consta que tenha havido qualquer aposta entre os dois atletas, certo sim é que a Argentina voltou a ganhar... e a encantar. 1-0, golo de Escudero. No outro encontro não houve grande história para contar, ou melhor, a história resumiu-se a uma tremenda goleada (6-0) polaca à seleção mais fraca deste torneio, a Indonésia. 


Maradona celébra com
os companheiros mais uma vitória
Com estes dois triunfos Argentina e Polónia estavam desde logo qualificadas para a fase seguinte, sendo que o duelo da última jornada entre ambas as seleções servia apenas para definir quem ficaria em primeiro do grupo. Assistiu-se então a mais um recital de futebol espetáculo dos chicos de Menotti, que iriam alcançar uma nova goleada, desta feita por 4-1, com Maradona a fazer o gosto ao pé pela terceira ocasião neste Mundial. O número 10 da seleção das Pampas era já uma estrela em ascensão no futebol, tendo viajado para o Japão com um cameraman particular, que filmava todos os seus passos em solo nopónico. Fazia-se acompanhar igualmente por um empresário particular, prevendo já as chorudas propostas de que seria alvo após o torneio. Não podia sair do hotel, que era de imediato cercado por dezenas de caçadores de autógrafos, além de inúmeros jornalistas oriundos dos mais diversos lugares do globo que procuravam uma declaração sua fosse sobre o que fosse. Maradona, com 18 anos de idade, era já uma figura mediática do planeta da bola, não só pelo - muito - que jogava, mas pelo protagonismo que granjeava fora das quatro linhas. Indiscutível.
No último jogo do grupo a Jugoslávia despediu-se da competição com uma goleada de 5-0 aplicada à débil Indonésia. Com esta pobre aparição os indonésios fizeram história na competição, já que até hoje são a seleção que mais golos sofreu numa fase final, 16 para sermos mais exatos. 

Portugal com estreia positiva


A seleção júnior portuguesa de 1979
1966 havia sido um ano dourado para o futebol português no que a seleções dizia respeito. Ano em que os Magriços de Eusébio e companhia puseram o planeta de boca aberta na sequência de uma brilhante prestação no Campeonato do Mundo (sénior) ocorrido em Inglaterra. 13 anos volvidos Portugal voltava a marcar presença na alta roda do futebol internacional, mas desta vez em júniores. A presença lusa no Japão terá sido encarada com algum interesse, a julgar pela cobertura que jornais como o Record, e A Bola terão dado, sendo que este último meio de comunicação enviou ao Oriente um jornalista (Aurélio Márcio) para cobrir de forma intensiva o torneio e em particular os selecionados de Peres Bandeira, o técnico luso. 
Estreia portuguesa que foi para esquecer, já que em Kobe - cidade onde decorreu toda a ação do Grupo C - o Canadá derrotou os portugueses por claros 3-1. O tento lusitano seria apontado por um tal de João Grilo, avançado que na época atuava nos júniores do Sporting. Aliás, a seleção portuguesa era composta na sua maioria por atletas pertencentes a equipas secundárias do futebol nacional, com destaque para a presença de dois atletas (Artur e Jorge Oliveira) que integravam os plantéis de equipas da 3ª Divisão!


Romerito, a maior estrela
do futebol paraguaio de
todos os tempos mostrou-se
ao Mundo no Japão
Na outra partida do grupo apareceu aquela que muitos consideram como a maior figura de sempre do futebol paraguaio: Júlio César Romero, também conhecido - sobretudo no Brasil, onde foi estrela ao serviço do Fluminense - como Romerito. Apontou um dos três golos com que o Paraguai bateu a Coreia do Sul, sendo que os outros foram da autoria de Roberto Cabañas. 
Paraguai que na jornada seguinte mediu forças com o combinado de Peres Bandeira, que face ao precalço da partida inaugural precisava urgentemente de um triunfo para continuar a sonhar com o apuramento. O jogo foi complicado para ambos os conjuntos, muito disputado e de certa forma pautado pelo equilíbrio, sendo apenas desamarrado por um golo solitário de Nascimento, que devolvia desta forma a alegria à nação portuguesa. 
A Coreia do Sul baralhou por compelto as contas do grupo com o seu triunfo (1-0) diante do Canadá, sendo que à entrada para a terceira e decisiva jornada da fase de grupos as quatros seleções tinham hipóteses matemáticas de se qualificar para a fase seguinte. Para isso precisavam apenas de vencer os seus respetivos duelos. E foi precisamente isso o que o Paraguai fez diante do Canadá, última seleção esta que não encontrou o antídoto para travar o craque Romerito, autor de dois dos três golos dos sul-americanos. 
Quanto aos portugueses um empate a zero bolas ante os sul-coreanos bastou para garantir a qualificação, tendo os lusos sido apurados por deterem um melhor goal-average (diferença entre golos marcados e sofridos) que os seus opositores. 

Campeões do Mundo aliam-se aos talentosos charrúas


Oleksandr Zavarov
Por fim, Yokohama acolheu os jogos do Grupo D, o grupo onde morava a seleção que dois anos antes havia vencido a primeira edição do Mundial de júniores, a União Soviética. Para o selecionado do leste europeu a concorrência era de peso, em especial a que vinha da América do Sul. Uruguai era pois o principal oponente dos soviéticos, como se veio a verificar, e apesar de não exibirem o futebol espetáculo patenteado pelos vizinhos argentinos eram uma seleção muito talentosa, onde viria a sobressair o nome do avançado Rúben Paz, um habilidoso e letal avançado que era já um dos rostos principais do Peñarol. Uruguaios e soviéticos que desde cedo mostraram que dificilmente a qualificação lhes iria fugir, entrando ambas no torneio de forma avassaladora. A chapa 5 foi usada por ambas as seleções, os uruguaios diante da Guiné-Conacri (5-0) e os europeus ante a Hungria (5-1). Neste último particular há que destacar a atuação soberba do médio Oleksandr Zavarov, que mais tarde iria brilhar ao serviço do mítico Dynamo de Kiev orientado pelo mestre Valeriy Lobanovskyi e da Juventus. 
Os apurados ficariam definidos na ronda seguinte fruto de mais duas vitórias incontestáveis dos favoritos Uruguai e União Soviética. Os primeiros derrotaram a Hungria por 2-0 - um dos golos foi do craque Paz - ao passo que os segundos levaram a melhor sobre a Guiné-Conacri por 3-0. 
Assim sendo, o jogo entre as duas equipas vitoriosas do grupo na entrada para a última jornada assumia contornos de final, cujo prémio era o primeiro lugar da chave. Venceram os sul-amercicanos - num encontro arbitrado pelo português César Correia Dias da Luz - graças a mais uma excelente atuação coletiva, pese embora os soviéticos se tenham batido muito bem. A Hungria ficou no terceiro posto do grupo, após ter derrotado a Guiné-Conacri por 2-0. 

Portugueses dizem adeus em dia de novo vendaval argentino


Ramón Díaz,
o artilheiro do
Mundial
O início de setembro - dia 2 para sermos precisos - dita o arranque da segunda fase do certame, no caso os quartos-de-final. O primeiro embate, em Omiya, é pautado pelo equilíbrio e pelas cautelas patenteadas por Espanha e Polónia, conforme explica o nulo no final dos 120 minutos (tempo regulamentar mais prolongamento). A lotaria das grandes penalidades saiu aos polacos. 
No Estádio Nacional de Tóquio os 20 000 espetadores presentes puderam deliciar-se com mais um grande recital de futebol da equipa de Maradona. 5-0 à equipa sensação da primeira fase do Mundial, a Argélia, que não teve argumentos para eclipsar a magia de El Pibe - autor de um golo - e a veia goleadora de Ramón Díaz, autor de três, ele que haveria de se sagrar o melhor marcador do torneio com um total de oito remates certeiros. Equilibrado e decidido igualmente nas grandes penalidades foi o embate entre União Soviética e Paraguai, que terminou empatado a duas bolas no final dos 120 minutos. No tiro ao alvo os campeões do Mundo levariam a melhor, de nada valendo mais uma atuação valorosa de Romerito.


Rúben Paz mandou os portugueses
para casa
Por fim, o Portugal - Uruguai, outro encontro onde o equilíbrio pairou sobre o relvado do estádio de Yokohama, onde a partida teve lugar. O artista Rúben Paz, aos quatro minutos do prolongamento põe fim à primeira aventura portuguesa num Mundial de Sub-20, fazendo o único tento desse encontro. Mesmo não tendo tido uma atuação brilhante ao longo da competição a seleção lusa teve uma participação digna, acabando o torneio entre as oito melhores seleções, o que atesta bem o valor que o futebolista português iria ter além fronteiras sobretudo na década de 90 e já no novo milénio. Isto, apesar de grande parte da equipa de 1979 se ter eclipsado nos caminhos secundários do futebol português, não se sabendo, por exemplo, que trajeto seguiram João Grilo, Manuel Galhofas, João Santos, ou Jorge Oliveira, sendo que outros nunca conseguiram sair da segunda linha do futebol nacional, ao passo que muitos poucos (Zé Beto, Quim, e Diamantino, por exemplo) conseguiram ascender ao topo do futebol nacional e internacional nos anos que se seguiram.

Maradona derrota o vizinho e rival Paz


Lá vai Maradona... sem que
os uruguaios o consigam travar
Nas meias-finais o jogo cabeça de cartaz foi naturalmente o Argentina - Uruguai, clássico das américas, duelo entre os dois velhos inimigos do Rio de La Plata. Como era - e continua a ser - apanágio nos embates entre os dois vizinhos da América do Sul o jogo foi duro, como demonstram os sete cartões amarelos exibidos pelo árbitro espanhol Lamo Castillo, mas também teve momentos de pura magia futebolística. O mágico principal? Diego Maradona, pois claro. Ramón Díaz apontou aos 52 minutos o primeiro tento do encontro, ao passo que Maradona, aos 74, setenciou a partida, com um golo de cabeça que colocou toda a Argentina em absoluto delírio, uma nação inteira que tinha ficado de pé em frente à televisão madrugada fora.
O rival dos chiquitos de Menotti na grande final de Tóquio foi encontrado em Kobe, cidade onde a União Soviética se desenvencilhou a muito custo da Polónia graças a um tento solitário de Ponomarev no início do segundo tempo. 

A merecida consagração de Maradona e companhia

Deus (Maradona) carregado em ombros
pelos seus companheiros após o triunfo
na final ante a União Soviética
52 000 pessoas lotaram no dia 7 de setembro de 1979 o Estádio Nacional de Tóquio para assistir à grande final. Isto, um dia depois do Uruguai ter garantido neste mesmo recinto a medalha de bronze, após um batalha ante a Polónia decidida no desempate das grandes penalidades (5-3). Mas voltando à grande final, a qual após uma primeira parte pautada pelo equilíbrio, e sem golos, explodiu na etapa complementar. Ponomarev colocou ao minuto 52 os campeões do Mundo em título na frente do marcador, golo que terá espicaçado os chicos de Menotti que em seguida partiram para uma exibição fabulosa. Cerca de um quarto de hora volvido o defesa Hugo Alves repõe a igualdade na sequência da conversão de uma grande penalidade, para três minutos depois o goleador do campeonato, Ramón Díaz, colocar os sul-americanos em vantagem depois de correr metros com a bola ao mesmo tempo que deixava uma série de soviéticos para trás. E aos 76 minutos, o génio Maradona deixaria a sua marca no jogo. Livre à entrada da área descaído para a esquerda da baliza de Victor Chanov, o diez argentino parte para a bola, remata forte, a bola fura a barreira e... gooooolllllllllllllllllllll de Argentina! Diego Armando Maradona. Estava feito o resultado final, e encontrado o novo e justo campeão mundial de júniores. 

Maradona, com a taça nas mãos, é recebido
com a restante seleção argentina na Casa do Governo
pelo chefe de Estado, o general Videla
Depois de em 78 ter conquistado em casa (no Estádio Monumental de Buenos Aires, diante da Holanda) a coroa de rei do Mundo no que a seleções seniores dizia respeito, Menotti arrecadava agora a coroa de príncipes do planeta para o país das Pampas que ficou em completo delírio. O povo argentino rendia-se ao seu novo Deus, que dava pelo nome de Diego Armando Maradona. Chegados a Buenos Aires os chiquitos foram recebidos e homenageados na Caso do Governo pelo chefe de Estado argentino, o temível ditador general Videla. 

A figura: Diego Armando Maradona

Nos Cebollitas
Diego Armando Maradona não precisa de apresentações, a sua lendária carreira fez dele um dos principais - senão mesmo o principal - ícones do belo jogo. Falar dele dava um livro, melhor dizendo, a sua vida já deu origem a vários livros. Por isso não nos vamos alongar muito nas palavras que traçam a biografia do homem a quem ainda hoje chamam de Deus. Nasceu pobre, a 30 de outubro de 1960, em Lanús, nos subúrbios de Buenos Aires. O seu inigualável talento com a bola já se fazia notar aos 9 anos de idade, altura em que era já o ídolo - de pequenos e graúdos - da favela onde viva, encantando aquela pobre gente com a camisola da equipa de bairro Los Cebollitas, o seu primeiro clube, por assim dizer. Ainda com 9 anos foi prestar provas aos Argentinos Juniors, pequeno clube da capital mas já na época mundialmente (re)conhecido pelo seu notável trabalho nos escalões de formação. Assim que o viram com la pelota nos pés os técnicos daquele emblema ficaram abismados. Será que ele tem mesmo 9 anos? Perguntaram-se na altura uns aos outros, enquanto olhavam incrédulos para aquele diamante raro. Não mais largaram Dieguito, acompanhado-no a casa para perguntar à sua mãe se aquele menino tinha mesmo 9 anos de idade. Dúvida desfeita tentaram de imediato convercer os pais do jovem Maradona a deixar o filho entrar para as equipas de base do Argentino Juniors. Assim foi.

Craque aos 16 anos
no Argentino Juniors
Revelava dotes nunca dantes vistos num futebolista. Um pé esquerdo absolutamente fabuloso, um exímio marcador de livres, um encantador driblador, um mestre na arte de colocar a bola quer fosse a longa ou a curta distância, um temido rematador, e um feroz goleador. Com esta combinação de atributos num só jogador seria este chico humano? Era esta a pergunta de todos aqueles hinchas que pulavam e gritavam de alegria nas bancadas sempre que o viam atuar. Aos 16 anos era já a estrela da equipa principal do Argentino Juniors. Em 1977, com apenas 17 anos, é chamado à seleção principal do seu país, e por aqueles dias ninguém duvidava que o selecionador César Luis Menotti o iria convocar para o Campeonato do Mundo que um ano depois iria ter lugar no país das Pampas. Porém, o prodígio argentino é riscado da convocatória para espanto de toda a nação! Incompreensivelmente Diego não vestiu a camisola 10 que lhe estava reservada naquele Mundial, a qual seria envergada por Mario Kempes, que viria contudo a tornar-se no herói nacional após ter dado um grande contributo para que a Argentina conquistasse o seu primeiro Campeonato do Mundo da FIFA. O facto de não ter feito parte da seleção que conquistou o Mundo foi o maior desgosto da carreira de Maradona, o qual, ainda hoje, não perdoou a Menotti. Nem mesmo quando este lhe entregou a batuta da seleção de júniores que em 1979 encantou o planeta da bola com o seu futebol de altíssima qualidade na fase final do Campeonato do Mundo da categoria. No Japão Maradona deslumbrou, e conquistou de vez um lugar no Olimpo do futebol. Foi campeão, e também o melhor jogador do torneio. Era já - há muito - a atração principal do Argentino Juniors, clube ao serviço do qual se iria sagrar o melhor marcador do campeonato argentino desse ano de 79. Este foi aliás um ano inolvidável na vida de Diego, já que seria nomeado pela primeira vez como o melhor jogador da América do Sul. 

Com a camisola do seu amado Boca Juniors
Em 1980 concretiza um dos seus maiores sonhos: vestir a camisola do Boca Juniros, o seu clube do coração. Em La Bombonera - mítica casa do Boca - Diego rapidamente se torna na atração principal para todos os que lotavam o estádio sempre que o popular clube de Buenos Aires ali jogava. Pelo Boca Diego marca golos (muitos), faz assistências, jogadas que deixam os adversários à deriva no retângulo de jogo, e ganha títulos. Volta a conquistar prémios individuais, e o Mundo fica rendido de vez aos seus encantos. Talvez por isso tenha sido com alguma desilusão que no Campeonato do Mundo de 1982, ocorrido em Espanha, a prestação medíocre da Argentina tenha trazidos alguns amargos de boca a todos os amantes do futebol espetáculo, e sobretudo aos muitos fãs que Diego Maradona, o genial dono da camisola 10 da seleção das Pampas, havia já conquistado em todo o planeta. Em Espanha El Pibe de Oro, como entretanto havia sido batizado, não foi feliz com a sua seleção, mas nem por isso o colosso Barcelona deixou de lhe lançar o canto da sereia no final desse Mundial. O Barça via em Maradona um messias, e a chave para voltar a abrir as portas dos grandes títulos nacionais e internacionais.

No Barça
Diego permanece somente duas temporadas em Camp Nou. Não foi feliz. Uma hepatite na primeira temporada - que o atira para fora dos relvados durante três meses - e uma brutal agressão do basco Andoni Goikoetxea na segunda - que provocou uma lesão que o afastou durante quatro meses - impediram-no de mostrar o seu real valor. Ainda assim juntou ao seu currículo uma Taça do Rei e uma supertaça espanhola. Pouco para quem tinha sede de títulos. Deixou Barcelona com 44 golos em duas temporadas, e rumou até ao sul de Itália, para ai se juntar ao Napoli, mediano clube que pagou na época cerca de 1,2 milhões de doláres - uma fortuna, na altura - pelo passe de El Pibe. Dinheiro abençoado dirão hoje em dia os adeptos napolitanos, já que com a camisola celeste do clube vestida Diego Maradona viveu quiçá os seus melhores anos de futebol. Maradona conduziu o Napoli a mares nunca dantes navegados pelo clube, tornando-se num autêntico Deus para os seus ferrenhos adeptos. 
Venceu dois campeonatos de Itália, uma taça e uma supertaça italiana, e arrecadou a Taça UEFA em 1988. Fez quase 260 jogos com o clube, e apontou 115 golos. Com Maradona ao leme o Napoli foi um grande do futebol mundial. Ainda hoje ele tem a cidade a seus pés, uma cidade que o venera como um Deus, maior que o próprio Deus


Deus com a camisola do Napoli
Em 1986 ele atinge o ponto alto de uma brilhante carreira, quando no México, comanda a sua seleção no assalto ao título mundial. Pela mão - literalmente - de Diego a Argentina vence pela segunda vez na história o Mundial, ficando célebre o golo obtido com a mão ante a Inglaterra nos quartos-de-final da competição. Um golo com a mão que ficaria eternizado como a mão de Deus. Inolvidável, nesse mesmo jogo ante os europeus, a jogada que deixa por terra quase toda a equipa inglesa e termina com a bola a beijar as redes da baliza de Shilton, tento esse que seria mais tarde considerado como o golo do século XX! Um golo só ao alcance dos deuses... sem dúvida. Maradona volta a estar presente na fase final de um Campeonato do Mundo quatro anos depois, no país que o acolhera de braços abertos, a Itália, e para a história desse campeonato fica a meia-final entre a Argentina e a seleção da casa, jogo realizado na casa de Maradona, Napóles. Os napolitanos ficam divididos: apoiam a sua seleção ou o seu Deus (Maradona)? Os apoios dividem-se e o que é certo é que a Argentina elimina a Squadra Azzurra e atinge de novo a final, e de novo contra a República Federal da Alemanha (RFA), que quatro anos antes havia caído no Estádio Azteca ante Deus e os seus discípulos. Desta feita a RFA leva a melhor, e as lágrimas de Diego correm o Mundo após a final de Roma. Era também um indicador de um certo declínio da carreira de El Pibe, que em 1991 choca o Mundo quando num controlo antidopping acusou cocaína. Foi suspenso durante 15 meses e preso na chegada à Argentina por posse de cocaína. 


O momento mais alto da sua carreira
Os problemas - de ordem vária - começaram a fazer parte da vida do astro, que em 92/93 ainda passa pelo Sevilla na tentativa de relançar a sua carreira, mas em vão. Uma época mais tarde regressa ao seu país para representar o Newell's Old Boys com a intenção clara de se preparar para o Mundial de 94, onde viria a realizar somente dois jogos. No primeiro faz um dos seus golos geniais, diante da Grécia, e após o segundo - ante a Nigéria - acusou o uso de substâncias proibidas, que lhe valeu de imediato a suspensão da atividade. Terminava assim uma relação de amor (e ódio?) de Diego com a sua seleção. Após cumprir mais 15 meses de suspensão voltou aos relvados com a camisola do seu amado Boca Juniors, mas já sem a ginga de outros tempos - mais pesado, sobretudo - acaba por se refugiar na droga, de novo. Abandona de vez o jogo, e refugia-se em Cuba para uma desentoxicação. Inicia posteriormente uma carreira como treinador - chega a orientar a sua seleção na fase final do Mundial de 2010 - mas sem a mesma arte e engenho que fizeram dele um dos maiores - ou o maior, mesmo - jogadores de futebol de história. Se Deus um dia jogou futebol fê-lo na pele de Diego Armando Maradona, disso não há dúvidas. 

Nomes e números:

Grupo A

1ª Jornada

México - Argélia: 1-1
(Enrique Hernandez, aos 24m)
(Yahi, aos 67m)

Japão - Espanha: 0-1
(Zúñiga, aos 51m)

2ª Jornada

Espanha - México: 2-1 
(Paichardo, aos 8m, Gail, aos 74m)
(Díaz, aos 56m)

Argélia - Japão: 0-0

3ª Jornada

Espanha - Argélia: 0-1
(Bendjaballah, aos 15m)

Japão - México: 1-1
(Mizunuma, aos 58m)
(Romero, aos 69m)

Classificação:

1-Espanha: 4 ponts
2-Argélia: 4 pontos
3-México: 2 pontos
4-Japão: 2 pontos

Grupo B

1ª Jornada

Polónia - Jugoslávia: 2-0
(Palasz, aos 49m, Frankowski, aos 76m)

Argentina - Indonésia: 5-0
(Ramón Díaz, aos 10m, aos 23, aos 25m, Maradona, aos 19m, aos 39m)

2ª Jornada

Jugoslávia - Argentina: 0-1
(Escudero, aos 55m)

Polónia - Indonésia: 6-0
(Baran, aos 22m, aos 31m, Palasz, aos 11m, aos 37m, Janiec, aos 12m, Buda, aos 73m)

3ª Jornada

Polónia - Argentina: 1-4
(Palasz, aos 27m)
(Calderón, aos 23m, aos 70m, Maradona, aos 7m, Simón, aos 35m)

Jugoslávia - Indonésia: 5-0
(Milosavljevic, aos 19m, aos 63m, Smajic, aos 5m, aos 77m, Mlinaric, aos 73m)

Classificação:

1-Argentina: 6 pontos
2-Polónia: 4 pontos
3-Jugoslávia: 2 pontos
4-Indonésia: 0 pontos

Grupo C

1ª Jornada

Canadá - Portugal: 3-1
(Segota, aos 7m, aos 66m, Nagy, aos 79m)
(Grilo, aos 46m)

Paraguai - Coreia do Sul: 3-0
(Cabañas, aos 70m, aos 74m, Romerito, aos 5m)

2ª Jornada

Portugal - Paraguai: 1-0
(Nascimento, aos 23m)

Coreia do Sul - Canadá: 1-0
(Lee, aos 63m)

3ª Jornada

Paraguai - Canadá: 3-0
(Romerito, aos 37m, aos 58m, Isasi, aos 40m)

Portugal - Coreia do Sul: 0-0

Classificação

1-Paraguai: 4 pontos
2-Portugal: 3 pontos
3-Coreia do Sul: 3 pontos
4-Canadá: 2 pontos

Grupo D

1ª Jornada

União Soviética - Hungria: 5-1
(Taran, aos 71m, aos 78m, Ponomarev, aos 24m, Stukashev, aos 41m, Zavarov, aos 57m)
(Kardos, aos 9m)

Uruguai - Guiné-Conacri: 5-0
(Revelez, aos 22m, aos 74m, Paz, aos 53m, Vargas, aos 76m, Molina, aos 7m)

2ª Jornada

Hungria - Uruguai: 0-2
(Vargas, aos 23m, Paz, aos 35m)

Guiné-Conacri - União Soviética: 0-3
(Olefirenko, aos 6m, Mikhalevsky, aos 59m, Radenko, aos 80m)

3ª Jornada

União Soviética - Uruguai: 0-1
(Martinez, aos 66m) 

Hungria - Guiné-Conacri: 2-0
(Segesvar, aos 17m, Kerepeczky, aos 80m)

Classificação:

1-Uruguai: 6 pontos
2-União Soviética: 4 pontos
3-Hungria: 2 pontos
4-Guiné-Conacri: 0 pontos

Quartos-de-final

Espanha - Polónia: 0-0 (3-4 nas grandes penalidades)

Argentina - Argélia: 5-0 
(Ramón Díaz, aos 39m, aos 51m, aos 66m, Maradona, aos 25m, Calderón, aos 34m)

Paraguai - União Soviética: 2-2 (5-6 nas grandes penalidades)
(Romerito, aos 7m, Achucarro, aos 22m)
(Dumansky, aos 3m, Ponomarev, aos 70m)

Uruguai - Portugal: 1-0
(Paz, aos 94m)

Meias-finais

Argentina - Uruguai: 2-0
(Ramón Díaz, aos 52m, Maradona, aos 74m)

Polónia - União Soviética: 0-1
(Ponomarev, aos 50m)

Jogo de atribuição dos 3º e 4º lugares

Uruguai - Polónia: 1-1 (5-3 nas grandes penalidades)
(Paz, aos 9m)
(Palasz, aos 26m)

Final

Argentina - União Soviética: 3-1

Data: 7 de setembro de 1979

Estádio: Nacional de Tóquio

Árbitro: Ramiz Wright (Brasil)

Argentina: Sergio García; Abelardo Carabelli, Juan Simón, Rubén Rossi e Hugo Alves; Juan Barbas, Osvaldo Rinaldi (Juan José Meza, aos 49m) e Diego Maradona; Osvaldo Escudero, Ramón Díaz e Gabriel Calderón. Treinador: César Luís Menotti

União Soviética: Chanov, Yanushevsky (Olefirenko, aos 56m), Khachatrian, Paolukarov, Dumansky (Mikhalevsky, aos 60m), Ponomarev, Taran, Gurinovich, Stukashev, Ovchinnikov, e Radenko. Treinador: Sergei Korshunov

Golos: 0-1 (Ponomarev, aos 52m), 1-1 (Alves, aos 68m), 2-1 (Ramón Díaz, aos 71m), 3-1 (Maradona, aos 76m)
Seleção argentina que se sagrou campeã
mundial de júniores em 1979


Vídeo: ARGENTINA - UNIÃO SOVIÉTICA

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