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sexta-feira, abril 19, 2013

Futebol nos Jogos Olímpicos (9)... Melbourne 1956

Em 1956 o torneio olímpico transpunha pela primeira vez  as fronteiras da Europa. Desde que havia sido oficializado em 1908 o futebol olímpico nunca havia sido jogado fora dos relvados do Velho Continente, o palco onde se assumia indiscutivelmente como ator principal do teatro desportivo. Fora deste continente o belo jogo parecia por aqueles dias ainda não ter adquirido o estatuto de desporto rei, sendo a exceção a América do Sul, onde há muito que já era tratado de forma principesca. Em termos olímpicos o ato de fé de que a modalidade ainda não era venerada a 100% - o mesmo será dizer que ainda não suscitava um interesse profundo - foi que nos Jogos de 1932, em Los Angeles, ela nem sequer fez parte do programa olímpico. Mas a meio do século XX tudo parecia estar a mudar, ou pelo menos a tentar.
Em 1956 os Jogos Olímpicos disputam-se na longínqua Austrália, mais concretamente na cidade de Melbourne, que assim testemunhou a primeira aparição das Olimpíadas no hemisfério sul. O facto de terem decorrido num local tão distante fez com que a esmagadora maioria das delegações tivesse enfrentado um duro desafio financeiro para levar um alargado leque de atletas à grande ilha do Pacífico. Assim sendo - e face às dificuldades financeiras para fazer uma viagem tão longa - a maior parte das nações fizeram-se representar por reduzidas comitivas, com pouquíssimos atletas, transformando a maior parte das competições que integravam o cartaz olímpico de 56 num enorme... deserto. Marcado por muitas ausências esteve igualmente o torneio olímpico de futebol, onde apenas 11 equipas - sim, somente 11 (!!!) - lutaram pelo ouro. Desde 1912, em Estocolomo, que o torneio olímpico não tinha tão poucos concorrentes! Sem dúvida que este não era o melhor cartão de visita para apresentar, e sobretudo fidelizar, o futebol noutros cantos do planeta que não na Europa e na América do Sul.

Outro aspeto que empobreceu muito o torneio olímpico de Melbourne foram as lutas políticas. Cerca de um mês antes do início dos Jogos a União Soviética invade a Hungria com a intenção de contestar uma manifestação popular, que ficou conhecida como a Revolução Húngara de 56, onde o povo magiar exigia uma maior autonomia da sua pátria em relação aos soviéticos. Por esta altura a lendária seleção húngara do início dos anos 50 - campeão olímpica em 1952, e vice campeã do Mundo em 1954 - já se havia desmembrado, com os seus melhores jogadores - entre outros Puskas, Czibor, ou Kocsis - a pedir asilo político a outros países onde continuariam as suas lendárias carreiras desportivas.
Para Melbourne viajaram apenas cinco seleções europeias, a maioria delas oriundas do leste, com destaque para a União Soviética, que pela segunda vez na sua história marcava presença nos Jogos, e para a Jugoslávia, a eterna vice-campeã olímpica, como mais à frente se iria confirmar... mais uma vez. Além destas também seguiram viagem para a Austrália os combinados da Grã-Bretanha, Alemanha (unificada !!!), e a Bulgária. Teoricamente deste grupo pensava-se que pudesse sair o novo campeão olímpico, até porque as restantes seis seleções pertenciam a uma espécie de sub-mundo do futebol, com poucas, ou nenhumas, provas dadas no cenário futebolístico internacional, como eram os casos da Tailândia, Índia, Indonésia, Japão, Estados Unidos da América, e a turma anfitriã, a Austrália. Estes eram os 11 participantes do desolador torneio olímpico de 56, e como já deu para ver da América do Sul nem uma única seleção se aventurou fazer a viagem até à terra dos cangurus, onde o soccer - como lá é conhecido o futebol - era ainda um verdadeiro enigma.
Novidade no torneio olímpico de 1956 o facto de a maioria das seleções ter tido a necessidade de passar por uma fase de qualificação para carimbar o passaporte para a fase final.

Países de leste confirmam favoritismo... com algumas dificuldades pelo meio

Foi no peculiar Melbourne Olympic Park - de arquitetura oval (!) - que decorreram a esmagdora maioria das provas olímpicas de 1956, sendo uma delas o futebol. A 24 de novembro entram em campo União Soviética e a Alemanha unificada - uma das novidades do torneio. Germânicos que apesar de ostentaram o título de campeões do Mundo - conquistado dois anos antes na Suíça pelos alemães do ocidente, isto é, pela República Federal da Alemanha - apresentavam-se em Melbourne com uma equipa constituida por jovens jogadores amadores, sem qualquer experiência internacional. Orientada pela lenda da tática que em 54 havia conduzido os alemães ocidentais à épica conquista do Mundo, Sepp Herberger, a seleção teutónica fez a vida negra aos frios e desconhecidos soviéticos no encontro que abriu a primeira eliminatória do torneio. Aos 23 minutos Anatoli Issaev abriu o marcador de um jogo disputado às 14:30h da tarde... debaixo de um calor sufocante tipicamente australiano. Já na segunda parte, e muito perto do fim, os homens de leste carimbaram o ingresso nos quartos-de-final, quando à passagem do minuto 86 Eduard Streltsov fez o segundo tento da sua seleção. Porém, a boa performance dos germânicos seria justamente premiada com um golo, aos 89 minutos, em cima do apito final do inglês Robert Mann, por intermédio de Ernst Habig. 2-1 final, um triunfo sofrido de uma União Soviética que era uma verdadeira incógnita para o mundo ocidental. 


Olhavam para eles com desconfiança, muito devido ao seu posicionamento político perante o resto do mundo. O seu ainda pouco conhecido desempenho desportivo era classificado por muitos como científico e metódico, e para outros pouco atrativo sob o ponto de vista técnico. Assim era o futebol soviético, protagonizado por aquela misteriosa equipa que na sua camisola vermelha trazia impressa as siglas CCCP. Por trás da cortina de ferro do bloco comunista havia um novo mundo para descobrir sob o ponto de vista desportivo, o qual começou precisamente a deixar-se vislumbrar nestes Jogos de 1956, já que no final eles levariam para casa um impressionante número de 98 medalhas, entre as quais figurava a rodela de ouro que seria conquistada no futebol. Mas já lá iremos. 


A 26 de novembro perante uma desoladora assistência de pouco mais de 3500 pessoas a experiente Grã-Bretanha massacrava a para lá de modesta Tailândia - que fazia a sua estreia nas andanças olímpicas no que a futebol concerne - com nove golos sem resposta, com destaque para o hattrick de John Laybourne. 
Um dia mais tarde foi a vez da seleção da casa fazer não só a sua estreia em torneios olímpicos mas também num grande evento futebolístico internacional. Completamente desconhecido - para o mundo ocidental - o soccer australiano media forças com o Japão. Segundo crónicas da época os socceroos não se apresentaram no evento na sua melhor condição física, tendo iniciado a sua preparação apenas quatro semanas antes deste ter início. Contudo, apesar de mais fortes sob o ponto de vista técnico os japonenses não conseguiram furar a sólida defensiva local. E como quem não marca sofre aos 26 minutos Graham McMillan apontou - de grande penalidade - o primeiro golo da tarde para a Austrália. Na segunda parte os nipónicos bem tentaram dar a volta por cima, mas a sorte nada queria com eles, e à passagem do minuto 61 Frankie Loughran selou definitivamente o triunfo dos australianos que assim vivenciavam o primeiro momento dourado do seu soccer.

No dia 28 tinham início os quartos-de-final. Aproximadamente 5300 espetadores visionaram a segunda maior goleada verificada no torneio. A favorita Jugoslávia vergava os Estados Unidos da América por concludentes 9-1, com destaque para os hattricks de Muhamed Mujic, e Toza Veselinovic, este último que haveria de ser um dos três melhores marcadores da competição (juntamento com o indiano D'Souza, e o búlgaro Stoyanov), com um total de quatro remates certeiros.
No dia seguinte o fator surpresa pairou sobre o Melbourne Olympic Park. A União Soviética não iria além de um pobre empate a zero golos diante da modesta Indonésia (!) Exibindo um futebol fraco sob o ponto de vista técnico os soviéticos eram obrigados a um segundo jogo ante o combinado asiático marcado para dois dias mais tarde. Surpreedente foi também a vitória da Bulgária sobre a Grã-Bretanha, e logo por números a que os súbitos de Sua Majestade estavam pouco habituados. 6-1 para os búlgaros, que confirmavam assim a superioridade os países do leste europeu sobre a demais concorrência.
Empolgados com a vitória da primeira ronda cerca de 7500 australianos deslocaram-se ao anfiteatro olímpico para ver os socceroos em ação diante da Índia, que aparecia pela terceira vez consecutivo no torneio. Um confronto que ditou desde logo uma certeza: pela primeira vez uma seleção do oriente iria marcar presença nas meias finais de um torneio olímpico. A anteceder o duelo entre autralianos e indianos um episódio curioso, diria mesmo caricato, fez correr muita tinta. Os indianos queriam jogar descalços, à semelhança do que haviam tentado fazer no Campeonato do Mundo de 1938. Aí, a FIFA não permitiu que os atletas daquele país atuassem sem botas específicas para a prática do futebol. Só que em Melbourne quem mandava era o Comité Olímpico Internacional (COI), e como este continuava a defender o desporto amador contra o profissionalismo da FIFA deu aval para que os indianos jogassem da forma que preferissem! No entanto, e depois de muita discussão - com os australianos a protestar tal decisão do COI - os indianos concordariam em jogar de chuteiras. E o que é certo é que com ou sem botas a Índia humilhou a equipa da casa por 4-2, com destaque para três golos de Neville Stephen D' Souza. Quanto aos socceroos, e graças a uma paupérrima exibição, baseada num jogo violento para com os seus adversários, terminavam a sua aventura olímpica.  


Entretanto neste mesmo dia 1 de dezembro a União Soviética era obrigada a horas extras diante da Indonésia, depois do já citado 0-0 no primeiro jogo. Alertados para a surpresa oriental os soviéticos, mesmo sem encantar, puxaram dos seus galões e golearam os indonésios por claros 4-0, com realce para o bis de Sergei Salnikov. 
Este seria o último jogo em que os europeus mostrariam um futebol tecnicamente sombrio, já que nas meias finais o universo futebolístico ficaria finalmente a conhecer aquela que foi vincadamente uma das grandes seleções das décadas de 50 e 60 do século passado. 

Jugoslavos garantem presença na sua terceira final consecutiva


No dia 4 de dezembro o Melbourne Olympic Park era palco do Jugoslávia - Índia, o primeiro encontro alusivo às meias-finais do certame. Sem grandes dificuldades os europeus, mais experientes, e com maior poderio técnico-tático, bateram os asiáticos por claros 4-1, num jogo onde Papec foi a estrela da tarde ao apontar dois dos quatro golos jugoslavos. Os homens dos Balcãs marcavam assim presença na sua terceira final olímpica consecutiva. 
Um dia mais tarde apareceu então - finalmente - o perfume do futebol soviético. Os jogadores de leste mostraram ao planeta da bola o poderio do seu futebol, que sem ser de facto brilhante do ponto de vista técnico primava pela sagaz eficiência tática, pela força e precisão. Eles podiam não ter o encantador brilho técnico do lendário Uruguai das décadas de 20 e 30, por exemplo, mas apresentavam jogadas trabalhadas em laboratório, e um estudo prévio aprofundado sobre os seus adversários, facto que os iria rotular como os primeiros cientistas do futebol. Bom, mas voltando ao campo de batalha, o mesmo será dizer ao relvado do oval Melbourne Olympic Park, para recordar a curta mas merecida vitória soviética sobre a Bulgária, por 2-1, carimbada em prolongamento.


Búlgaros que caíram de pé, restando-lhes agora a luta pela medalha de bronze, cuja disputa decorreu a 7 de dezembro diante da Índia. 
Diante de pouco mais de 21 000 espetadores o combinado europeu finalizou a sua boa prestação neste torneio olímpico com um claro triunfo por três golos sem resposta, conquistado assim uma merecida medalha, a primeira do seu historial no que ao desporto rei diz respeito. 
Neste encontro o destaque individual foi para Todor Diev, autor de dois dos três tentos búlgaros. 
Quanto aos indianos este quarto lugar foi o maior feito do seu - ainda hoje - praticamente desconhecido futebol no plano internacional. 

União Soviética sobe ao lugar mais alto do pódio


E no dia 8 de dezembro o Melbourne Olympic Park registou a sua maior afluência, com quase 87 000 a marcarem presença na grande final do certame. Arbitrado pelo australiano Ron Wright o encontro foi muito equilibrado, ou não estivessem em campo as duas melhores seleções da prova. Equilíbrio que seria furado aos 48 minutos por Anatoli Ilyin, homem que entrou para a história do futebol soviético após apontar o único golo desta final olímpica, o golo que deu a primeira coroa de glória aos... cientistas do futebol. Naquele dia o Mundo ficou a conhecer uma equipa forte, com um fôlego inesgotável, comandada desde a baliza pelo imponente guarda-redes Lev Yashin, que com o seu equipamento negro, as suas enormes mãos, e a sua incrível agilidade entre os postes, impunha respeito a qualquer adversário. Foi neste ano que os soviéticos começaram a sair do seu reservado mundo, em busca da conquista de... novos mundos. Dois anos mais tarde brilhariam a grande altura no Mundial da Suécia, e em 1960 venceram a primeira edição do Campeonato da Europa. 
Quanto à Jugoslávia pela terceira olimpíada consecutiva fica com a prata! Parecia sina.

A figura: Lev Yashin


É apontado por muitos dos historiadores do belo jogo como o melhor guarda-redes de todos os tempos. Ele foi o esteio da geração dourada do futebol soviético, ficando eternizado no Olimpo do futebol como a Aranha Negra. Lev Yashin, o seu lendário nome, rapaz de modestas famílias nascido a 22 de outubro de 1929, em Moscovo, e que se deu a conhecer ao Mundo precisamente no início da década de 50, ao serviço do único clube cujas balizas defendeu ao longo de 20 anos de carreira, o Dínamo de Moscovo. Aos 14 anos trocou o hóquei sobre o gelo - a sua primeira paixão - pelo futebol, onde mostrou atributos até então nunca dantes vistos num guarda-redes. De bom porte atlético ele foi o primeiro keeper a sair sem medo aos pés dos temíveis avançados que ameaçavam a sua área. Dizem até que ele era capaz de ler a mente dos homens-golo... Era detentor de reflexos invejáveis e de um posicionamento tático perfeito entre os postes. Era a voz de comando das suas equipas, da baliza ele dava as ordens aos seus companheiros, já que lá atrás ele lia o jogo com uma mestria invulgar para um guardião. Durante 22 anos ele defendeu então as cores do Dínamo de Moscovo (entre 1950 e 1972), emblema ao serviço do qual conquistou cinco campeonatos soviéticos (1954, 1955, 1957, 1959 e 1963) e três taças da União Soviética (1953, 1967 e 1970). Ao serviço da seleção atuou em 78 ocasiões, tendo vencido a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de 1956, e o Campeonato da Europa de 1960. Esteve ainda presente em três edições do Campeonato do Mundo (1958, 1962, e 1966), tendo como melhor resultado um quarto lugar - atrás do Magriços de Portugal - no Mundial de Inglaterra, em 66. Disputou um total de 812 jogos na carreira, tendo defendido um impressionante número de 150 grandes penalidades! Vestia-se sempre todo de preto, facto que lhe valeu a eterna alcunha de Aranha Negra. Em 1968 foi condecorado com a Ordem de Lênin pela sua brilhante carreira ao serviço do desporto soviético, tendo em 1971 colocado um ponto final no seu trajeto imaculado. Quando certa ocasião lhe perguntaram o segredo do seu sucesso respondeu que: «tudo se devia ao facto de fumar um cigarro e beber um copo de vodka antes de cada jogo», um ritual que o deixava mais calmo! Em 1975, foi eleito o atleta russo do século, e em 1998, a FIFA elego-o como o melhor guarda-redes do século XX. Em 1963 ele venceu o famoso galardão Bola de Ouro, sendo até hoje o único guarda-redes a conquistar este prémio! Em 1986 perdeu uma perna por causa de uma lesão no joelho.
Viria a faleceu no dia 21 de março de 1990, em Moscovo, vitimado por um cancro no estômago. No Estádio Luzhniki ergueu-se então uma estátua em sua homenagem.

Resultados

1ª Eliminatória

União Soviética - Alemanha: 2-1
(Issaev, aos 23m, Streltsov, aos 86m)
(Habi, aos 89m)

Grã-Bretanha - Tailândia: 9-0
(Laybourne, aos 30m, 82m, 85m, Twissell, aos 12m, aos 20m, Bromilow, aos 75m, aos 78m, Lewis, aos 21m, Topp, aos 90m)

Austrália - Japão: 2-0
(McMillan, aos 26m, Loughran, aos 61m)

Quartos-de-final

Jugoslávia - Estados Unidos da América: 9-1
(Veselinovic, aos 10, aos 84m, aos 90m, Mujic, aos 16, aos 35m, aos 55m, Antic, aos 12m, aos 73m, Papec, aos 20m)
(Zerhusen, aos 42m)

União Soviética - Indonésia: 0-0 / 4-0 (desempate)
(Salnikov, aos 19m, aos 59m, Ivanov, aos 19m, Netto, aos 43m)

Bulgária - Grã-Bretanha: 6-1
(Kolev, aos 40m, aos 85m, Stoyanov, aos 45m, aos 75m, aos 80m,Nikolov, aos 6m)
(Lewis, aos 30m)

Austrália - Índia: 2-4
(Morrow, aos 17m, aos 41m)
(D'Souza, aos 9m, aos 33m, aos 50m, Kittu, aos 80m)

Meias-finais

Jugoslávia - Índia: 4-1
(Papec, aos 54, aos 65m, Veselinovic, aos 57m, Salam (p.b.), aos 78m)
(D'Souza, aos 52m)

União Soviética - Bulgária: 2-1
(Streltsov, aos 112m, Tatushin, aos 116m)
(Kolev, aos 95m)

Jogo de atribuição da medalha de bronze

Bulgária - Índia: 3-0
(Diev, aos 37m, aos 60m, Stoyanov, aos 42m)

Final

União Soviética - Jugoslávia: 1-0

Data: 8 de dezembro de 1956

Estádio: Melbourne Olympic Park

Árbitro: R. Wright (Austrália)

União Soviética: Yashin; Baschaschkin, Ogognikov  e Kuznetsov; Netto e Maslenkin; Tatushin, Isaev, Simonian, Salinikov e Ilyin

Jugoslávia: Radenkovic; Koscak e Radovic; Santek, Spajic e Krstic; Sekularac, Antic, Papek, Veselinovic e Mujic

Golo: 1-0 (Ilyin, aos 48m)

Vídeo: URSS - JUGOSLÁVIA

Legenda das fotografias:
1-Cartaz oficial dos Jogos Olímpicos de 1956
2-fase do encontro entre Alemanha e União Soviética
3-O oval Melbourne Olympic Park
4-Bilhete do torneio olímpico de futebol de 1956
5-Britânicos levaram a melhor sobre os estreantes e frágeis tailandeses
6-O jugoslavo Toza Veselinovic, um dos três goleadores do torneio

7-Lance do duelo entre soviéticos e indonésios
8-Jugoslávia ultrapssa a Índia nas meias-finais
9-Lance do jogo de apuramento dos 3º e 4º lugares
10-A equilibrada final olímpica de 56
11-A estrela da companhia soviética, a Aranha Negra Lev Yashin
12-Lance do Austrália - Japão
13-Imagem da grande final...
14-... que coroou a União Soviética como a campeã olímpica de 1956

sexta-feira, março 22, 2013

Futebol nos Jogos Olímpicos (8)... Helsínquia 1952

Os anos 50 do século passado ficam inevitavelmente marcados pelo nascimento de uma das mais encantadoras equipas de futebol de todos os tempos, a Hungria. Os mágicos magiares, como ficariam eternizados, escreveram diversos poemas futebolísticos de beleza ímpar que marcaram - e continuam a marcar - a história do belo jogo. Nomes como Sandor Kocsis, Zoltam Czibor, Nandor Hidegkuti, Gyula Grosics, ou Ferenc Puskas - todos eles soberbamente orientados pelo mestre da tática Gusztav Sebes - ascenderam ao Olimpo dos Deuses do Futebol, uma ascensão que começou a ser trilhada precisamente em 1952, nos Jogos Olímpicos que nesse ano decorreram em Helsínquia. A bordo da Máquina do Tempo façamos pois uma viagem até à capital finlandesa, para recordar a primeira nota artística da inesquecível Hungria de Puskas e companhia na alta roda do futebol internacional.
O regresso das Olimpíadas à Escandinávia ficou previamente assinalado pelo estabelecimento de um novo recorde, no que ao futebol diz respeito, claro está. 25 seleções nacionais marcaram presença em Helsínquia para participar na corrida ao ouro olímpico, número que fez com que este fosse desde logo o torneio olímpico mais concorrido da história... até então. Entre os combinados presentes destacam-se três novidades nestas andanças olímpicas, as Antilhas Holandesas, a União Soviética e o Brasil. Finalmente os Jogos Olímpicos tinham o prazer de receber os artistas sul-americanos, que em Helsínquia assinalavam o seu regresso a uma grande competição internacional depois do fiasco protagonizado... no Campeonato do Mundo de 1950, no qual em pleno Maracanã perderam o título mundial para os vizinhos do Uruguai!

A maratona de jogos do torneio olímpico de 52 começou no dia 15 de julho, com a fase pré-eliminar. No Helsingen Pallokentta Stadium os vice-campeões olímpicos em título, a Jugoslávia, não tiveram a menor dificuldade em carimbar o passaporte para a eliminatória seguinte, como expressa a goleada de 10-1 (!) imposta à modesta seleção da Índia. Partida onde o jugoslavo Branko Zebec esteve em destaque ao apontar quatro golos, iniciando aqui o avançado dos Balcãs uma caminhada que o haveria de levar até ao título de melhor marcador do certame, com um total de sete remates certeitos. E ao contrário dos jugoslavos a estreante União Soviética sentiu grandes dificuldades para se livrar da incómoda Bulgária, que em Kotka obrigou os soviéticos a horas extras. Com o marcador a indicar um teimoso nulo no final dos 90 minutos surgiu a necessidade de se jogarem mais 30 minutos de prolongamento, período onde estes últimos acabaram por levar a água ao seu moinho com uma suada vitória por 2-1. E em Turku entrava em ação a futura campeã olímpica, a Hungria. Pela frente os pupilos do mestre Gusztav Sebes tinham a Roménia, conjunto que complicou ao máximo a vida aos magiares. Extremamente bem organizados no plano defensivo os romenos anularam o refinado futebol ofensivo magiar, e só um lance de génio de Czibor, aos 21 minutos, conseguiu furar a muralha romena durante a etapa inicial. Já muito perto do fim, aos 73 minutos, Sandor Kocsis sossegou os húngaros com um remate fatal que bateu o guardião Ion Voinescu, de nada valendo o último fôlego da Roménia (golo de Ion Suru aos 86 minutos) pouco antes do apito final do soviético Nikolaj Latychev. Pelo mesmo score (2-1) registou-se o triunfo de um habitual cliente dos Jogos Olímpicos, a Dinamarca, sobre os frágeis gregos, com os tentos nórdicos a serem apontados por Poul Erik Petersen.
E como não há duas sem três 2-1 foi igualmente o resultado do duelo entre a Polónia e a França, o último deste primeiro dia de competição, tendo o tento de honra dos franceses - que até estiveram a vencer por 1-0 - sido apontado pelo histórico avançado do Stade de Reims Michel Leblond.

Estreia do Brasil...

A ronda pré-eliminar teve os seguintes capítulos no dia 16. E começou com uma chuva de golos no Egito - Chile (5-4 a favor dos africanos), enquanto que ao mesmo tempo, na cidade de Turku, o Brasil fazia a sua estreia olímpica, diante da Holanda. Brasileiros que não contavam com as suas principais estrelas da época, casos de Nilton Santos, Djalma Santos, Ademir, ou Zizinho, estes dois últimos os nomes sonantes do escrete canarinho que dois anos antes havia perdido em casa o Campeonato do Mundo para o Uruguai. E não estavam estas super-estrelas do futebol brasileiro de então porque convém - mais uma vez - relembrar que o Comité Olímpico não permitia que atletas profissionais participassem nos Jogos, e como a maior parte destes jogadores dedicava-se já única e exclusivamente ao futebol o Brasil viajou para a Finlândia com uma equipa de amadores... ou pelo menos assim se definiam. Orientado pelo técnico Newton Alves Cardoso - o selecionador principal da altura, Zezé Moreira nem sequer viajou com a comitiva ! - o combinado brasileiro era composto na sua totalidade por atletas oriundos de clubes do Rio de Janeiro (!), sendo o Fluminense o emblema que mais futebolistas cedeu à seleção, quatro para sermos mais precisos. E na estreia os brasileiros até começaram por apanhar um susto, quando à passagem do primeiro quarto de hora Van Roesell abre o marcador para a Holanda. Contudo, a apurada técnica canarinha - refira-se que pela primeira vez o Brasil envergava numa grande competição internacional a mítica camisola canarinha (amarela), cor que substituiu para sempre o azarado branco do Mundial de 50 - veio ao de cima, e 10 minutos volvidos Humberto repunha a igualdade. E os minutos que se seguiram até ao intervalo foram tomados de assalto pela estrela da tarde, Larry. 
Larry Pinto de Faria, de seu nome completo, nascido 20 anos antes (1932) em Nova Friburgo (Rio de Janeiro) teve o seu momento de fama com a mágica camisola canarinha precisamente nestes Jogos Olímpicos. Na primeira parte desse célebre encontro ante os holandeses ele fez dois golos (aos 33 e aos 36 minutos) que ao intervalo colocavam os artistas brasileiros numa boa posição para seguir em frente. Avançado elegante e com uma técnica virtuosa Larry espalhou todo o seu perfume nos relvados finlandeses onde o Brasil atuou. Na época jogava no Fluminense, clube onde se havia iniciado um ano antes destas Olimpíadas, e onde iria permanecer até 1954, altura em que viaja para Porto Alegre para defender as cores do Internacional. No Colorado Larry foi rei, tendo conquistado a exigente torcida do clube logo no primeiro dérbi ante o Grêmio, após marcar quatros dos seis golos com que o Inter derrotou o seu eterno rival. Em Porto Alegre permanceria até ao final da sua carreira (1961), tendo disputado mais de 250 jogos e apontado quase 180 golos (176 para sermos mais exatos). Mais do que um goleador era um jogador requintado, elegante - como já referimos - características que faziam dele um atleta diferente. No Inter de Porto Alegre cerebral Larry - como seria batizado pelos adeptos do clube - formou uma dupla mortífera com Bodinho, uma dupla que rivalizava em popularidade, e sobretudo em produtividade, com a de Pelé e Coutinho, no Santos. O jogador que depois de pendurar as chuteiras tornou-se deputado estadual vestiu por seis ocasiões a camisola do Brasil, três delas nestes Jogos de 1952, tendo apontado quatro golos, curiosamente todos eles em Helsínquia - e arredores -, facto que o tornaria na figura central do Brasil nesta sua primeira aparição olímpica.
Bom, voltando ao encontro de Turku, na segunda parte o escrete dilatou a vantagem construída pelo cerebral Larry. Aos 81 minutos Jansen faz o 4-1, para cinco minutos depois um tal de Vavá selar o resultado em 5-1. Vavá que seis anos mais tarde seria juntamente com Pelé, Garrincha, Zagallo, Djalma Santos, ou Nilton Santos, um dos responsáveis pela conquista do primeiro título mundial para os canarinhos. 
Nesse mesmo dia gritou-se a palavra "escândalo" no seio dos Jogos. A poderosa Grã-Bretanha - formada na sua grande maioria pelos mestres ingleses -era humilhada pela frágil seleção do Luxemburgo por 3-5 (após prolongamento), e saia pela porta pequena do torneio olímpico. Esta era a segunda humilhação que os britânicos sofriam no curto espaço de dois anos no panorama internacional, tendo a primeira ocorrido no Campeonato do Mundo de 1950, quando em Belo Horizonte os amadores dos Estados Unidos da América derrotaram a seleção da Inglaterra por 1-0, jogo esse de que já fizemos eco nas vitrinas virtuais do Museu. E por falar em Estados Unidos da América, quiseram os caprichos do sorteio deste torneio olímpico que os soccer boys defrontassem pela terceira Olimpíada consecutiva a poderosa Itália. E nem mesmo a presença de jogadores como Charlie gloves (luvas) Colombo, John Souza, ou Harry Keough, três dos heróis de Belo Horizonte ante a Inglaterra, intimidou a squadra azzurra - orientada pelo lendário Giuseppe Meazza -, que sem misericórdia voltou a esmagar os norte-americanos tal como havia feito nos Jogos Olímpicos de 1948, desta feita por 8-0. 
Aventura finlandesa durou pouco
Assim sendo Itália, Brasil, Luxemburgo, Hungria, Jugoslávia, União Soviética, Dinamarca, Polónia, e Egito avançavam para a 1ª eliminatória, juntando-se às isentas Finlândia, Noruega, Áustria, República Federal da Alemanha (RFA), Turquia, Antilhas Holandesas, e a campeã olímpica em título, a Suécia. A 1ª eliminatória arrancou a 19 de julho, no majestoso Estádio Olímpico de Helsínquia, onde se desenrolaram a esmagadora maioria das modalidades dos Jogos, com a derrota da seleção da casa, a Finlândia, aos pés de uma Áustria em reconstrução... após o desmembramento do Wunderteam (equipa maravilha) dos anos 30 edificada por Hugo Meisl. Austríacos que só garantiram a passagem aos quartos-de-final a 10 minutos do fim, quando Herbert Grohs fez o 4-3 perante o semblante carregado de 33 000 finlandeses, que viam desta forma a aventura olímpica da sua seleção durar apenas 90 minutos. Em Turku entrava em campo a RFA, liderada pelo mestre Sepp Herberger, o homem que dois anos mais tarde iria guiar os germânicos à conquista do seu primeiro Campeonato do Mundo. Nas Olimpíadas de 52 a RFA entrava com o pé direito, fruto de uma vitória tranquila sobre o Egito por 3-1. Em Tampere, União Soviética e Jugoslávia protagonizaram um jogo que seria um hino ao futebol espetáculo. Com um elevado - e apurado - caudal ofensivo ambos os conjuntos chegaram ao fim do prolongamento empatados a cinco golos (!), facto que obrigou a que dois dias depois fosse realizada uma partida de desempate. No plano individual o jugoslavo Zebec fez mais dois tentos e cimentou assim a liderança na lista dos melhores marcadores da prova. 
No dia 20, em Kotka, o Brasil sentia enormes dificuldades para ultrapassar o modesto Luxemburgo. Modesto ou não, como diriam por aqueles dias os britânicos... Aos 42 minutos, apenas e só, o cerebral Larry - quem mais podia ser - fura a bem escalonada defesa da seleção europeia, quebrando assim a monotonia instalada pela ausência de golos que se verificava. No reatamento - segunda parte - Humberto faz aos 49 minutos o 2-0, mas os luxemburgueses estavam ainda longe de se darem por vencidos. Procuraram intensamente um golo que relançasse o jogo, procura que chegaria no entanto tarde demais (minuto 86), com um golo de Julien Gales, e que não foi mais do que um prémio para coroar a excelente - mais uma - exibição da seleção do pequeno país. No dia seguinte assistiu-se a uma aula de futebol-arte protagonizada pela Hungria. Com uma exibição sublime os mágicos magiares derrotaram por três golos sem resposta a forte Itália - com destaque para o bis (dois golos) de Peter Palotas - que deixou o habitual titular Czibor no banco dos suplentes. O Mundo começava a conhecer a famosa e encantadora Hungria criada por Sebes. Em Turku a Dinamarca afastava a Polónia com uma vitória por 2-0, enquanto que a Turquia sentia grandes dificuldades para derrotar os novatos das Antilhas Holandesas por 2-1. Implacável seria o triunfo dos campeões em título, a Suécia - que se fez representar no torneio sem o seu famoso trio Gre-no-li (Gren, Nordahl, e Liedholm) ante os vizinhos da Noruega, por 4-1. Por fim, no dia 22, e sob arbitragem do conceituado árbitro inglês Arthur Ellis, a Jugoslávia derrotava por 3-1 a União Soviética no único jogo de desempate desta 1ª eliminatória. 
Veia goleadora de Puskas dá-se a conhecer ao Mundo
No dia seguinte (23 de julho) arrancaram os quartos-de-final. No Helsingen Pallokentta Stadium a Suécia sobe mais um degrau rumo à defesa do título, após vencer por 3-1 o combinado da Áustria, que até esteve a vencer por 1-0 até... 10 minutos do fim! No dia 24, no mesmo estádio, o Brasil despedia-se dos Jogos. O escrete até começou melhor, com Larry - sempre ele - a abrir o marcador aos 14 minutos. Já na segunda parte, aos 74 minutos, o defesa Zózimo - que mais tarde haveria de se sagrar bi-campeão do Mundo (em 58 e 62) - ampliou a vantagem, e pouca gente duvidaria que a aventura olímpica do Brasil não teria um novo capítulo nas meias-finais. Porém, a garra e força dos alemães veio ao de cima nos instantes finais, e um minuto depois do golo de Zózimo, Schroeder reduz para 1-2. Os brasileiros eram agora encostados à parede face à avalanche ofensiva dos germânicos. Postura que seria premiada a um minuto dos 90, quando Klug fez o empate a dois que obrigou a que se jogassem mais 30 minutos de futebol. Ai a RFA mandou, e com mais dois golos mandou os artistas brasileiros mais cedo para casa. A força tinha vencido o futebol arte. 
Em Kotka houve um autêntico vendaval. Um Vendaval de golos e de bom futebol, da responsabilidade da mágica Hungria. 7-1, o resultado com que os húngaros batiam os turcos, com realce para dois golos de Ferenc Puskas, a grande estrela magiar. Com a ajuda do goleador Zebec - mais um golo - a Jugoslávia derrotava por 5-3 a Dinamarca e continuava assim na caça ao ouro. 
Mais um recital de explêndido futebol orquestrado pelos mágicos magiares
30 000 pessoas acorreram ao Estádio Olímpico de Helsínquia para ver jogar aqueles húngaros que encantavam o planeta da bola. E em boa hora o fizeram, porque no encontro que abriu as meias-finais do evento assistiram a mais um belo recital de futebol orquestrado pelos artistas Puskas, Palotas, Czibor, ou Kocsis. 6-0, números mais do que expressivos do domínio húngaro sobre os suecos, que assim diziam adeus à possibilidade de revalidar o ceptro. Menos público (cerca de 25 000 pessoas) assistiu no dia seguinte ao triunfo da Jugoslávia sobre a RFA, com destaque para a exibição individual de Rajko Mitic, autor de dois dos três golos da sua seleção, que assim pela segunda Olimpíada consecutiva ia lutar pela medalha de ouro. 
Antes disso, a 1 de agosto, disputou-se no Estádio Olímpico da capital da Finlândia a discussão pela medalha de bronze, tendo a Suécia ficado então com o lugar mais baixo do pódio, depois de bater a RFA por 2-0, com golos de Rydell (aos 11 minutos), e Lofgren (à passagem do minuto 86).
Futebol-arte dos húngaros pintado de ouro
E no dia 2 de agosto perto de 60 000 pessoas lotaram o Estádio Olímpico para assistir à grande final. Favoritos à conquista do ouro? Talvez a Hungria, que pelo que tinha demonstrado até ali partia uns metros à frente do seu adversário. Mas este já havia mostrado momentos de grande futebol também, com exibições de gala (que o digam União Soviética e RFA)... além de que era detentor do melhor ataque da prova. Estavam assim lançados os dados para o que se esperava ser uma grande partida de futebol. Com duas boas equipas em campo o equilíbrio foi nota dominante do princípio ao fim, e mesmo com inúmeras oportunidades de golo de parte a parte o marcador permaneceu em branco durante os primeiros 45 minutos. Na etapa complementar o ritmo de jogo manteve-se, as oportunidades continuavam a surgir, mas os temíveis avançados dos dois lados da barricada teimavam em não abrir fogo. Até que aos 70 minutos surgiu - finalmente - em campo o génio de Ferenc Puskas. Dominando com arte a bola na entrada da área balcã, tirou dois adversários do caminho para posteriomente fuzilar o guarda-redes Vladimir Beara e abrir assim o marcador. O golo empolgou Puskas, que continuou a deslumbrar no relvado do Olímpico de Helsínquia, tendo a dois minutos do final efetuado um cruzamento fatal para a área contrária, onde apareceu Zoltan Czibor que aproveitando o desnorte defensivo dos jugoslavos rematou para o fundo das redes, selando assim o resultado final em 2-0, o qual coroava a Hungria como a nova campeã olímpica. O futebol-arte dos húngaros não acabaria aqui. Um ano mais tarde (1953) humilharam a poderosa Inglaterra em pleno Estádio de Wembley por 6-3, e em 1954 só não foram campeões do Mundo porque... a sorte nada quis com eles. 
A figura: Ferenc Puskas
Foi, sem margem para dúvidas, um dos maiores futebolistas da história do futebol. Ele foi o líder - dentro de campo - daquela mágica seleção da Hungria que encantou o Mundo na década de 50. A mesma Hungria que esteve quatro anos (entre 1950 e 1954) sem conhecer uma única derrota (!). Ferenc Puskas foi o maior símbolo futebolístico daquele país do leste europeu, um símbolo eterno, um símbolo que representa na perfeição uma das melhores equipas de futebol de todos os tempos. Nasceu em Budapeste, a 2 de abril de 1927, a iniciou a sua brilhante carreira com apenas 16 anos, em 1943, no Kispest. Em 1949 transfere-se para o gigante Honved, clube ao serviço do qual vence quatro campeonatos do seu país. Detentor de uma técnica magistral, aliada a um apurado instinto pelo golo, Puskas brilharia então ao serviço da seleção do seu país, cuja camisola envergou em 85 ocasiões, tendo marcado uma soma impressionante de 84 golos. Em termos coletivos a medalha de ouro em Helsínquia foi o momento mais cintilante da sua carreira ao serviço do seu país natal, tendo a maior deceção ocorrido dois anos mais tarde, no Campeonato do Mundo realizado na Suíça, onde a sorte nada quis com a super favorita Hungria, a melhor equipa daquela época, e a grande favorita à conquista do Mundo. Mesmo não vencendo o título coletivo Puskas foi eleito o melhor jogador desse Mundial, e por aquela altura não havia nenhum clube do planeta que não sonhasse tê-lo no seu plantel. O Major Galopante - alcunha surgida pelo facto de Puskas ter sido oficial do exêrcito húngaro - aproveitou nos finais dos anos 50 uma viagem do Honved a Espanha - para disputar um jogo da Taça dos Campeões Europeus (TCE) ante o Athletic Bilbao - para se libertar do bloco comunista que tomava conta do leste da Europa, e que impedia que talentosos jogadores como ele pudessem trabalhar ao serviço dos grandes clubes do Ocidente. Nessa viagem Puskas, e outros companheiros seus, como Kocsis, ou Czibor, refugiaram-se, digamos assim, em Espanha, recusando regressar ao seu país natal, e depois de muitas lutas burucráticas viram os seus certificados internacionais liberados pelas altas instâncias do futebol, tornando-se deste modo jogadores livres. Conhecedor do seu potencial o colosso Real Madrid não perdeu tempo a contratar o Major Galopante, corria o ano de 1958. Na capital espanhola Puskas juntou-se a outra lenda dos relvados, Di Stéfano, e juntos tornaram o Real Madrid ainda mais forte do que aquilo que já era. Com a camiseta blanca venceu duas TCE, e cinco campeonatos de Espanha. Ainda se naturalizou espanhol, tendo realizado quatro encontros com a roja. Depois de abandonar a carreira de futebolista foi treinador, tendo orientado um alargado leque de equipas de países como a Espanha, Paraguai, Grécia, Chile, Austrália, ou Estados Unidos da América. Viria a falecer a 17 de novembro de 2006, com 79 anos, e desde então a FIFA atribuiu o seu nome ao prémio que coroa o marcador do golo mais bonito de cada ano.
Resultados:
Pré-eliminatória
Jugoslávia - Índia: 10-1
(Zebec, aos 17m, aos 23m, aos 60m, aos 87m, Mitic, aos 14m, aos 43m, Vukas, aos 2m, aos 62m, Ognjanov, aos 52m, aos 67m)
(Khan, aos 89m)
União Soviética - Bulgária: 2-1
(Bobrov, aos 100m, Trofimov, aos 104m
(Kolev, aos 95m)
Roménia - Hungria: 1-2
(Suru, aos 86m)
(Czibor, aos 21m, Kocsis, aos 73m)
Dinamarca - Grécia: 2-1
(Petersen, aos 36m, aos 37m)
(Emmanouilides, aos 85m)
Polónia - França: 2-1
(Trampisz, aos 31m, Krasowka, aos 49m)
(Leblond, aos 30m)
Egito - Chile: 5-4
(Eldizwi, aos 66m, aos 75m, aos 80m, Elmeckawi, aos 43m, Elfar, aos 27m)
(Jara, aos 7m, aos 78m, Vial, aos 14m, aos 88m)
Holanda - Brasil: 1-5
(Van Roesell, aos 15m)
(Larry, aos 33m, aos 36m, Humberto, aos 25m, Jansen, aos 81m, Vavá, aos 86m)
Itália - Estados Unidos da América: 8-0
(Gimona, aos 3m, aos 51m, aos 75m, Pandolfini, aos 16m, aos 62m, Venturi, aos 27m, Fontanesi, aos 52m, Mariani, aos 87m)
Luxemburgo - Grã-Bretanha: 5-3
(Roller, aos 60m, aos 95m, aos 97m, Gales, aos 102m Letsch, aos 91m)
(Robb, aos 12m, Slater, aos 101, Lewis, aos 118m)
1ª eliminatória
Finlândia - Áustria: 3-4
(Stolpe, aos 11m, aos 34m, Rytkonen, aos 36m)
(Gollnhuber, aos 8m, aos 30m, Stumpf, aos 59m, Grohs, aos 79m)
RFA - Egito: 3-1
(Schroeder, aos 38m, aos 61m, Klug, aos 33m)
(Eldizwi, aos 64m)
Jugoslávia - União Soviética: 5-5 / 3-1 (desempate)*
(Zebec, aos 44m, aos 59m, Mitic, aos 29m, Bobek, aos 46m, Ognjanov, aos 33m)
(Bobrov, aos 53m, aos 77m, aos 87m, Petrov, aos 89m, Trofimov, aos 75m)

*(Mitic, aos 19m, Bobek, aos 29m, Cajkovski, aos 54m)
(Bobrov, aos 6m)
Brasil - Luxemburgo: 2-1
(Larry, aos 42m, Humberto, aos 49m)
(Gales, aos 86m)
Suécia - Noruega: 4-1
(Brodd, aos 23m, aos 35m, Rydell, aos 81m, Bengtsson, aos 89m)
(Sorensen, aos 83m)
Hungria - Itália: 3-0
(Palotas, aos 11m, aos 20m, Kocsis, aos 83m)
Dinamarca - Polónia: 2-0
(Seebach, aos 17m, Nielsen, aos 69m)
Turquia - Antilhas Holandesas: 2-1
(Tokac, aos 9m, Bilge, aos 76m)
(Briezen, aos 79m)
Quartos-de-final
Suécia - Áustria: 3-1
(Sandberg, aos 80m, Brodd, aos 85m, Rydell, aos 87m)
(Grohs, aos 40m)
RFA - Brasil: 4-2
(Schroeder, aos 75m, aos 96m, Klug, aos 89m, Zeitler, aos 120m)
(Larry, aos 12m, Zózimo, aos 74m)
Hungria - Turquia: 7-1
(Puskas, aos 54m, aos 72m, Kocsis, aos 32m, aos 90m, Palotas, aos 18m, Lantos, aos 48m, Bozsik, aos 70m)
(Guder, aos 57m)
Jugoslávia - Dinamarca: 5-3
(Cajkovski, aos 19m, Ognjanov, aos 35m, Vukas, aos 41m, Bobek, aos 78m, Zebec, aos 81m)
(Lundberg, aos 63m, Seebach, aos 85m, Hansen, aos 87m)
Meias-finais
Hungria - Suécia: 6-0
(Kocsis, aos 65m, aos 69m, Puskas, ao 1m, Palotas, aos 16m, Hidegkuti, aos 67m, Lindh (p.b.), aos 36m)
Jugoslávia - RFA: 3-1
(Mitic, aos 3m, aos 24m, Cajkovski, aos 30m)
(Stollenwerk, aos 12m)
Jogo de atribuição da medalha de bronze
Suécia - RFA: 2-0
(Rydell, aos 11m, Lofgren, aos 86m)
Final
Hungria - Jugoslávia: 2-0
Data: 2 de agosto de 1952
Estádio: Olímpico de Helsínquia (Finlândia)
Árbitro: Arthur Ellis (Inglaterra)
Hungria: Gyula Grosics; Jeno Buzansky e Gyula Lorant; Jozsef Boszik, Mihaly Lantos e Jozsef Zakarias; Nandor Hidegkuti, Sandor Kocsis, Peter Palotas, Ferenc Puskas e Zoltan Czibor. Treinador: Gusztav Sebes. 
Jugoslávia: Vladimir Beara; Branko Stankovic e Tomislav Crnkovic; Zlatko Cajkovski, Ivan Horvat e Vujadin Boskov; Tihomir Ognjanov, Rajko Mitic, Bernard Vukas, Stjepan Bobek e Branko Zebec. Treinador: Milorad Arsenijevic.
 Golos: 1-0 (Puskas, aos 70m), 2-0 (Czibor, aos 88m)

Vídeo: HUNGRIA - JUGOSLÁVIA

Legenda das fotografias:
1-Cartaz oficial dos Jogos Olímpicos de 1952
2- Branko Zebec, o melhor marcador do torneio olímpico, com sete golos
3- Lance do Brasil - Holanda
4-Larry, a grande figura da seleção brasileira em Helsínquia
5-Capitães dos Estados Unidos da América e da Itália trocam galhardetes antes do pontapé de saída
6-Imagem aérea do Estádio Olímpico de Helsínquia
7-A seleção do Brasil que fez a estreia em Jogos Olímpicos
8-Lance do RFA-Brasil
9-O lendário treinador húngaro Gusztav Sebes
10-Remate de Puskas na final
11-Ferenc Puskas, a figura do torneio olímpico de 1952
12-Mais um remate do Major Galopante na grande final
13-A mágica seleção da Hungria, faz a festa final

terça-feira, janeiro 22, 2013

Futebol nos Jogos Olímpicos (7)... Londres 1948

Aquele que na primeira metade do século XX era indiscutivelmente o único evento - desportivo ou não - capaz de agregar ao seu redor, e sobretudo unir, povos de diferentes raças, credos, religiões, ou ideais políticos, foi uma vez mais travado pela erupção da guerra. Desta vez o tempo de paragem foi bem longo, tendo o demorado e penoso inverno durado 12 anos (!) - entre 1936 e 1948. 
Finda a II Guerra Mundial (1939-1945) o Mundo reerguia-se lentamente, tratando das - muitas - feridas causadas pelo confronto bélico, pelo que seria num planeta em reconstrução que em 1948 Londres acolhe pela segunda vez na sua história os Jogos Olímpicos. No plano futebolístico a 11ª edição das Olimpíadas da Era Moderna confirmou o que já se vinha verificando desde os Jogos de 1932, isto é, que o desporto rei perdia fulgor no seio do grande evento desportivo planetário. Futebol que por esta altura vivia debaixo dos holofotes do profissionalismo - inimigo do amadorismo olímpico - e como tal eram cada vez menos as seleções e jogadores de topo que participavam na festa olímpica, fazendo com que o torneio de futebol fosse olhado com muito pouco interesse pelas gentes ligadas a esta modalidade. Apesar de pouco mediático o torneio olímpico de 1948 figura na história como um dos mais produtivos no que concerne a golos. No total foram 102 as ocasiões em que a bola beijou as malhas das balizas, o equivalente a uma media de 6 golos por jogo. Números que ganham um contorno mais impressionante se atendermos ao facto de que apenas foram disputadas 18 partidas!
Recordes à parte os Jogos de Londres coroaram como campeã olímpica uma seleção pouco habituada a festejar títulos, pese embora fosse uma presença habitual neste tipo de eventos. A Suécia conquistou na catedral do futebol planetário, o mesmo é dizer, Wembley, o título mais pomposo da sua história, sucendendo desta forma à Itália no trono olímpico.

A maratona do torneio olímpico teve início a 26 de julho, em Portsmouth, cidade costeira do sul de Inglaterra que a par de Brighton, Brentford, e Londres, claro está, acolheu os duelos futebolísticos. No primeiro encontro da ronda pré-eliminar a Holanda bateu por 3-1 a República da Irlanda com destaque para o bis (dois golos) de Faas Wilkes. No mesmo dia, mas em Brighton, o estreante Afeganistão foi humilhado pelo frágil Luxemburgo por 0-6! Uma partida onde a inexperiência e a falta de habilidade - há que dizê-lo - dos afegãos foi por demais evidente. Do lado luxemburguês Julien Gales e Marcel Paulus foram as estrelas da tarde, ao apontar cada um deles dois golos.
E no dia 31 de julho o torneio olímpico chegou a Londres. Em Craven Cottage, recinto do Fulham, a Jugoslávia acabava com a euforia do Luxemburgo, na sequência de uma expressiva vitória por 6-1, com golos para todos os gostos e feitios num jogo que abriu a 1ª eliminatória. Craven Cottage que foi um dos oito estádios londrinos onde se desenrolaram a esmagadora maioria dos 18 encontros da competição.
Selhurst Park, no sul da capital inglesa, foi outro, sendo que no seu relvado evoluíram nesse mesmo dia 31 de julho as equipas da Dinamarca e do Egito, esta última o único representante do continente africano no torneio. O jogo foi equilibrado, e com raras oportunidades de golo, pelo que a primeira vez que o esférico tocou o fundo de uma das balizas o relógio marcava 82 minutos de jogo! O dinamarquês Karl Aage Hansen seria o autor desse tento inaugural, ao qual os egípcios responderam um minuto mais tarde por intermédio de El Guindy, que repunha assim a teimosa igualdade no marcador. Seguiu-se um prolongamento de 30 minutos, onde os europeus foram mais fortes. Hansen voltou a fazer o gosto ao pé à passagem do minuto 95, sendo que a um minuto dos 120 Ploger carimbou de vez o passaporte dos escandinavos para os quartos-de-final.
Suado foi o triunfo da experiente França ante os caloiros da India, conforme traduz o magro resultado de 2-1. O tento da vitória gaulesa foi apontado aos 89 minutos (!) por intermédio de René Persillon.

A tarde de 31 de julho terminou em Highbury, a casa do popular Arsenal de Londres, que nesse dia registou casa cheia para ver a seleção anfitriã entrar em ação. Orientada por Matt Busby, lendário treinador do Manchester United, a Grã-Bretanha sentiu enormes dificuldades para ultrapassar a Holanda. Os holandeses inauguraram inclusive o marcador por Appel, e seguraram de forma heróica até ao final dos 90 minutos uma surpreendente igualdade a três golos. No tempo extra - aos 111 minutos - o avançado-centro do Bradford, Harry McIlvenny, sossegou as mais de 20 000 almas britânicas presentes ao apontar o 4-3 final que catapultou a turma da casa para a fase seguinte.
Os restantes encontros desta 1ª ronda ocorreram a 2 de agosto. A Turquia não sentiu grandes dificuldades ante uma China que tão boa conta tinha dado de si nos Jogos de 1936 - onde fez a vida negra à experiente Grã-Bretanha. 4-0, foi o resultado que catapultou os europeus para os quartos-de-final.
E no estádio do Tottenham, a futura campeã olímpica, a Suécia, despachava por 3-0 a Áustria, com destaque para os dois golos de Gunnar Nordahl, um dos elementos que integrou o mais famoso trio  do futebol sueco a par de Gunnar Gren, e Nils Leidholm, três nomes que se deram a conhecer ao Mundo precisamente nos Jogos Olímpicos de 48. Surpreendente foi o triunfo da Coreia do Sul sobre o México, por 5-3, num encontro onde uma vez mais se sentiu a festa do golo.

Por último, no Griffin Park, de Brentford, entraram em campo os detentores do ceptro olímpico, a Itália. O adversário da Squadra Azzurra era um velho conhecido desta, o combinado dos Estados Unidos da América (EUA), que se havia cruzado no caminho dos europeus nos Jogos de 1936, e no Mundial de 1934, dois torneios vencidos, como se sabe, pelos italianos. E como não há duas sem três também em Londres os europeus levaram de vencidos os soccer boys, desta feita por expressivos 9-0 (!), o resultado mais diltado desta 1ª eliminatória. Destaque para Francesco Pernigo, autor de quatro dos nove tentos dos italianos. Do lado dos norte-americanos esta foi uma experiência algo traumática para alguns homens que dois anos mais tarde haveriam de protagonizar aquela que muitos consideram como a maior surpresa - ou escândalo, se preferirem - ocorrida na fase final de um Campeonato do Mundo. Em 1950 o Brasil iria receber o quarto Mundial da FIFA, o primeiro em que os mestres ingleses participaram. Uma estreia que no entanto iria ser desastrosa, a todos os títulos, e que teve o seu pior momento a 29 de junho desse ano, em Belo Horizonte, local onde Sir Stanley Matthews e companhia foram humilhados pelos amadores dos EUA. Nesse célebre jogo - sobre o qual o Museu Virtual do Futebol já dedicou algumas páginas - participaram alguns nomes que integraram a modesta equipa yankee nas Olimpíadas londrinas, casos de Charlie Gloves (luvas) Colombo, Walter Bahr, Gino Pariani, Ed Souza, e John Souza, estes dois últimos descendentes de emigrantes portugueses. Aliás, e por falar em descendentes lusos, a seleção dos EUA que se deslocou a Londres foi integrada por uma mão cheia de atletas com raízes em Portugal. Para além de Ed e John Souza (que embora partilhassem o mesmo apelido não eram familiares) vestiram a camisola norte-americana Joseph Za-Za Ferreira, Joseph Rego-Costa, e Manuel Martin, todos eles jogadores do Ponta Delgada Soccer Club, um emblema da região de Massachusetts fundado pela comunidade portuguesa (na sua grande maioria oriunda dos Açores) ali residente.

Coreanos levam uma dúzia (de golos) na bagagem

Em Selhurst Park, a 5 de agosto, aconteceu a goleada do torneio. A Suécia, orientada por Rudolf Kock, esmagou a Coreia do Sul por 12-0! Uma dúzia de golos resultante de uma magnífica exibição do trio sueco Gre-no-li (alusivo aos jogadores Gren, Nordahl, e Leidholm), que entre si apontaram sete dos 12 tentos nórdicos. Em Ilford (arredores de Londres) a Jugoslávia derrotava a Turquia por 3-1, enquanto que ao mesmo tempo no estádio do Arsenal a campeã olímpica em título, era humilhada pela Dinamarca por 5-3 (!), tendo para isso contribuido uma das estrelas do conjunto nórdico, John Hansen, autor de quatro golos.
Em Craven Cottage assitistiu-se a um duelo de vizinhos. Grã-Bretanha e França mediram forças no relvado do Fulham num encontro pautado pelo equilíbrio, onde só um lance de génio poderia desamarrar o teimoso nulo em que se arrastou a contenda até quase à meira hora da etapa inicial. Altura em que apareceu o tal génio, de seu nome Bob Hardisty, o autor do único golo do encontro. 36 anos depois a Grã-Bretanha estava de novo nas meias-finais de um torneio olímpico.

Duelo viking no adeus ao ouro da equipa da casa

As meias-finais foram repartidas pelos dias 10 e 11 de agosto, pelo facto de que a partir desta altura todos os jogos se iriam realizar no majestoso Estádio de Wembley. E no primeiro duelo pelo acesso à final entraram no sagrado relvado os vizinhos escandinavos da Suécia e da Dinamarca. Logo aos três minutos Seebach colocou esta última seleção a vencer por 1-0. Vantagem que seria de pouca dura, já que 15 minutos volvidos Carlsson faria o primeiro dos seus dois golos neste jogo. Ainda antes do descanso a Suécia faria mais... três golos, que praticamente liquidariam as esperanças dos vikings dinamarqueses em repetir as finais das Olimpíadas de 1908 e 1912. John Hansen, aos 77 minutos, ainda fez mais um golo para a Dinamarca, mas já era tarde demais para iniciar uma possível reviravolta. John Hansen que a par do sueco Gren conquistaria o título de melhor marcador do torneio, com sete remates certeiros.
O segundo finalista foi encontrado no dia seguinte, e de forma surpreendente. Diante de 40 000 pessoas a Jugoslávia derrotou em pleno Wembley a turma da casa por 3-1 (!), avançando assim para o jogo mais desejado do torneio olímpico.

Dinamarca vinga derrota de 1908

Ainda ferida pela impensável derrota ante a seleção vinda dos Balcãs a Grã-Bretanha regressou a Wembley no dia 13 de agosto para - pelo menos - ficar com a medalha de bronze. Tarefa que no entanto não se afigurava nada fácil, já que o opositor dos pupilos de Matt Busby era uma das equipas que melhor futebol havia apresentado em solo britânico, além de que no seu "onze" figurava um verdadeiro homem-golo chamado John Hansen. O temível avançado voltou a liderar os nórdicos nesta derradeira etapa final na luta por uma medalha, apontando dois dos cinco golos com que a sua equipa bateu o conjunto da casa (resultado final foi de 5-3), levando assim para casa uma honrosa medalha de bronze, e mais do que isso vingando a derrota de 1908, ano em que também em Londres, mas no White City Stadium, a Grã-Bretanha venceu a Dinamarca por 2-0 e conquistava a sua primeira medalha de campeão olímpico. 

Suécia entra para o Olimpo do Futebol Mundial

No mesmo dia, horas mais tarde após a conquista do bronze dinamarquês, Wembley registou a sua maior enchente deste torneio olímpico. 60 000 pessoas lotaram o famoso estádio com a finalidade de presenciarem a grande final, entre a empolgante Suécia do trio Gre-no-li, e a surpreendente Jugoslávia, sem grandes estrelas individuais, mas com um coletivo forte e habilidoso. No entanto este não era um argumento suficientemente forte para contrariar o favoritismo sueco, e logo aos 24 minutos se percebeu que muito dificilmente os nórdicos não iriam vencer o título. Gunnar Gren, que efetuou uma exibição memorável, abriu o marcador, trazendo justiça face ao que se vinha passando em campo. Contudo, e um pouco contra a corrente, os jugoslavos empataram, quando faltavam apenas três minutos para o inrtervalo, por intermédio de Bobek.
Golo que não intimidou os suecos, muito pelo contrário, que numa segunda parte verdadeiramente avassaladora encostaram os homens dos Balcãs às cordas. Primeiro por Gunnar Nordahl, aos 48 miuntos, e depois novamente por intermédio de Gren, que de grande penalidade faria aos 67 minutos o 3-1 final que coroou a Suécia como a nova campeã olímpica. Nada mais justo para um conjunto que apresentou um futebol ofensivo de grande qualidade, onde se destaca o facto de ter apontado 22 golos em quatro jogos disputados! Notável.

A figura: Gre-no-li (Gren, Nordahl, e Leidholm) 

Não um, nem dois, mas sim três. Três jogadores formaram a figura do torneio olímpico de 1948. Um trio que guiou a Suécia ao ouro em 48, e que 10 anos mais tarde esteve muito perto de a colocar no patamar mais alto do planeta. Mas Pelé, Garrincha, e companhia não permitiram tal veleidade. Gunnar Gren, Gunnar Nordahl, e Nils Liedholm, os três nomes que formaram o trio mais famoso do futebol sueco, e um dos mais afamados em termos internacionais, três lendas que jogavam quase de olhos fechados entre si, tal era a familiaridade com que conheciam o estilo de jogo uns dos outros. Notabilizaram-se nas Olimpiadas de Londres, facto que lhes valeria o passaporte para o estrelato mundial, já que depois da conquista da medalha de ouro rumaram os três para os italianos do Milan, onde ganharam (mais) fama e fizeram fortuna. Durante mais de uma década os três jogadores venceram inúmeros títulos pelos milaneses, construindo um palmarés invejável, e mais invejável poderia ter sido caso em 1958 tivessem alcançado o ceptro mais desejado por um jogador de futebol, o de campeão do Mundo.
Nesse ano a Suécia acolheu o Campeonato do Mundo, cabendo ao trio Gre-no-li comandar de novo a Suécia numa campanha fantástica, que só seria travada na final de Estocolmo pelo super Brasil de Vavá, Didi, Zagallo, Garrincha, e de um tal menino de 17 anos chamado Pelé.

Resultados:

Pré-eliminatória

Holanda - República da Irlanda: 3-1
(Wilkes, ao 1m, aos 74m, Roosenburg, aos 11m)
(O´Kelly, aos 52m)

Luxemburgo - Afeganistão: 6-0

1ª eliminatória

Dinamarca - Egito: 3-1
(Hansen, aos 82m, aos 95m, Ploger, aos 119m)
(El Giundy, aos 83m)

Grã-Bretanha - Holanda: 4-3
(McBain, aos 22m, Hardisty, aos 58m, Kelleher, aos 77m, McIlvenny, aos 111m)
(Appel, aos 9m, aos 63m, Wilkes, aos 81m)

França - India: 2-1
(Courbin, aos 30m, Persillon, aos 89m)
(Raman, aos 70m

Jugoslávia - Luxemburgo: 6-1
(Stankovic, aos 57m, Mihajlovic, aos 61m, Cajkovski, aos 65m, aos 70m, Mitic, aos 74m, Bobek, aos 87m)
(Shcammel, aos 10m)

Turquia - China: 4-0
(Kilic, aos 18m, aos 61m, Saygun, aos 72m, Kucukandonyadis, aos 87m)

Suécia - Áustria: 3-0
(Nordahl, aos 2m, aos 10m, Rosen, aos 71m)

México - Coreia do Sul: 3-5
(Cardenas, aos 23m, Figueroa, aos 85m, Ruiz, aos 89m)
(Choi, aos 13, Bai, aos 30m, Yung, aos 73m, aos 66m, Chung, aos 87m)

Itália - Estados Unidos da América: 9-0
(Pernigo, aos 2m, aos 57m, aos 88m, aos 90m, Stellin, aos 25m, Turconi, aos 46m, Cavigioli, aos 72m, aos 87m)

Quartos-de-final

Grã-Bretanha - França: 1-0
(Hadisty, aos 29m)

Dinamarca - Itália: 5-3
(Hansen aos 30m, aos 53m, aos 74m, aos 82m, Ploger, aos 84m)
(Caprile, aos 50m, aos 67m, Pernigo, aos 81m)

Suécia - Coreia do Sul: 12-0
(Nordhal, aos 25m, aos 40m, aos 78m, aos 80m, Liedholm, aos 11, aos 62m, Carlsson, aos 61m, aos 64, aos 82m, Rosen, aos 72m aos 85m, Gren, aos 27m)

Turquia - Jugoslávia: 1-3
(Gulesin, aos 33m)
(Cajkovski, aos 21m, Bobek, aos 60m, Wolfl, aos 80m)

Meias-finais

Suécia - Dinamarca: 4-2
(Rosen, aos 31m, aos 37m, Carlsson, aos 18m, aos 42m)
(Seebach, aos 3m, Hansen, aos 77m)

Grã-Bretanha - Jugoslávia: 1-3
(Donovan, aos 20m)
(Bobek, aos 19m, Wolfl, aos 24m, Mitic, aos 48m)

Jogo de atribuição da medalha de bronze

Grã-Bretanha - Dinamarca: 3-5
(Aitkew, aos 5m, Hardisty, aos 33m, Amor, 63m)
(Praest, aos 12m, aos 49m, Hansen, aos 16m, aos 77m, Sorensen, aos 41m)

Final

Suécia - Jugoslávia: 3-1

Data: 13 de agosto de 1948

Estádio: Wembley, em Londres (Inglaterra)

Árbitro: William Ling (Inglaterra)

Suécia: Torsten Lindberg, Knut Nordahl, Erik Nilsson, Boerje Rosengren, Bertil Nordahl, Sune Andersson, Kjell Rosen, Gunnar Gren, Gunnar Nordahl, Henry Carlsson, Nils Liedholm. 

Jugoslávia: Lovric, Brozovic, B Stankovic, Zlatko Cajkovkski, Jovanovic, Atanackovic, Cimermanic, Mitic, Bobek, Zeljko Cajkovski, e Vukas.

Golos: 1-0 (Gren, aos 24m), 1-1 (Bobek, aos 42m), 2-1 (Nordahl, aos 48m), 3-1 (Gren, aos 67m)
 Legenda das fotografias:
1-Cartaz oficial dos Jogos Olímpicos de 1948
2-Escolha de campo antes do jogo entre China e Turquia
3-As equipas da Grã-Bretanha e Holanda perfiladas em Highbury Stadium
4-Lance do Coreia do Sul-México
5-Um dos 12 golos suecos ante os coreanos
6-Embate entre britânicos e jugoslávo
7-O majestoso Estádio de Wembley
8-Lance da final
9-O trio Gre-no-li ao serviço do Milan

10-A equipa da casa
11-Mais um lance da final de Wembley
12-Suecos levados em ombros após o histórico triunfo olímpico 

sexta-feira, janeiro 04, 2013

Futebol nos Jogos Olímpicos (6)... Berlim 1936

O nascimento do Campeonato do Mundo da FIFA, em 1930, retirou protagonismo ao que até então era o evento futebolístico de maior importância a nível internacional, o torneio olímpico. A curva descendente da modalidade no seio dos Jogos começou a verificar-se logo na edição de 1932, em Los Angeles, onde a batalha entre o amadorismo e o profissionalismo fez com o que futebol fosse riscado do programa do evento.

Neste contexto convém explicar que por aquela altura o futebol era já - um pouco por todo o Mundo - altamente profissional, facto que ia contra um dos princípios do olimpismo, que defendia que todos os atletas que participassem nos Jogos deveriam ser puramente amadores. Contudo, a popularidade do futebol a nível global era por demais evidente, e terá sido esse o facto responsável pelo reaparecimento do desporto rei no calendário das Olimpíadas quatro anos mais tarde em Berlim. Há quem diga, aliás, que o regresso do futebol aos Jogos foi uma imposição... de Adolf Hitler! Servindo-se dos Jogos Olímpicos como um mero veículo de propaganda para mostrar ao Mundo os ideais do regime nazi, Hitler não olhou a meios para fazer deste o maior evento desportivo alguma vez visto. Entre outros, construiu um magnífico estádio (olímpico) com capacidade para albergar 100 000 pessoas (!), organizou uma pomposa festa de abertura do certame nunca dantes visionada, colocou ao dispôr do Comité Olímpico Internacional (COI) meios financeiros ilimitados para que nada faltasse ao evento, e, claro, fez regressar ao programa olímpico a modalidade mais popular do planeta, o futebol.

Contudo, o COI continuava firma na sua postura em não aceitar que as seleções participantes integrassem os seus jogadores profissionais, e os jogadores profissionalizados eram indiscutivelmente os melhores entre os melhores, daí que em termos de nomes sonantes o torneio olímpico de 1936 tenha ficado um tudo ou nada aquém dos seus antecessores. Mesmo em termos de seleções não podemos dizer que em Berlim tenham estado os melhores combinados daquela época, já que o genial Brasil continuava a não dar grande importância ao evento, os bi-campeões olímpicos do Uruguai decidiram ficar em casa, a talentosa Espanha de Ricardo Zamora iden aspas, entre outras potências mais que começavam a olhar de lado, e com desinteresse, o torneio olímpico.

A excessão terá sido, talvez, a Itália, nação que em 1934 havia vencido o segundo Campeonato do Mundo da FIFA, sob a orientação do mestre da tática VittorioPozzo. Mesmo sem os astros - profissionais, lá está - que haviam conduzido à squadra azzurra ao trono do futebol planetário, casos de Giuseppe Meazza, Angelo Schiavio, Raimundo Orsi, Luigi Monti, ou Giampiero Combi, os italianos eram apontados pela crítica como os principais favoritos à conquista do ouro olímpico. Mas o trajeto até à gloria final, como se iria confirmar, foi mais difícil do que se esperava...

No jogo de abertura do torneio olímpico de 1936, disputado no dia 3 de agosto entre Itália e os Estados Unidos da América, houve mosquitos por cordas. Numa época em que as substituições ainda não eram permitidas os norte-americanos (que no Mundial de 34 haviam sido esmagados pelos italianos por 7-1) jogavam a certa altura - por motivo de lesão - com menos duas unidades em campo. A polémica instalou-se quando o árbitro alemão Karl Weingartner, posteriormente, deu ordem de expulsão ao italiano Piccine, o qual se recusou a acatar a decisão do juíz que cercado por uma floresta de jogadores - em fúria - da azzurra decidiu voltar atrás na sua decisão e permitir que o atleta continuasse em campo até final! No jogo jogado os italianos tiveram sérias dificuldades em bater por 1-0 um frágil mas lutador conjunto norte-americano, graças a um golo de Annibale Frossi, jogador que haveria de conquistar no final do torneio o título de rei dos goleadores na sequência de 7 remates certeiros.

Discípulos de Hitler esmagam o Luxemburgo

Ainda nesse mesmo dia 3 de agosto a Noruega iniciava aquela que viria a ser uma caminhada olímpica memorável. Sem apelo nem agravo os escandinavos goleavam a Turquia por 4-0, com destaque para o bis de Alf Martinsen. No dia seguinte entrou em campo a seleção da casa, a Alemanha. O selecionador germânico, Otto Nerz, reuniu um bom leque de jogadores - amadores, claro está - capazes de trazer alegria a Hitler, que pretendia o sucesso ariano - fosse em que modalidade fosse - a tudo o custo nas Olimpíadas de Berlim. E a campanha dos discípulos do fuhrer até nem começou nada mal, conforme traduz o expressivo resultado de 9-0 sobre o modesto Luxemburgo.

No encontro seguinte entrou em campo uma das três seleções que fazia a sua estreia olímpica, o Japão. E que estreia! Ante uma Suécia habituada às andanças olímpicas, os orientais venceram por 3-2, depois de terem estado a perder ao intervalo por 0-2. Kamo iniciou a reviravolta aos 49 minutos, e a 5 minutos do final Matsunaga confirmou aquela que viria a ser a primeira surpresa do torneio olímpico.

E a 5 de agosto foi a vez da Áustria entrar em campo para defrontar o experiente Egito. Sem a grande maioria das suas estrelas profissionais, onde entre as quais se destacava o homem de papel Matthias Sindelar, a grande estrela do wunderteam (equipa maravilha) criado por Hugo Meisl na década de 30, os europeus sentiram algumas dificuldades para alcançar o triunfo (3-1) que os levaria até aos quartos-de-final da competição.

No mesmo dia a Polónia derrotava a Hungria por 3-0 e também seguia em frente. E na derradeira jornada da 1ª eliminatória assistiu-se ao regresso de um velho conhecido nestas andanças olímpicas, ou melhor, o regresso de um antigo campeão olímpico, a Grã-Bretanha. Ausentes dos Jogos de 1924 e 1928 os britânicos - campeões olímpicos em 1908 e 1912 - enfrentavam os estreantes da China, num jogo que aparentemente não se afigurava nada complicado para os criadores do futebol moderno. Porém, os desconhecidos e pequenos chineses fizeram a vida díficil aos ex-campeões olímpicos, que só na 2ª parte conseguiram carimbar o passaporte para a fase seguinte, fruto de uma curta vitória por 2-0.

Por fim, o também estreante Perú - o único representante da América do Sul - goleava por 7-3 a repetente Finlândia, com destaque para os 5 golos do peruano Teodoro "Lolo" Fernandez, nada mais nada menos que a primeira lenda futebolística do país dos Andes.

Nova polémica



O primeiro dia (7 de agosto) destinado aos quartos-de-final foi envolto num misto de superioridade e de surpresa! No primeiro aspeto a Itália de Pozzo - que viajou para Berlim sem 10 dos campeões do Mundo de 34 - cilindrou sem dificuldades o Japão por 8-0, com destaque para o poker (4 golos) de Carlo Biagi e o hattrick (3 golos) de Frossi. Quanto à surpresa ela aconteceu no encontro entre os anfitriões e a Noruega, jogo ao qual assistiu Adolf Hitler, que esperava uma nova e robusta vitória dos seus conterrâenos. No entanto, o norueguês Magnar Isaksen tinha outros planos, e ao apontar dois golos afastou os germânicos da competição para espanto de todos. Espanto e irritação, já que ao que parece aquando do segundo tento norueguês, apontado aos 83 minutos, Hitler abandonou o seu camarote no estádio profundamente... irritado. O que é certo é que segundo relatos da época esta foi uma vitória mais do que merecida, orquestrada por um técnico, Matti Goksoyr, que vivia adiantado no seu tempo, quer em termos de preparação física, quer no que concerne à tática. Este é aliás considerado pelos historiadores desportivos da Noruega como o maior feito do modesto futebol daquele país do norte da Europa.

No dia seguinte registou-se nova polémica no torneio olímpico. Perú e Áustria mediram forças entre si, num encontro que os europeus começaram bem melhor, ao colocar-se em vantagem sobre os seus adversários com um resultado de 2-0. No entanto, a raça sul-americana acabaria por vir ao de cima quando faltavam apenas 15 minutos para o final, altura em que o Perú empata o jogo e força a um prolongamento.
A polémica surgiu então no período extra, altura em que adeptos peruanos invadem o terreno de jogo para agredir um atleta austríaco, sendo que no meio da confusão os sul-americanos apontam dois golos e selam o placard final em 4-2 a seu favor. Os europeus protestaram de imediato junto do COI, entidade esta que anulou então a partida e mandou que se realizasse um novo encontro à porta fechada, isto é, sem adeptos. Os peruanos não concordaram, e resolveram fazer as malas e regressar a casa, tendo o COI atribuido à vitória à Áustria.

No derradeiro encontro desta fase houve nova surpresa. A modesta Polónia batia a poderosa Grã-Bretanha por 5-4 e juntava-se assim a Itália, Áustria, e Noruega na luta final pelas medalhas.

Escandinavos duros de roer ficam com o bronze

A 10 de agosto realizou-se a primeira meia final, cabendo à Itália "B", digamos assim, enfrentar a surpresa da competição, a Noruega. E aquilo que se viu foi mais uma demonstração do talento norueguês, que forçaram a Azzurra a um prolongamento para garantir a presença no jogo mais desejado da competição. Valeu aos transalpinos - uma vez mais - o instinto goleador - de Frossi, que aos 96 minutos colocou um ponto final no atrevimento da Noruega, ao fazer o 2-1.
O opositor da Itália na final seria encontrado no dia seguinte, opositor esse que daria pelo nome de Áustria, que despachou a Polónia por 3-1.

No dia 13 de agosto lutou-se pelo bronze no Estádio Olímpico de Berlim. Perante 82 000 espetadores Arne Brustad tornou-se num autêntico herói nacional - da Noruega - ao apontar os três golos com que os escandinavos derrotaram a Polónia (poe 3-2), levando desta forma a medalha de bronze para casa. Merecida, há que dizê-lo.

Repetição da épica meia-final do Mundial de 34

E na grande final de 15 de agosto subiam ao relvado do Olímpico de Berlim a Itália e a Áustria, dois velhos conhecidos do planeta da bola. Dois anos antes, em Milão, as duas seleções haviam protagonizado um épico confronto a contar para as meias-finais do Campeonato do Mundo que a Itália organizou. Jogo muito controverso, em que o árbitro ajudou uma squadra azzura que se viu e desejou para derrotar o wunderteam de Hugo Meisl.

Agora, dois anos volvidos, os austríacos tinham uma oportunidade de ouro - no duplo sentido - para se vingar da equipa de Pozzo. Como se esperava este novo duelo foi bastante equilibrado, e só um golpe de génio podia... desiquilibra-lo. E foi o que aconteceu. Annibale Frossi, jogador da Udinese, foi o herói da tarde, ao apontar os dois golos com que a Itália arrecadou o ouro olímpico, uma conquista só confirmada no prolongamento, já que no final dos 90 minutos o resultado era de 1-1. Aos 92 minutos Frossi bateu pela segunda vez o guardião Eduard Kainberger, e juntou a medalha de ouro dos Jogos Olímpicos de 1936 ao título mundial de 1934. A Itália vivia sem margem para dúvidas o período áureo da sua história, a qual iria ser ainda enriquecida com um novo título mundial alcançado em 1938.

A figura: Annibale Frossi

Sem as suas estrelas do Mundial de 34 o selecionador Vittorio Pozzo viu-se obrigado a recorrer a segundas escolhas para atacar o ouro de Berlim. Uma dessas escolhas acabaria por revelar-se extremamente acertada, como pudemos constatar ao longo desta nossa curta viagem até ao torneio olímpico de 1936. Annibale Frossi, o melhor marcador dos Jogos de Berlim com 7 remates certeiros, e mais do que isso o herói da final, o homem que apontou os dois golos que deram o título olímpico à Azzurra.

Frossi era um jogador digamos que caricato visualmente. Jogava de óculos, uma vez que desde criança sofria de uma acentuada miopia. Foi o primeiro jogador da história a quem foi dada a permissão para atuar de óculos, muito antes, portanto, do holandês Edgar Davids o fazer já em pleno século XXI.

Frossi foi um mediano jogador nascido a 6 de agosto de 1911 em Muzzana del Turgnano, na região de Udine, tendo precisamente iniciado a sua carreira na Udinese, em 1929, emblema que representou até 1931. Seguiram-se 5 anos na Série B do calcio, ao serviço de modestos emblemas como o Padova, o Bari, e o L'Aquila, até ao momento em que foi descoberto por Pozzo em meados de 1936.

Impedido de levar os seus melhores futebolistas até Berlim, pelos motivos já aqui recordados, o lendário treinador convidou o até então desconhecido Frossi a integrar a seleção italiana. Convite aceite o médio do L'Aquila não desiludiu, muito pelo contrário, e tornou-se na principal referência da equipa ao longo da caminhada triunfal. Marcou em todos os quatro jogos disputados pela Itália, e no regresso ao seu país recebeu de imediato convites de emblemas de maior poderio, caso do Inter de Milão, clube pelo qual assinou um contrato profissional logo a seguir ao torneio olímpico de 36. Pelo Inter jogou até 1942, tendo atuado pelos milaneses em 125 ocasiões, e conquistado dois campeonatos (1938 e 1940) e uma Taça de Itália (1939).

A aventura com a seleção italiana resumiu-se praticamente ao torneio olímpico, pois depois disso só em mais uma ocasião voltou a vestir a camisola azzurra. Além dos óculos Frossi jogava com uma fita branca na cabeça, adereços que faziam com que fosse um jogador... excêntrico.
Depois de pendurar as botas tornou-se treinador. Treinou equipas como o Monza, Torino, Modena, Nápoles, Genoa, e o Inter, tendo entrado para a história como o treinador que inventou o sistema tático de 5-4-1, para muitos o sistema que anos mais tarde daria oirgem ao catenaccio italiano. Frossi tinha um gosto particular pelo futebol ultra-defensivo, e uma vez terá dito que «o resultado perfeito no futebol é o 0-0, pois é sinal que nenhuma das equipas cometeu erros»!

Após abandonar o futebol formou-se em engenharia, sendo que nos últimos anos da sua vida foi ainda colunista no jornal Corriere della Sera, de Milão. Viria a falecer nesta mesma cidade a 26 de fevereiro de 1999, com 86 anos de idade

Resultados

1ª Eliminatória

Turquia - Noruega: 0-4
(Martinsen, aos 30m, aos 70m, Brustad, aos 53m, Kvammen, aos 80m)

Itália - Estados Unidos da América: 1-0
(Frossi, aos 58m)

Alemanha - Luxemburgo: 9-0
(Urban, aos 16m, aos 54m, aos 75m, Simetsreiter, aos 32m, aos 48m, aos 74m, Gauchel, aos 49m, aos 54m, Elbern, aos 76m)

Japão - Suécia: 3-2
(Kamo, aos 49m, Ukon, aos 62m, Matsunaga, aos 85m)
(Persson, aos 24m, aos 37m)

Áustria - Egito: 3-1
(Steinmetz, aos 4m, aos 65m, Laudon, aos 7m)
(Sakr, aos 85m)

Polónia - Hungria: 3-0
(Gad, aos 12m, aos 27m, Wodarz, aos 88m)

Grã-Bretanha - China: 2-0
(Dodds, aos 55m, Finch, aos 65m)

Perú - Finlândia: 7-3
("Lolo" Fernández, aos 17m, aos 33m, aos 47m, aos 49m, aos 70m, Villanueva, aos 21m, aos 67m)
(Kanerva, aos 42m, Gronlund, aos 75m, Larvo, aos 80m)

Quartos-de-final
Itália - Japão: 8-0
(Frossi, aos 14m, aos 75m, aos 80m, Biagi, aos 32m, aos 57m, aos 81m, aos 82m, Cappelli, aos 89m)

Alemanha - Noruega: 0-2
(Isaksen, aos 7m, aos 83m)

Perú - Áustria: 4-2 (vitória atribuída à Áustria por decisão do COI)

Polónia - Grã-Bretanha: 5-4
(Wodarz, aos 43m, aos 48m, aos 53m, Gad, aos 33m, Piec, aos 56m)
(Clements, aos 26m, Edgar Shearer, aos 56m, Joy, aos 71m, aos 78m)

Meias-finais

Itália - Noruega: 2-1
(Negro, aos 15m, Frossi, aos 96m)
(Brustad, aos 58m)

Áustria - Polónia: 3-1
(Kainberger, aos 14m, Laudon, aos 55m, Mandl, aos 88m)
(Gad, aos 73m)


Jogo de atribuição da medalha de bronze

Noruega - Polónia: 3-2
(Brustad, aos 15m, aos 21m, aos 84m)
(Wodarz, aos 5m, Peterek, aos 24m) 
Final

Itália - Áustria: 2-1 (após prolongamento)

Data: 15 de agosto de 1936

Estádio: Olímpico de Berlim (Alemanha)

Árbitro: Peco Bauwens (Alemanha)

Itália: Venturini, Foni, Rava, Baldo, Piccini, Locatelli, Frossi, Marchini, Bertoni, Biagi, e Gabriotti. Treinador: Vittorio Pozzo

Áustria: E. Kainberger, Kunz, Kargl, Krenn, Walmueller, Hofmeister, Werginz, Laudon, Steinmetz, K. Kainberger, e Fuchsberger. Treinador: James Hogan

Golos: 1-0 (Frossi, aos 74m), 1-1 (K.Kainberger, aos 79m), 2-1 (Frossi, aos 92m)


                                          Vídeo: ITÁLIA - ÁUSTRIA

Legenda das fotografias:
1-Cartaz oficial dos Jogos Olímpicos de 1936
2-A bola usado no torneio olímpico de Berlim
3-Lolo Fernandez, a estrela do Perú
4-O mestre da tática Vittorio Pozzo
5-Lance do polémico Perú-Áustria
6-Jogo Alemanha - Noruega
7-Lance da final, onde aparece em primeiro plano Frossi, de óculos e fita branca na cabeça
8-Annibale Frossi, a estrela dos torneio olímpico de 1936
9-Italianos saudam o público de Berlim
10-Noruega, a surpreendente vencedora da medalha de bronze 
11-Lance da grande final de Berlim
12-Os campeões olímpicos de 1936