quarta-feira, junho 04, 2014

ENTREVISTA: Meg, pioneira na globalização do futebol feminino que superou a barreira do preconceito

Meg, com o uniforme
da seleção brasileira
O futebol apresenta-se no presente como um jogo imune às barreiras da religião, da raça, do estrato social, ou do sexo. Mas nem sempre foi assim. No passado o belo jogo assumiu em diversos capítulos da sua história tiques de elitismo, racismo, ou de preconceito em relação a... sexos. Neste último aspeto pode mesmo dizer-se que a afirmação do futebol feminino à escala global foi uma longa batalha travada durante várias décadas. Numa curta viagem pelos primeiros registos do futebol interpretado por senhoras depara-mo-nos com o longínquo ano de 1892, altura em que a cidade de Glasgow (Escócia) foi palco do primeiro jogo, desconhecendo-se no entanto tanto o seu resultado como as suas intervenientes! Ainda na “pegada” dos primeiros registos sublinhe-se o facto de dois anos mais tarde a inglesa Nattie Honeyball, uma ativista dos direitos da mulher, ter fundado o primeiro clube integrado apenas por senhoras, o Ladies Football Club. A I Guerra Mundial (1914-1918) teve um papel importante para a expansão do futebol feminino em terras de Sua Majestade. Com a chamada dos homens para o campo de batalha a indústria viu-se obrigada a recorrer à mulher para substituir a mão de obra masculina nas fábricas da Velha Albion. Nesse período surgiram inúmeras equipas femininas, nascidas precisamente no seio dessa classe operária, que entre si escreveram diversas histórias curiosas dos primeiros capítulos do futebol de saltos altos. O fim da guerra trouxe porém os primeiros dissabores à versão feminina do belo jogo, por assim dizer. A Football Association (FA) tratou de travar a euforia generalizada em redor do futebol feminino, e em 1921 proíbe mesmo a sua prática! Seguiram-se então mais de quatro décadas de travessia no deserto, sem que a bola voltasse a ser acariciada – de forma oficial – com a doce delicadeza das senhoras. Até que em 1969 a FA revê a sua posição... machista e preconceituosa, permitindo que o jogo voltasse a ser jogado no feminino. E o que se tem verificado de lá para cá é não mais do que um acentuado crescimento impulsionado por uma gigantesca onda de entusiasmo em torno do futebol feminino. Um cenário para o qual têm – desde meados da década de 70 – contribuído as altas instâncias do futebol internacional, que na ânsia de fazer crescer o fenómeno à escala global edificaram a partir da década de 90 uma série de competições que à sua volta agregam as melhores artistas da bola. Um desses torneios é o Campeonato do Mundo, prova que nasceu em 1991.



Pintura que retrata um jogo
de futebol feminino na Grã-Brertanha
nos finais do século XIX
O primeiro capítulo internacional do jogo interpretado no feminino foi, digamos que, discreto. O brasileiro João Havelange era então o presidente do organismo máximo do desporto rei a nível global, ele que em 1986 viu concretizado o velho sonho de criar o Campeonato do Mundo de senhoras. No México, onde decorreu nesse ano de 86 o 45º Congresso da FIFA ficou assente que o pontapé de saída do Mundial feminino seria dado cinco anos mais tarde, tendo a China sido o país escolhido para sediar a primeira edição da competição. Uma escolha que não seria feita em vão, já que para dar o pontapé de saída num projeto que se sonhava grande, nada melhor do que um país onde o futebol feminino agregava a si uma enorme popularidade – e sobretudo praticantes. Definido ficou que o primeiro Campeonato do Mundo seria disputado entre 16 e 30 de novembro, e que seria integrado por 12 seleções nacionais divididas em três grupos de quatro equipas. Na linha de partida (fase de qualificação) rumo ao Mundial estiveram 45 países, tendo apenas 11 deles cortado a linha de meta, juntando-se assim ao país anfitrião as seguintes nações: Alemanha, Brasil, China Taipé, Dinamarca, Estados Unidos da América, Itália, Japão, Nigéria, Nova Zelândia, Noruega, e Suécia.

Bom, a história vai longa, vamos pois ao que interessa. E o que interessa é ouvir – neste caso ler – as palavras de quem participou desse início de história, de quem viveu por dentro o primeiro Mundial feminino, o primeiro torneio olímpico de futebol feminino – que hoje em dia rivaliza em termos de importância e popularidade com o Campeonato do Mundo – mas sobretudo quem viveu na pele o preconceito, as dificuldades, de ser atleta internacional numa modalidade que aos olhos de muitos cidadãos era – e para alguns ainda o é – interdita ao género feminino. O seu nome completo é Margarete Maria Pioresan, mas o Planeta da Bola conhece-a por Meg, uma das pioneiras da globalização do futebol feminino. A atual comentadora da Sportv brasileira das grandes competições internacionais do futebol feminino visita hoje o Museu Virtual do Futebol, onde recorda episódios de uma carreira histórica... a todos os níveis.

Museu Virtual do Futebol (MVF): Meg, hoje em dia, atendendo à popularidade do futebol feminino a nível mundial, é muito comum ver uma mulher assumir a sua vontade em calçar as chuteiras e vir a ser futebolista profissional. Porém, no seu tempo, essa ambição era olhada pela esmagadora maioria do globo como uma espécie de sonho irreal, até porque vozes machistas apregoavam que “futebol é coisa de macho”. Pedia-lhe que recuasse uns bons 30 ou 40 anos no tempo, até à sua juventude, e me recordasse os seus tempos de menina, por certo apaixonada pelo desporto.

Meg: Bem, comecei no desporto desde menina. Como todas as crianças gostava de brincar após a escola. A minha brincadeira favorita eram os jogos com bola, como por exemplo a queimada, o ping pong, o voleibol, e o futebol. Sou natural de uma cidade do interior do Estado do Paraná, no sul do Brasil, chamada Toledo (nota: onde nasceu a 1 de janeiro de 1956), e ainda cedo – com 19 anos – sai de lá para cursar na Faculdade de Educação Física, na cidade próxima de Maringá. Foi nessa época que fui apresentada ao andebol, e em particular ao seu gol (baliza). Defendi as cores da equipa da universidade durante três anos, sendo que posteriormente fui morar para o Rio de Janeiro, onde continuei a jogar, desta feita pela Universidade Augusto Motta, onde fiz uma segunda licenciatura, desta feita em Fisioterapia. Logo em seguida, no ano de 1983, fui convocada para a primeira seleção brasileira de andebol, para disputar o primeiro campeonato sul-americano, o qual se realizou em Buenos Aires (Argentina). Até ai, tudo era maravilhoso. O preconceito não batia na porta.


Meg, exibindo os seus atributos de grande goleira
MVF: Vejo que o andebol foi a chave que lhe abriu a porta do desporto de alta competição, e... o futebol, quando é que o belo jogo apareceu na sua vida desportiva de uma forma mais a sério?

Meg: Por volta de 1980, já eu vivia no Rio de Janeiro, comecei a defender a baliza do Esporte Clube Radar, nos primeiros tempos nas areias de Copacabana (nota: na variante de futebol de praia), e depois, em 1982, nos gramados (relvados). Recordo que naquele tempo, as apresentações que a equipa fazia em Copacabana juntavam muita gente para nos ver, aplaudir e... xingar... poucos, é certo, mas havia sempre alguns machistas por lá a assistir aos jogos das equipas femininas.

MVF: Sinais de que ainda havia um longo caminho a percorrer para que o planeta da bola fosse definitivamente conquistado pelas mulheres...

Meg: De certa forma, mas eu lembro-me, por exemplo, que nesse mesmo ano de 1982 o Radar fez uma digressão pela Europa, que coincidiu, curiosamente, com a realização da Copa do Mundo de Espanha, tendo inclusive a nossa equipa assistido ao primeiro jogo da seleção brasileira nesse Mundial, ante a ex-União Soviética. E do que me lembro é que lá (Europa) não encontrámos o preconceito que havia aqui no Brasil para com a jogadora de futebol. Aqui chegavam a insultar-nos com palavras ofensivas...

A cidadã Margarete Maria Pioresan
recorda no Museu Virtual do Futebol
o seu trajeto pelos caminhos do belo jogo
MVF: No entanto, e olhando para a história, foi precisamente nesses anos 80 que o futebol feminino começou a ser encarado de uma forma mais séria pelas entidades que tutelam a modalidade a nível global, neste caso a FIFA, que através do seu presidente de então, João Havelange, percebeu que a variante feminina do futebol, digamos assim, era detentora de um potencial enorme

Meg: Sim, de facto. Acho que o crescimento tanto interno (Brasil) como externo se deu principalmente pela oficialização do futebol feminino junto da FIFA em meados dos anos 80. Aqui no Brasil, por exemplo, muitos clubes do Rio de Janeiro (como o Radar, o Bom Sucesso, ou o Olaria), de São Paulo, do Rio Grande do Sul, da Bahia, ou de Minas Gerais uniram forças e criaram competições femininas, sendo que inclusive muitos jogos começaram a passar na televisão. Apesar deste sinal de crescimento no plano competitivo o preconceito continuava nos gramados...

MVF: É, a tradição continuava a ditar leis, e a tradição ainda dizia que o futebol era um mundo exclusivo a homens, apesar de a FIFA ter entrado em campo, como já vimos, institucionalizando o primeiro Campeonato do Mundo com vista não só à dinamização do futebol feminino, mas sobretudo na tentativa de eliminar as tais barreiras do preconceito...

Meg: … Mesmo antes da Copa do Mundo de 1991, o tal primeiro Mundial, a FIFA organizou um mundialito em 1988 – que foi uma espécie de torneio experimental –, também realizado na China, embora nessa competição eu pedi dispensa de representar a seleção, pois devo dizer que em paralelo com o futebol eu continuava a atuar pela seleção de andebol, que nessa altura estava a preparar a presença no Campeonato do Mundo “B”, o qual iria ter lugar na Bulgária. Devo confessar que sempre fui totalmente apaixonada pelo andebol, e entre 1983 e 1989 fiz uma pausa no futebol para me dedicar em exclusivo àquela modalidade, tendo participado em várias competições internacionais. Depois de abandonar o andebol dei prioridade ao futebol, retomando a atividade na seleção em 1991, precisamente o ano em que a FIFA organizou a primeira Copa do Mundo feminina.


Michelle Akers cabeceia
a bola em direção à baliza de Meg

MVF: Centre-mo-nos pois nesse histórico acontecimento para futebol feminino a nível internacional: a primeira Copa do Mundo. A Meg esteve lá, viveu de perto o começo de uma nova era na variante feminina do belo jogo...

Meg: Na verdade, nesses primeiros passos oficiais com a seleção em 1991, na Copa da China, tudo era novidade. A nossa seleção não tinha de facto um conhecimento profundo sobre a maioria das equipas que estiveram nessa Copa, embora a turma que esteve presente no Mundialito de 88 já havia testemunhado a força dos Estados Unidos da América e de algumas equipas europeias. Recordo no entanto que também nós tínhamos grandes atletas, casos da Pretinha, que na altura era ainda muito jovem, da Roseli, ou da Fanta. Aliás, a base da seleção de 1991 era o time do Radar, que estava junto há já algum tempo, ao qual se juntaram mais algumas atletas oriundas de outros Estados. Claro que nos faltava experiência internacional enquanto seleção. Notava-se igualmente algum desconhecimento de sentido tático, e tudo junto acabou por ditar o nosso afastamento da Copa ainda na primeira fase...


MVF: … Embora o início da caminhada até nem tivesse sido mau de todo...

Meg: … Sim, a estreia contra o Japão foi demais! Defrontámos uma equipa rápida e disciplinada que nos fez correr muito ao longo dos 90 minutos. Ficámos exaustas no final! Recordo-me que as japoneses estavam constantemente a jogar ao ataque, e eu, como goleira, tive muito trabalho. Porém, num dos poucos ataques que o nosso time fez à baliza japonesa conseguimos um golo, o único golo desse jogo, que nos deu uma vitória. Depois vieram os Estados Unidos da América e a Suécia – as outras duas equipas que compunham o Grupo B – que eram só duas das maiores potências da época. As americanas, como deve saber, jogam futebol desde os 4 ou 5 anos de idade, pelo que a experiência delas era enorme, como comprovam os cinco golos que levámos delas (nota: o Brasil foi derrotado por 5-0), ao passo que as seleções europeias tinham igualmente uma larga experiência em partidas internacionais, como era o caso da Suécia, algo que não acontecia na América do Sul, onde não existiam competições internacionais para seleções. Contra as suecas perdemos por 2-0 e fomos para casa mais cedo.


Michelle Akers, a norte-americana
considerada a melhor jogadora
do Mundo por altura do primeiro Mundial
MVF: No encontro ante os Estados Unidos da América teve a oportunidade de defrontar duas das melhores jogadores de sempre da história do futebol feminino, Mia Hamm e Michelle Akers, esta última era aliás na altura considerada a melhor jogadora do planeta da bola. Como foi estar perto de duas lendas da modalidade, isto além, claro, do trabalho que por certo lhe deram ao longo desse encontro.

Meg: Na verdade não cheguei a falar com elas em 1991, mas recordo-me que na preparação para os Jogos Olímpicos de 1996 houve um intercâmbio com a seleção norte-americana, elas vieram ao Brasil e nós fomos lá. Nessa altura tive oportunidade de as conhecer mais de perto, pois no regresso da Copa do Mundo da China apenas deu para nos cumprimentar-mos quando nos cruzámos no avião que nos iria trazer a um país da Europa e daí cada qual seguia para sua respetiva casa.


MVF: Quatro anos depois foi a vez da Suécia acolher a segunda edição do Mundial feminino, e a Meg lá estava mais uma vez na defesa das redes da seleção, que a julgar pelos resultados (foi última de um grupo que era composto pela equipa da casa, pela Alemanha, e pelo Japão) ainda estava um pouco aquém do alto nível competitivo que se encontrava quer nos Estados Unidos da América quer em muitos países da Velha Europa. Na altura a Meg estava com 39 anos, o que para uma atleta internacional de alta competição, seja em que modalidade for, é uma idade já um pouco... avançada, por assim dizer. O que a motivou a ir à Suécia?

Meg: Essencialmente a possibilidade de estar presente nos Jogos Olímpicos, um sonho antigo pelo qual vinha a lutar desde os meus tempos de atleta internacional no andebol. O objetivo de estar presente nas Olimpíadas de Atlanta, em 1996, fez com que eu tivesse cuidados físicos redobrados, pois como você disse eu já contava com 39 anos na altura da Copa da Suécia. Mas o meu grande sonho era ir aos Jogos Olímpicos, e naquela época a Copa do Mundo servia igualmente de fase de qualificação para as Olimpíadas (nota: as seleções melhor posicionadas garantiam uma vaga nos Jogos), e isso foi o grande incentivo que justificou a minha presença na Suécia. A garantia de uma presença nos Jogos Olímpicos via Copa do Mundo levou a um incremento de várias competições continentais com vista à qualificação para o Mundial. Um pouco por todo o Mundo formou-se uma corrente em prol do futebol feminino.

MVF: Essa corrente fez-se sentir de alguma forma concreta no quotidiano brasileiro?

Meg: Bem, entre 1991 e 1995 houve uma continuidade no trabalho que vinha a ser feito em prol do futebol feminino. Trabalho esse ao qual era agora acrescida a ambição de levar a seleção aos Jogos Olímpicos, pelo que nesse sentido houve uma prospeção interna na tentativa de encontrar as melhores jogadoras. Foi nesse período também que alguns clubes retomaram a sua atividade no futebol feminino, e o Vasco da Gama, por exemplo, formou uma grande equipa, que mais tarde viria a tornar-se na equipa que todos queriam vencer. Aquele time do Vasco, onde eu aliás jogava na época, foi então a base da seleção que esteve na Copa de 95.
Quanto à nossa presença nesse segundo Mundial da FIFA devo dizer que foi dura! Ficámos em último lugar do nosso grupo, um grupo complicado que tinha a Suécia, que além de jogar em casa era vice campeã da Europa, o Japão, com a sua característica garra, e a campeã da Europa, a Alemanha. Recordo-me que nesse campeonato a grande Formiga fez a estreia pela seleção, jogadora que ainda está em atividade, e que aliás integra a seleção que está preparando a Copa de 2015. Apesar das dificuldades, começámos mais uma vez bem, ao vencer a equipa da casa por 1-0, perdendo depois para o Japão (1-2) e para a Alemanha (1-6). Mesmo assim conseguimos a ambicionada qualificação para os Jogos Olímpicos.


Cumprindo o sonho de uma vida: as Olimpíadas
MVF: O sonho estava concretizado, as Olimpíadas eram finalmente uma realidade. E também aqui reside o facto curioso de a Meg ter vivenciado o primeiro torneio olímpico de futebol feminino da história, certame que hoje em dia é tão, ou mais importante, que o próprio Mundial, isto no que concerne à alta competição ao nível de senhoras. E em Atlanta o Brasil esteve muito perto de conseguir uma medalha...

Meg: … A nossa “chave” foi dificílima. Tínhamos a Alemanha, a Noruega (campeã do Mundo em título) e o Japão, outra vez as japonesas no nosso caminho! Mesmo assim fizemos uma grande primeira fase, empatámos com as norueguesas (2-2), vencemos o Japão (2-0), e no último jogo, ante as alemãs, precisávamos apenas de um empate para chegar realmente a Atlanta. Isto porque, convém referir, que o torneio olímpico de futebol numa primeira fase foi jogado fora da cidade onde decorriam as Olimpíadas, em locais como Washington, ou Birmingham, por exemplo, sendo que só as semi-finalistas seguiam para a sede dos Jogos para disputar as medalhas. E nós conseguimos esse empate (1-1) com as alemãs, as quais foram mais cedo para casa, enquanto nós fomos para Atlanta! Aquele momento, a presença entre as quatro seleções que iriam lutar pelas medalhas olímpicas, foi a coroação da minha geração. Foi uma enorme emoção quando o jogo contra a Alemanha, que tinha uma super equipa, terminou. Eu caí no gramado e só pensava: “nós vamos para Atlanta, nós vamos para Atlanta”’. Já em Atlanta a emoção subiu de tom quando chegamos à Aldeia Olímpica, com todo aquele aparato. Nunca ninguém tinha conseguido tal, era a primeira vez na história do futebol feminino. Quanto a mim, concretizei um sonho...

MVF: … Um sonho que podia ter tido contornos ainda mais inolvidáveis caso tivesse trazido para casa uma medalha que escapou por muito pouco...

Meg: Estivemos muito bem, e quase fomos à final, de facto. Nas meias-finais encontrámos a China, e estávamos a vencer por 2-1 quando faltavam sete minutos para o final. Lembro-me que o desgaste físico ditava leis. As nossas jogadoras já não tinham forças, e no meio daquele estádio lotado eu só pensava: “Meu Deus, vamos à final, o jogo está a terminar”. Foi então que o treinador chinês fez duas substituições que viriam a ser decisivas no desfecho do encontro. As duas jogadoras que entraram deram a volta ao jogo, acabando a China por ir à final contra os Estados Unidos da América após nos ter vencido por 3-2. Depois, disputámos a medalha de bronze com a Noruega. O Brasil fez um grande jogo, ante uma seleção que estava ferida no orgulho por não nos ter conseguido vencer na primeira fase do torneio. Perdemos 2-0, e não trouxemos nenhuma medalha, mas tenho muito orgulho no trajeto que a seleção fez nas Olimpíadas de 96.


Momento emocionante ao
lado de Muhammed Ali
MVF: Podemos considerar Atlanta como o ponto alto da sua carreira desportiva?

Meg: Sim. Como já disse antes, foi o concretizar de um sonho. Não esqueço que num dos passeios pela Aldeia Olímpica tive a oportunidade de tirar uma foto com o lendário Muhammed Ali, que tinha participado na abertura dos Jogos ao disparar a flexa em direção à pira olímpica. Boa lembrança em Atlanta o facto de ter convivido com a seleção masculina da Nigéria, que viria a conquistar a medalha de ouro, eles ficaram no mesmo prédio que a nossa seleção. Eles eram muito humildes. Foi uma experiência única, poder estar ao lado dos melhores atletas olímpicos do Mundo... foi um sonho. Após Atlanta dei por encerrada a minha carreira na seleção, embora tivesse continuado a jogar pelo Vasco da Gama até aos 44 anos.

MVF: Hoje o Brasil tem aquela que para muitos é a melhor jogadora do Mundo, a Marta. É por demais visível que o futebol feminino no Brasil tem crescido imenso. A Meg sente-se como uma das responsáveis por esse crescimento, uma vez que esteve no início desta “viagem”...

Meg: Sim, para muitos a Marta ainda é a melhor do mundo, foi cinco vezes eleita como a melhor, e penso que ainda vai ajudar o Brasil no Mundial 2015 ,no Canadá, e na Olimpíada do Rio, em 2016. Claro que eu e a minha geração, e outras que vieram a seguir, colaboraram muito para o desenvolvimento do futebol feminino no Brasil e no resto do Mundo...

MVF: … Mas no entanto esse contributo ainda não deu os frutos mais desejados, por outras palavras, os títulos internacionais. O que tem faltado à seleção feminina do Brasil para seguir o exemplo da sua congénere masculina e conquistar títulos para o país?

Meg: Bem, acho que falta ao Brasil mais investimento interno, com mais competições nacionais importantes. O Ministério dos Desportos começou à investir somente em 2013 na modalidade, ajudou na edificação do Campeonato Brasileiro, no Campeonato Universitário, e em competições de escalões de formação. Se continuar assim, estou certa de que chegaremos mais rapidamente à uma medalha no Mundial ou nas olimpíadas. É importante que as atletas fiquem em atividade constante, participando em competições permanentes e de bom nível técnico, pois nem todas jogam no exterior, em campeonatos competitivos, como é o caso da Marta.



Escrete canarinho, na sua versão feminina, entra em campo
nos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996
MVF: Muitos cidadãos comuns partilham ainda hoje a ideia de que ser mulher no universo desportivo é uma tarefa complicada. Isto porque muitas mulheres são mães, esposas, fadas do lar, outras têm os seus empregos, e sendo atleta torna toda essa conjugação de papéis difícil...

Meg: … Bem, nos anos 80/90 era mais difícil a mulher praticar desporto. Existia mais preconceito, como falei no início. Porém, as coisas foram mudando aos poucos. No plano feminino, o Brasil é campeão mundial de lei, de andebol, de atletismo, judo,... só falta mesmo o futebol. As pessoas foram absorvendo a realidade. Esta transformação de mentalidade acontece juntamente com os espaços conquistados pelas mulheres noutras profissões, como a política, engenharia, segurança, e tantas outras que antes eram ocupadas sobretudo pelos homens. No meu caso eu sempre estudei e trabalhei ao mesmo tempo. Ganhei uma bolsa de estudo no segundo curso que fiz, o de Fisioterapia, e também tive o meu primeiro emprego como professora de Educação Física no colégio ligado à faculdade. E assim fui andando: jogando e trabalhando. Claro que era difícil conjugar a atividade profissional com a prática desportiva, e eu, sempre que defendia a seleção de andebol ,ou a de futebol, tinha que entrar com processo administrativo na Prefeitura (câmara municipal) para me ausentar. Nos colégios particulares eu própria colocava um professor no meu lugar, e depois era eu que tinha de pagar o trabalho deles!

MVF: Sério? Bom, a terminar este agradável papo diga-nos, porque nunca se aventurou numa carreira de futebolista profissional no estrangeiro?

Meg: No meu primeiro Mundial de futebol, na China, eu já estava com 35 anos. Nesta época, se não me engano, só saiu a Roseli, para o futebol japonês, e a Lúcia, que foi para a Itália. Após Atlanta houve uma corrida desenfreada para o futebol dos Estados Unidos da América, recordo-me que a Pretinha, a Roseli, e a Sissi foram jogar para lá. Eu já estava com 40 anos, e para mim o futebol “estourou” muito tarde, já estava na altura de parar. Por isso, decidi não me aventurar.

MVF: Esta é mesmo a última pergunta. Porque é que ainda hoje é conhecida como o Taffarel de saias? (risos)

Meg: Bom, acho que a comparação com o Taffarel é porque somos ambos do sul do país, ele é gaúcho e eu paranaense e filha de gaúchos. Também por defendermos a baliza da seleção na mesma altura, e por sermos os dois loiros (risos).

sexta-feira, maio 23, 2014

Figuras do apito (4)... Vieira da Costa - A estreia de Portugal no grande palco do Campeonato do Mundo

Vieira da Costa
no Mundial de 1950
Aproveitando a boleia do Campeonato do Mundo de 2014, que dentro de pouco mais de duas semanas irá ter lugar no Brasil, é hoje curioso verificar que foi precisamente em Terras de Vera Cruz que o nome de Portugal apareceu pela primeira vez no maior dos palcos do futebol internacional, o mesmo será dizer o Mundial. Facto ocorrido em 1950, uma Copa de má memória para os brasileiros - como já é por demais sabido - onde a nação lusa se fez representar por um dos seus mais conceituados árbitros das décadas de 30, 40 e 50, Vieira da Costa a sua graça.
Nascido na cidade do Porto - mais concretamente na freguesia do Bonfim - a 13 de fevereiro de 1908, José Vieira da Costa foi ao longo da sua carreira um exemplo vincado de competência aliada à seriedade no sempre complicado mundo da arbitragem, um cartão de visita que lhe valeu inúmeras distinções, a maior de todas elas o convite da FIFA para que estivesse presente em dois Campeonatos do Mundo consecutivos!
A carreira do primeiro árbitro português a marcar presença em Mundiais começou no início da década de 30, num período em que o panorama futebolístico lusitano se resumia aos campeonatos regionais e ao Campeonato de Portugal, este último que viria a ser transformado no final da citada década na Taça de Portugal dos dias de hoje. Foi pois nestas competições que o árbitro filiado na Associação de Futebol do Porto começou a evidenciar as suas qualidades de prestigiada figura do apito. Com a criação do Campeonato Nacional da 1ª Divisão em 1934/35 Vieira da Costa foi por diversas ocasiões nomeado para dirigir jogos de alto gabarito, popularmente designados como clássicos. Neste campo destacam-se vários dérbis entre Benfica e Sporting, tendo o primeiro deles ocorrido curiosamente na primeira edição do Nacional da 1ª Divisão, quando a 10 de fevereiro de 1935 benfiquistas e sportinguistas empataram a uma bola no Campo das Amoreiras. Também na prova rainha do futebol lusitano, a Taça de Portugal, o juiz portuense deixou marca ao apitar duas finais, a primeira delas em 1942, ano em que o Belenenses se impôs ao Vitória de Guimarães por 2-0 no Campo do Lumiar (Lisboa), ao passo que a segunda ocorreu 13 anos (!) mais tarde, já na reta final do seu trajeto pelos caminhos da arbitragem, ao apitar mais um dérbi lisboeta entre Benfica e Sporting, no qual os encarnados levantaram a taça na sequência de um triunfo por 2-1 sobre o velho rival.

Vieira da Costa (o primeiro da esquerda para a direita)
fez a sua estreia em Mundias como árbitro auxiliar
do brasileiro Mário Gonçalves Vianna, no jogo
Espanha - Estados Unidos da América

Vieira da Costa foi internacional durante sete temporadas, tendo a sua entrada na alta roda internacional ocorrido na temporada de 1949/50. A sua primeira aparição além fronteiras deu-se nos Jogos Desportivos Centro Americanos e do Caribe, nos princípios de 1950, onde as suas boas atuações chamaram de pronto à atenção da FIFA, que na hora de recrutar os juízes para o Mundial que nesse mesmo ano iria decorrer no Brasil não teve dúvidas em incluir o portuense na lista de 27 árbitros selecionados.
No Brasil, Vieira da Costa desempenhou funções de árbitro auxiliar - papel que num passado não muito distante também era denominado de fiscal de linha. Estreou-se no Espanha - Estados Unidos da América, jogo alusivo à 1ª jornada do Grupo B, disputado em Curitiba, e que terminaria com a vitória espanhola por 3-1. Nos dois restantes encontros exibiu os seus conhecimentos na aplicação das regras do futebol no grande templo de futebol brasileiro, o Estádio do Maracanã, primeiro como bandeirinha do galês Benjamim Griffiths durante o Brasil - Jugoslávia (2-0), e por último no Brasil - Espanha (6-1) - referente à segunda fase da Copa - onde auxiliou o inglês Reginald Leafe.

Duelo entre a RFA e a Turquia na fase final
do Mundial de 1954, o qual teve como
árbitro principal o portuense Vieira da Costa
As boas performances de Vieira da Costa no Brasil fizeram com que quatro anos mais tarde fosse de novo convocado pela FIFA para o Mundial que decorreu na Suíça. Ai, com maior protagonismo, já que foi o árbitro principal do encontro entre a República Federal da Alemanha e a Turquia (4-1), integrado no Grupo B da primeira fase. Na qualidade de árbitro auxiliar estaria ainda presente em mais três encontros do Mundial helvético - todos eles referentes à primeira fase do certame - mais concretamente o Brasil - México (5-0), o Inglaterra - Suíça (2-0), e o Suíça - Itália (2-1).
Após deixar a arbitragem José Vieira da Costa - ao que se sabe - tornou-se um cidadão anónimo - no planeta da bola, pelo menos -, vindo a falecer a 6 de agosto de 1981.

quinta-feira, maio 22, 2014

Grandes lendas do futebol mundial (14)... Victor Ugarte - O herói do momento de glória do futebol boliviano

Victor Agustín Ugarte, recriando-se com
o objeto que lhe conferiu o estatuto de imortal
É comum dizer-se que caso um Campeonato do Mundo fosse realizado em cidades como Quito (Equador) ou La Paz (Bolívia) os favoritos à conquista do caneco não eram os habituais Brasil, Argentina, Alemanha, ou Espanha, mas sim as modestas seleções locais! Uma teoria que advém do facto dessas mesmas cidades se encontrarem geograficamente localizadas bem acima do nível do mar, característica natural que provoca a quem lá desembarca sensações de alguma indisposição, como aconteceu, por exemplo, ao antigo Ministro da Justiça do Brasil, Tarso Genro, que num ato solene decorrido na capital boliviana La Paz desmaiou, provavelmente como consequência do impacto que o ar rarefeito comum em cidades posicionadas em elevadas altitudes teve no seu organismo. Quiçá um pouco alarmado com estes perigos - à saúde - naturais o conhecido político brasileiro liderou posteriormente uma campanha para que a FIFA proibisse a realização de jogos de futebol em cidades portadoras destas características, alegando que a altitude - elevada - constituía um perigo para a integridade física dos futebolistas forasteiros. Uma tentativa inglória, já que a entidade máxima do futebol planetário fez ouvidos de mercador, e continuou a dar luz verde para que a bola rolasse nos tetos do Mundo. Para os clubes e seleções visitantes ali jogar significa ter pela frente um adversário - extra - quase insuperável, ao passo que para os combinados da casa este torna-se, sem dúvida, num precioso 12º jogador. Mesmo que essa seleção - ou clube - seja um dos parentes pobres da grande aldeia global do futebol. Este é o caso da Bolívia, seleção pouco habituada ao longo da sua história às luzes da ribalta internacional, perfilando-se na maior parte das vezes cabisbaixa na cauda do pelotão do futebol sul-americano, bem distante dos virtuosos vizinhos do Brasil, Argentina, ou Uruguai.

A histórica seleção boliviana
que em 1963 conquistou o seu único título oficial
No entanto, o pequeno e frágil David veste a pele do temível Golias quando atua no teto do seu Mundo, o mesmo é dizer na cidade de La Paz. Ali situa-se a fortaleza do futebol boliviano, o Estádio Hernando Siles, o céu para a seleção boliviana e o inferno para os seus adversários. Ali, La Verde - como é conhecida a equipa nacional - escreveu a maior parte das suas escassas páginas douradas no planeta da bola. Num curto exercício de memória foi em La Paz - cidade localizada a 3600 metros acima do nível do mar!!! - que a última geração talentosa do futebol boliviano, comandado pelos geniais Marco El Diablo Etcheverry e Erwin Platini Sanchez, assegurou o passaporte para o Campeonato do Mundo de 1994 após ter humilhado, sim,  humilhado, não é exagero dizer-se, o gigante Brasil, ou de ter feito a vida negra a esse mesmo escrete na final da Copa América de 1997. Foi ali também que a modesta Bolívia viveu o seu momento de glória, el momento más lindo de su vida, como ainda hoje faz questão de sublinhar quem de perto se emocionou com esse capítulo da história. Em 1963 La Verde fez chorar de alegria o seu povo na sequência da épica conquista da Copa América. Uma vitória impensável para um país que, a título de exemplo, coabitava o mesmo território futebolístico que o então bi-campeão mundial Brasil, para um país cujo percurso nos caminhos do futebol havia passado quase despercebido. Foi pois um triunfo surpreendente de uma nação que à partida para a competição só queria fazer boa figura naquela que era primeira grande competição desportiva que organizava.

O povo exulta com o momento de glória
alcançado em 1963
Mais do que a particular localização geográfica de Laz Paz - onde decorreram a esmagadora maioria dos jogos da competição - ou de o facto de dois dos principais candidatos ao título continental, neste caso o Brasil e a Argentina, se terem feito representar pelas suas equipas "b" - os brasileiros, por exemplo, deixaram em casa estrelas como Pelé, Garrincha, Vavá, Didi, Gilmar, ou Zagalo - a chave do êxito boliviano ficou a dever-se a um grupo de imortais jogadores que partilhavam um só coração. Juntos, eles personificaram na cancha a garra e a força de todo um povo. Mas, à semelhança de todas as constelações de estrelas há uma que brilha um pouco mais do que as outras, e também naquela que é considerada a geração dourada da Bolívia no que a futebol concerne - esperemos que El Diablo Etcheverry e Platini Sanchez não fiquem zangados com esta designação que não é da nossa autoria - havia um jogador que se distinguia dos demais pelas suas qualidades de artista da bola. Victor Agustín Ugarte, assim se chamava o maior jogador de sempre da história do futebol boliviano, o herói del momento más lindo de la historia de Bolívia.

Ugarte com
as cores do Bolivar
Encravada entre gigantes escarpas vermelhas está a pequena cidade de Tupiza, onde a 5 de maio de 1926 nasceu Victor Agustín Ugarte. Começou a evidenciar os seus dotes artísticos de médio ofensivo no clube local, o Huracán de Tupiza, emblema que num curto espaço de tempo se tornou pequeno demais para a grandeza do homem que haveria de ficar imortalizado como El Maestro. Corria o ano de 1947 quando o jovem Victor decide reunir os poucos trapos que possuía e partir à aventura para a capital La Paz, onde de pronto ingressaria num dos maiores clubes do país, o Bolivar. A ascensão do diamante de Tupiza é meteórica. Torna-se de imediato na principal referência do emblema de La Paz, onde as suas gambetas (dribles) enlouqueciam, no bom sentido, os hinchas. 1947 é mesmo um ano histórico para Ugarte, o qual é convocado para a seleção boliviana que iria competir na Copa América a ser disputada na Colômbia, tendo aí efetuado os primeiros seis dos 45 jogos encontros em que ao longo da sua carreira vestiu a camisola verde da Bolívia. Dois anos mais tarde volta a envergar a camisola do seu país no maior torneio de seleções da América, desta feita no Brasil, onde ante o Chile concretiza o primeiro dos 16 golos que apontou com La Verde entre 1947 e 1963, o período em que Ugarte foi internacional. Na memória dos poucos hinchas daquele tempo que hoje vivem perdura a imagem da virtuosa seleção boliviana que disputou a Copa América de 1949, com Ugarte na condição de líder de uma constelação de estrelas como Mena, Gutierrez, ou Godoy, que num dos encontros dessa Copa ridicularizou o futuro campeão do Mundo, o Uruguai, na sequência de uma épica vitória por 3-2, com El Maestro a fazer um dos golos. E por falar em campeão do Mundo o mesmo Brasil iria acolher um ano mais tarde o célebre Mundial que os charrúas uruguaios iriam arrecadar, uma competição onde a Bolívia de Victor Ugarte passou praticamente ao lado, já que no único jogo realizado seria cilindrada por 8-0 pelo... Uruguai.

Ugarte defendeu por 45 ocasiões o seu país
tendo apontado 16 golos
Apesar da má campanha boliviana na Copa de 50 o talento de Ugarte não foi ofuscado, longe disso. Em 1952 é tentado a procurar melhores condições de vida fora do seu país, onde o miserável salário de um futebolista mal dava para sobreviver. Da Colômbia chegou nesse ano uma proposta do Millonarios, clube este onde pontificava então um tal de Alfredo Di Stéfano. Da Argentina foi o Boca Juniors que lançou o isco a Victor, mas a Bolívia não queria perder o seu tesouro nacional, tendo mesmo o Presidente da República daquela época, Mamerto Urriolagoitía, prometido a Ugarte uma pomposa vivenda em La Paz caso este declinasse o tentador convite do clube de Buenos Aires. Quiçá influenciado pelo chefe de Estado do seu país - do qual não se sabe se cumpriu ou não com a promessa feita ao nativo de Tupiza - ou pela paixão que o seu povo tinha por si, Ugarte foi rejeitando convites atrás de convites ano após ano, permanecendo no pobre campeonato boliviano onde com as cores do Bolivar arrecada não só os títulos de campeão nacional em 50, 53, e 56, mas sobretudo continua a encantar os adeptos com jogadas artísticas que muitas vezes resultavam em golos de beleza sublime. 
Até que em 1958 decide dar ouvidos à sua amada Graciela, a sua esposa, que sempre o incentivara a procurar melhores condições de vida fora da terra natal. Ugarte aceita então uma proposta do San Lorenzo, emblema argentino que fez de tudo para o contratar, sobretudo depois de um ano antes o ter visto a humilhar a poderosa Argentina, que rastejou aos pés de Ugarte no infernal teto do Mundo como é conhecida La Paz no seio do futebol. Ainda hoje quando o nome de Ugarte salta para cima da mesa das tertúlias futebolísticas é de imediato recordada essa célebre vitória da seleção boliviana sobre os argentinos por 2-0, a primeira da história do futebol boliviano sobre a equipa das pampas.

Levado em ombros após
a épica conquista de 63
Porém, em solo argentino Victor Ugarte não se sentiu feliz. Não por ter sido mal tratado pelos dirigentes, colegas, ou adeptos do seu novo emblema, mas simplesmente porque na Argentina encontrou um ambiente escaldante em torno do futebol, ao qual estava pouco habituado na pacata Bolívia. O ambiente fanático tão comum nos campos de futebol argentinos assustou de certa forma Ugarte, que nas canchas daquele país esteve muito longe de mostrar todo o seu talento. Viajou em seguida para a Colômbia, onde encontrando um clima mais calmo perpetuou nos relvados as famosas gambetas, ao serviço do Once Caldas. Por terras colombianas juntou algum dinheiro, que permitiu-lhe viver junto da sua amada Graciela e dos seus quatro rebentos de forma algo desafogada durante algum tempo.
Apesar de longe dos seus olhos a Bolívia jamais o esqueceu, nem Victor deixava que isso acontecesse, pois em 1963, o tal ano mágico do futebol boliviano, ele é um dos imprescindíveis na seleção orientada pelo brasileiro Danilo Alvim - estrela do futebol brasileiro dos anos 40 - para vestir as cores de La Verde na Copa América que o país recebia. Apesar da idade avançada - 37 anos - Ugarte aceita o desafio para defender o seu país por uma última vez, naquela que era a sua quinta presença numa Copa América.

A estátua de Victor Ugarte
em Tupiza
O peso da idade não se fez notar, e juntamente com figuras notáveis do futebol boliviano de então como Wilfredo Camacho, Máximo Alcócer, Fortunato Castillo, ou Eduardo Espinoza guiou La Verde até ao tal momento más lindo de su vida. No jogo final da competição o gigante Brasil caiu por 5-4, sendo memorável a exibição de Ugarte, autor não só de dois golos como de lindas jugaditas que permitiram à Bolívia conquistar um lugar na história do futebol.
Ugarte ainda atuou mais uma temporada (67/68) pelo Bolivar antes de se retirar definitivamente do palco do belo jogo. El Maestro nasceu e morreu na miséria. A 20 de março de 1995 a Bolívia verteu lágrimas ao receber a notícia da morte do maior jogador da sua história, um homem que continua a viver na memória dos poucos comuns mortais que tiveram o prazer de o ver atuar.
O rei do futebol boliviano tem o seu nome perpetuado no estádio de futebol mais alto do Mundo (!), localizado em Potosi, a quase 4000 metros acima do nível do mar, além de que na sua cidade natal, Tupiza, foi erguida uma estátua que imortaliza a sua lendária figura.

Flashes do Malta 2014/Europeu de Sub-17 (15)...

Final

Holanda - Inglaterra: 1-1 (1-4 nas grandes penalidades)

Golos: Schuurman / Solanke

Equilíbrio desfeito na lotaria das grandes penalidades...

segunda-feira, maio 19, 2014

Flashes do Malta 2014/Europeu de Sub-17 (14)...

Meias-finais

Holanda - Escócia: 5-0

Golos: Verdonk, Nouri, Bergwijn, Owobowale, Van der Moot

Sonho escocês virou pesadelo...

Flashes do Malta 2014/Europeu de Sub-17 (13)...

Meias-finais

Portugal - Inglaterra: 0-2

Golos: Solanke, Roberts

Bravos portugueses sucumbiram ante uma demolidora Inglaterra...

sexta-feira, maio 16, 2014

Flashes do Malta 2014/Europeu de Sub-17 (12)...

Grupo B / 3ª Jornada

Suíça - Escócia: 1-3

Golos: Oberlin / Wighton, Sheppard, Hardie

Contra todas as previsões iniciais jovens "Highlanders" conquistam as meias-finais...

Flashes do Malta 2014/Europeu de Sub-17 (11)...

Grupo B / 3ª Jornada

Portugal - Alemanha: 1-0

Golo: Pedro Rodrigues

Lusos avançam para a fase seguinte só com vitórias na bagagem...

quinta-feira, maio 15, 2014

Flashes do Malta 2014/Europeu de Sub-17 (10)...

Grupo A / 3ª Jornada

Inglaterra - Holanda: 0-2

Golos: Verdonk, Van der Moot

Num duelo de gigantes os pequenos holandeses asseguram o lugar mais alto dogrupo...

Flashes do Malta 2014/Europeu de Sub-17 (9)...

Grupo A / 3ª Jornada

Turquia - Malta: 4-0

Golos: Alici (2), Aktay (2)

Anfitriões dizem adeus ao Euro sem honra nem glória...


terça-feira, maio 13, 2014

Flashes do Malta 2014/Europeu de Sub-17 (8)...

Grupo B / 2ª Jornada

Alemanha - Escócia: 0-1

Golo: Wright

Escoceses fazem história ao obter a primeira vitória de sempre na fase final de um Europeu de sub-17...

Flashes do Malta 2014/Europeu de Sub-17 (7)...

Grupo A / 2ª Jornada

Malta - Holanda: 2-5

Golos: Mbong, Friggieri / Schuurman (3), Bergwijn (2)

De goleada em goleada malteses dizem matematicamente adeus à fase seguinte onde já está a jovem laranja mecânica...

segunda-feira, maio 12, 2014

Flashes do Malta 2014/Europeu de Sub-17 (6)...

Grupo B / 2ª Jornada

Suíça - Portugal: 0-1

Golo: Luís Mata

Golo solitário foi suficiente para abrir as portas das meias-finais aos portugueses...

Flashes do Malta 2014/Europeu de Sub-17 (5)...

Grupo A / 2ª Jornada

Inglaterra - Turquia: 4-1

Golos: Solanke (2), Kenny, Armstrong / Unal

Nova goleada garante meias-finais aos súbitos de Sua Majestade e dita adeus turco à competição...

sábado, maio 10, 2014

Flashes do Malta 2014/Europeu de Sub-17 (4)...

Grupo A / 1ª Jornada

Malta - Inglaterra: 0-3

Golos: Roberts (2), Armstrong

Anfitriões mostram o porquê de serem um dos parentes pobres do futebol internacional...

Flashes do Malta 2014/Europeu de Sub-17 (3)...

Grupo B / 1ª Jornada

Portugal - Escócia: 2-0

Golos: Renato Sanches, Luís Mata

Lusos confirmam favoritismo (ao título) na estreia...

sexta-feira, maio 09, 2014

Flashes do Malta 2014/Europeu de Sub-17 (2)...

Grupo B / 1ª Jornada

Alemanha - Suíça: 1-1

Golos: Henrichs / Babic

Panzers esbarram no sólido muro helvético...

Flashes do Malta 2014/Europeu de Sub-17 (1)...

Grupo A / 1ª Jornada

Holanda - Turquia: 3-2

Golos: Verdonk, Nouri, Ould-Chikh / Unal, Aktay

Primeiro grande evento futebolístico (de cariz internacional) realizado no arquipélago de Malta abre com festejos em tons de laranja...

segunda-feira, maio 05, 2014

O primeiro xeque-mate boavisteiro foi há 100 anos

Histórica equipa do Boavista que em 1914 venceu a primeira edição do Campeonato do Porto
Nascidos no mesmo berço - a mui nobre cidade do Porto - Futebol Clube do Porto e Boavista Futebol Clube desde os primeiros anos de vida que ergueram entre si uma cortina de uma acérrima rivalidade bairrista que ao longo de mais de um século de história deu aso a inúmeros capítulos empolgantes e épicos. Rivalidade intensa que em diversas ocasiões ultrapassou as fronteiras das quatro linhas, como aconteceu, por exemplo, em 1912, ano em que a Associação de Futebol do Porto (AFP) é fundada - no dia 10 de agosto - por influência de portistas... e leixonenses. FC Porto e Leixões foram pois os dois emblemas responsáveis pela edificação daquela que é hoje em dia a maior associação distrital de futebol do país - no que a número de clubes e atletas diz respeito - deixando de lado desta empreitada histórica o outro grande clube da região, o Boavista Football Club, que ao que parece andava de candeias às avessas com os vizinhos azuis e brancos.

O emblema do
Boavista Football Club em 1914
Não tardou muito a surgir a vingança - por assim dizer - boavisteira, que menos de dois anos após a fundação da AFP ousou contrariar as leias da supremacia portista dentro da associação ao vencer a primeira edição do Campeonato do Porto. Feito assegurado há precisamente 100 anos, altura em que recém fundada AFP decide erguer o seu próprio campeonato, criando desde logo uma espécie de braço de ferro com a primeira competição que viu a luz do dia no norte do país, a Taça José Monteiro da Costa, prova sobre a qual o Museu Virtual do Futebol já dedicou largas linhas num passado não muito distante, e que, recorde-se, foi criada em memória do (re)fundador do FC Porto, precisamente José Monteiro da Costa, sendo esta durante a sua curta existência - entre 1910 e 1916 - encarada como o campeonato do Norte. Talvez por isso os portistas não terão dado grande importância ao primeiro regional do Porto, o qual foi olhado como uma prova de segundo plano, a julgar pelo facto de terem enviado a sua equipa de reservas para o pontapé de saída do campeonato organizado sob a égide da AFP. Pontapé de saída que seria dado a 4 de janeiro de 1914, no Campo do Bessa, a casa de um Boavista que na altura, ao que parece, (já) havia feito as pazes com os vizinhos da Constituição - a catedral que o FC Porto havia inaugurado precisamente um ano antes. E ao que parece pois os azuis e brancos num gesto de cortesia cederam um dos seus três guarda-redes aos vizinhos da avenida (da Boavista), neste caso Cecil Wright, que era a terceira escolha para a baliza dos dragões, atrás de Manuel Valença e de Peter Janson.

A equipa do FC Porto que socumbiu aos pés do Boavista
Pois bem, o Bessa encheu para ver as duas equipas mais representativas da cidade darem o citado pontapé de saída no Campeonato do Porto, que para além de boavisteiros e portistas teve igualmente como integrante o conjunto do Leixões. Como já foi dito a cabeça dos portistas estava na reconquista da Taça José Monteiro da Costa, perdida na temporada anterior para a Académica de Coimbra, pelo que no Campo do Bessa evoluiu com a camisola azul e branco um misto composto por habituais titulares e reservistas. Rezam no entanto as crónicas de então que apesar de «actuar desfalcadíssimo (o FC Porto) dominou a contenda, mas a falta de remate não lhe permitiu obter resultado favorável». A falta de remate e a tarde de verdadeira inspiração de... Cecil Wright, o inglês que os portistas cederam gentilmente aos boavisteiros, que ao que dizem fez intervenções... impossíveis, quiçá tentando mostrar - com algum sentimento de revolta à mistura - à casa mãe o erro que esta tinha cometido em autorizar a sua dispensa. Com a sua baliza bem segura e com um meio campo muito bem organizado sob a batuta de outro inglês, nesta caso Pye, o Boavista venceu o eterno rival por 2-1, dando assim o primeiro passo de uma caminhada que haveria de ser de glória.

Logotipo da AFP
Ainda longe de envergaram o tradicional - equipamento - xadrez  que os iria tornar populares não só em território nacional como em diversas paragens além fronteiras, os boavisteiros - que na época usavam camisola preta, calção branco, e meia preta - voltariam a entrar em campo no Regional da AFP a 25 de janeiro, dia em que receberam o frágil Leixões, a julgar pelo resultado de 9-0 com que os matosinhenses saíram do Bessa. Leixões que a 9 de fevereiro vendeu cara a derrota - caseira - diante do FC Porto por 2-3, fazendo desta forma com que o desafio alusivo à 4ª jornada, a realizar no Campo da Constituição entre portistas e boavisteiros, tivesse contornos de final, já que uma vitória - ou empate - dos visitantes dava-lhes praticamente o título de campeões, ao passo que um triunfo azul e branco relançava o interesse em redor da prova. O reduto do FC Porto encheu para presenciar o duelo do título, realizado a 1 de março, e ao que dizem as crónicas «renhido do princípio ao fim por duas equipas muito iguais». Os golos surgiram apenas na segunda parte, sendo o primeiro da autoria do boavisteiro Fernandes, na sequência de um pontapé de canto. Os portistas restabeleceram a igualdade por intermédio de Charles Allwood, não conseguindo traduzir em mais golos as suas restantes incursões à baliza de Cecil Wright, que mais uma vez foi a figura do jogo (!) ao defender quase tudo o que havia para defender. O guarda-redes do FC Porto emprestado ao Boavista segurou a preciosa igualdade a uma bola com que o jogo findou, e praticamente selou as contas do campeonato, que a 5 de abril encerraria com a definitiva consagração boavisteira no terreno do Leixões, traduzida em mais uma vitória - por números no entanto desconhecidos.
Com 7 pontos somados - contra apenas 5 do FC Porto - e um impressionante registo de 22 golos apontados e apenas dois sofridos o Boavista escrevia assim a sua primeira página de glória pela mão de imortais como Cecil Wright, A.Valente, Camposo, H. Valente, Nunes, Pye, Alvedos, Vasconcelos, Bastos, Reid, e Fernandes, os 11 heróis do título.

sexta-feira, maio 02, 2014

ENTREVISTA: O endiabrado Marlon Brandão retira do seu baú de memórias alguns momentos de uma brilhante carreira


O fascínio pelas redes adversárias sempre
acompanhou Marlon Brandão ao longo
da sua caminhada no planeta do futebol
Ele foi um dos maiores pesadelos dos defesas do futebol português nas décadas de 80 e 90. Dono de um drible desconcertante aliado a uma velocidade vertiginosa ele perpetuou a sua figura na mente dos adeptos do belo jogo, na mente de todos aqueles que exultavam com o futebol espetáculo, há que sublinhá-lo. Ele é Marlon Brandão, o endiabrado Marlon que nos relvados por si pisados desenhou verdadeiras obras de arte que hoje o Museu Virtual do Futebol tem o prazer de recordar ao receber - com honra - a visita deste artista nascido a 1 de setembro de 1963 na cidade paulista de Marília. Por nós acompanhado numa cativante viagem ao passado o antigo craque da bola com nome de estrela de cinema - Marlon Brando - reviveu alguns dos principais capítulos da sua inesquecível história no planeta do futebol, com destaque para o período vivido em Portugal, onde foi o terror de uma série de zagueiros cujos nomes prefere nem se lembrar em virtude das duras placagens de que foi alvo. A glória alcançada ao serviço do Boavista, a curta mas feliz passagem pelo Estrela da Amadora, e o período de seca (de títulos) vivenciado em Alvalade foram alguns dos temas retirados do baú das memórias de uma lenda que hoje - na casa dos 50 anos - continua ligada ao mundo da modalidade que tanto ama, agora na qualidade de empresário. A bola é tua Marlon.

Museu Virtual do Futebol (MVF): Como todas as histórias também a do Marlon Brandão teve um início...
Marlon Brandão (MB): ...É. A minha história começou na minha cidade natal, Marília, no Estado de São Paulo, onde com 17 anos fui chamado ao time principal do Marília Atlético Clube, que naquela época (princípio da década de 80) disputava um dos melhores campeonatos do Brasil, o famoso Paulistão (nota: a alcunha pelo qual é popularmente conhecido o Campeonato Estadual de São Paulo). Depois disso segui para o Guarani de Campinas, onde estive durante três anos, a jogar na 1ª Divisão brasileira, tendo tido como companheiros grandes jogadores brasileiros, como por exemplo, o Careca, que foi internacional e jogou no Napoli juntamente com o Maradona


Careca e Marlon,
nos tempos do Guarani
MVF: Se não me engano, foi durante a sua estadia em Campinas que o Marlon passou a atuar nas alas, pois em Marília, onde permaneceu até 1982, era um matador de área, ou seja, jogava como avançado-centro...
MB: Sim, é verdade. No Marília, onde fiz a minha formação como futebolista, eu comecei a jogar como centro avante, pois apesar da minha (baixa) estatura eu cabeceava bem, além de que também rematava bem e tinha muita garra, o que incomodava muito os defesas contrários. Era igualmente um jogador com muita velocidade, com um bom drible, e foi efetivamente no Guarani que comecei a treinar na linha. 

MVF: E assim começou a saga do endiabrado Marlon, o homem dos dribles desconcertantes construídos a uma velocidade vertiginosa para os defesas contrários. Contudo, e olhando para a história, em Campinas o Marlon apenas aprimorou, digamos assim, um talento que viria a ser aproveitado mais tarde por outros emblemas.
MB: Depois do Guarani eu fui emprestado ao Esportivo de Bento Gonçalves, do Rio Grande do Sul, em 1984, e lá fiz um belíssimo campeonato, em que se não me engano apontei 10 golos. Foi nessa altura que fui contactado pelo treinador Ernesto Guedes, que me viu jogar e me indicou ao Santa Cruz do Recife, onde posteriormente fui então emprestado por um ano. Nesse ano de 1985 eu fiz um grande campeonato brasileiro com a camisa do Santa Cruz, marquei 8 golos no Brasileirão (nota: a alcunha pelo qual é conhecida a Série A do Campeonato do Brasil) e 12 no campeonato de Pernambuco. Foi então que o Santa Cruz comprou em definitivo o meu passe ao Guarani, e posso dizer que passei grandes momentos em Pernambuco, onde fui ídolo com a camisa do Santa Cruz, e até hoje os torcedores têm o maior carinho e respeito por mim. 

Marlon, festeja um golo
com a camisola do Santa Cruz
MVF: Em Pernambuco o endiabrado Marlon mostrou-se ao mundo do futebol...
MB: Como já disse passei grandes momentos nos dois anos que joguei pelo Santa Cruz. Fui campeão estadual em 1986, fiz grandes jogos no Campeonato Brasileiro, e isso valeu-me a chamada à seleção de novos (nota: também conhecida por seleção de base) do Brasil para disputar o Campeonato Sul-Americano, que nesse ano decorreu no Chile...

MVF: ... Recorde-nos esse momento histórico da sua carreira, o momento em que envergou a mítica camisa do escrete.
MB: Recordo-me que o selecionador era o Jair Pereira, que trabalhou em clubes como o Fluminense, Bofafogo, Corinthians, entre outros. O nosso capitão de equipa era o Dunga, que toda a gente conhece. Quanto a mim, posso dizer que tive uma boa participação nesse campeonato, joguei bem nos três jogos que disputei. Infelizmente perdemos nas meias-finais com a Colômbia, no desempate através de grandes penalidades, tendo acabado por nos classificar em terceiro lugar. Guardo pois boas memórias dessa minha experiência com a seleção.



Em representação da seleção de base
do Brasil, aqui a defrontar a Colômbia
MVF: Foram essas boas exibições pela seleção de base aliadas às excelentes épocas patenteadas pelo Santa Cruz que o ajudaram a conquistar o passaporte para o futebol europeu? Isto, porque, e olhando para as datas, foi precisamente em 86 que as portas do futebol europeu se abriram para o Marlon.
MB: Bom, antes de ir para Portugal apareceram várias propostas de clubes brasileiros, já que eu tinha realizado dois bons campeonatos brasileiros. Entre outras recordo-me que recebi propostas do Internacional e do Palmeiras, último clube este do qual eu era, e sou ainda, adepto. Mas foram propostas que não me interessaram muito, e foi em seguida que apareceu o Sporting que me fez uma proposta sobre a qual nem pensei duas vezes. Aceitei de imediato. 

MVF: O nome do Sporting era-lhe familiar?
MB: Sim, o nome do Sporting era muito conhecido aqui no Brasil. Recordo que na época (1986/87) jogavam lá alguns brasileiros, como por exemplo o Duílio, o Silvinho, ou o Mário. E o que posso dizer é que fui bem recebido assim que cheguei. Recordo, no entanto, que a adaptação no início foi difícil, sobretudo ao nível do clima, pois não é fácil sair de Recife com temperaturas a rondar os 40 graus e chegar a Lisboa com os termómetros a marcarem 5 graus. Mas depois tudo foi tranquilo. 


No período em
que vestiu a camisola
do Sporting


MVF: Esteve três temporadas em Alvalade, sendo que pelo meio ainda foi emprestado ao Estrela da Amadora, em 88/89. Porém, no Sporting viveu o período da chamada "seca de títulos", sendo a exceção a Supertaça Cândido de Oliveira de 86/87, conquistada diante do Benfica, dois jogos em que o Marlon foi suplente utilizado. Uma supertaça que no entanto soube a pouco para um clube que estava sedento de títulos nacionais desde 1982...
MB: Eu fiz um bom trabalho no Sporting, e de facto apenas faltou conquistar um título de campeão nacional. Não foi por falta de qualidade do grupo, que sempre teve grandes jogadores. Lembro, por exemplo, do Vítor Damas, Manuel Fernandes, Oceano, Venâncio, o bi-bota (de ouro) Fernando Gomes, Luisinho, Douglas, Duílio, Mário, Silvinho, lembro ainda do Figo, que na época era um garoto que treinava muitas vezes com o plantel principal, o Carlos Manuel, o meu amigo Fernando Mendes, puxa, tanta gente com quem tive o prazer de trabalhar, todos eles grandes jogadores, e como tal não foi por falta de qualidade que o Sporting não foi campeão nesse período em que estive lá. Como você falou estive uma época no Estrela da Amadora, clube para o qual fui emprestado na sequência de alguns problemas que tive com o então treinador do Sporting (nota: António Morais) e recordo que fiz uma boa época na Reboleira, além de que guardo excelentes recordações do clube, no qual fui muito bem acolhido por todos, desde o presidente, passando pelo treinador João Alves, pelos meus companheiros, e pela torcida.


MVF: Facto curioso que sobressai na estadia de oito temporadas do Marlon em Portugal é a sua veia goleadora em finais de Taça de Portugal!
MB: Pois é, disputei três finais de taça, uma pelo Sporting (em 1987 contra o Benfica) e duas pelo Boavista (uma ante o FC Porto em 1992, e outra diante do Benfica no ano seguinte), e fiz golos em todas elas. 
A equipa do Boavista que no relvado do Jamor venceu a Taça de Portugal de 1992
MVF: Por falar em Boavista, a sua carreira no Bessa, onde chegou em 90/91, é ainda hoje por muitos considerado o melhor período do Marlon Brandão ao serviço do futebol português. Foram de facto quatro épocas douradas de xadrez vestido...
MB: Na verdade no Boavista tudo foi ótimo! Vencemos uma Taça de Portugal (em 1992) com uma vitória sobre o FC Porto, em que fiz um golo de cabeça, e em cima do mesmo Porto vencemos a Supertaça Cândido de Oliveira com dois golos meus. Fui muito feliz no Bessa, onde convivi com grandes nomes do futebol, gente muito boa, como o Alfredo, o Paulo Sousa, o Caetano, o Casaca, o João Vieira Pinto, o Ricky, o Artur, o Lemajic, o Nélson Bertollazi, o Pedro Barny, entre outros. Ah, não me posso esquecer da eliminatória da Taça UEFA de 1991/92 contra o poderoso Inter de Milão, que era o detentor do troféu, e que tinha grandes nomes internacionais, como o Klinsmann, o Matthaus, o Brehme, ou o Zenga, e que no Bessa perdeu 2-1, tendo eu feito um dos golos, golo esse que até hoje recordo, já que foi um dos mais bonitos e importantes da minha carreira. Nesse jogo demos uma lição de humildade aos jogadores do Inter, que antes do encontro haviam dito que nós (Boavista) éramos o clube das camisolas esquisitas e depois... deu no que deu. No futebol, como na vida, tem de haver humildade, certo? Pois bem, volto a dizer que fui muito feliz no Boavista, assim como o fui no Estrela, e no Sporting, onde apenas faltou um título de campeão nacional. 

Marlon segura a Supertaça
Cândido de Oliveira que ajudou
a conquistar com dois golos seus
MVF:  No Bessa conviveu com uma figura marcante na história do clube, o major Valentim Loureiro.
MB: Tudo o que posso dizer sobre ele é que sempre foi correto comigo.

MVF: E treinadores, quais os nomes que o marcaram durante a sua passagem por Portugal?
MB: Sem dúvida alguma o mister Manuel José, que aliás me trouxe para Portugal, para o Sporting, e o João Alves, com quem trabalhei no Estrela e me levou para o Boavista. 


MVF: Recordando o seu estilo diabólico, com sprints serpenteantes que punham a cabeça dos defesas contrários à roda, também deve reter na memória alguns nomes das vítimas do seu futebol rendilhado.
MB: Puxa, zagueiros duros encontrei muitos ao longo da minha carreira, tanto no Brasil como em Portugal. Sempre fui vítima de entradas violentas por parte de alguns deles em consequência da minha forma de jogar. Batiam-me tanto que nem gosto de me lembrar dos nomes deles (risos). Eram muito maldosos, sim, mas já faz tanto tempo que nem vale a pena falar em nomes.


Infernizando a vida aos adversários
com as cores do Valladolid
MVF: Terminou a carreira no futebol europeu na temporada de 93/94, altura em que deixou Portugal para rumar a Espanha, onde trabalhou no Valladolid, embora sem o sucesso granjeado em solo lusitano...
MB: Sim, confesso que em Espanha as coisas podiam ter corrido melhor, mas mesmo assim recordo essa passagem pelo Valladolid, da 1ª Divisão espanhola, como uma boa experiência. À semelhança de Portugal encontrei lá boas pessoas, que foram sempre muito corretas comigo. 

MVF: Olhando para o presente, onde o Marlon continua ligado ao futebol, agora na qualidade de empresário. Hoje em dia são muitas ou poucas as semelhanças com o futebol do seu tempo?
MB: Olha, na minha época era tudo muito diferente. Jogávamos com amor à modalidade, e hoje tem cada jogador que vou-te contar... Jogadores muito fracos, mas que são muito bem pagos. Imagina se hoje o Futre, um jogador que eu adorava ver atuar, ou o Maradona jogassem, pensa só quanto eles iriam ganhar por ano!


Marlon, com as cores da canarinha
MVF: Não posso encerrar esta visita ao Museu sem antes pedir a sua opinião sobre um evento que daqui a poucos dias vai decorrer ai no Brasil, o Campeonato do Mundo. Quais as suas previsões para essa Copa.
MB: No aspeto desportivo as minhas espectativas são as melhores, ou seja, acho que o Brasil pode ganhar a copa, vai ser difícil mas pode alcançar o hexa campeonato. Agora, quando se fala em estruturas acho que a copa vai ser um fracasso, pois o país não está preparado para receber um evento como esse. Infelizmente, vocês vão ver que eu tenho razão quando o campeonato começar. Gastaram muito dinheiro na construção de estádios, mas em muitos Estados falta ainda muita coisa no que diz respeito a estruturas. Essa Copa vai ser um caos!

MVF: É esperar para ver. Bem Marlon, só podemos agradecer-lhe o facto de ter aceite o nosso convite para visitar o Museu Virtual do Futebol e recordar, ainda que ao de leve, alguns episódios da sua brilhante carreira...
MB: ... Eu confesso que não gosto muito de dar entrevistas, mas aceitei esse convite em consideração a um país (Portugal) onde sempre fui tratado com carinho e respeito. Envio daqui um grande abraço para todo o povo português, esperando que o país saia rapidamente dessa crise financeira pela qual está passando de momento.

MVF: É, a crise, palavra maldita para um povo admirador do talento bruto de um dos melhores jogadores do campeonato português dos finais dos anos 80 e principios de 90, um dos atletas responsáveis pela minha eterna paixão pelo belo jogo, um dos meus ídolos de menino. Foi pois com enorme satisfação que troquei estas palavras com uma lenda eterna do futebol, com um grande senhor, que além de craque - ou ter sido um craque - prima por uma simplicidade e simpatia extrema, característica pouco comum no futebol de hoje. Infelizmente. Obrigado Marlon.