sexta-feira, janeiro 09, 2026

Copa América (9)... Argentina 1925

 

A Argentina que em 1925 venceu em casa o seu segundo 
título sul-americano... de forma controversa
O Campeonato Sul-Americano – atualmente denominado de Copa América – de 1925 foi não só o menos participado da história da competição, como de igual modo um dos mais turbulentos de sempre. Apenas três seleções lutaram por um título que pela terceira vez até então iria ser disputado em solo argentino. À primeira vista o grande ausente – e grande favorito à reconquista do cetro – foi o Uruguai, que um ano antes havia conquistado o Mundo ao vencer o torneio olímpico de Paris. Tumultos internos, isto é, problemas no seio das associações de futebol do país, fizeram com que a Celeste não atravessasse o Rio da Prata rumo a Buenos Aires. O mesmo aconteceu com o Chile, que também vivia um mar de crises associativas internas e por isso pela terceira vez, desde que a prova havia sido criada em 1916, falhava a participação no campeonato. Desse modo, e para além da seleção anfitriã, a Argentina, iriam discutir o título os combinados do Brasil e do Paraguai. Pelo facto de serem tão poucas as seleções participantes, a organização decidiu desenrolar o torneio em duas voltas, isto é, as seleções iriam enfrentar-se todas entre si por duas ocasiões. 
A seleção do Brasil que disputou a Copa América de 1925

A Argentina surgia em campo com oito jogadores do Boca Juniors, algo até então nunca visto na história da albiceleste, facto que se explica pela divisão associativa que então vigorava no futebol argentino. Ou seja, o país futebolístico estava dividido em duas associações, sendo que cada uma delas organizava o seu respetivo campeonato. A FIFA apenas reconhecia como oficial o campeonato em que competia o Boca e nesse sentido a seleção não convocou jogadores de clubes como o River Plate, o Independiente, ou o Racing (emblemas que competiam no campeonato oposto) entre 1919 e 1926, período em que durou esta divisão. E no selecionado argentino figurava pela primeira vez numa grande competição um jogador negro, mais concretamente o afro-argentino Alejandro De los Santos, Filho de escravos angolanos que conseguiram fugir nos finais do século XIX para a América do Sul, ele é até aos dias de hoje o único jogador negro a vestir a camisola da seleção argentina. Nascido em 1902 em Paraná, na província de Entre Ríos, De los Santos faria uma dupla de ataque temível com Manuel Seoane – um dos maiores goleadores de sempre do período amador do futebol argentino – com as cores do El Porvenir. Ao serviço deste emblema, o afro argentino disputou quase 140 jogos, apontando 80 golos, números que lhe valeriam em 1922 a primeira chamada à seleção albiceleste num amigável contra os vizinhos e rivais do Uruguai. 

De los santos, o primeiro e único negro a vestir 
a camisola da Argentina
A Copa América de 1925 foi o ponto alto da carreira de Alejandro, que apesar de apenas ter disputado apenas um jogo viria a alcançar o título de campeão. O trajeto da Argentina começou precisamente no antigo estádio do Boca Juniors, ante o Paraguai, e não poderia ter iniciado da melhor maneira, já que quando apenas estavam decorridos dois minutos de jogo, Seoane abre o marcador. Na segunda parte, a confirmação da vitória (2-0) por intermédio de Martín Sánchez. Os guaranis voltaram a entrar em campo quase uma semana depois (!) para enfrentar o Brasil no estádio do Sportivo Barracas. E sofreram um verdadeiro amasso de um escrete cuja grande estrela era Friedenreich, que neste encontro apontaria um dos cinco tentos com que o Brasil derrotou (5-2) sem mácula os paraguaios. Outro dos tentos brasileiros seria apontado por Filó, jogador que nove anos mais tarde faria história ao tornar-se no primeiro brasileiro a ser campeão do Mundo muito antes do o… Brasil o ser! Veloz extremo, Filó emigrou no início da década de 30 para Itália, onde defendeu as cores da Lazio durante sete temporadas. Em Itália, o paulista de nascimento alterou o seu nome para Anfilogino Guarisi, sendo um dos oriundi (jogadores de origem italiana) que em 1934 Vittorio Pozzo convocou para defender a Squadra Azzurra na segunda edição do Campeonato do Mundo. 
Fase do encontro entre argentinos e paraguaios na Copa de 25
Voltando à Copa América de 1925, com duas derrotas claras nos dois primeiros jogos ficava claro que dificilmente o Paraguai iria conseguir levar o título para casa. No dia 13 de dezembro, o estádio do Sportivo Barracas – um dos dois que recebeu os jogos do torneio – lotou (25.000 espectadores) para presenciar o duelo entre os dois mais sérios favoritos ao título. Como seria de esperar, os brasileiros foram recebidos com muita hostilidade pelos fervorosos hinchas argentinos. Aos 22 minutos, Nilo abriu o marcador para o Brasil, mas o que então se poderia esperar com uma vitória histórica sobre o rival viria a tornar-se um autêntico pesadelo. Com três golos de Manuel Seoane e um de Alfredo Garassino, a Argentina deu a volta ao texto e humilhou o rival, construindo a maior vitória até então sobre aquele vizinho sul-americano. A imprensa brasileira não se poupou em críticas à sua seleção, sobretudo a linha média da seleção e o guarda-redes Tuffy, os grandes responsáveis pelo colapso na voz dos jornalistas. E assim chegávamos ao final da primeira volta do torneio, com os argentinos na liderança com 4 pontos, seguidos de Brasil com 2 e do Paraguai sem qualquer ponto. 

Argentinos e paraguaios lutam 
pela bola nas alturas
A segunda volta arrancou no dia 17 de dezembro, com o Brasil a defrontar o Paraguai no estádio do Boca Juniors. Triunfo canarinho por 3-1. O mesmo resultado verificou-se no Argentina – Paraguai, onde Seoane aponto mais um golo que consolidaria como o melhor marcador da prova com 6 golos. No dia de Natal de 1925 decidia-se o nome do campeão sul-americano. Um empate era suficiente para que a Argentina vencesse pela segunda vez o título, enquanto que o Brasil tinha obrigatoriamente de vencer para forçar a um jogo de desempate. A polémica em torno do match instalou-se ainda antes do pontapé de saída, com a imprensa e o público a contestarem a data da realização do mesmo, tendo em conta que estávamos em pleno dia de Natal e como tal esperava-se tudo menos a realização de um jogo tão importante como aquele. No entanto, o encontro foi avante. E o Brasil até entrou melhor, já que à passagem da meia hora já vencia por 2-0, graças a golos de Friedenreich e de Nilo. A perder os argentinos como que perderam a cabeça, e num lance entre El Tigre Friedenreich e o defesa Ramón Muttis este último tem uma entrada violenta sobre o brasileiro o que motivo um desaguisado entre os dois atletas. Rezam as crónicas do jogo que ambos trocaram violentas agressões, o que motivou a ira dos adeptos presentes no estádio do Sportivo Barracas contra os brasileiros. Para além de insultos racistas – os hinchas locais começaram a apelidar em coro os jogadores contrários de macaquitos – houve invasão de campo, registaram-se agressões a jogadores do Brasil, o que levou a dura intervenção policial para travar a ira dos adeptos. Este foi um dos episódios mais violentos em jogos ocorridos entre estas duas seleções. 

Invasão de campo no jogo decisivo
O incidente foi posteriormente sanado e o jogo recomeçou. Inclusive, jogadores de ambas as seleções apertaram as mãos e abraçaram-se em sinal de paz. No entanto, e quiçá afetado pelo que acontecera o Brasil desmoronou e permitiu o empate da Argentina a duas bolas, que lhe valeria a conquista do segundo título sul-americano. Os incidentes deste jogo são reproduzidos na íntegra de seguida através do relato do Correio do Povo: «Os argentinos e os brasileiros entraram no campo de Barracas debaixo de entusiásticos aplausos do público, que vivou o Brasil e a Argentina. O ‘toss’ foi favorável aos argentinos, mas o capitão Tesoriere cedeu-o aos visitantes. Os primeiros minutos decorreram equilibrados. Os argentinos iniciam vários avanços, que a defesa brasileira malogra com toda a felicidade. Depois de Pamplona haver cometido um ‘foul’ à pouca distância do goal, Friedenreich realiza uma esplêndida jogada. O primeiro, numa corrida rápida, chega próximo à rede de Tesoriere, que consegue vazar em tiro forte e rasteiro. É Nilo. A assistência ovaciona este feito do exímio ‘center’ brasileiro. A essa altura, os argentinos começam a jogar mal, atuando a sua linha de ‘forwards’ sem a menor conexão. Em nova jogada, Friedenreich faz um bem calculado passe a Nilo, o qual, tomando-o de carreira, marcou o segundo ‘goal’ brasileiro. (…) Os argentinos continuam dominando o jogo no 2.º tempo. Friedenreich e Nilo fazem uma excelente combinação, em consequência da qual a bola vai ter nos pés de Filó, o qual desfere, a curta distância, um forte tiro. E, quando parecia que estaria garantida a conquista de mais um ‘goal’ para os brasileiros, a pelota apanhou a trave do arco, resvalando para fora. Este fracasso trouxe algum visível desânimo entre a linha atacante, que, no segundo período, esteve em geral medíocre. (…) O jogo com que terminou o Campeonato Sul-Americano esteve medíocre por parte das duas ‘équipes’, que desenvolveram, no 1.º e no 2.º tempos, atuação completamente diversa. Os brasileiros começaram assombrosamente e fazendo terrível pressão sobre o adversário. Os ‘forwards brasileiros’, ativíssimos, não davam descanso aos argentinos, cujos poucos avanços eram malogrados pela defesa brasileira, onde Tuffy e Pennaforte realizaram feitos maravilhosos que muito entusiasmaram a assistência. A linha média esteve à altura das responsabilidades. Dos dianteiros brasileiros destacaram-se Friedenreich, Nilo e Filó. Os nacionais, no primeiro tempo, estiveram desorganizadíssimos e inarmônicos, falhando lamentavelmente. No 2º tempo, os papéis inverteram-se, pois os argentinos dominaram completamente os brasileiros, que estavam decadidíssimos, demonstrando cansaço e falta de treino. Os argentinos bombardearam com grande frequência o arco brasileiro, defendido magistralmente por Tuffy e Helcio. (…)».

Nomes e números:

29 de novembro de 1925

Argentina – Paraguai: 2-0

(Manuel Seoane, 2’; Martín Sánchez, 72’)

 

6 de dezembro de 1925

Brasil – Paraguai: 5-2

(Filó, 16’; Friedenreich, 19’; Lagarto, 40’, 54’; Nilo, 72’)

(Gerardo Rivas, 25’, 66’)

Duelo entre argentinos e brasileiros

13 de dezembro de 1925

Argentina – Brasil: 4-1

(Manuel Seoane, 41’, 48’, 74’; Alfredo Garassino, 72’)

(Nilo, 22’)

Seoane, o goleador do campeonato de 1925

17 de dezembro de 1925

Brasil – Paraguai: 3-1

(Nilo, 30’; Lagarto (57’, 61’)

(Luís Fretes, 58’)

 

20 de dezembro de 1925

Argentina – Paraguai: 3-1

(Domingo Tarasconi, 22’; Manuel Seoane, 32’; Javier Iruieta, 63’)

(Solich, 15’)

Friedenreich marca e festeja o primeiro do Brasil no jogo decisivo

25 de dezembro de 1925

Argentina – Brasil: 2-2

(Antonio Cerrotti, 41’; Manuel Seoane, 55’)

(Friedenreich, 28’; Nilo, 30’)

 

Classificação:

1.º Argentina: 7 pts.

2.º Brasil: 5 pts.

3.º Paraguai: 0 pts.