sexta-feira, fevereiro 13, 2015

Competições jovens (4)... Campeonato do Mundo de Sub-20/México 1983

Boni ergue a taça de campeão mundial no Estádio
Azteca, enquanto que ao seu lado Giovani é coroado
o melhor marcador e jogador do torneio
Depois de nas três primeiras edições do Campeonato do Mundo de Sub-20 ter falhado o assalto à coroa, eis que em 1983 a nação que respira e transpira futebol subiu (finalmente) ao trono da categoria. E fê-lo num trajeto imaculado, consentindo apenas um empate nos seis jogos realizados em solo mexicano, onde a bola rolou nesta quarta edição do Mundial de juniores da FIFA, muito contribuindo para este sucesso um grupo de talentosos artistas, ou não estivéssemos a falar do Brasil, pátria que ao longo da centenária história do belo jogo tem produzido largas dezenas - não serão largas centenas? - de jóias vistosas. É pois para recordar a aventura triunfante da nação brasileira no México 1983 que hoje abrimos as portas do Museu Virtual do Futebol. Sete cidades (Monterrey, Toluca, Puebla, Guadalajara, León, Irapuato, e Cidade do México) acolheram um certame que apesar de ainda jovem (recorde-se que a primeira edição havia ocorrido em 1977) suscitava já um enorme interesse junto da família do futebol. Cinco seleções fizeram no México a sua estreia em Mundiais de Sub-20, sendo que duas delas integraram aquele que foi denominado o grupo da morte do campeonato. As estreantes Holanda e China juntaram-se aos favoritos União Soviética e Brasil no Grupo D. Holandeses e brasileiros deram a 4 de junho de 1983, em Guadalajara, o pontapé de saída do grupo, num encontro que visto dos dias de hoje foi disputado por algumas das principais estrelas do futebol internacional da década de 80, casos das tulipas Marco Van Basten, e Geral Vanenburg - seriam ambos campeões da Europa ao serviço da Laranja Mecânica em 1988 - e dos canarinhos Aloísio, Dunga, Jorginho, e Bebeto, sendo que estes três últimos integraram o escrete que em 1994 venceu nos Estados Unidos da América o tetra-campeonato mundial. O resultado final deste embate entre europeus e sul-americanos cifrou-se numa igualdade a uma bola, com os primeiros a marcar por intermédio de Mario Been, aos 49 minutos, e os segundos a empatar por aquele que viria não só a ser o artilheiro - melhor marcador - do torneio como também o melhor jogador, Giovani, de seu nome. Este seria aliás o único jogo do qual os brasileiros não iriam sair vencedores, já que até à grande final da Cidade do México os comandados do treinador Jair Pereira exibiram um misto de classe e eficácia que se traduziu na obtenção de cinco inquestionáveis triunfos que levaram os jovens artistas da bola ao título planetário.
Facto comum em qualquer certame futebolístico mundial são as surpresas, e no México elas apareceram com naturalidade, tendo a primeira delas ocorrido no segundo embate da 1ª jornada do Grupo D, quando no Estádio Tecnológico, em Monterrey, a caloira Nigéria bateu por 1-0 a favorita União Soviética, nação que, recorde-se, havia vencido o primeiro Mundial de Sub-20, em 77.
A jovem seleção da Holanda que marcou presença no México 83, equipa esta onde
se destacava um tal de... Marco Van Basten
Africanos que dois dias depois viajaram até Guadalajara para enfrentar o talentoso e mortífero Brasil, que precisou somente de 45 minutos para resolver a contenda a seu favor, e carimbar, praticamente, a passagem à fase seguinte da copa.  Logo aos sete minutos Gilmar bateu o desamparado Patrick Udoh, para pouco depois da meia-hora Marinho Rã fazer o 2-0. A festa do golo não iria acabar no primeiro tempo, já que o goleador do escrete, Giovani, fez o terceiro e último tento da tarde. 3-0 a favor dos então - apenas - campeões sul-americanos. Neste mesmo dia 6 de junho a União Soviética dizia definitivamente adeus ao Mundial, como consequência da queda diante da jovem Laranja Mecânica após uma batalha frenética e... épica. A Holanda adiantou-se no marcador aos 12 minutos, mas a frieza soviética veio ao de cima pouco antes da saída para o intervalo, quando Salimov restabeleceu a igualdade. O reatamento foi emocionante. Oleg Protassov fez o 2-1 para os rapazes de leste aos 46 minutos, que apenas dois minutos mais tarde viram Mario Been faturar e colocar tudo de novo em pé de igualdade. E eis que a bola vai ao centro e logo de seguida aparece o instinto goleador de Marco Van Basten, que faz o 3-2 final perante o desespero do técnico soviético Nicolai Kiselyov, a quem de nada valeu ter colocado toda a carne no assador nos restantes minutos.
Perante este resultado a única seleção já qualificada na entrada para a terceira e decisiva ronda era o Brasil, que nem por isso deixou de encarar com seriedade a partida ante os soviéticos.Com todos os seus principais artistas em campo o escrete encostou a União Soviética ao seu setor defensivo, pressão essa que acabaria por dar os seus frutos no início da segunda parte, altura em que Agapov macou na sua própria baliza. A dez minutos do final surgiu uma vez mais o médio goleador da equipa orientada por Jair Pereira, Giovani, para fazer o 2-0. O encontro não terminou sem antes os europeus fazerem o seu golo de honra, por intermédio de Litovchenko. O Brasil era assim primeiro do seu grupo, até porque no outro jogo, ou melhor, na autêntica final de Monterrey, a Holanda fez a festa após uma igualdade sem golos ante a Nigéria, que para passar teria forçosamente de vencer os europeus. Tal não aconteceu, e Brasil e Holanda seguiram para a fase do mata-mata.

Argentina demolidora no Grupo C

Argentinos tiveram
muitas oportunidades
para festejar no Grupo C
Tidos, à partida, como - outro dos principais - favoritos à conquista do ceptro mundial, ou da reconquista, neste caso, os chicos argentinos apresentaram-se simplesmente demolidores nesta primeira fase do campeonato. Em três jogos apontaram uma dezena de golos e não consentiram nenhum! Metade destes golos foram logrados logo no primeiro encontro do Grupo C, quando no monumental Estádio Azteca, na capital mexicana, os pupilos de Carlos Pachame esmagaram a estreante e frágil China por 5-0. Jorge Luis Gabrich, uma das estrelas argentinas que mais brilhou neste torneio, de tal maneira que no final do certame o Barcelona assegurou de pronto o seu concurso, abriu um marcador que seria fechado por Oscar Acosta. Em Puebla a Checoslováquia não poderia pedir melhor estreia do que aquele que teve ante a Áustria. Quatro golos sem resposta abateram os conterrâneos de Amadeus Mozart, com destaque para o bis de Vlastimil Kula. Este mesmo jogador voltaria a estar em evidência na segunda ronda do grupo, quando em Irapuato ajudou a sua seleção a carimbar o passaporte para a fase seguinte na sequência de um novo triunfo, desta feita por números mais apertados (3-2) ante uma China que de forma surpreendente esteve em vantagem até à meia hora da segunda parte! Altura em que apareceu Kula a empatar o jogo, igualdade que seria desfeita a apenas um minuto dos 90 por intermédio de Dostal.

O génio de Toni Polster não se
vislumbrou no México
Apurada para os quartos-de-final ficaria igualmente a Argentina, mercê de mais uma grande exibição, agora diante da Áustria onde despontava um talentoso avançado de nome Anton "Toni" Polster. Porém, o talento do jogador formado no Áustria de Viena não se fez notar em terras mexicanas, antes pelo contrário. Polster não terá aceitado de bom grado a supremacia mais do que evidente dos sul-americanos neste encontro, os quais à passagem da meia hora da primeira parte já venciam por 3-0 (!), sendo que aos 82 minutos o austríaco recebe ordem de expulsão por parte do árbitro inglês Brian McGinaly. A Áustria chegava assim ao fim da linha da pior forma. Mas a paupérrima campanha dos europeus ainda estava longe de ser encerrada, já que no encontro ante a China o combinado orientado por Gerhard Hitzel sofreu a sua maior humilhação em todo o torneio, ao ser copiosamente derrotado por 3-0 pelos pequenos e desconhecidos asiáticos.
A 21 de junho o Nou Camp de León acolhia o encontro que iria definir o vencedor do grupo. Checoslovacos e argentinos puseram em campo as suas principais armas para lutar pelo lugar mais alto do pódio, e o resultado acabou por ser - naturalmente - um grande jogo de futebol, onde a arte sul-americana acabou por se superiorizar com um golo em cada uma das partes do duelo.

Festa do golo imperou no Grupo B

Tab Ramos, foi uma das principais revelações
dos norte-americanos
O Grupo B acolheu o jogo mais produtivo - no que a golos diz respeito - de um torneio onde foram marcados 91 golos (uma média de 2,84 por jogo). A Polónia esmagou em Puebla a Costa do Marfim por concludentes 7-3, com destaque para o hattrick de Joachim Klemenz. Em Guadalajara entrou em campo outros dos favoritos a fazer boa figura em terras mexicanas. Falamos do Uruguai, que a par do Brasil e da Argentina tem sido ao longo de décadas a fio o fino representante da América do Sul no panorama internacional do futebol. Como principais estrelas a seleção celeste que se deslocou ao México tinha uns tais de Carlos Aguilera e Ruben Sosa, dois jogadores que iriam fazer carreira na Serie A italiana nos inícios dos anos 90. Pela frente na sua estreia mundialista os jovens charrúas tiveram a seleção norte-americana, desconhecida do grande público, ou não fosse o soccer (ainda) naquela altura pouco apreciado em Terras do Tio Sam. Apesar de terem marcado presença no México de forma quase discreta, os yankees revelaram um par de jogadores que seriam peças fundamentais para o crescimento que o soccer teve na nação norte-americano na década seguinte, nomeadamente Tab Ramos e Paul Caligiuri. Jogadores que no primeiro encontro até dificultaram a vida aos favoritos uruguaios, conforme traduz a curta vitória (3-2) destes últimos. Ruben Sosa, com dois golos, e Carlos Aguilera, com um tento, foram os trunfos do selecionador José Etchegoven para entrar no torneio com o pé direito.
Los chicos de la celeste uruguaia em terras mexicanas
Na jornada seguinte mediram forças - em León - as duas seleções que triunfaram na ronda inaugural. Uma vitória para qualquer um dos lados significava desde logo o bilhete para os quartos-de-final da competição, assistindo-se por isso a um jogo aberto onde a procura do golo foi presença constante, sobretudo na etapa complementar, onde os guarda-redes foram buscar por quatro ocasiões a bola ao fundo das balizas. O polaco Jozef Wandzik fê-lo por três ocasiões, ao passo que o seu parceiro de posto, Mario Picun, apenas por uma vez foi buscar o esférico ao fundo da baliza, o que se traduziu numa vitória sul-americana por 3-1. A festa foi pois uruguaia. No outro jogo enfrentaram-se as duas seleções menos evoluídas do grupo, assistindo-se como tal em Puebla a um jogo pouco atrativo onde o único golo surgiu quando faltavam cerca de 10 minutos para o final, sendo o seu autor o norte-americano George Gelnovatch.
E chegavamos assim à derradeira jornada do grupo com um poleiro para dois galos. Polónia e Estados Unidos da América iriam decidir em Puebla quem acompanhava o Uruguai na fase eliminatória da competição. Apesar de favoritos ao triunfo os polacos sentiram imensas dificuldades para bater o guardião Jeff Duback, como comprova o facto de só aos 76 minutos o marcador funcionar pela primeira vez. Marek Lesniak apontou o tento que desorientou os norte-americanos, que a partir dali nunca mais se encontraram e permitiriam que os europeus acabassem com todas as dúvidas quanto à segunda seleção qualificada quando à passagem dos 85 minutos Szczepanski fizesse o 2-0 final.
Dando minutos a alguns dos jogadores menos utilizados nas duas primeiras partidas, o Uruguai fez quiçá o seu jogo menos conseguido da primeira fase, ao não conseguir melhor do que um empate sem golos ante a Costa do Marfim, resultado que mesmo assim foi festejado pelos charrúas pelo facto de daquela forma garantirem o primeiro lugar do grupo.

A surpresa do Mundial 

Frank Farina silenciou
o Estádio Azteca no jogo inaugural
do Grupo A
E no Grupo A ocorreu a grande surpresa deste Mundial mexicano. Contra todas as expectativas a Coreia do Sul deixou a nação da casa em lágrimas na sequência de uma eliminação prematura desta. Na verdade, o tormento do México começou logo na primeira jornada da fase grupos, quando não foi além de um empate ante a Austrália treinada pelo alemão Les Scheinflug, o homem que dois anos antes havia guiado de forma brilhante os socceroos aos quartos-de-final do Mundial de Sub-20 que decorreu precisamente em solo australiano. Com o majestoso Estádio Azteca preenchido por cerca de 110.000 espectadores, o México colocou-se em vantagem aos 16 minutos por intermédio de Marcelino Bernal. A elevada altitude da Cidade do México não foi motivo suficiente para que os australianos quebrassem, nem física nem animicamente. pelo que aos 73 minutos a estrela da equipa, e hoje em dia tido como um dos maiores futebolistas da história do soccer australiano, de seu nome Frank Farina, fez o empate final a uma bola. Em Toluca, a Escócia fazia a sua estreia em campeonatos do Mundo desta catergoria, diante daquele que à partida todos encaravam como o bombo da festa do grupo, a Coreia do Sul. Como estavam enganados. Contudo, o primeiro jogo não correu de feição aos campeões asiáticos, muito por culpa da veia goleadora de Jim Dobbin, autor dos dois golos que deram a vitória aos escoceses. Este foi um pequeno trambolhão numa caminhada brilhante da seleção sul-coreana, que a partir dali, de jogo para jogo, foi evoluindo a mostrando que afinal não era a pêra doce que todos julgavam.
Que o diga o México, que na segunda jornada levou um baile de bola dos asiáticos. Reyna ainda colocou os anfitriões em vantagem aos 10 minutos da primeira parte, mas uma segunda etapa supersónica dos coreanos alterou o rumo dos acontecimentos, para desespero dos cerca de 70 000 mexicanos que preencheram as bancadas do Azteca. Com esta derrota (1-2) o México, vice-campeão mundial da categoria em 1977, estava praticamente fora da corrida pelo título.

Austrália bateu a Escócia mas
não se classificou para
a fase seguinte
Surpresa, na verdade, foi uma palavra por mais do que uma vez pronunciada neste Grupo A. Depois de Coreia do Sul ter silenciado o Azteca foi a vez da Austrália bater a superior - na teoria - Escócia por 2-1 em Toluca e desta forma lançar-se numa - à partida - impensável corrida pelo apuramento para a fase seguinte. Mas para o conseguir tinha de pelo menos empatar com a Coreia do Sul na derradeira jornada, algo que não iria acontecer, já que na sequência de mais uma exibição muito bem conseguida os asiáticos voltaram a vencer por 2-1 e desta forma garantiram uma vaga entre os oito finalistas. De mal a pior ia o México, que voltava a cair, desta feita ante a Escócia orientada por Andy Roxburgh, técnico que em cima do intervalo viu Stephen Clarke fazer o único golo do jogo, o suficiente para guiar os highlanders ao topo do grupo e consequentemente para os quartos-de-final do certame.

Coreia do Sul elimina o favorito Uruguai no jogo do torneio

Luta entre checoslovacos e brasileiros em Guadalajara
E eis que chegamos aos quartos-de-final, a fase onde o mínimo deslize pode ser fatal. Que o diga o Uruguai, favorito ante a surpreendente Coreia do Sul, que acabou por cair num jogo que foi classificado como o mais empolgante de todo o Mundial. Pelo futebol praticado, pela incerteza no marcador, mas sobretudo pela entrega apaixonante com que as duas seleções desenvolveram esta partida. Infelizmente, uma delas teve de ficar pelo caminho, acabando o Uruguai por ser o sacrificado. A decisão apenas foi consumada no prolongamento, quando aos 104 minutos Shin Yo Ho fez o 2-1 final, ele que no início da segunda parte do tempo regulamentar tinha aberto o marcador para a sua equipa, tendo cerca de um quarto de hora mais tarde Jorge Martinez reposto a igualdade com que se atingiu o final dos 90 minutos. Mais fácil foi encontrar o adversário dos sul-coreanos nas meias-finais da prova, oponente esse que deu pelo nome de Brasil, que na sequência de mais uma exibição categórica e demolidora despachou os checoslovacos, em Guadalajara, por 4-1. No entanto, os canarinhos até começaram por apanhar um susto, quando logo aos seis minutos de jogo Dostal colocou os europeus em vantagem. No entanto, 12 minutos volvidos o centro-campista Dunga repôs o empate, para ainda antes da meia hora Bebeto fazer o gosto ao pé. Na etapa complementar veio ao de cima o talento da grande estrela brasileira nesta Copa. Giovani voltou a puxar dos galões e fez mais dois golos que acabaram de vez com as esperanças dos jogadores da Checoslováquia.
Seleção argentina que esteve presente no Campeonato do Mundo de Sub-20 em 1983
A 12 de junho subiram ao relvado do Nou Camp de León os combinados da Argentina e da Holanda para dar vida a uma autêntica batalha... no pior sentido da palavra. Na verdade, este foi um jogo quezilento, com muita indisciplina de ambas as partes, como comprovam os três cartões vermelhos mostrados pelo árbitro inglês Keith Hackett. A curiosidade nestas admoestações reside no facto de todos os três cartões terem sido mostrados ao minuto 89, numa altura em que os nervos estavam claramente à flor da pele. O marcador foi aberto por Van Basten, logo aos quatro minutos, que apareceu solto de marcação à entrada da pequena área para dar vantagem à Laranja Mecânica. Os holandeses seguraram a pequena mas preciosa vantagem até à última meia hora de jogo, altura em que o guardião Rick Laurs resolve dar uma ajuda à Argentina ao deixar passar por debaixo do corpo um remate de Jorge Borelli. Mas as ofertas de Laurs não se ficaram por aqui, já que em cima do minuto 90, quando já se espreitava o prolongamento, o guardião que na época defendia as cores do FC Eindhoven voltou a abrir a capoeira para soltar o frango que levou a Argentina até à meia-final. Eliminatória esta onde a Polónia surgiu pelo caminho, depois de na ronda anterior ter acabado com o sonho escocês de ir mais além na prova, muito por culpa do golo madrugador - aos cinco minutos - de Joachim Klemenz perante um Azteca com 120.000 espectadores!

Favoritos confirmam teoria na prática

Bebeto celebra o seu golo
contra a Checoslováquia
Para o dia 15 de junho estavam marcados os dois embates alusivos às meias-finais. No Estádio Azteca da capital mediram forças a Argentina e a Polónia diante da assistência mais baixa de toda a prova naquele recinto, já que apenas 40.000 espectadores viram os argentinos arrancarem um triunfo muito suado diante dos complicados polacos. Um golo solitário de Roberto Zarate aos 59 minutos garantiu aos pupilos de Carlos Pachame o passaporte para o jogo mais desejado do torneio, que teria lugar dali a quatro dias no mesmo cenário, ou seja, o monumental Azteca. Em Monterrey terminava o sonho sul-coreano neste torneio. Os asiáticos sucumbiram perante o seu obstáculo mais complicado ao longo de uma caminhada memorável... e à partida impensável. O Brasil colocou em campo toda a sua arte e mestria para levar de vencida uma Coreia do Sul que até se adiantou no marcador aos 14 minutos por Kim Jong Boo. Mas os festejos coreanos foram sol de pouca dura, já que ao minuto 22 Gilmar restabeleceu a igualdade, a qual seria desfeita já no segundo tempo por Marinho Rã. Vitória complicada mas merecida da melhor equipa sobre o relvado. Este jogo teve ainda a particularidade de o goleador de serviço do escrete, Giovani, ter ficado em branco pela primeira e única vez neste Mundial.

A final desejada decidida por uma grande penalidade

Giovani, o artista que decidiu a final
Inimigos de longa data nos campos de futebol, Brasil e Argentina. Mais do que velhos rivais e principais atores do futebol sul-americano, estas eram as duas melhores equipas deste campeonato, pelo que se esperava um grandioso encontro de futebol. Na ânsia de presenciar um belo espectáculo 110.000 hinchas preencheram as bancadas do Estádio Azteca, na Cidade do México. No encontro em si o Brasil esteve sempre melhor que o eterno rival, mas a contenda apenas seria decidida na sequência de uma grande penalidade assinalada ao minuto 39. Chamado à marcação o goleador Giovani não perdoou e fez não só o seu sexto golo na prova - sagrando-se desta forma o melhor marcador do torneio - como apontou o golo que coroou pela primeira vez o escrete canarinho como rei do Campeonato do Mundo de Sub-20. Merecido, há que dizê-lo, já que pelo muito que produziram ao longo do torneio os meninos de Jair Pereira foram uns dignos vencedores. No terceiro posto de um Mundial que ficou ainda na história por ter sido aquele que até aos dias de hoje maior média de assistência registou - 36.000 espetadores - ficou a Polónia, que precisou de fazer horas extras - prolongamento - para bater a surpresa da prova, a inesquecível Coreia do Sul.
Inesquecível é também a imagem do capitão brasileiro Boni a receber a taça do Mundo, resgatando naquele momento (boas) memórias passadas para o futebol do Brasil, quando 13 anos antes o capitão Carlos Alberto, naquele mesmo estádio, ergueu pela terceira vez na história a taça do Mundo da FIFA - de futebol sénior. Para os argentinos o Estádio Azteca iria ter mais encanto três anos depois, quando Maradona e companhia levaram a seleção das Pampas ao topo do Mundo.

A figura: Giovani

Além de se ter consagrado como o melhor
marcador do torneio, Giovani foi ainda
eleito o melhor jogador
À semelhança de outros Mundiais de jovens muitos jogadores acabaram por não confirmar no futebol sénior todo o talento exibido durante o seu percurso nos escalões de formação. Foi o caso da grande figura deste México 83, o brasileiro Giovani Faria da Silva. Nascido a 6 de abril de 1964 na cidade de Vitória (Estado de Espírito Santo) Giovani começou a dar nas vistas com tenra idade, tendo com apenas 16 anos integrado a equipa da Desportiva Ferroviária. Lá permaneceu dois anos, dando nas vistas com um virtuoso centro-campista que fazia lembrar - na voz de muitos que o viram atuar - os lendários Gerson, Didi, ou... Maradona. Não demorou muito até que os tubarões do futebol brasileiro fossem até Vitória para caçar a pérola que ali despontava, tendo em 1982 o Vasco da Gama garantido o concurso do craque. Em São Januário, Giovani passou quiçá os melhores momentos da sua carreira enquanto futebolista sénior, ajudando o clube do Rio de Janeiro (RJ) a acabar com o reinado do Flamengo de Zico na alta roda do futebol carioca. Com uma visão de jogo extraordinária, Giovani teve uma primeira passagem - de oito anos consecutivos - pelo Vasco da Gama alternando momentos de bom... e mau futebol, conquistando três títulos de campeão estadual do RJ (1982, 1987, e 1988) ao lado de astros como Roberto Dinamite, Romário, Dunga, ou Bebeto. 1989 foi mesmo um ano inesquecível para Giovani, já que além de ter arrecadado o seu título mais importante ao serviço do Vasco, o campeonato do Brasil, foi chamado pelo selecionador Sebastião Lazaroni para a Copa América desse ano, realizada em solo brasileiro. Ao lado de jogadores como Romário, Taffarel, Mazinho, Branco, Ricardo Gomes, Renato Gaúcho, Dunga, ou Bebeto, Giovani foi campeão continental, tendo atuado em três encontros e marcado um golo - ante a Venezuela.
A seleção olímpica do Brasil em 1988. Giovani é o segundo jogador, na fila de baixo, a contar da direita para a esquerda
Um ano antes voltou a estar perto da glória com a seleção, quando em Seul ficou com a medalha de prata dos Jogos Olímpicos, perdendo a final - da qual não participou - ante a União Soviética. Depois da Copa América de 89 a Europa começou - por fim - a olhar com mais atenção um jogador que apesar de talentoso pecava por alguma irregularidade exibicional, como se explica o facto de treinadores que passaram entre 82 e 89 pelo banco vascaíno, como Edu Coimbra, António Lopes, ou Joel Santana, o terem relegado para a condição de suplente em inúmeras ocasiões. Como já frisámos, 1989 foi contudo um ano de ouro para Giovani em termos coletivos e individuais, tendo o Bolonha, de Itália, assegurado a sua contratação. Era a oportunidade do pequeno príncipe, como era chamado pelos adeptos do Vasco da Gama, provar todo o seu talento exibido quer no Mundial de Sub-20 de 83, quer nas Olimpíadas de 88, naquele que era o melhor campeonato nacional do planeta, a Serie A, onde pontificavam nomes como Maradona, Gullit, Van Basten, Rijkaard, Matthaus, Klinsmann, Careca, Baresi, Maldini, ou Roberto Baggio. A exigência do Calcio foi demasiado elevada para Giovani, que não vingou em Itália e seguiu para a Alemanha, onde defendeu em 90/91 as cores do Karlruher, onde sobressaia na altura um jovem guarda-redes de nome Oliver Kahn.

Foi ao serviço do Vasco da Gama que Giovani viveu
os melhores momentos enquanto futebolista sénior
Voltou a não ter sucesso, e regressou ao Brasil, e ao seu Vasco da Gama para mais três épocas de altos e baixos. Engordou, no entanto, o seu currículo, já que venceu mais dois títulos estaduais (92 e 93) com o emblema da Cruz Maltina, antes de tentar uma nova aventura no estrangeiro, precisamente no local onde dez anos antes havia feito as apresentações ao planeta da bola, o México. Ali, defendeu as cores do Tigres, por uma única época, antes de regressar por uma terceira e última vez ao Vasco da Gama, onde contracenou com Valdir, Mário Jardel, ou o norte-americano Cobi Jones. Posteriormente, foi deambulando por alguns emblemas de menor dimensão dos estados de São Paulo e de Espírito Santo, até colocar definitivamente em 2002 o ponto final numa carreira... agridoce. No campo pessoal, 2005 é talvez o ano mais negro da vida de Giovani, altura em que lhe foi diagnosticado um cancro na coluna vertebral, tendo o ex-futebolista lutado contra a doença durante seis anos. Acabou por vencer aquele que considerou o maior desafio da sua vida.

Nomes e números:

Grupo A

1ª Jornada

México - Austrália: 1-1
(Bernal, aos 16m)
(Farina, aos 73m)

Coreia do Sul - Escócia: 0-2
(Dobbin, aos 62m, aos 78m)

2ª Jornada

Coreia do Sul - México: 2-1
(No, aos 29m, Shin, aos 89m)
(Reyna, aos 10m)

Escócia - Austrália: 1-2
(McStay, aos 61m)
(Incantalupo, aos 52m, Patikas, aos 87m)

3ª Jornada

México - Escócia: 0-1
(Clarke, aos 45m)

Austrália - Coreia do Sul: 1-2
(Brown, aos 53m)
(Kim, aos 16m, aos 34m)

Classificação:

1-Escócia: 4 pontos
2-Coreia do Sul: 4 pontos
3-Austrália: 3 pontos
4-México: 1 ponto

Grupo B

1ª Jornada

Polónia - Costa do Marfim: 7-2
(Klemenz, aos 4m, aos aos 21, aos 51m, Gorgon, aos 22m, Wraga, aos 48m, Myslinski, 59m, Lesniak, aos 85m)
(Didi, aos 67, Kassy, aos 80m)

Uruguai - Estados Unidos da América: 3-2
(Sosa, aos 57m, aos 64m, Aguilera, ao 1m)
(Hooker, aos 60m, Perez, aos 67m

2ª Jornada

Estados Unidos da América - Costa do Marfim: 1-0
(Gelnovatch, aos 79m)

Uruguai - Polónia: 3-1
(Aguilera, aos 54m, aos 66m, Zalasar, aos 52m)
(Klemenz, aos 57m)

3ª Jornada

Polónia - Estados Unidos da América: 2-0
(Lesniak, aos 76m, Szczepanski, aos 85m)

Costa do Marfim - Uruguai: 0-0

Classificação:

1-Uruguai: 5 pontos
2-Polónia: 4 pontos
3-Estados Unidos da América: 2 pontos
4-Costa do Marfim: 1 ponto

Grupo C

1ª Jornada

video
Vídeo: ARGENTINA - CHINA

Argentina - China: 5-0
(Gabrich, aos 16m Garcia, aos 53m, Dertycia, aos 70m, Zarate, aos 81m, Acosta, aos 89m)

Checoslováquia - Áustria: 4-0
(Kula, aos 9m, aos 71m, Karoch, aos 48m, Hirko, aos 89m)

2ª Jornada

Áustria - Argentina: 0-3
(Gabrich, aos 13m, aos 28m, Zarate, aos 20m)

Checoslováquia - China: 3-2
(Dostal, aos 34m, aos 89m, Kula, aos 75m)
(Mai, aos 49m, Li, aos 56m)

3ª Jornada

Argentina - Checoslováquia: 2-0
(Vanemerak, aos 15m, Gabrich, aos 77m)

China - Áustria: 3-0
(Liu, aos 48m, Guo, aos 79m, Duan, aos 88m)

Classificação:

1-Argentina: 6 pontos
2-Checoslováquia: 4 pontos
3-China: 2 pontos
4-Áustria: 0 pontos

Grupo D

1ª Jornada

Holanda - Brasil: 1-1
(Been, aos 49m)
(Giovani, aos 77m)

União Soviética - Nigéria: 0-1
(Okoronwanta, aos 78m)

2ª Jornada

Brasil - Nigéria: 3-0
(Gilmar, aos 7m, Marinho Rã, aos 32m, Giovani, aos 43m)

Holanda - União Soviética: 3-2
(Duut, aos 12m, Been, aos 48m, Van Basten, aos 49m)
(Salimov, aos 40m, Protasov, aos 46m)

3ª Jornada

União Soviética - Brasil: 1-2
(Litovchenko, aos 87m)
(Giovani, aos 80m, Agapov, aos 47m na própria baliza)

Holanda - Nigéria: 0-0

Classificação:

1-Brasil: 5 pontos
2-Holanda: 4 pontos
3-Nigéria: 3 pontos
4-União Soviética: 0 pontos

Quartos-de-final

Escócia - Polónia: 0-1
(Klemenz, aos 5m)

Uruguai - Coreia do Sul: 1-2
(Martinez, aos 71m)
(Shin, aos 54m, aos 104m)

video
 Vídeo: ARGENTINA - HOLANDA

Argentina - Holanda: 2-1
(Borelli, aos 65m, Gaona, aos 90)
(Van Basten, aos 4m)

Brasil - Checoslováquia: 4-1
(Giovani, aos 40m, aos 60m, Bebeto, aos 29m, Dunga, aos 18m)
(Dostal, aos 6m)

Meias-finais

Argentina - Polónia: 1-0
(Zarate, aos 59m)

Coreia do Sul - Brasil: 1-2
(Kim, aos 14m)
(Gilmar, aos 22m, Marinho Rã, aos 81m)

Jogo de atribuição dos 3º e 4º lugares

Polónia - Coreia do Sul: 2-1
(Krauze, aos 77m, Szczepanski, aos 103m)
(Lee, aos 37m)

Final

Brasil - Argentina: 1-0

Data: 19 de junho de 1983
Estádio: Azteca, na Cidade do México
Árbitro: Gerard Biguet (França)

Brasil: Hugo, Jorginho, Boni, Heitor, Mauricinho, Geovani, Marinho Rã (Bebeto, aos 82m), Paulinho Carioca, Dunga, Guto, e Gilmar (Coelho, aos 69m). Treinador: Jair Pereira.

Argentina: Islas, Borelli, Olivera, Basualdo, Theiler, Garcia, Vanemerak, Gabrich, Zarate, Dezotti, e Gaona (Graciani, aos 75m), Treinador: Carlos Pachame.

Golo: 1-0 (Giovani, aos 39m)
A seleção brasileira que no relvado do Estádio Azteca conquistou o Mundial de 1983

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Vídeo: BRASIL - ARGENTINA

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