segunda-feira, abril 25, 2022

Cidades do Futebol (5)... Vigo: o pontapé de saída do futebol em Espanha

Uma panorâmica da bela Cidade de Vigo
Os caminhos da História levam-nos por vezes a repensar factos que julgávamos inalteráveis, mas que afinal não o são. Vem isto a propósito da nossa viagem de hoje a Vigo... cidade onde nasceu o futebol em Espanha. É verdade, durante anos a fio pensou-se que Huelva teria sido o primeiro local onde se jogou pela primeira vez futebol no país vizinho, onde nasceu o primeiro clube, no caso o Club Inglés de Riotinto, mas já no século XXI, mais precisamente em 2012, um investigador de História local galega, de seu nome José Ramón Cabanelas, descobriu casualmente em pesquisas na hemeroteca do jornal Faro de Vigo uma referência ao juego de la pelota (jogo da bola) com data de 10 de junho de 1876 naquela cidade da região autónoma da Galiza. Esta notícia veio então contrariar o facto de que teria sido em 1878 que mineiros ingleses, que trabalhavam na mina de Riotinto, em Huelva, terão sido os introdutores do futebol em Espanha ao fundar o já referido Club Inglés de Riotinto.

Pois bem, estes novos factos comprovaram que foi pois em Vigo onde foram dados os primeiros pontapés numa bola de football no maior país da Península Ibérica pela mão, ou pelos pés neste caso, dos trabalhadores (engenheiros) ingleses do Eastern Telegraph Company.

Nesse sentido vamos então conhecer não só um pouco desta história como de igual modo algumas estórias do Belo Jogo que tiveram lugar nesta encantadora cidade galega pertencente à província de Pontevedra. Situada no sul da Galiza, Vigo é a segunda cidade mais povoada desta região autónoma, a seguir à Corunha. O seu porto marítimo trouxe-lhe riqueza e importância desde o século XIX, sendo hoje considerada a capital das Rias Baixas. Vigo é na atualidade o principal porto pesqueiro da Europa e o mais importante centro comercial e económico do sul da província de Pontevedra.

Os exilados ingleses introduzem o futebol em Vigo... e em Espanha

Uma rara imagem do Exiles Club,
em 1903
Recuando um pouco no tempo, constata-se que foi na segunda metade do século XIX que a cidade conheceu um crescimento acentuado, sobretudo no plano económico, com a abertura de inúmeras fábricas, o que trouxe a esta localidade banhada pelo Atlântico muitos trabalhadores estrangeiros. Ali instalou-se naquele período a telegrafia submarina do Cabo Inglês, a Eastern Telegraph Company, onde trabalhavam diversos engenheiros ingleses provenientes da região britânica da Cornualha. Foram estes cidadãos que em 1873 fundaram em Vigo um clube social, onde conviviam entre si e praticavam desporto, denominado de Exiles Club, ou se quisermos traduzir na língua de Camões, o Clube dos Exilados.

Ora, terá sido nesses convívios que a bola começou a rolar por aquelas paragens, sendo que sem rivais na região com quem pudesse medir forças, o Exiles defrontava equipas constituídas por marinheiros ingleses cujos barcos aportavam em Vigo. Jogos esses que eram disputados em terrenos situados na zona de Malecón. E a primeira referência a estes jogos, e que desmente a teoria de que o futebol em Espanha teve o seu início em Huelva, foi então descoberta pelo investigador viguês José Ramón Cabanelas, através de uma notícia publicada no Faro de Vigo e datada de 10 de junho de 1876 e que dizia o seguinte: "Os ingleses visitaram-nos novamente. Eles são tão gentis! Eles andam como quatro, pisam como seis e bebem como cinquenta. Pescam, caçam, fumam, pintam e jogam à bola de acordo com seu uso e modo". A juntar a esta notícia, Cabanelas afirma que inclusive que chegou a disputar-se uma competição entre as tripulações de marinheiros ingleses e o Exiles Club, denominada de Copa Primavera. Numa entrevista concedida ao Faro de Vigo em 2012, o investigador sustenta esta sua descoberta dizendo que os ingleses vieram para Vigo em 1873, precisamente dez anos depois da fundação em Inglaterra da Football Association, trazendo consigo, desde o primeiro momento, os seus costumes vitorianos para a cidade galega, entre eles o futebol.

Vestígios fotográficos do Exiles Club, que terá sido provavelmente o primeiro clube em Espanha a dedicar-se ao futebol, são raros, conhecendo-se apenas uma fotografia de uma equipa de 1903. Sabe-se de igual modo que as suas cores eram o preto e o branco, precisamente as cores da bandeira da região da Cornualha.

Os vizinhos que deram as mãos para fundar um grande clube na cidade

Vigo FC
Não se sabe ao certo quando este emblema foi extinto, sabendo-se apenas que do seu palmarés consta a vitória numa Copa Pontevedra, em 1907, um torneio regional, numa altura em que o futebol se tinha expandido já por toda a região com a existência de inúmeros clubes. Inclusive em Vigo, que era já a casa dos rivais Vigo Football Club (fundado em 4 de junho de 1903) e do Fortuna Football Club (criado a 11 de setembro de 1905). O primeiro emblema chegou mesmo a ser considerada a melhor equipa da cidade durante vários anos, tendo sido o vencedor da primeira edição do Campeonato Regional da Galiza, em 1905, após derrotar na final o vizinho e rival Fortuna.

Curiosamente, a primeira casa do Vigo FC foi precisamente o campo de jogo do Exiles Club, passando em 1908 para aquele que pode ser considerado como o primeiro grande estádio viguês, o Campo de Coya. Ali, jogou-se futebol até 1928, tendo sido inclusive palco de uma final da Copa del Rey (Taça de Espanha) entre o Barcelona e o Real Unión de Irún, ganha pelos catalães.

A camisola bipartida com as cores vermelha e branca, as cores da província marítima de Vigo, usada pelo Vigo FC ficaram famosas nas só na cidade como em toda a região da Galiza. O clube ganhou diversos campeonatos galegos, tendo inclusive um desses triunfos lhe permitido jogar a mais importante competição do futebol espanhol de então, a Copa del Rey.  E numa dessas edições chegou mesmo à final, ante o mais poderoso emblema do país, o Madrid Football Club, que anos mais tarde seria rebatizado como... Real Madrid. Nessa final, disputada no Estádio de O'Donnell, caso do Madrid FC (!), o Vigo FC saiu derrotado pela margem mínima (1-2), mas rezam as crónicas que apresentou bom futebol praticado por excelentes artistas. Na verdade, os melhores jogadores da Galiza daquele tempo vestiam as cores do Vigo FC, sendo que dois deles deixaram esta região autónoma para rumar à capital de Espanha para vestir as cores do emergente gigante Madrid FC. Falamos dos irmãos Yarza, Manuel e Joaquim, quiçá as primeiras lendas do futebol com origens em Vigo. Mas deles já iremos falar com detalhe mais adiante.

O Fortuna de Vigo em 1912
A cidade era naqueles dias habitada por outro clube com arte para o juego de la pelota, como era então denominado o futebol, no caso o Fortuna, dois anos mais novo que o seu vizinho. Repartiam entre si o domínio não só do futebol viguês como de toda a região, tendo o Fortuna vencido o Campeonato da Galiza em nove ocasiões: 1906, 1907, 1910, 1911, 1912, 1915, 1918, 1921 e 1922, ao passo que o seu rival o fez por oito vezes: 1907, 1908, 1914, 1917, 1918, 1919, 1920 e 1923.

O Fortuna está não só ligado à história do futebol galego como também do futebol português. É verdade. Tudo porque a 15 de dezembro de 1907 o clube viguês deslocou-se ao nosso país para defrontar o FC Porto, no Campo da Rainha. Este encontro foi histórico porque pela primeira vez um clube estrangeiro atuava em solo luso.

Irmãos Yarza: as primeiras lendas nascidas em Vigo

Os irmãos Yarza, Quincho e Manuel, 
com as cores do Real Madrid
Mas voltando aos irmãos Yarza, eles foram as primeiras estrelas nascidas em Vigo. Joaquín, ou Quincho como ficou eternizado, era o mais velho. Nasceu em 1881 e ficou na história do próprio futebol espanhol pelo facto de ter sido o primeiro futebolista a ser pago para jogar, algo inédito numa época onde reinava o amadorismo.

Por sua vez, Manuel nasceu em 1884, e juntamente com o seu irmão ajudou a abrir o glorioso livro da história do Real Madrid. Os dois irmãos rumaram à capital no início do século XX, tendo ali ajudado a fundar o Moderno Football Club, emblema fundado em 1902 e que pouco tempo depois seria absorvido, digamos assim, pelo Madrid FC. Manuel e Quincho estiveram nessa transição, vestiram a camisola dos merengues entre 1903 e 1908, ajudando o clube a conquistar os seus primeiros títulos, mais em concreto quatro Copas del Rey (de 1905 a 1908). Além de jogador Manuel tinha de igual modo funções administrativas dentro do clube. Era membro do Conselho de Administração enquanto no retângulo de jogo atuava como um médio forte e eficaz. Por seu turno, Quincho, começou a jogar como ala, mas depressa se tornou num defesa implacável, formando uma dupla lendária com Berraondo graças à sua força física aliada à sua qualidade.

Após a aventura em Madrid, Quincho regressou à sua cidade natal onde defendeu as cores do Vigo FC durante duas temporadas, ao passo que o seu irmão Manuel continuou pela capital, tendo atuado entre 1908 e 1911 no Club Español de Madrid.

Vigo precisa de um clube único que una o povo da cidade

Manuel de Castro
Foi na segunda década do século passado que o célebre jornalista do Faro de Vigo, Manuel de Castro, acompanhava com atenção o futebol que era jogado não só na sua cidade como pelo resto da Espanha. Pelo punho do referido jornalista foram escritos alguns artigos dando nota de que Vigo precisava de um único clube, isto é, um clube que unisse as pessoas e que fosse forte o suficiente para fazer face aos outros emblemas que proliferavam pelo resto do país. Juntamente com Juán Baliño, Castro foi um dos impulsionadores do movimento «Todo por y para Vigo» (tudo por e para Vigo), tendo  objetivo a criação de um só clube na cidade. Esta proposta teve a aceitação dos dois clubes da terra, o Fortuna e o Vigo FC, sendo que a 10 de agosto de 1923 nascia, resultante da fusão destes dois emblemas, o Real Club Celta de Vigo.

Não foi contudo um parto fácil, desde logo pela escolha do nome do novo clube, que foi motivo de divergência de opiniões. Real Unión de Vigo, Club Galicia, Real Atlántic, Breogán e Real Club Olímpico, foram os nomes inicialmente propostos, até que para acabar com o impasse alguém propôs que se olhasse para as raízes das Rias Baixas, para a história daquela região mais a norte da Península Ibérica, outrora habitada pelos povos celtas... Celta, ora aí está um bom nome, que de pronto ficou assente.

O clube começou de pronto a saltar para o campo para mostrar a camisola azul celeste que se iria tornar célebre nas décadas seguintes, ao disputar os seus primeiros encontros - a estreia aconteceu numa partida entre todos os jogadores do plantel, uma parte liderada por Otero, outra por Clemente, tendo o "onze" do primeiro atleta vencido por 2-0. Como curiosidade refira-se que o primeiro jogo contra outro clube ocorreu a 23 de setembro de 1923, mais precisamente contra os portugueses do Boavista, que saíram do Campo de Coya, a primeira casa do Celta, com uma pesada derrota por 8-2.

O emblema rapidamente começou a competir nas provas regionais, ganhando o primeiro campeonato galego da sua história logo no ano de estreia, em 1923. O Celta foi crescendo nos anos seguintes, e na época de 1939/40 faz a estreia no principal escalão do futebol espanhol, onde esteve de forma quase ininterrupta durante 20 anos, exceção feita à temporada de 44/45, altura em que disputou a 2.ª Divisão.

Por esta altura era treinador do Celta Don Ricardo Comesaña, para muitos o primeiro grande técnico do clube, um homem também ele nascido em Vigo em finais do século XIX, e que entre 1935 e 1940 esteve ao leme da equipa. Ele foi o responsável pela primeira subida do Celta à 1.ª Divisão e ainda hoje qualquer adepto do clube, seja qual for a idade, sabe quem ele foi e o que ele significa para o celtismo.

Pahiño, o príncipe das Rias Baixas

Pahiño
1923 foi como já vimos o ano de fundação do Celta de Vigo e foi também o ano em que nasceu outro génio do futebol galego: Manuel Fernández Fernández, ou simplesmente Pahiño. A sua louca obsessão pelo golo fez com que seja ainda hoje recordado como um dos mais prolíferos avançados da história do futebol espanhol. Dos seus (bons) pés - sobretudo - foram disparadas autênticas balas de canhão que destruíram as balizas contrárias vezes sem conta. Ah, noutras ocasiões a meta adversária era igualmente fuzilada com letais cabeceamentos, já que além de dois bons pés Pahiño era também senhor de um bom jogo de cabeça. Talento(s) descobertos nas areias das praias de Vigo, onde Manuel Fernández Fernández esquecia - por certo - a vida dura do campo (agricultura), lides às quais desde muito novo se habituara com o objetivo de ajudar no sustento da sua família. Nas praias desta cidade estão pois guardadas as primeiras histórias de intimidade entre Pahiño e a bola, uma relação que se assumiu - de forma mais séria - em Arenas de Alcabre, o primeiro emblema a ser oficialmente representado pelo niño nascido a 21 de janeiro de 1923, em San Playo de Navia, nos arredores de Vigo. Estávamos ainda um pouco longe do casamento entre Pahiño e o Celta, mas não deixa de ser curioso que o jogador e o clube tivessem vindo ao Mundo no mesmo ano! Obra do acaso? Se calhar não... De Arenas de Alcabre para o Juventudes de Vigo - o seu segundo clube - o caminho foi curto, já que o poder de fogo de Pahiño começava a ter eco por toda a Galiza.

Apercebendo-se que mesmo por debaixo do seu nariz deambulava um talento na arte de bombardear o esférico para as balizas contrárias, eis que em 1943 o Celta de Vigo não mede esforços para contratar aquela que viria a ser a jóia da (sua) coroa nos cinco anos que se seguiram. O fichaje do poderoso avançado não foi contudo um parto fácil, longe disso. Na corrida pelo concurso do nativo de San Playo de Navias estava também o Salamanca, emblema que na altura tentava entrar na elite do futebol espanhol, o mesmo será dizer, ascender à 1.ª Divisão. No entanto, os helmánticos foram vencidos pelo coração! Pelo coração celtista que pulsava dentro do jovem Pahiño, que ainda criança, pela mão do seu pai, travou-se de amores pelas camisolas azuis celeste que aos domingos à tarde reluziam no relvado de Balaídos. Nessa época estaria ainda distante de imaginar que também ele um dia iria brilhar com a indumentária celtista nos retângulos do futebol espanhol, ajudando a edificar - em seu redor - uma das equipas mais lendárias da história do clube de Vigo, que durante uma mão cheia - pelo menos - de temporadas assombrou os gigantes do Belo Jogo castelhano.

Um aspeto do Campo da Coya, 
a primeira catedral do futebol viguês
Estávamos em 1943 quando Pahiño - com 19 anos - chegou a Balaídos. No entanto, e apesar da monstruosidade do seu poder de fogo, o Celta não foi feliz na temporada de 1943/44, foi último de uma Liga vencida por um Valência onde se destacava o goleador Mundo, e acabou por descer aos infernos da 2.ª Divisão. Passagem pelo inferno que seria fugaz, já que na época seguinte a garra de Pahiño aliada ao seu instinto de predador catapultou o Celta de novo para o convívio entre os grandes do futebol espanhol. Episódio lendário que ressalva do trajeto glorioso do Celta em 44/45 prende-se com o jogo final que dava acesso à promoção. Frente a frente mediram forças no (Estádio) Metropolitano de Madrid o Celta e o Granada, e quem vencesse ganhava o bilhete para a Primera. Pahiño, titular indiscutível dos celtistas desde que havia chegado a Balaídos, foi a estrela da tarde. No relvado do mítico recinto da capital fez jus ao seu estatuto de temível homem de área, fazendo dois golos durante a primeira parte. Performance que faria com que os defensores contrários lhe dedicassem atenções... suplementares. Alvo de uma entrada violenta de Milán González o goleador celtista fraturou o perónio, facto insuficiente para que deixasse de... continuar em campo na etapa complementar e ajudasse o Celta a vencer por 4-1.

Ricardo Comesaña
De volta à 1.ª Divisão, o Celta viveu nas três temporadas seguintes alguns dos capítulos mais cintilantes da sua história. Sempre... aos ombros daquela que era já a sua maior estrela, Pahiño. Nos palcos da Primera o goleador galego foi pedra fundamental para que os celestes se afirmassem como uma das equipas mais encantadoras da liga, e sobretudo num osso duro de roer para emblemas de maior dimensão. Que o diga o poderoso Real Madrid, que em 45/46 tombou em Balaídos por concludentes 3-0, ou o campeão dessa temporada, o Sevilha, que nas Rias Baixas afundou-se depois de ter levado quatro (a zero)! Foi igualmente durante o regresso do Celta ao convívio entre os grandes que nasceu uma rivalidade protagonizada entre dois mitos da história do futebol espanhol na arte de fuzilar as redes contrárias. Pahiño, claro está, e Telmo Zarra, o herói basco do Athletic de Bilbao que ainda hoje detém o título de melhor marcador de sempre da 1.ª Divisão espanhola, com 252 remates certeiros. Zarra, como iremos perceber nas próximas linhas, foi quiçá o grande obstáculo que Pahiño encontrou ao longo da sua carreira para conquistar um lugar de destaque no... Olimpo do futebol global. Em 45/46 o celtista apontou 15 golos, menos nove que Zarra, que desta forma levava para a sua vitrina pessoal o troféu Pichichi, galardão que distingue o melhor marcador do campeonato espanhol. E se Pahiño e Zarra lutavam entre si por um lugar na eternidade do Belo Jogo, na época seguinte Vigo acolhe de braços abertos um homem que há muito repousava no panteão do desporto rei planetário. O seu nome? Ricardo Zamora. Il Divino, como ficou imortalizado na história do jogo, era agora treinador, e depois de ter passado pelos bancos do Nice (França) e do Atlético Aviación (nome pelo qual na época era conhecido o atual Atlético de Madrid) assentava arraiais nas Rias Baixas, onde iria construir uma equipa lendária. E se a primeira temporada (46/47) de Zamora em Vigo não foi por ai além, já que o Celta não conseguiu melhor do que um 9º lugar, a segunda foi a todos os títulos memorável. Para o Celta e para... Pahiño. A nível coletivo os celtistas alcançariam um inédito quarto posto, ficando a somente seis pontos do campeão Barcelona, na sequência de uma coleção de resultados absolutamente brilhantes. Vejamos: de Balaídos saíram humilhados o campeão Barcelona (3-2), o vice-campeão Valência (5-2), o Atlético de Madrid (3-1), e o Real Madrid (4-1). Aliás, os merengues iriam sofrer nessa mítica época uma dupla humilhação aos pés dos pupilos de Zamora, visto que na capital a dose (4-1) repetiu-se a favor dos galegos. Mas a epopeia galega não se ficou por aqui. Na Copa del Generalíssimo - atualmente denominada como Copa del Rey - o Celta alcançou a final, onde seria travado pelo Sevilla (4-1) no Metropolitano de Madrid, o mesmo recinto onde poucos anos antes Pahiño e o Celta haviam sido tão felizes.

Apesar da derrota, o Celta foi rotulada como a equipa sensação dessa temporada, muito graças ao cunho pessoal da sua estrela-mor, Pahiño, que com 23 golos venceu o seu primeiro Troféu Pichichi.

A veia goleadora de Pahiño era por demais saliente, e nesse ano de 1948 atinge a sua primeira internacionalização, ao representar a Espanha num amigável ante a Suíça, ocorrido em Zurique.

A brilhante caminhada celtista chamou à atenção dos tubarões do futebol espanhol, que centravam os seus olhares devoradores em nomes como Miguel Muñoz, Alonso, e claro, Pahiño, as estrelas daquele Celta. Sabendo que o seu talento era por demais admirado por clubes de maior envergadura o internacional galego exigiu à direção azul celeste um aumento de salário, argumentando que era não só um dos grandes abonos de família da equipa, como também que outros colegas seus que raramente pisavam o relvado - na condição de titulares - usufruíam de salários muito mais elevados do que o seu. A ação de Pahiño foi desde logo apelidada de anti-celtista, e o jogador é de pronto olhado por dirigentes, (alguns) companheiros e muitos adeptos como mercenário, anti-galego, ou conflituoso, alguns do mimos que recolheu naquele verão de 48. Cansado deste braço de ferro, equacionou a hipótese de abandonar o futebol (!), pensamento somente travado pelo Real Madrid, que nesse final de temporada de 47/48 viaja até Vigo para pescar Miguel Muñoz, Alonso, e Pahiño. Consumado o divórcio com o Celta o goleador galego celebra um casamento de cinco épocas com o laureado emblema da capital, conquistado de pronto a admiração dos exigentes adeptos merengues na sequência da sua infindável garra aliada à vincada veia de concretizador nato.

Balaídos nos anos 30
Na primeira temporada equipado de blanco, o galego aponta 21 golos, ficando a somente sete do Pichichi desse ano, César, do Barcelona. Nos anos que se seguiram o seu nome figurou sempre no top 5 da lista dos melhores marcadores da 1.ª Divisão, sendo que em 51/52 alcança o título de Pichichi da Liga pela segunda vez na sua carreira, fruto dos 28 golos convertidos. Despediu-se do Real Madrid na temporada seguinte, porque Don Santiago Bernabéu, o lendário presidente do clube, não renovava por mais de um ano contrato com jogadores cujo Bilhete de Identidade apresentasse uma idade superior a 30 anos. Pahiño queria mais tempo - três anos de contrato, ao que consta - e a polémica instalou-se de novo na carreira de um jogador que se viu obrigado a procurar abrigo noutro local. Consta-se - ainda - que o Real Madrid não fez grande esforço em tentar segurar o galego, até porque tinha acabado de contratar um jovem prodígio argentino chamado... Alfredo Di Stéfano. Aquele que muitos afirmam ter sido o melhor jogador da história do clube merengue herdou a camisola número 9 do galego Pahiño, que partia de Madrid com um impressionante registo de 108 golos apontados em 122 jogos disputados, mas com a mágoa de nunca ter ganho um troféu coletivo com o colosso madrileno.

Algo frustrado, Pahiño procura abrigo na sua região natal, a Galiza, para onde regressa no verão de 1953, com o intuito de representar o... Deportivo da Corunha! Foi como um punhal cravado nas costas da afición celtista, que via uma das suas maiores lendas, um filho da terra, vestir agora a camisola do eterno inimigo do norte, o Depor. Na Corunha esteve três temporadas - sempre na 1.ª Divisão - tendo apontado perto de meia centena de golos com a camisola azul e branca. Após abandonar a Corunha ainda jogou uma temporada na 2.ª Divisão ao serviço do Granada, o tal clube que anos antes lhe havia dado cabo do perónio no Metropolitano de Madrid, mas o tempo acabou por apagar as más memórias desse momento menos feliz da carreira do homem de San Playo de Navia, o qual ajudou os granadenses a subir à divisão maior do futebol espanhol.

Posto isto: missão cumprida, e Pahiño pendurava as chuteiras com um impressionante registo de 212 golos apontados em quase 300 encontros - 295 para sermos mais precisos - disputados. Viria a falecer em Madrid, aos 89 anos, a 12 de junho de 2012, precisamente no ano em que José Ramón Cabanelas descobriu que Vigo - a cidade natal de Pahiño - foi o local onde se jogou futebol pela primeira vez em Espanha. Há coincidências fantásticas!

Rivalidade Celta vs Deportivo da Corunha

E já que neste longo registo biográfico foi mencionado o nome do Deportivo da Corunha, há que frisar que hoje, quase 100 anos após a sua fundação, o Celta tem no clube do norte da Galiza o seu eterno rival. Há inclusive uma história que conta os primeiros capítulos desta rivalidade (quase) centenária e que remonta a 1928, ano em que foi criada a 1.ª Divisão de Espanha. Pelo facto de o Vigo FC ter disputado anos antes uma final da Copa del Rey a Real Federación Española de Fútbol quis oferecer ao Celta um presente, isto é, o privilégio de fazer parte da elite do futebol espanhol nesse primeiro campeonato nacional. Porém, outros clubes da liga achavam que os azuis celestes teriam de fazer por merecer a sua presença no escalão maior, tendo o emblema de Vigo acabado por ir disputar a 2.ª Divisão. E um dos clubes que mais pressão fez para que o Celta não disputasse a Primera foi o... Deportivo da Corunha. Nascia assim a eterna rivalidade que nas décadas seguintes teve tantos outros episódios históricos. 

Celta: um clube de altos e baixos

A equipa do Celta que fez
a estreia na UEFA
Os anos 60 foram algo cinzentos para os lados da Rias Baixas, com o Celta mergulhado no segundo escalão de Espanha. Nos anos 70 a situação foi ligeiramente alterada, com o emblema viguês a disputar em algumas épocas a 1.ª Divisão. Porém, não foram criadas raízes neste escalão, e o Celta era então uma espécie de clube ió-ió, ou seja, do sobe e desce constante. No entanto, a década de 70 trouxe outro registo histórico ao emblema viguês, que em 1972 participa na Taça UEFA como prémio para um fantástico 6.º lugar na temporada de 70/71. Em setembro de 72 o Estádio de Balaídos entrou na Europa, com o Celta a receber os escoceses do Aberdeen. Os 17.000 celtistas presentes no recinto viram o seu clube pagar caro a inexperiência nas eurotaças, já que o Celta caiu por 0-2. Duas semanas mais tarde nova derrota (1-0) na Escócia e dava-se o adeus à Europa na estreia. Mas... décadas mais tarde o cenário ira mudar por completo.

Em 1994, o Celta atinge pela segunda vez na sua história a final da Copa del Rey. 20.000 adeptos celtistas deslocaram-se a Madrid para assistir ao jogo diante do Real Zaragoza, naquela que foi a maior mobilização, até então, de adeptos do clube para fora da região da Galiza. Porém, a vitória foi para os aragoneses, nas grandes penalidades, e o Celta deixava escapar novamente a taça.  

Nos finais do século XX eis que surge o Euro Celta. A equipa que encantou a Europa, vergando alguns dos gigantes do futebol continental. Com uma equipa que contava com estrelas como Mostovoi, Karpin, Mazinho, Dutruel, ou Gudelj, orientada pelo técnico Javier Irureta, o Celta afastou em 1998, na Taça UEFA, clubes como o Aston Villa e o Liverpool, acabando por cair nos quartos-de-final da prova ante o Marselha. Mas o aviso estava dado, o Celta queria apanhar o comboio da Europa.

O Celta na final da Copa de 1994
Em 2000 os vigueses vencem a Taça Intertoto, o seu único troféu oficial em quase 100 anos de vida, e voltam a entrar na UEFA. Na fase a eliminar desta competição o Celta atropelou numa das eliminatórias o famoso Benfica por 7-0 nos Balaídos, deixando depois pelo caminho a Juventus e caindo de novo nos quartos-de-final ante um clube francês, no caso o Lens. Na temporada seguinte as camisolas celestes voltam à Taça UEFA, atingindo de novo os quartos-de-final, tendo o emblema de Vigo sido eliminado pelos conterrâneos do Barcelona, após deixarem pelo caminho clubes como o Estugarda, o Estrela Vermelha ou o Shakhtar. Nesta altura o clube era orientado pelo treinador Víctor Fernández e tinha no seu plantel nomes famosos como Claude Makelele, Penev, Catanha, Gustavo López, ou Jesuli.

O Celta que atropelou o Benfica em 2000
Em 2001 surge outro amargo de boca na vida do clube. O Celta chega pela terceira vez na história a uma final da Taça de Espanha, tendo como opositor um velho conhecido nestas andanças, o Real Zaragoza. Em Sevilha, a equipa aragonesa leva de novo a melhor sobre os azuis celestes, desta feita por 3-1. As lágrimas voltaram a cair sobre os rostos celtistas, mas por pouco tempo. Em 2003/04 Vigo entra na rota da Liga dos Campeões Europeus. O 4.º lugar conquistado na temporada anterior garante ao Celta uma inédita participação na prova mais importante do futebol mundial a nível de clubes. José Manuel Pinto, Eduardo Berizzo, Sylvinho, Fernando Cáceres,  Giovanella, Gustavo López, Mostovoi, ou Milosevic, eram alguns dos nomes que passearam a camisola celeste na liga milionária. O Celta começou a fase de grupos com um empate no terreno do Club Brugge, onde Juanfran foi herói e vilão, ao marcar pelas duas equipas. Seguiu-se outro empate, desta feita a zero, em casa, frente ao Milan e uma derrota em Amesterdão por 1-0, com o Ajax. Na segunda volta o Celta conquista a primeira vitória na prova ao vencer os holandeses por 3-2 em Vigo. Depois disso, novo jogo em casa e novo empate com o Club Brugge, de novo por 1-1. Chegados à derradeira jornada o  Celta precisava de vencer o já qualificado Milan. E num dos palcos mais famosos do futebol mundial, San Siro, o Celta venceu por 2-1 e qualificou-se para a fase a eliminar da prova. Nos oitavos-de-final, o sonho azul celeste foi desfeito pelo Arsenal, que com duas vitórias eliminou os galegos por um total de 5-2.

Após algumas passagens pelo inferno da 2.ª Divisão eis que a partir de 2012 o Celta fixou-se, até aos dias atuais, na elite do futebol espanhol, tendo de lá para cá tido algumas aparições brilhantes, como foi o caso da campanha europeia de 2016/17, em que o clube só caiu aos pés do Manchester United, de José Mourinho, nas meias-finais da Liga Europa. Hoje, o Celta é mais do que o tal clube que um dia o jornalista Manuel de Castro sonhou: um clube da cidade. O Celta é hoje uma das principais bandeiras desportivas da Galiza, e um dos mais populares e acarinhados emblemas de Espanha.

Balaídos, a mítica catedral onde começou a caminhada gloriosa da Itália no Mundial de 1982

O mítico Estádio Balaídos
Como já vimos, o Campo de Coya foi a primeira grande catedral futebolística de Vigo.

Porém, um ano após a sua fundação o clube é notificado para abandonar o terreno, com vista à construção da linha de elétrico naquela zona da cidade. É então que se começa a idealizar o projeto de construção do que viria a ser o Estádio de Balaídos, a mítica casa do Celta. O estádio começa a ser construído em 1925, e seria destinado a 20.000 espectadores. A sua conclusão estava prevista para o ano seguinte, mas contratempos na empreitada fizeram com que só em dezembro de 1928 o recinto abrisse oficialmente as suas portas. 30 de dezembro desse ano foi pois um dia de festa na cidade de Vigo. Pessoas de várias localidades vizinhas como Gondomar, Baiona ,ou Cangas acorreram ao local para presenciar a inauguração, abrilhantada por uma goleada (7-0) do Celta ao Real Unión Irún. De lá para cá Balaídos tornou-se no santuário do celtismo, vivendo muitas alegrias e muitas tristezas também, mas sempre com a paixão azul celeste a transbordar nas suas bancadas. Com o passar dos anos este estádio tornou-se num dos símbolos do futebol espanhol, não só pela paixão com que ali se vive os jogos, mas de igual modo porque fez parte, ou faz, dos poucos recintos que hoje guarda a história do único Campeonato do Mundo da FIFA realizado em solo espanhol, no ano de 1982.

Foi em Vigo, e nos Balaídos, que a Itália começou a caminhar rumo ao título mundial nesse ano de 82, um início que até não foi muito prometedor para a Squadra Azzurra.

Itália - Perú, do Mundial de 82,
jogado no Balaídos
A Itália, então orientada por Enzo Bearzot, e que estava recheada de craques como Dino Zoff, Claudio Gentile, Marco Tardelli, Bruno Conti, ou Paolo Rossi, disputou todos os seus jogos da 1.ª fase desse Mundial em Vigo, uma das 14 cidades espanholas que acolheu a prova. Previa-se que os italianos não tivessem grandes dificuldades para ultrapassar um grupo composto por Polónia, Perú e os estreantes e então desconhecidos Camarões. Porém, a realidade foi outra. No primeiro encontro, ante a Polónia de Boniek, empate a zero. Tudo bem, nada de alarmes, até por os adversários seguintes eram na teoria mais acessíveis. Com o Perú, Bruno Conti marcou primeiro, mas Rúben Díaz empatou e a Itália estava em maus lençóis. A última partida era com os Camarões, que na frente tinham um até então desconhecido Roger Milla. À mesma hora jogava-se o Polónia-Perú, na Corunha. No início da segunda parte deste encontro os polacos marcaram quase cinco golos de rajada, enquanto a Itália voltava a empatar, e de novo a um golo. Graziani e M’Bida fizeram os golos. A Itália só passou o grupo porque marcou mais um golo do que os Camarões, que também haviam tido três empates, sendo que a Polónia acabou em primeiro do grupo. A Itália despedia-se de Vigo com um futebol medíocre, sem um antídoto para chegar às vitórias, e muitos pensavam então que aquela equipa pouco iria durar no Mundial espanhol a jogar daquela maneira. Puro engano. Tudo mudou na 2.ª fase, graças a um tal de Paolo Rossi que comandou a Azzurra rumo ao título conquistado em Madrid. Ah, e pelo caminho deixou aquela que muitos dizem ter sido uma das melhores seleções brasileiras de todos os tempos.

O futuro Estádio de Balaídos

Balaídos poderá ter sido uma pedra no sapato a Itália, ou então um alarme que o acordou a seleção de Enzo Bearzot, mas acima de tudo é um estádio que mítico, que já vivenciou grandes tardes e noites (muitas delas europeias) do Celta. Hoje, o recinto está em profunda remodelação, e dará lugar a um novo Balaídos, mas sempre com a ideia de continuar a fazer de Vigo uma... cidade de futebol.

segunda-feira, abril 04, 2022

E já passaram 16 anos desde que o Museu Virtual do Futebol abriu as suas portas...

 



O tempo passa quase sem darmos conta, e de repente apercebemo-nos de que já estamos de portas abertas há 16 anos! É verdade, o Museu Virtual do futebol celebra hoje o seu 16.º aniversário. 
16 anos a viajar pelo mundo encantado do Belo Jogo, recordando factos que por vezes parecem esquecidos no tempo, e dando conta de outros que passaram despercebidos na "linha do tempo". Mas de todos eles demos conta munidos de uma paixão desmedida por esta modalidade que tantos nos fascina. Pois bem, aqui estamos, de pedra e cal, prontos para continuar esta viagem junto de todos aqueles que nos vão visitando, dia a pós dia, e que vão também contribuindo para que as nossas portas permanecem abertas.

sexta-feira, abril 01, 2022

Arquivos do Futebol Português (22)...

O Benfica de Cosme Damião e Cândido de Oliveira viu facilitada 
a sua tarefa de vencer o campeonato de Lisboa após a desistência do rival Sporting

Houve mosquitos por cordas na temporada de 1915/16 no seio do futebol lisboeta. O Sporting, campeão lisboeta em título, desiste do Campeonato Regional em claro pé de guerra com a associação de futebol por causa de um castigo aplicado por este órgão ao capitão leonino Francisco Stromp. Estávamos no virar do campeonato, isto é, na entrada para a segunda volta, altura em que sportinguistas e benfiquistas lideravam taco a taco a competição. Terá sido por esta altura que o Club Internacional de Football (CIF) convidou o Sporting e o Império para uma partida amigável, sendo que estes dois últimos clubes iriam a jogo unidas, isto é, apresentavam um "onze" composto por jogadores de ambos os lados. Acontece que o Império havia sido castigado pela Associação de Futebol de Lisboa (AFL) por 60 dias no âmbito de uma questão burocrática. Assim sendo, a AFL não aprovou este encontro amigável entre CIF e o misto do Sporting e do Império, resolvendo aplicar uma suspensão aos capitães de CIF e do Sporting - Stromp e Picão Caldeira - por considerar a participação neste jogo treino um ato de desobediência, retirando os dois atletas da convocatória da seleção distrital que iria defrontar a sua congénere portuense dali a dias.

O Sporting não concordou com esta decisão e decidiu, em protesto, retirar todas as suas equipas da competições organizadas pela AFL, deixando assim o caminho aberto para que o Benfica revalidasse o título regional. Em solidariedade com os sportinguistas também o CIF e o Império retiraram as suas equipas da competição, tendo a AFL suspendido os três clubes por cinco meses devido a este ato, decretando o Benfica como campeão regional, tendo em conta que os encarnados já haviam vencido na segunda volta o Lisboa FC, o outro clube que participou no Regional lisboeta de 15/16.  

Para a história ficam os nomes dos campeões lisboetas desta temporada: Stock, Cândido de Oliveira, Herculano Santos, Artur Augusto, Carlos Homem de Figueiredo, Cosme Damião, Francisco Pereira, Henrique Costa, Carlos Sobral, Leopoldo Mocho e Alberto Rio.

FC Porto não teve tarefa fácil para vencer o Regional portuense de 1915/16

No Porto a disputa do título regional foi mais renhida. FC Porto e Académico do Porto terminaram o campeonato com o mesmo número de ponto, havendo pois a necessidade da disputa de um jogo para apurar o campeão. No tira-teimas os academistas até entraram melhor no encontro, já que ao intervalo venciam os seus vizinhos por 2-0, No entanto, no reatamento os portistas deram a volta aos acontecimentos com golos de Floriano, Hamilton e Weber, sagrando-se assim campeões do Porto.

Ainda a norte, esta temporada fica marcada pela realização da última edição da Taça Monteiro da Costa. Quatro clubes inscreveram-se na derradeira edição do certame, nomeadamente o FC Porto, o regressado Boavista, o Académico do Porto, e a novidade Sport Grupo e Salgueiros, que mais tarde seria rebatizado de Sport Comércio e Salgueiros. Salgueiristas que tiveram o seu batismo de fogo ante os portistas, perdendo por 1-2. No encontro seguinte o Salgueiros deu mais uma prova da sua inexperiência ao ser batido por 1-4 pelo bem organizado team do Académico, emblema este que mais tarde seria batido pelo mesmo resultado pelo FC Porto. Na partida decisiva os portistas derrotaram por 2-0 o Boavista, encerrando assim a famosa competição da mesma maneira que a iniciaram, ou seja, a vencer.

quinta-feira, março 17, 2022

Histórias do Futebol em Portugal (34)... A estreia do Salgueiros na alta roda do futebol nacional

A equipa do Salgueiros que se estreou 
na 1.ª Divisão em 43/44
Com 110 anos de história, o Sport Comércio e Salgueiros procura hoje regressar a um lugar que por direito é seu: o patamar mais alto do futebol nacional, isto é, a 1.ª Liga. Com 24 presenças entre a elite do futebol luso, o clube portuense encontra-se entre os 20 primeiros do ranking de clubes com mais participações no escalão maior de Portugal.

A velha Europa procurava ainda sair do conflito bélico de proporções catastróficas que constituiu a 2.ª Guerra Mundial (1939-1945) quando o popular Salgueiral subiu pela primeira vez ao palco principal do futebol português. Facto ocorrido na temporada de 1943/44, altura que se jogou a 10,ª edição do Campeonato Nacional da 1.ª Divisão, e onde o Sporting - que ainda só tinha três dos seus Cinco Violinos - procurava destronar o Benfica de Guilherme Espírito Santo e de Julinho do trono do desporto rei nacional, e em que o FC Porto de Pinga e Correia Dias procurava sob a batuta do húngaro Lippo Hertzka, ex-treinador de Benfica e Real Madrid, recuperar um título que lhe fugia há três anos para os rivais da capital. Mas havia outros emblemas históricos que procuravam um lugar ao sol neste Nacional de 43/44, casos do Belenenses, da Académica, do Olhanense, do Atlético, ou dos dois Vitórias (o de Guimarães e o de Setúbal). E no meio da nata do futebol lusitano surgia um caloiro, o Salgueiros, emblema que surpreendeu o país futebolístico ao classificar-se em 2.º lugar no Campeonato Regional do Porto dessa temporada - e que antecedia o Nacional da 1.ª Divisão -, atrás do FC Porto, clube que dominava o futebol nortenho de então, mas à frente de clubes que haviam já pisado o palco do escalão maior de Portugal, casos do Leixões, do Académico do Porto, do Boavista e do próprio Leça.

Eng. Vidal Pinheiro
A boa campanha efetuada no Regional portuense trazia otimismo às hostes salgueiristas na antecâmara da 1.ª Divisão Nacional, conforme é possível comprovar numa entrevista concedida pelo então dirigente encarnado Vidal Pinheiro à revista "Stadium" - publicação que nos ajuda a escrever esta efeméride em torno da estreia do Salgueiros no escalão maior e cujas imagens ajudam a ilustrar esta viagem ao passado. Nessa conversa conduzida pelo jornalista Mário Afonso, o histórico Engenheiro Vidal Pinheiro, então presidente da chamada Comissão de Melhoramentos do clube, afirmava que o Salgueiros estava na 1.ª Divisão Nacional por mérito próprio, e não porque devesse essa subida a favores de qualquer espécie. «Depois do F. C. do Porto, o Salgueiros foi o clube mais regular. As suas únicas derrotas foram infligidas pelo campeão; os restantes vencemo-los com resultados mais ao menos volumosos», dizia o dirigente.  Quando questionado mais adiante sobre as possibilidades do clube nesta participação então inédita na 1.ª Divisão, o Eng. Vidal Pinheiro respondia que «haverá, certamente. um certo "tatear" nos primeiros jogos, mas, depois, haveremos de fazer algo de jeito. Boa posição na escalão (tabela)? Não sei.... tudo depende. Mas o que lhe posso afirmar é que nem deixaremos mal colocado o nosso nome e o brio da cidade que representamos de parceria com o F. C. do Porto, nem seremos um "mau amigo" do nosso campeão», vaticinava.

Questionado ainda se havia boa disposição no plantel, Vidal Pinheiro era perentório em dizer que ânimo, coragem e fé não faltava num grupo em que ele confiava em pleno para uma boa campanha. Quanto a moral, resistência.... «Sim, devem tê-la em grau superlativo. Recordemos, por momentos que só este ano após tanta vicissitude conseguimos atingir o fim almejado: entrar no Campeonato Nacional da 1.ª Divisão. Portanto, creio que não poderão ter mais moral do que nesta época. Quanto à resistência, eu lhe explico: deve ter notado que o grupo, ao concluir qualquer encontro, não dava, este ano, aquela exteriorização de fadiga, como em anos transatos. Sabe porquê? Pela simples razão de todos os jogadores terem sido obrigados a seguir, durante o defeso, um curso de gimnástica e preparação atlética, de forma que ao iniciar-se o campeonato regional, todos estivessem em boas condições físicas».

Vidal Pinheiro estava certo de que esta subida à 1.ª Divisão Nacional iria dar muito mais visibilidade a um clube que... não era só futebol. «Uma coisa lhe quero dizer. Para já, conseguimos isto: que se falasse, durante todo um ano no nome do meu clube. Já não é como outrora, em que, após a época do futebol, o Salgueiros desaparecia das gazetas, esquecido até ao ano seguinte. Agora não. Falou-se nele constantemente: a propósito da natação, do atletismo, do basquetebol, do andebol, do ciclismo, etc». Era o este o Salgueiros que Vidal Pinheiro e seus pares vinham trabalhando afincadamente naqueles anos, um clube eclético que pretendia chamar a atenção do público do desporto português. E conseguiu-o.

Dores de crescimento fizeram-se sentir no início

Atlético - Salgueiros
Tal como o Eng. Vidal Pinheiro previu na antevisão deste Nacional da 1.ª Divisão de 43/44, o Salgueiros acusou inicialmente alguma inexperiência na alta roda do futebol português. Algum desconhecimento até, face aos grupos do sul, com quem não estaria habituado a medir forças, acabando por pagar essa fatura sobretudo na primeira volta do campeonato. De facto, o Salgueiros surgiu muito tímido nos campos de batalha do futebol luso, e mais do que averbar derrotas mostrou muitas fragilidades ao nível do seu jogo. Porém, com o avançar da época a equipa foi ganhando outra alma, outro ânimo, mostrando que afinal também tinha valor e bom futebol para figurar entre a elite portuguesa. Mas vamos ao filme da primeira passagem do Salgueiral pelo palco maior do nosso futebol. O pontapé de saída aconteceu na Tapadinha, mítica casa do Atlético, onde as coisas não correram de feição aos encarnados, a julgar não pelo desaire por 4-0, mas de igual modo pelo conceituado jornalista da "Stadium", Tavares da Silva, que foi duro nas palavras na apreciação ao jogo dos salgueiristas: «O sub-campeão do Porto - segundo opinião unânime - traz para a prova pouco valor. Se isso não importa, de momento, interesso no futuro, porque o grupo representa a 2.ª região futebolística do país. Da má exibição - é possível que o bloco se ajeite melhor em futuras digressões - nada ficou senão a afirmação de um guarda-redes de razoável categoria (Peixoto). Pouco mais do que isto o Salgueiros deixou na sua primeira visita, podendo no entanto citar-se alguns dos seus lances na organização da defesa - porque o ataque quase não existiu».

Na ronda seguinte a tarefa do Salgueiros em apagar a má exibição da estreia era uma missão quase impossível, ou não tivesse pela frente o campeão nacional em título, o Benfica. Os lisboetas, orientados pelo antigo guarda-redes de Académico do Porto e Boavista, Janos Biri, surgiram no Campo Augusto Leça, o reduto dos salgueiristas, com uma linha de ataque de respeito, formada por Julinho, Rogério Pipi e Alfredo Valadas. No entanto, e de acordo com a pena de Tavares da Silva, o Benfica não esteve nos seus melhores dias nesta visita ao Porto, jogando no aproveitamento do erro do adversário. Erros que ao que tudo indica terão sido muitos para os encarnados do Norte. Para o consagrado jornalista, o Salgueiros voltou a mostrar sinais de muita fragilidade, tendo a equipa sido sempre dominada pelos campeões nacionais, que acabariam por vencer por claros 6-1. Contudo, apesar de dominados, os portuenses quando atacavam conseguiam provocar algum desentendimento entre a defesa benfiquista, uma nota que Tavares da Silva fez sobressair na sua crónica e que considerou um aviso a ter em conta aos lisboetas para quando defrontassem equipas que estivessem mais ao seu (alto) nível. Outra nota a realçar é o golo salgueirista, o primeiro na alta roda do futebol nacional, tendo o seu autor sido o médio Viana, um nome que ficará assim na história deste clube.

FC Porto - Salgueiros
A grande sala de visitas do futebol portuense daquela altura, o mesmo será dizer o Estádio do Lima, foi a paragem seguinte do Salgueiros, que na 3.ª ronda enfrentava o vizinho e campeão regional FC Porto. E quem pensava um novo massacre enganou-se redondamente, pois o Salgueiral não só vendeu cara a derrota (3-1) ante os azuis-e-brancos como também fez uma agradável exibição, facto que mereceu destaque no relato do jornalista portuense Mário Afonso para a "Stadium". Para este homem das letras o Salgueiros tinha feito a sua melhor exibição até então neste campeonato, e o facto de ter sido ante um dos candidatos ao título era ainda mais digno de registo. Mas para Mário Afonso esta boa exibição aconteceu porque há equipas que se transcendem quando atuam perante outros conjuntos, e neste caso puxou da rivalidade que existia entre os dois emblemas para justificar esta boa exibição dos encarnados de Paranhos. «Quando joga contra o F. C. Porto, o Salgueiros parece outro. Vale muito mais. Quase não se acreditava que estivesse no Lima o mesmo grupo que jogou contra o Benfica! O Salgueiros, animado pela rivalidade que mantém com o campeão, e costumado ao ambiente, conseguiu praticar um futebol de conjunto, vivo, enérgico e com certa ligação. Daí, equilíbrio, jogo repartido pelas duas metades da relva do Lima. Porque não pode dizer-se que o Porto tenha jogado mal, e só ainda faz brilhar um pouco mais o seu adversário. (...) O elemento mais destacado do Salgueiros continua a ser o guarda-redes Peixoto. Um nome a apontar e a ver em exibições futuras: Oliveira, o avançado-centro». E foi precisamente de Oliveira o único golo do Salgueiros nesta derrota com... algum sabor a vitória pela boa exibição conseguida.

Estudantes testemunham uma vitória histórica!

Salgueiros - Académica
Apesar de novato nestas andanças e de nas primeiras duas jornadas ter mostrado um nível abaixo do que era exibido na alta roda do futebol português, não foi preciso esperar muito para que as hostes salgueiristas festejassem a primeira vitória no campeonato nacional. A primeira da sua história, visto desde os dias de hoje. Facto ocorrido na 4.ª jornada, no Campo Augusto Leça, diante da Académica de Coimbra. Um triunfo, por 3-1, que para o jornalista Tavares da Silva devia ser levado em conta, desde logo pelo fraco nível exibicional que os portuenses haviam mostrado nos primeiros jogos, pense embora na sua opinião este triunfo não se tenha devido tanto a uma grande exibição do Salgueiral. Na sua visão esta vitória teve como base o fator aproveitamento de três jogadores que atuavam nos setores recuados e intermédios do terreno: em primeiro lugar o guarda-redes Peixoto, o qual esteve magistral na 2.ª parte; o esforçado defesa João (Santos); e o médio centro Sousa, que imprimiu à equipa a necessária ligação tornando possível a realização dos golos. E se os estudantes estiveram bem no primeiro tempo, após o golo do empate baixaram de rendimento, facto aproveitado pelo Salgueiros para conquistar os primeiros pontos nesta prova.

Sporting - Salgueiros
A este triunfo seguiu-se a derrota mais pesada do grupo neste Nacional de 43/44, facto que aconteceu na visita ao reduto do poderoso Sporting, orientado por Joseph Szabo, e cuja força residia em jogadores como Fernando Peyroteo, Albano, Mourão, Cruz, entre tantos outros. 10-0 foi o pesado resultado final de um encontro onde o Salgueiros, de acordo com Tavares da Silva, chegou em alguns momentos a dar «agradável impressão da sua movimentação geral, nada há mais a dizer senão salientar a má tarde do seu guarda-redes, embora multo desprotegido».

Salgueiros - Belenenses
O oponente seguinte foi outro histórico do futebol luso, no caso o Belenenses, que na 6.ª jornada visitou o Campo Augusto Leça. Para este encontro os azuis de Belém apresentaram no seu "onze" um novo guarda-redes, que dava pelo nome de Capela, e que iria dali em diante marcar uma era no emblema da Cruz de Cristo. Segundo a crónica de Tavares da Silva na "Stadium", o estreante guardião cumpriu a sua missão, pese embora não tenha tido pela frente uma linha avançada que lhe causasse muito trabalho. Mas nas poucas vezes que foi chamado a intervir, fê-lo com segurança e classe. O Belenenses na opinião do jornalista não fez uma exibição de grande brilho, chegou para as encomendas, e quando garantiu a vitória atuou mais em ritmo de treino, acabando a partida por perder algum interesse. E mesmo a expulsão do belenense Mário Coelho, no final da primeira parte, não pôs em causa a supremacia do combinado orientado pelo húngaro Sándor Peics. Quanto ao Salgueiros, esse quase todo esteve mal, na visão de Tavares da Silva, «até a defesa, que costuma comportar-se menos mal. Só se salvou o médio centro Coura, rapaz com merecimento activo e com boa posição em campo, e um pouco Augusto, o interior direito. O ataque do Salgueiros quase não existiu, devendo anotar-se simplesmente sua reação no começo do jogo, no pôs intervalo. O que não quer dizer que o team não tenha posto na luta, em todos os momentos, uma bela energia». 6-1 foi o resultado final para o Belenenses, cabendo a Silva marcar o tento de honra dos salgueiristas.

Salgueiros - Olhanense
Seguiram-se mais dois jogos em casa, o primeiro deles ante os antigos campeões de Portugal, dez anos antes, o Olhanense. Nova derrota para o Salgueiral, desta feita por 2-5. Um resultado que para Tavares da Silva borrava o quadro da classificação geral, já que segundo aquele jornalista enquanto todas as outras equipas davam sinais de progressão, sendo que o Salgueiros não acompanhava essa tendência. E mesmo o setor defensivo, que até então era o que se exibia em melhor forma no campo em encontros anteriores, neste jogo abriu brechas por todo o lado. Apesar de evidenciar dificuldades, o conjunto de Paranhos continuava a dar sinais de querer contrariar a tendência de que era uma equipa ainda inexperiente nestas andanças, como comprovam as palavras do jornalista da "Stadium": «Não quer isto significar que os "salgueiros" não tenham dado um ar de graça, no passado domingo. Pelo contrário, durante certo período da segunda parte o ataque realizou coisas de bom jeito, mas depois perdeu o norte, reduzindo-se a uma ou outro tentativa, feita de quando em vez. Não fôra, mais uma vez, o médio Coura, e a coisa ainda seria pior. O Salgueiros estreou dois jogadores: Renato, a interior-direito e depois avançado-centro, e Faria, interior-esquerdo. Esta orientação, tirar dois interiores e pôr lá outros dois de uma só vazada, mostra claramente as dificuldades que o agrupamento atravessa, e os trabalhos de cabeça que os dirigentes se dão para modificar um estado de coisas que já não tem modificação possível, pelos vistos. Os estreantes revelaram alguma habilidade. Já não é mau de todo». Mas o cenário haveria de mudar, como veremos mais à frente. Ante os olhanenses os golos salgueiristas foram apontados pelo estreante Renato e por Silva.

O jogo seguinte mostrou, ainda que ao de leve, essa subida de forma, já que na receção ao Vitória Sport Clube (de Guimarães) a turma portuense conquistou mais um ponto, fruto de um empate a duas bolas. Sobre o jogo não há muitos relatos na "Stadium", que ressalva apenas que o Salgueiros lutou com entusiasmo. Coura e Silva apontaram os tentos dos salgueiristas.

O outro Vitória a competir nesta 1.ª Divisão de 43/44, neste caso o de Setúbal, foi o oponente seguinte. 2-1 a favor dos sadinos, foi o resultado final de uma partida que segundo Tavares da Silva teve um rol de oportunidades desperdiçadas, tantas foram as vezes que os avançados estiveram cara a cara com os guarda-redes e não os conseguiram bater. Os portuenses continuavam a dar indícios de crescimento no campeonato a julgar pelas palavras do jornalista: «o Salgueiros foi mais ameaçador do que o Vitória. Inesperadamente ameaçador, pois ao conseguir um goal, este teve o efeito de despertar as energias do adversário. Só quando começou a perder é que o Vitória se lembrou que tinha de ganhar...». O goleador Silva foi mais uma vez o artilheiro de serviço dos encarnados neste encontro.

Segunda volta mostra um Salgueiros diferente... para melhor

Salgueiros - Atlético
Em janeiro de 1944 arrancou a segunda volta do Nacional da 1.ª Divisão, tendo o Salgueiros retribuído a visita à Tapadinha em novembro do ano anterior. O Atlético era por esta altura uma das boas equipas do campeonato, ocupando os lugares da frente do pelotão, fruto da bela campanha que vinha fazendo. E Tavares da Silva na sua crónica habitual na "Stadium" frisou precisamente isso para justificar o triunfo dos lisboetas no Campo Augusto Leça por 3-0. No entanto, o Salgueiros continuava a dar sinais de crescimento... «O Salgueiros forçou a marche do encontro de modo a dominar durante largos períodos do jogo, instalando-se na grande área dos lisboetas. Mas estes nunca perderam o sangue frio, e aqueles nunca o encontraram em frente das redes para fazer aquilo que parece mais fácil mas que é o mais difícil: goal. A serenidade com que o Atlético suportou a tempestade, defendendo uma vitória preciosa que - certo, certo - nunca esteve praticamente ameaçada, diz-nos, além de tudo, que o grupo está a adquirir a categoria dos grandes teams». E a prova disso foi que os lisboetas acabariam este campeonato em 3.º lugar, à frente de clubes de maior poderio, como o FC Porto, ou o Belenenses.

De Lisboa era também o adversário seguinte dos encarnados do Porto, mas este de maior peso, já que lutava com o eterno rival Sporting pelo título de campeão nacional.

Benfica - Salgueiros
Numa altura da temporada em que os clubes já levavam muitos jogos nas pernas, o Benfica optou na receção ao Salgueiros por fazer descansar alguns dos seus titulares, substituídos por nomes menos conhecidos, como Cerqueira, Carvalho e Teixeira II, facto que terá, quiçá, pesado no facto de os benfiquistas terem feito uma exibição algo "cinzenta", pouco condizente com um candidato ao título. Valeu a inspiração de uma das suas maiores estrelas, Julinho, autor de quatro dos seis golos com que os comandados de Janos Biri bateram os salgueiristas por 6-1. Sobre estes últimos Tavares da Silva trazia boas novas: «É de notar também que o Salgueiros apresenta progressos nos esquemas do seu jogo - sinal evidente de que a permanência na competição de honra lhe tem feito bem». Renato foi o marcador do único tento do Salgueiral no Campo Grande.

De regresso à Cidade Invicta na jornada que se seguiu para defrontar o vizinho FC Porto, que estava longe de convencer neste campeonato. Foi uma partida que para o principal redator da "Stadium" teve duas partes distintas, uma pautada pelo equilíbrio e outra pelo... desequilíbrio. A primeira muito por culpa do facto de a equipa na teoria mais fraca, o Salgueiros, ter querido impor-se, de jogar de igual para o com o seu velho rival. A outra, quando essa mesma equipa de nível inferior perdeu o fôlego e começou a desaparecer do encontro, aspeto aproveitado para os portistas abrirem o marcador e chegarem à goleada final de 5-0. «Foi assim mesmo. Belo jogo, na primeira parte, com os grupos em acentuado equilíbrio, e porventura o Salgueiros, mais perigoso. Depois, no segundo tempo, o Salgueiros deixou-se dominar pela resistência e melhor técnica do adversário, que pôs a bola rente ao terreno para o passe da precisão, utilizando os extremos. Porque o mérito do Salgueiros está na luta que deu. Depois de sofrer o quinto goal - ainda quis espreguiçar-se, verdade seja. Era tarde!», assim resumiu Tavares da Silva o jogo.

Na ronda seguinte o Salgueiros sentiu o amargo sabor da vingança dos estudantes de Coimbra, que na primeira volta haviam sido batidos no Campo Augusto Leça. Frente a frente estavam as duas últimas equipas da classificação geral, pelo que só a vitória servia a cada uma delas para largar a "lanterna vermelha". Foi mais feliz a Académica, que no Campo de Santa Cruz entrou determinada não só a fugir ao último posto, mas de igual forma a vingar a tal derrota no Porto. Foi uma Briosa de ataque, conforme disse Tavares da Silva na sua crónica, e a comprovar isso foi o resultado de 9-4 a favor dos locais. Renato, Toninho, Oliveira e Alfredo foram os artilheiros do Salgueiros, que neste encontro marcou o maior número de golos, quatro, num só encontro desta época de estreia no escalão maior.

Salgueiros - Sporting
Após esta pesada derrota o Campo Augusto Leça engalanou-se para receber uma das mais fortes equipas daqueles anos, o Sporting, liderado por um Peyroteo letal! Com muito menos armas que o poderoso adversário, o Salgueiros deu luta, aliás, esta era uma postura que vinha patenteado de há uns jogos a esta parte, sinal de que começava a ambientar-se a estes palcos grandes. Porém, e segundo as palavras de Tavares da Silva, faltavam elementos condizentes com a elite do futebol português, isto é, jogadores de 1.ª Divisão ao Salgueiros. Facto que provocava nas suas palavras alguns momentos de desorganização na equipa nortenha. «Por tudo quanto ficou dito, deve já destacar-se o comportamento do Salgueiros na primeira parte, equilibrando a partida em termos de ver-se, mesmo com um pouco de emoção. Que, aquilo que sucedeu no segundo tempo, não deve causar a mais leve estranheza. A experiência, o fôlego, a melhor técnica, e ainda, por cima de tudo, a robustez do Sporting, impuseram-se de tal modo que o guarda-redes do Salgueiros não pode sossegar um simples minuto, pois a bola raramente saiu da sua órbita. Nessa altura, o Sporting impôs-se de alto a baixo, não estando em causa a classificação do jogo produzido e o resultado não podia ser outro, a não ser uma vitória mais volumosa». Pois é, 5-1 a favor dos sportinguistas, que haveriam de vencer esta edição do Campeonato Nacional, sendo que neste encontro Fernando Peyroteo apontou quatro dos cinco golos da sua equipa, ao passo que Coura fez o gosto ao pé para os nortenhos.

Belenenses - Salgueiros
Igual resultado, o mesmo será dizer uma derrota com números semelhantes, aconteceu na jornada seguinte em nova visita do Salgueiros à capital, desta feita para defrontar o Belenenses. Nas Salésias os azuis de Belém não sentiram dificuldades em bater os portuenses, pese embora tenham demorado a encontrar o caminho da baliza de Peixoto, algo que de acordo com Tavares da Silva terá apimentado o encontro na sua fase inicial. Quanto à performance dos nortenhos no Estádio das Salésias, o jornalista disse que «o simpático grupo do Salgueiros mostrou-se animoso, como sempre, mas o seu quadro, como já temos dito, não está ainda à altura da prova. Só nos jogos em casa pode oferecer realmente dificuldades aos adversários». Renato apontou o tento dos encarnados de Paranhos neste jogo.

Como não há duas sem três, a visita a Olhão cifrou-se numa nova de derrota também por 5-1. Um futebol rápido e ofensivo ajuda a justificar este triunfo do Olhanense. Contudo, não se julgue que o Salgueiros foi "bombo da festa", já que na crónica do encontro, a equipa portuense foi ofensiva, batalhadora, «chegando, mesmo, a desenvolver esquemas de jogo que lembraram à defesa algarvia a necessidade de se conservar alerta. Isto confirma aquilo que temos dito sobre o Salgueiros, isto é, que a prova só lhe tem feito bem - além de dar aos seus dirigentes preciosas indicações relativamente ao futuro», assim escrevia Tavares da Silva. Alfredo apontou o golo do Salgueiros no Algarve.

Salgueiros - Vitória de Setúbal
O Campo de Benlhevai, em Guimarães, foi a derradeira saída do Salgueiral neste Nacional. Pela frente tinha um Vitória que esteve longe de fazer uma boa prova, muito pelo contrário. Nesta jornada, a penúltima, o Sporting consagrava-se campeão nacional, ao passo que o Salgueiros com a derrota pela margem mínima (1-2) no Minho assegurava... a "lanterna vermelha" da prova. Em Guimarães os locais atacaram desde início e chegaram ao intervalo a vencer por 2-0. No reatamento, os portuenses reagiram, dando algum trabalho à defesa vitoriana, embora somente por uma ocasião tenham tido êxito, por intermédio de Ribeiro.

E eis que chegávamos à última jornada deste Campeonato Nacional, sendo que no Porto o Salgueiros encerrava a sua estreia entre os maiores do futebol nacional com uma receção ao Vitória de Setúbal. Já com a classificação definida, o Salgueiros perdeu por 3-5 um encontro onde o seu jogador Renato brilhou ao apontar os três golos dos encarnados. Falando de contas, o emblema de Paranhos ficou na última posição, com três pontos somados, 23 golos marcados e 84 sofridos, números que à primeira vista são maus, mas que se olharmos ao "resto da história" significaram só o início de uma caminhada entre a elite do futebol português, o lugar que este histórico clube conquistou nas décadas seguintes e que como tal é seu por mérito próprio.