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Uma panorâmica da bela Cidade de Vigo |
Os
caminhos da História levam-nos por vezes a repensar factos que julgávamos
inalteráveis, mas que afinal não o são. Vem isto a propósito da nossa viagem de hoje a Vigo... cidade onde
nasceu o futebol em Espanha. É verdade, durante anos a fio pensou-se que Huelva
teria sido o primeiro local onde se jogou pela primeira vez futebol no país
vizinho, onde nasceu o primeiro clube, no caso o Club Inglés de Riotinto, mas
já no século XXI, mais precisamente em 2012, um investigador de História local
galega, de seu nome José Ramón Cabanelas, descobriu casualmente em pesquisas na
hemeroteca do jornal Faro de Vigo uma referência ao juego de la pelota (jogo da bola) com data de 10 de junho de 1876
naquela cidade da região autónoma da Galiza. Esta notícia veio então contrariar
o facto de que teria sido em 1878 que mineiros ingleses, que trabalhavam na
mina de Riotinto, em Huelva, terão sido os introdutores do futebol em Espanha
ao fundar o já referido Club Inglés de Riotinto.
Pois
bem, estes novos factos comprovaram que foi pois em Vigo onde foram dados os
primeiros pontapés numa bola de football
no maior país da Península Ibérica pela mão, ou pelos pés neste caso, dos
trabalhadores (engenheiros) ingleses do Eastern
Telegraph Company.
Nesse
sentido vamos então conhecer não só um pouco desta história como de igual modo
algumas estórias do Belo Jogo que tiveram lugar nesta
encantadora cidade galega pertencente à província de Pontevedra. Situada no sul da Galiza, Vigo é a
segunda cidade mais povoada desta região autónoma, a seguir à Corunha. O seu
porto marítimo trouxe-lhe riqueza e importância desde o século XIX, sendo hoje
considerada a capital das Rias Baixas. Vigo é na atualidade o principal porto
pesqueiro da Europa e o mais importante centro comercial e económico do sul da
província de Pontevedra.
Os exilados ingleses introduzem o futebol
em Vigo... e em Espanha
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Uma rara imagem do Exiles Club, em 1903 |
Recuando
um pouco no tempo, constata-se que foi na segunda metade do século XIX que a
cidade conheceu um crescimento acentuado, sobretudo no plano económico, com a
abertura de inúmeras fábricas, o que trouxe a esta localidade banhada pelo
Atlântico muitos trabalhadores estrangeiros. Ali instalou-se naquele período a
telegrafia submarina do Cabo Inglês, a Eastern
Telegraph Company, onde trabalhavam diversos engenheiros ingleses
provenientes da região britânica da Cornualha. Foram estes cidadãos que em 1873
fundaram em Vigo um clube social, onde conviviam entre si e praticavam
desporto, denominado de Exiles Club, ou se quisermos traduzir na língua de
Camões, o Clube dos Exilados.
Ora,
terá sido nesses convívios que a bola começou a rolar por aquelas paragens,
sendo que sem rivais na região com quem pudesse medir forças, o Exiles
defrontava equipas constituídas por marinheiros ingleses cujos barcos aportavam
em Vigo. Jogos esses que eram disputados em terrenos situados na zona de Malecón.
E a primeira referência a estes jogos, e que desmente a teoria de que o futebol
em Espanha teve o seu início em Huelva, foi então descoberta pelo investigador
viguês José Ramón Cabanelas, através de uma notícia publicada no Faro de Vigo e
datada de 10 de junho de 1876 e que dizia o seguinte: "Os ingleses visitaram-nos novamente. Eles são tão gentis! Eles
andam como quatro, pisam como seis e bebem como cinquenta. Pescam, caçam,
fumam, pintam e jogam à bola de acordo com seu uso e modo". A juntar a
esta notícia, Cabanelas afirma que inclusive que chegou a disputar-se uma
competição entre as tripulações de marinheiros ingleses e o Exiles Club,
denominada de Copa Primavera. Numa entrevista concedida ao Faro de Vigo em 2012,
o investigador sustenta esta sua descoberta dizendo que os ingleses vieram para
Vigo em 1873, precisamente dez anos depois da fundação em Inglaterra da Football Association, trazendo consigo,
desde o primeiro momento, os seus costumes vitorianos para a cidade galega, entre
eles o futebol.
Vestígios
fotográficos do Exiles Club, que terá sido provavelmente o primeiro clube em
Espanha a dedicar-se ao futebol, são raros, conhecendo-se apenas uma fotografia
de uma equipa de 1903. Sabe-se de igual modo que as suas cores eram o preto e o
branco, precisamente as cores da bandeira da região da Cornualha.
Os vizinhos que
deram as mãos para fundar um grande clube na cidade
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Vigo FC |
Não
se sabe ao certo quando este emblema foi extinto, sabendo-se apenas que do seu
palmarés consta a vitória numa Copa Pontevedra, em 1907, um torneio regional,
numa altura em que o futebol se tinha expandido já por toda a região com a
existência de inúmeros clubes. Inclusive em Vigo, que era já a casa dos rivais
Vigo Football Club (fundado em 4 de junho de 1903) e do Fortuna Football Club (criado
a 11 de setembro de 1905). O primeiro emblema chegou mesmo a ser considerada a
melhor equipa da cidade durante vários anos, tendo sido o vencedor da primeira
edição do Campeonato Regional da Galiza, em 1905, após derrotar na final o
vizinho e rival Fortuna.
Curiosamente,
a primeira casa do Vigo FC foi precisamente o campo de jogo do Exiles Club,
passando em 1908 para aquele que pode ser considerado como o primeiro grande
estádio viguês, o Campo de Coya. Ali, jogou-se futebol até 1928, tendo sido
inclusive palco de uma final da Copa del
Rey (Taça de Espanha) entre o Barcelona e o Real Unión de Irún, ganha pelos
catalães.
A
camisola bipartida com as cores vermelha e branca, as cores da província
marítima de Vigo, usada pelo Vigo FC ficaram famosas nas só na cidade como em
toda a região da Galiza. O clube ganhou diversos campeonatos galegos, tendo
inclusive um desses triunfos lhe permitido jogar a mais importante competição
do futebol espanhol de então, a Copa del
Rey. E numa dessas edições chegou
mesmo à final, ante o mais poderoso emblema do país, o Madrid Football Club,
que anos mais tarde seria rebatizado como... Real Madrid. Nessa final,
disputada no Estádio de O'Donnell, caso do Madrid FC (!), o Vigo FC saiu
derrotado pela margem mínima (1-2), mas rezam as crónicas que apresentou bom
futebol praticado por excelentes artistas. Na verdade, os melhores jogadores da
Galiza daquele tempo vestiam as cores do Vigo FC, sendo que dois deles deixaram
esta região autónoma para rumar à capital de Espanha para vestir as cores do
emergente gigante Madrid FC. Falamos dos irmãos Yarza, Manuel e Joaquim, quiçá
as primeiras lendas do futebol com origens em Vigo. Mas deles já iremos falar
com detalhe mais adiante.
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O Fortuna de Vigo em 1912 |
A
cidade era naqueles dias habitada por outro clube com arte para o juego de la pelota, como era então
denominado o futebol, no caso o Fortuna, dois anos mais novo que o seu vizinho.
Repartiam entre si o domínio não só do futebol viguês como de toda a região,
tendo o Fortuna vencido o Campeonato da Galiza em nove ocasiões: 1906, 1907,
1910, 1911, 1912, 1915, 1918, 1921 e 1922, ao passo que o seu rival o fez por
oito vezes: 1907, 1908, 1914, 1917, 1918, 1919, 1920 e 1923.
O
Fortuna está não só ligado à história do futebol galego como também do futebol
português. É verdade. Tudo porque a 15 de dezembro de 1907 o clube viguês deslocou-se
ao nosso país para defrontar o FC Porto, no Campo da Rainha. Este encontro foi
histórico porque pela primeira vez um clube estrangeiro atuava em solo luso.
Irmãos Yarza: as
primeiras lendas nascidas em Vigo
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Os irmãos Yarza, Quincho e Manuel, com as cores do Real Madrid |
Mas
voltando aos irmãos Yarza, eles foram as primeiras estrelas nascidas em Vigo.
Joaquín, ou Quincho como ficou eternizado, era o mais velho. Nasceu em 1881 e
ficou na história do próprio futebol espanhol pelo facto de ter sido o primeiro
futebolista a ser pago para jogar, algo inédito numa época onde reinava o
amadorismo.
Por
sua vez, Manuel nasceu em 1884, e juntamente com o seu irmão ajudou a abrir o
glorioso livro da história do Real Madrid. Os dois irmãos rumaram à capital no
início do século XX, tendo ali ajudado a fundar o Moderno Football Club,
emblema fundado em 1902 e que pouco tempo depois seria absorvido, digamos
assim, pelo Madrid FC. Manuel e Quincho estiveram nessa transição, vestiram a
camisola dos merengues entre 1903 e
1908, ajudando o clube a conquistar os seus primeiros títulos, mais em concreto
quatro Copas del Rey (de 1905 a 1908). Além de jogador Manuel tinha de igual
modo funções administrativas dentro do clube. Era membro do Conselho de Administração
enquanto no retângulo de jogo atuava como um médio forte e eficaz. Por seu
turno, Quincho, começou a jogar como ala, mas depressa se tornou num defesa
implacável, formando uma dupla lendária com Berraondo graças à sua força física
aliada à sua qualidade.
Após
a aventura em Madrid, Quincho regressou à sua cidade natal onde defendeu as
cores do Vigo FC durante duas temporadas, ao passo que o seu irmão Manuel
continuou pela capital, tendo atuado entre 1908 e 1911 no Club Español de
Madrid.
Vigo precisa de
um clube único que una o povo da cidade
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Manuel de Castro |
Foi
na segunda década do século passado que o célebre jornalista do Faro de Vigo, Manuel
de Castro, acompanhava com atenção o futebol que era jogado não só na sua
cidade como pelo resto da Espanha. Pelo punho do referido jornalista foram
escritos alguns artigos dando nota de que Vigo precisava de um único clube,
isto é, um clube que unisse as pessoas e que fosse forte o suficiente para
fazer face aos outros emblemas que proliferavam pelo resto do país. Juntamente
com Juán Baliño, Castro foi um dos impulsionadores do movimento «Todo por y
para Vigo» (tudo por e para Vigo), tendo
objetivo a criação de um só clube na cidade. Esta proposta teve a
aceitação dos dois clubes da terra, o Fortuna e o Vigo FC, sendo que a 10 de
agosto de 1923 nascia, resultante da fusão destes dois emblemas, o Real Club
Celta de Vigo.
Não
foi contudo um parto fácil, desde
logo pela escolha do nome do novo clube, que foi motivo de divergência de
opiniões. Real Unión de Vigo, Club Galicia, Real Atlántic, Breogán e Real Club
Olímpico, foram os nomes inicialmente propostos, até que para acabar com o
impasse alguém propôs que se olhasse para as raízes das Rias Baixas, para a
história daquela região mais a norte da Península Ibérica, outrora habitada
pelos povos celtas... Celta, ora aí está um bom nome, que de pronto ficou
assente.
O
clube começou de pronto a saltar para o campo para mostrar a camisola azul
celeste que se iria tornar célebre nas décadas seguintes, ao disputar os seus
primeiros encontros - a estreia aconteceu numa partida entre todos os jogadores
do plantel, uma parte liderada por Otero, outra por Clemente, tendo o
"onze" do primeiro atleta vencido por 2-0. Como curiosidade refira-se
que o primeiro jogo contra outro clube ocorreu a 23 de setembro de 1923, mais
precisamente contra os portugueses do Boavista, que saíram do Campo de Coya, a
primeira casa do Celta, com uma pesada derrota por 8-2.
O
emblema rapidamente começou a competir nas provas regionais, ganhando o
primeiro campeonato galego da sua história logo no ano de estreia, em 1923. O
Celta foi crescendo nos anos seguintes, e na época de 1939/40 faz a estreia no
principal escalão do futebol espanhol, onde esteve de forma quase ininterrupta
durante 20 anos, exceção feita à temporada de 44/45, altura em que disputou a 2.ª
Divisão.
Por
esta altura era treinador do Celta Don
Ricardo Comesaña, para muitos o primeiro grande técnico do clube, um homem
também ele nascido em Vigo em finais do século XIX, e que entre 1935 e 1940
esteve ao leme da equipa. Ele foi o responsável pela primeira subida do Celta à
1.ª Divisão e ainda hoje qualquer adepto do clube, seja qual for a idade, sabe
quem ele foi e o que ele significa para o celtismo.
Pahiño, o
príncipe das Rias Baixas
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Pahiño |
1923
foi como já vimos o ano de fundação do Celta de Vigo e foi também o ano em que
nasceu outro génio do futebol galego: Manuel Fernández Fernández, ou simplesmente
Pahiño. A sua louca obsessão pelo golo fez com que seja ainda hoje recordado
como um dos mais prolíferos avançados da história do futebol espanhol. Dos seus
(bons) pés - sobretudo - foram disparadas autênticas balas de canhão que
destruíram as balizas contrárias vezes sem conta. Ah, noutras ocasiões a meta
adversária era igualmente fuzilada com letais cabeceamentos, já que além de
dois bons pés Pahiño era também senhor de um bom jogo de cabeça. Talento(s)
descobertos nas areias das praias de Vigo, onde Manuel Fernández Fernández
esquecia - por certo - a vida dura do campo (agricultura), lides às quais desde
muito novo se habituara com o objetivo de ajudar no sustento da sua família. Nas
praias desta cidade estão pois guardadas as primeiras histórias de intimidade
entre Pahiño e a bola, uma relação que se assumiu - de forma mais séria - em
Arenas de Alcabre, o primeiro emblema a ser oficialmente representado pelo niño nascido a 21 de janeiro de 1923, em
San Playo de Navia, nos arredores de Vigo. Estávamos ainda um pouco longe do casamento entre Pahiño e o Celta, mas
não deixa de ser curioso que o jogador e o clube tivessem vindo ao Mundo no
mesmo ano! Obra do acaso? Se calhar não... De Arenas de Alcabre para o
Juventudes de Vigo - o seu segundo clube - o caminho foi curto, já que o poder de fogo de Pahiño começava a ter
eco por toda a Galiza.
Apercebendo-se
que mesmo por debaixo do seu nariz deambulava um talento na arte de bombardear
o esférico para as balizas contrárias, eis que em 1943 o Celta de Vigo não mede
esforços para contratar aquela que viria a ser a jóia da (sua) coroa nos cinco
anos que se seguiram. O fichaje do
poderoso avançado não foi contudo um parto fácil, longe disso. Na corrida pelo
concurso do nativo de San Playo de Navias estava também o Salamanca, emblema
que na altura tentava entrar na elite do futebol espanhol, o mesmo será dizer,
ascender à 1.ª Divisão. No entanto, os helmánticos foram vencidos pelo coração!
Pelo coração celtista que pulsava dentro do jovem Pahiño, que ainda criança,
pela mão do seu pai, travou-se de amores pelas camisolas azuis celeste que aos
domingos à tarde reluziam no relvado de Balaídos. Nessa época estaria ainda
distante de imaginar que também ele um dia iria brilhar com a indumentária
celtista nos retângulos do futebol espanhol, ajudando a edificar - em seu redor
- uma das equipas mais lendárias da história do clube de Vigo, que durante uma
mão cheia - pelo menos - de temporadas assombrou os gigantes do Belo Jogo castelhano.
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Um aspeto do Campo da Coya, a primeira catedral do futebol viguês |
Estávamos
em 1943 quando Pahiño - com 19 anos - chegou a Balaídos. No entanto, e apesar
da monstruosidade do seu poder de fogo, o Celta não foi feliz na temporada de
1943/44, foi último de uma Liga vencida por um Valência onde se destacava o
goleador Mundo, e acabou por descer aos infernos da 2.ª Divisão. Passagem pelo inferno que seria fugaz, já que na época
seguinte a garra de Pahiño aliada ao seu instinto de predador catapultou o
Celta de novo para o convívio entre os grandes do futebol espanhol. Episódio
lendário que ressalva do trajeto glorioso do Celta em 44/45 prende-se com o
jogo final que dava acesso à promoção. Frente a frente mediram forças no
(Estádio) Metropolitano de Madrid o Celta e o Granada, e quem vencesse ganhava
o bilhete para a Primera. Pahiño,
titular indiscutível dos celtistas desde que havia chegado a Balaídos, foi a
estrela da tarde. No relvado do mítico recinto da capital fez jus ao seu
estatuto de temível homem de área, fazendo dois golos durante a primeira parte.
Performance que faria com que os defensores contrários lhe dedicassem
atenções... suplementares. Alvo de uma entrada violenta de Milán González o
goleador celtista fraturou o perónio, facto insuficiente para que deixasse
de... continuar em campo na etapa complementar e ajudasse o Celta a vencer por
4-1.
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Ricardo Comesaña |
De
volta à 1.ª Divisão, o Celta viveu nas três temporadas seguintes alguns dos
capítulos mais cintilantes da sua história. Sempre... aos ombros daquela que
era já a sua maior estrela, Pahiño. Nos palcos da Primera o goleador galego foi pedra fundamental para que os
celestes se afirmassem como uma das equipas mais encantadoras da liga, e
sobretudo num osso duro de roer para
emblemas de maior dimensão. Que o diga o poderoso Real Madrid, que em 45/46
tombou em Balaídos por concludentes 3-0, ou o campeão dessa temporada, o
Sevilha, que nas Rias Baixas afundou-se depois de ter levado quatro (a zero)!
Foi igualmente durante o regresso do Celta ao convívio entre os grandes que
nasceu uma rivalidade protagonizada entre dois mitos da história do futebol
espanhol na arte de fuzilar as redes contrárias. Pahiño, claro está, e Telmo
Zarra, o herói basco do Athletic de Bilbao que ainda hoje detém o título de
melhor marcador de sempre da 1.ª Divisão espanhola, com 252 remates certeiros.
Zarra, como iremos perceber nas próximas linhas, foi quiçá o grande obstáculo
que Pahiño encontrou ao longo da sua carreira para conquistar um lugar de
destaque no... Olimpo do futebol global. Em 45/46 o celtista apontou 15 golos,
menos nove que Zarra, que desta forma levava para a sua vitrina pessoal o
troféu Pichichi, galardão que
distingue o melhor marcador do campeonato espanhol. E se Pahiño e Zarra lutavam
entre si por um lugar na eternidade do Belo
Jogo, na época seguinte Vigo acolhe de braços abertos um homem que há muito
repousava no panteão do desporto rei
planetário. O seu nome? Ricardo Zamora. Il
Divino, como ficou imortalizado na história do jogo, era agora treinador, e
depois de ter passado pelos bancos do Nice (França) e do Atlético Aviación
(nome pelo qual na época era conhecido o atual Atlético de Madrid) assentava
arraiais nas Rias Baixas, onde iria construir uma equipa lendária. E se a primeira
temporada (46/47) de Zamora em Vigo não foi por ai além, já que o Celta não
conseguiu melhor do que um 9º lugar, a segunda foi a todos os títulos
memorável. Para o Celta e para... Pahiño. A nível coletivo os celtistas
alcançariam um inédito quarto posto, ficando a somente seis pontos do campeão
Barcelona, na sequência de uma coleção de resultados absolutamente brilhantes.
Vejamos: de Balaídos saíram humilhados o campeão Barcelona (3-2), o vice-campeão
Valência (5-2), o Atlético de Madrid (3-1), e o Real Madrid (4-1). Aliás, os merengues iriam sofrer nessa mítica
época uma dupla humilhação aos pés dos pupilos de Zamora, visto que na capital
a dose (4-1) repetiu-se a favor dos galegos. Mas a epopeia galega não se ficou
por aqui. Na Copa del Generalíssimo -
atualmente denominada como Copa del Rey
- o Celta alcançou a final, onde seria travado pelo Sevilla (4-1) no
Metropolitano de Madrid, o mesmo recinto onde poucos anos antes Pahiño e o
Celta haviam sido tão felizes.
Apesar
da derrota, o Celta foi rotulada como a equipa sensação dessa temporada, muito
graças ao cunho pessoal da sua estrela-mor, Pahiño, que com 23 golos venceu o
seu primeiro Troféu Pichichi.
A
veia goleadora de Pahiño era por demais saliente, e nesse ano de 1948 atinge a
sua primeira internacionalização, ao representar a Espanha num amigável ante a
Suíça, ocorrido em Zurique.
A
brilhante caminhada celtista chamou à atenção dos tubarões do futebol espanhol, que centravam os seus olhares
devoradores em nomes como Miguel Muñoz, Alonso, e claro, Pahiño, as estrelas
daquele Celta. Sabendo que o seu talento era por demais admirado por clubes de
maior envergadura o internacional galego exigiu à direção azul celeste um
aumento de salário, argumentando que era não só um dos grandes abonos de
família da equipa, como também que outros colegas seus que raramente pisavam o
relvado - na condição de titulares - usufruíam de salários muito mais elevados
do que o seu. A ação de Pahiño foi desde logo apelidada de anti-celtista, e o
jogador é de pronto olhado por dirigentes, (alguns) companheiros e muitos
adeptos como mercenário, anti-galego, ou conflituoso, alguns do mimos que
recolheu naquele verão de 48. Cansado deste braço
de ferro, equacionou a hipótese de abandonar o futebol (!), pensamento
somente travado pelo Real Madrid, que nesse final de temporada de 47/48 viaja
até Vigo para pescar Miguel Muñoz,
Alonso, e Pahiño. Consumado o divórcio com o Celta o goleador galego celebra um
casamento de cinco épocas com o
laureado emblema da capital, conquistado de pronto a admiração dos exigentes
adeptos merengues na sequência da sua
infindável garra aliada à vincada veia de concretizador nato.
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Balaídos nos anos 30 |
Na
primeira temporada equipado de blanco,
o galego aponta 21 golos, ficando a somente sete do Pichichi desse ano, César, do Barcelona. Nos anos que se seguiram o
seu nome figurou sempre no top 5 da
lista dos melhores marcadores da 1.ª Divisão, sendo que em 51/52 alcança o
título de Pichichi da Liga pela
segunda vez na sua carreira, fruto dos 28 golos convertidos. Despediu-se do
Real Madrid na temporada seguinte, porque Don
Santiago Bernabéu, o lendário presidente do clube, não renovava por mais de um
ano contrato com jogadores cujo Bilhete de Identidade apresentasse uma idade
superior a 30 anos. Pahiño queria mais tempo - três anos de contrato, ao que
consta - e a polémica instalou-se de novo na carreira de um jogador que se viu
obrigado a procurar abrigo noutro local. Consta-se - ainda - que o Real Madrid
não fez grande esforço em tentar segurar o galego, até porque tinha acabado de
contratar um jovem prodígio argentino chamado... Alfredo Di Stéfano. Aquele que
muitos afirmam ter sido o melhor jogador da história do clube merengue herdou a
camisola número 9 do galego Pahiño, que partia de Madrid com um impressionante
registo de 108 golos apontados em 122 jogos disputados, mas com a mágoa de
nunca ter ganho um troféu coletivo com o colosso madrileno.
Algo
frustrado, Pahiño procura abrigo na sua região natal, a Galiza, para onde
regressa no verão de 1953, com o intuito de representar o... Deportivo da
Corunha! Foi como um punhal cravado nas costas da afición celtista, que via uma das suas maiores lendas, um filho da
terra, vestir agora a camisola do eterno inimigo do norte, o Depor. Na Corunha esteve três temporadas
- sempre na 1.ª Divisão - tendo apontado perto de meia centena de golos com a
camisola azul e branca. Após abandonar a Corunha ainda jogou uma temporada na 2.ª
Divisão ao serviço do Granada, o tal clube que anos antes lhe havia dado cabo
do perónio no Metropolitano de Madrid, mas o tempo acabou por apagar as más
memórias desse momento menos feliz da carreira do homem de San Playo de Navia,
o qual ajudou os granadenses a subir à divisão maior do futebol espanhol.
Posto
isto: missão cumprida, e Pahiño pendurava as chuteiras com um impressionante
registo de 212 golos apontados em quase 300 encontros - 295 para sermos mais
precisos - disputados. Viria a falecer em Madrid, aos 89 anos, a 12 de junho de
2012, precisamente no ano em que José Ramón Cabanelas descobriu que Vigo - a
cidade natal de Pahiño - foi o local onde se jogou futebol pela primeira vez em
Espanha. Há coincidências fantásticas!
Rivalidade Celta
vs Deportivo da Corunha
E
já que neste longo registo biográfico foi mencionado o nome do Deportivo da
Corunha, há que frisar que hoje, quase 100 anos após a sua fundação, o Celta
tem no clube do norte da Galiza o seu eterno rival. Há inclusive uma história que
conta os primeiros capítulos desta rivalidade (quase) centenária e que remonta
a 1928, ano em que foi criada a 1.ª Divisão de Espanha. Pelo facto de o Vigo FC
ter disputado anos antes uma final da Copa
del Rey a Real Federación Española de
Fútbol quis oferecer ao Celta um presente, isto é, o privilégio de fazer
parte da elite do futebol espanhol nesse primeiro campeonato nacional. Porém,
outros clubes da liga achavam que os azuis celestes teriam de fazer por merecer
a sua presença no escalão maior, tendo o emblema de Vigo acabado por ir
disputar a 2.ª Divisão. E um dos clubes que mais pressão fez para que o Celta
não disputasse a Primera foi o... Deportivo
da Corunha. Nascia assim a eterna rivalidade que nas décadas seguintes teve
tantos outros episódios históricos.
Celta: um clube
de altos e baixos
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A equipa do Celta que fez a estreia na UEFA |
Os
anos 60 foram algo cinzentos para os lados da Rias Baixas, com o Celta
mergulhado no segundo escalão de Espanha. Nos anos 70 a situação foi
ligeiramente alterada, com o emblema viguês a disputar em algumas épocas a 1.ª
Divisão. Porém, não foram criadas raízes neste escalão, e o Celta era então uma
espécie de clube ió-ió, ou seja, do
sobe e desce constante. No entanto, a década de 70 trouxe outro registo
histórico ao emblema viguês, que em 1972 participa na Taça UEFA como prémio
para um fantástico 6.º lugar na temporada de 70/71. Em setembro de 72 o Estádio
de Balaídos entrou na Europa, com o Celta a receber os escoceses do Aberdeen.
Os 17.000 celtistas presentes no recinto viram o seu clube pagar caro a inexperiência
nas eurotaças, já que o Celta caiu
por 0-2. Duas semanas mais tarde nova derrota (1-0) na Escócia e dava-se o
adeus à Europa na estreia. Mas... décadas mais tarde o cenário ira mudar por
completo.
Em
1994, o Celta atinge pela segunda vez na sua história a final da Copa del Rey. 20.000 adeptos celtistas
deslocaram-se a Madrid para assistir ao jogo diante do Real Zaragoza, naquela
que foi a maior mobilização, até então, de adeptos do clube para fora da região
da Galiza. Porém, a vitória foi para os aragoneses, nas grandes penalidades, e
o Celta deixava escapar novamente a taça.
Nos
finais do século XX eis que surge o Euro
Celta. A equipa que encantou a Europa, vergando alguns dos gigantes do
futebol continental. Com uma equipa que contava com estrelas como Mostovoi,
Karpin, Mazinho, Dutruel, ou Gudelj, orientada pelo técnico Javier Irureta, o
Celta afastou em 1998, na Taça UEFA, clubes como o Aston Villa e o Liverpool,
acabando por cair nos quartos-de-final da prova ante o Marselha. Mas o aviso estava
dado, o Celta queria apanhar o comboio da Europa.
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O Celta na final da Copa de 1994 |
Em
2000 os vigueses vencem a Taça Intertoto, o seu único troféu oficial em quase
100 anos de vida, e voltam a entrar na UEFA. Na fase a eliminar desta
competição o Celta atropelou numa das
eliminatórias o famoso Benfica por 7-0 nos Balaídos, deixando depois pelo
caminho a Juventus e caindo de novo nos quartos-de-final ante um clube francês,
no caso o Lens. Na temporada seguinte as camisolas celestes voltam à Taça UEFA,
atingindo de novo os quartos-de-final, tendo o emblema de Vigo sido eliminado
pelos conterrâneos do Barcelona, após deixarem pelo caminho clubes como o
Estugarda, o Estrela Vermelha ou o Shakhtar. Nesta altura o clube era orientado
pelo treinador Víctor Fernández e tinha no seu plantel nomes famosos como
Claude Makelele, Penev, Catanha, Gustavo López, ou Jesuli.
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O Celta que atropelou o Benfica em 2000 |
Em
2001 surge outro amargo de boca na vida do clube. O Celta chega pela terceira
vez na história a uma final da Taça de Espanha, tendo como opositor um velho
conhecido nestas andanças, o Real Zaragoza. Em Sevilha, a equipa aragonesa leva
de novo a melhor sobre os azuis celestes, desta feita por 3-1. As lágrimas
voltaram a cair sobre os rostos celtistas, mas por pouco tempo. Em 2003/04 Vigo
entra na rota da Liga dos Campeões Europeus. O 4.º lugar conquistado na
temporada anterior garante ao Celta uma inédita participação na prova mais
importante do futebol mundial a nível de clubes. José Manuel Pinto, Eduardo
Berizzo, Sylvinho, Fernando Cáceres, Giovanella,
Gustavo López, Mostovoi, ou Milosevic, eram alguns dos nomes que passearam a
camisola celeste na liga milionária. O
Celta começou a fase de grupos com um empate no terreno do Club Brugge, onde
Juanfran foi herói e vilão, ao marcar pelas duas equipas. Seguiu-se outro
empate, desta feita a zero, em casa, frente ao Milan e uma derrota em
Amesterdão por 1-0, com o Ajax. Na segunda volta o Celta conquista a primeira
vitória na prova ao vencer os holandeses por 3-2 em Vigo. Depois disso, novo
jogo em casa e novo empate com o Club Brugge, de novo por 1-1. Chegados à
derradeira jornada o Celta precisava de
vencer o já qualificado Milan. E num dos palcos mais famosos do futebol
mundial, San Siro, o Celta venceu por 2-1 e qualificou-se para a fase a
eliminar da prova. Nos oitavos-de-final, o sonho azul celeste foi desfeito pelo
Arsenal, que com duas vitórias eliminou os galegos por um total de 5-2.
Após
algumas passagens pelo inferno da 2.ª Divisão eis que a partir de 2012 o Celta
fixou-se, até aos dias atuais, na elite do futebol espanhol, tendo de lá para
cá tido algumas aparições brilhantes, como foi o caso da campanha europeia de
2016/17, em que o clube só caiu aos pés do Manchester United, de José Mourinho,
nas meias-finais da Liga Europa. Hoje, o Celta é mais do que o tal clube que um
dia o jornalista Manuel de Castro sonhou: um clube da cidade. O Celta é hoje
uma das principais bandeiras desportivas da Galiza, e um dos mais populares e
acarinhados emblemas de Espanha.
Balaídos, a
mítica catedral onde começou a
caminhada gloriosa da Itália no Mundial de 1982
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O mítico Estádio Balaídos |
Como
já vimos, o Campo de Coya foi a primeira grande catedral futebolística de Vigo.
Porém,
um ano após a sua fundação o clube é notificado para abandonar o terreno, com
vista à construção da linha de elétrico naquela zona da cidade. É então que se
começa a idealizar o projeto de construção do que viria a ser o Estádio de
Balaídos, a mítica casa do Celta. O estádio começa a ser construído em 1925, e
seria destinado a 20.000 espectadores. A sua conclusão estava prevista para o
ano seguinte, mas contratempos na empreitada fizeram com que só em dezembro de
1928 o recinto abrisse oficialmente as suas portas. 30 de dezembro desse ano
foi pois um dia de festa na cidade de Vigo. Pessoas de várias localidades
vizinhas como Gondomar, Baiona ,ou Cangas acorreram ao local para presenciar a
inauguração, abrilhantada por uma goleada (7-0) do Celta ao Real Unión Irún. De
lá para cá Balaídos tornou-se no santuário do celtismo, vivendo muitas alegrias
e muitas tristezas também, mas sempre com a paixão azul celeste a transbordar
nas suas bancadas. Com o passar dos anos este estádio tornou-se num dos
símbolos do futebol espanhol, não só pela paixão com que ali se vive os jogos,
mas de igual modo porque fez parte, ou faz, dos poucos recintos que hoje guarda
a história do único Campeonato do Mundo da FIFA realizado em solo espanhol, no
ano de 1982.
Foi
em Vigo, e nos Balaídos, que a Itália começou a caminhar rumo ao título mundial
nesse ano de 82, um início que até não foi muito prometedor para a Squadra Azzurra.
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Itália - Perú, do Mundial de 82, jogado no Balaídos |
A
Itália, então orientada por Enzo Bearzot, e que estava recheada de craques como
Dino Zoff, Claudio Gentile, Marco Tardelli, Bruno Conti, ou Paolo Rossi,
disputou todos os seus jogos da 1.ª fase desse Mundial em Vigo, uma das 14
cidades espanholas que acolheu a prova. Previa-se que os italianos não tivessem
grandes dificuldades para ultrapassar um grupo composto por Polónia, Perú e os
estreantes e então desconhecidos Camarões. Porém, a realidade foi outra. No
primeiro encontro, ante a Polónia de Boniek, empate a zero. Tudo bem, nada de
alarmes, até por os adversários seguintes eram na teoria mais acessíveis. Com o
Perú, Bruno Conti marcou primeiro, mas Rúben Díaz empatou e a Itália estava em
maus lençóis. A última partida era com os Camarões, que na frente tinham um até
então desconhecido Roger Milla. À mesma hora jogava-se o Polónia-Perú, na
Corunha. No início da segunda parte deste encontro os polacos marcaram quase
cinco golos de rajada, enquanto a Itália voltava a empatar, e de novo a um
golo. Graziani e M’Bida fizeram os golos. A Itália só passou o grupo porque
marcou mais um golo do que os Camarões, que também haviam tido três empates,
sendo que a Polónia acabou em primeiro do grupo. A Itália despedia-se de Vigo
com um futebol medíocre, sem um antídoto para chegar às vitórias, e muitos
pensavam então que aquela equipa pouco iria durar no Mundial espanhol a jogar
daquela maneira. Puro engano. Tudo mudou na 2.ª fase, graças a um tal de Paolo
Rossi que comandou a Azzurra rumo ao
título conquistado em Madrid. Ah, e pelo caminho deixou aquela que muitos dizem
ter sido uma das melhores seleções brasileiras de todos os tempos.
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O futuro Estádio de Balaídos |
Balaídos
poderá ter sido uma pedra no sapato a
Itália, ou então um alarme que o acordou a seleção de Enzo Bearzot, mas acima de
tudo é um estádio que mítico, que já vivenciou grandes tardes e noites (muitas
delas europeias) do Celta. Hoje, o recinto está em profunda remodelação, e dará
lugar a um novo Balaídos, mas sempre com a ideia de continuar a fazer de Vigo
uma... cidade de futebol.