sexta-feira, maio 03, 2013

Copa América (2)... Uruguai 1917


Por estes longínquos dias de 1917 grande parte da América do Sul andava verdadeiramente louca com o futebol! O caudal de desafios era cada vez maior - sobretudo no plano interno - não sendo de estranhar que a recém nascida CONMEBOL (Confederação Sul-Americana de Futebol) decidisse no citado ano dar continuidade ao sucesso granjedado em 1916 pelo também recém edificado Campeonato Sul-Americano, ao nomear o Uruguai como anfitrião da segunda edição do certame. E para este segundo Campeonato Sul-Americano de Futebol uma novidade saltou de imediato à vista de todos: o troféu que iria - dali em diante - coroar o rei das américas.
Se na edição inaugural, ocorrida um ano antes, recorde-se, na Argentina, a organização não atribuiu qualquer troféu ao campeão continental - o Uruguai -, em 1917 foi apresentada uma deslumbrante taça concebida em prata, sobre uma base em madeira, comprada numa joalharia (!) de origem francesa localizada em Buenos Aires pelo preço de 3000 francos suíços. O troféu fez então a viagem para Montevidéu, a capital uruguaia, escolhida para palco da edição de 1917 do Campeonato Sul-Americano. Os convidados para dar vida à grande festa do futebol continental foram os mesmos que um ano antes estiveram em Buenos Aires, isto é, Chile, Brasil, Argentina, e a seleção da casa, e campeã em título, o Uruguai.
Pomposo - pelo menos assim era visto naquela época - era também o Parque Pereira, o recinto mandado construir pela Asociación Uruguaya propositadamente para acolher os seis encontros do torneio. Um estádio edificado em madeira (!) com capacidade para 40 000 espetadores que teria vida curta, já que pouco depois do torneio seria demolido para em seu lugar ser construída uma pista de atletismo! Facto curioso é que o Parque Pereira foi edificado a pouquíssimos metros do local onde 13 anos mais tarde seria erguido o majestoso Estádio Centenário, o palco principal do primeiro Campeonato do Mundo da FIFA. 

De 30 de setembro a 14 de outubro de 1917 Montevidéu parou para assistir ao desenlace do Campeonato Sul-Americano. Favoritos à vitória? Talvez a equipa da casa, não só porque atuava diante do seu fervoroso público, mas porque continuava a agregar alguns dos melhores intérpretes do belo jogo da altura. O Uruguai era naqueles dias um autêntico viveiro de craques, e a prova disso é que mesmo a ausência das lendas responsáveis pela primeira conquista continental, Isabelino Gradín, José Piendibene, e Juan Delgado, impediu a celeste de continuar a ter um certo ascendente sobre os seus rivais. Gradín, Piendibene e Delgado deram lugar a outros astros que iriam marcar para sempre a história da modalidade, casos de Héctor Scarone ou Ángel Romano, homens que viriam a ser as duas grandes figuras - ligadas ao Nacional de Montevidéu - deste segundo torneio... e de outras futuras conquistas uruguais, algumas delas bem mais pomposas que o certame da CONMEBOL.

A 30 de setembro de 1917 é dado então o pontapé de saída de uma competição que à semelhança do ano anterior era disputada num sisteme de poule, onde todos jogavam contra todos, e o campeão seria o conjunto que somasse mais pontos.
Ao relvado do Parque Pereira subiram Uruguai e Chile. Diante de 22 000 espetadores, e sob a arbitragem do argentino Germán Guassone os uruguaios não tiveram grande dificuldade em esmagar o conjunto chileno por 4-0, com o destaque a pairar sobre os atacantes Ángel Romano e Carlos Scarone. Aos 20 minutos o irmão mais velho de Héctor Scarone batia o desampardo Manuel Guerrero pela primeira vez na tarde, para um minuto antes do intervalo Romano ampliar para dois golos a vantagem charrúa. A etapa complementar teve os mesmo protagonistas. À passagem do minuto 62, na transformação de uma grande penalidade, Carlos Scarone faz o 3-0, e aos 75 Ángel Romano fecha as contas em 4-0. Romano e (Carlos) Scarone teriam sortes distintas no futebol. Carlos, apesar de ter ficado na história como um excelente atleta viveu sempre na sombra do seu talentoso irmão mais novo, Héctor, enquanto que El Loco Romano cedo se tornou num dos jogadores mais queridos da afición uruguaia, muito graças à sua multifacetada maneira de estar em campo. Ao apurado sentido pelo golo o homem que fazia todas as posições de ataque da sua equipa (!), nascido em Montevidéu a 2 de agosto de 1893, era igualmente um talentoso organizador de jogo, rápido e preciso. Jogou quase 400 jogos (388 para sermos mais precisos) e marcou 164 golos até 1930, ano em que se retirou, ano este que coincidiu com a conquista do primeiro Campeonato do Mundo pelos charrúas. Ser campeão mundial teria sido o merecido prémio de uma brilhante carreira para El Loco Romano, uma lenda que ao lado de José Leandro Andrade, Héctor Scarone, Héctor Castro, ou José Nasazzi escreveu as páginas mais belas da... encantadora história do futebol uruguaio. Na ausência do título mundial o currículo de Ángel Romano é abrilhantado com os dois títulos olímpicos da década de 20 (1924 e 1928), que na altura eram equiparados... ao ceptro mundial. 

Três dias mais tarde, no mesmo cenário, Brasil e Argentina lutaram entre si. Os brasileiros partiram para a capital uruguaia com baixas de vulto no seu grupo em relação ao que se havia passado em 1916. Desde logo a ausência mais notada foi a do melhor jogador brasileiro daquele tempo, Arthur Friedenreich. Como parecia ser tradição não faltaram confusões na hora do embarque da seleção rumo a Montevidéu. A mais conflituosa terá sido a da escolha do treinador. A Confederação Brasileira dos Desportos (CBD) formou uma comissão técnica para liderar a equipa, comissão essa que seria encabeçada por Mário Pollo (dirigente da Liga Metropolitana, do Rio de Janeiro) e R. Cristófaro (dirigente da APEA). Além de escolher os jogadores que iriam representar o país esta comissão tinha por missão eleger o capitão de equipa, posto para o qual foi nomeado o atleta do Fluminense Chico Netto. Como as guerras entre Rio de Janeiro e São Paulo eram na época bem acesas alguns dirigentes paulistas não terão gostado da escolha, e indicaram Sílvio Lagreca para o posto. A CBD manteve a sua posição, e Chico Netto continuou capitão, mas em contrapartida Lagreca assumiu a função de treinador! E foi com Sylvio Lagreca como jogador/treinador que o Brasil defrontou a armada Argentina a 3 de outubro, encontro este que até começou da melhor forma para os brasileiros, que logo aos oito minutos inauguraram o marcador, por intermédio de Neco. 

Outra ausência de vulto no combinado de Lagreca era a do guarda-redes do Fluminense, Marcos Carneiro de Mendonça, o primeiro grande keeper canarinho. Para o seu lugar foi convocado o português Casemiro do Amaral - que já tinha participado no Campeonato Sul-Americano de 1916. Aos 15 minutos Pedro Calomico empata o jogo, e a partir daqui o que se viu foi uma atuação... verdadeiramente desastrosa do guardião nascido em Lisboa ao serviço do Brasil. Seleção que no entanto iria para o descanso em vantagem, já que ao minuto 39 o jogador/treinador Lagreca converteu com êxito uma grande penalidade. No segundo tempo a Argentina aproveitaria então o desnorte de Casemiro do Amaral para dar a volta ao marcador. Sucessivas falhas do goleiro fizeram com que o Brasil fosse derrotado por claros 4-2 e hipotecasse - praticamente - desde logo as aspirações quanto à vitória final na competição. Quem disse definitivamente adeus ao título seria o frágil Chile, que no dia 6 de outubro perdeu por 0-1 precisamente ante a Argentina, graças a um lance infeliz de Luis Garcia, que aos 76 minutos apontaria um golo na baliza errada! Chile de regresso a casa - embora ainda faltasse disputar um encontro - e a Argentina em estado de graça com duas vitórias noutros tantos jogos realizados e com francas possibilidades de destronar o Uruguai como campeão das américas. Mas não iria ser bem assim, como mais à frente iremos poder constatar.  

E por falar em Uruguai, na tarde de 7 de outubro 21 000 aficionados celestes foram à loucura com mais uma exibição de gala da sua seleção. Os brasileiros foram despachados com a mesma chapa que uma semana antes haviam sido os chilenos, isto é, 4-0! Héctor Scarone aos oito minutos inaugurou a goleada. Veloz, tecnicamente bastante evoluído, exímio cabeceador, e de relação próxima com o golo o mais novo dos irmãos Scarone foi um dos grandes nomes do futebol uruguaio das décadas de 10 e 20, tendo sido preponderante não só na conquista deste mas de outros títulos que hoje em dia enchem de orgulho o povo charrúa pelo seu glorioso passado futebolístico.
Voltando ao relvado do Parque Pereira a magia uruguaia não se ficaria por ali. El Loco Romano ampliou a vantagem aos 17 minutos, sendo que já na segunda parte - ao minuto 77 - o mesmo Romano bisou na partida, fazendo desta forma o seu quarto golo na competição, o tento que o iria coroar como o rei dos goleadores deste segundo Campeonato Sul-Americano. Ainda antes do apito final do argentino Guassone o mais velho dos hermanos Scarone, Carlos, faria o 4-0 final, numa altura em que o relógio marcava 86 minutos.
Perante este resultado o cenário de 1916 voltava a repetir-se, ou seja Uruguai e Argentina iriam no derradeiro jogo da prova lutar pelo título de campeão. A final, assim era encarado esse encontro, estava marcada para 14 de outubro, mas antes disso, dois dias antes o Brasil fazia história. Diante de 10 000 pessoas os pupilos de Sílvio Lagreca esmagavam o Chile por 5-0, conquistando desta forma não só o terceiro lugar da copa mas acima de tudo a sua primeira vitória na ainda curta história de vida do certame continental.

Neste encontro um episódio curioso ocorreu. Quer Brasil quer Chile usavam camisola branca. Assim sendo os brasileiros foram obrigados a arranjar uma indumentária de outra cor, mas como na época as equipas/seleções não tinham mais do que um equipamento - e às vezes nem isso! - os brasileiros foram orbigados a ir a uma loja de material desportivo em Montevidéu comprar camisolas de outra cor. Vermelho foi a cor encontrada, e de vermelho vestido a seleção alcançaria então o seu primeiro triunfo na história da copa.
Com o terceiro lugar entregue ao Brasil as atenções focaram-se na final do dia 14. Mas antes disso um outro episódio caricato ocorreu na história deste campeonato de 1917. Amadores de alma e coração - o profissionalismo ainda só existia em Inglaterra - grande parte dos atletas que faziam parte do grupo argentino que se deslocou a Montevidéu teve de regressar a Buenos Aires para os... seus respetivos empregos! O futebol era tão somente uma paixão, e não o ganha pão do dia a dia, e como tal muitos dos craques das pampas tiveram de apanhar o barco de regresso à capital do seu país, deixando para trás o encontro decisivo do certame.


Perante isto a tarefa dos anfitriões ficou ainda mais facilitada. No derradeiro jogo da competição 40 000 pessoas lotaram por completo o Parque Pereira. 40 000 fervorosas almas que viram a estrela Héctor Scarone oferecer o título à celeste quando estavam decorridos 60 minutos de jogo. 
Um simples tento que deu o bi-campeonato sul-americano a um pequeno país cujo talento no futebol parecia ser inesgotável. Não estavam Gradín, Piendibene, ou Delgado, mas estavam outros capazes de continuar a caminhada triunfal que marcou a época dourada do futebol uruguaio. 
Na final outro episódio curioso ocorreu. Numa época em que não eram permitidas substituições o guarda-redes da casa, Saporitti, sofreu uma lesão a meio da contenda, tendo sido substituído pelo jogador de campo Manuel Varela, que até final se portou muito bem na posição de portero
O Uruguai terminava assim a competição invicto... e sem golos sofridos! 
Depois do último apito do chileno Juan Livingstone o Parque Pereira explodiu - naturalmente - de alegria.

 

Números e nomes:

30 de setembro de 1917

Uruguai - Chile: 4-0
(Carlos Scarone, aos 20m, aos 62m, Ángel Romano, aos 44m, aos 75m)

3 de outubro de 1917

Argentina - Brasil: 4-2
(Ohaco, aos 56m, aos 58, Calomino, aos 15m, Blanco, aos 80m)
(Neco, aos 8m, Lagreca, aos 39m)

6 de outubro de 1917

Argentina - Chile: 1-0
(Luis Garcia (p.b.), aos 76m)

7 de outubro de 1917
Uruguai - Brasil: 4-0
(Ángel Romano, aos 17m, aos 77m, Héctor Scarone, aos 8m, Carlos Scarone, aos 86m)

12 de outubro de 1917

Brasil - Chile: 5-0
(Haroldo, aos 26m, aos 59m, Caetano, aos 21m, Neco, aos 23m, Amilcar, aos 41m)

14 de outubro de 1917

Uruguai - Argentina: 1-0
(Héctor Scarone, aos 60m)

Classificação

1-Uruguai: 6 pontos
2-Argentina-4 pontos
3-Brasil: 2 pontos
4-Chile: 0 pontos

Legenda das fotografias:

1-O troféu instituido em 1917 que coroa - até aos dias de hoje, os vencedores do Campeonato Sul-Americano/Copa América
2-O Parque Pereira (estádio já desaparecido) onde decorreu toda a ação do certame de 1917
3-Ángel El Loco Romano, o melhor marcador da copa
4-Fase do duelo entre Argentina e Brasil
5-O português Casemiro do Amaral, que ocupou o posto de goleiro da seleção brasileira neste campeonato
6-Héctor Scarone, uma das estrelas do torneio
7-Amilcar, faz um dos cinco golos com que o Brasil - vestido de vermelho! - bateu o Chile
8-Seleção da Argentina
9-Héctor Scarone
10-Seleção brasileira
11-Fase do encontro entre chilenos e brasileiros
12-A seleção do Uruguai, bi-campeã das américas

Um comentário:

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