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quinta-feira, maio 22, 2014

Grandes lendas do futebol mundial (14)... Victor Ugarte - O herói do momento de glória do futebol boliviano

Victor Agustín Ugarte, recriando-se com
o objeto que lhe conferiu o estatuto de imortal
É comum dizer-se que caso um Campeonato do Mundo fosse realizado em cidades como Quito (Equador) ou La Paz (Bolívia) os favoritos à conquista do caneco não eram os habituais Brasil, Argentina, Alemanha, ou Espanha, mas sim as modestas seleções locais! Uma teoria que advém do facto dessas mesmas cidades se encontrarem geograficamente localizadas bem acima do nível do mar, característica natural que provoca a quem lá desembarca sensações de alguma indisposição, como aconteceu, por exemplo, ao antigo Ministro da Justiça do Brasil, Tarso Genro, que num ato solene decorrido na capital boliviana La Paz desmaiou, provavelmente como consequência do impacto que o ar rarefeito comum em cidades posicionadas em elevadas altitudes teve no seu organismo. Quiçá um pouco alarmado com estes perigos - à saúde - naturais o conhecido político brasileiro liderou posteriormente uma campanha para que a FIFA proibisse a realização de jogos de futebol em cidades portadoras destas características, alegando que a altitude - elevada - constituía um perigo para a integridade física dos futebolistas forasteiros. Uma tentativa inglória, já que a entidade máxima do futebol planetário fez ouvidos de mercador, e continuou a dar luz verde para que a bola rolasse nos tetos do Mundo. Para os clubes e seleções visitantes ali jogar significa ter pela frente um adversário - extra - quase insuperável, ao passo que para os combinados da casa este torna-se, sem dúvida, num precioso 12º jogador. Mesmo que essa seleção - ou clube - seja um dos parentes pobres da grande aldeia global do futebol. Este é o caso da Bolívia, seleção pouco habituada ao longo da sua história às luzes da ribalta internacional, perfilando-se na maior parte das vezes cabisbaixa na cauda do pelotão do futebol sul-americano, bem distante dos virtuosos vizinhos do Brasil, Argentina, ou Uruguai.

A histórica seleção boliviana
que em 1963 conquistou o seu único título oficial
No entanto, o pequeno e frágil David veste a pele do temível Golias quando atua no teto do seu Mundo, o mesmo é dizer na cidade de La Paz. Ali situa-se a fortaleza do futebol boliviano, o Estádio Hernando Siles, o céu para a seleção boliviana e o inferno para os seus adversários. Ali, La Verde - como é conhecida a equipa nacional - escreveu a maior parte das suas escassas páginas douradas no planeta da bola. Num curto exercício de memória foi em La Paz - cidade localizada a 3600 metros acima do nível do mar!!! - que a última geração talentosa do futebol boliviano, comandado pelos geniais Marco El Diablo Etcheverry e Erwin Platini Sanchez, assegurou o passaporte para o Campeonato do Mundo de 1994 após ter humilhado, sim,  humilhado, não é exagero dizer-se, o gigante Brasil, ou de ter feito a vida negra a esse mesmo escrete na final da Copa América de 1997. Foi ali também que a modesta Bolívia viveu o seu momento de glória, el momento más lindo de su vida, como ainda hoje faz questão de sublinhar quem de perto se emocionou com esse capítulo da história. Em 1963 La Verde fez chorar de alegria o seu povo na sequência da épica conquista da Copa América. Uma vitória impensável para um país que, a título de exemplo, cohabitava o mesmo território futebolístico que o então bi-campeão mundial Brasil, para um país cujo percurso nos caminhos do futebol havia passado quase despercebido. Foi pois um triunfo surpreendente de uma nação que à partida para a competição só queria fazer boa figura naquela que era primeira grande competição desportiva que organizava.

O povo exulta com o momento de glória
alcançado em 1963
Mais do que a particular localização geográfica de Laz Paz - onde decorreram a esmagadora maioria dos jogos da competição - ou de o facto de dois dos principais candidatos ao título continental, neste caso o Brasil e a Argentina, se terem feito representar pelas suas equipas "b" - os brasileiros, por exemplo, deixaram em casa estrelas como Pelé, Garrincha, Vavá, Didi, Gilmar, ou Zagalo - a chave do êxito boliviano ficou a dever-se a um grupo de imortais jogadores que partilhavam um só coração. Juntos, eles personificaram na cancha a garra e a força de todo um povo. Mas, à semelhança de todas as constelações de estrelas há uma que brilha um pouco mais do que as outras, e também naquela que é considerada a geração dourada da Bolívia no que a futebol concerne - esperemos que El Diablo Etcheverry e Platini Sanchez não fiquem zangados com esta designação que não é da nossa autoria - havia um jogador que se destinguia dos demais pelas suas qualidades de artista da bola. Victor Agustín Ugarte, assim se chamava o maior jogador de sempre da história do futebol boliviano, o herói del momento más lindo de la histoira de Bolívia.

Ugarte com
as cores do Bolivar
Encravada entre gigantes escarpas vermelhas está a pequena cidade de Tupiza, onde a 5 de maio de 1926 nasceu Victor Agustín Ugarte. Começou a evidenciar os seus dotes artísticos de médio ofensivo no clube local, o Huracán de Tupiza, emblema que num curto espaço de tempo se tornou pequeno demais para a grandeza do homem que haveria de ficar imortalizado como El Maestro. Corria o ano de 1947 quando o jovem Victor decide reunir os poucos trapos que possuia e partir à aventura para a capital La Paz, onde de pronto ingressaria num dos maiores clubes do país, o Bolivar. A ascensão do diamante de Tupiza é meteórica. Torna-se de imediato na principal referência do emblema de La Paz, onde as suas gambetas (dribles) enlouqueciam, no bom sentido, os hinchas. 1947 é mesmo um ano histórico para Ugarte, o qual é convocado para a seleção boliviana que iria competir na Copa América a ser disputada na Colômbia, tendo aí efetuado os primeiros seis dos 45 jogos encontros em que ao longo da sua carreira vestiu a camisola verde da Bolívia. Dois anos mais tarde volta a envergar a camisola do seu país no maior torneio de seleções da América, desta feita no Brasil, onde ante o Chile concretiza o primeiro dos 16 golos que apontou com La Verde entre 1947 e 1963, o período em que Ugarte foi internacional. Na memória dos poucos hinchas daquele tempo que hoje vivem perdura a imagem da virtuosa seleção boliviana que disputou a Copa América de 1949, com Ugarte na condição de líder de uma constelação de estrelas como Mena, Gutierrez, ou Godoy, que num dos encontros dessa Copa ridicularizou o futuro campeão do Mundo, o Uruguai, na sequência de uma épica vitória por 3-2, com El Maestro a fazer um dos golos. E por falar em campeão do Mundo o mesmo Brasil iria acolher um ano mais tarde o célebre Mundial que os charrúas uruguaios iriam arrecadar, uma competição onde a Bolívia de Victor Ugarte passou praticamente ao lado, já que no único jogo realizado seria cilindrada por 8-0 pelo... Uruguai.

Ugarte defendeu por 45 ocasiões o seu país
tendo apontado 16 golos
Apesar da má campanha boliviana na Copa de 50 o talento de Ugarte não foi ofuscado, longe disso. Em 1952 é tentado a procurar melhores condições de vida fora do seu país, onde o miserável salário de um futebolista mal dava para sobreviver. Da Colômbia chegou nesse ano uma proposta do Millonarios, clube este onde pontificava então um tal de Alfredo Di Stéfano. Da Argentina foi o Boca Juniors que lançou o isco a Victor, mas a Bolívia não queria perder o seu tesouro nacional, tendo mesmo o Presidente da República daquela época, Mamerto Urriolagoitía, prometido a Ugarte uma pomposa vivenda em La Paz caso este declinasse o tentador convite do clube de Buenos Aires. Quiçá influenciado pelo chefe de Estado do seu país - do qual não se sabe se cumpriu ou não com a promessa feita ao nativo de Tupiza - ou pela paixão que o seu povo tinha por si, Ugarte foi rejeitando convites atrás de convites ano após ano, permancendo no pobre campeonato boliviano onde com as cores do Bolivar arrecada não só os títulos de campeão nacional em 50, 53, e 56, mas sobretudo continua a encantar os adeptos com jogadas artísticas que muitas vezes resultavam em golos de beleza sublime. 
Até que em 1958 decide dar ouvidos à sua amada Graciela, a sua esposa, que sempre o incentivara a procurar melhores condições de vida fora da terra natal. Ugarte aceita então uma proposta do San Lorenzo, emblema argentino que fez de tudo para o contratar, sobretudo depois de um ano antes o ter visto a humilhar a poderosa Argentina, que rastejou aos pés de Ugarte no infernal teto do Mundo como é conhecida La Paz no seio do futebol. Ainda hoje quando o nome de Ugarte salta para cima da mesa das tertúlias futebolísticas é de imediato recordada essa célebre vitória da seleção boliviana sobre os argentinos por 2-0, a primeira da história do futebol boliviano sobre a equipa das pampas.

Levado em ombros após
a épica conquista de 63
Porém, em solo argentino Victor Ugarte não se sentiu feliz. Não por ter sido mal tratado pelos dirigentes, colegas, ou adeptos do seu novo emblema, mas simplesmente porque na Argentina encontrou um ambiente escaldante em torno do futebol, ao qual estava pouco habituado na pacata Bolívia. O ambiente fanático tão comum nos campos de futebol argentinos assustou de certa forma Ugarte, que nas canchas daquele país esteve muito longe de mostrar todo o seu talento. Viajou em seguida para a Colômbia, onde encontrando um clima mais calmo perpetuou nos relvados as famosas gambetas, ao serviço do Once Caldas. Por terras colombianas juntou algum dinheiro, que permitiu-lhe viver junto da sua amada Graciela e dos seus quatro rebentos de forma algo desafogada durante algum tempo.
Apesar de longe dos seus olhos a Bolívia jamais o esqueceu, nem Victor deixava que isso acontecesse, pois em 1963, o tal ano mágico do futebol boliviano, ele é um dos imprescindíveis na seleção orientada pelo brasileiro Danilo Alvim - estrela do futebol brasileiro dos anos 40 - para vestir as cores de La Verde na Copa América que o país recebia. Apesar da idade avançada - 37 anos - Ugarte aceita o desafio para defender o seu país por uma última vez, naquela que era a sua quinta presença numa Copa América.

A estátua de Victor Ugarte
em Tupiza
O peso da idade não se fez notar, e juntamente com figuras notáveis do futebol boliviano de então como Wilfredo Camacho, Máximo Alcócer, Fortunato Castillo, ou Eduardo Espinoza guiou La Verde até ao tal momento más lindo de su vida. No jogo final da competição o gigante Brasil caiu por 5-4, sendo memorável a exibição de Ugarte, autor não só de dois golos como de lindas jugaditas que permitiram à Bolívia conquistar um lugar na história do futebol.
Ugarte ainda atuou mais uma temporada (67/68) pelo Bolivar antes de se retirar definitivamente do palco do belo jogo. El Maestro nasceu e morreu na miséria. A 20 de março de 1995 a Bolívia verteu lágrimas ao receber a notícia da morte do maior jogador da sua história, um homem que continua a viver na memória dos poucos comuns mortais que tiveram o prazer de o ver atuar.
O rei do futebol boliviano tem o seu nome perpetuado no estádio de futebol mais alto do Mundo (!), localizado em Potosi, a quase 4000 metros acima do nível do mar, além de que na sua cidade natal, Tupiza, foi erguida uma estátua que imortaliza a sua lendária figura.

sexta-feira, maio 31, 2013

Grandes lendas do futebol mundial (13)... Billy Meredith - O primeiro galático do futebol

Há quem o aponte como a primeira figura mediática de um jogo que apesar de já ser rei em Inglaterra ainda gatinhava na maior parte do resto do planeta. Apesar de não existirem quaisquer registos áudiovisuais que comprovam a teoria sustentada por diversos historiadores desportivos daquela época de que esta foi indiscutivelmente a primeira lenda do belo jogo, ele é descrito nas páginas esbatidas dos jornais e livros daqueles longínquos dias de finais do século XIX e principios do século XX como o mago dos primórdios do futebol. E é fazendo fé nessa pomposa caracterização que reservamos para ele um cantinho na vitrina destinada às grandes lendas do jogo. Sem mais demoras façamos uma visita ao mago galês Billy Meredith. Figura elegante podemos dizer que William Henry Meredith - de seu nome completo - nasceu no tempo em que o futebol moderno dava ainda os primeiros passos em terras britânicas, tendo ele tido um papel preponderante no crescimento e na popularização da modalidade por aquelas bandas. 20 de julho de 1874 é pois o dia em a nossa lenda de hoje veio ao Mundo, tendo como berço Chirk, terra conhecida pelas suas minas, e situada no norte do País de Gales. O próprio Billy, diminutivo de William, trabalhou como mineiro, ocupando os seus tempos livres a correr atrás de uma bola pelos campos verdes de Black Park. A sua requintada perícia técnica com o esférico fez-se desde logo sobressair, e com apenas 16 anos veste a sua primeira camisola no planeta da bola, mais precisamente a do clube local, o Chik AAA Football Club. A estreia com este emblema amador ocorreu em setembro de 1892. Um ano mais tarde Billy Meredith ajudou o clube da sua terra a alcançar a final da Welsh Cup (Taça do País de Gales), perdida para o vizinho e rival Wrexham por 1-2. Posicionando-se no retângulo de jogo como ala-direito - ou como se diz nos dias atuais extremo direito - Meredith deslumbrava a multidão com a superior técnica como conduzia a bola, bem distinta do kick and rush (pontapé para a frente) que começava a caracterizar o futebol britânico. Era um jogador diferente dos demais, tratava o esférico de uma forma encantadora, cativando todos aqueles que o viam jogar. Numa altura em que o profissionalismo começava a aparecer Billy não resistiu à possibilidade de ganhar algum dinheiro fazendo aquilo que mais gostava, jogar futebol. Com 18 anos muda-se então para o poderoso Northwich Victoria, emblema que disputa a principal liga galesa, defendendo as cores do clube somente durante dois anos, voltando posteriormente para a sua cidade natal, e para o Chirk AAA, ao mesmo tempo em que regressa ao duro trabalho nas minas. Com mais experiência Billy torna-se no líder natural da sua velha equipa, conduzindo-a ao patamar da glória precisamente no ano em que regressou, 1894, altura em que vence a Welsh Cup (triunfo sobre o Westminster Rovers por 2-0), o seu primeiro grande título.

 Chegar, ver, e vencer em Manchester

A passagem de Meredith pelo Northwich Victoria pode até ter sido fugaz - na verdade realizou apenas 11 partidas, tendo apontado cinco golos - mas foi suficiente para clubes de maior gabarito se apaixonarem pelo seu estilo muito próprio de jogar futebol. De Inglaterra surgiram então algumas propostas tentadoras, como a do Bolton Wanderers, que através do seu jogador Di Jones, o qual havia sido em tempos atleta do Chirk AAA, tentou convencer Billy a assinar um contrato profissional com o clube, mas em vão. Ao que parece a mãe de Meredith defendia que o seu filho deveria continuar empenhado em manter o seu trabalho de mineiro e encarar o futebol como um mero passatempo pós-laboral! Seguindo em parte o conselho de sua mãe Billy continuou pelo menos durante mais dois anos a trabalhar na mina, mas ao mesmo tempo embarcava numa nova e arrojada aventura futebolística, ao assinar um contrato de amador com o Manchester City. Corria o ano de 1894. Como atleta amador Meredith viajava para Manchester ao fim de semana para atuar com o seu novo clube, enquanto que durante a semana exercia a dura profissão de mineiro. Foi assim durante dois anos. A estreia pelo City aconteceu em novembro desse ano, em casa do Newcastle United, sendo que uma semana mais tarde faz o debute ante os adeptos do seu novo clube numa partida diante do Newton Heath - clube mais tarde rebatizado como... Manchester United. Nesse célebre dérbi local - o primeiro da história - o Newton venceu por 5-2, sendo que os dois golos do City foram apontados por Billy Meredith, que no final dessa temporada de estreia marcou 12 golos em 18 aparições. 1895 é outro ano memorável para Meredith, já que pela primeira vez vestiu o manto sagrado do seu país, numa partida disputada a 16 de março em Belfast ante a Irlanda, concluida com uma igualdade a duas bolas. O estilo de Billy encantava os fãs do seu novo clube, que não muito tempo depois da sua estreia o batizaram de Welsh Wizard, qualquer coisa como, o mago galês. Alto, magro, e com uma apurada técnica rapidamente se tornou na figura principal do City. Não foi de admirar que na sua segunda temporada do clube lhe dessem o cargo de capitão de equipa.


Na época de 1898/99 ele guiou o clube no assalto à promoção ao principal escalão do futebol inglês, e pelo caminho deixou a marca pessoal de quatro hattricks (!), terminando a temporada com um total de 29 remates certeiros. Depois de uma certa instabilidade na First Division - o City foi relegado na temporada de 1901/02 - o clube de Manchester atinge a glória em 1903/04, altura em que vencem o troféu mais prestigado do país, e do Mundo por aqueles dias, a FA Cup (Taça de Inglaterra). Billy Meredith assinou exibições majestosas ao longo da caminhada triunfal até ao Crystal Palace Stadium - o principal estádio londrino da época, já que Wembley ainda não havia sido construido - onde curiosamente o esperava o Bolton Wanderers, o primeiro clube que o quis levar para Inglaterra. Diante de 62 000 pessoas o City levou a melhor, graças a Billy Meredith, que aos 23 minutos fez o único golo da partida, oferecendo assim ao seu clube a primeira coroa de glória da sua história.

Descida ao inferno e mudança para o rival United

O fascínio dos fãs do City pelo seu mago galês, pela sua elegante forma de manter sempre junto ao relvado o esférico, ultrapassando os adversários em corrida com dribles diabólicos, não durou muito mais tempo após a lendária final da FA Cup de 1904. No ano seguinte Meredith é forçado a abandonar o clube na sequência daquele que é descrito como o primeiro grande escândalo do futebol internacional. O welsh wizard foi considerado culpado pela Football Association num caso de suborno. Ao que parece Meredith terá oferecido 10 libras ao capitão do Aston Villa, Alex Leake, para que este convencesse os restantes companheiros de equipa a facilitar a vitória do City no decisivo confronto com a equipa de Birminghan, já que caso o emblema de Manchester alcançasse o triunfo seria campeão. A situação foi denunciada e a FA decidiu suspender Meredith por um ano. Ao contrário do que esperaria Billy Meredith não obteve o apoio do seu clube neste caso. Manchester City que inclusive se recusou a pagar o salário de Billy - que já era jogador profissional a tempo inteiro - durante o ano em que este estaria suspenso de toda a atividade futebolística. Em claro litígio com o seu clube a estrela galesa decide denunciar à FA outros casos de corrupção em que o seu clube havia estado envolvido, levando a que o City fosse punido severamente pela federação inglesa. Pior do que isso o clube viu 17 dos seus jogadores abandonaram Hyde Road - a casa do emblema - entre outros, claro está, Billy Meredith. E como a vingança ainda não estava totalmente concluida o jogador galês decide - após o levantamento da sua suspenssão - assinar pelo vizinho e rival do City, o Manchester United!

Para assegurar a contratação de Billy Meredith - que tinha deixado o City com um impressionante registo de 145 golos apontados em 338 disputados - os responsáveis do United tiveram de desembolsar 500 libras, a verba exigida pelo jogador. Dinheiro bem gasto, terão por certo pensado pouco depois os dirigentes dos red devils, já que Meredith rapidamente assumiu o papel de estrela da companhia, conduzindo através do seu invulgar talento o clube a inúmeras conquistas. Fez a sua estreia pelo United a 1 de janeiro de 1907, ante o Aston Villa - o clube que o tramou no caso do subornos - saindo dos seus pés de mago cruzamento para Sandy Turnbull fazer o único golo com que clube de Manchester venceu a partida. Com as cores do Manchester United, e como já sublinhámos, ele conquistou a esmagadora maioria dos títulos logrados na sua carreira, tendo o primeiro deles ocorrido na temporada de 1907/08, altura em que vence o campeonato nacional. Feito repetido em 1910/11. Mas a joia da coroa era mesma a FA Cup, competição que o galês iria vencer ao serviço do United em 1909, quando no Crystal Palace Stadium os red devils venceram por 1-0 a Bristol City, tendo o obreiro desse triunfo sido o príncipe dos pontas, como também era já conhecido Meredith.

Antes deste triunfo Meredith ajudou o seu país a escrever uma das mais brilhantes páginas do seu - pouco conhecido - futebol. Em 1907 ele ajuda o País de Gales a vencer o Campeonato Britânico, uma competição disputada por Inglaterra, Irlanda, Escócia, e claro, Gales. Em 1920 ele venceria de novo a prova, mas deste vez com um sabor ainda mais especial, pois no jogo decisivo o País de Gales derrotou a poderosa Inglaterra em Londres, por 2-1, sendo esta a primeira vitória galesa da história alcançada sobre os vizinhos ingleses. Meredith defendeu as cores do seu país em 48 ocasiões - e mais poderiam ter sido, pois reza a lenda que pelo menos 71 vezes foi chamado a representar a seleção, mas na maior parte das ocasiões os seus clubes opunham-se a essas convocatórias e não o deixavam representar a seleção nacional - e apontou 11 golos.

Jogou até quase aos 50 anos pelo... Manchester City

Billy Meredith ficou eternizado na história do futebol não só pela sua talentosa forma de interpretar o belo jogo como também pelo facto de ter jogador até quase aos 50 anos de idade! É verdade. 49 anos e oito meses, era esta a idade precisa no dia em que o galês fez as suas despedidas dos relvados, fazendo-o com as cores do... Manchester City. Em 1921 ele abandona o United com 35 golos marcados em mais de 300 jogos disputados, e regressa ao vizinho City onde joga até quase aos 50 anos (em 1924). Em 1923 ele ainda leva o City às meias-finais da FA Cup, precisamente um ano depois de ter representado o País de Gales pela última vez, com 48 anos, tornando-se assim no jogador mais velho a vestir o manto sagrado galês. O seu derradeiro encontro pelo City aconteceu a 29 de março de 1924, num encontro diante do Newcastle, precisamente o clube que apadrinhou a estreia de Meredith em 1894. 40 anos tinham passado desde então! Pendoradas as chuteiras comprou um hotel em Manchester, dedicando-se à hotelaria, vindo a falecer a 19 de abril de 1958.

Legenda das fotografias:
1-Billy Meredith
2-Com a camisola do Manchester City
3-Atuando na final da Taça de Inglaterra de 1904
4-Com as cores do Manchester United
5-O estilo inconfundível de Billy
6-Seleção do País de Gales (Meredith é o segundo da fila de cima da esquerda para a direita)
7-Com quase 50 anos ainda encantava todos aqueles que o viam jogar!

quarta-feira, março 20, 2013

Grandes lendas do futebol mundial (12)... José Torres - O Bom Gigante

Há no seio do futebol a ideia generalizada de que os jogadores de elevada estampa física dificilmente alcançam o estatuto de magos do belo jogo. Uns centímetros a mais do que é normal na altura média de um futebolista é para muitos sinal evidente de azelhice! Piropos desagradáveis como: «este é bom é para apanhar uvas», ou «vai mas é jogar basquetebol», são escutados sistematicamente nos estádios de futebol sempre que um rapaz de estatura acima da média surge com uma bola nos pés. 
Este é porém um julgamento precipitado, já que nem só de toscos e matacões reza a história do futebol quando falamos de atletas calmeirões. Muitos há que se tornaram intransponíveis defesas, habilidosos médios condutores de jogo, ou mortíferos avançados. E é precisamente nesta última categoria que se insere a lenda que hoje vamos recordar, um homem cujo nome repousa para sempre no panteão dos heróis do futebol português. José Torres, o Bom Gigante, como ficou eternizado, marcou uma era do belo jogo em terras lusitanas. Fez parte de uma geração mágica e inesquecível comandada pelo Pantera Negra Eusébio, secundado por outras lendas como Mário Coluna, António Simões, José Augusto, José Águas, Jaime Graça, Vicente Lucas, ou Hilário da Conceição.

Torres, o Bom Gigante do futebol luso, foi um homem de extremos, no que ao mundo encantado do futebol diz respeito, como no desenrolar desta visita virtual iremos perceber. 

Nasceu a 8 de setembro de 1938 na localidade de Torres Novas, e como tantas outras crianças deu os primeiros pontapés na bola na rua, sonhando seguir as pisadas das estrelas da época, ou de épocas passadas, já que no seu caso o tio, Carlos Torres, havia vestido durante quatro temporadas a camisola de um dos principais emblemas lusitanos, o Benfica. Longe estaria – certamente – de imaginar naqueles primeiros tempos o jovem José Augusto da Costa Séneca Torres que anos mais tarde também ele iria triunfar com a pomposa camisola encarnada das águias. 

Das animadas peladas de rua até ao clube da sua terra natal o caminho foi curto. Os responsáveis pelo Desportivo de Torres Novas não se deixaram impressionar pela figura enfezada de José Torres. As suas longas pernas de alicate, como era por vezes chamado na infância, não eclipsaram a imagem de um atleta com um apurado olfato pelo golo aliado a um poderoso domínio do jogo aéreo. Com 18 anos aquele rapazinho magro e alto, alto de mais para parecer um jogador de futebol (media 1,91m), entra na equipa principal do Torres Novas, onde começa a dar duplamente nas vistas, isto é, pela sua elevada estatura, mas também, e sobretudo, pelo seu letal instinto de predador. No clube da terra que o viu nascer Torres ficou três temporadas – de 1956/57 a 1958/59 – até à altura em que o sonho virou realidade.


Sonho chamado Benfica



Os ecos do seu estilo inconfundível de interpretar o belo jogo haviam chegado aos quatro cantos de Portugal, tendo o poderoso Benfica lançado o canto da sereia àquele predador da área. José Torres cumpria assim um sonho, e com apenas 20 anos de idade viajava para Lisboa para representar o grande Benfica. Porém, a afirmação no emblema da capital tardou em chegar. O jovem José teve de percorrer um longo caminho até cimentar a sua condição de titular indiscutível do clube da Luz. O responsável por esta tardia afirmação? José Águas, um dos melhores avançados-centro de todos os tempos do futebol português, e a grande referência do ataque dos encarnados na altura (1959) em que Torres chega a Lisboa. Tapado pelo melhor homem-golo português daquele tempo, e a grande estrela do Benfica antes da chegada de Eusébio ao clube no início da década de 60, José Torres penou três longas épocas na equipa das reservas benfiquistas, falhando assim a presença nos momentos de glória que o clube viveria no plano internacional nos primeiros dois anos da citada década de 60. 
 

Liderados precisamente por José Águas – que além de estrela-mor da companhia era também o respeitado capitão de equipa – o Benfica derrotava em 1961 (por 3-2) o Barcelona na final da então denominada Taça dos Clubes Campeões Europeus, colocando desta forma um ponto final no reinado de cinco anos consecutivos do gigante espanhol Real Madrid no trono do futebol continental. Já com o jovem Eusébio na equipa os encarnados repetiram a façanha no ano seguinte, precisamente ante os madrilenos, que em Amesterdão sucumbiram aos ataques letais Pantera Negra. José Torres viveu por fora os êxitos do seu clube, isto porque na altura não eram permitidas substituições, e como Águas era titular indiscutível no centro do ataque o rapaz de Torres Novas não fez um único jogo na dupla caminhada vitóriosa das águias na prova rainha da UEFA. Facto que o Bom Gigante sempre lamentou... «Durante a minha carreira de jogador tive momentos em que o azar me bateu à porta mais do que devia. Por exemplo, na final da Taça dos Campeões Europeus, contra o Real Madrid, quando o Benfica conquistou o segundo título europeu. Só não joguei e não me sagrei, de facto, campeão da Europa porque os regulamentos ainda impediam, estupidamente, que se fizessem substituições. O Cavém lesionou-se, eu era o único avançado no banco, o Benfica continuou a jogar com 10 só porque... substituir era proibido! Entretanto Guttmann foi-se embora, deixou aquela terrível maldição (nota: disse que sem si o Benfica nem dali a 100 anos seria novamente campeão europeu), disputei as três outras finais europeias da década de 60, só que perdemos sempre e eu acabei por não conseguir sagrar-me campeão europeu. Sinceramente, é o único título que me falta...», desabafou vezes sem conta José Torres. 


Mas não há azar que sempre dure, e ainda antes da saída do goleador e velhor capitão do clube da Luz (no final da temporada de 1963/64) as portas da titularidade abrem-se finalmente para Torres. A conquista - em difinitivo - da mágica camisola número 9 aconteceu na pré-temporada, mais concretamente no famoso torneio internacional Ramón Carranza, que anulamente reunia na cidade espanhola de Cádiz algumas das melhores equipas do planeta. Na meia-final da edição de 63 o Benfica afastou o poderoso Barcelona, conquistando assim o passaporte para a grande final onde o esperava a Fiorentina. A 30 minutos do términos do jogo decisivo o marcador indicava uma teimosa igualdade a três golos. O treinador benfiquista de então, Lajos Czeizler, aposta em José Torres (nota: ao contrário das competições oficiais nos torneios amigáveis, ou neste caso de preparação, as substituições eram permitidas), e o resto é história. Quatro golos em meia hora assinados pelo gigante de Torres Novas deram não só o título ao Benfica como sobretudo fizeram calar de vez as vozes que - ainda - duvidavam da qualidade do jogador. Até então, e em três épocas de águia ao peito, José Torres não havia feito mais do que seis jogos oficiais (!), o suficiente no entanto para se sagrar campeão nacional nas épocas de 59/60 e 60/61


Mas em 62/63 a vida mudou para o Bom Gigante. José Águas dava sinais de veterania, e a exibição sublime em Cádiz fizeram de Torres titular absoluto do Benfica nas... 9 épocas seguintes! E logo na temporada de estreia como titular a estrela do Bom Gigante brilhou a grande altura. Ao lado de lendas como Eusébio, Coluna, Costa Pereira, Simões, José Augusto, ou Germano, participou em 21 jogos na caminhada triunfal que coroou o Benfica como vencedor do Campeonato Nacional da 1ª Divisão, contribuindo para este final glorioso com 26 golos (!), número que lhe permitiu vencer o galardão individual mais importante do futebol português, a Bola de Prata, prémio atribuido ao melhor marcador do campeonato do principal escalão lusitano. 
62/63 só não foi uma temporada memorável a todos os níveis para o Benfica - e para o Bom Gigante, claro está - porque na final da Taça dos Campeões Europeus os italianos do Milan impediram os lisboetas de arrecadarem o terceiro troféu continental consecutivo, muito por culpa de um diabo à solta na relva sagrada de Wembley (estádio onde foi realizada essa final de 63), de nome Altafini, autor dos dois golos que carimbaram o título para os milanistas. Este seria o primeiro de muitos desgostos europeus para José Torres, ele que precisamente em 1962/63 fizera a estreia com a camisola do Benfica nas competições europeias, facto ocorrido a 31 de outubro de 1962, em Norrkoping, na Suécia. O Benfica e o Bom Gigante puderam até perder o ceptro europeu, mas para os prestigiados jornais desportivos L'Équipe e France Football José Torres era a nova vedeta do futebol português!


Conquistada a titularidade, e o carinho dos fervorosos adeptos benfiquistas, Torres faria dali em diante uma dupla mortífera com aquele que era já o nome mais sonante do grande Benfica dos anos 60, Eusébio da Silva Ferreira. Os dois assinaram centenas de golos que ajudaram o clube da Luz a enriquecer as suas vistosas vitrinas com títulos, muitos títulos. Em 1963/64 Torres vence a sua primeira dobradinha, isto é, o campeonato nacional e a Taça de Portugal, último troféu este conquistado na sala de visitas do futebol português, o Estádio Nacional, à custa do FC Porto, que seria cilindrado por Coluna, Eusébio, José Augusto, Simões, Cavém, e companhia por 6-2 (!), com o Bom Gigante a fazer o último golo dessa tarde de glória. Uma no meio de tantas outras que viveu com a camisola encarnada agarrada à pele. 
Esse ano de 1964 fica ainda marcado pelo primeiro golo europeu de José Torres, alcançado a 16 de setembro, no Luxemburgo, ante o Aris.
Em 64/65 volta de novo a ajudar o seu clube a revalidar o título de campeão nacional, ao mesmo tempo em que o azar lhe bate de novo à porta. No final dessa temporada o Benfica chega de novo à final da prova rainha da UEFA, desta feita ante o Inter de Milão... em San Siro! A jogar em casa (!) o Inter - campeão da Europa em título - derrotou (por 1-0) os portugueses com a ajuda do guarda-redes benfiquista Costa Pereira, que num lance de infortúnio deixou passar a bola por baixo das pernas após um remate cruzado do brasileiro Jair. Há noites assim...


Como não há duas sem três José Torres voltou a derramar lágrimas na sequência de mais uma derrota no jogo final da afamada e desejada Taça dos Campeões Europeus. 1968 seria o ano do novo falhanço encarnado, desta feita em Londres, na catedral do futebol global, o Estádio de Wembley, que viu o Manchester United de Bobby Charlton, Dennis Law, e George Best golear os portugueses por 4-1! 
Os títulos alcançados pelo Bom Gigante de águia ao peito restringiram-se por isso às competição nacionais, onde ai arrecadou 9 campeonatos nacionais (!), juntando aos de 60, 61, 63, 64, e 65, os de 67, 68, 69, e 71, precisamente o seu derradeiro capítulo de glória com a camisola do Benfica, já que depois disso rumaria para outras paragens... Aos referidos campeonatos nacionais juntam-se ainda as vitórias na Taça de Portugal de 69, e 70. 
José Torres e o Benfica mantiveram um casamento de 12 anos, um matrimónio com altos e baixos, como qualquer outro matrimónio. Em 171 jogos de águia ao peito o rapaz de Torres Novas apontou 150 golos (!), registo que fizeram dele não só um símbolo eterno do clube como indiscutivelmente um dos avançados mais célebres do futebol português. Mas a história do Bom Gigante não acabaria em 31 de julho de 1971, dia em que frente ao Arsenal de Londres faz o seu último jogo pelos lisboetas. 

Velhos são os trapos


O Vitória de Setúbal era por aqueles dias dos finais da década de 60 e princípios dos anos 70 um verdadeiro viveiro de talentosos jogadores. No Bonfim (casa do popular clube sadino) havia diamantes por lapidar! Um desses diamantes dava pelo nome de Vítor Baptista, jogador por quem o Benfica suspirava. As investidas encarnadas ao jovem jogador só tiveram êxito quando no negócio da sua transferência foram incluídos os nomes de Matine, Praia, e Torres, um trio de atletas exigido pelo homem que liderava os destinos do Vitória sadino na época, um tal de José Maria Pedroto. Negócio feito e José Torres viveria aquela que poderia ser chamada de segunda primavera... Aos 33 anos mostrou que velhos eram os trapos e que ainda podia dar muito ao futebol. E deu. Rapidamente se tornou na estrela do conjunto sadino liderado pelo mestre Pedroto, ajudando o seu novo clube a tornar-se numa máquina futebolística de elevada potência qualitativa. Ao Vitória de Pedroto e Torres só faltaram os títulos - que até estiveram muito perto de atracar no (rio) Sado em diversas ocasiões. Com os sadinos José Torres ainda realizou mais de uma centena de jogos, 120 para sermos mais precisos, tendo apontado um total de 59 golos nas quatro épocas em que defendeu a camisola verde e branca! Afinal, quem era o velho? 


E no Bonfim José Torres descobriu uma nova vocação dentro do futebol, a de treinador. Descoberta que teve o dedo de Pedroto - um dos grandes mestres (da tática) do futebol lusitano - que viu no Bom Gigante um promissor seguidor das suas ideias. «Foi com Pedroto que tirei o meu autêntico curso de treinador, durante as duas épocas em que o tive como meu treinador no Vitória de Setúbal. Ele já falava comigo de treinador para treinador, durante os estágios, e nas viagens longas aproveitava o tempo para aprender com ele, e só Deus sabe o que aprendi...», relembrou em diversas entrevistas a nossa lenda de hoje. 
A primeira aventura como técnico-se em 76/77, altura em que defendia as cores do Estoril Praia, clube pelo qual tinha assinado um ano antes, pouco depois de ter saído de Setúbal. No clube de Cascais José Torres acumulou as funções de treinador/jogador até 1979/80, altura em que aos 42 anos pendura definitivamente as chuteiras (em 5 temporadas ao serviço dos estorilistas efetuou 111 jogos, e apontou 15 golos), passando posteriormente a desempenhar somente a tarefa de treinador principal, primeiro no Estrela da Amadora (entre 1980 e 1982), depois no Varzim (de 82 a 84), ao que se seguiu Boavista (86/87), Portimonense (entre 88 e 90), e por fim Desportivo de Beja, em 96/97

Peça fundamental na saga dos Magriços de 1966

Voltando um pouco atrás na brilhante carreira de jogador de José Torres há um capítulo que merece ser recordado de uma forma muito especial. Falamos da presença do Bom Gigante na fase final do Campeonato do Mundo de 1966, decorrido em Inglaterra, onde Portugal escreveu aquela que para muitos é ainda hoje a página mais cintilante do seu centenário futebol. Ao serviço da seleção principal lusitana Torres disputou 33 jogos, tendo feito a sua estreia com a camisola das quinas a 23 de janeiro de 1963, em Roma, ante a Bulgária, num jogo de qualificação para o Europeu de 1964
Golos foram 14, alguns deles com sabor muito especial... Na década de 60 Portugal reunia um naipe de jogadores de reconhecido talento, casos dos benfiquistas Eusébio, Coluna, Simões, José Augusto, Germano, dos sportinguistas Hilário, Carvalho, Morais, do sadino Jaime Graça, dos portistas Américo, e Festa, ou dos belenenses Vicente, e José Pereira, atletas que com muito engenho lograram a qualificação para o Mundial de 66. Ali chegados poucos eram os que apostavam na seleção orientada pelo brasileiro Otto Glória. Até porque os Magriços - a alcunha que os imortalizou - ficaram no grupo do poderoso bi-campeão do Mundo, o Brasil, e da sempre perigosa Hungria, as duas equipas do grupo favoritas à passagem aos quartos-de-final da fase final. As outras duas seleções, Portugal e Bulgária, pouco ou mais podiam fazer do que lutar pelo terceiro lugar do grupo. 
Mas da teoria à prática o caminho é longo, e os portugueses, jogo após jogo, demonstraram que as previsões iniciais estavam erradas, surpreenderam o planeta da bola, com exibições memoráveis, golos de beleza ímpar, que muito justamente os iria rotular de equipa sensação do certame. Logo no primeiro jogo, em Old Trafford (Manchester) os Magriços chocaram o Mundo ao vencer a talentosa Hungria por 3-1, tendo José Torres feito um dos três tentos lusos. No encontro seguinte apareceu a estrela de Eusébio - o grande nome desse célebre Mundial 66 - que ajudou a derrotar a Bulgária por 3-0, e assim contra todas as previsões colocar Portugal na fase seguinte. Torres, faria nesse jogo o seu segundo golo na fase final. Mas o melhor ainda estava para vir. Já qualificados os portugueses deram-se ao luxo de vulgarizar o Brasil de Pelé, Garrincha, Jairzinho, Tostão, Djalma Santos, ou Zito por 3-1, com uma exibição mítica do Pantera Negra Eusébio. Portugal conquistava assim o primeiro lugar do grupo e mandava os campeões do Mundo em título para casa! 

Nos quartos-de-final ocorreu um dos jogos mais célebres das fases finais de Campeonatos do Mundo, o Portugal - Coreia do Norte. Asiáticos que aos 25 minutos já derrotavam os artistas lusos por 3-0 para espanto do planeta. Foi então que apareceu mais uma vez Eusébio, que apoiado por Simões, Coluna, José Augusto, ou Torres deu a volta ao marcador. 5-3, vitória memorável, que colocou Portugal na meia-final. O céu era o limite, e não havia um único português naquela altura que não imaginasse a Taça Jules Rimet nas mãos do capitão Mário Coluna. Sonho que seria eclipsado pela equipa da casa, a Inglaterra, que na catedral de Wembley vencia os lusos por 2-1. No encontro de atribuição dos 3º e 4º lugares - disputado também no Estádio de Wembley - Portugal derrotaria a União Soviética do lendário Lev Yashin por 2-1, com o tento da vitória a ser apontado por José Torres, jogador que desta forma, e juntamente com Eusébio, Coluna, Simões, e todos os restantes magriços, ficava eternizado na história do futebol português. 

«Deixem-me sonhar...»

Como jogador Torres brilhou com a camisola das quinas ao peito, mas como treinador viveu um dos priores momentos da sua longa carreira desportiva. Logo após o fantástico desempenho da seleção nacional no Europeu de 1984 os responsáveis federativos ofereceram o cargo de selecionador ao Bom Gigante, pedindo-lhe apenas que guiasse o combinado luso até ao Mundial do México, em 1986. A tarefa era complicada, até porque no grupo de Portugal estava a poderosa República Federal da Alemanha (RFA), e as sempre indesejadas Checoslováquia e Suécia. Na entrada para a reta final da fase de qualificação os portugueses precisavam de um milagre para alcançarem a qualificação para o México. E esse milagre passava por uma vitória em solo germânico... Impossível, disseram muitos. Perante o pessimismo que reinava entre o povo português José Torres lançou um desabafo: «deixem-me sonhar...». E mais uma vez o sonho virou realidade. Em Estugarda, no dia 16 de outubro de 1985, um golo solitário do pequeno médio Carlos Manuel derrotava a forte RFA e levava pela segunda vez na história Portugal a uma fase final de um Mundial. Só que chegados ao México os portugueses viram-se a braços com uma série de problemas internos. Os jogadores abriram guerra com a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) por causa dos prémios relativos à sua presença na fase final. Convocaram greves, organizaram-se em grupos, e com isto o plano desportivo passou definitivamente para segundo plano. Saltillo - localidade mexicana onde a seleção ergueu o seu quartel-general - é sinónimo de inúmeros escândalos, assinalando assim uma das páginas mais negras da história do nosso belo jogo.  
Portugal ainda venceu a Inglaterra no jogo de estreia (por 1-0), mas as derrotas com a Polónia (0-1) e com Marrocos (1-3) trouxeram os portugueses mais cedo para casa. 
José Torres foi uma vítima de Saltillo, como ele próprio confessou tantas e tantas vezes. «Saltillo marcou-me o destino. Cinco meses antes organizei uma reunião com os jogadores, na qual tive a preocupação de alertar para a necessidade de não se formarem grupinhos, garanti-lhes que ninguém teria o estatuto de titular, pedi-lhes única e simplesmente que fossem para o México para servir Portugal. Por essa altura a FPF prometeu-me, igualmente, que resolvia o problema dos dinheiros/prémios (para os jogadores), sabia bem que esse poderia ser o nosso calcanhar de Aquiles, a promessa foi vã, quem tinha a responsabilidade de tudo resolver agiu como Pilatos e foi o que foi, aconteceu o que se sabe, foi tudo muito triste - e ninguém foi mais penalizado do que eu, apesar da minha responsabilidade ser quase nula em toda aquela complicação».

Depois deste triste momento Torres passou mais tempo desempregado do que a treinar, tendo passado somente pelos bancos do Boavista (uma temporada como já vimos), Portimonense (3 épocas de forma intermitente), e Desportivo de Beja (uma só época). Depois disso afastou-se do futebol, dedicando-se quase de forma exclusiva à sua segunda paixão de menino, a columbofilia. Foram muitos os que o foram esquecendo com o passar dos anos, e Torres sentiu esse esquecimento como um punhal cravado no peito. Foi envelhecendo, triste, solitário - contando apenas quase e só com o apoio da família - e já na reta final da sua vida foi minado pela doença de Alzheimer, que o haveria de levar à morte
Com parcos recursos financeiros para fazer face à doença acabou por morrer quase na miséria, a 3 de setembro de 2010, ele o Bom Gigante, a alcunha que o eternizou, não só pelo seu talento futebolístico, mas sobretudo pelo seu bom coração, de homem simples e afável, amigo do seu amigo

Vídeo: EXCERTO DO DOCUMENTÁRIO: JOSÉ TORRES, O GIGANTE QUE DRIBLOU O DESTINO

Legendas das fotografias
1-José Torres, envergando a camisola da seleção nacional
2- Na sua primeira final europeia, em Wembley, ante o Milan
3-Fazendo uso do seu poderoso jogo aéreo
4-Com a taça Ramón Carranza de 1963, que ele ajudou a conquistar
5-A Bola de Prata que venceu em 1962/63
6-A dupla mortífera Torres-Eusébio
7-Com a camisola Benfica, no Estádio da Luz
8-Envergando as cores do Vitória de Setúbal (com a camisola número 9)
9-Um "onze" do Estoril, o último clube de José Torres enquanto jogador. O Bom Gigante é o segundo da fila de cima a contar da esquerda para a direita
10-Seleção portuguesa no Mundial de 1966
11-José Torres em ação durante o célebre jogo com a Coreia do Norte
12-Torres, o selecionador nacional no Mundial do México em 1986
13-A columbofilia, uma paixão de menino que nunca esqueceu até aos seus últimos dias de vida