Mostrando postagens com marcador Histórias da Copa América. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Histórias da Copa América. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, junho 08, 2016

Copa América (6)... Brasil 1922

Um aspeto do Estádio das Laranjeiras,
na abertura do Campeonato Sul-Americano
de 1922
2016 é um ano especial para a Copa América. A mais prestigiada competição de seleções do continente americano comemora o seu centenário. 100 anos carregados de emoções e momentos de magia desenrolados nas maiores catedrais da bola erguidas em solo (sul) americano pela mão de dezenas de astros do belo jogo. Depois de termos feito uma visita às cinco primeiras edições da Copa viajamos hoje até 1922, ano em que o Brasil organizou e venceu pela segunda vez na sua história o então denominado Campeonato Sul Americano de futebol. Desde logo nesta sexta edição do torneio foi vislumbrada uma novidade: o facto de serem cinco as seleções perfiladas na linha de partida na corrida rumo ao título - já que até então a competição havia sido disputada por quatro combinados nacionais, em cada uma das anteriores edições, compreenda-se. Inicialmente o Campeonato Sul Americano de 1922 esteve agendado para o Chile, contudo o Brasil solicitou à CONMEBOL o acolhimento do torneio no sentido de comemorar com pompa e circunstância o centenário da sua independência. Pretensão aceite, e desde pronto ficaria definido que à semelhança de 1919 o Estádio das Laranjeiras, no Rio de Janeiro, seria o palco de todas as emoções. No entanto, nem tudo na antecâmara desta edição foi motivo de festa. O episódio mais sombrio, passo a expressão, aludiu mais uma vez ao racismo que imperava naqueles dias um pouco por todo o Mundo, sendo que a nação brasileira não era exceção. Epitácio Pessoa, o Presidente da República do Brasil de então, decretou em 1921 que a seleção que nesse ano iria defender na Argentina o título conquistado dois anos antes fosse integrada apenas por jogadores de pele branca (!), facto que fez com a maior estrela da nação, Arthur Friedenreich, ficasse fora da convocatória. Com esta regra o presidente brasileiro queria evitar uma nova exposição ao ridículo do selecionado do seu país, composto por diversos jogadores de origem negra, como a que havia ocorrido em 1920, quando os argentinos apelidaram os brasileiros de "macacos". A exclusão do mestiço Friedenreich do torneio de 1921 resultou num profundo fracasso, já que a seleção não só perdeu o título para os vizinhos e eternos inimigos argentinos como também teve atuações paupérrimas. Pressionado por grande parte da população, que exigia o regresso de Fried, Epitácio Pessoa é obrigado em 1922 a revogar a lei que proibia a inclusão de negros e mestiços na equipa nacional, tendo o astro do Paulistano integrado o grupo de 18 jogadores que o treinador/jogador Arthur Antunes de Moraes e Castro, conhecido no Planeta da Bola por Laís, levou à sexta edição da Copa. Além da nação anfitriã o torneio foi disputado ainda pelo Uruguai, Chile, Paraguai e Argentina. Porém, os campeões em título surgiam no Rio de Janeiro desfalcados de uma parte significativa dos seus melhores futebolistas. Clubes como o River Plate, o San Lorenzo, o Independiente ou o Racing, alguns dos principais emblemas da nação das Pampas onde atuavam grande parte dos craques do futebol argentino de então, impediram a viagem dos seus jogadores internacionais à Cidade Maravilhosa.

A bola começou a rolar...

Brasileiros e paraguaios antes
do jogo decisivo da Copa de 22
No dia 17 de setembro de 1922 é dado então o pontapé de saída da Copa, entre a nação da casa e o Chile. Sob a arbitragem do uruguaio Ricardo Villarino o jogo termina empatado a uma bola, para deceção dos 30.000 torcedores que se encontravam nas Laranjeiras. Pior do que o empate o Brasil ficava sem a sua estrela principal, Arthur Friedenreich, que saiu lesionado do encontro. Tatú fez aos 9 minutos o golo brasileiro, tendo Manuel Bravo reposto a igualdade a quatro minutos do intervalo.
Seis dias depois os chilenos - que regressavam ao torneio após terem estado ausentes na edição anterior - defrontaram o Uruguai, quiçá a grande potência do futebol sul-americano de então, mas que se apresentava no Rio sem jogadores do Peñarol, devido a divergências entre este clube e a federação daquele país. Mesmo sem algumas das suas principais estrelas, entre outros o maestro Piendibene, os uruguaios deram boa conta de si, e ainda antes dos 20 minutos já venciam por 2-0, resultado com que foi finalizado o duelo.
Um dia depois, cerca de 22.000 pessoas aguardavam ansiosamente nas bancadas das Laranjeiras a primeira vitória do time da casa, diante do Paraguai. Porém, as piores notícias confirmavam-se: Friedenreich não iria jogar. O craque não recuperou da lesão sofrida no jogo de estreia, e o treinador/jogador Laís optou por reservá-lo para o teoricamente complicado encontro com o Uruguai, na ronda seguinte. A ausência de Fried parece ter afetado o onze do Brasil, que logo aos 14 minutos viu Gerardo Rivas adiantar os paraguaios no marcador. Os brasileiros correram então atrás do prejuízo, mas só à passagem do minuto 71 chegariam à igualdade na sequência de um remate certeiro de Amílcar. Uma espécie de Argentina B esmagou no dia 28 de setembro o Chile por 4-0, com o destaque individual a ir para o avançado Juan Francia, autor de dois dos tentos da turma das Pampas, ele que haveria de sair do Brasil consagrado como o goleador do torneio, com quatro tentos. 

Um "Brasil - Uruguai" que entrou para a História

Claudio Sapelli
No dia 1 de outubro seria escrito um dos capítulos mais importantes não só da história do futebol como do próprio desporto a nível planetário. Com o Estádio das Laranjeiras a rebentar pelas costuras Brasil e Uruguai defrontaram-se naquele que era olhado pela imprensa como o primeiro grande jogo da Copa. O porquê deste ter sido um jogo histórico? Certamente que a resposta não se ficou a dever ao desolador nulo que subiu ao marcador no final dos 90 minutos, mas antes pelo facto deste ter sido o primeiro jogo de futebol a ser transmitido pela rádio. Este facto histórico vem desde logo contrariar a ideia de que a primeira transmissão de uma partida de futebol via rádio teria ocorrido em Inglaterra, no ano de 1927, entre as equipas do Arsenal e do Sheffield United. A verdade é que em 1922, no terraço do jornal El Plata, em Montevideu, Claudio Sapelli, proprietário da Casa Sapelli, especializada na venda de aparelhos radiofónicos, fez o primeiro relato de um jogo de futebol, precisamente o que colocou frente a frente o Brasil e a equipa celeste. Milhares de adeptos juntaram-se nas imediações do jornal El Plata que no seu terraço instalou um aparelho telégrafo que recebia as informações do jogo do Rio de Janeiro, as quais, por sua vez, eram lidas por Sapelli através de um megafone. Do cabo do telégrafo saíam duas vias, uma para compartilhar com a multidão, e outra para que Sapelli, a partir do mesmo terraço e com o equipamento de transmissão portátil, levasse os acontecimentos do encontro a centenas de ouvintes. Este não foi contudo o primeiro evento desportivo a ser transmitido pela rádio, já que em julho desse mesmo ano, nos Estados Unidos da América, um combate de boxe teve essa "honra". Bom, voltando ao jogo, o Brasil apostou tudo na sua estrela principal, Friedenreich, paupado no jogo anterior, mas na verdade o astro foi lançado às feras em condições físicas muito limitadas, uma vez que não se encontrava totalmente recuperado da lesão contraída no encontro de estreia. Com isto, o Brasil somava o seu terceiro empate consecutivo, e só um milagre iria permitir à seleção reconquistar o título. Mas, por vezes os milagres também acontecem, como se iria verificar. E se os brasileiros precisavam da ajuda de terceiros para alcançar o primeiro lugar - recorda-se que o campeonato era disputado em sistema de poule, onde todos jogavam contra todos, sendo que à equipa que somasse mais pontos era atribuído o título de campeão - os chilenos disseram definitivamente adeus à Copa depois de terem sido batidos pelo Paraguai por três bolas sem resposta.
A seleção uruguaia que abandonou o campeonato em protesto face
à arbitragem parcial do brasileiro Pedro Santos
Quem também ficava incumbido de fazer as malas mais cedo do que o previsto era a Argentina, que no dia 8 enfrentou o vizinho e eterno inimigo da outra margem do Rio da Prata, o Uruguai. Orientados por Pedro Olivieri, os uruguaios, que até então ostentavam três títulos continentais, apresentavam como grande estrela El Loco Romano, jogador que no entanto esteve bastante longe de ser a pedra influente na manobra da equipa que havia sido nas três edições em que os charrúas saíram campeões. Ante a Argentina o herói foi Felipe Buffoni, autor do único golo. Por esta altura, muitos foram aqueles que pensavam que depois deste triunfo o Uruguai estaria a caminho do seu quarto título de campeão, até porque os dois testes mais complicados (Brasil e Argentina) estavam já superado, e que o encontro diante do Paraguai seria o da coroação. Porém, uma arbitragem desastrosa do brasileiro Pedro Santos suspendeu a previsível festa uruguaia. O árbitro deu uma preciosa ajuda aos paraguaios, que aos sete minutos viram Carlos Elizeche fazer o único golo de um encontro que terminou de forma tumultuosa, com os uruguaios a protestarem vivamente a atuação tendenciosa de Santos. Com isto a entrega do título ficava adiada, e mais do que isso permitia que o Brasil continuasse a sonhar com um desfecho feliz, mas para isso era preciso vencer a Argentina no penúltimo jogo do torneio. Sem Arthur Friedenreich, definitivamente afastado do torneio por motivos físicos, a seleção apostou tudo na experiência do trio de campeões do campeonato de 1919, isto é, em Neco, Amílcar e Heitor. E foi precisamente dos pés dos dois primeiros atletas que saíram os dois golos que bateram o guarda-redes/treinador Americo Tesoriere, fazendo com que desta forma o Brasil igualasse o Uruguai e o Paraguai no topo da classificação, com cinco pontos conquistados. Rezam as crónicas que este foi o melhor jogo dos brasileiros em todo o campeonato, uma partida onde, finalmente, exibiram o seu futebol tecnicamente refinado e empolgante. Paraguaios que até poderiam ter resolvido a questão do título na derradeira jornada da competição, mas o goleador desta Copa, Juan Francia, não permitiu, ao apontar um par de golos que derrotaram aquela que para muitos foi a equipa sensação desta sexta edição do Campeonato Sul-Americano. 

Uruguaios desistem e Brasil vence o Paraguai na negra

Neco,um dos atores principais
do ceptro de 1922
Face a esta inédita igualdade pontual no topo da tabela no final do torneio, houve a necessidade de disputar uma segunda poule entre as três seleções empatadas. No entanto, e descontentes com a arbitragem do encontro com o Paraguai, o Uruguai decide, em forma de protesto, retirar-se da competição, deixando o caminho aberto para que brasileiros e paraguaios decidissem entre si quem seria o campeão. E eis que chegamos a 22 de outubro, dia em que a nação brasileira tinha o pensamento no Estádio das Laranjeiras. Ainda sem Friedenreich e o também histórico guarda-redes Marcos Carneiro de Mendonça (que apenas atuou nos dois primeiros jogos do torneio, dando em seguida o lugar a Júlio Kuntz, por motivos de lesão) o Brasil entrou em campo determinado em não se deixar surpreender pela equipa sensação da prova, na qual pontificavam o guardião Modesto Denis - ainda hoje considerado como um dos melhores de sempre da nação guarani - o médio Fleitas Solich e o avançado Gerardo Rivas. O corintiano Neco cedo tratou de sossegar os 25.000 torcedores que se deslocaram às Laranjeiras, quando aos 11 minutos bateu pela primeira vez Denis. O Brasil mandava no jogo, e no reatamento da partida, ao minuto 48, Formiga dilata a vantagem, tendo este mesmo jogador, a um minuto do fim, disparado para o 3-0 final. Depois de um começo morno o Brasil era bi-campeão das américas. Para eternidade ficam os nomes de Marcos, Kuntz, Palamone, Chico Netto, Barthô, Laís, Amílcar, Xingô, Fortes, Nesi, Formiga, Neco, Friedenreich, Zézé, Tatú, Heitor, Rodrigues e Junqueira, os campeões da Copa de 1922.

A figura: Juan Francia

Já aqui foi referido que a Argentina apresentou-se no Rio de Janeiro para disputar a sexta edição do Campeonato Sul-Americano desfalcada de alguns dos seus melhores jogadores, facto que muito terá contribuído para o modesto 4º lugar final. Porém, um nome acabaria por se destacar no elenco das Pampas: Juan Francia, o melhor marcador do torneio, com quatro golos. Nascido em 1894, Francia destacou-se em várias equipas de Rosario, vestindo a pele de um ágil e tecnicamente talentoso extremo esquerdo. Gimnasia e Esgrima, Rosario Puerto Belgrano, Tiro Federal, ou Newell's Old Boys foram alguns dos emblemas que o atleta defendeu entre 1915 e 1931. Em 1918 faz a sua estreia internacional, num encontro ante o rival Uruguai, a contar para a Copa Honor Argentino, e quatro anos mais tarde é um dos convocados do treinador/jogador Americo Tesoriere para defender no Rio de Janeiro o título continental conquistado um ano antes em Buenos Aires. Este foi mesmo o seu momento de fama com o manto alvi celeste, já que depois deste campeonato apenas por mais duas ocasiões atuou pelo combinado nacional. 

Nomes e números:
17 de setembro de 1922
Brasil – Chile: 1-1
(Tatú, aos 9m)
(Manuel Bravo, aos 41m)

23 de setembro de 1922

Uruguai – Chile: 2-0
(Heguy, aos 10m e Urdinarán, aos 19m)

24 de setembro de 1922

Brasil – Paraguai: 1-1
(Amílcar, aos 71m)
(Rivas, aos 14m)
 
28 de setembro de 1922

Argentina – Chile: 4-0
(Francia, aos 36m e 41m, Chiessa, aos 10m, e Gaslini, aos 75)

1 de outubro de 1922

Brasil – Uruguai: 0-0

Paraguai, a seleção sensação da Copa de 1922
5 de outubro de 1922

Paraguai – Chile: 3-0
(Ramírez, aos 37m, López, aos 65m, e Fretes, aos 78m)

8 de Outubro de 1922

Uruguai – Argentina: 1-0
(Buffoni, aos 43m)

12 de outubro de 1922

Paraguai – Uruguai: 1-0
(Elizeche, aos 7m)


Capitães da Argentina e do Brasil trocam flores antes do embate
15 de outubro de 1922

Brasil – Argentina: 2-0
(Neco, aos 42m, e Amílcar, aos 86m)

18 de outubro de 1922

Argentina – Paraguai: 2-0
(Francia, aos 63m, e aos 79m)

Classificação:
1º Brasil: 5 pontos
2º Paraguai: 5 pontos
3º Uruguai: 5 pontos
4º Argentina: 4 pontos
5º Chile: 1 ponto

A seleção do Brasil que em 1922 conquistou em casa o segundo campeonato Sul-Americano da sua história

Play-off de apuramento do campeão
 
22 de outubro de 1922

Brasil - Paraguai: 3-0
(Formiga, aos 48m, e aos 89m, Neco, aos 11m)

sexta-feira, setembro 11, 2015

Copa América (5)... Argentina 1921

Uma revista da época retratando o feito alvi-celeste
1921 é um ano especial para o povo argentino. Pela primeira vez a seleção das pampas subia ao trono do futebol sul-americano após arrebatar a coroa de campeão continental. Um feito alcançado em Buenos Aires, o mesmo local onde cinco anos antes havia sido dado o pontapé de saída para aquela que é hoje a maior competição de seleções de todo o continente americano, a Copa América. Para a quinta edição do então denominado Campeonato Sul-Americano de Futebol uma novidade saltou à vista: a estreia do Paraguai. Orientados por um argentino, de nome José Durand Laguna, os paraguaios - que neste preciso ano de 1921 acabavam de filiar-se na FIFA - juntavam-se aos habituais Brasil, Uruguai e Argentina, substituindo a seleção do Chile, que devido a problemas internos na sua federação esteve ausente do campeonato. Paraguai que teve uma estreia de sonho na copa, já que no Estádio do Club Sportivo Barracas, o palco com capacidade para 30.000 pessoas que acolheu os seis encontros do certame, bateu por 2-1 nada mais nada menos do que os campeões em título, o Uruguai. Um dos responsáveis por esta autêntica surpresa foi um niño de 16 anos, Gerardo Rivas, que apesar da sua tenra idade assumia já o estatuto de grande estrela do selecionado paraguaio. Foi ele que aos 9 minutos abriu um marcador que seria ampliado já na etapa complementar por intermédio de Ildefonso López. O máximo que os atordoados uruguaios conseguiram fazer foi reduzir a desvantagem, através de um dos seus jogadores mais virtuosos, José Piendibene. 


Jogo inaugural da Copa de 1921,
entre a Argentina e o Brasil

O certame havia sido aberto no dia 2 de outubro desse longínquo ano de 1921 pelos combinados da Argentina e do Brasil. Esta última seleção viajou para Buenos Aires desfalcada dos seus melhores futebolistas, desde logo a grande estrela do futebol brasileiro de então, Arthur Friedenreich, que não participou na copa por ser... mestiço! Mais uma vez o racismo voltava a evidenciar-se nas canchas do futebol sul-americano. A recusa do Brasil em levar alguns dos seus melhores jogadores, grande parte deles de origem negra, surgia como consequência de um cartoon que um jornal de Buenos Aires havia feito em 1916, por alturas da primeira edição do Campeonato Sul-Americano, em que os futebolistas brasileiros eram representados por macacos magricelas a saltar de galho em galho a fazer piruetas! Uma caracterização que ganhou fama, sendo que a partir de então os brasileiros passaram a ser apelidados de macaquinhos. Cinco anos volvidos, e preocupados com a imagem que o país passou a deter no exterior na sequência desta caracterização, o presidente da República de então, Epitácio Pessoa, convocou uma reunião com a Confederação Brasileira de Desportos onde recomendou que apenas poderiam representar a nação os futebolistas das famílias mais abastadas economicamente, e que fossem de pele clara e de cabelos lisos! É caso para dizer que não sabe quem era mais racista, se os argentinos ou se o próprio chefe da nação brasileira! De nada valeram os protestos da sociedade do Brasil, onde se destacou a voz do escritor Lima Barreto, também ele mestiço, sendo que a seleção ao ficar privada dos seus craques não fez uma grande figura na capital argentina. Ante a equipa da casa o Brasil sucumbiu por 1-0, com o tento dos alvi-celestes a ser apontado por aquele que viria a ser o melhor marcador e grande figura do torneio, Julio Libonatti. Neste encontro de estreia os comandados de Ferreira Vianna Netto atuaram durante 80 minutos com menos um homem, já que logo aos 10 minutos o avançado Nonô teve de sair do relvado por motivo de lesão. 


Paraguaios não tiveram argumentos
para derrotar a turma da casa
Dez dias mais tarde o Brasil voltou a entrar em campo, desta feita para defrontar os caloiros do Paraguai. Mesmo sem realizar uma exibição convincente o escrete esmagou os paraguaios por 3-0, com golos de Machado (2) e Candiota, todos eles na primeira parte. 
Por sua vez, o Paraguai mostrou que a surpreendente vitória de estreia ante o poderoso Uruguai havia sido, quiçá, um mero golpe de sorte, pois à má performance obtida diante do Brasil seguiu-se uma nova e modesta atuação ante os anfitriões. Libonatti, aos 43 minutos, abriu o caminho de uma vitória fácil por 3-0 dos argentinos que desta forma estavam a um pequeno passo de entrar para a história. Mas para o fazer a equipa do jogador/treinador Pedro Fournol precisa de vencer o vizinho e eterno inimigo da outra margem do Rio da Prata, o Uruguai, seleção que se recompôs da derrota inaugural com um triunfo curto mas importante sobre o Brasil. Dois golos de Ángel Romano, um dos principais jogadores dos charrúas, contra apenas um dos brasileiros, deram aos campeões em título um novo alento quanto a uma possível renovação do ceptro. Quanto ao Brasil despedia-se sem honra nem glória, ficando somente para a história as heróicas atuações do seu guarda-redes, Júlio Kuntz, performance que levou a que o maestro Francisco Canaro tivesse composto um tango em homenagem ao goleiro do Flamengo. 


Libonatti marca o golo (contra o Uruguai)
que consagrou a Argentina
como campeã das américas
E no dia 30 de outubro o Estádio do Club Sportivo Barracas encheu para ver o encontro decisivo da copa. Aos argentinos um empate bastaria para celebrar o primeiro título continental da sua história, ao passo que uma derrota poderia dar o tetra à celeste. Contudo, os argentinos estavam dispostos a mudar o rumo da história, além de que contavam com um goleador em grande forma, Julio Libonatti, que aos 57 minutos apontou o único golo do encontro para gáudio do 30.00o espetadores presentes. Pelos seus golos Libonatti pode ter sido para muitos a chave do êxito argentino nesta competição, mas há que fazer igualmente uma referência ao guarda-redes alvi-celeste, Américo Tesoriere, que ao manter a sua baliza inviolável (!) deu um forte contributo para a conquista do título. Para a história do futebol argentino ficam os nomes de Florindo Bearzotti, Américo Tesoriere, Pedro Calomino, Aldolfo Celli, Jaime Chavín, Miguel Dellavalle, Raúl Echeverría, Alfredo Elli, José López, Vicente González, Julio Libonatt, Ernesto Kiessel, Juan Presta, Blas Saruppo, Emilio Solari e Gabino Sosa. Contudo, esta quinta edição ficou igualmente marcada pelo reduzido poder de finalização das quatro seleções em prova, já que somente 14 golos foram apontados em seis partidas.  

A figura: Julio Libonatti


Julio Libonatti com a camisola
da Argentina
Reza a lenda que mal o árbitro brasileiro Pedro Santos apitou para o final do decisivo Argentina - Uruguai os hinchas locais correram para agarrar Julio Libonatti, pegando nele e levando-o em ombros até à Plaza de Mayo! Ainda hoje, recordar o primeiro título do futebol argentino no que a seleções diz respeito obriga a proferir o nome de Libonatti, o herói da copa de 1921. Este atacante nasceu em Rosário a 5 de julho de 1901 tendo iniciado o seu percurso futebolístico num dos clubes locais, neste caso o Newell's Old Boys. Ao serviço deste emblema deu nas vistas durante os oito anos em que vestiu o seu manto sagrado, essencialmente devido aos seus atributos de temível matador, o mesmo será dizer, de homem-golo. A estas características não ficaram indiferentes os responsáveis pela seleção argentina, os quais em 1919 chamam Libonatti pela primeira vez. Um ano depois integrou o grupo que defendeu a Argentina no Campeonato Sul-Americano de 1920, vencido, como se sabe, pelo Uruguai, Em 1921 foi então uma peça fundamental, para muitoa foi mesmo a peça fundamental, do êxito alvi-celeste, ao apontar três golos decisivos para a conquista do primeiro título continental para aquela nação. A sua fama subiu pois em flecha, sendo que quatro anos mais tarde do outro lado do Atlântico chegou-lhe um convite para exibir o seu talento em terras italianas. O convite surgiu da parte do Torino, e Libonatti - descendente de italianos - não recusou, entrando para a história como o primeiro jogador sul-americano a atuar no Velho Continente. Em Turim continuou a fazer o que melhor sabia, isto é, golos. Juntamente com Gino Rossetti e Adolfo Baloncieri formou um trio mortífero para os rivais do Toro, de tal modo que a imprensa italiana o batizou de trio maravilha. Durante os nove anos em que defendeu as cores do Torino Libonatti apontou mais de 150 golos, tendo tido um papel preponderante na conquista de dois scudettos por parte do clube. Pelo facto de ter descendência italiana Julio Liboantti defendeu em 17 ocasiões as cores da Squadra Azzurra - seleção nacional - tendo sido o primeiro oriundi - descendente - a fazê-lo. Na reta final da sua carreira ficou-se por Itália, onde defendeu ainda os emblemas do Génova e do Rimini. Ao serviço deste último clube teve a sua curta experiência como treinador - em 1936. Viria a falecer a 9 de outubro de 1981, com 80 anos de idade. 

Números e nomes: 

2 de outubro de 1921

Argentina - Brasil: 1-0
(Libonatti, aos 27m)
A seleção do Paraguai que em 1921 participou pela primeira vez na Copa América
9 de outubro 1921

Paraguai - Uruguai: 2-1
(Rivas, aos 9m, López, aos 66m)
(Piendibene, aos 83m)
Um ângulo da bancada e da tribuna central do Estádio do Club Sportivo Barracas,
onde decorreu o campeonato sul-americano de 1921
12 de outubro de 1921

Brasil - Paraguai: 3-0
(Machado, aos 21m, aos 44m, Candiota, aos 45m)

16 de outubro de 1921
Capitães do Paraguai e da Argentina cumprimentam-se antes do duelo travado entre si
Argentina - Paraguai: 3-0
(Libonatti, aos 43m, Saruppo, aos 71m, Echeverría, aos 76m)

23 de outubro de 1921

Uruguai - Brasil: 2-1
(Romano, ao 1n, aos 8m)
(Zézé, aos 53m)

30 de outubro de 1921

Argentina - Uruguai: 1-0
(Libonatti, aos 57m)

Classificação

1-Argentina: 6 pontos
2-Brasil: 2 pontos
3-Uruguai: 2 pontos
4-Paraguai: 2 pontos
A célebre seleção argentina que em 1921 alcançou o seu primeiro título oficial

quinta-feira, janeiro 08, 2015

Copa América (4)... Chile 1920

Uma multidão aguarda no Porto de Valparaíso a chegada
do navio que transportou as delegações do Brasil,
Uruguai, e Argentina, para a 4ª edição
Campeonato Sul-Americano
Setembro acabara de se iniciar naquele longínquo ano de 1920, para gáudio da população de Valparaíso, pitoresca cidade costeira situada no Chile, e que acolheu a quarta edição do então denominado Campeonato Sul-Americano de Futebol. Atraído por aquela jovem e encantadora modalidade que pouco mais do que um par de décadas antes havia desembarcado naquela região do continente americano, o povo de Valparaíso mostrou todo o seu entusiasmo ainda antes de ter sido dado o pontapé de saída do torneio, quando em massa se deslocou ao porto da cidade para receber em euforia as três seleções que juntamente com o Chile iriam dar vida ao certame. Argentina, Uruguai, e Brasil, eis os ilustres convidados recebidos no porto de Valparaíso como verdadeiros reis do futebol continental. Reis, ou astros da bola, neste caso, que na verdade foram muito poucos no Campeonato Sul-Americano de 1920, uns porque, entretanto, haviam feito a sua retirada da alta competição, caso do mago uruguaio Isabelino Gradín, outros por desavenças entre organismos internos, casos dos brasileiros Arthur Friedenreich, Neco, Marcos de Mendonça, Haroldo, ou Píndaro de Carvalho - cinco pedras basilares na conquista do título por parte do escrete (que ainda não era canarinho) um ano antes. E foi precisamente um Brasil composto por jogadores reservistas que juntamente com a seleção da casa deu a 11 de setembro o pontapé de saída de um torneio que à semelhança dos três anteriores iria ser desenrolado em sistema de poule, onde todos jogariam contra todos a uma só volta, sendo o campeão o país que somasse o maior número de pontos.

Alvariza, autor do único
golo brasileiro em Valparaíso
As guerrilhas internas entre as federações paulista e carioca privou então a seleção brasileira de defender o título com os seus melhores intérpretes, tendo o selecionador Oswaldo Gomes não tido outro remédio senão levar alguns jogadores de segundo plano internacional, casos do defesa Telefone - alcunha curiosa do cidadão José Almeida Netto - João de Maria, Sisson, Fortes, Zézé, Junqueira, ou Ismael Alvariza. Seria este último jogador que no relvado do Valparaíso Sporting Club - o recinto que serviu de palco aos seis encontros deste campeonato - apontou o único golo da vitória sobre um Chile em reconstrução, uma seleção moldada pelo conceituado treinador uruguaio Juan Carlos Bertone com uma mescla de experiência - com futebolistas como Manuel Guerrero, Alfredo France, ou Horacio Muñoz - e juventude - casos de Pedro Vergara, Víctor Toro, Victor Varas, ou Humberto Elgueta - e que sobretudo deixou uma imagem bem mais positiva em relação aos três torneios anteriores. Um dia mais tarde entraram em campo os velhos inimigos do rio da Prata, Argentina e Uruguai, seleções que disputaram uma partida intensa e em certos períodos desenrolada nos limites da agressividade. 1-1 foi o resultado final deste clássico das américas onde sobressaiu o génio de uma das maiores estrelas do selecionado uruguaio orientado por Ernesto Figoli, José Piendibene de seu nome. El Maestro, como era conhecido, realizou uma soberba exibição, a qual seria coroada com um golo, o primeiro desse encontro, apontado aos 10 minutos. Porém, Raul Echevarría igualou a contenda no segundo tempo quando o relógio marcava 75 minutos. Com este resultado o Brasil era líder isolado ao final da 1ª jornada, dependendo apenas de si para revalidar o título conquistado um ano antes no Rio de Janeiro, mas... do céu ao inferno o trajeto foi curto para os brasileiros nesta Copa de 1920.

Brasil sofre humilhação histórica

El Loco Romano
Após cinco dias de descanso a competição voltou a entrar em ação no dia 18 de setembro. Frente a frente as duas seleções que haviam disputado o jogo final da edição anterior, o Brasil e Uruguai. O duelo disputado no Valparaíso Sporting Club teve um desfecho trágico para os campeões em título, já que um autêntico vendaval celeste varreu com os brasileiros do mapa do campeonato. 6-0, uma goleada que até há bem pouco tempo era a maior derrota averbada pela seleção do Brasil ao longo da sua centenária história, um recorde - negativo - que seria batido em 2014, altura em que a canarinha foi humilhada (7-1) em casa pela Alemanha, nas meias-finais do Campeonato do Mundo. Mas voltando a 1920, e a Valparaíso, para recordar que a avalanche ofensiva dos uruguaios teve início aos 23 minutos, quando Ángel Romano, mais conhecido como El Loco Romano, bateu pela primeira vez o infeliz Júlio Kuntz, goleiro que na época atuava no Flamengo. Três minutos volvidos Urdinarán, na conversão de uma grande penalidade, aumentou a vantagem, sendo que ainda antes da saída para o intervalo o centro-campista José Pérez fez o terceiro. Nada corria bem a um Brasil muito desfalcado das suas grandes estrelas da altura, e logo no reatamento da partida Antonio Campolo faria o quarto da tarde. O pesadelo ganhou contornos mais vincados quando à passagem do minuto 60 El Loco Romano voltou a bater Kuntz, que não iria para o duche sem antes ir buscar por uma última vez a bola ao fundo da sua baliza, desta feita enviada, de novo, por José Pérez. Exibição de gala do Uruguai, que provou no Chile que a derrota no Campeonato Sul-Americano de 1919 não havia sido senão um mero acidente de percurso, já que era evidente que continuava a ser a mais virtuosa e letal seleção da América do Sul.
No dia 20 de setembro o Valparaíso Sporting Club encheu para ver a seleção da casa defrontar a Argentina. Contando com o apoio maciço dos seus hinchas, a seleção chilena fez - segundo rezam as poucas crónicas de então - o seu melhor jogo do torneio, culminado com um impensável empate a um golo que deixava a Argentina em maus lençóis quanto à questão do título. Ainda em relação ao Chile, uma particularidade saltou à vista neste torneio, a qual prendeu-se com a cor da camisola usada pela seleción. Pela primeira vez a seleção chilena vestiu a camisola vermelha - nos primeiros anos de vida aquele combinado nacional vestiu-se de branco -, indumentária que persiste até aos dias de hoje, como se sabe.

O nascimento da relação amor/ódio entre argentinos e brasileiros

A principal bancada do Valparaíso Sporting Club,
estádio onde decorreram os seis jogos
da Copa de 1920
A 25 de setembro Argentina e Brasil disputaram o jogo do tudo ou nada. Ambas as seleções precisavam de uma dupla vitória para garantir o título, ou seja, precisavam não só de vencer este jogo como esperar que o anfitrião Chile derrotasse uma semana mais tarde o Uruguai. Os brasileiros, mais uma vez, voltaram a demonstrar que não estavam à altura da seleção que em 1919 havia guiado o país à sua primeira grande conquista internacional, como comprovou o resultado de 2-0 favorável aos argentinos. O Brasil saia sem honra nem glória da Copa do Chile. Quanto aos argentinos, um milagre era aquilo por que suspiravam para o último jogo da competição, que iria decorrer no dia 3 de outubro, e no qual estariam frente a frente chilenos e uruguaios. Antes de passarmos aos factos deste encontro decisivo para as contas finais do torneio importa sublinhar que foi no seguimento do Brasil-Argentina do Campeonato Sul-Americano de 1920 que nasceu a acérrima rivalidade entre os dois países, no que a futebol diz respeito. Até então as duas nações viviam uma relação cordial, a qual mudou como da água para o vinho precisamente depois de um artigo escrito pelo jornalista uruguaio Antonio Palacio Zino ser publicado no jornal argentino "Crítica", onde além de tecer severas... críticas aos jogadores brasileiros ainda os apelidou de macacos. O texto foi o embrião para o nascimento da relação de amor e ódio entre os dois povos, sendo que o aspeto mais curioso nesta bipolaridade sentimental é o facto dela ter sido criada por um uruguaio!

O árbitro do jogo decisivo,
o chileno Carlos Fanta
Voltemos à ação, ao campo de batalha, ao derradeiro dia da prova para nos centramos no confronto entre Chile e Uruguai. Apesar de técnica e taticamente superiores, os uruguaios não tiveram tarefa fácil diante de uma aguerrida seleção do Chile que contou com o apoio frenético de 16 000 espetadores ao longo dos 90 minutos. Uruguai que antes da partida torceu o nariz à nomeação do árbitro do jogo, Carlos Fanta, do... Chile! Contudo, a atuação do juiz chileno, considerado um dos melhores daqueles anos, foi impecável, facto que fez esquecer a todos os presentes que o seu coração batia pela sua pátria. A muralha chilena apenas seria derrubada já muito próximo do intervalo, altura em que El Loco Romano inaugurou o marcador para a celeste. No segundo tempo a multidão presente num estádio que nos dias hoje acolhe corridas de cavalo (!) entrou em delírio, por culpa de Aurelio Dominguez, que aos 60 minutos igualou a contenda. Sol de pouca dura, já que cinco minutos volvidos José Pérez voltou a colocar o Uruguai em vantagem, a qual não mais seria perdida até final, e que mais do que garantir a segunda vitória dos charrúas no torneio assegurou a conquista do terceiro Campeonato Sul-Americano em quatro edições realizadas! A melhor equipa da América do Sul era de novo a rainha do continente.

A figura: José Piendibene

El maestro Piendibene, com
as cores do seu Peñarol
Ángel El Loco Romano e José Pérez sagraram-se os melhores marcadores deste 4º Campeonato Sul-Americano, mas a estrela que mais brilhou ao longo do torneio foi a de José Piendibene. El maestro, como era conhecido, pela forma como pautava o jogo da sua equipa, era um avançado alto, portador de uma qualidade técnica apurada, a qual encantou os adeptos sul-americanos ao longo das décadas em que defendeu com brio as camisolas do Uruguai e do seu amado Peñarol de Montevidéu. José Antonio Piendibene nasceu na capital uruguaia, a 10 de junho de 1890, sendo que com apenas 17 anos vestiu pela primeira vez o manto sagrado da primeira equipa do Peñarol num jogo ante o French, em 1908, e onde no qual o jovem oriundo do bairro de Pocitos maravilhou o público com a marcação de dois golos e uma exibição deslumbrante. A partir dai não mais largou a titularidade no emblema de Montevidéu, tendo chegado à seleção em 1911. A estreia pela celeste deu-se diante do inimigo do outro lado do rio da Prata, a Argentina, tendo a alcunha de maestro nascido precisamente no rescaldo desse encontro, já que de acordo com a história, no final do duelo, o defesa argentino Alumni terá proferido o seguinte elogio ao jovem José Piendibene: «Usted es un maestro, muchacho...». E a alcunha ficou para o resto da sua vida. Ao serviço do Peñarol atuou em mais de meia centena de ocasiões - 506, para sermos mais precisos - tendo apontado 253 golos, registo que faz dele uma lenda eterna do clube aurinegro. Venceu seis campeonatos uruguaios (1911, 1918, 1921, 1924, 1926, e 1928), e em 1916 entrou para a história do Campeonato Sul-Americano de Futebol após ter marcado o primeiro golo da história daquela que hoje em dia é conhecida como Copa América. Fê-lo diante do Chile, a 2 de julho desse longínquo ano de 1916.

Este primeiro Campeonato Sul-Americano seria conquistado, como nunca é demais recordar, pelo Uruguai, tendo este sido o primeiro dos dois títulos continentais - esteve ausente na caminhada triunfal do Uruguai na segunda edição do certame - que Piendibene conquistou ao serviço da seleção celeste, a qual defendeu por 56 ocasiões, tendo apontado 26 golos. Outro recorde que ainda hoje predura prende-se com o facto de Piendibene ser o jogador que mais golos marcou no clássico do rio da Prata, o qual opõe a Argentina ao Uruguai, tendo o jogador do bairro de Pocitos apontado 17 tentos. O reinado do poderoso avançado no seio da seleção terminou nas vésperas de o Uruguai conquistar o Mundo, o mesmo é dizer, os Jogos Olímpicos de 1924. Piendibene só não fez parte dessa célebre equipa onde pontificavam nomes como José Nasazzi, Pedro Cea, Ángel Romano, Pedro Petrone, Héctor Scarone, ou a maravilha negra José Leandro Andrade porque o seu clube estava de candeias às avessas com a Associação Uruguaia de Futebol, e como tal proibiu os seus futebolistas de envergarem o manto celeste nas Olimpíadas de Paris. Nesse mesmo ano de 1924 foi atribuído a José Piendibene o título de sócio honorário do Peñarol. Antes de ser um exímio futebolista ele era um perfeito cavalheiro nas canchas em que passeou a sua classe, já que reza a lenda que sempre que marcava um golo nunca o festejava, em sinal de respeito para com o seu adversário. Faleceu em 1969, na sua cidade natal, Montevidéu.

Nomes e números:

11 de setembro de 1920

A desoladora seleção do Brasil que marcou presença no Chile, em 1920
Brasil - Chile: 1-0
(Alvariza, aos 53m)

12 de setembro de 1920

Uruguai - Argentina: 1-1
(Piendibene, aos 10m)
(Echeverría, aos 75m)

18 de setembro de 1920

Uruguai - Brasil: 6-0
(Ángel Romano, aos 23m, aos 60m, José Pérez, aos 29m, aos 65m, Antonio Urdinarán, aos 26m, Antonio Campolo, aos 48m)

20 de setembro de 1920
A equipa da casa, que pela primeira vez vestiu de vermelho
Argentina - Chile: 1-1
(Dellavale, aos 13m)
(Bolados, aos 30m)

25 de setembro de 1920

Argentina - Brasil: 2-0
(Echeverría, aos 40m, Libonatti, aos 73m)

3 de outubro

Chile - Uruguai: 1-2
(Aurelio Dominguez, aos 60m)
(Ángel Romano, aos 37m, José Pérez, aos 65m)

Classificação

1- Uruguai: 5 pontos
2- Argentina: 4 pontos
3- Brasil: 2 pontos
4- Chile: 1 ponto
A celeste uruguaia, que em terras chilenas alcançou o seu terceiro título de campeão das américas

quinta-feira, abril 17, 2014

Copa América (3)... Brasil 1919

Cartaz oficial do
Campeonato Sul-Americano de 1919
Se há país cujo seu povo evidencia diariamente uma paixão ardente pelo futebol, esse país é o Brasil. Pronunciar o nome da nação sul-americana é de imediato sinónimo de futebol, sendo este um jogo interpretado com uma mescla de fantasia e mestria ímpar por um povo habituado a ver a sua seleção - e os seus clubes - a percorrer - quase sempre - os caminhos da glória no planeta da bola. A primeira caminhada vitoriosa trilhada pela nação que atualmente detém o maior número de títulos mundiais (5) ocorreu em 1919, ano em que a CONMEBOL - Confederação Sul-Americana de Futebol - decide erguer a terceira edição do então imergente - mas já popular - Campeonato Sul-Americano de Futebol, hoje em dia conhecido como Copa América. O Brasil ficou encarregue de acolher os quatro - habituais - participantes do campeonato iniciado em 1916 na cidade de Buenos Aires, ficando assente que os seis encontros do certame iriam decorrer no Rio de Janeiro, sendo que toda a ação se iria desenrolar no Estádio das Laranjeiras, um recinto com capacidade para 18 000 pessoas construído propositadamente para sedear uma copa que deveria ter sido disputada um ano antes, isto é, em 1918, até para dar seguimento à ideia da CONMEBOL, a qual dizia que o campeonato deveria ser disputado anualmente. Acontece que 1918 fica marcado pela mortífera Gripe Espanhola que em praticamente todo o Mundo - o Brasil não foi exceção - vitimizou milhares de pessoas. Passado o pânico foi altura da bola começar a rolar na Cidade Maravilhosa...


Uma imagem da bela cidade
do Rio de Janeiro em 1919
Desde logo este campeonato ficaria marcado pelo regresso às grandes competições de algumas das principais estrelas do então jovem futebol sul americano, cuja ausência havia sido vincadamente notada na edição de 1917, realizada no Uruguai. No selecionado da casa regressava aquele que para muitos dos historiadores desportivos foi o primeiro grande goleiro brasileiro, Marcos Carneiro de Mendonça, que na Copa de 1917 havia sido substituído pelo português Casemiro do Amaral. Mas o regresso mais saudado seria, sem dúvida, o de Arthur Friedenreich, o primeiro grande astro da história do futebol do Brasil, o qual haveria de ser determinante para a vitória final da sua equipa, como iremos poder constatar. Contudo, e apesar do regresso de El Tigre Friedenreich, o Brasil tinha um rival de peso na corrida ao título, o Uruguai, vencedor das duas primeiras edições, e cujo grupo se via reforçado com os negritos Juan Delgado e Isabelino Gradín, também eles ausentes da edição anterior. E tal como nos anteriores torneios todas as quatro seleções iriam jogar umas contras as outras, em sistema de campeonato, sendo que o vencedor seria a equipa que somasse o maior número de pontos.


Lance da expressiva goleada
do Brasil diante do Chile, no jogo
de abertura da Copa
A 11 de maio a loucura tomou conta do Rio de Janeiro. Nesse dia o Brasil entrava em campo para o pontapé de saída da Copa, tendo como adversário o Chile. Prova do entusiasmo em volta deste encontro seria o facto de as Laranjeiras terem apresentado uma casa com 25 000 espetadores, quando a sua lotação era de 18 000!!! Diz a história que muitos adeptos assistiram ao jogo em cima das árvores em redor do estádio, e dos muros que circundavam o mesmo. Orientados tecnicamente pelo jogador Haroldo Domingues os brasileiros vulgarizaram os chilenos, claramente a seleção mais fraca da prova, com seis golos sem resposta. A estrela da tarde foi Arthur Friedenreich, autor de três golos e uma exibição encantadora. Neco, o ponta esquerda que era a estrela da altura do Corinthians, também brilhou, ao apontar dois golos. O outro golo dos donos da casa seria da autoria do jogador/treinador, Haroldo.


Isabelino Gradín, a estrela
do futebol sul-americano da segunda
década do século XX
Dois dias depois os velhos inimigos do Rio de la Plata, a Argentina e o Uruguai, mediram forças, sob a arbitragem do inglês Robert Todd. Todos os olhares estavam concentrados na estrela negra do combinado celeste, Isabelino Gradín, que havia sido decisivo para o triunfo charrúa na primeira edição do campeonato, três anos antes. Gradín, de quem já aqui já falamos noutras viagens ao passado, era o expoente máximo de uma seleção talentosa - sob o ponto de vista técnico - e aguerrida, colocando em campo o tal espírito charrúa que caracterizava o povo uruguaio. Contra o eterno inimigo da margem sul do Rio da Prata, a Argentina, o Uruguai brindou os espetadores presentes nas Laranjeiras com um belíssimo bailado futebolístico, com performances sublimes dos irmãos Scarone, Carlos e Héctor, que, respetivamente, colocariam aos 19 e 23 minutos a sua equipa a vencer por dois golos de diferença. Porém, do outro lado figurava um conjunto de fino recorte técnico e com semelhante garra, e ainda antes do descanso o também talentoso Carlos Izaguirre encurta distâncias no marcador. No segundo tempo, e a cerca de 10 minutos para o final, um lance infeliz do uruguaio Manuel Varela coloca tudo em pé de igualdade, empate esse que seria desfeito a cinco minutos do fim por intermédio do genial Isabelino Gradín. Tinha de ser ele, pois claro.


O azarado
Roberto Chery
No dia 17, e sob a arbitragem do brasileiro Adilton Ponteado, o Uruguai voltou a subir ao relvado das Laranjeiras, desta feita para encontrar e bater a débil seleção chilena por 2-0. Com golos de Carlos Scarone e José Pérez, respetivamente aos 31 e 43 minutos, este encontro ficaria eternamente marcado pela fatal lesão do guarda-redes uruguaio Roberto Chery, que ante o Chile fazia a sua primeira aparição com a seleção charrúa. Uma estreia para lá de infeliz para o arquero do Peñarol, que na sequência de um potente remate de um jogador chileno - por si defendido - fez com que uma hérnia se deslocasse, sendo de pronto transportado para o hospital, onde viria a falecer dali a duas semanas (!) durante a operação para remover a citada hérnia, precisamente no dia seguinte ao encerramento do torneio. Tinha somente 23 anos, e era considerado pelos experts de então como o herdeiro natural do até habitual titular Cayetano Saporiti.
A sua morte provocou uma onda de solidariedade entre brasileiros e uruguaios para com a família de Chery, sendo que no dia 1 de junho desse ano de 1919 as duas seleções disputaram a Copa Roberto Chery, cuja receita proveniente desse amigável seria não apenas para a família do jogador mas igualmente para custear todas as despesas na trasladação do seu corpo para Montevideo.


Fase do Brasil-Argentina, jogo em que
a equipa da casa deu show de bola!
No dia 18 de maio as Laranjeiras voltaram a lotar para presenciar um novo recital de futebol levado a cabo pela seleção que na altura ainda... não era canarinha. Sobre este aspeto uma pequena nota de rodapé para registar a curiosidade de que o equipamento da seleção do Brasil era composto por camisola branca, calções azuis, e meias pretas. Voltando à exibição magistral da seleção para dizer que a vítima foi a Argentina, que não teve argumentos para evitar uma derrota por 3-1. Aos 22 minutos Heitor Domingues abriu o marcador para o Brasil, sendo que na etapa complementar Amilcar, aos 57 minutos, iria ampliar a vantagem, para 20 minutos depois Millon bater pela derradeira vez na tarde o arquero Carlos Isola. Este resultado, aliado à vitória do Uruguai um dia antes perante o Chile, ditava que o último encontro do campeonato, entre brasileiros e uruguaios, seria encarado como uma verdadeira final, pois quem vencesse seria automaticamente campeão.


A seleção da Argentina que marcou presença no Rio de Janeiro
Antes dessa final a Argentina e o Chile lutaram entre si pelo último lugar do pódio. Sob a arbitragem do brasileiro Joaquim Leite de Castro o jogo foi de sentido único, ou seja, a baliza chilena, com o guarda-redes Manuel Guerrero a ter uma nova tarde de pesadelo, ao ser batido por quatro ocasiões! Com três golos na sua conta pessoal Edwin Clarcke foi a estrela da tarde, sendo que o outro golo da seleção das Pampas seria da autoria de Carlos Izaguirre. Alfredo France marcou o tento de honra do Chile... em toda a competição. Um golo marcado, 12 sofridos, zero pontos, último lugar na competição, eis o saldo final obtido pela frágil seleção chilena.


Lance do primeiro jogo entre
brasileiros e uruguaios
No dia 26 de maio de 1919 o Estádio das Laranjeiras voltou a ser pequeno demais para milhares de adeptos que suspiravam por ver o Brasil ser coroado pela primeira vez como rei das américas. A tarefa era, contudo, deveras complicada, já que do outro lado estavam os bi-campões em título, guiados pela estrela Isabelino Gradín, que se apresentou no torneio numa forma estupenda. E foi ele próprio que logo aos 13 minutos silenciou o inferno das Laranjeiras, quando concluiu com êxito uma jugadita brilhante - como só ele sabia fazer. Ainda o goleiro Marcos e os restantes companheiros tentavam refazer-se do tento madrugador dos charrúas e já estes faziam balançar pela segunda vez as redes do estádio do Fluminense. Carlos Scarone, o homem que ao minuto 17 faz mexer de novo o marcador.


Neco
Foi então que surgiu no relvado o génio de Manuel Nunes, eternizado na história do belo jogo como Neco, o habilidoso - e por vezes polémico - ponta-esquerda do Corinthians nascido em São Paulo a 7 de março de 1895, e que havia vestido pela primeira vez a camisola da seleção em 1917, durante o Campeonato Sul-Americano que nesse ano decorreu no Uruguai. Nas Laranjeiras, Neco foi herói, primeiro aos 29 minutos, e já no segundo tempo à passagem do minuto 63, selando assim o placard numa igualdade a duas bolas, o resultado de um jogo emocionante e equilibrado. Com este resultado as duas equipas terminaram o torneio com cinco pontos, empatadas no primeiro lugar da classificação, como tal, pelo que a organização viu-se na necessidade de agendar - para três dias depois - um novo duelo entre ambos os selecionados, para apurar o campeão das américas.


Friedenreich atormenta a defesa charrúa
no jogo de desempate do campeonato
29 de maio ficaria pois como um dia histórico para o futebol brasileiro. Talvez pressentindo que a história estava prestes a escrever-se o Governo brasileiro decreta tolerância de ponto para as repartições públicas. Os bancos e o comércio seguem o exemplo e encerram portas no dia da finalissima. Segundo registos da época, às 9 horas da manhã uma multidão circunda o Estádio das Laranjeiras na tentativa de arranjar um lugar nas bancadas do recinto, quando o jogo apenas iria ter início às 14 horas! As duas seleções entram então em ação diante dos olhares de um estádio para lá de repleto. O equilíbrio voltaria a ser nota dominante, e é com 0-0 que se chega ao final dos 90 minutos de uma partida arbitrada pelo argentino Juan Pedro Barbera. Chega então o primeiro prolongamento de 30 minutos, e... nada. O empate persiste. Barbera dá ordem para serem jogados mais 30 minutos, perante os olhares desgastados dos 22 atletas. E eis que aos 3 minutos do segundo prolongamento, Neco foi buscar forças ao fundo do baú, e na conclusão de uma arrancada pela linha cruza para o interior da área onde aparece Heitor, este remata para uma defesa incompleta de Saporiti, tendo a bola sobrado para o artista Friedenreich, que só teve o trabalho de a enviar para o fundo das redes. El Tigre - alcunha dada pelos uruguaios ao jogador brasileiro no resclado deste campeonato - transformava-se assim no herói de todo um povo, e associava o seu lendário nome ao primeiro título conquistado pelo Brasil. O jogo mais longo de toda a história do Campeonato Sul-Americano/Copa América terminaria aos 150 minutos, com uma nação inteira a explodir de alegria. O Brasil era campeão.

A Figura: Arthur Friedenreich


El Tigre Friedenreich
Arthur Friedenreich foi - como já dissemos - a primeira grande estrela do futebol brasileiro. Sobre ele o Museu Virtual do Futebol já traçou algumas linhas biográficas que se enontram expostas na vitrina dedicada às lendas. Recordemo-las pois. Arthur Friedenreich nasceu em São Paulo, a 18 de julho de 1892, filho de um comerciante alemão, de seu nome Óscar Friedenreich, e de uma lavadeira brasileira, de nome Matilde. Nasceu mulato e de olhos azuis. Aos 15 anos, de estatura magra, ágil, com pernas finas era já um verdadeiro craque da bola.
Como já referimos foi a primeira grande estrela do futebol brasileiro numa época em que o belo jogo era ainda puramente amador. Aprendeu a jogar à bola com uma bexiga de boi, pouco tempo depois de Charles Miller ter chegado ao Brasil (em 1894) com uma bola de futebol na bagagem, uma novidade para um país que com o passar dos anos se haveria de tornar na maior potência do futebol mundial.
Fried (diminutivo pelo qual também era conhecido) começou a jogar futebol na sua cidade natal, São Paulo, mais precisamente no Germânia, passando depois para clubes como o Mackenzie, Ipiranga, Paulistano, São Paulo da Floresta, Payssandu, Atlético Santista, Internacional, Santos, Dois de Julho, Americano e Flamengo.
Começou a destacar-se pela imaginação, técnica, estilo e pela capacidade de improvisar. Em 1919 foi apelidado pelos uruguaios de El Tigre por ter encantado as multidões com o seu futebol arte na Copa América que nesse ano foi conquistada precisamente pelo Brasil comandado por Friedenreich.
Jogava como avançado-centro, e foi o inventor de novas e belas jogadas no na altura jovem futebol brasileiro, como o drible curto e a finta de corpo.
Foi campeão paulista em sete ocasiões, seis das quais ao serviço do Paulistano, e outra pelo São Paulo da Floresta (clube que anos mais tarde se viria a chamar São Paulo FC). Por oito vezes foi o melhor marcador do campeonato paulista, a maior parte delas envergando as cores do Paulistano.
Era considerado pelos cronistas da altura como um jogador inteligente dentro de campo, e talvez tenha sido o jogador mais objetivo da sua época. Parecia conhecer todos os segredos do futebol e sabia quando e como ia marcar um golo.

O equipamento usado pela seleção
brasileira em 1919
No ano de 1925, regressou da Europa (após uma digressão com o Paulistano) catalogado como um dos melhores jogadores do Mundo, depois de vencer por este clube nove dos dez jogos aí disputados.
Um dos seus mais incríveis feitos ocorreu em 1928, ano em que fez sete golos num único jogo diante do União da Lapa, batendo o recorde da época. Nesse jogo actuava pelo Paulistano e o resultado final foi de 9-0. Terminou a sua carreira no Flamengo, em Julho de 1935, com 43 anos de idade. Depois de abandonar os relvados, viveu na pobreza um bom tempo até morrer no dia 6 de Setembro de 1969, numa casa cedida pelo São Paulo.
Friedenreich vestiu pela primeira vez a camisola da seleção do Brasil em 1912, num jogo amigável contra uma seleção paulista, realizado no Rio de Janeiro. O escrete brasileiro venceu por 7-0, com dois golos de Fried.
A sua despedida aconteceu em 1935, num jogo contra o River Plate, a 23 de Fevereiro, o qual o Brasil ganhou por 2-1. Friendenreich fez pela seleção principal 23 jogos e marcou 12 golos. Já na seleção de veteranos, em 1935, disputou 2 jogos e marcou 2 golos.
A sua conquista mais importante com a camisola do Brasil foi, como já vimos, a conquista da Copa América de 1919.
Sobre a sua figura há uma dúvida que ainda hoje paira no ar, ou seja, será ele o maior goleador de todos os tempos? Há quem diga que sim e há quem diga que não. Uma dúvida que infelizmente não pode ser desfeita, já que existem poucos, ou mesmo nenhuns, dados que provem que Fried tem mais golos do que Pelé, que é, como se sabe, oficialmente considerado pela FIFA como o jogador que fez mais golos na história do futebol. Reza a lenda que El Tigre terá marcado 1239 golos. Sobre si escreveram-se vários livros, mas há um que retrata na perfeição o momento histórico vivido naquele dia 29 de maio de 1919, o momento em Fried oferece o primeiro título ao seu país. É esse excerto do livro As Origens do Tigre do Futebol (da autoria de Alexandre da Costa) que passamos a transcrever. 

A caricatura de El Tigre
Em 26 anos de carreira, a grande alegria de Fried foi aquele campeonato sul-americano, realizado no Rio de Janeiro, em 1919. Perdoado pela CBD, ele era a principal esperança da seleção brasileira para a conquista do título inédito. A equipe passou invicta pela fase de classificação e teria pela frente, na final, o sempre temido Uruguai, no dia 29 de maio. Mais uma vez, uma superstição do comandante do ataque brasileiro foi usada. Por baixo da camisa branca da seleção, ele tinha uma do Flamengo. Nunca me disse o porquê daquela crença, mas disfarçava dizendo que gostava da combinação do vermelho com o preto. Vai entender! A partida começa e o estádio das Laranjeiras está abarrotado. Dia de tempo instável, não parece que vai chover e nem aparecer um solzinho. No campo, a peleja está animada. Os dois times têm grandes oportunidades durante os noventa minutos, porém o marcador não sai do 0 x 0. Fried, marcado por dois uruguaios, às vezes até por três, estava meio escondido na partida. Duas prorrogações, e o jogo insiste em não mostrar um vencedor. O extrema-esquerda do Brasil, Neco, faz então uma jogada cinematográfica pela linha de fundo uruguaia. Num bate-rebate interminável na área, a bola vai parar caprichosamente no santo pé esquerdo de Fried. Sem muito trabalho, o centroavante arrematou para o gol, terminando com os 150 minutos de sofrimento. É o gol do título. Mesmo no alvoroço da vitória, Arthur é humilde e divide os louros do título com Neco. Diz ele, emocionado: "O gol foi do Neco, que fez uma jogada belíssima. Eu apenas tive o trabalho de chutá-la. Nada mais". Ainda no estádio, antes da grande festa nas ruas promovida pelos cariocas, um fato curioso e inesperado coroa a campanha brasileira e, principalmente, o seu artilheiro. Das mãos do capitão uruguaio, o comandante do ataque brasileiro recebe um pergaminho com o título que lhe acompanharia até o final de seus dias. "Nós, os componentes da seleção uruguaia, concedemos ao senhor Arthur Friedenreich, o título de El Tigre por ser o mais perfeito centroavante do campeonato sul-americano." O Tigre, cansado, chora com a homenagem. Nas ruas do país, a empolgação é generalizada. Com o feito inédito, o futebol cai no gosto popular. Os campeões são carregados em triunfo e mais uma vez o inesperado acontece. O jornal A Noite, um dos mais famosos da época, nunca havia colocado fotografia alguma em sua primeira página, fosse ela de presidente, rei ou ministro. No entanto, naquele dia, estampou em uma edição especial, sem nenhum constrangimento e em tamanho natural, o pé esquerdo de Fried. O singelo título dizia: "Eis o pé da vitória". O jornal vendeu como água. O Brasil aparecia no futebol pela primeira vez. E Friedenreich... bom , ele era o Tigre. 

Números e nomes:

11 de maio de 1919

Brasil - Chile: 6-0
(Friendenreich, aos 19m, aos 38, aos 76m; Neco, aos 21m, aos 83m; Haroldo, aos 79m)

13 de maio de 1919

Uruguai - Argentina: 3-2
(Carlos Scarone, aos 19m, Héctor Scarone, aos 23m, Gradín, aos 85m)
(Izaguirre, aos 34m, Varela, na p.b. aos 79m)
A equipa do Uruguai que esteve no Rio de Janeiro
com Isabelino Gradín na fila de baixo (o segundo a contar da direita para a esquerda)
17 de maio de 1919

Uruguai - Chile: 2-0
(Carlos Scarone, aos 31m, José Pérez, aos 43m)

18 de maio de 1919

Brasil - Argentina: 3-1
(Heitor, aos 22m, Amilcar, aos 57m, Millon, aos 77m)
(Izaguirre, aos 65m)

22 de maio de 1919
A pobre seleção chilena que esteve na Copa de 1919
Argentina - Chile: 4-1
(Clarcke, aos 10m, aos 23m, aos 62m; Izaguirre, aos 13m)
(France, aos 33m)

26 de maio de 1919

Brasil - Uruguai: 0-0

Classificação
1-Brasil: 5 pontos
2-Uruguai: 5 pontos
3-Argentina: 2 pontos
4-Chile: 0 pontos
Vista aérea da Laranjeiras no dia da grande decisão
Jogo de desempate

29 de maio de 1919

Brasil - Uruguai: 1-0
(Friendenreich, aos 122m)
Seleção brasileira que venceu o Campeonato Sul-Americano de 1919