sexta-feira, março 13, 2015

Histórias do Planeta da Bola (7)... Os anos dourados (1927-1939) da Taça Mitropa - A primeira montra de estrelas do futebol europeu (parte II)

Fase do jogo entre a Juventus e a Ambrosiana-Inter
na qual estava em discussão um lugar
na Mitropa Cup de 1929
Em 1929 abriram-se as portas da Taça Mitropa para os clubes italianos. Esta foi a novidade mais significativa da terceira edição da competição. O clima de tensão que se vivia na então Jugoslávia fez com que a organização da competição opta-se por não incluir os emblemas daquele país na edição de 29, convidando para o lugar destes os combinados oriundos de Itália. Nação cujo campeonato nacional abraçara neste período o profissionalismo, à semelhança do que ocorrera em Inglaterra na região central da Europa. A inclusão dos clubes transalpinos na Mitropa Cup acrescentou, de certa forma, uma maior elegância e virtuosismo técnico à competição, já que a Itália havia surgido - em finais da década de 20 - na senda internacional como uma poderosa potência futebolística que interpretava o jogo de forma majestosa. Os anos 30 iriam confirmar tudo isto... 
Itália, ou neste caso a federação italiana de futebol, que se viu obrigada a promover um play-off de qualificação para a Taça Mitropa de 1929, já que foram quartos os clubes que mostraram desde logo interesse em participar. O curioso é que nenhum destes quatro emblemas assumia por aqueles dias o papel de gigante do calcio, por outras palavras, nenhum deles era então uma equipa de topo. Esse estatuto pertencia ao Bologna, campeão italiano em 28/29, uma equipa perfeita sob todos os aspetos onde sobressaia, entre outros, Angelo Schiavio, um dos melhores futebolistas transalpinos da década de 30. Bologna que simplesmente declinou o convite para participar na Taça Mitropa, alegadamente por preferir realizar um passeio - digressão - pela América do Sul! Assim, e sem o poderoso Bologna Football Club em jogo, a Juventus, o Inter de Milão - na altura denominado de Ambrosiana-Inter -, o Milan, e o Génova lutaram entre si pelos dois bilhetes de acesso à competição continental. No primeiro encontro, a Juventus só necessitou de 90 minutos para afastar a Ambrosiana-Inter do seu caminho, já que após uma derrota por 1-0 em Turim a equipa de Milão desistiu de discutir a eliminatória num segundo encontro! A última vaga para a Taça Mitropa foi alcançada por... sorteio! Depois de empates (2-2 na primeira mão e 1-1 na segunda) entre si, Milan e Génova foram atirados para as teias de um sorteio, tendo a sorte bafejado esta última equipa.



O guarda-redes italiano Combi trava mais um ataque
do poderoso Slavia de Praga
.
Para além dos clubes italianos mais duas estreias ocorreram na terceira edição da prova, o First Viena, que se apresentava no certame depois de ter vencido a Taça da Áustria, e o Ujpest, que surgia aqui no lugar dos campeões da Mitropa Cup do ano anterior, o Ferencvaros. Ujpest que na primeira mão da ronda inaugural - ocorrida a 22 de junho de 1929 - despachou categoricamente os checoslovacos do Sparta de Praga por 6-1, com a particularidade do avançado István Avar - um romeno naturalizado húngaro - ter feito três golos, ele que haveria de se sagrar o melhor marcador desta edição da competição, com uma dezena de tentos apontados. Na segunda mão, uma vitória por 2-0 do Sparta foi insuficiente para evitar o adeus prematuro dos campeões da primeira edição da Mitropa. Estreia brilhante teve igualmente o First Viena, emblema que espantou a então Europa do futebol ao afastar por um total de 6-1 os campeões húngaros do MTK de Budapeste, sobretudo pela categórica vitória por 4-1 obtida na capital da Hungria, onde sobressaiu o médio criativo Friedrich Gshweidl, autor de dois golos na eliminatória. First Viena que na competição interna durante esse ano de 1929 apresentou um impressionante registo em termos ofensivos, com 76 golos marcados em 22 encontros realizados. Os eternos vice-campeões da Mitropa Cup - pelo menos até então eram vistos desta forma -, o Rapid de Viena - campeão austríaco em 1929 - derrotou o Génova por um resultado total - no conjunto das duas eliminatórias - de 5-1, enquanto que em Turim o talentoso Slavia de Praga encontrou algumas dificuldades perante uma Juventus onde se destacava na baliza um tal de Giampiero Combi, que hoje em dia repousa na Olimpo dos Deuses do Futebol. 1-0, venceu a Juve, graças a uma soberda exibição de Combi. Uma vitória que no entanto se afigurou demasiado curta com vista a uma viagem tranquila até Praga, a casa do Slavia, que à semelhança do rival Sparta era orientado por um treinador escocês, neste caso Jake Madden, que enquanto jogador defendeu as cores do Dumbarton e do Celtic de Glasgow, além de ter representado a seleção da Escócia em cinco ocasiões, duas delas como capitão de equipa, e que em 1909, após ter encerrado a sua carreira de futebolista, decide partir à aventura para a Checoslováquia, onde, e tal como o seu compatriota John Dick (do Sparta), teve um papel preponderante na dinamização do futebol daquele país da Europa Central. Edificou um temível Slavia, um conjunto que triturava adversários, tanto no plano interno como extreno. Recorrendo aos números, Madden oriuntou o clube de Praga em 169 ocasiões na liga doméstica, tendo obtido 134 triunfos, enquanto que no plano internacional disputou 429 partidas - oficiais e particulares - tendo vencido 304 delas. Impressionante. 
No embate da segunda mão com  a Juventus o herói deu pelo nome de Frantisek Junek, autor de dois dos três tentos que levaram os checoslovacos até às meias-finais.

Jake Madden
A 25 e 28 de agosto teve lugar a primeira mão das meias-finais, sendo que em Viena assistiu-se a um duelo empolgante entre o First e o Slavia de Praga. Aliás, ambas as meias-finais foram disputadas sob o signo do futebol espetáculo. O First Viena dominou amplamente o encontro da capital austríaca, mas uma exibição portentosa de Antónin Puc - autor de dois golos - e do guarda-redes Frantisek Plánicka deu origem a uma vitória mínima (3-2) da equipa da casa. 
Puc que voltou a fazer das suas na segunda mão, realizada em setembro, sendo da sua autoria dois dos quatro golos com que o Slavia derrotou (4-2) com muito esforço um combativo First de Viena. 
Rapid de Viena e Ujpest necessitaram de um terceiro jogo para decidir qual das equipas iria acompanhar o Slavia na grande final. 
A grande estrela deste confronto, sobretudo no play-off de desempate, foi o goleador István Avar, autor de um hattrick que colocou os estreantes do Ujpest no jogo decisivo. Num breve registo biográfico sobre uma das estrelas mais brilhantes - senão mesmo a mais cintilante - da terceira edição da Taça Mitropa, é de sublinhar István Avar nasceu em Arad, na Roménia, a 28 de maio de 1905, tendo representado a seleção romena em duas ocasiões entre 1926 e 1927. A sua veia goleadora chamou à atenção das grandes equipas do futebol continental de então, tendo em 1928 assinado um contrato profissional com o Ujpest, emblema que representou ao longo de seis épocas. Com este clube atuou em centena e meia de jogos, tendo marcado 161 golos. Naturalizou-se húngaro, tendo atuado em 21 ocasiões pela seleção magiar entre 1929 e 1935, tendo nesse período apontado um total de 24 golos com a camisola nacional húngara.

István Avar, o goleador
da edição de 1929
da Taça Mitropa,
com 10 golos

A 13 de novembro de 1929 o Estádio Hungária Korut acolheu 18.000 pessoas que começaram por presenciar uma primeira parte equilibrada, conforme traduz a igualdade a uma bola no marcador ao intervalo. Porém, no segundo tempo uma exibição avassaladora da equipa da casa aniquilou por completo os jogadores do Slavia. Com quatro golos o Ujpest construiu uma robusta vitória 5-1, resultado que lhe dava sérias hipóteses de levantar o troféu. Ao nível particular este encontro fica marcado pela soberba performance do defesa húngaro Ferenc Borsanyi. Ele, que havia sido igualmente uma peça fundamental no play-off de desempate ante o Rapid de Viena. A 16 de novembro o Estádio Letna, em Praga, recebeu o jogo da segunda mão, e tal como lhe era pedido o Slavia entrou a todo o gás na tentativa de anular a pesada desvantagem que trazia da Hungria. Aos 28 minutos Junek abriu o marcador para os da casa, que no início do segundo tempo iriam aumentar a vantagem com um golo de Josef Kratochvil, na transformação de uma grande penalidade, golo este que fazia renascer a esperança entre os checoslovacos, que precisavam agora de apenas dois golos para empatar a final e quem sabe levar a decisão para um terceiro encontro. Porém, e mais uma vez, a estrela do goleador da terceira edição da Mitropa Cup, István Avar, iria voltar a brilhar. Antes de Avar dar nas vistas Gábor Szábo reduziu aos 84 minutos a desvantagem dos húngaros nesta partida, sendo que dois minutos depois Avar colocou de vez um ponto final nas aspirações do conjunto checoslovaco em erguer a taça. 2-2, o resultado final, um empate com sabor a vitória para o Ujpest, que assim sucedia aos compatriotas do Ferencvaros como campeão daquela que era já a competição internacional de clubes mais popular do Velho Continente.

Números e nomes:

Quartos-de-final (1ª e 2ª mãos)

Ujpest (Hungria) - Sparta Praga (Checoslováquia): 6-1/0-2

MTK Budapeste (Hungria) - First Vienna (Áustria): 1-4 /1-2

Rapid Viena (Áustria) - Génova (Itália): 5-1/0-0

Juventus (Itália) - Slavia Praga (Checoslováquia): 1-0/0-3

Meias-finais (1ª e 2ª mãos)

First Vienna (Áustria) - Slavia Praga (Checoslováquia): 3-2/2-4

Ujpest (Hungria) - Rapid Viena (Áustria): 2-1/2-3/3-1 (desempate)

Final (1ª mão)

Ujpest (Hungria) - Slavia Praga (Checoslováquia): 5-1

Data: 3 de novembro de 1929
Estádio: Hungária Korut (Hungria)
Árbitro: Eugen Braun (Áustria)

Ujpest: János Aknai, Károly Kovágó, Jozsef Fogl (c), Ferenc Borsanyi, János Koves, János Víg-Wilhelm, Albert Strock, István Avar, István Meszáros, Illés Spitz, e Gábor Szábo. Treinador: Lajos Bányai.

Slavia Praga: Frantisek Plánicka, Ladislav Zenisek, Antonín Novák, Antonín Vodicka, Josef Pleticha (c), Karel Cipera, Frantisek Junek, Bohumil Joska, Frantisek Svoboda, Antonín Puc, e Josef Kratochvil. Treinador: Jake Madden.

Golos: 1-0 (Spitz, aos 42m), 1-1 (Puc, aos 44m), 2-1 (Avar, aos 60m), 3-1 (Strock, aos 67m), 4-1 (Szábo, aos 69m), 5-1 (Spitz, aos 80m)

Final (2ª mão)

Slavia Praga (Checoslováquia) - Ujpest (Hungria): 2-2

Data: 17 de novembro de 1929
Estádio: Letna, em Praga (Checoslováquia)
Árbitro: Eugen Braun (Áustria)

Slavia Praga: Frantisek Plánicka, Ladislav Zenisek, Antonín Novák, Antonín Vodicka, Josef Pleticha (c), Karel Cipera, Frantisek Junek, Bohumil Joska, Frantisek Svoboda, Antonín Puc, e Josef Kratochvil. Treinador: Jake Madden.

Ujpest: János Aknai, Károly Kovágó, Jozsef Fogl (c), Ferenc Borsanyi, János Koves, János Víg-Wilhelm, Albert Strock, István Avar, István Meszáros, Illés Spitz, e Gábor Szábo. Treinador: Lajos Bányai.

Golos: 1-0 (Junek, aos 28m), 2-0 (Kratochvil, aos 57m), 2-1 (Szábo, aos 84m), 2-2 (Avar, aos 86m). 

Os onze heróis que em 1929 conquistaram o título mais pomposo da história dos húngaros do Ujpest

1930: Taça Mitropa viaja finalmente para a nação que a idealizou, no ano em que uma estrela italiana começou a brilhar no céu internacional


Giuseppe Meazza, uma das maiores estrelas
do futebol internacional da década de 30
foi a grande estrela da quarta
edição da Mitropa Cup




Finalistas vencidos nas duas primeiras edições, semi-finalistas em 1929, eis à quarta tentativa o Rapid de Viena viu finalmente a luz ao fundo do túnel, o mesmo será dizer, venceu a Mitropa, levando desta forma o troféu pela primeira vez para o país que sonhou uma competição onde começavam a despontar estrelas em catadupa. Em 1930 surge aquela que é considerada como a primeira lenda do futebol italiano, o primeiro grande ídolo dos tiffosi, de seu nome Giuseppe Meazza. Nascido em Milão, a 23 de agosto de 1910, Peppino, como carinhosamente era tratado por colegas e adeptos, cedo mostrou os seus deslumbrantes atributos de futebolista, tendo com apenas 17 anos conquistado a titularidade no Ambrosiana-Inter, clube cuja camisola envergou em mais de 400 ocasiões - 408 para sermos mais precisos, distribuídas entre jogos oficiais e particulares - ao longo de 17 anos, tendo marcado 287 tentos. Em 1940 como que apunhala o clube que o revelou ao Mundo após assinar pelo vizinho e eterno inimigo, o Milan, onde esteve durante duas temporadas, Jogou ainda pela Juventus, Varese, e Atalanta. É um dos melhores marcadores de todos os tempos da Serie A - o principal campeonato transalpino - com 367 golos apontados em 216 partidas realizadas. Pela Squadra Azzurra atuou em 53 jogos, tendo feito balançar as redes adversárias por 33 ocasiões. Entre as suas numerosas conquistas destacam-se os dois títulos de campeão do Mundo - obtidos em 1934 e 1938 - com a nazionale italiana. Com 20 anos Peppino Meazza fez então a sua primeira aparição na montra do futebol continental ao nível de clubes, fazendo-o na qualidade de principal figura da Ambrosiana-Inter, emblema que surgia nesta edição da Taça Mitropa na qualidade de campeão de Itália. 
Ditou o sorteio que logo na primeira ronda os italianos defrontassem os campeões em título, o Ujpest, duelo que haveria de ter contornos históricos.

A equipa da Ambrosiana-Inter (de Milão) que disputou a edição número quatro da Mitropa Cup
Quatro jogos foram necessários para decidir quem seguia para as meias-finais, ou a Ambrosiana-Inter, ou o Ujpest. A primeira mão, em Budapeste, ficou marcada por uma exibição memorável de Meazza, astro que apontou dois dos quatro golos com que a sua equipa deixou a capital húngara. 4-2 o resultado final de um encontro épico. Igualmente bem jogada foi a partida da segunda mão, em Milão, com a vingança do Ujpest servida em bandeja igual à que os italianos haviam oferecido ao seu rival em Budapeste, ou seja, 4-2 a favor dos campeões da Mitropa. Em jeito de nota de rodapé será importante dizer que em 1930 a organização da competição continental decidiu que o vencedor da Mitropa Cup teria sempre lugar assegurado na edição seguinte, independentemente de vencer ou não o seu campeonato nacional. Voltando ao tira-teimas entre Ambrosiana-Inter e Ujpest para recordar que o primeiro jogo de desempate foi pautado pela postura extremamente defensiva que ambas as equipas apresentaram no terreno. Um encontro onde as principais estrelas dos dois combinados, István Avar do lado húngaro, e Meazza do lado italiano, foram totalmente neutralizadas pelas rígidas defesas. 1-1 foi o resultado final que obrigou assim a um novo play-off. Este quarto duelo primou pela emoção, espetáculo, e fartura de golos. Os italianos tiveram uma entrada demolidora, chegando com relativa facilidade ao 3-0, graças a dois golos de Meazza e um de Leopoldo Conti. Porém, do outro lado da barricada não estava uma equipa qualquer, e num abrir e fechar de olhos o Ujpest chegou à igualdade, muito devido à inspiração de Avar, autor de dois tentos. Os húngaros estavam muito melhor sobre o retângulo de jogo, mas no futebol nem sempre vence quem joga melhor e foi precisamente isto o que aconteceu. A Ambrosiana-Inter, quase sem querer, e numa altura de jogo em que era dominada pelo seu oponente, chegou ao 5-3, arrumando - finalmente - a questão a seu favor.

O belga Raymond Braine semeia o perigo
na sequência de mais um ataque do Sparta
Destino contrário ao do emblema de Milão teve a outra equipa transalpina em prova, o Génova, que depois de um empate a um golo na primeira mão, em casa, foi goleada em território austríaco pelos futuros campeões, o Rapid de Viena. O azar bateu à porta dos genoveses ao minuto 40 da partida da segunda mão, altura em que o seu principal esteio, o seu notável guarda-redes Manlio Bacigalupo, sofre uma grave lesão que o obriga a abandonar o terreno, sendo substituído por um jogador de campo - na altura as substituições estavam ainda muito longe de ser permitidas. O Rapid aproveitou a inexperiência do guardião improvisado para chegar à goleada, com realce para o bis de Weselik e Wessely. Giuseppe Meazza não foi a única estrela a emergir nesta quarta edição da Mitropa. No Sparta de Praga orientado por John Dick aparecia um prodígio belga, avançado, de nome Raymond Braine, um verdadeiro terror para os guarda-redes oponentes. Natural de Antuérpia, Braine vestiu durante seis épocas a camisola do clube checoslovaco, assumindo-se desde logo como uma das suas principais estrelas a par de Karel "Kada" Pasek, ou Josef Silny. O belga realizou um total de 106 encontros pelo emblema de Praga, tendo apontado 128 golos. Um deles ocorreu precisamente no embate da primeira mão dos quartos-de-final da Mitropa Cup de 1930, ante o First Viena, o tento que selou um magro mas justo triunfo (2-1) dos vice-campeões da Checoslováquia. Na segunda mão, em Viena, nova vitória do Sparta de Ferro, desta feita por 3-2, sendo que com apenas 20 minutos de jogo os checoslovacos já lideravam o marcador por 3-1. À festa do apuramento para as meias-finais os adeptos do Sparta rejubilaram com o afastamento do seu grande rival, o Slavia, que caiu aos pés do Ferencvaros após uma eliminatória muito equilibrada.

Ambrosiana-Inter coloca anúncio em jornal para recrutar um guarda-redes para o duelo das meias-finais!


Pietro Miglio, o guarda-redes
que a Ambrosiana-Inter contratou
através de um anúncio de jornal!
Facto insólito ocorreu numa das meias-finais da prova. Poucos dias antes da partida da segunda mão com o Sparta de Praga a turma da Ambrosiana-Inter vê-se privada dos seus dois guarda-redes, Smerzi e Degani, ambos a contas com graves lesões. Os nerazzurri viram-se então forçados a colocar um anúncio num jornal desportivo (!) com a finalidade de encontrar um keeper para o que restava da temporada. Não se sabe ao certo quantos candidatos apareceram, mas o que se sabe é que a escolha recaiu em Pietro Miglio, que atuava numa equipa amadora de Turim, o Crocetta. A inexperiência do Miglio na alta roda internacional - e profissional - acabaria por deixar marcas na eliminatória, já que depois de uma igualdade a dois golos na primeira mão, em Milão, o descalabro ocorreu em Praga, onde o Sparta além de dominar amplamente o encontro graças a soberbas exibições de Braine e Kada humilhou os italianos com uma goleada de 6-1. À Ambrosiana-Inter restou a consolação de ver a sua estrela-mor, Giuseppe Meazza, ter alcançado o título de goleador da Taça Mitropa de 1930, com sete remates certeiros. A outra meia-final foi uma repetição do jogo decisivo da segunda edição da prova, entre Ferencvaros e o Rapid de Viena, tendo na altura os húngaros sido mais felizes. Dois anos demorou a vingança dos austríacos, que no encontro da primeira mão beneficiaram do facto de terem pela frente um adversário que apesar de ter mais posse de bola cometeu demasiados erros no capítulo da finalização. Resultado: 5-1 a favor dos vienenses, com o destaque individual a recair sobre Matthias Kaburek, autor de um hattrick, e com isto a final estava ali ao virar da esquina. Na segunda mão, em Budapeste,a defesa do Rapid ditou leis, apresentando-se praticamente intransponível, e dizemos praticamente porque somente por uma ocasião o Ferencvaros conseguiu bater o guardião Bugala. 

À terceira tentativa o Rapid ergueu finalmente a Taça Mitropa


Karl Rappan
O dinamarquês Sophus Hansen foi o árbitro escolhido pela organização para dirigir os dois encontros da final da Mitropa Cup de 1930. No dia 2 de novembro o Estádio Letna acolhe o primeiro encontro, o qual ficou marcado pela excelente exibição do guardião vienense, Josef Bugala, e pela eficácia do contra-ataque da sua equipa, que em duas ocasiões fez balançar as redes do guardião checoslovaco Belik na sequência de jogadas de contra-golpe. O Rapid de Viena estava assim bem lançado para finalmente colocar as mãos numa taça que lhe havia escapado nas duas primeiras edições, sendo que no encontro da segunda mão entrou em campo com uma postura distinta da que foi patenteada em Praga. Lançados ao ataque desde o apito inicial de Hansen, os jogadores do Rapid cedo chegaram à vantagem, por intermédio de Kaburek, logo ao minuto sete. No esteio da defesa vienense militava um homem que um par de décadas mais tarde haveria de atingir o patamar das celebridades futebolísticas, já que é da sua autoria a conhecida tática do... ferrolho, a(s) base(s) do catenaccio que os italianos tornaram célebre a partir dos anos 60. Karl Rappan era o seu nome. No Hohe Warte Stadium de Viena não brilhou o génio do belga Raymond Braine mas em seu lugar apareceu o inspirado Josef Kostalek, que nos espaço de três minutos (entre os minutos 25 e 27) apontou dois golos que fizeram tremer os austríacos. Tremedeira que na segunda parte iria ter um fim, quando ao minuto 67 Smistik fez o 2-2 que praticamente garantiu o título, de nada valendo um terceiro golo de Kostalek. 
Depois de duas finais perdidas o Rapid de Viena era por fim campeão da Mitropa, ou na realidade daquela altura... campeão da Europa.

Números e nomes:

Quartos-de-final (1ª e ª mãos) 

Slavia Praga (Checoslováquia) – Ferencvaros (Hungria): 2-2/0-1 

Sparta Praga (Checoslováquia) - First Viena (Áustria): 2-1/3-2

Génova (Itália) - Rapid Viena (Áustria): 1-1/1-6 

Ujpest (Hungria) – Ambrosiana-Inter (Itália): 2-4/4-2/1-1/3-5 (desempate)

Meias-finais (1ª e 2ª mãos) 

Ambrosiana-Inter (Itália) - Sparta Praga (Checoslováquia): 2-2/1-6 

Rapid Viena (Áustria) - Ferencvaros (Hungria): 5-1/0-1

Final (1ª mão)

Sparta Praga (Checoslováquia) - Rapid Viena (Áustria): 0-2

Data: 2 de novembro de 1930 

Estádio: Letna, em Praga (Checoslováquia)

Árbitro: Sophus Hansen (Dinamarca)

Sparta Praga: Ladislav Belik, Jaroslav Brugr, Antonín Hojer, Madelon, Kada (c), Erich Srbek, Adolf Patek, Josef Kostalek, Raymond Braine, Josef Silný, e Karel Hejma. Treinador: John Dick. 

Rapid Viena: Josef Bugala, Roman Schramseis, Leopold Czejka, Karl Rappan, Josef Smistik, Johann Vana, Willibald Kirbes, Franz Weselik, Matthias Kaburek, Johann Luef, e Ferdinand Wesely (c). Treinador: Edi Bauer.

Golos: 0-1 (Luef, aos 9m), 0-2 (Wesely, aos 57m)

Final (2ª mão)

Rapid Viena (Áustria) - Sparta Praga (Checoslováquia): 2-3

Data: 11 de novembro de 1930

Estádio: Hohe Warte, em Viena (Áustria)

Árbitro: Sophus Hansen (Dinamarca)

Rapid Viena: Josef Bugala, Roman Schramseis, Leopold Czejka, Karl Rappan, Josef Smistik, Johann Vana, Willibald Kirbes, Franz Weselik, Matthias Kaburek, Johann Luef, e Ferdinand Wesely (c). Treinador: Edi Bauer.

Sparta Praga: Ladislav Belik, Jaroslav Brugr, Josef Ctyroky, Madelon, Kada (c), Erich Srbek, Karel Podrazil, Josef Kostalek, Raymond Braine, Josef Silný, e Karel Hejma. Treinador: John Dick. 

Golos: 1-0 (Kaburek, aos 7m), 1-1 (Kostalek, aos 25m), 1-2 (Kostalek, aos 27m), 2-2 (Smistik, aos 67), 2-3 (Kostalek, aos 87m).

À terceira tentativa (numa final) o Rapid de Viena conseguiu levar o troféu para casa

Nenhum comentário: