terça-feira, junho 05, 2012

História dos Europeus de Futebol (6)... Itália 1980

A poucos dias do início da grande festa do Euro 2012 o Museu Virtual do Futebol sobe a bordo da Máquina do Tempo para fazer uma viagem pela história da prova mais emblemática ao nível de seleções do Velho Continente. Itália é o nosso destino de hoje, país que em 1980 acolheu a 6º edição do certame chancelado pela UEFA. Uma edição desde logo diferente das cinco anteriores. O crescimento da competição em termos de popularidade obrigou a UEFA a fazer mudanças no figurino da fase final, pretendendo assim doar à prova uma dimensão condizente com prestígio e interesse que ela reunia a nível internacional. A alteração maior prendeu-se com o número de equipas finalistas, ou seja, os participantes da fase final, que passaram de 4 para 8! Novidade também o facto de o país que acolheria a dita fase final ser conhecido ainda antes da fase de qualificação, nação essa que ficava desde logo qualificada para a etapa decisiva do Euro.
Itália foi pois o país escolhido, ao qual se juntariam - após a longa fase de qualificação - outras 7 seleções, nomeadamente Inglaterra, Bélgica, Espanha, República Federal da Alemanha (RFA), Holanda, a campeã em título Checoslováquia, e a surpreendente Grécia, uma equipa até então praticamente desconhecida a nível internacional que venceu o grupo (de qualificação) onde estava inserida nada mais nada menos do que a seleção com mais presenças em fases finais do certame, a União Soviética.
Chegadas a Itália - que acolhia o Euro pela segunda vez na sua história - as seleções foram divididas em dois grupos de quatro equipas, residindo aqui também uma novidade em termos de fases finais, uma vez que nas edições anteriores a competição era apenas composta por meias-finais, jogo de atribuição dos 3º e 4º lugares, e final. Definido ficou que os vencedores de cada grupo seriam os finalistas da competição, enquanto que os segundos classificados iriam discutir entre si o 3º lugar.
Quatro cidades transalpinas acolheram o Euro 1980: Turim, Nápoles, Milão e a capital Roma.

Alemanha rejuvenescida garante final


No dia 11 de junho de 1980 a bola começa a rolar na 6ª edição do Campeonato da Europa. Frente a frente, no Estádio Olímpico de Roma, estiveram os dois finalistas da edição de 1976, a RFA e a Checoslováquia. Totalmente rejuvenescida - em relação à década dourada de 70, onde conquistaram o Euro 72 e o Mundial 74 - a seleção germânica vingaria a derrota surpreendente do jogo final de 76 graças a um golo solitário da jovem estrela do Bayern de Munique Karl-Heinz Rummenigge. No outro jogo do Grupo 1, em Nápoles, a Holanda - já sem os magos Cruyff e Neeskens, mas ainda com lendas como Krol, Haan, ou Nanninga - sentiu algumas dificuldades em derrotar por 1-0 a estreante Grécia. A fortaleza grega foi invadida apenas aos 65 minutos... e de grande penalidade!
Estes resultados inaugurais indicavam que muito dificilmente RFA ou Holanda não seriam uma das finalistas do Euro 80, e assim sendo o confronto entre as duas seleções rivais na jornada seguinte ganhava contornos de jogo decisivo. O mítico estádio San Paolo de Nápoles acolheria este clássico do futebol mundial. De um lado uma nova RFA, com jovens e promissores jogadores como Rummenigge, Klaus Allofs, Schumacher, Stielike, Schuster, e um tal de Lothar Matthaus, que prometiam seguir as pisadas da lendária geração alemã liderada por Franz Beckenbauer que na década anterior havia conquistado tudo o que havia para conquistar. Do outro uma "laranja" que mesmo sem o doce sumo de outrora se afigurava como uma equipa talentosa e habituada aos grandes palcos internacionais. Levariam a melhor os comandados de Jupp Derwall, um ex-adjunto do mestre da tática Helmut Schon que em 1978 assumiu os destinos da seleção teutónica, muito por culpa de um endiabrado Klaus Allofs, autor dos 3 golos com que a RFA bateu (3-2) a vizinha Holanda, e desta forma colocariam um pé na grande final da competição. Com este hattrick Allofs iria garantir no final do torneio o título de melhor marcador.
Uma outra nota curiosa neste jogo entre alemães e holandeses reside no facto daquele que anos mais tarde viria a ser considerado como um dos melhores jogadores do Mundo, de seu nome Lothar Matthaus, então um jovem com 19 anos, ter feito a sua única aparição em todo o Europeu, ao atuar durante os últimos 15 minutos.
No outro jogo do grupo reapareceu Panenka, o herói do Euro 76, ao apontar um dos três golos com que a Checoslováquia derrotou (3-1) a Grécia no Olímpico de Roma.
No derradeiro dia a Grécia fez uma gracinha ao alcançar um empate a zero bolas com os poderosos alemães, que assim garantiam o 1º lugar da chave e o consequente apuramento para a final. Checos e holandeses ficariam arredados do encontro mais aguardado, empatando entre si (1-1) num jogo que vincou o excesso de dureza com que a "laranja" se apresentou em Itália, e prova disso é o pontapé de Kist ao checo Jurkemik, e o soco de Rep ao também jogador checo Gogh. Já no desafio inaugural do grupo, ante a Grécia, a Holanda tinha abusado das entradas à margem da lei, o que levaria os gregos a acusarem os holandeses de jogo sujo. Para a Checoslováquia, a ainda detentora do ceptro de campeã, o Europeu não se ficava por ali, já que ainda restava o jogo de apuramento dos 3º e 4º lugares.
Já os gregos, que ninguém conhecia, a participação no Euro valeu pela experiência, pela oportunidade dos seus "anónimos internacionais" conviverem de perto com alguns dos nomes mais badalados do futebol mundial de então. Grécia que estaria por esta altura bem longe de imaginar o que iria acontecer 24 anos depois no Europeu realizado em Portugal. Mas isso são histórias para contar numa próxima visita à vitrina dos Campeonatos da Europa. Por agora continuamos a desfiar o novelo das peripécias do Itália 80.

Luta até ao fim no Grupo 2

E se no Grupo 1 a RFA acabou por não ter grandes dificuldades em garantir o 1º lugar, na outra chave do Euro a história foi bem diferente. No Grupo 2 houve equilíbrio e luta até ao fim, acabando por levar a melhor a seleção de quem talvez menos... se esperava! Favoritos? Itália e a Inglaterra. Mas tal acabaria por não ser tão evidente logo na 1º jornada realizada a 12 de junho. No Comunale de Turim a Inglaterra liderada pelo bi Bola de Ouro Kevin Keegan - além de vários elementos dos campeões europeus de clubes Liverpool e Nottingham Forest - não foi além de um empate a um golo diante da Bélgica que como estrela principal tinha Frankie Van der Elst. Tinha até esse dia, pois a partir dai o Mundo ficou a conhecer um naipe de talentosos jogadores que haveriam de conduzir os belgas a momentos épicos nos anos que se seguiriam. No Giuseppe Meazza, em Milão, a seleção da casa procurava repetir o êxito de 1968, quando diante do seu público venceu o Europeu. Mesmo abalada pelos escândalos das apostas desportivas, que afastou disciplinarmente, entre outros, a estrela Paolo Rossi, a squadra azzurra era apontada como uma das principais favoritas a vencer o torneio, já que talento não lhes faltava: Gentile, Tardelli, Cabrini, Causio, Graziani, e o veterano Dino Zoff eram a prova disso. Mas da teoria à prática o caminho por vezes é longo e sinuoso, e o que é certo é que a estreia da azzurra deixou muito a desejar conforme traduz o triste empate a zero golos ante a Espanha de Arconada.
A 15 de junho, em Turim, as duas - à partida - favoritas do grupo mediam forças, num duelo de tudo ou nada, ou seja, depois dos desoladores resultados averbados por ambas no primeiro jogo quem perdesse este confronto ficaria praticamente de fora da fase seguinte. 60 000 pessoas assistiram a um jogo intenso decidido ao minuto 79 por Tardeli. A Itália ganhava uma nova alma, acreditando que podia repetir a façanha de 1968, enquanto que os súbitos de Sua Majestade preparavam as malas para regressar a casa de forma inglória. Pior do que a exibição de "king" Keegan e seus súbitos foi o (mau) comportamento dos adeptos britânicos dentro e fora dos estádios italianos. O temível hooliganismo dava sinais da sua existência, e este era apenas um aviso das tragédias que iriam ser acontecer na sequência destes tristes comportamentos.
E em Milão a surpresa do torneio confirmava-se. A Bélgica mostrava que o empate com a Inglaterra não havia sido mera obra do acaso, e a prova disso foi o facto de a Espanha não ter tido argumentos para evitar a derrota (1-2) ante os "diabos vermelhos" liderados pelo mestre da tática Guy Thys. Com esta vitória os belgas estavam, contra todas as previsões, na frente do grupo, sendo que para atingir a final apenas precisavam de um empate com a seleção da casa no último jogo, já que apesar de por esta altura ambas as equipas terem os mesmos pontos contabilizados a Bélgica beneficiava do facto de ter mais golos marcados.
No Olímpico de Roma com 55 000 espetadores assistiu-se a um duelo empolgante. A squadra azzurra, como lhe era exigido, tudo fez para furar a bem escalonada muralha vermelha, mas pela frente encontrou um combinado moralizado pelas boas exibições patenteadas nos primeiros jogos. Além de que na baliza belga morava aquele que viria a ser considerado como um dos melhores guarda redes do planeta de todos os tempos, Jean-Marie Pfaff. 0-0 foi o resultado final de um jogo arbitrado pelo português António Garrido, de quem os italianos se queixariam bastante, acusando o juiz luso de não ter assinalado uma grande penalidade a seu favor já bem perto do final do encontro. Perante isto, a Bélgica estava de forma surpreendente na final, e ai, acontecesse o que acontecesse, nunca mais o Mundo se iria esquecer de nomes como Pfaff, Eric Gerets, Meeuws, ou Ceulemans.
Em Nápoles, num jogo sem história, Inglaterra despediu-se da competição com uma vitória (2-1) sobre uma desoladora Espanha.

Checoslovacos ficam com o último bronze exclusivo

No dia 21 de junho o Estádio San Paolo recebeu a final dos derrotados. Checoslováquia e Itália procuravam um lugar de destaque no pódio final da competição. E o resultado foi um triste e monótono 1-1 no final dos 90 minutos, facto que obrigou ao desempate através de grandes penalidades. Este cenário era por demais familiar aos checoslovacos que quatro anos antes haviam conquistado o Euro 76 na lotaria dos penaltis. E seria novamente desta forma que levariam para casa a medalha de bronze, acabando por vencer os transalpinos no "tiro ao alvo" por 9-8. A monotonia deste jogo traduzida na forma quase desinteressada que ambas as equipas encararam a disputa fez com que a UEFA decidisse posteriormente que dali em diante os derrotados das meias finais ficariam ambos com o 3º lugar do campeonato, "banindo" assim a "final de consolação" dos Europeus.

RFA sagra-se bi campeã da Europa

Domingo, 22 de junho de 1980. O Estádio Olímpico de Roma acolhia 48 000 espetadores que esperavam ansiosamente pela entrada em campo dos dois finalistas do segundo Euro realizado em solo italiano. Os alemães eram tidos como favoritos, e conformariam-no logo aos 10 minutos quando o possante avançado Hrubesch bateu Pfaff pela primeira vez. A RFA mandava no jogo, e só não ampliou o marcador ainda dentro da 1ª parte pois na baliza dos belgas estava o notável Jean Marie Pfaff. Na 2ª parte assistiu-se a mais do mesmo, ou seja, os alemães a ditar leis. Até já bem perto do final a Bélgica mostrou o porquê de estar ali, de ter deixado pelo caminho as favoritas Itália e Inglaterra. Num lance de contra ataque Van der Elst é rasteirado já bem perto da linha de limite da grande área. O árbitro romeno Nicolae Rainea não parece ter dúvidas e assinala grande penalidade. Os alemães protestam, alegando que a falta havia sido cometida ainda fora de área (como aliás se viria a confirmar nas imagens televisivas), mas pouco adiantou. Chamado à conversão do castigo Vandereycken não falhou e restabeleceu a igualdade no marcador quando faltavam pouco mais de 15 minutos para o final. Os "diabos vermelhos" estavam de volta ao jogo e à disputa do título. Mas a superioridade germânica era por demais evidente, e a dois minutos do final, quando muita gente já pensava no prolongamento, o gigante Hrubesch salta mais alto do que toda a gente - no seguimento de um pontapé de canto - para cabecear a bola para o fundo da baliza de Pfaff e sentenciar assim o jogo. Pouco depois o árbitro apitava pela última vez e consagrava a RFA novamente como campeã da Europa, a primeira seleção a conseguir vencer o Euro pela segunda vez na história. Depois de 1972 o ano de 1980 entrava na história do futebol germânico, e ficava bem patente que a geração de Beckenbauer, Maier, Vogts, Hoeness, e Gerd Muller havia encontrado em nomes como Allofs, Rummenigge, Schuster, Schumacher, e Hrubesch os seus dignos sucessores.
Para além do título coletivo a RFA levou para casa ainda os "títulos" de melhor marcador (Allofs, com 3 golos), e de melhor jogador do torneio (Rummenigge).

Jogos:


Grupo 1

1º Jornada

11 de junho, em Roma
RFA - Checoslováquia: 1-0
(Rummenigge, aos 57m)

11 de junho, em Nápoles
Holanda - Grécia: 1-0
(Kist, aos 65m)

2ª Jornada
14 de junho, em Nápoles
RFA - Holanda: 3-2
(Allofs, aos 20m, 60m, e 66m)
(Rep, aos 80m, e Van de Kerkhof)

14 de junho, em Roma
Checoslováquia - Grécia: 3-1
(Panenka, aos 6m, Vizek, aos 26m, e Nehoda, aos 62m)
(Anastopoulos, aos 14m)

3ª Jornada

17 de junho, em Milão
Checoslováquia - Holanda: 1-1
(Nehoda, aos 16m)
(Kist, aos 59m)
17 de junho, em Turim
RFA - Grécia: 0-0

Classificação

1- RFA: 5 pontos
2- Checoslováquia: 3 pontos
3- Holanda: 3 pontos
4- Grécia: 1 ponto

Grupo 2

1ª Jornada

12 de junho, em Turim
Bélgica - Inglaterra: 1-1
(Ceulemans, aos 30m)
(Wilkins, aos 26m)
12 de junho, em Milão
Itália - Espanha: 0-0

2º Jornada
15 de junho, em Milão
Espanha - Bélgica: 1-2
(Quini, aos 36m)
(Gerets, aos 17m, e Cools, aos 65m)
15 de junho, em Turim
Itália - Inglaterra: 1-0
(Tardeli, aos 79m)

3ª Jornada

18 de junho, em Roma
Itália - Bélgica: 0-0
18 de junho, em Nápoles
Espanha - Inglaterra: 1-2
(Dani, aos 48m)
(Brooking, aos 19m, e Woodcock, aos 61m)

Classificação

1- Bélgica: 4 pontos
2- Itália: 4 pontos
3- Inglaterra: 3 pontos
4- Espanha: 1 ponto

Jogo de apuramento dos 3º e 4º classificados
21 de junho, em Nápoles
Itália - Checoslováquia: 1-1 (8-9 nas grandes penalidades)
(Graziani, aos 73m)
(Jurkemik, aos 54m)

Final


RFA - Bélgica: 2-1

22 de junho, no Estádio Olímpico de Roma

Árbitro: Nicolae Rainea (Roménia)

RFA: Harald Schumacher, Manfred Kaltz, Bernard Dietz, Hans-Peter Briegel (Bernhard Cullmann, aos 55m), Karl-Heinz Forster, Uli Stielike, Karl-Heinz Rummenigge, Bernd Schuster, Horst Hrubesch, Hansi Muller, e Klaus Allofs. Treinador: Jupp Dewall

Bélgica: Pfaff, Gerets, Millecamps, Meeuws, Renquin, Cools, Vandereycken, Van Moer, Mommens, Van der Elst, e Ceulemans. Treinador: Guy Thys

Golos: 1-0 (Hrubesch, aos 10m), 1-1 (Vandereycken, aos 72m), 2-1 (Hrubesch, aos 88m)


Onze Ideal:

Pfaff (Bélgica)
Gerets (Bélgica)
Foerster (RFA)
Tardeli (Itália)
Dietz (RFA)
Briegel (RFA)
Rummenigge (RFA)
Schuster (RFA)
Vandereycken (Bélgica)
Nehoda (Checoslováquia)
Allofs (RFA)
 Melhor marcador:

Klaus Allofs (RFA): 3 golos



 Legenda das fotografias:

1- Logotipo do Euro 1980

2-Lance do duelo entre os vizinhos - e rivais - da RFA e da Holanda

3-Kevin Keegan bem tentou levar a Inglaterra longe neste Europeu, mas seriam os belgas que chegariam ao jogo mais ambicionado da competição

4-Uma imagem da final de Roma

5-O possante avançado alemão Hrubesch remata à baliza holandesa

6-Surpresa das surpresas: a desconhecida seleção da Grécia estava no Europeu, tendo sido a único na fase final do torneio que não seria derrotada pelos campeões da RFA! Nada mau para um estreante.

7-Uma imagem do Inglaterra - Bélgica com o hooliganismo britânico como (triste) pano de fundo

8-A equipa da casa, a Itália...

9-... e a grande surpresa da fase final: a Bélgica

10-O guarda redes e capitão da squadra azzurra, Dino Zoff, bem atento no desafio com os ingleses

11-A quase despercebida seleção espanhola

12-Checolováquia não repetiu o feito de 76, mas mesmo assim levou para casa o bronze

13-Mais um lance da grande final

14-Hrubesch acaba de marcar o golo que valeu o título à RFA

15-A pose final dos campeões: uma fotografia para a eternidade

16-Klaus Allofs, o melhor marcador do Euro 80

17-A taça viajava de novo para a RFA

18-Pela primeira vez na história da competição foi criada uma mascote. Em Itália foi o Pinochio.

Vídeo: RFA - BÉLGICA

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