terça-feira, março 11, 2014

Estrelas cintilantes (37)... Jaguaré

Jaguaré
Hugo Gatti, René Higuita, José Luis Chilavert, Juan Carlos Henao, ou Rogério Ceni, nomes que para além de sul-americanos têm em comum o facto de serem lendas excêntricas das balizas, ou traduzido em linguagem popular, guarda-redes detentores de uma boa dose de loucura. Característica esta tão comum nos keepers nascidos na região mais a sul do continente americano, expressas em dribles serpenteantes por entre os dianteiros rivais, em defesas acrobáticas, ou na arte de concretizar na baliza contrária.O primeiro louco das balizas reuniu em torno da sua figura estas três características, que como é óbvio, fizeram dele o primeiro ícone excêntrico que no retângulo de jogo não se contentou apenas em ocupar a solitária posição de guarda-redes. Jaguaré Bezerra de Vasconcellos quis muito mais, ambicionou conquistar terrenos que não eram seus, e ali chegado criou obras de arte futebolísticas só ao alcance dos grandes astros da bola, como Pelé, Maradona, Di Stéfano, Eusébio, Cruyff, ou Garrincha, o anjo das pernas tortas, figura mítica do futebol mundial que serviu de molde para que em 1954 uma revista desportiva imortalizasse Jaguaré como o Garrincha das Metas (balizas). E tal como Mané a nossa estrela cintilante de hoje nasceu sob os raios de sol - quase sempre abrasador - que iluminam de uma forma muito especial o Rio de Janeiro, cidade onde a 14 de maio de 1905 nasce então o filho de Antônio Bezerra de Vasconcellos e de Raimunda Tavares de Vasconcellos. No bairro carioca da Saúde, lugar habitado na sua esmagadora maioria por famílias pobres, cresceu o menino Jaguaré. Localizado nas margens da Baía de Guanabara, a Saúde era um dos cinco bairros cariocas que partilhavam o porto da Cidade Maravilhosa, sendo por isso vulgar que a maioria dos seus habitantes - quase todos afro-descendentes - estivesse profissionalmente ligada à estiva. O caminho de Jaguaré não foi diferente dos seus conterrâneos, e ainda muito novo troca as brincadeiras de criança pela dureza do cais, onde abraça a profissão de estivador.

O "Garrincha das Metas" a atuar em terrenos
do campo que não o seu
Nos poucos tempos livres da sua cinzenta infância fazia da bola o seu brinquedo de eleição. Tratava-a carinhosamente por «minha bichinha», uma relação de amor puro e... eterno, que teve os seus primeiros capítulos oficiais no Vasco da Gama, clube carioca no qual Jaguaré deu os primeiros passos no futebol. Aconselhado por um amigo seu a fazer uns testes no emblema Cruz Maltino o rapaz rapidamente foi mandado para debaixo dos postes, onde desde logo demonstrou qualidades, valentia, e sobretudo um... enorme sentido de humor quando se cruzava no campo de batalha com os seus colegas de ataque. Passamos a explicar. A vincada habilidade de Jaguaré com a bola nos pés era traduzida em dribles serpenteantes aplicados aos jogadores de campo contrários, jogadas que levavam diversão à torcida, e revolta aos adversários. São muitas as histórias que eternizam as brincadeiras - de mau gosto, para alguns - do guarda-redes nos anos em que este defendeu a baliza vascaína, algumas delas guardadas no livro "O Negro no Futebol Brasileiro", da autoria de Mário Filho, destacando-se entre muitas aquela em que Jaguaré num jogo ante o América «quase mata Alfredinho de raiva. Primeiro, defendeu um chute do atacante americano somente com uma das mãos. Depois atirou a bola na cabeça de Alfredinho para fazer nova defesa». Lances como este ficariam celebrizados na história do jogo como as molecagens de Jaguaré. E foram tantas... 

Ídolo vascaíno


Equipa do Vasco da Gama que conquistou
o título de campeão estadual do Rio de Janeiro em 1929
A veia circense de Jaguaré lotava os estádios onde o Vasco da Gama jogava. A ligação do menino estivador ao popular emblema carioca deu-se em 1928, o tal ano em que aconselhado pelo seu amigo, e defesa vascaíno, Espanhol, o rapaz do Bairro da Saúde vai prestar provas ao clube. Bastou um treino apenas para que os responsáveis do Vasco admitissem Jaguaré para a sua equipa principal, onde desde logo se apoderou da baliza. Reza a lenda que uma vez titular absoluto das redes vascaínas, Jaguaré afugentava com o seu poderoso remate todos os pretendentes ao seu trono. Quando alguém se aventurava a ir fazer um teste para tentar ser o novo dono da baliza vascaína Jaguaré assumia o papel de examinador, ou seja, assim que o candidato a goleiro assumia posição entre os postes o dito examinador encarnava na pele de um feroz avançado, fazendo uso do seu forte pontapé numa sessão de tiro ao alvo, sendo que o alvo não era a baliza mas sim o pretendente a guarda-redes. Assim que o pobre era apanhado em cheio por uma das bombas de Jaguaré, fugia dali a sete pés, continuando o gol (baliza) vascaíno nas mãos do moleque da Saúde. Em 1929 o Vasco da Gama agregou a si um leque de talentosos jogadores, sobressaindo, para além de Jaguaré, que era já um dos ídolos do futebol carioca daqueles anos 20, nomes como Fausto, Brilhante, Itália, Tinoco, e um tal de 84 (!) - nome curioso para um jogador de futebol, sem dúvida. Juntos guiaram o emblema Cruz Maltino à conquista do Campeonato Estadual do Rio de Janeiro desse ano. 
Jaguaré na seleção

A veia artística de Jaguaré não passa despercebida aos responsáveis pela seleção brasileira, sendo que entre 1928 e 1929 o goleiro é chamado por três ocasiões ao escrete - que ainda não era canarinho - para a disputa de partidas amigáveis ante as equipas do Motherwell (Escócia), do Barracas (Argentina), e do Rampla Juniors (Uruguai). Em 1931 a vida do guarda-redes que adorava desafiar os avançados contrários com saídas aventureiras da sua zona de ação conhece um novo capítulo. O Vasco da Gama promove uma digressão da sua equipa principal até Portugal e Espanha, países cuja interpretação do futebol deixou Jaguaré maravilhado. O goleiro mostrou-se fascinado com os modos cavalheirescos e profissionais com que o belo jogo era tratado no Velho Continente, em contraste com o rude amadorismo como era vivido no seu país. Face a esse fascínio Jaguaré e o seu colega de equipa Fausto não fizeram a viagem de regresso ao Brasil, forçando, em Espanha, a saída imediata do Vasco da Gama, para em seguida firmar contrato com o Barcelona. Ligação que seria histórica, já que desta forma Jaguaré e Fausto tornavam-se nos primeiros futebolistas brasileiros a jogar - profissionalmente - na Europa.

Catalães não acharam muita graça às molecagens de Jaguaré



Jaguaré e Fausto, os primeiros brasileiros
a jogar no estrangeiro
A permanência na Catalunha é porém curta. Alvos de preconceito por parte dos dirigentes e adeptos do Barça os dois atletas somente aguentaram cerca de um ano com a camisola blaugrana. Ao que se diz não foi só a cor da pele - em tons de negro - de ambos que deu aso à antipatia dos catalães face às suas figuras, mas sobretudo as brincadeiras de Jaguaré no terreno de jogo. Na pele de uma criança grande o carioca continuava a gingar entre os adversários com a bola nos pés por terrenos pouco habituais para um guarda-redes, pelo menos na ótica dos responsáveis e adeptos do Barcelona, que nunca acharam muita piada às molecagens de Jaguaré. Após a aventura falhada em Espanha regressa ao Brasil... como um herói. A notícia do seu regresso foi recebida em delírio por um país que continuava a idolatrar o seu estilo inconfundível de interpretar o jogo. No retorno à pátria foi para São Paulo, cidade onde defendeu com estilo a baliza do Corinthians. Com estilo na verdadeira ascensão da palavra, uma vez que da Europa trouxe algumas modas até então nunca vistas nos goleiros de futebol, como por exemplo o uso de luvas e do boné que caracterizava os guarda-redes europeus. Jaguaré tornava-se assim cada vez mais num espetáculo dentro do próprio espetáculo.

Nova travessia no Atlântico: rumo a Lisboa


Jaguaré com as cores do Sporting frente
grande rival Benfica

Jaguaré não ficou perturbado pela experiência menos positiva de Barcelona, e em 1935 atravessa de novo o Atlântico rumo a Lisboa, desta feita para defender as cores do Sporting. À semelhança do ocorrido na Catalunha também a estadia do brasileiro em solo luso foi curta, mas ao que se sabe um pouco mais feliz em relação à primeira experiência. Jaguaré fez, de certa forma, história no futebol português, desde logo por ter sido o primeiro guarda-redes a usar luvas, tal como havia acontecido no Brasil. Entre novembro de 1935 e abril de 1936 o excêntrico jogador defendeu por sete ocasiões a baliza leonina, tendo vencido seis jogos e perdido apenas um - para o rival Benfica. Tal como no Brasil e em Espanha o estilo brincalhão e provocador que Jaguaré exibia em campo causou algum impacto em Portugal. Certo dia, num embate contra o Benfica, Jaguaré cuspiu na bola antes do benfiquista Aníbal José partir para a conversão de uma grande penalidade. Desconhecendo-se se com algum nojo ou não por tal atitude o que é certo é que Anibal José atirou o esférico por cima da baliza. O árbitro mandou repetir o lance, e Jaguaré voltou a cuspir na bichinha, como ele gostava de chamar a sua companheira das brincadeiras, e mais uma vez o jogador do Benfica voltou a falhar o pénalti. Reza ainda a lenda que num outro encontro, desta feita ante a Académica, Jaguaré sai a correr da baliza para travar um ataque contrário, sendo que posteriormente na posse da bola sai ele próprio a jogar em contra-ataque perante o espanto de colegas, adversários, e do próprio público. Como já foi referido a estadia do brasileiro em Lisboa durou apenas seis meses, muito por culpa de um jovem de 20 anos chamado Azevedo, figura esta que ao agarrar a titularidade da baliza sportinguista iniciava um trajeto que o haveria de o levar até ao Olimpo dos Deuses do futebol português. Mesmo tapado por aquele que viria a ser caracterizado como um dos melhores guardiões lusos de todos os tempos, Jaguaré enriqueceu ao serviço do Sporting o seu currículo desportivo, na sequência da conquista do título de campeão de Lisboa de 35/36. 


O pénalti da fama em França


Equipa do Olympique de Marseille campeã de França em 1937

Deixando para trás a capital portuguesa Jaguaré rumou para a edílica região do sul de França, para representar o Olympique de Marseille (OM), onde se tornou ídolo. As suas excêntricas exibições ao serviço dos marselheses atraíram até si as luzes da ribalta, a fama que tanto buscou em Espanha e em Portugal e nunca alcançou. No Marselha foi peça fundamental para a conquista de títulos que ainda hoje se destacam no vasto currículo do emblema marselhês muito por culpa das brincadeiras que Le Jaguar - como a imprensa gaulesa o iria apelidar - efetuava em campo. Reza a lenda que em França a excentricidade de Jaguaré atingiu contornos vincados: danças com a bola nos pés em frente aos adversários, defesas com pontapés de bicicleta - terá sido nele que Higuita se inspirou para edificar a sua famosa defesa escorpião? - provocações constantes a adversários que os levavam à profunda irritação, e goleador. É verdade, goleador. Jaguaré foi o primeiro guarda-redes a converter grandes penalidades, facto ocorrido na final da Taça de França de 1938, a qual colocou frente a frente o OM e o Metz. Lance imortalizado da seguinte forma pela revista Sport Ilustrado na edição de 22 de junho de 1938:  «Aos 22 minutos, Laurent, do Metz, fez um penalty. Com supresa de todos os assistentes, Jaguaré abandonou o seu posto e encaminhou-se para o goal adversário. Jaguaré collocou-se diante da bola, e quando o árbitro apitou, bateu o penalty. Ouviu-se uma exclamação da assistência. Jaguaré enviou a bola a um canto e marcou o goal de empate. Foi um lance sensacional. Um arqueiro fazer um goal contra o adversário! Em nossa capital, jamais houve um caso, em partida official, de um arqueiro executar um penalty».  
Final onde a excentricidade do brasileiro iria mais além ao defender uma grande penalidade com um salto impressionante, onde mais parecia um... jaguar a agarrar a sua presa.


Jaguaré atuando pelo Corinthians
disputa uma bola com o astro do
futebol brasileiro da época:
Arthur Friendenreich
Entre 1936 e 1939 - o período de permanência no OM - Jaguaré atingiu o ponto mais alto da sua carreira ao serviço do futebol gaulês. Foi campeão nacional em 1937 e venceu, como já vimos, a Taça de França de 38. O eclodir da II Grande Guerra Mundial na Europa fê-lo regressar a casa, assustado (com a guerra)... e pobre. A criança grande que Jaguaré exibia dentro dos campos de futebol era igualmente transportada para o seu dia-a-dia pessoal. Não soube poupar um único cêntimo do que havia ganho na Europa, gastando todo o dinheiro que ganhava com amigos nas molecagens da vida mundana. Ao voltar à sua pátria abraçou de novo a dura profissão de estivador. No Rio de Janeiro ainda atuou pelo São Cristóvão, mas sem o sucesso arrecadado no Vasco da Gama ou no Marselha. A vida dura no seu país aliada às saudades que tinha da Europa fazem-no regressar ao Velho Continente, e de novo com Portugal como destino. Desta feita ruma ao norte do país, onde defende as balizas do Académico do Porto e do Leça, entre 1940 e 1942. As informações sobre a estadia - e sobretudo sobre as peripécias - de Jaguaré na Cidade Invicta são escassas, ou mesmo nenhumas, sobressaindo contudo o seu papel decisivo na subida à 1ª Divisão que os leceiros alcançaram em 1940/41. Atravessou pela última vez o Atlântico para morrer na mais profunda miséria na sua pátria. Sabe-se que passa os últimos anos da sua vida em Santo Anastácio (Estado de São Paulo) onde se entrega às bebidas alcoólicas e às lutas de rua. E seria precisamente na sequência de uma dessas lutas de rua que Jaguaré voltaria a ser notícia nos jornais por uma última vez, depois de ser espancado até à morte por três polícias com quem se tinha envolvido em confrontos. Estavamos a 27 de agosto de 1946, data em que o pioneiro das loucuras de Higuita, Gatti, Henao, ou Chilavert dizia adeus ao mundo terrestre. 

2 comentários:

Armando Pinto disse...

Ao ler isto, essa faceta transporta ao antigo exemplo de Barrigana, o Mãos de Ferro. Senhor de carácter, que não tinha medo de nada. Destemido em dose, a pontos de passados tantos anos, já quase nem havendo quem o tivesse visto jogar, continua lendário na transmissão popular. Chegando Lobo Antunes, o escritor também meio louco mas de lucidez descritiva, embora não sendo adepto ferrenho de futebol e até sendo mais virado a sul... a ter escrito que gostava de ter sido Barrigana...

AP
Memória Portista

Julio Santos disse...

Casualmente entrei no Museu Virtual do Futebol, através da amiga Carla Alexandra. Ainda bem.
Fiquei a saber que antes do grande g.redes Azevedo que defendeu no meu SCP, também lá esteve Jaguaré.
Mais surpreendido fiquei com a sua passagem pelo também meu Leça F.C.
Posteriormente, também defenderam as cores do Leça, pai e filho, Jaguaré, que, penso não terem qualquer afinidade familiar com o craque brasileiro, ou será que tinham?