segunda-feira, maio 26, 2008

História dos Europeus de Futebol (3)... Itália 1968

A terceira edição daquela que era já a maior competição do futebol europeu sofreu algumas alterações. Desde logo a sua designação oficial, passando de Taça da Europa das Nações para Campeonato da Europa de Futebol. Depois a forma de apuramento para a fase final, que deixava de ser feita através de eliminatórias directas para ser realizada através de uma fase de grupos. Outra novidade nesta edição prendeu-se com a aceitação definitiva de todos os países membros da UEFA à competição, finalmente a República Federal da Alemanha, a Escócia, a Finlândia, e o Chipre disseram "sim" ao Euro. À partida para o Europeu de 1968 estavam inscritos 31 países dos 33 filiados na UEFA, já que Malta e Islândia (participantes nas duas anteriores fases de qualificação) resolveram ficar de fora. O sorteio de apuramento ditou então oito grupos, na sua quase total maioria constituídos por quatro equipas, a excepção era o grupo 4 que somente tinha três selecções. Os vencedores de cada grupo (oito selecções) jogaram então uma eliminatória a duas mãos para apurar os quatro países que iriam disputar a fase final. E os "felizardos" foram a Inglaterra (que eliminou a campeã da Europa em título, a Espanha), a Jugoslávia (eliminou a França), a Itália (afastou a Bulgária), e mais uma vez a União Soviética (eliminou a Hungria) que obtinha desta maneira a sua terceira qualificação para a fase final em outras tantas edições realizadas! Se dúvidas existissem quanto ao facto de os soviéticos serem uma das melhores equipas da Europa elas aqui ficavam desfeitas. Para sedear a fase final do Euro 68 a UEFA escolheria a Itália, sendo que as cidades de Nápoles, Florença e Roma seriam os palcos dos jogos.

A vitória através de moeda ao ar!
Itália, Jugoslávia, União Soviética, e Inglaterra iriam então lutar entre si para ver quem sucederia à Espanha no trono do futebol europeu ao nível de selecções. Favoritos? Talvez os ingleses, que dois anos antes tinham encantado o Mundo ao vencer o "seu" próprio Mundial. Os campeões do Mundo tinham (teoricamente) no seu grupo de trabalho "armas" mais do que se suficientes para conquistar a Europa, tais como Bobby Charlton, Geoffrey Hurst, ou Bobby Moore. Os soviéticos eram uma equipa em remodelação, continuavam fortes, é certo, mas não tinham o fulgor da equipa que oito anos antes havia conquistado o Euro 60, e sobretudo já não tinham o seu grande "comandante", o lendário guarda-redes Lev Yashin. Os jugoslavos atingiam a sua segunda fase final, mas eram… uma incógnita. Quanto à equipa da casa poucos acreditavam que pudesse fazer algo de bom neste Europeu, pois ainda ninguém havia esquecido o escândalo que a "squadra azzurra" havia protagonizado dois anos antes no Mundial 66 onde foi vencida, eliminada (da fase seguinte), e ridicularizada, na primeira fase pela desconhecida Coreia do Norte! Por isso, as expectativas num triunfo final italiano eram muito ténues. Mas como estavam enganados os críticos da "azzurra"! Na primeira meia-final disputada a 5 de Junho no Estádio São Paolo, em Nápoles, os italianos jogavam contra a União Soviética. Um jogo que foi a prova provada, por assim dizer, de que no futebol por vezes a sorte é mesmo um factor decisivo. Mas já lá vamos. Este foi um jogo onde o medo levou a melhor, ou seja, as duas equipas temeram-se demasiado uma à outra durante os 90 minutos, não criando grandes oportunidades de golo ao longo deste período. O pendor defensivo imperou. E o cenário repetiu-se nos 30 minutos de prolongamento para azar dos quase 70 000 adeptos que estavam nas bancadas do São Paolo e que assistiram a um futebol extremamente cauteloso de parte a parte. E como na altura não havia desempates através de grandes penalidades o árbitro teve de decidir o vencedor do jogo através de… moeda ao ar! E a sorte saiu à equipa da casa que assim avançava para afinal de Roma, impedindo os soviéticos de disputarem a sua terceira final consecutiva.
Campeões do Mundo surpreendidos pelos jugoslavos na meia-final…
A equipa do seleccionador inglês Alf Ramsey era praticamente a mesma que dois anos antes havia conquistado o Mundo, mas em Florença esse estatuto de pouco ou nada serviu aos súbitos de "sua majestade" que sucumbiram aos pés de uma jovem Jugoslávia. Jovem mas deveras aguerrida, já que fizeram de tudo para travar os artistas ingleses, recorrendo por vezes a faltas duríssimas. Cartões amarelos para os jugoslavos foram mais do que muitos e houve até um vermelho, para Mullery. As oportunidades de golo não foram muitas, mas numa das poucas incursões dos jugoslavos à baliza do lendário Gordon Banks a estrela do conjunto de leste Dzajic mostrou o porquê de ser considerado um dos melhores atacantes da Europa antecipando-se a Bobby Moore e batendo o guardião inglês fazendo o único golo do jogo e pondo a sua equipa na final. 
 
… ficam com a medalha de bronze
 
A 7 de Junho encontraram-se no Estádio Olímpico de Roma duas das maiores potências do futebol mundial de então para decidir quem ficaria com o último lugar do pódio deste Euro 68. Um jogo onde o prestígio e o orgulho estava acima de tudo, e neste capítulo os ingleses levaram a "coisa" mais a sério. Para os homens de leste jogar este jogo de consolação não era o mesmo que jogar a final, onde haviam estado nas primeiras duas edições, e este facto de certa forma afectou-os, pois faltava-lhes algo determinante para vencer uma partida de futebol: motivação. Com Bobby Charlton nos seus melhores dias e com Moore a mostrar o porquê de ser um dos melhores centrais do planeta a Inglaterra venceu os soviéticos por 2-0, com um golo a meio da primeira parte (por Bobby Charlton), e outro na mesma fase da etapa complementar (por Hurst). 
 
Duas finais para apurar o campeão
 
No dia 8 de Junho o Olímpico de Roma engalanou-se para receber a final da grande competição. 70 000 espectadores lotaram as bancadas para ver um jogo extremamente táctico entre Jugoslávia e Itália. A esperança de ambos os treinadores era de que uma das suas estrelas pudesse num lance de inspiração resolver o jogo. E foi precisamente uma das muitas estrelas que esteve em campo nesse dia a abrir o marcador, mais precisamente Dzadic que aos 39 minutos bateu o guardião Zoff. Na segunda parte a equipa de leste teve duas oportunidades para "matar" o jogo mas desperdiçou-as, confirmando a máxima do futebol de que equipa que não marca sofre. E foi precisamente isso que aconteceu ao minuto 80 quando num livre directo Domenghini faz a bola passar entre a barreira para entrar na baliza. Foram precisos mais 30 minutos de jogo que pouca ou nenhuma emoção tiveram, sendo por isso necessário recorrer a uma finalíssima, algo que acontecia pela primeira vez na história desta então jovem competição. Dois dias depois no mesmo palco as equipas voltaram a encontrar-se. Jogar dois jogos no espaço de 48 horas era fisicamente uma tarefa complicada, algo que se viria a confirmar mais para o lado dos jugoslavos. A Itália com um banco mais apetrechado utilizou "sangue fresco" tendo dominando do principio ao fim o encontro. Riva, aos 12 minutos, e Anastasi, aos 31 minutos, deram o título à Itália. Os jugoslavos não tiveram a capacidade física e mental da primeira final e pagaram por isso. A Itália com nomes como Luigi Riva, Giacinto Facchetti, Sandro Mazzola, e o então promissor guarda-redes Dino Zoff conquistava o título Europeu (o seu único até à data) e recuperava o prestígio internacional perdido dois anos antes no Mundial 66. 
 
Curiosidades do Euro 68...

-Desgastada física (120 minutos com a Itália três dias antes) e emocionalmente (eliminados através de moeda ao ar) a União Soviética, a única equipa que marcara presença em todas as edições do Europeu até então saiu de Itália sem nenhum golo marcado!

-Joaquim Campos, árbitro português, que havia dirigido dois jogos nas fases finais dos Mundiais de 58, e 66, foi um dos fiscais de linha (hoje em dia denominados de árbitros assistentes) da finalíssima.

-Na finalíssima a Itália reforçou-se com cinco jogadores que não haviam participado na final (De Sisti, Salvadore, Rossato, Mazzola, e Riva) ao passo que a Jugoslávia apenas trocou um elemento (Petkovic por Hosic).

Jogos:

Meias-finais

5 de Junho, em Nápoles
Itália – União Soviética: 0-0* *apurada a Itália por moeda ao ar

5 de Junho, em Florença
Jugoslávia – Inglaterra: 1-0 (Dzajic, aos 86’)

Jogos dos 3º e 4º lugares

7 de Junho, em Roma
Inglaterra – União Soviética: 2-0 (Charlton, aos 39’; Hurst, aos 63’)

Final

8 de Junho, em Roma
Itália – Jugoslávia: 1-1 (Domenghini, aos 80’) (Dzajic, aos 39’)

Finalíssima

Itália - Juguslávia: 2-0
10 de Junho, no Estádio Olímpico de Roma
Árbitro: José Maria Ortiz, de Espanha
Itália: Dino Zoff, Pietro Anastasi, Tarcisio Burgnich, Giancarlo De Sisti, Ângelo Domenghini, Giacinto Facchetti, Aristide Guarneri, Sandro Mazzola, Luigi Riva, Roberto Rossato, e Alessandro Salvadore. Treinador: Ferruccio Valcareggi.

Jugoslávia: Ilija Pantelic, Mirsad Fazlagic, Milan Damjanovic, Blagoge Paunovic, Dragan Holcer, Vahidin Musemic, Dragan Dzajic, Miroslav Pavlovic, Jovan Acimovic, Dobrivoje Trivic, e Idiz Hosic. Treinador: Rajko Mitic Golos: Riva (12’), e Anastasi (31’).
Onze ideal do Euro 68:

Zoff (Itália) Fazlagic (Jugoslávia) Schesternev (União Soviética) Moore (Inglaterra) Facchetti (Itália) Domenghini (Itália) Osim (Jugoslávia) Mazzola (Itália) Dzajic (Jugoslávia) Hurst (Inglaterra) Riva (Itália)
Melhor marcador:

Dzajic (Jugoslávia) com dois golos
Legendas das fotografias:
1- Logotipo oficial do Itália 1968
2- Capitão italiano Facchetti ergue a Taça Henry Delaunay
3- A equipa da Itália que conquistou o Euro 1968
4- O célebre guardião transalpino Dino Zoff foi uma das peças chave do sucesso da sua equipa
5- Uma das grandes estrelas da fase final do Euro 68: o inglês Bobby Charlton
6- Imagem da finalíssima entre Itália e Jugoslávia
7- O homem que abriu caminho para o triunfo italiano: Luigi Riva
8- Um dos melhores jogadores do Mundo de todos os tempos: o italiano Giacinto Facchetti
9- O melhor marcador do Euro 68: Dzajic

Vídeo: ITÁLIA - JUGOSLÁVIA (Finalíssima)










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