domingo, outubro 04, 2026

Histórias do Planeta da Bola (37)... O crime passional de Pierre Mony, o primeiro jogador preso por homicídio

O futebol e o crime deram as mãos muito antes dos escândalos mediáticos do século XXI quando nomes sonantes como Robinho, Dani Alves, Ronaldinho Gaúcho, ou Freddy Rincón viram em determinado período das suas vidas o sol “nascer aos quadradinhos” em virtude de atos criminosos cometidos. Há sensivelmente 100 anos atrás um caso pioneiro chocou a opinião pública europeia e só a fama obtida nos relvados salvou o criminoso de uma pena pesada. Corria o ano de 1928, quando Pierre Mony, um antigo defesa-esquerdo da seleção francesa, no seguimento de uma crise de ciúmes, assassinou a tiro o seu melhor amigo. Mas vamos por partes. Mony era um dos meninos queridos do futebol francês dos anos 20. Uma Era onde imperava o amadorismo, mas ainda assim capaz de popularizar nomes como Paul Nicolas – tido como o melhor futebolista gaulês da referida década –, ou Jean Boyer. Juntamente com estes dois craques, Mony integrou a seleção francesa que em 1920 participou nos Jogos Olímpicos de Antuérpia. Nascido em Paris, em 1896, Mony desenvolveu toda a sua carreira no norte de França, mais concretamente na cidade costeira de Boulogne-sur-Mer, onde representou em dois períodos distintos – entre 1918-1921 e 1925-1928 – o US Boulogne e o OSC Boulogne – entre 1923 e 1924, tendo sido, pois, nesta região que alcançou o estatuto de lenda. E foi precisamente numa altura em que já estaria afastado das lides futebolísticas que o nome de Pierre Mony voltou a ecoar pelos quatro cantos do território francês, e tudo devido a uma crise de ciúmes. A antiga estrela dos relvados vivia uma vida aparentemente pacata na cidade onde alcançou a fama, localidade onde geria um restaurante do qual era proprietário. Na noite de 15 de maio de 1928 e após dar por encerrado mais um dia de trabalho no seu restaurante, Mony fez o que habitualmente fazia: ir beber um copo com os amigos ao Popes Bar. Mas naquela noite a sua ida àquele espaço noturno tinha um outro propósito. Entrado no bar, sentou-se ao balcão junto dos seus amigos, onde entre os quais se encontrava o antigo campeão de ciclismo Jean Delpierre. Bebidas e brindes sucederam-se em catadupa até à 1H00, altura em que o bar fechou e Mony juntamente com Delpierre e outro amigo comum, de nome Maurice Dagbert, decidiram separar-se do resto do grupo e ir continuar a farra para outro lado da cidade. Diz a história que os três homens se deslocaram no carro de Delpierre até ao Hotel de La Paix com a intenção de ali continuarem a noite de copos. Porém, o hotel estava fechado, ao que os três amigos decidiram sentar-se na entrada da unidade hoteleira dando aso a uma animada cavaqueira. Nada fazia prever que a determinada altura da borga Pierre Mony tirasse do bolso uma pistola e apontando-a para Delpierre tivesse disparado quatro tiros sobre este. Enquanto Mony desatou dali a fugir, Delpierre ainda conseguiu rastejar com a ajuda de Dagbert até ao café mais próximo no sentido de pedir ajuda. Posteriormente foi transportado para o hospital local, onde seria operado sem sucesso, já que viria a falecer no dia seguinte. Por sua vez, Mony fugiu para o porto de Boulogne-sur-Mer, onde terá atirado ao mar a arma do crime, dirigindo-se depois para casa de um outro amigo a quem pediu para o levar até Calais, a casa dos seus sogros, onde se encontravam a sua mulher, Paule, e a sua filha. Ali chegado, despediu- se da filha com um beijo e foi embora, regressando a Boulogne-sur-Mer para se entregar na esquadra de polícia local onde confessou o crime. No decorrer do interrogatório policial, Mony explicou que suspeitava que Delpierre e a sua esposa tinham um caso amoroso, suspeitas que subiram de tom após uma viagem que os dois haviam feito a Nice, sendo que no regresso Paule terá pedido o divórcio a Mony. Profundamente abalado com este pedido por parte da sua esposa, Pierre Mony terá então planeado matar aquele que era um dos seus melhores amigos. Ato consumado, e Mony foi acusado pelas autoridades por assassinato premeditado, tendo sido detido por tal. O julgamento só viria a ter lugar cerca de cinco meses volvidos o crime, em Arras, cujo tribunal foi pequeno demais para albergar populares e jornalistas – que vieram de vários pontos de França – que ali se deslocaram para assistir a este julgamento mediático. Mony chegou ao tribunal visivelmente abatido e com uma expressão de quem estaria à espera da condenação. As primeiras palavras de Mony perante o juiz foram no sentido de se lamentar por ter cometido tal ato de loucura levado pelo ciúme. Uma das testemunhas que o tribunal ouviu foi a própria Paule, que perante o juiz negou ter tido qualquer afaire com Delpierre. No seu depoimento, Paule referiu ter a sua reputação manchada, retratando o seu marido como um homem imoral e preguiçoso, explicando que seguiu viagem para Nice com Delpierre após Mony a ter incitado a seguir a própria vida dela ao passo que ele seguia a sua. Porém, e após ter ouvido outras testemunhas que conheciam a vida do casal, o juiz terá chegado à conclusão de que Mony não seria nenhum santo no que aos deveres matrimoniais dizia respeito, já que a popularidade granjeada nos retângulos de futebol abriu-lhe as portas dos corações de muitas madames por aquelas bandas! Por outras palavras, cometeu por diversas ocasiões o pecado da infidelidade. Porém, a sua fama de futebolista acabou por pesar mais alto ao fim das 14 horas que durou este julgamento, sendo que quando pronunciado a deliberar a sua decisão sobre este caso o júri decidiu não culpar Mony pelo assassinato de Delpierre. Como se estivesse numa qualquer bancada de um estádio, o público presente na sala de tribunal rapidamente se levantou para ovacionar o absolvido Pierre Mony, que assim foi posto em liberdade até ao resto da sua vida.

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