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A Argentina que em 1925 venceu em casa o seu segundo título sul-americano... de forma controversa |
O
Campeonato Sul-Americano – atualmente denominado de Copa América – de 1925 foi
não só o menos participado da história da competição, como de igual modo um dos
mais turbulentos de sempre. Apenas três seleções lutaram por um título que pela
terceira vez até então iria ser disputado em solo argentino. À primeira vista o
grande ausente – e grande favorito à reconquista do cetro – foi o Uruguai, que
um ano antes havia conquistado o Mundo ao vencer o torneio olímpico de Paris.
Tumultos internos, isto é, problemas no seio das associações de futebol do país, fizeram com que a Celeste não
atravessasse o Rio da Prata rumo a Buenos Aires. O mesmo aconteceu com o Chile,
que também vivia um mar de crises associativas internas e por isso pela
terceira vez, desde que a prova havia sido criada em 1916, falhava a
participação no campeonato. Desse modo, e para além da seleção anfitriã, a
Argentina, iriam discutir o título os combinados do Brasil e do Paraguai. Pelo
facto de serem tão poucas as seleções participantes, a organização decidiu
desenrolar o torneio em duas voltas, isto é, as seleções iriam enfrentar-se
todas entre si por duas ocasiões.  |
| A seleção do Brasil que disputou a Copa América de 1925 |
A Argentina surgia em campo com oito
jogadores do Boca Juniors, algo até então nunca visto na história da albiceleste, facto que se explica pela
divisão associativa que então vigorava no futebol argentino. Ou seja, o país futebolístico
estava dividido em duas associações, sendo que cada uma delas organizava o seu respetivo
campeonato. A FIFA apenas reconhecia como oficial o campeonato em que competia
o Boca e nesse sentido a seleção não convocou jogadores de clubes como o River
Plate, o Independiente, ou o Racing (emblemas que competiam no campeonato
oposto) entre 1919 e 1926, período em que durou esta divisão. E no selecionado
argentino figurava pela primeira vez numa grande competição um jogador negro,
mais concretamente o afro-argentino Alejandro De los Santos, Filho de escravos angolanos
que conseguiram fugir nos finais do século XIX para a América do Sul, ele é até
aos dias de hoje o único jogador negro a vestir a camisola da seleção argentina.
Nascido em 1902 em Paraná, na província de Entre Ríos, De los Santos faria uma
dupla de ataque temível com Manuel Seoane – um dos maiores goleadores de sempre
do período amador do futebol argentino – com as cores do El Porvenir. Ao serviço
deste emblema, o afro argentino disputou quase 140 jogos, apontando 80 golos,
números que lhe valeriam em 1922 a primeira chamada à seleção albiceleste num amigável contra os vizinhos
e rivais do Uruguai.  |
De los santos, o primeiro e único negro a vestir a camisola da Argentina |
A Copa América de 1925 foi o ponto alto da carreira de
Alejandro, que apesar de apenas ter disputado apenas um jogo viria a alcançar o título
de campeão. O trajeto da Argentina começou precisamente no antigo estádio do
Boca Juniors, ante o Paraguai, e não poderia ter iniciado da melhor maneira, já
que quando apenas estavam decorridos dois minutos de jogo, Seoane abre o
marcador. Na segunda parte, a confirmação da vitória (2-0) por intermédio de
Martín Sánchez. Os guaranis voltaram
a entrar em campo quase uma semana depois (!) para enfrentar o Brasil no
estádio do Sportivo Barracas. E sofreram um verdadeiro amasso de um escrete cuja grande estrela era Friedenreich,
que neste encontro apontaria um dos cinco tentos com que o Brasil derrotou (5-2)
sem mácula os paraguaios. Outro dos tentos brasileiros seria apontado por Filó,
jogador que nove anos mais tarde faria história ao tornar-se no primeiro
brasileiro a ser campeão do Mundo muito antes do o… Brasil o ser! Veloz
extremo, Filó emigrou no início da década de 30 para Itália, onde defendeu as
cores da Lazio durante sete temporadas. Em Itália, o paulista de nascimento
alterou o seu nome para Anfilogino Guarisi, sendo um dos oriundi (jogadores de origem italiana) que em 1934 Vittorio Pozzo
convocou para defender a Squadra Azzurra
na segunda edição do Campeonato do Mundo.  |
| Fase do encontro entre argentinos e paraguaios na Copa de 25 |
Voltando
à Copa América de 1925, com duas derrotas claras nos dois primeiros jogos
ficava claro que dificilmente o Paraguai iria conseguir levar o título para
casa. No dia 13 de dezembro, o estádio do Sportivo Barracas – um dos dois que
recebeu os jogos do torneio – lotou (25.000 espectadores) para presenciar o
duelo entre os dois mais sérios favoritos ao título. Como seria de esperar, os
brasileiros foram recebidos com muita hostilidade pelos fervorosos hinchas argentinos. Aos 22 minutos,
Nilo abriu o marcador para o Brasil, mas o que então se poderia esperar com uma
vitória histórica sobre o rival viria a tornar-se um autêntico pesadelo. Com
três golos de Manuel Seoane e um de Alfredo Garassino, a Argentina deu a volta
ao texto e humilhou o rival, construindo a maior vitória até então sobre
aquele vizinho sul-americano. A imprensa brasileira não se poupou em críticas à
sua seleção, sobretudo a linha média da seleção e o guarda-redes Tuffy, os
grandes responsáveis pelo colapso na voz dos jornalistas. E assim chegávamos ao final da primeira
volta do torneio, com os argentinos na liderança com 4 pontos, seguidos de
Brasil com 2 e do Paraguai sem qualquer ponto.  |
Argentinos e paraguaios lutam pela bola nas alturas |
A segunda volta arrancou no dia
17 de dezembro, com o Brasil a defrontar o Paraguai no estádio do Boca Juniors.
Triunfo canarinho por 3-1. O mesmo resultado verificou-se no Argentina – Paraguai,
onde Seoane aponto mais um golo que consolidaria como o melhor marcador da
prova com 6 golos. No dia de Natal de 1925 decidia-se o nome do campeão
sul-americano. Um empate era suficiente para que a Argentina vencesse pela
segunda vez o título, enquanto que o Brasil tinha obrigatoriamente de vencer
para forçar a um jogo de desempate. A polémica em torno do match instalou-se ainda antes do pontapé de saída, com a imprensa e
o público a contestarem a data da realização do mesmo, tendo em conta que estávamos
em pleno dia de Natal e como tal esperava-se tudo menos a realização de um jogo
tão importante como aquele. No entanto, o encontro foi avante. E o Brasil até
entrou melhor, já que à passagem da meia hora já vencia por 2-0, graças a golos
de Friedenreich e de Nilo. A perder os argentinos como que perderam a cabeça, e
num lance entre El Tigre Friedenreich e o defesa Ramón Muttis este último tem
uma entrada violenta sobre o brasileiro o que motivo um desaguisado entre os
dois atletas. Rezam as crónicas do jogo que ambos trocaram violentas agressões,
o que motivou a ira dos adeptos presentes no estádio do Sportivo Barracas
contra os brasileiros. Para além de insultos racistas – os hinchas locais começaram a apelidar em coro os jogadores contrários
de macaquitos – houve invasão de campo, registaram-se agressões a jogadores do
Brasil, o que levou a dura intervenção policial para travar a ira dos adeptos.
Este foi um dos episódios mais violentos em jogos ocorridos entre estas duas
seleções.  |
| Invasão de campo no jogo decisivo |
O incidente foi posteriormente sanado e o jogo recomeçou. Inclusive,
jogadores de ambas as seleções apertaram as mãos e abraçaram-se em sinal de
paz. No entanto, e quiçá afetado pelo que acontecera o Brasil desmoronou e
permitiu o empate da Argentina a duas bolas, que lhe valeria a conquista do
segundo título sul-americano. Os incidentes deste jogo são reproduzidos na
íntegra de seguida através do relato do Correio do Povo: «Os argentinos e os brasileiros entraram no campo de Barracas debaixo
de entusiásticos aplausos do público, que vivou o Brasil e a Argentina. O
‘toss’ foi favorável aos argentinos, mas o capitão Tesoriere cedeu-o aos
visitantes. Os primeiros minutos decorreram equilibrados. Os argentinos iniciam
vários avanços, que a defesa brasileira malogra com toda a felicidade. Depois
de Pamplona haver cometido um ‘foul’ à pouca distância do goal, Friedenreich
realiza uma esplêndida jogada. O primeiro, numa corrida rápida, chega próximo à
rede de Tesoriere, que consegue vazar em tiro forte e rasteiro. É Nilo. A
assistência ovaciona este feito do exímio ‘center’ brasileiro. A essa altura,
os argentinos começam a jogar mal, atuando a sua linha de ‘forwards’ sem a
menor conexão. Em nova jogada, Friedenreich faz um bem calculado passe a Nilo,
o qual, tomando-o de carreira, marcou o segundo ‘goal’ brasileiro. (…) Os
argentinos continuam dominando o jogo no 2.º tempo. Friedenreich e Nilo fazem
uma excelente combinação, em consequência da qual a bola vai ter nos pés de
Filó, o qual desfere, a curta distância, um forte tiro. E, quando parecia que
estaria garantida a conquista de mais um ‘goal’ para os brasileiros, a pelota
apanhou a trave do arco, resvalando para fora. Este fracasso trouxe algum
visível desânimo entre a linha atacante, que, no segundo período, esteve em
geral medíocre. (…) O jogo com que terminou o Campeonato Sul-Americano esteve
medíocre por parte das duas ‘équipes’, que desenvolveram, no 1.º e no 2.º
tempos, atuação completamente diversa. Os brasileiros começaram assombrosamente
e fazendo terrível pressão sobre o adversário. Os ‘forwards brasileiros’,
ativíssimos, não davam descanso aos argentinos, cujos poucos avanços eram
malogrados pela defesa brasileira, onde Tuffy e Pennaforte realizaram feitos
maravilhosos que muito entusiasmaram a assistência. A linha média esteve à
altura das responsabilidades. Dos dianteiros brasileiros destacaram-se
Friedenreich, Nilo e Filó. Os nacionais, no primeiro tempo, estiveram
desorganizadíssimos e inarmônicos, falhando lamentavelmente. No 2º tempo, os
papéis inverteram-se, pois os argentinos dominaram completamente os
brasileiros, que estavam decadidíssimos, demonstrando cansaço e falta de
treino. Os argentinos bombardearam com grande frequência o arco brasileiro,
defendido magistralmente por Tuffy e Helcio. (…)».Nomes e
números:
29 de
novembro de 1925
Argentina
– Paraguai: 2-0
(Manuel
Seoane, 2’; Martín Sánchez, 72’)
6 de
dezembro de 1925
Brasil –
Paraguai: 5-2
(Filó, 16’;
Friedenreich, 19’; Lagarto, 40’, 54’; Nilo, 72’)
(Gerardo
Rivas, 25’, 66’)
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| Duelo entre argentinos e brasileiros |
13 de dezembro
de 1925
Argentina
– Brasil: 4-1
(Manuel
Seoane, 41’, 48’, 74’; Alfredo Garassino, 72’)
(Nilo, 22’)
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| Seoane, o goleador do campeonato de 1925 |
17 de
dezembro de 1925
Brasil –
Paraguai: 3-1
(Nilo, 30’;
Lagarto (57’, 61’)
(Luís
Fretes, 58’)
20 de
dezembro de 1925
Argentina
– Paraguai: 3-1
(Domingo Tarasconi,
22’; Manuel Seoane, 32’; Javier Iruieta, 63’)
(Solich,
15’)
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| Friedenreich marca e festeja o primeiro do Brasil no jogo decisivo |
25 de
dezembro de 1925
Argentina
– Brasil: 2-2
(Antonio
Cerrotti, 41’; Manuel Seoane, 55’)
(Friedenreich,
28’; Nilo, 30’)
Classificação:
1.º
Argentina: 7 pts.
2.º
Brasil: 5 pts.
3.º
Paraguai: 0 pts.