segunda-feira, novembro 09, 2015

Arquivos do Futebol Português (4)

O team de Lisboa que em 1894 conquistou o primeiro troféu da história do futebol português
A popularização do futebol em Portugal levou a que a modalidade ultrapassasse em 1894 pela primeira vez as fronteiras regionais. A 29 de outubro de 1893 o jornal Diário Ilustrado publica uma carta do presidente do Football Club do Porto, António Nicolau d' Almeida, endereçada ao presidente do Football Club Lisbonense, Guilherme Pinto Basto, onde na qual o team do Porto convidava o team lisboeta para um duelo futebolístico a realizar a 2 de novembro desse ano. A missiva rezava assim: «Desejando solenizar a definitiva instalação do Football Club do Porto resolvemos organizar um match quarta-feira próxima 2 de novembro, no qual tomasse parte um eleven do team do clube a que V.Exa. tão dignamente preside. Não temos, é certo, em virtude da pouca prática e nenhum training dos nossos jogadores um eleven de primeira ordem, capaz de fazer frente ao do Club Lisbonense. Como, no entanto, o nosso convite não representa um repto lançado pelos nossos jogadores aos jogadores de Lisboa, mas tão somente o vivo desejo de estreitar relações de franca camaradagem, esperamos que V.Exas. nos revelarão a nossa justificada imperícia. Cumpro, pois, na qualidade de presidente do Football Club do Porto, o honroso dever de convidar por intermédio de V. Exas. os valentes e adestrados jogadores do Club Lisbonense a tomarem parte no referido match. Na esperança de sermos honrados com a anuência do nosso pedido, aguardamos o favor de uma resposta rápida para nosso governo. Deus guarde V.Exas. Excelentíssimo Sr. Presidente do Football Club Lisbonense».
A carta de António Nicolau d'Almeida a Guilherme Pinto Basto
O repto é aceite, pese embora por motivo de impossibilidade de organizar de forma tão célere a equipa e a viagem para o norte os de Lisboa fazem com o match fosse jogado somente a 2 de março do ano seguinte! Na ânsia de fazer deste um encontro adornado com pompa e circunstância, Guilherme Pinto Basto convence o rei D. Carlos a patrocinar o evento. O monarca, um acérrimo apaixonado pelo desporto, aceita de pronto, e mais do que isso disponibiliza-se para oferecer um troféu ao vencedor do match, exigindo somente que esta partida fosse incluída no programa das comemorações do Centenário Henriquino, em homenagem ao Infante D. Henrique, e que pelo menos seis jogadores de cada equipa teriam de ser portugueses, embora esta última exigência não terá sido seguida à risca, conforme iria atestar a constituição das equipas. O famoso encontro seria batizado pela imprensa da época de Cup d'el Rei, tendo os dois combinados sido integrados por elementos pertencentes a outros grupos de football das duas principais urbes lusitanas, facto que de pronto fez deste um confronto entre... Lisboa e Porto, o primeiro embate entre as duas cidades que com o passar das décadas viria a dar aso a uma acesa rivalidade.
O Campo do Inglês (na zona do Campo Alegre) era propriedade de um dos grupos mais populares da Cidade Invicta daquele tempo, o Oporto Cricket Club, emblema que cedeu alguns dos seus melhores jogadores ao team representativo do Porto, aos quais se juntariam alguns elementos do Football Club do Porto. Quanto ao team de Lisboa esse era capitaneado por Guilherme Pinto Basto, e reza a história que a viagem entre a capital e o Porto terá sido feita durante a madrugada que antecedeu o jogo e cuja duração chegou às 14 horas! Após o desembarque na Estação de Campanhã os lisboetas partiram de imediato para a zona do Campo Alegre onde de Sua Majestade o rei e restante família real... nem sinal! Mesmo sem a presença dos ilustres convidados o pontapé de saída foi dado quando passavam 15 minutos das três da tarde, tendo o encontro sido arbitrado por Eduardo Pinto Basto. Os jornais da época ressalvaram o facto de o terreno de jogo não ser dos melhores para a prática do futebol, referindo que a zona das balizas descaiam bastante, além de que os postes não se encontrariam à distância regulamentada! Quanto à família real essa chegou bastante atrasada ao espetáculo, quando passavam já 15 minutos das quatro da tarde, sendo que a pedido de Sua Majestade a Rainha D. Amélia os 22 players tiveram de fazer um esforço suplementar em prolongar a partida por mais 10 minutos para que os ilustres espectadores pudessem apreciar, devidamente, o espetáculo que terminou com a vitória da equipa mais experiente nestas andanças, isto é, a turma de Lisboa, por 1-0.
A bonita Cup d'el Rei, o primeiro troféu futebolístico instituído em Portugal, tendo sido disputado pelos grupos de Lisboa e Porto, em 1894
Os relatos do célebre encontro dizem que o golo dos lisboetas foi marcado já com a presença de suas majestades, embora o seu autor fosse por completo desconhecido! Rezam ainda as crónicas que o match teve na verdade dois golos, tendo o primeiro ocorrido quando faltavam 14 minutos para o intervalo, mas o facto de a bola ter batido no braço de um defensor da equipa nortenha antes de se encaminhar para o fundo da baliza levou a que o juiz Eduardo Pinto Basto anulasse o lance com a justificação de que o esférico havia sido jogado com a mão. Ainda segundo os relatos da época para a vitória do team de Lisboa - cujo golo foi marcado no segundo tempo - muito contribuíram as esplêndidas exibições dos irmãos Vilar, Carlos e Afonso, do inglês Rankin e ainda de Paiva Raposo. Para os portuenses sobraram alguns elogios, tidos como um team de primeira ordem, sendo que no plano individual se destacou as exibições do experiente escocês MacGeock, de Arthur Dagge e de MacMillen, facto que levou o jornal Sport - um dos primeiros periódicos portugueses dedicados ao desporto - referir que «se o grupo de Lisboa que, para o ano de 1895, tiver de defender a taça, não se treinar e não tiver muito cuidado na escolha dos jogadores que dele devem fazer parte, decerto bem difícil lhe será poder vencer o match, pois que, à equipa que vimos jogar pelo Porto, a única coisa que lhe notámos foi a falta de treinos, que, no que, estamos certos, não descurarão de futuro, a fim de poderem ganhar a taça, para o ano».
A notícia deste jogo teve eco além fronteiras, tendo os jornais ingleses publicado uma breve nota sobre o acontecimento ocorrido no Campo Alegre. Quanto ao troféu, o capitão e guarda-redes da equipa de Lisboa, Guilherme Pinto Basto, recebeu-o no final do encontro das mãos do rei D. Carlos, monarca que havia mandado executar esta peça banhada em prata na Casa Leitão & Irmão, joalheiros da Casa Real.  
Para a eternidade ficam as lines desse histórico embate: Porto - Hugh Ponsonly (c), MacGeock, A. Nugent, Guimarães, Arthur Dagge, MacMillen, Albert Kendall, Adolfo Ramos, MacKenie, Ray e Alfredo Kendall. Lisboa - Guilherme Pinto Basto (c), Keating, Locke, Barley, Artur Raposo, Rankin, Afonso Vilar, Pittuck, Thomson, Palmers e Carlos Vilar.
1893 e 1894 são anos repletos de matchs, não só nas duas principais urbes do país como noutras regiões de um Portugal que começava a abraçar nos seus quatro cantos o jovem football. Os jornais dão conta de desafios em Coimbra, Faro, Portalegre e Madeira, embora continue a ser na capital que a bola rola com mais frequência. O emblema com mais encontros disputados é o Football Club Lisbonense, que a par dos ingleses do Carcavelos Club é tido como o emblema mais forte do império. Há, aliás, em 1893 um duelo curioso entre estes dois clubes, disputado a 2 de fevereiro, no Campo das Salésias, e segundo as crónicas de então o Carcavelos, integrado por jogadores de outros teams lisboetas, como o Braço de Prata e o Club de Lisboa, derrotou por 1-0 o até então invencível Lisbonense, onde pontificavam três jogadores de origem negra - os primeiros negros do futebol português, segundo se sabe - Pascoal, Alfredo Silva e Valentim Machado.

Nenhum comentário: