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sexta-feira, maio 23, 2014

Figuras do apito (4)... Vieira da Costa - A estreia de Portugal no grande palco do Campeonato do Mundo

Vieira da Costa
no Mundial de 1950
Aproveitando a boleia do Campeonato do Mundo de 2014, que dentro de pouco mais de duas semanas irá ter lugar no Brasil, é hoje curioso verificar que foi precisamente em Terras de Vera Cruz que o nome de Portugal apareceu pela primeira vez no maior dos palcos do futebol internacional, o mesmo será dizer o Mundial. Facto ocorrido em 1950, uma Copa de má memória para os brasileiros - como já é por demais sabido - onde a nação lusa se fez representar por um dos seus mais conceituados árbitros das décadas de 30, 40 e 50, Vieira da Costa a sua graça.
Nascido na cidade do Porto - mais concretamente na freguesia do Bonfim - a 13 de fevereiro de 1908, José Vieira da Costa foi ao longo da sua carreira um exemplo vincado de competência aliada à seriedade no sempre complicado mundo da arbitragem, um cartão de visita que lhe valeu inúmeras distinções, a maior de todas elas o convite da FIFA para que estivesse presente em dois Campeonatos do Mundo consecutivos!
A carreira do primeiro árbitro português a marcar presença em Mundiais começou no início da década de 30, num período em que o panorama futebolístico lusitano se resumia aos campeonatos regionais e ao Campeonato de Portugal, este último que viria a ser transformado no final da citada década na Taça de Portugal dos dias de hoje. Foi pois nestas competições que o árbitro filiado na Associação de Futebol do Porto começou a evidenciar as suas qualidades de prestigiada figura do apito. Com a criação do Campeonato Nacional da 1ª Divisão em 1934/35 Vieira da Costa foi por diversas ocasiões nomeado para dirigir jogos de alto gabarito, popularmente designados como clássicos. Neste campo destacam-se vários dérbis entre Benfica e Sporting, tendo o primeiro deles ocorrido curiosamente na primeira edição do Nacional da 1ª Divisão, quando a 10 de fevereiro de 1935 benfiquistas e sportinguistas empataram a uma bola no Campo das Amoreiras. Também na prova rainha do futebol lusitano, a Taça de Portugal, o juiz portuense deixou marca ao apitar duas finais, a primeira delas em 1942, ano em que o Belenenses se impôs ao Vitória de Guimarães por 2-0 no Campo do Lumiar (Lisboa), ao passo que a segunda ocorreu 13 anos (!) mais tarde, já na reta final do seu trajeto pelos caminhos da arbitragem, ao apitar mais um dérbi lisboeta entre Benfica e Sporting, no qual os encarnados levantaram a taça na sequência de um triunfo por 2-1 sobre o velho rival.

Vieira da Costa (o primeiro da esquerda para a direita)
fez a sua estreia em Mundias como árbitro auxiliar
do brasileiro Mário Gonçalves Vianna, no jogo
Espanha - Estados Unidos da América

Vieira da Costa foi internacional durante sete temporadas, tendo a sua entrada na alta roda internacional ocorrido na temporada de 1949/50. A sua primeira aparição além fronteiras deu-se nos Jogos Desportivos Centro Americanos e do Caribe, nos princípios de 1950, onde as suas boas atuações chamaram de pronto à atenção da FIFA, que na hora de recrutar os juízes para o Mundial que nesse mesmo ano iria decorrer no Brasil não teve dúvidas em incluir o portuense na lista de 27 árbitros selecionados.
No Brasil, Vieira da Costa desempenhou funções de árbitro auxiliar - papel que num passado não muito distante também era denominado de fiscal de linha. Estreou-se no Espanha - Estados Unidos da América, jogo alusivo à 1ª jornada do Grupo B, disputado em Curitiba, e que terminaria com a vitória espanhola por 3-1. Nos dois restantes encontros exibiu os seus conhecimentos na aplicação das regras do futebol no grande templo de futebol brasileiro, o Estádio do Maracanã, primeiro como bandeirinha do galês Benjamim Griffiths durante o Brasil - Jugoslávia (2-0), e por último no Brasil - Espanha (6-1) - referente à segunda fase da Copa - onde auxiliou o inglês Reginald Leafe.

Duelo entre a RFA e a Turquia na fase final
do Mundial de 1954, o qual teve como
árbitro principal o portuense Vieira da Costa
As boas performances de Vieira da Costa no Brasil fizeram com que quatro anos mais tarde fosse de novo convocado pela FIFA para o Mundial que decorreu na Suíça. Ai, com maior protagonismo, já que foi o árbitro principal do encontro entre a República Federal da Alemanha e a Turquia (4-1), integrado no Grupo B da primeira fase. Na qualidade de árbitro auxiliar estaria ainda presente em mais três encontros do Mundial helvético - todos eles referentes à primeira fase do certame - mais concretamente o Brasil - México (5-0), o Inglaterra - Suíça (2-0), e o Suíça - Itália (2-1).
Após deixar a arbitragem José Vieira da Costa - ao que se sabe - tornou-se um cidadão anónimo - no planeta da bola, pelo menos -, vindo a falecer a 6 de agosto de 1981.

quinta-feira, dezembro 05, 2013

Figuras do apito (3)... António Palhinhas - O despoletar de uma acesa rivalidade

António Palhinhas
Um pouco por todo o planeta da bola a palavra polémica encontra-se quase sempre acorrentada aos homens do apito. Desde os primórdios do futebol que o árbitro é a figura contestada sempre que algo corre mal para um dos lados em campo, mesmo que por vezes as suas decisões nenhuma interferência tenham tido num empate ou numa derrota comprometedora. Mas pronto, há sempre que arranjar um bode expiatório, e ninguém melhor do que o homem do apito para fazer de vilão no filme do jogo. O futebol português está repleto de vilões no que toca à arbitragem, e desde a sua juventude - no início do século XX - que o jogo viveu largas dezenas de episódios recambulescos.
A nossa figura do apito de hoje é António Palhinhas, uma lenda da arbitragem nacional que fez história no nosso futebol... no bem, e no mal.
Nascido em Setúbal, a 10 de maio de 1904 - como curiosidade sublinhe-se que este cidadão é apenas 11 dias mais velho que a FIFA, fundada a 21 de maio de 1924 - António dos Santos Palhinhas entrou no planeta da bola na qualidade de... jogador! Sabe-se que foi atleta - atuava como médio - do Vitória de Setúbal, tendo feito parte das equipas que disputaram os campeonatos de Portugal das épocas de 1927/28 e de 1928/29, não se conhecendo, contudo, mais registos sobre a carreira futebolística do jogador sadino.
Seria no entanto de apito na boca que ele se tornaria mais conhecido na história do futebol português. Como tantos jogadores daquela altura o fizeram, depois de pendurar as chuteiras enverdou pela carreira de árbitro. Não se sabe bem quando Palhinhas tomou esta decisão, mas presume-se que cedo, pois com 26 anos dirige o seu primeiro jogo oficial. Foi a 19 de abril de 1931, e logo numa das mais imponentes catedrais daquela época, vulgo, o Estádio do Lima, palco onde dirigiu um FC Porto / Casa Pia (2-1), a contar para a primeira mão dos oitavos-de-final do Campeonato de Portugal de 1930/31. Esta seria mesmo uma estreia de sonho para o árbitro sadino, que mais à frente seria nomeado para apitar a final desse mesmo campeonato, entre o Benfica e o FC Porto, duelo realizado em Coimbra - no Campo do Arnado - que os lisboetas venceram por 3-0.

Insígnias da FIFA
Na temporada seguinte apita apenas um jogo (Sporting / Lusitano de Évora) do Campeonato de Portugal, naquela altura a única competição nacional do futebol luso.
Porém, a época de 1932/33 foi uma das melhores da carreira do árbitro António Palhinhas. Apitou quatro encontros do campeonato, inclusive o da final, entre o Belenenses e o Sporting, que os primeiros venceram por 3-1. Mas aquando dessa final, realizada no Estádio do Lumiar, em Lisboa, Palhinhas já era árbitro internacional, estatuto que poucos homens do apito em Portugal haviam até então alcançado. Ele foi mesmo um dos primeiros lusos a receber as insígnias da FIFA, tendo arbitrado o seu primeiro encontro internacional - um amigável - a 21 de maio de 1933. Foi um Espanha / Bulgária, em Sevilha, que os nuestros hermanos venceram por expressivos 13-0, encontro este onde brilharam o médio espanhol Chacho - autor de seis golos - e o mítico guarda-redes Don Ricardo Zamora.
No plano interno Palhinhas continuaria nos anos seguintes a dirigir alguns encontros não só do Campeonato de Portugal como também do Campeonato Nacional da 1ª Divisão, prova que iria ver a luz do dia na temporada de 1934/35, tendo o árbitro de Setúbal apitado dois encontros - o Belenenses / União de Lisboa, e o Belenenses / Benfica - nessa temporada de estreia.

Responsável pela acesa rivalidade entre FC Porto e Benfica?

Lance da polémica meia-final da edição de estria da Taça de Portugal
Mas a carreira de António Palhinhas também ficou marcada por momentos menos positivos. O mais saliente de todos ocorreu na temporada de 1938/39, na qual fez a estreia a Taça de Portugal, prova que sucedeu ao Campeonato de Portugal, que em 37/38 conheceu a sua derradeira edição. Na nova prova tutelada pela Federação Portuguesa de Futebol (FPF), Palhinhas apitou três encontros, o primeiro deles nos oitavos-de-final, um Benfica / Luso Beja (3-0). Mas a polémica surgiu na segunda mão das meias-finais, quando foi nomeado para dirigir o Benfica / FC Porto. Portistas que na primeira mão, realizada no Lima, haviam vencido por 6-1, e poucos seriam aqueles que duvidavam que a primeira final da taça não iria ter os azuis-e-brancos como um dos convidados principais. Porém, em Lisboa, o impensável aconteceu. Como se já não bastasse o ambiente para lá de hostil onde foram recebidos os jogadores do FC Porto ainda esbarraram contra uma arbitragem muito caseira de António Palhinhas. Influenciado pelo ambiente explosivo das Amoreiras? Quem sabe. O que é certo é que o juíz sadino deu uma mãozinha preciosa para que os encarnados vencessem por 6-0 e assim garantissem presença na final. Reza a lenda que a determinada altura do jogo os dirigentes do FC Porto presentes nas bancadas deram ordens à sua equipa para abandonar o campo em sinal de protesto para com a atuação do árbitro, que entretanto havia expulsado do campo o portuense Reboredo e fazia vista grossa às bárbaras agressões de benfiquistas a portistas.

Academistas festejam a vitória na primeira taça da história
O que é certo é que este jogo menos conseguido de António Palhinhas não influenciou a escolha da FPF quanto ao nome do árbitro para dirigir no Campo das Salésias (Lisboa) a primeira final da Taça de Portugal. Palhinhas, pois claro foi o escolhido, mas com ambos os finalistas - Académica de Coimbra e Benfica - a torcer o nariz quanto a esta decisão. Este descontentamento benfiquista veio dar razão aos protestos do FC Porto: Palhinhas não era de confiança! No entanto, segundo as crónicas da época a final decorreu sem problemas de maior, e a Académica faria no final a festa após um triunfo por 4-3. É caso para dizer que polémica meia-final da taça de 1939 foi uma mancha numa carreira gloriosa, e são muitos aqueles que ainda hoje acusam António Palhinhas de ser o causador da acesa rivalidade entre FC Porto e Benfica, rivalidade essa que terá nascido - na sua verdadeira ascenção da palavra - após esse célebre encontro.
Até 1942, ano em que deu por encerrada a sua carreira, António Palhinhas dirigiu mais alguns encontros das duas competições nacionais - campeonato e taça - e teve ainda tempo para apitar pela segunda vez fora de portas, e novamente um amigável no qual participava a seleção espanhola, que a 15 de março de 1942 derrotava, de novo em Sevilha, a França por 4-0. António Palhinhas faleceu a 11 de dezembro de 1953.

quinta-feira, outubro 17, 2013

Figuras do apito (2)... John Lewis - O primeiro mestre do apito

O belga John Langenus pode até ter sido o primeira figura do apito a atrair até si os holofotes do mediatismo do futebol internacional, mas muito antes desta lenda outra estrela brilhou no sempre polémico mundo da arbitragem. Falamos do inglês John Lewis, afamado juíz internacional que em 1908 teve a honra de apitar a primeira grande final internacional oficial da história do belo jogo. Mas já lá vamos. Lewis, que nasceu a meio do século XIX (1848) na pequena cidade de Market Drayton, próxima do País de Gales, teve a honra de ver nascer o modern football no seio da Velha Albion. A sua ligação ao jogo iniciou-se quando era ainda um jovem estudante na Shrewsbury School. Nos intervalos das aulas aprimorou o gosto pela prática do jogo que então vivia os seus primeiros anos, sendo que em meados de 1868 muda-se para Blackburn, uma cidade que na época encarava com maior fervor o cricket do que o jovem futebol. Cerca de sete anos mais tarde, juntamente com o seu amigo de longa data dos tempos da Shrewsbury School, Arthur Constantine, organiza no St. Leger Hotel uma reunião cujo ponto único prendia-se com a fundação de um clube de futebol na cidade. Dessa reunião nasce a 5 de novembro desse ano de 1875 o Blackburn Rovers Football Club, tendo a Lewis sido entrega a responsabilidade de ficar com o cargo de tesoureiro do clube.
Tesoureiro e jogador, pois claro, sendo que cerca de um mês mais tarde após a sua fundação o Blackburn Rovers disputa com o Preston o primeiro jogo oficial, com um onze composto por Alfred Birtwistle, Walter Duckworth, J. T. Syckelmoore, Thomas Greenwood, Harry Greenwood, Jack Baldwin and Arthur Constantine, e obviamente, John Lewis.
A performance do jovem Lewis enquanto soldado nos campos de batalha, o mesmo é dizer futebolista, foi curta. Dos relvados aos gabinetes o caminho foi curto. Em 1879 ele ajuda a fundar Lancashire Football Association, uma espécie de associação regional, sendo que pouco depois é nomeado secretário da Worcestershire Football Association, posto que desempenhou com elevada distinção durante 21 anos.
Em simultâneo com o posto de dirigente ele inicia uma brilhante carreira no mundo da arbitragem, desempenho que lhe iria valer com o passar dos anos o pomposo cognome de Príncipe dos Árbitros.
Em finais do século a FA Cup (Taça de Inglaterra) além de ser a comprtição mais antiga do planeta futebolístico era igualmente a mais afamada, pelo que atingir a final era o prémio mais ambicionado por jogadores, treinadores, e árbitros da Great Britain. Na qualidade de melhor árbitro inglês daquele tempo John Lewis teve o privilégio de dirigir três FA Cup finals, tendo a primeira delas ocorrida a 20 de abril de 1895, a qual colocou frente a frente o Aston Villa e o West Bromwich Albion, com os primeiros a levantarem o famoso troféu após uma vitória por 1-0.

Dois anos mais tarde Lewis é de novo chamado ao Crystal Palace de Londres - a primeira grande catedral da bola britânica - para apitar mais uma final da FA Cup, e de novo com o Aston Villa como um dos atores da peça futebolística, sendo que do outro lado estava o Everton, que para Liverpool levou na bagagem uma derrota por 2-3.
1898 é um ano marcante para Lewis, que por esta altura era já um nobre e respeitado cavalheiro no seio do football britânico. Numa altura em que desempenhava já o cargo de vice-presidente da Football Association - federação inglesa de futebol - arbitra o seu primeiro jogo internacional, ocorrido a 26 de março desse ano, em Belfast, entre a Irlanda do Norte e a Escócia (0-3). Cerca de 15 dias mais tarde volta ao Crystal Palace para dirigir a terceira e última FA Cup final da sua carreira, entre o Nottingham Forest e o Derby County (3-1).

Até 1908 ele apitou mais cinco partidas internacionais entre seleções, e quando Londres recebeu as Olimpíadas desse ano os organizadores do evento não tiveram dúvidas em convidar o veterano Lewis para arbitrar o jogo decisivo daquele que era o primeiro grande momento do futebol internacional. Não será pois demais recordar que os torneios olímpicos de futebol de 1900 e 1904 não foram mais do que meras demonstrações da modalidade, protagonizdas por clubes e/ou colégios locais, e não por seleções nacionais, pelo que a FIFA apenas oficializa os torneios olímpicos a partir de 1908. E naqueles dias vencer os Jogos Olímpicos - no que a futebol diz respeito - era o equivalente a vencer o campeonato do Mundo, que na sua ascenção da palavra só iria ver a luz do dia em 1930. 
Final olímpica - ou mundial - de 1908 que foi disputada no White City londrino, entre a equipa da casa, o combinado da Grã-Bretanha, e a Dinamarca, tendos os primeiros vencido por 2-0 e desta forma se auto-proclamado campeões do Mundo. Ah, o árbitro, foi John Lewis, pois claro, que no dia dessa primeira grande final internacional tinha... 60 anos de idade!
Mas a caminhada do afamado juíz no mundo da arbitragem estava ainda bem longe de entrar na reta final. Quase duas décadas mais tarde, em 1920, ele é de novo convidado a arbitrar na fase final de um torneio olímpico, numa altura em que detinha a bonita idade de 72 anos! Sim, 72 anos! Facto que desde logo fez dele o árbitro cuja carreira maior longevidade atingiu no planeta da bola. Em Antuérpia, sede dos Jogos de 1920, Lewis dirigiu dois encontros, sendo o primeiro deles a meia final que opôs a equipa da casa, a Bélgica, aos vizinhos da Holanda, que terminou com o triunfo dos primeiros por 3-0. No dia seguinte ao encontro o jornal belga L'Action Nationale teceu rasgados elogios à atuação do veteranissimo juíz, considerando como a pessoa mais do que indicada para apitar a esperada final entre belgas e checoslovacos.
Porém, esta final é quiçá o momento mais negativo da longa e brilhante carreira do árbitro inglês. Sobre os acontecimentos do duelo decisivo dos Jogos de Antuérpia já traçámos algumas linhas aquando da visita pormenorizada ao torneio olímpico desse ano - na nossa rubrica Futebol nos Jogos Olímpicos.
E é precisamente o texto alusivo a essa final que agora vamos recordar:
No dia 2 de setembro de 1920 toda a Bélgica parou. A ocasião não era para menos já que a sua seleção estava muito perto de alcançar o Olimpo dos Deuses do futebol. Mas para isso havia que ultrapassar uma das equipas sensação da prova, a poderosa Checoslováquia. O duelo começou mais cedo que o previsto, com a imprensa belga a acusar os seus adversários de serem um dos causadores do despoletar da I Guerra Mundial, implantando assim no povo belga uma sede de vingança e um sentimento de ódio face ao país de leste. Mais uma vez o futebol e a política surgiam de mãos dadas! Com o clima incendiado o estádio olímpico registou a sua maior enchente até então, tendo a organização tido a necessidade de fechar as portas do recinto bem antes do pontapé de saída da grande final, barrando assim a entrada aos muitos espetadores que se encontravam fora do estádio. 
E às 17H30 as duas equipas entram em campo debaixo de um ambiente frenético. E mais frenético ficaria quando aos 6 minutos a equipa da casa se adianta no marcador graças a uma grande penalidade apontada pela grande estrela da equipa, Coppée, num lance onde os checos protestariam vivamente contra a decisão do árbitro. Os ânimos continuavam exaltados dentro do retângulo de jogo, com as duas equipas a usarem e abusarem do jogo agressivo. O experiente árbitro inglês John Lewis mostrava-se incompreensivelmente nervoso face ao desenrolar dos acontecimentos. As faltas sucediam-se de minuto a minuto perante a passividade do juiz. E à passagem do minuto 30 Henri Larnoe ampliou a vantagem dos belgas para a explosão natural das bancadas maioritariamente preenchidas com adeptos da equipa da casa. E eis que 9 minutos depois os checoslovacos perderiam de vez a estribeiras. Karel Steiner comete uma falta sem grande dureza sobre a estrela da companhia belga, Robert Coppée, o qual se atira de forma teatral para o chão queixando-se de uma agressão. Sem complacências o árbitro britânico expulsa Steiner, uma decisão que levou o capitão de equipa checoslovaca, o criativo médio Karel Pesek, a abandonar também o relvado em solidariedade com o seu companheiro. E para espanto de todos os presentes os restantes 9 jogadores do combinado de leste imitariam os seus colegas de equipa. A partida ficou suspensa para revolta dos adeptos que lotavam o estádio olímpico, os quais invadiram o campo numa tentativa de agredir os desertores checoslovacos que só conseguiram sair com vida de Antuérpia graças à pronta intervenção do exército belga. O critério parcial do árbitro, a dureza dos belgas, e a hostilidade do público seriam os argumentos que os visitantes apresentariam para justificar o abandono da contenda. Assim sendo a organização não teve dúvidas em atribuir a vitória à Bélgica, que assim se proclamava campeã... do Mundo, tendo os seus jogadores sido levados em ombros por um público em absoluto delírio.

Terminou assim de uma maneira menos límpida a brilhante carreira de um homem que viria a falecer seis anos mais tarde.

Legenda das fotografias:
1-John Lewis
2-Uma das primeiras equipas do Blackburn Rovers, integrada, entre outros, por John Lewis
3-Uma rara imagem da final olímpica de 1908
4-Capitães da Bélgica e da Checoslováquia escolhem o campo antes da final olímpica de 1920, sob o olhar do velhinho (72 anos) árbitro inglês
5-Um dos muitos lances da polémica final de Antuérpia

quarta-feira, abril 24, 2013

Figuras do apito (1)... John Langenus - O excêntrico belga com papel de destaque na história dos Mundiais

Na maioria das ocasiões eles dão vida ao lado mais polémico do futebol. As suas decisões nem sempre são encaradas com fair-play, e muitas vezes são apontadas como a causa de uma derrota, da perda de um título, ou mesmo da violência física tristemente portagonizada por artistas e adeptos do belo jogo. Quando se ganha ninguém se lembra deles, mas quando se perde toda a gente lhes aponta o dedo reprovador. Apesar de tudo eles fazem parte do espetáculo, são eles que o dirigem, para o bem... e para o mal. Eles são os árbitros de futebol, as figuras do apito, que de hoje em diante terão uma vitrina a eles reservada nos corredores do Museu Virtual do Futebol.
E a nossa primeira estrela - sim, eles também brilham no universo futebolístico - é quiçá a primeira figura mediática da arbitragem internacional. John Langenus, de seu nome, belga de nascimento que ficou célebre por ter dirigido a primeira final de um Campeonato do Mundo, no Uruguai, em 1930. Este terá sido um justo prémio para aquele que era na altura considerado o melhor juíz do planeta, que a nível internacional havia feito a sua estreia nos Jogos Olímpicos de Amesterdão, em 1928.
Nasceu a 8 de dezembro de 1891, em Berchem, próximo de Antuérpia, e descobriu a aptidão para o apito, digamos assim, depois de comprovar o seu pouco - ou mesmo nenhum - talento para a interpretação do jogo enquanto praticante. A este propósito uma vez disse Diego Armando Maradona: «Quem tem jeito (para a prática do futebol) vai para jogador, quem não tem vai para... jornalista desportivo»! Pois bem, longas décadas antes desta célebre teoria ter sido lançada a público pela lenda argentina já Langenus a punha em prática, já que além do talento para apitar jogos de futebol ele revelava-se igualmente um habilidoso artesão das palavras, o mesmo é dizer, um notável jornalista desportivo. Esta foi pois a (dulpa)forma que este cidadão belga encontrou para continuar ligado ao desporto que tanto amava. No entanto, a sua entrada na arbitragem também não foi fácil, já que ao desconhecer a resposta para a questão sobre "o que fazer quando a bola bater num avião que voasse a baixa altitude…" (!) fez com que reprovasse no primeiro exame de admissão para ser árbitro! Acontece aos melhores...

Homem culto - dominava quatro idiomas - Langenus, que profissionalmente desempenhava funções de chefe de gabinete do governador de Antuérpia, era, como já vimos, um apreciado jornalista, tendo escrito centenas de crónicas alusivas a encontros de futebol, grande parte delas guardadas nos arquivos da prestigiada revista alemã Kicker, com quem o belga colaborou durante muito tempo. Curioso é que grande parte dos jogos analisados jornalisticamente, por assim dizer, por John Langenus eram, ou tinham sido, dirigidos... por ele próprio! Reza a lenda que no final de cada jogo recolhia aos balneários onde redigia a crónica desse mesmo jogo para depois a enviar para a Kicker
Dentro do campo tinha pulso forte com os jogadores, onde o seu metro e noventa de altura impunha respeito. Ganhou pois a admiração de uma classe (futebolistas) que além de respeito para com ele olhava-o com algum espanto! É verdade. Além de dar nas vistas como árbitro Langenus atraia as atenções - quer dos jogadores, quer do público - pela forma exótica como se equipava. Usava sempre umas calças largas - à golfista! -, meias até ao joelho, jaqueta cumprida, e uma pequena gravata, que lhe conferiam um visual muito peculiar.

Batismo internacional

O dia 25 de fevereiro de 1923 fica marcado na carreira do primeiro grande nome da arbitragem planetária, o dia em que dirige o seu primeiro encontro internacional, facto ocorrido em Paris, onde a França venceu por 3-2 o Luxemburgo. Dali em diante visita mais algumas cidades europeias, onde arbitra sobretudo encontros internacionais de caráter particular. Os níveis da sua popularidade foram subindo de tom, não admirando que em 1928 fosse chamado ao torneio olímpico de futebol, na altura o maior evento futebolístico à escala planetária. Em Amesterdão, localidade onde decorreram as Olimpíadas de 28, Langenus vivenciou o seu primeiro momento de glória no mundo da arbitragem, ao apitar dois jogos na qualidade de árbitro principal, e atuado como linesman (fiscal de linha, ou árbitro assistente como agora são denominados) na grande final olímpica.
A 30 de maio de 1928, no Estádio Olímpico de Amesterdão, ele dirige a partida que colocou frente a frente a equipa da casa, a Holanda, aos futuros campeões olímpicos, ou melhor, bi-campeões olímpicos, o lendário conjunto do Uruguai. Uma oportunidade única para os adeptos holandeses verem na sua pátria algumas das estrelas do futebol daqueles anos 20, casos de José Nasazzi, Héctor Scarone, a Maravilha Negra José Leandro Andrade, ou... John Langenus, também ele já uma verdadeira estrela do futebol internacional. Ainda nessa histórica Olimpíada o belga dirigiu um novo encontro, também ocorrido no estádio olímpico, e que opôs a Itália ao Egito. Em jogo estava nada mais nada menos do que a medalha de bronze, a qual iria para o peito da squadra azzurra, depois de um categórico triunfo sobre os faraós por 11-3. Este facto ocorreu a 9 de junho, quatro dias antes da final, onde marcaram presença as duas potências do futebol sul-americano da época, tidas aliás para muitos como as seleções mais fortes do mundo, a Argentina e o Uruguai.
Para apitar o jogo mais aguardado do torneio - o qual seria ganho pelos uruguaios - foi chamado o holandês Johannes Mutters, o qual seria coadjuvado pelo italiano Achile Gama e o... belga John Langenus. Era já mais do que evidente o prestígio que angariava a nível internacional.

Momento de glória vivido em Montevidéu

De tal modo que aquando da realização do primeiro Campeonato do Mundo, dois anos mais tarde, em Montevidéu, capital do Uruguai, a FIFA não teve dúvidas em colocar Langenus na lista dos árbitros convidados a marcar presença naquele importante evento. Efetuou a longa viagem para Montevidéu no majestoso navio Conte Verde, o mesmo onde viajavam as delegações da FIFA, da Roménia, França, e Bélgica, três seleções que a par da Jugoslávia - que viajou noutro navio - representavam a Europa no primeiro Mundial da história. Em Montevidéu, onde decorreu toda a ação, Langenus apitou quatro jogos, o Uruguai - Perú (1-0), o Argentina - Chile (3-1), ambos alusivos à primeira fase do torneio, o Argentina - Estados Unidos da América (6-1), e o Uruguai - Argentina (4-2), este último a grande final do evento.
Na meia-final disputada entre argentinos e norte-americanos não se livrou de duras críticas dos soccer boys, que o acusaram de fazer vista grossa ao violento jogo praticado pelos sul-americanos, para quem ao que parece tudo valia, desde empurrões, pontapés, insultos... A fúria dos yankees para com o belga foi tão grande que a equipa médica do combinado da América do Norte chegou mesmo a agredir o árbitro com um estojo médico (!) arremessado para dentro do retângulo de jogo.

Após dirigir esse polémico jogo Langenus escreveu a habitual crónica para o Kicker, aproveitando posterirmente a sua estadia na América do Sul para conhecer outros locais daquele canto do Mundo. Atravessando então o rio de La Plata - que divide o Uruguai da Argentina - visita Buenos Aires, onde dias antes da grande final, precisamente entre os dois velhos inimigos, Argentina e Uruguai, recebe um telefonema dos dirigentes da FIFA que lhe pedem que regresse de imediato a Montevidéu para apitar a... final! Um pouco surpreendido o belga compra de imediato o bilhete para regressar de barco à capital uruguaia, e é aqui que conhece os primeiros contornos da fervorosa paixão que aquele jogo estava a provocar entre os adeptos dos dois países. Ainda em Buenos Aires ele percebe que aquela final era muito mais do que um jogo, era uma questão de vida ou de morte. E como se apercebeu que não iria agradar a gregos e a troianos ao mesmo tempo, isto é, algum dos países iria olha-lo com ódio (!) na conclusão do Mundial, ele decide fazer de imediato um acordo com a FIFA. Para garantir a sua segurança exigiu que logo após o apito final lhe fosse facultado um transporte que o tirasse do Estádio Centenário rumo ao porto de Montevidéu, e dali embarcar rapidamente rumo à Europa, a salvo da mais do que provável ira de um dos derrotados. Exigência aceite John Langenus regressou então a Montevidéu num barco apinhado de fanáticos adeptos argentinos, que nem sequer imaginavam que aquele gentleman de envergadura alta seria o árbitro da final!

No dia 30 de julho sobe ao relvado do majestoso Estádio Centenário, construído propositadamente para este Mundial, e ainda antes de dar início ao esperado duelo a polémica estoirou. Na escolha de campo os dois capitães (Nasazzi do lado uruguaio e Ferreira do lado argentino) discutiam. O uruguaio queria jogar com uma bola feita em seu país. O argentino, com uma bola feita na Argentina. Perante esta birra o árbitro belga decidiu que no primeiro tempo joga-se com a bola argentina e no segundo com a bola uruguaia. Com a bola argentina, os uruguaios conseguiram o primeiro golo, aos 12 minutos, marcado por Dorado. Oito minutos depois, Peucelle empatou. Aos 37 minutos, Stabile, o artilheiro do campeonato, marcou o segundo tento argentino. E a primeira parte chegou ao fim com os argentinos a vencer por 2-1. Foi espantosa a  reação uruguaia na etapa complementar, jogando com a bola feita em casa. Aos 12 minutos, Cea empatou. Aos 23, num remate de fora da área, Iriarte pôs o Uruguai em vantagem. O país vivia momentos de sofrida espera quando, num contra-ataque Dorado centrou da direita, pelo alto, e Castro com uma cabeçada fulminante mandou a bola para o fundo das redes. Era o quarto golo. Um minuto depois, o jogo acabava. E o Uruguai era assim o primeiro campeão do Mundo da história.
Terminada a final Langenus correu - pelo próprio pé, já que o transporte que lhe havia sido assegurado pela FIFA não estava lá! - rapidamente para fora de um estádio que estava em profundo delírio com o triunfo da celeste. Chegado ao porto de Montevidéu as notícias para o belga não eram nada boas. O cerrado nevoeiro que se abateu sobre o rio de La Plata fez com que as autoridades marítimas cancelassem a partida de qualquer tipo de embarcação. Os planos de Langenus tinham saído furados, não tendo outro remédio senão passar a noite escondido no seu camarote do navio Duilio que o levaria no dia seguinte de volta a terra segura, isto é, a Europa.

Como grande celebridade que já era no mundo da arbitragem não foi com surpresa que quatro anos mais tarde fosse de novo chamado à fase final de um Campeonato do Mundo, desta feita em Itália, embora aqui apenas tivesse dirigido um encontro, o Checolosváquia - Roménia, disputado em Trieste, e que terminou com a vitória da primeira seleção por 2-1. E como não há duas sem três foi chamado em 1938 para um novo Mundial, desta feita em França, onde apitou dois encontros. O primeiro, disputado no Parc des Princes, em Paris, foi histórico para Langenus. Suíça e Alemanha discutiam a passagem aos quartos-de-final, e eis que aos seis minutos do prolongamento o germânico Pesser tem uma entrada para lá de violenta sobre um adversário, recebendo ordem de expulsão do belga, a única sanção disciplinar deste género que aplicou a um jogador em toda a sua carreira. A despedida dos grandes palcos ocorreria ainda nesse Mundial, quando é nomeado pela FIFA para dirigir o jogo de atribuição dos terceiros e quartos lugares, entre Brasil e Suécia, vencido pelos primeiros.
Numa altura em que os jogos internacionais eram escassos, ao contrário do que hoje acontece, John Langenus apitou um total de 85 jogos! Retirou-se definitivamente da arbitragem em 1939, tendo passeado a sua classe por diversos países do Mundo, inclusive Portugal, pais que teve a honra de receber uma visita sua, a 23 de fevereiro de 1930, quando no Porto dirigiu um Portugal-França, concluído com um triunfo luso por 2-0. Depois de retirado dedicou-se à sua outra paixão, a escrita, tendo publico entre outros livros alusivos ao futebol o célebre "Whistling in the World", uma autobiografia onde eternizou as suas aventuras pelo Mundo da bola. Faleceu na sua cidade natal, a 1 de dezembro de 1952, com 60 anos de idade.

Legenda das fotografias:
1-John Langenus
2-Na escolha de campo com os capitães de Holanda e Uruguai, nos Jogos Olímpicos de 1928
3-Como árbitro assistente na final de Amesterdão
4-Na viagem para Montevidéu
5-Com os capitães do Uruguai e Argentina, antes da final do Mundial de 1930
6-Golo da Argentina, em pleno Centenário, com Langenus ao fundo a visionar o lance
7-A peculiar imagem do primeiro grande ícone da arbitragem internacional