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sexta-feira, julho 08, 2022

Cidades do Futebol (6)... Birmingham: Muito mais do que a terra natal dos Peaky Blinders

Birmingham
Terras há por esse Mundo fora que são hoje famosas por terem servido de berço a criminosos, quadrilhas, ou patifes da pior espécie e que graças ao seu ofício, digamos assim, também eles se tornaram célebres. Mas nenhuma é tão requintada - no que concerne a bandidagem - como Birmingham, graças aos seus... Peaky Blinders. Pelo menos no que à ficção diz respeito, já que na mundialmente aclamada série da Netflix este afamado gangue nascido naquela cidade prima por um estilo e personalidade muito... cool, não se sabendo se os verdadeiros Peaky Blinders eram tão refinados.

Mas perguntar-se-á o ilustre visitante o que tem a ver o célebre gangue com futebol? Alguma coisa terá, mas já lá vamos. Birmingham não é só a terra natal desta organização criminosa, é também o berço de dois emblemas que contribuíram, e muito, para a história do futebol inglês, mais concretamente para a criação de uma liga (campeonato). Na verdade, foi nesta que é a segunda maior urbe de Inglaterra que surgiu a ideia de fundar o mais antigo campeonato de futebol do Mundo, o inglês. Mas não só por isto estes dois símbolos, rivais, e a cidade que os viu nascer merecem um lugar de destaque no Grande Atlas do Futebol Planetário, já que os jogos entre si constituem-se como um dos dérbis mais antigos do Planeta da Bola. É verdade, o dérbi de Birmingham é dos que se joga há mais anos em todo o globo, sendo que o Second City Derby, como ficaram conhecidos os confrontos entre os dois filhos de Birmingham, é considerado o dérbi mais escaldante de Inglaterra!

O dérbi mais escaldante de Inglaterra joga-se em Birmingham

A equipa do Villa que conquistou o primeiro
troféu do clube: a Birmingham Senior Cup
Birmingham pode não ter o mediatismo global - em termos de futebol - de cidades como Londres, Manchester, ou Liverpool, mas tem o dérbi com maior rivalidade de todo o reino de Sua Majestade! Essa é que é essa! Os protagonistas deste duelo são o Aston Villa e o Birmingham City. Nasceram ambos numa época em que o futebol em Inglaterra vivia ainda de uma forma muito desorganizada, isto é, não havia muitos clubes organizados, a Taça de Inglaterra era ainda um bebé e era a única competição em que os poucos emblemas existentes mediam forças. Em suma, era tudo muito novo, e nesse sentido se pode considerar os dois filhos de Birmingham como dos mais antigos - e pioneiros - do futebol em Inglaterra. O primeiro a ver a luz do dia foi o Aston Villa, em 1874, diz-se que no dia 21 de novembro, diz-se, mas sem certezas, já que não há registos escritos desse facto baseado apenas na memória que vai ficando esbatida com o avançar dos anos. Porém, reza a história que numa noite invernal quatro rapazes ligados à equipa de críquete da Capela Wesleyana reuniram-se de forma casual debaixo de um candeeiro a gás na Heathfield Road, falando entre si sobre qual seria a solução para se manterem em atividade (desportiva) nos meses de inverno. E assim nasceu a ideia de fundar um clube alusivo ao novo jogo da Football Association (FA) que dava os primeiros passos no país. Jack Hughes, Frederick Mathews, Walter Price e William Scattergood, foram os quatro rapazes que fundaram então o Aston Villa Football Club. Pouco tempo depois já tinham jogadores suficientes para colocar a sua ideia em prática, pese embora na região não tivessem qualquer oponente, já que, como já o referimos, o football era um jogo muito desorganizado em grande parte de Inglaterra. Talvez por isso só em março do ano seguinte o Villa, como se tornou popularmente conhecido com o passar dos anos, tenha realizado o seu primeiro encontro - de que há memória. E foi contra uma equipa de rugby (!), mais concretamente o Aston Brook St.Mary's, que aceitou defrontar o Villa com uma condição muito peculiar, isto é, que numa das partes o match fosse disputada sob as regras do rugby e fosse usada uma bola oval, e noutra fossem aplicadas as regras do futebol e fosse usada uma bola redonda. E assim se levou por diante este jogo que terminou com a vitória do Aston Villa por 1-0, com o golo a ser apontado por um dos fundadores do clube, Jack Hughes. Reza a história que a bola de futebol usada neste encontro terá custado a módica quantia de 1 Xelim e 6 Pence. Uma pequena fortuna para quem estava a começar. De referir, como curiosidade, que o nome Villa advém da Capela Wesleyan Villa Cross, à qual estava ligado o clube de críquete dos quatro fundadores do Aston Villa.

Aqui começam a entrar os Peaky Blinders!

Os verdadeiros Peaky Blinders
Foi precisamente neste ano de 1875 que nasce na zona de Small Heath, um bairro situado no sudeste de Birmingham, um outro clube, este ligado à igreja, e formado por um grupo de jogadores de críquete da Igreja da Santíssima Trindade, em Bordesley Green. Em homenagem a esta zona habitada pelas classes operárias da cidade, o clube seria batizado de Small Heath Alliance. Em 1943 seria rebatizado de Birmingham City Football Club, tal e qual como o conhecemos hoje. Bom, mas é aqui que entra o célebre gangue dos Peaky Blinders, nascido nos finais do século XIX numa época em que Birmingham estava mergulhada na pobreza devido à revolução industrial, tal como noutras cidades do Reino Unido. O grupo durou até ao final dos anos 30 do século XX, e foi constituído por jovens desempregados, por órfãos, por simples marginais, que se afirmaram socialmente e politicamente através de roubos, contrabando, raptos, apostas ilegais, e manipulações de corridas de cavalos. O grupo liderado por Thomas Gilbert tinha as suas raízes precisamente em Small Heath, mas com o poder que foi conquistado à custa de outros grupos de crimes organizados locais rapidamente se expandiu a outra zonas da região, tornando-se numa espécie de ídolos, ou referência, para outros gangues que foram surgindo na cidade. Small Heath era pois uma zona de extrema pobreza e controlada pelo Peaky Blinders, não se sabendo se o gangue estava diretamente ligado ao clube ali criado. Sabia-se sim que faziam apostas ilegais, de futebol inclusive, e que nos anos seguintes essas apostas contemplavam os jogos em que entravam tanto o Villa como os Blues - como é conhecido o Birmingham City, devido às cores do seu equipamento, predominantemente azul -, e como tal é bem provável que tenham exercido o seu poder (ameaçador) sobre os clubes da cidade para falsear resultados. Talvez. Não se sabe qual o clube concreto que apoiavam, se o Aston Villa, se o Small Heath Alliance, embora na série ficcionada da BBC, e que se encontra na Netflix, há uma referência ao Birmingham City, quando a certa altura no pub frequentado pela família Shelby - que lidera os Peaky Blinders - é dito pela personagem que interpreta o empregado Harry à personagem Grace que os rapazes estão a caminho de Saint Andrews para rezar, ao que Grace pergunta qual o motivo dessa oração, sendo que o barman responde que Saint Andrews é um campo de futebol e que os Blues vão jogar. Os Blues são claramente o Small Heath Alliance, Saint Andrews a casa do Birmingham City desde 1906, e os rapazes são os jogadores e adeptos desta equipa, que na série frequentavam o Garrison, o pub dos Peaky Blinders.
Já no século XXI o Birmingham City aproveitou
a popularidade da série da Netflix para 
associar a si a imagem dos Peaky Blinders
A este propósito, e aproveitando a popularidade planetária da série da Netflix baseada num gangue real, nunca será por demais recordar o facto de o Birmingham City ter respondido afirmativamente, já neste ano de 2022, a um desafio da BBC, após o lançamento da sexta e última temporada da série Peaky Blinders. Ou seja, nas redes sociais da série, surgiu um comunicado endereçado ao Birmingham City que dizia o seguinte: «Temos orgulho do lugar de onde vocês vieram, orgulho de terem crescido nas ruas de paralelepípedos de Small Heath, assim como os Peaky Blinders. Então, é hora de vestir esse orgulho como uma medalha de honra. Neste sábado, vocês devem voltar às suas raízes e tornar-se o Small Heath Alliance uma vez mais. Por ordem dos Peaky Blinders», "Ordem" essa que foi aceite pelos Blues, que no encontro do Championship ante o Huddersfield Town se apresentaram em campo como Small Heath Alliance, sendo que a equipa entrou no relvado ao som da música "Red Right Hand", de Nick Cave, e que é a banda sonora da série Peaky Blinders, além de que os funcionários do clube e alguns adeptos usaram as boinas celebrizadas pelos membros do célebre gangue. Muitos fãs do clube ainda hoje se referem aos Peaky Blinders reais como adeptos do Birmingham City e nunca do Aston Villa, desde logo pelas origens dos Blues, contribuindo assim ainda mais para a acesa rivalidade entre ambos os clubes.

Rivalidade que no campo de batalha, isto é, no retângulo de jogo, aconteceu pela primeira vez em 1879, no reduto do então denominado Small Heath Alliance, em Muntz Street, e que terminou com o resultado de 1-0 para os da casa, sendo que no rescaldo desse primeiro duelo os jogadores do Villa se queixaram dos muitos buracos do terreno de jogo. Só oito mais tarde os dois vizinhos e rivais se voltariam a encontrar, mas desta vez numa partida de caráter oficial, contrariamente à anterior, numa meia-final da FA Cup (Taça de Inglaterra), tendo o Aston Villa vencido por 4-0.

O Villa cresceu mais forte e vitorioso que o seu vizinho

George Ramsey, o responsável pelo
período dourado do Aston Villa
Por esta altura, já fazia parte da equipa do Villa aquele que foi considerado uma das primeiras lendas do clube, George Ramsey. Este escocês, nascido em Glasgow, em 1855, chegou a Birmingham pouco depois da fundação do clube, mais concretamente no inverno de 1876. Ingressou no clube quase por acaso, já que ao assistir a um treino pediu para participar no mesmo, ao que os jogadores do Villa um tanto ao quanto desconfiados lá acederam. Desconfianças que prontamente ficaram dissipadas, já que Ramsey, que no seu país havia tido uma passagem enquanto juvenil pelo Glasgow Rovers, de pronto colocou no campo toda a sua qualidade. Fintas diabólicas, técnica de passe soberba, uma robustez física impressionante, e um conhecimento aprofundado do jogo deixaram os jogadores do Aston Villa de boca aberta perante aquele jovem escocês. Tanto assim foi, que não só o convidaram de pronto a juntar-se ao clube, como lhe deram a honra de se tornar capitão da equipa! Ramsey tornou-se desde logo na estrela principal do emblema, na atração principal dos adeptos que enchiam o Perry Barr - um dos primeiros estádios do Villa - sendo um dos principais responsáveis pela conquista do primeiro título deste clube, a Birmingham Senior Cup, em 1880. Ele implementou um estilo de jogo na equipa, o qual ajudou à conquista de muitos outros títulos, de âmbito nacional, e que fizeram do Villa uma das maiores potências do futebol inglês durante o século XIX. Além de jogador ele foi também dirigente do clube, sendo um dos intermediários que esteve nas negociações para a aquisição dos terrenos, na zona de Aston, onde está hoje em dia implementado o Villa Park, atual estádio dos Villians. Foi de igual modo responsável pela contratação de jogadores para o clube, salientando-se aqui a vinda de Archie Hunter, outro atleta escocês e que cujo o percurso no Villa faz dele ainda hoje uma lenda. Hunter era o capitão de equipa quando o Aston Villa ergueu a sua primeira FA Cup, em 1894. Voltando a Geroge Ramsey, assim que pendurou as chuteiras ele passou para o comando da equipa, na condição de treinador, tendo o clube alcançado sob a sua batuta a maior parte dos seus títulos. Isto é, o campeonato nacional das épocas de 1893/94, 1895/96, 1896/97, 1898/99, 1999/00, e de 1909/10; bem como as FA Cup's das temporadas de 1886/87, 1894/95, 1896/97, 1904/05, 1912/13, e de 1919/20. Em termos números, dos 30 títulos (27 nacionais e 3 internacionais) que o Aston Villa conquistou ao longo dos seus quase 150 anos de história, 18 tiveram a mão de George Ramsey. A sua ligação ao clube durou 59 anos, e ainda hoje o seu legado é visto como a Era Dourada do Aston Villa, já que conquistou 6 dos 7 campeonatos nacionais que o clube ostenta no seu palmarés, e 6 das 7 FA Cup's que tem nas suas vitrinas. É obra. Ramsey faleceu no País de Gales a 7 de outubro de 1935.

Dirigente do Aston Villa idealiza os alicerces da Premier League...

Estátua de William McGregor
no exterior do Villa Park
Nas últimas décadas do século XIX estava também ligado ao clube outro nome histórico, não só deste, como do próprio futebol inglês: William McGregor. Este lendário dirigente do Villa, idealizou o projeto de criar uma liga nacional, isto é, um campeonato nacional, já que até então a única competição existente era a FA Cup. McGregor idealizou a Football League, a atual Premier League, tendo o Aston Villa sido um dos 12 clubes que na temporada de 1888/89 deu o pontapé de saída no campeonato mais antigo do Mundo em termos de clubes.  A rivalidade entre os Villians e os Blues de Birmingham também ao nível de projetos desportivos se fez sentir. Se o Villa, ou neste caso o seu histórico dirigente William McGregor, o Birmingham City - na altura ainda denominado de Small Heath Alliance - procurou criar uma liga concorrente, a Football Alliance. Mas sem sucesso, já que a Football League foi aquela que vingou.

Aqui se percebe também o poderio que o Aston Villa tem na cidade, tornando-se com o passar das décadas no clube mais popular de Birmingham, diríamos a anos luz do rival City. Muito também por causa do pomposo palmarés que o Villa ostenta, em contraponto com o seu vizinho, que em 147 anos de vida só ganhou uma Taça da Liga, conquistada em 1963, à custa do... Aston Villa. Pois é, a final, na altura jogada a duas mãos, foi conquistada ante os eternos rivais, um título que pelo facto de ter sido conquistado contra quem foi valerá, para os adeptos Blues, por todos os 30 que foram arrecadados pelo Villa.

 ... Mas foi o City o primeiro clube de Inglaterra a chegar a uma final europeia

A equipa do Birmingham City que atingiu a final da TCcF de 1960 
perfilada em Camp Nou

Foi precisamente a década de 60 do século passado que pode ser considerado a Era mais importante do City, não só pelo único troféu oficial - e de pompa - vencido, mas porque foi igualmente nestes anos que atingiu duas finais de competições europeias, nesta caso a extinta Taça das Cidades com Feira (TCcF). Na verdade, o City foi o primeiro clube inglês a jogar um competição europeia, em 1955, e o primeiro a jogar uma final continental, em 1960, isto se não considerarmos a seleção de Londres, que atingiu a final da mesma competição europeia dois anos antes, um clube. Em 60 e 61 o Birmingham City jogou duas finais consecutivas da TCcF, na primeira foi derrotado pelo Barcelona, e na segunda pela Roma. O período dourado do City pode ser atribuído a Gil Merrick, que como futebolista representou sempre os Blues, entre 1938 e 1960, tendo a partir daqui até 1964 assumido a pasta de treinador, levando o emblema do seu coração a duas finais europeias e a uma da Taça da Liga, que venceu, como já vimos.

A FA Cup foi roubada! Terão sido os Peaky Blinders?

A turma do Aston Villa que venceu 
a FA Cup de 1895
Mas voltemos à ligação dos Peaky Blinders com o futebol. E nesse sentido viajemos até 1895, ano dourado para as cores do Aston Villa, que vencia a segunda FA Cup da sua história. Birmingham rejubilou com esta conquista do seu (então já) filho mais pródigo. Como forma de mostrar o troféu à sua cidade, o clube acedeu expô-lo numa loja de sapatos no centro a cidade, a pedido do proprietário da mesma. Porém, na noite de 11 de setembro de 1895 a taça foi roubada! O troféu mais cobiçado do país em termos desportivos desapareceu sem deixar qualquer vestígio. A Fooball Association (federação inglesa de futebol), a quem o troféu pertencia, multou o Villa em 25 libras, responsabilizando assim o clube pelo sucedido. O caso permanece até hoje como um mistério, um roubo cujos autores nunca foram descobertos, pese embora muitos apontem o dedo a um certo grupo de crime organizado como os autores do mesmo. Quem são eles? Esses mesmos, os Peaky Blinders. Este roubo aconteceu numa época em que este gangue era bastante ativo no que concerne a grandes roubos na cidade, e daí muita gente ainda hoje acreditar que foram eles os autores deste célebre furto. Como grandes dominadores do crime organizado na cidade não lhes teria sido nada difícil roubar o troféu exposto na vitrina de uma loja que aparentemente não oferecia grandes condições de segurança, pois não podemos esquecer que estávamos em pleno século XIX. A FA Cup conquistada pelo Aston Villa estava nessa loja após um pedido do proprietário, William Shillcock, como já referimos, ele que era visto em Birmingham como um dos mais acérrimos adeptos do Villa. Era esta figura que fornecia as botas (ou chuteiras) com que os jogadores do clube entravam em campo. Mas voltando ao roubo, a polícia da época não conseguiu descortinar o caso, nunca conseguindo intercetar nem o troféu, nem os autores do furto. Este caso constitui-se como um mistério ainda hoje, um mistério que já ganhou contornos de lenda, na verdade.
Thomas Gilbert, o líder dos verdadeiros
Peaky Blinders
Um caso tão lendário que nas décadas seguintes foram muitos os que tentaram assumir as culpas do roubo em busca de notoriedade. Um desses pseudoautores do crime foi Harry Burge, que 60 anos depois do furto contou a um jornal que ele e mais dois amigos haviam sido os autores do sequestro da taça, dizendo que posteriormente haviam derretido a prata do troféu com a finalidade de fabricar moedas falsas. Esta confissão. contudo, nunca foi levada muito em conta, já que Burge era na altura um velho e miserável presidiário, doente, e que desta forma procurava alguma clemência para sair da prisão onde se encontrava. Mas além disso, o seu depoimento não bateu certo com a realidade, ou seja, Burge contou uma história diferente da que aconteceu. Por exemplo, a sua história não coincidiu com o facto verídico de que os ladrões fizeram um buraco no telhado para entrar na loja. Nesse sentido a sua história é descartada, até que sensivelmente um século após este roubo, uma mulher, de nome Violet Stait, revelou que o seu sogro participou no famoso roubo, pois havia confessado isto ao filho, marido de Violet, pouco antes de morrer. O nome deste individuo era John "Stosher" Stait, famoso criminoso de Birmingham e membro dos... Peaky Blinders. A história terá passado entre gerações da família Stait, sendo que uma das bisnetas de "Stosher" manteve a mesma versão aquando da antecâmara da estreia da série alusiva ao famoso gangue. Estaremos perante a realidade ou a ficção tal como os Peaky Blinders da Netflix? O mistério prevalece até hoje.

Taça dos Campeões Europeus chega a Birmingham pela mão do Villa

Contra todas as previsões, o Villa 
conquistou a Europa em 1982
Foi já referido que o auge do Aston Villa aconteceu no século XIX, período em que o clube conquistou alguns dos títulos mais importantes da sua história, nomeadamente 5 dos seus 7 campeonatos nacionais, e três das suas sete FA Cup's. Dizemos alguns porque no século XX o Villa trouxe para Birmingham o troféu mais pomposo da história do futebol da cidade, a Taça dos Campeões Europeus (TCE). É verdade, o Aston Villa é um dos cinco clubes ingleses que até aos dias de hoje venceu a mais importante competição de clubes a nível planetário, a par do Manchester United, do Liverpool, do Nottingham Forest e do Chelsea. Este facto aconteceu na temporada de 1981/82, um ano após o Villa ter surpreendido a Velha Albion ao vencer a liga inglesa 71 anos depois do último título de campeão nacional. À frente dessa equipa estava o técnico Ron Saunders. Apesar de serem os campeões de Inglaterra, e deste país dominar a seu bel prazer a prova maior da UEFA (entre 1978 e 1981 a Taça dos Campeões morou sempre em Inglaterra), eram poucos aqueles que na Europa acreditavam que o emblema de Birmingham pudesse seguir o exemplo do Liverpool e do Nottingham Forest, os dois clubes que haviam conquistado o troféu nos anos anteriores. Até porque em termos de experiência europeia o Villa só tinha marcado presença em duas edições da Taça UEFA e sem grande sucesso, além de que não tinha jogadores famosos, era uma equipa mediana, e a prova disso é que andou nessa histórica temporada a lutar pela manutenção até bem perto do final. A juntar ao pouco favoritismo a vencer a orelhuda o facto ainda de Ron Saunders se ter demitido em fevereiro por divergências com a administração do clube devido a causas contratuais. No seu lugar ficou o adjunto Tony Barton. O que é certo é que passo a passo o Aston Villa chegou à final da TCE, nesse ano disputada em Roterdão, tendo pela frente o colosso Bayern de Munique. Até chegar à grande final, Barton mantendo-se fiel ao estilo de jogo implementado pelo seu antecessor e mestre, superou com classe a primeira barreira europeia: o poderoso campeão da então União Soviética, o Dínamo de Kiev. Equipa esta que caiu nos quartos-de-final, depois de um nulo na atual capital da Ucrânia e de um triunfo por 2-0 em Villa Park. O derradeiro obstáculo antes da final dava pelo nome de Anderlecht, tão só um dos melhores e mais temidos conjuntos do futebol europeu de então. Um simples golo de Morley, no encontro da primeira mão em solo britânico, garantiu o histórico passaporte para a final de Roterdão, já que um nulo em Bruxelas, na segunda mão (jogo marcado por violentos confrontos entre adeptos das duas equipas), assim o ditou. 

Peter White celebra o golo da final
de Roterdão. O Villa era campeão da Europa!
Mesmo depois desta epopeia o Aston Villa chegava a Roterdão como mero figurante de uma festa que se antevia destinada ao Bayern de Munique, que tinha uma equipa de luxo, com nomes como Klaus Augenthaler, Paul Breitner, Dieter Hoeness, ou Karl-Heinz Rummenigge. Por sua vez, o Villa tinha no avançado Peter White a sua única e grande estrela, sendo os restantes jogadores pouco conhecidos no plano internacional. E se o Villa não era favorito no papel, pior ficou quando nos minutos iniciais da partida viu o seu guarda-redes, Jimmy Rimmer, abandonar o terreno por lesão, tendo sido substituído pelo inexperiente Nigel Spink, de apenas 17 anos, que se viria a revelar fundamental no êxito da sua equipa graças a uma série de defesas magistrais. Porém, ficaria provado que a inexperiência era tudo menos um obstáculo para que o Villa pudesse alcançar o sucesso. Quanto ao encontro de Roterdão, o Bayern até foi mais ofensivo, massacrou em vários momentos da partida, criou as melhores oportunidades de golo, mas já no segundo tempo (ao minuto 67) o goleador Peter Withe passou à condição de imortal ao apontar o único golo daquela tarde/noite, um remate coroado de êxito que deu origem à página mais brilhante da centenária história do Aston Villa.

As catedrais da bola da cidade

Villa Park

Villa Park é a grande catedral do futebol de Birmingham. Esta é a casa do Aston Villa desde 1897, após passagens pela Wilson Road, Aston Park, Lower Aston Grounds Meadow, Wellington Road, e Perry Barr, os recintos por onde o clube deambulou nos seus primeiros anos de vida. Villa Park é por isso um dos estádios mais antigos de Inglaterra e do Mundo, e está situado no norte da cidade. Ao longo da sua centenária história viveu grandes momentos, como por exemplo, o facto de ter acolhido três jogos do Campeonato do Mundo de 1966 - nomeadamente o Argentina - Espanha, o Argentina - República Federal da Alemanha, e o Espanha - República Federal da Alemanha -, de ser palco de quatro desafios que fizeram parte do Campeonato da Europa de 1996 - o Países Baixos - Escócia, o Suíça - Países Baixos, o Escócia - Suíça, e o República Checa - Portugal, o tal do chapéu de Karel Poborsky a Vítor Baía. Além disso, recebeu a final da última edição da Taça dos Vencedores das Taças, em 1999, vencida pela Lazio ao Maiorca. É ademais o recinto que acolheu mais jogos referentes às meias-finais da FA Cup até hoje, 55 para sermos mais precisos.

Um ângulo de Saint Andrews

Mais modesto, é o Saint Andrews, o estádio do Birmingham City, com capacidade para cerca de 30.000 espectadores - ao passo que o Villa Park tem capacidade para cerca de 42.600 - e que fica localizado no bairro de Bordesley, tendo sido erguido em 1906, com a missão de substituir o estádio de Muntz Street, onde o Small Heath Alliance viveu os seus primeiros 31 anos de vida. Apesar de nunca ter recebido nenhum jogo de uma grande competição internacional, contrariamente ao vizinho Villa Park, o Saint Andrews tem a particularidade de ter sido uma "vítima" da 2.ª Grande Guerra Mundial, já que foi alvo de bombardeamentos e parcialmente destruído, tendo sido alvo de melhoramentos, ou reconstrução, só a partir do início dos anos 90.

Um dérbi de Birmingham nos anos 80

Em suma, estas são as casas de dois filhos de Birmingham, muito próximos em termos de idades, mas muito distantes em termos de palmarés, de massa adepta e de ambição, pois se normalmente o Villa joga pelos lugares cimeiros da Premier League, o City atua no segundo escalão do futebol inglês tentando alcançar o topo, e quando lá chega a sua luta é única e exclusivamente para não sair de lá.

segunda-feira, abril 25, 2022

Cidades do Futebol (5)... Vigo: o pontapé de saída do futebol em Espanha

Uma panorâmica da bela Cidade de Vigo
Os caminhos da História levam-nos por vezes a repensar factos que julgávamos inalteráveis, mas que afinal não o são. Vem isto a propósito da nossa viagem de hoje a Vigo... cidade onde nasceu o futebol em Espanha. É verdade, durante anos a fio pensou-se que Huelva teria sido o primeiro local onde se jogou pela primeira vez futebol no país vizinho, onde nasceu o primeiro clube, no caso o Club Inglés de Riotinto, mas já no século XXI, mais precisamente em 2012, um investigador de História local galega, de seu nome José Ramón Cabanelas, descobriu casualmente em pesquisas na hemeroteca do jornal Faro de Vigo uma referência ao juego de la pelota (jogo da bola) com data de 10 de junho de 1876 naquela cidade da região autónoma da Galiza. Esta notícia veio então contrariar o facto de que teria sido em 1878 que mineiros ingleses, que trabalhavam na mina de Riotinto, em Huelva, terão sido os introdutores do futebol em Espanha ao fundar o já referido Club Inglés de Riotinto.

Pois bem, estes novos factos comprovaram que foi pois em Vigo onde foram dados os primeiros pontapés numa bola de football no maior país da Península Ibérica pela mão, ou pelos pés neste caso, dos trabalhadores (engenheiros) ingleses do Eastern Telegraph Company.

Nesse sentido vamos então conhecer não só um pouco desta história como de igual modo algumas estórias do Belo Jogo que tiveram lugar nesta encantadora cidade galega pertencente à província de Pontevedra. Situada no sul da Galiza, Vigo é a segunda cidade mais povoada desta região autónoma, a seguir à Corunha. O seu porto marítimo trouxe-lhe riqueza e importância desde o século XIX, sendo hoje considerada a capital das Rias Baixas. Vigo é na atualidade o principal porto pesqueiro da Europa e o mais importante centro comercial e económico do sul da província de Pontevedra.

Os exilados ingleses introduzem o futebol em Vigo... e em Espanha

Uma rara imagem do Exiles Club,
em 1903
Recuando um pouco no tempo, constata-se que foi na segunda metade do século XIX que a cidade conheceu um crescimento acentuado, sobretudo no plano económico, com a abertura de inúmeras fábricas, o que trouxe a esta localidade banhada pelo Atlântico muitos trabalhadores estrangeiros. Ali instalou-se naquele período a telegrafia submarina do Cabo Inglês, a Eastern Telegraph Company, onde trabalhavam diversos engenheiros ingleses provenientes da região britânica da Cornualha. Foram estes cidadãos que em 1873 fundaram em Vigo um clube social, onde conviviam entre si e praticavam desporto, denominado de Exiles Club, ou se quisermos traduzir na língua de Camões, o Clube dos Exilados.

Ora, terá sido nesses convívios que a bola começou a rolar por aquelas paragens, sendo que sem rivais na região com quem pudesse medir forças, o Exiles defrontava equipas constituídas por marinheiros ingleses cujos barcos aportavam em Vigo. Jogos esses que eram disputados em terrenos situados na zona de Malecón. E a primeira referência a estes jogos, e que desmente a teoria de que o futebol em Espanha teve o seu início em Huelva, foi então descoberta pelo investigador viguês José Ramón Cabanelas, através de uma notícia publicada no Faro de Vigo e datada de 10 de junho de 1876 e que dizia o seguinte: "Os ingleses visitaram-nos novamente. Eles são tão gentis! Eles andam como quatro, pisam como seis e bebem como cinquenta. Pescam, caçam, fumam, pintam e jogam à bola de acordo com seu uso e modo". A juntar a esta notícia, Cabanelas afirma que inclusive que chegou a disputar-se uma competição entre as tripulações de marinheiros ingleses e o Exiles Club, denominada de Copa Primavera. Numa entrevista concedida ao Faro de Vigo em 2012, o investigador sustenta esta sua descoberta dizendo que os ingleses vieram para Vigo em 1873, precisamente dez anos depois da fundação em Inglaterra da Football Association, trazendo consigo, desde o primeiro momento, os seus costumes vitorianos para a cidade galega, entre eles o futebol.

Vestígios fotográficos do Exiles Club, que terá sido provavelmente o primeiro clube em Espanha a dedicar-se ao futebol, são raros, conhecendo-se apenas uma fotografia de uma equipa de 1903. Sabe-se de igual modo que as suas cores eram o preto e o branco, precisamente as cores da bandeira da região da Cornualha.

Os vizinhos que deram as mãos para fundar um grande clube na cidade

Vigo FC
Não se sabe ao certo quando este emblema foi extinto, sabendo-se apenas que do seu palmarés consta a vitória numa Copa Pontevedra, em 1907, um torneio regional, numa altura em que o futebol se tinha expandido já por toda a região com a existência de inúmeros clubes. Inclusive em Vigo, que era já a casa dos rivais Vigo Football Club (fundado em 4 de junho de 1903) e do Fortuna Football Club (criado a 11 de setembro de 1905). O primeiro emblema chegou mesmo a ser considerada a melhor equipa da cidade durante vários anos, tendo sido o vencedor da primeira edição do Campeonato Regional da Galiza, em 1905, após derrotar na final o vizinho e rival Fortuna.

Curiosamente, a primeira casa do Vigo FC foi precisamente o campo de jogo do Exiles Club, passando em 1908 para aquele que pode ser considerado como o primeiro grande estádio viguês, o Campo de Coya. Ali, jogou-se futebol até 1928, tendo sido inclusive palco de uma final da Copa del Rey (Taça de Espanha) entre o Barcelona e o Real Unión de Irún, ganha pelos catalães.

A camisola bipartida com as cores vermelha e branca, as cores da província marítima de Vigo, usada pelo Vigo FC ficaram famosas nas só na cidade como em toda a região da Galiza. O clube ganhou diversos campeonatos galegos, tendo inclusive um desses triunfos lhe permitido jogar a mais importante competição do futebol espanhol de então, a Copa del Rey.  E numa dessas edições chegou mesmo à final, ante o mais poderoso emblema do país, o Madrid Football Club, que anos mais tarde seria rebatizado como... Real Madrid. Nessa final, disputada no Estádio de O'Donnell, caso do Madrid FC (!), o Vigo FC saiu derrotado pela margem mínima (1-2), mas rezam as crónicas que apresentou bom futebol praticado por excelentes artistas. Na verdade, os melhores jogadores da Galiza daquele tempo vestiam as cores do Vigo FC, sendo que dois deles deixaram esta região autónoma para rumar à capital de Espanha para vestir as cores do emergente gigante Madrid FC. Falamos dos irmãos Yarza, Manuel e Joaquim, quiçá as primeiras lendas do futebol com origens em Vigo. Mas deles já iremos falar com detalhe mais adiante.

O Fortuna de Vigo em 1912
A cidade era naqueles dias habitada por outro clube com arte para o juego de la pelota, como era então denominado o futebol, no caso o Fortuna, dois anos mais novo que o seu vizinho. Repartiam entre si o domínio não só do futebol viguês como de toda a região, tendo o Fortuna vencido o Campeonato da Galiza em nove ocasiões: 1906, 1907, 1910, 1911, 1912, 1915, 1918, 1921 e 1922, ao passo que o seu rival o fez por oito vezes: 1907, 1908, 1914, 1917, 1918, 1919, 1920 e 1923.

O Fortuna está não só ligado à história do futebol galego como também do futebol português. É verdade. Tudo porque a 15 de dezembro de 1907 o clube viguês deslocou-se ao nosso país para defrontar o FC Porto, no Campo da Rainha. Este encontro foi histórico porque pela primeira vez um clube estrangeiro atuava em solo luso.

Irmãos Yarza: as primeiras lendas nascidas em Vigo

Os irmãos Yarza, Quincho e Manuel, 
com as cores do Real Madrid
Mas voltando aos irmãos Yarza, eles foram as primeiras estrelas nascidas em Vigo. Joaquín, ou Quincho como ficou eternizado, era o mais velho. Nasceu em 1881 e ficou na história do próprio futebol espanhol pelo facto de ter sido o primeiro futebolista a ser pago para jogar, algo inédito numa época onde reinava o amadorismo.

Por sua vez, Manuel nasceu em 1884, e juntamente com o seu irmão ajudou a abrir o glorioso livro da história do Real Madrid. Os dois irmãos rumaram à capital no início do século XX, tendo ali ajudado a fundar o Moderno Football Club, emblema fundado em 1902 e que pouco tempo depois seria absorvido, digamos assim, pelo Madrid FC. Manuel e Quincho estiveram nessa transição, vestiram a camisola dos merengues entre 1903 e 1908, ajudando o clube a conquistar os seus primeiros títulos, mais em concreto quatro Copas del Rey (de 1905 a 1908). Além de jogador Manuel tinha de igual modo funções administrativas dentro do clube. Era membro do Conselho de Administração enquanto no retângulo de jogo atuava como um médio forte e eficaz. Por seu turno, Quincho, começou a jogar como ala, mas depressa se tornou num defesa implacável, formando uma dupla lendária com Berraondo graças à sua força física aliada à sua qualidade.

Após a aventura em Madrid, Quincho regressou à sua cidade natal onde defendeu as cores do Vigo FC durante duas temporadas, ao passo que o seu irmão Manuel continuou pela capital, tendo atuado entre 1908 e 1911 no Club Español de Madrid.

Vigo precisa de um clube único que una o povo da cidade

Manuel de Castro
Foi na segunda década do século passado que o célebre jornalista do Faro de Vigo, Manuel de Castro, acompanhava com atenção o futebol que era jogado não só na sua cidade como pelo resto da Espanha. Pelo punho do referido jornalista foram escritos alguns artigos dando nota de que Vigo precisava de um único clube, isto é, um clube que unisse as pessoas e que fosse forte o suficiente para fazer face aos outros emblemas que proliferavam pelo resto do país. Juntamente com Juán Baliño, Castro foi um dos impulsionadores do movimento «Todo por y para Vigo» (tudo por e para Vigo), tendo  objetivo a criação de um só clube na cidade. Esta proposta teve a aceitação dos dois clubes da terra, o Fortuna e o Vigo FC, sendo que a 10 de agosto de 1923 nascia, resultante da fusão destes dois emblemas, o Real Club Celta de Vigo.

Não foi contudo um parto fácil, desde logo pela escolha do nome do novo clube, que foi motivo de divergência de opiniões. Real Unión de Vigo, Club Galicia, Real Atlántic, Breogán e Real Club Olímpico, foram os nomes inicialmente propostos, até que para acabar com o impasse alguém propôs que se olhasse para as raízes das Rias Baixas, para a história daquela região mais a norte da Península Ibérica, outrora habitada pelos povos celtas... Celta, ora aí está um bom nome, que de pronto ficou assente.

O clube começou de pronto a saltar para o campo para mostrar a camisola azul celeste que se iria tornar célebre nas décadas seguintes, ao disputar os seus primeiros encontros - a estreia aconteceu numa partida entre todos os jogadores do plantel, uma parte liderada por Otero, outra por Clemente, tendo o "onze" do primeiro atleta vencido por 2-0. Como curiosidade refira-se que o primeiro jogo contra outro clube ocorreu a 23 de setembro de 1923, mais precisamente contra os portugueses do Boavista, que saíram do Campo de Coya, a primeira casa do Celta, com uma pesada derrota por 8-2.

O emblema rapidamente começou a competir nas provas regionais, ganhando o primeiro campeonato galego da sua história logo no ano de estreia, em 1923. O Celta foi crescendo nos anos seguintes, e na época de 1939/40 faz a estreia no principal escalão do futebol espanhol, onde esteve de forma quase ininterrupta durante 20 anos, exceção feita à temporada de 44/45, altura em que disputou a 2.ª Divisão.

Por esta altura era treinador do Celta Don Ricardo Comesaña, para muitos o primeiro grande técnico do clube, um homem também ele nascido em Vigo em finais do século XIX, e que entre 1935 e 1940 esteve ao leme da equipa. Ele foi o responsável pela primeira subida do Celta à 1.ª Divisão e ainda hoje qualquer adepto do clube, seja qual for a idade, sabe quem ele foi e o que ele significa para o celtismo.

Pahiño, o príncipe das Rias Baixas

Pahiño
1923 foi como já vimos o ano de fundação do Celta de Vigo e foi também o ano em que nasceu outro génio do futebol galego: Manuel Fernández Fernández, ou simplesmente Pahiño. A sua louca obsessão pelo golo fez com que seja ainda hoje recordado como um dos mais prolíferos avançados da história do futebol espanhol. Dos seus (bons) pés - sobretudo - foram disparadas autênticas balas de canhão que destruíram as balizas contrárias vezes sem conta. Ah, noutras ocasiões a meta adversária era igualmente fuzilada com letais cabeceamentos, já que além de dois bons pés Pahiño era também senhor de um bom jogo de cabeça. Talento(s) descobertos nas areias das praias de Vigo, onde Manuel Fernández Fernández esquecia - por certo - a vida dura do campo (agricultura), lides às quais desde muito novo se habituara com o objetivo de ajudar no sustento da sua família. Nas praias desta cidade estão pois guardadas as primeiras histórias de intimidade entre Pahiño e a bola, uma relação que se assumiu - de forma mais séria - em Arenas de Alcabre, o primeiro emblema a ser oficialmente representado pelo niño nascido a 21 de janeiro de 1923, em San Playo de Navia, nos arredores de Vigo. Estávamos ainda um pouco longe do casamento entre Pahiño e o Celta, mas não deixa de ser curioso que o jogador e o clube tivessem vindo ao Mundo no mesmo ano! Obra do acaso? Se calhar não... De Arenas de Alcabre para o Juventudes de Vigo - o seu segundo clube - o caminho foi curto, já que o poder de fogo de Pahiño começava a ter eco por toda a Galiza.

Apercebendo-se que mesmo por debaixo do seu nariz deambulava um talento na arte de bombardear o esférico para as balizas contrárias, eis que em 1943 o Celta de Vigo não mede esforços para contratar aquela que viria a ser a jóia da (sua) coroa nos cinco anos que se seguiram. O fichaje do poderoso avançado não foi contudo um parto fácil, longe disso. Na corrida pelo concurso do nativo de San Playo de Navias estava também o Salamanca, emblema que na altura tentava entrar na elite do futebol espanhol, o mesmo será dizer, ascender à 1.ª Divisão. No entanto, os helmánticos foram vencidos pelo coração! Pelo coração celtista que pulsava dentro do jovem Pahiño, que ainda criança, pela mão do seu pai, travou-se de amores pelas camisolas azuis celeste que aos domingos à tarde reluziam no relvado de Balaídos. Nessa época estaria ainda distante de imaginar que também ele um dia iria brilhar com a indumentária celtista nos retângulos do futebol espanhol, ajudando a edificar - em seu redor - uma das equipas mais lendárias da história do clube de Vigo, que durante uma mão cheia - pelo menos - de temporadas assombrou os gigantes do Belo Jogo castelhano.

Um aspeto do Campo da Coya, 
a primeira catedral do futebol viguês
Estávamos em 1943 quando Pahiño - com 19 anos - chegou a Balaídos. No entanto, e apesar da monstruosidade do seu poder de fogo, o Celta não foi feliz na temporada de 1943/44, foi último de uma Liga vencida por um Valência onde se destacava o goleador Mundo, e acabou por descer aos infernos da 2.ª Divisão. Passagem pelo inferno que seria fugaz, já que na época seguinte a garra de Pahiño aliada ao seu instinto de predador catapultou o Celta de novo para o convívio entre os grandes do futebol espanhol. Episódio lendário que ressalva do trajeto glorioso do Celta em 44/45 prende-se com o jogo final que dava acesso à promoção. Frente a frente mediram forças no (Estádio) Metropolitano de Madrid o Celta e o Granada, e quem vencesse ganhava o bilhete para a Primera. Pahiño, titular indiscutível dos celtistas desde que havia chegado a Balaídos, foi a estrela da tarde. No relvado do mítico recinto da capital fez jus ao seu estatuto de temível homem de área, fazendo dois golos durante a primeira parte. Performance que faria com que os defensores contrários lhe dedicassem atenções... suplementares. Alvo de uma entrada violenta de Milán González o goleador celtista fraturou o perónio, facto insuficiente para que deixasse de... continuar em campo na etapa complementar e ajudasse o Celta a vencer por 4-1.

Ricardo Comesaña
De volta à 1.ª Divisão, o Celta viveu nas três temporadas seguintes alguns dos capítulos mais cintilantes da sua história. Sempre... aos ombros daquela que era já a sua maior estrela, Pahiño. Nos palcos da Primera o goleador galego foi pedra fundamental para que os celestes se afirmassem como uma das equipas mais encantadoras da liga, e sobretudo num osso duro de roer para emblemas de maior dimensão. Que o diga o poderoso Real Madrid, que em 45/46 tombou em Balaídos por concludentes 3-0, ou o campeão dessa temporada, o Sevilha, que nas Rias Baixas afundou-se depois de ter levado quatro (a zero)! Foi igualmente durante o regresso do Celta ao convívio entre os grandes que nasceu uma rivalidade protagonizada entre dois mitos da história do futebol espanhol na arte de fuzilar as redes contrárias. Pahiño, claro está, e Telmo Zarra, o herói basco do Athletic de Bilbao que ainda hoje detém o título de melhor marcador de sempre da 1.ª Divisão espanhola, com 252 remates certeiros. Zarra, como iremos perceber nas próximas linhas, foi quiçá o grande obstáculo que Pahiño encontrou ao longo da sua carreira para conquistar um lugar de destaque no... Olimpo do futebol global. Em 45/46 o celtista apontou 15 golos, menos nove que Zarra, que desta forma levava para a sua vitrina pessoal o troféu Pichichi, galardão que distingue o melhor marcador do campeonato espanhol. E se Pahiño e Zarra lutavam entre si por um lugar na eternidade do Belo Jogo, na época seguinte Vigo acolhe de braços abertos um homem que há muito repousava no panteão do desporto rei planetário. O seu nome? Ricardo Zamora. Il Divino, como ficou imortalizado na história do jogo, era agora treinador, e depois de ter passado pelos bancos do Nice (França) e do Atlético Aviación (nome pelo qual na época era conhecido o atual Atlético de Madrid) assentava arraiais nas Rias Baixas, onde iria construir uma equipa lendária. E se a primeira temporada (46/47) de Zamora em Vigo não foi por ai além, já que o Celta não conseguiu melhor do que um 9º lugar, a segunda foi a todos os títulos memorável. Para o Celta e para... Pahiño. A nível coletivo os celtistas alcançariam um inédito quarto posto, ficando a somente seis pontos do campeão Barcelona, na sequência de uma coleção de resultados absolutamente brilhantes. Vejamos: de Balaídos saíram humilhados o campeão Barcelona (3-2), o vice-campeão Valência (5-2), o Atlético de Madrid (3-1), e o Real Madrid (4-1). Aliás, os merengues iriam sofrer nessa mítica época uma dupla humilhação aos pés dos pupilos de Zamora, visto que na capital a dose (4-1) repetiu-se a favor dos galegos. Mas a epopeia galega não se ficou por aqui. Na Copa del Generalíssimo - atualmente denominada como Copa del Rey - o Celta alcançou a final, onde seria travado pelo Sevilla (4-1) no Metropolitano de Madrid, o mesmo recinto onde poucos anos antes Pahiño e o Celta haviam sido tão felizes.

Apesar da derrota, o Celta foi rotulada como a equipa sensação dessa temporada, muito graças ao cunho pessoal da sua estrela-mor, Pahiño, que com 23 golos venceu o seu primeiro Troféu Pichichi.

A veia goleadora de Pahiño era por demais saliente, e nesse ano de 1948 atinge a sua primeira internacionalização, ao representar a Espanha num amigável ante a Suíça, ocorrido em Zurique.

A brilhante caminhada celtista chamou à atenção dos tubarões do futebol espanhol, que centravam os seus olhares devoradores em nomes como Miguel Muñoz, Alonso, e claro, Pahiño, as estrelas daquele Celta. Sabendo que o seu talento era por demais admirado por clubes de maior envergadura o internacional galego exigiu à direção azul celeste um aumento de salário, argumentando que era não só um dos grandes abonos de família da equipa, como também que outros colegas seus que raramente pisavam o relvado - na condição de titulares - usufruíam de salários muito mais elevados do que o seu. A ação de Pahiño foi desde logo apelidada de anti-celtista, e o jogador é de pronto olhado por dirigentes, (alguns) companheiros e muitos adeptos como mercenário, anti-galego, ou conflituoso, alguns do mimos que recolheu naquele verão de 48. Cansado deste braço de ferro, equacionou a hipótese de abandonar o futebol (!), pensamento somente travado pelo Real Madrid, que nesse final de temporada de 47/48 viaja até Vigo para pescar Miguel Muñoz, Alonso, e Pahiño. Consumado o divórcio com o Celta o goleador galego celebra um casamento de cinco épocas com o laureado emblema da capital, conquistado de pronto a admiração dos exigentes adeptos merengues na sequência da sua infindável garra aliada à vincada veia de concretizador nato.

Balaídos nos anos 30
Na primeira temporada equipado de blanco, o galego aponta 21 golos, ficando a somente sete do Pichichi desse ano, César, do Barcelona. Nos anos que se seguiram o seu nome figurou sempre no top 5 da lista dos melhores marcadores da 1.ª Divisão, sendo que em 51/52 alcança o título de Pichichi da Liga pela segunda vez na sua carreira, fruto dos 28 golos convertidos. Despediu-se do Real Madrid na temporada seguinte, porque Don Santiago Bernabéu, o lendário presidente do clube, não renovava por mais de um ano contrato com jogadores cujo Bilhete de Identidade apresentasse uma idade superior a 30 anos. Pahiño queria mais tempo - três anos de contrato, ao que consta - e a polémica instalou-se de novo na carreira de um jogador que se viu obrigado a procurar abrigo noutro local. Consta-se - ainda - que o Real Madrid não fez grande esforço em tentar segurar o galego, até porque tinha acabado de contratar um jovem prodígio argentino chamado... Alfredo Di Stéfano. Aquele que muitos afirmam ter sido o melhor jogador da história do clube merengue herdou a camisola número 9 do galego Pahiño, que partia de Madrid com um impressionante registo de 108 golos apontados em 122 jogos disputados, mas com a mágoa de nunca ter ganho um troféu coletivo com o colosso madrileno.

Algo frustrado, Pahiño procura abrigo na sua região natal, a Galiza, para onde regressa no verão de 1953, com o intuito de representar o... Deportivo da Corunha! Foi como um punhal cravado nas costas da afición celtista, que via uma das suas maiores lendas, um filho da terra, vestir agora a camisola do eterno inimigo do norte, o Depor. Na Corunha esteve três temporadas - sempre na 1.ª Divisão - tendo apontado perto de meia centena de golos com a camisola azul e branca. Após abandonar a Corunha ainda jogou uma temporada na 2.ª Divisão ao serviço do Granada, o tal clube que anos antes lhe havia dado cabo do perónio no Metropolitano de Madrid, mas o tempo acabou por apagar as más memórias desse momento menos feliz da carreira do homem de San Playo de Navia, o qual ajudou os granadenses a subir à divisão maior do futebol espanhol.

Posto isto: missão cumprida, e Pahiño pendurava as chuteiras com um impressionante registo de 212 golos apontados em quase 300 encontros - 295 para sermos mais precisos - disputados. Viria a falecer em Madrid, aos 89 anos, a 12 de junho de 2012, precisamente no ano em que José Ramón Cabanelas descobriu que Vigo - a cidade natal de Pahiño - foi o local onde se jogou futebol pela primeira vez em Espanha. Há coincidências fantásticas!

Rivalidade Celta vs Deportivo da Corunha

E já que neste longo registo biográfico foi mencionado o nome do Deportivo da Corunha, há que frisar que hoje, quase 100 anos após a sua fundação, o Celta tem no clube do norte da Galiza o seu eterno rival. Há inclusive uma história que conta os primeiros capítulos desta rivalidade (quase) centenária e que remonta a 1928, ano em que foi criada a 1.ª Divisão de Espanha. Pelo facto de o Vigo FC ter disputado anos antes uma final da Copa del Rey a Real Federación Española de Fútbol quis oferecer ao Celta um presente, isto é, o privilégio de fazer parte da elite do futebol espanhol nesse primeiro campeonato nacional. Porém, outros clubes da liga achavam que os azuis celestes teriam de fazer por merecer a sua presença no escalão maior, tendo o emblema de Vigo acabado por ir disputar a 2.ª Divisão. E um dos clubes que mais pressão fez para que o Celta não disputasse a Primera foi o... Deportivo da Corunha. Nascia assim a eterna rivalidade que nas décadas seguintes teve tantos outros episódios históricos. 

Celta: um clube de altos e baixos

A equipa do Celta que fez
a estreia na UEFA
Os anos 60 foram algo cinzentos para os lados da Rias Baixas, com o Celta mergulhado no segundo escalão de Espanha. Nos anos 70 a situação foi ligeiramente alterada, com o emblema viguês a disputar em algumas épocas a 1.ª Divisão. Porém, não foram criadas raízes neste escalão, e o Celta era então uma espécie de clube ió-ió, ou seja, do sobe e desce constante. No entanto, a década de 70 trouxe outro registo histórico ao emblema viguês, que em 1972 participa na Taça UEFA como prémio para um fantástico 6.º lugar na temporada de 70/71. Em setembro de 72 o Estádio de Balaídos entrou na Europa, com o Celta a receber os escoceses do Aberdeen. Os 17.000 celtistas presentes no recinto viram o seu clube pagar caro a inexperiência nas eurotaças, já que o Celta caiu por 0-2. Duas semanas mais tarde nova derrota (1-0) na Escócia e dava-se o adeus à Europa na estreia. Mas... décadas mais tarde o cenário ira mudar por completo.

Em 1994, o Celta atinge pela segunda vez na sua história a final da Copa del Rey. 20.000 adeptos celtistas deslocaram-se a Madrid para assistir ao jogo diante do Real Zaragoza, naquela que foi a maior mobilização, até então, de adeptos do clube para fora da região da Galiza. Porém, a vitória foi para os aragoneses, nas grandes penalidades, e o Celta deixava escapar novamente a taça.  

Nos finais do século XX eis que surge o Euro Celta. A equipa que encantou a Europa, vergando alguns dos gigantes do futebol continental. Com uma equipa que contava com estrelas como Mostovoi, Karpin, Mazinho, Dutruel, ou Gudelj, orientada pelo técnico Javier Irureta, o Celta afastou em 1998, na Taça UEFA, clubes como o Aston Villa e o Liverpool, acabando por cair nos quartos-de-final da prova ante o Marselha. Mas o aviso estava dado, o Celta queria apanhar o comboio da Europa.

O Celta na final da Copa de 1994
Em 2000 os vigueses vencem a Taça Intertoto, o seu único troféu oficial em quase 100 anos de vida, e voltam a entrar na UEFA. Na fase a eliminar desta competição o Celta atropelou numa das eliminatórias o famoso Benfica por 7-0 nos Balaídos, deixando depois pelo caminho a Juventus e caindo de novo nos quartos-de-final ante um clube francês, no caso o Lens. Na temporada seguinte as camisolas celestes voltam à Taça UEFA, atingindo de novo os quartos-de-final, tendo o emblema de Vigo sido eliminado pelos conterrâneos do Barcelona, após deixarem pelo caminho clubes como o Estugarda, o Estrela Vermelha ou o Shakhtar. Nesta altura o clube era orientado pelo treinador Víctor Fernández e tinha no seu plantel nomes famosos como Claude Makelele, Penev, Catanha, Gustavo López, ou Jesuli.

O Celta que atropelou o Benfica em 2000
Em 2001 surge outro amargo de boca na vida do clube. O Celta chega pela terceira vez na história a uma final da Taça de Espanha, tendo como opositor um velho conhecido nestas andanças, o Real Zaragoza. Em Sevilha, a equipa aragonesa leva de novo a melhor sobre os azuis celestes, desta feita por 3-1. As lágrimas voltaram a cair sobre os rostos celtistas, mas por pouco tempo. Em 2003/04 Vigo entra na rota da Liga dos Campeões Europeus. O 4.º lugar conquistado na temporada anterior garante ao Celta uma inédita participação na prova mais importante do futebol mundial a nível de clubes. José Manuel Pinto, Eduardo Berizzo, Sylvinho, Fernando Cáceres,  Giovanella, Gustavo López, Mostovoi, ou Milosevic, eram alguns dos nomes que passearam a camisola celeste na liga milionária. O Celta começou a fase de grupos com um empate no terreno do Club Brugge, onde Juanfran foi herói e vilão, ao marcar pelas duas equipas. Seguiu-se outro empate, desta feita a zero, em casa, frente ao Milan e uma derrota em Amesterdão por 1-0, com o Ajax. Na segunda volta o Celta conquista a primeira vitória na prova ao vencer os holandeses por 3-2 em Vigo. Depois disso, novo jogo em casa e novo empate com o Club Brugge, de novo por 1-1. Chegados à derradeira jornada o  Celta precisava de vencer o já qualificado Milan. E num dos palcos mais famosos do futebol mundial, San Siro, o Celta venceu por 2-1 e qualificou-se para a fase a eliminar da prova. Nos oitavos-de-final, o sonho azul celeste foi desfeito pelo Arsenal, que com duas vitórias eliminou os galegos por um total de 5-2.

Após algumas passagens pelo inferno da 2.ª Divisão eis que a partir de 2012 o Celta fixou-se, até aos dias atuais, na elite do futebol espanhol, tendo de lá para cá tido algumas aparições brilhantes, como foi o caso da campanha europeia de 2016/17, em que o clube só caiu aos pés do Manchester United, de José Mourinho, nas meias-finais da Liga Europa. Hoje, o Celta é mais do que o tal clube que um dia o jornalista Manuel de Castro sonhou: um clube da cidade. O Celta é hoje uma das principais bandeiras desportivas da Galiza, e um dos mais populares e acarinhados emblemas de Espanha.

Balaídos, a mítica catedral onde começou a caminhada gloriosa da Itália no Mundial de 1982

O mítico Estádio Balaídos
Como já vimos, o Campo de Coya foi a primeira grande catedral futebolística de Vigo.

Porém, um ano após a sua fundação o clube é notificado para abandonar o terreno, com vista à construção da linha de elétrico naquela zona da cidade. É então que se começa a idealizar o projeto de construção do que viria a ser o Estádio de Balaídos, a mítica casa do Celta. O estádio começa a ser construído em 1925, e seria destinado a 20.000 espectadores. A sua conclusão estava prevista para o ano seguinte, mas contratempos na empreitada fizeram com que só em dezembro de 1928 o recinto abrisse oficialmente as suas portas. 30 de dezembro desse ano foi pois um dia de festa na cidade de Vigo. Pessoas de várias localidades vizinhas como Gondomar, Baiona ,ou Cangas acorreram ao local para presenciar a inauguração, abrilhantada por uma goleada (7-0) do Celta ao Real Unión Irún. De lá para cá Balaídos tornou-se no santuário do celtismo, vivendo muitas alegrias e muitas tristezas também, mas sempre com a paixão azul celeste a transbordar nas suas bancadas. Com o passar dos anos este estádio tornou-se num dos símbolos do futebol espanhol, não só pela paixão com que ali se vive os jogos, mas de igual modo porque fez parte, ou faz, dos poucos recintos que hoje guarda a história do único Campeonato do Mundo da FIFA realizado em solo espanhol, no ano de 1982.

Foi em Vigo, e nos Balaídos, que a Itália começou a caminhar rumo ao título mundial nesse ano de 82, um início que até não foi muito prometedor para a Squadra Azzurra.

Itália - Perú, do Mundial de 82,
jogado no Balaídos
A Itália, então orientada por Enzo Bearzot, e que estava recheada de craques como Dino Zoff, Claudio Gentile, Marco Tardelli, Bruno Conti, ou Paolo Rossi, disputou todos os seus jogos da 1.ª fase desse Mundial em Vigo, uma das 14 cidades espanholas que acolheu a prova. Previa-se que os italianos não tivessem grandes dificuldades para ultrapassar um grupo composto por Polónia, Perú e os estreantes e então desconhecidos Camarões. Porém, a realidade foi outra. No primeiro encontro, ante a Polónia de Boniek, empate a zero. Tudo bem, nada de alarmes, até por os adversários seguintes eram na teoria mais acessíveis. Com o Perú, Bruno Conti marcou primeiro, mas Rúben Díaz empatou e a Itália estava em maus lençóis. A última partida era com os Camarões, que na frente tinham um até então desconhecido Roger Milla. À mesma hora jogava-se o Polónia-Perú, na Corunha. No início da segunda parte deste encontro os polacos marcaram quase cinco golos de rajada, enquanto a Itália voltava a empatar, e de novo a um golo. Graziani e M’Bida fizeram os golos. A Itália só passou o grupo porque marcou mais um golo do que os Camarões, que também haviam tido três empates, sendo que a Polónia acabou em primeiro do grupo. A Itália despedia-se de Vigo com um futebol medíocre, sem um antídoto para chegar às vitórias, e muitos pensavam então que aquela equipa pouco iria durar no Mundial espanhol a jogar daquela maneira. Puro engano. Tudo mudou na 2.ª fase, graças a um tal de Paolo Rossi que comandou a Azzurra rumo ao título conquistado em Madrid. Ah, e pelo caminho deixou aquela que muitos dizem ter sido uma das melhores seleções brasileiras de todos os tempos.

O futuro Estádio de Balaídos

Balaídos poderá ter sido uma pedra no sapato a Itália, ou então um alarme que o acordou a seleção de Enzo Bearzot, mas acima de tudo é um estádio que mítico, que já vivenciou grandes tardes e noites (muitas delas europeias) do Celta. Hoje, o recinto está em profunda remodelação, e dará lugar a um novo Balaídos, mas sempre com a ideia de continuar a fazer de Vigo uma... cidade de futebol.

sábado, agosto 14, 2021

Cidades do Futebol (4)... Glasgow: Uma cidade de coração dividido que em 1872 entrou na história do futebol mundial

Glasgow
Existem cidades que carregam consigo o agradável peso de terem sido pioneiras em diversos capítulos que marcam a história do futebol. É caso de Glasgow, a maior e mais agitada cidade da Escócia. É uma das cidades do Reino Unido mais visitadas, sendo que os seus visitantes ali são atraídos pela pluralidade de sua arquitetura, e pela sua fama de “cidade cultural”, onde cada monumento conta um pouco da vida desta urbe. Antiga locomotiva industrial do país, a cidade viveu um período de decadência, com o declínio da economia nos anos de 1960 e 1970, mas acabou por se reinventar, redescobriu a veia artística, passou por inúmeras obras e, hoje, está cheia de estilo, com muito o que ver e sentir. Mas há muito mais que monumentos recheados de história para ver e conhecer em Glasgow, e esse "mais" é naturalmente o futebol. Glasgow está intrinsecamente ligado à história do futebol planetário, já que foi aqui que em 1872 se jogou a primeira partida internacional. Mas já lá vamos. Falar de Glasgow é falar também daquele que foi o primeiro grande clube escocês, e quiçá um dos mais importantes do Mundo no século XIX, o Queen's Park Football Club. É o mais antigo emblema do futebol escocês, tendo sido preponderante na dinamização do Belo Jogo quer naquele país, quer em vários pontos do globo. Foi fundado em 1867, na zona sul e Glasgow, quatro anos depois da criação da Football Association, em Londres, sendo que a primeira notícia que dá conta da sua fundação reza o seguinte: "Glasgow, 9 de julho de 1867. Esta noite, às oito e meia, vários cavalheiros encontraram-se no n.º 3 de Eglinton Terrace com o propósito de formar um clube de futebol".

O clube foi responsável pela organização do primeiro jogo internacional oficial de futebol entre a Escócia e a Inglaterra em 1872. Os jogadores que representaram a Escócia neste encontro histórico eram todos membros do famoso clube de Glasgow, dado histórico que iremos recordar ao detalhe mais à frente. A influência do Queen’s Park no futebol escocês foi de tal maneira importante como prova o facto de terem levado o jogo para lá das fronteiras de Glasgow, até paragens como Lanarkshire, Dunbartonshire, Edimburgo e Dundee. Eles estiveram na origem da fundação (em 1873) da federação escocesa de futebol, e daquela que é a competição mais antiga do futebol daquele país e a segunda mais antiga do mundo, a Taça da Escócia, apenas superada em longevidade pela Taça de Inglaterra.

Pela mão do Queen's Park FC nasceu igualmente aquele que é hoje em dia o tempo sagrado do futebol escocês, o Hampden Park, que teve o privilégio de ter sido o maior estádio de futebol do mundo entre 1908 e 1950, sendo que ainda no presente detém a maior parte dos recordes de público do futebol europeu (incluindo o recorde geral de 149.415 espectadores para o jogo entre a Escócia e a Inglaterra em 1937).

Uma equipa vitoriosa do Queen's Park FC
O Queen's Park entrou ainda para a história por ser o clube onde em 1881 atuava Andrew Watson, nada mais nada menos do que o primeiro jogador negro a chegar a internacional, como também no primeiro a capitanear uma seleção nacional, neste caso a Escócia. Mas há mais factos relacionados com a vida deste clube que fazem história, como por exemplo no ano de 1871, altura em que é dado o pontapé de saída na FA Cup (Taça de Inglaterra), idealizada por Charles Alcock, sendo que um dos clubes que participou nessa histórica primeira edição foi precisamente o Queen's Park, chegando inclusive à final desta competição em duas ocasiões, 1884 e 1885, ambas perdidas para o Blackburn Rovers. O Queen's Park não só foi pioneiro na promoção do futebol no seu país, como também o ajudou a incrementar noutras paragens, como o País de Gales, ou a Irlanda, através de partidas de demonstração realizadas nestes países. Mas não se ficou por aqui o papel de "professores" do Belo Jogo. Já no século XX, em 1964 mais concretamente, o Queen’s Park fez uma digressão por África, representando a Escócia num torneio internacional no Quénia, integrado nas comemorações da independência daquele país. Um ano depois, o clube visitou a Nigéria e em 1967 a Serra Leoa, ajudando a desenvolver o jogo naqueles países. O clube guarda nas suas vitrinas inúmeros troféus, desde logo 10 Scottish FA Cup's (Taças da Escócia), competição que dominou entre 1874 e 1893.

Ao longo dos seus 150 anos de vida a camisola de listas horizontais pretas e brancas deste emblema foi envergada por centenas de jogadores, alguns deles nomes sonantes do futebol escocês, caso de Sir Alex Ferguson, que enquanto futebolista passou pelo clube entre 1957 e 1960. Hoje em dia, o Queen's Park é um clube menor no panorama do futebol escocês deambulando pelas divisões secundárias daquele país sem o brilho e a importância de outrora. Mas da História ninguém o apaga. 

Primeiro jogo internacional da história foi em Glasgow

Gravura do Escócia - Inglaterra
de 1872
O dia 30 de novembro de 1872 é considerado um marco importante na história do futebol, já que neste dia se disputou o primeiro jogo internacional entre duas equipas, neste caso, seleções nacionais, a Escócia e a Inglaterra. E onde se escreveu história pela primeira vez? Em Glasgow, pois claro. O campo Amuddy em Hamilton Crescent, em Partick, Glasgow, foi então palco da primeira partida internacional de futebol. De um lado a Inglaterra, equipada toda de branco com a insígnia dos três leões, e do outro a Escócia, envergando camisola azul escura com a insígnia de uma cabeça de leão, diante de uma multidão de 4.000 pessoas que tiveram de pagar 1 xelin para assistir ao encontro, sendo que para as damas a entrada era gratuita.

A partida terminou com o marcador em 0-0. Seleção da Escócia que era nada mais nada menos do que o Queen's Park, o grande clube das highlands (terras altas) daquele tempo. A ideia de organizar o primeiro jogo internacional pertenceu a Charles Alcock, membro do comité da Federação Inglesa de Futebol, que colocou um anúncio nos jornais de Glasgow e Edimburgo, desafiando os jogadores daquelas cidades a jogarem uma partida de futebol contra 11 jogadores ingleses. O desafio lançado acendeu uma faísca do lado escocês, tendo o Queen’s Park Football Club aceitado a oferta de Alcock. Robert Gardner e David Wotherspoon, ambos jogadores do Queen’s Park, enquanto jogavam em Londres pela sua equipa uma eliminatória da FA Cup permaneceram na capital inglesa após o jogo para uma reunião com membros da FA (Football Association) para acertar os detalhes do jogo. A partida e o local foram acordados entre os representantes da FA e da Rainha, tendo Glasgow sido o local escolhido para o desafio, a ter lugar no dia de Dia de Santo André.

Reza a história que a imprensa local fez uma forte propaganda em torno do jogo, para o qual foram disponibilizados autocarros especiais para sair da Miller Street, no centro de Glasgow, com destino ao recinto do encontro. Catorze horas foi o horário oficial de início do jogo, o qual teria um atraso de quinze minutos, pelo facto de ambas as equipas terem feito um aquecimento prévio. Imagens desenhadas por William Ralston - já que na época não existiam câmaras fotográficas - revelam o pormenor curioso dos jogadores ingleses a fumarem cachimbo enquanto exercitavam os músculos! O capitão escocês Robert Gardner, que jogaria mais quatro vezes contra a Inglaterra e perderia apenas uma, foi o responsável pela seleção da equipa escocesa. Ele, que seria no futuro presidente da Federação Escocesa de Futebol.

Robert Gardner
Gardner foi para muitos a primeira lenda do futebol escocês. Nascido precisamente em Glasgow, em 1847, ele foi um dos membros fundadores do Queen's Park, tendo sobre ele sido escrito na altura que "era tão versátil que já o vimos atuar em todas as posições do campo - guarda-redes, defesa, médio e até atacante - mas foi como guarda-redes que mais se destacou. Quando nos lembramos dos homens brilhantes que desde então se colocaram entre os postes nas partidas internacionais e nas últimas partidas da taça, devemos confessar que ninguém jamais usou as mãos e o peso para obter mais vantagens do que Gardner".

E nesse célebre primeiro jogo internacional ele foi um dos destaques em campo, havendo quem diga que ele foi o principal responsável por manter a zeros a baliza escocesa. A histórica crónica da partida publicada pelo jornal Glasgow Herald refere que: "Ambos os lados trabalharam muito e mostraram um jogo excelente. Os ingleses tinham toda a vantagem de peso, sendo em média duas vezes mais pesados que os escoceses e tinham a vantagem de velocidade. O ponto forte da equipa da casa é que eles jogaram muito bem juntos". Ambas as equipas eram descritas com estilos contrastantes. Os jogadores da Inglaterra optavam pelo estilo de posse de bola e a tentar sair em drible, enquanto a seleção escocesa optava mais por um futebol de passes, ou de combinação entre os seus jogadores, uma espécie de tiki-taka.

Mais uma gravura do 
mítico jogo
A Inglaterra foi a seleção mais forte no segundo tempo, embora ambos os conjuntos não se pouparam a esforços para marcar. Após os 90 minutos a partida terminaria com um empate sem golos. Um resultado aparentemente justo para ambos os lados devido ao jogo ter sido muito equilibrado. Uma coisa é certa, a Escócia e a Inglaterra são os pioneiros do futebol internacional, foram estes dois países que deram o pontapé de saída nos confrontos entre países e que posteriormente deram aso à criação de inúmeras competições internacionais, como hoje as conhecemos. Para a história aqui ficam os “onzes” que nessa tarde de 30 de novembro de 1872 evoluíram em Glasgow:

Escócia: Bob Gardner, William Ker, Joseph Taylor, James Thompson, James Smith, Robert Smith, Robert Leckie, Alexander Rhind, William Muir MacKinnon, Jamie Weir, David Wotherspoon (todos do Queen’s Park FC).

Inglaterra: Robert Barker (Hertfordshire Rangers), Ernest Greenhalgh (Notts County), Reginald Welch (Wanderers), Frederick Chappell (Oxford University), William John Maynard (First Surrey Rifles), John Brockbank (Cambridge University), Charles Clegg (Sheffield Wednesday ), Arnold Kirke Smith (Oxford University), Cuthbert Ottaway (Old Etonians/Oxford University), Charles John Chenery (Cristal Palace), Charles John Morice (Barnes).

Dérbi de religiões

Já aqui foi dito que o Queen’s Park é o clube mais antigo de toda a Escócia, passando a sua quase total existência na condição de puro amador do Belo Jogo. Porém, no mapa do futebol Glasgow é mundialmente conhecida por ser o berço de dois gigantes: O Celtic e o Rangers. Foram estes dois clubes que resgataram a partir do início do século XX o domínio do futebol escocês das mãos do Queen’s Park. O Celtic foi fundado em 1887 por um grupo de imigrantes irlandeses que professavam a religião católica. Ao longo da história os católicos de Glasgow, como também são conhecidos, contam com mais de 50 campeonatos nacionais ganhos, 39 FA Scottish Cups, entre outros troféus domésticas, mas o grande orgulho dos seus adeptos resido no facto de terem sido a primeira equipa britânica a conquistar a Taça dos Clubes Campeões Europeus, um feito conquistado em 1967, em Lisboa, no Estádio Nacional, com um plantel formado na totalidade por futebolistas nascidos na zona de Glasgow, orientados por Jock Stein, lendário treinador que em 13 anos de comando no Celtic arrecadou para o clube 25 (!) títulos nacionais (entre campeonatos, taças e taças da liga). Na final da competição europeia em 67, os escoceses derrotaram o poderoso Inter de Milão por 2-1.

Os famosos Lisbon Lions de 67
Mais novo que o Celtic é o Rangers Football Club, ou simplesmente Glasgow Rangers, fundado em 1873, por um grupo de jovens praticantes de remo seduzidos pelo futebol. Desde a sua fundação que este clube está ligado ao protestantismo e ao unionismo político. Tal como o vizinho Celtic, os azuis de Glasgow colecionam largas dezenas de títulos, na verdade o Rangers entra para a história como o clube mais titulado do Mundo, títulos oficiais, diga-se, são mais de uma centena, com destaque para os 55 campeonatos nacionais ganhos até hoje, 33 taças da Escócia, 27 taças da Liga, entre muitos outros. No Velho Continente tem apenas um sucesso, mais concretamente a Taça das Taças, troféu conquistado em 1972 à custa do Dínamo de Moscovo.

Mas à parte dos muitos títulos e do domínio que estes dois gigantes têm exercido em mais de um século e meio no futebol escocês, há um pormenor que faz com que a bola seja encarada mais do que uma questão desportiva nas margens do rio Clyde. Glasgow vive desde sempre de uma forma especial os encontros entre Celtic e Rangers, é mais do que um simples jogo de futebol, mas antes um ato de fé que tem atravessado gerações de escoceses.

Jogador do Rangers
celebra vitória na Taça das Taças
O derby Old Firm, como lhe chamam há mais de 100 anos, marca o confronto entre estes dois gigantes, marca um confronto de religiões, de um lado os católicos e do outro os protestantes. O primeiro dérbi foi disputado em 1888 – o Celtic venceu por 5-2 - e desde então tem crescido a inimizade entre estas duas comunidades, sendo que cada vez que os dois clubes se enfrentam Glasgow vive um verdadeiro fenómeno social que mobiliza toda a cidade.

Reza a história que esta velha e intensa rivalidade subiu de tom com a subversão da República da Irlanda contra o império inglês, sendo que durante largas décadas o Rangers orgulhava-se de não contratar jogadores da religião católica, acabando esta tendência quando em 1896 o clube contratou Maurice Johnston que algumas épocas antes defendera as cores do Celtic.

Ambos os clubes monopolizam entre si os títulos do futebol da Escócia, cujo campeonato não é mais do que um confronto entre Rangers e Celtic, ou vice-versa, restando aos outros clubes do país senão a honra de assistir de camarote ao coroar de um destes dois emblemas.

O rei do futebol escocês nasceu em Glasgow

King Kenny Dalglish
Ao longo de mais de 150 anos Glasgow viu nascer futebolistas de grande talento, que figuram na história do futebol escocês. Mas nenhum atingiu o Olimpo como Kenneth Dalglish. Nascido a 4 de abril de 1951 foi por 102 ocasiões internacional pela Escócia, tendo sido descoberto pelo mítico Jock Stein um ano após a conquista da Taça dos Campeões Europeus de 67. Um ano depois Dalglish despontava no Celtic, com apenas 16 anos, e dava início a uma majestosa carreira. Com as cores dos católicos de Glasgow viveu 10 temporadas inesquecíveis, vencendo por 4 ocasiões o campeonato da Escócia, outras tantas taças e uma Taça da Liga. Consciente de estar perante um puro diamante, o Liverpool contratou o jogador em 1977, escolhendo-o para substituir outra lenda do clube de Anfield, no caso Kevin Keegan, que havia partido para o Hamburgo. Vestido de vermelho Dalglish não desapontou e foi preponderante na conquista de 7 campeonatos ingleses para os reds, bem como as três taças dos campeões europeus ganhas em 1978, 1981 e 1984. Ele foi um dos jogadores nascidos nas ilhas britânicas mais evoluídos de sempre, possuindo uma técnica impressionante e um apurado instinto de goleador. Os títulos colecionados quer em Glasgow ao serviço do Celtic quer na cidade dos Beatles ao serviço do Liverpool fazem que hoje seja o desportista britânico mais galardoado de todos os tempos, com 26 títulos colecionados. Com a seleção escocesa participo em três Campeonatos do Mundo (1974, 1978 e 1982).

Imagem aérea do Hampden Park
Sempre com o número 7 nas costas, Dalglish foi dos jogadores que na história espalhou mais magia pelo mítico Hampden Park, a casa do futebol escocês, como já vimos, e que para além de inúmeras partidas célebres quer da seleção escocesa quer dos emblemas daquele país já se engalanou para receber grandes jogos internacionais, como por exemplo as finais das Taças dos Clubes Campeões Europeus de 1960, de 1974 e de 2002, bem como dois jogos do recente Campeonato da Europa de 2020, ou da final da Taça UEFA de 2007. Mas há mais catedrais da bola em Glasgow além do mítico Hampden Park, como são os casos dos recintos do Celtic e do Rangers, respetivamente o Celtic Park e o Ibrox Stadium. O primeiro é o estádio mais antigo da cidade, visto que a sua inauguração remonta a 1892, ao passo que o segundo, inaugurado em 1899, ostenta o recorde de afluência de público num jogo de futebol, algo que aconteceu em 1939, quando na casa do Rangers se juntaram 118.000 espectadores num  derby Old Firm! Só podia.