terça-feira, abril 19, 2016

Cidades do Futebol (1)... Manchester: a capital mundial do "Beautiful Game"

Um retrato da cidade industrial de Manchester
em meados do século XIX
Madrid pode até ser o berço do emblema que detém o maior número de títulos da Taça/Liga dos Campeões Europeus; Barcelona pode reclamar para si o epíteto de cidade onde ao belo jogo é dado um toque artístico por génios que seguem as pisadas de Salvador Dali ou Antoni Gaudi; Munique o local onde a modalidade é interpretada com força, rigor e mestria; mas é em Manchester que o futebol tem a sua capital. É nesta cidade inglesa que iniciamos hoje aquela que se espera ser uma longa e entusiasmante viagem pelas "cidades do futebol" espalhadas pelo globo, abrindo desta forma uma nova vitrina no Museu Virtual do Futebol, onde na qual iremos (tentar) conhecer alguns contornos da história do envolvimento dessas mesmas cidades com o hoje denominado desporto rei do planeta, os símbolos e os nomes que fizeram com que esses locais sejam atualmente verdadeiros santuários do beautiful game, as lendárias batalhas que ali se travaram, e muito mais factos para (re)descobrir nesta viagem que hoje dá o seu pontapé de saída. Viajemos pois até ao início da segunda metade do século XIX, até Manchester, o berço da Revolução Industrial, local onde o jogo sofreu a sua primeira grande transformação desde que havia nascido no seio das escolas e universidades do sul de Inglaterra. Apesar de ter nascido em berço aristocrático, rapidamente a modalidade abraçou as classes mais pobres da sociedade britânica de então. O futebol prontamente passou a ser o principal entretenimento da classe operária (funcionários de fábricas, de armazéns, etc.), dos seguidores da igreja e dos meninos de rua. E foi este o cenário erguido precisamente nas cidades mais industriais do norte de Inglaterra, situadas nos condados das West Midlands e de Lancashire. Em diversas cidades desta região o football enraizou-se e popularizou-se na cultura britânica, e onde, por consequência, nasceram os primeiros clubes, foram criadas as primeiras competições, e onde se atingiu o patamar do profissionalismo. Manchester foi uma dessas urbes onde o jovem futebol se transformou, em que passou de divertimento exclusivo do meio escolar aristocrático para um fenómeno sócio-cultural de massas. Foi pois com naturalidade que surgiram os primeiros clubes, uns formados por elementos ligados à igreja, outros pela classe operária que proliferava em Manchester e seus arredores. E foi precisamente um emblema criado por operários a primeira coletividade futebolística revelada ao Mundo pela cidade de Manchester: o Hulme Athenaeum. Um facto achado recentemente - em 2014 -, altura em que o investigador desportivo Gary James descobriu que a centenária teoria, por assim dizer, de que o Turton Football Club - fundado em 1871 - era o clube mais antigo do condado de Lancashire não estava correta. Após meses a fio a vasculhar arquivos, o investigador da Manchester Metropolitan University chegaria à conclusão de que na realidade foi em novembro de 1863 que a cidade conheceu o seu primeiro emblema, precisamente o Hulme Athenaeum, um clube fundado pela classe operária. Isto, numa altura em que o jogo praticamente ainda não havia ultrapassado as paredes das escolas e universidades, ficando aqui a prova de que Manchester teve de facto um papel fundamental na expansão do futebol a outros extratos sociais.
Enquanto grande e importante centro industrial que era, Manchester atraía cidadãos provenientes de vários pontos do Reino Unido em busca de trabalho, homens e rapazes que nos seus tempos livres experimentavam aquele a quem um dia alguém viria a chamar de ópio do povo, o football.

Os embriões dos dois filhos pródigos de Manchester: o City e o United 

Durante a segunda metade do século XIX foram muitos os clubes que foram criados na região de Manchester, mas dois, em particular, haveriam de conferir à cidade o estatuto de capital... mundial do futebol. Falar desses dois emblemas implica, naturalmente, abordar as origens de cada um deles, dos primeiros passos rumo à glória e popularidade mundial que hoje em dia abraçam. No seio de um grupo de trabalhadores ferroviários de Newton Heath surgiu em 1878 aquele que décadas mais tarde haveria de se tornar um gigante do futebol planetário, o Manchester United, então batizado de Newton Heath Lancashire and Yorkshire Railway Football Club. Nos seus primeiros dois anos de vida este emblema disputou vários encontros com outros grupos de trabalhadores ferroviários, partidas essas decorridas sob o signo do divertimento e do convívio entre esta específica classe operária. Os registos históricos indicam que o primeiro duelo mais a sério travado pelo emblema dos ferroviários ocorreu em novembro de 1880, altura em que um combinado de reservas do Bolton Wanderers esmagou em North Road o team de Manchester por 6-0. North Road foi pois uma das primeira catedrais - o mesmo será dizer estádios - desta cidade, com capacidade para 12.000 pessoas, tendo sido esta a primeira casa do Newton Heath, que ali atuou desde a sua fundação até 1893. Durante este período North Road foi palco de diversos encontros inseridos nas primeiras competições oficiais do futebol inglês, entre outras a Lancashire Cup, cuja primeira edição ocorreu na temporada de 1879-1880.

Curiosamente seria neste preciso ano de 1880 que no seio da igreja anglicana iria nascer o St. Mark's (West Gorton) Football Club, nada mais nada menos do que a semente do atual Manchester City. O St. Mark's nasceu com a missão de combater os problemas sociais que assolavam a comunidade mais fragilizada da cidade. Idealizado pelos capelões da igreja de St. Mark's, o primeiro registo de um jogo deste emblema remonta a novembro desse preciso ano de 1880, altura em que defrontou uma equipa oriunda de uma igreja de Macclesfield.
Além de importante centro industrial, Manchester era já por estes dias um dinâmico centro futebolístico. A futura Football League teria as suas origens nesta cidade. A Profissional Footballers Association (Associação de Futebol Profissional) e a International Board (a entidade que estabelece as regras de jogo) tiveram Manchester como berço. Foi ainda durante esta década que se formou (1884) a Manchester Football Association que coordenou não só algumas das primeiras competições oficiais que foram disputadas no país como, e sobretudo, teve um papel preponderante para cimentar uma cultura futebolística nos britânicos. Entretanto, em 1884 o ainda jovem St. Mark's funde-se com o Gorton Athletic, uma união que no entanto duraria pouco tempo. Após a separação o St. Mark's passaria a denominar-se de Gorton Athletic Football Club, enquanto que o Gorton Athletic reformulou-se como West Gorton Athletic. 1887 é um ano marcante na vida do Gorton AFC, altura em que o clube abraça o profissionalismo, procedendo desde logo a novas mudanças. Uma nova alteração de nome seria a primeira delas, tendo o emblema ligado à igreja passado a designar-se Ardwick Football Clube, sendo que a segunda aludiu à passagem para aquela que seria a primeira grande catedral - em termos de dimensões - de Manchester, o Hyde Road Stadium. Com capacidade para 40.000 pessoas o recinto testemunhou os primeiros lampejos de glória daquele que viria a designar-se em 1894 Manchester City.
Imagem das primeiras batalhas futebolísticas travadas em Manchester
Ainda antes de abordarmos este facto, será importante nesta viagem ao passado frisar que 1881 é outro ano marcante na história do futebol de Manchester, e dos seus dois maiores símbolos em particular, já que a 12 de novembro St Mark's (West Gorton) Football Club é batido pelo Newton Heath por 3-0 num jogo descrito pela crítica de então como "agradável". Dos dois emblemas o Newton Heath é o primeiro a participar em competições oficiais, no caso a Alliance League - uma prova que nos seus anos iniciais rivalizou com a Football League, esta última criada uma temporada mais cedo (1888/89) do que a primeira liga - e a emergente FA Cup (Taça de Inglaterra), facto ocorrido na época de 1889/90. Na temporada seguinte foi a vez do Ardwick - sucessor do St Mark's (West Gorton) - fazer a sua estreia na FA Cup e na Alliance League. Com a extinção desta última competição os dois emblemas juntaram-se à Football League, sendo que, ainda no que concerne a factos estatísticos, o Newton Heath foi o primeiro clube a pisar terrenos da First Division (1892/93), ao passo que o seu vizinho da cidade só o viria a fazer no final do século, mais concretamente na época de 1889/1900, e já sob a designação de Manchester City. 
Apesar de nascidos em diferentes extratos sociais - um teve como berço a classe operária do setor ferroviário, enquanto que outro veio ao Mundo através da igreja - os dois clubes tiveram em comum o facto de terem enfrentado profundas crises financeiras que os iria obrigar a alterar a sua identidade. O primeiro a fazê-lo foi o Ardwick, que em 1894 altera a sua designação para Manchester City Football Club, ao passo que o Newton Heath ressurge em 1902 na qualidade de Manchester United Football Club.

Manchester revela ao Mundo a primeira superstar do jogo 

Um poster de Billy Meredith
com as cores do City
De lá para cá muitos foram os nomes que envergaram com distinção os dois mantos sagrados de Manchester. Alguns fizeram-no mesmo ao serviço dos dois vizinhos da cidade. Um desses nomes é apontado por muitos historiadores desportivos como o primeiro grande ícone do futebol planetário! Billy Meredith, a sua graça. Galês de nascimento (1874), Meredith foi a primeira lenda de ambos os emblemas, tendo ao serviço dos dois alcançado a glória. Sobre ele, o Museu Virtual do Futebol traçou em anteriores viagens ao passado longas linhas, algumas das quais trazemos hoje a esta nova rubrica.
William Henry Meredith é descrito nas páginas esbatidas dos jornais e livros daqueles (hoje) longínquos dias de finais do século XIX e princípios do século XX como o mago dos primórdios do futebol. Billy, diminutivo de William, trabalhou como mineiro na sua terra natal (Chirk), ocupando os seus tempos livres a correr atrás de uma bola pelos campos verdes de Black Park. A sua requintada perícia técnica com o esférico fez-se desde logo sobressair, e com apenas 16 anos veste a sua primeira camisola no planeta da bola, mais precisamente a do clube local, o Chik AAA Football Club. Era um jogador diferente dos demais, tratava o esférico de uma forma encantadora, cativando todos aqueles que o viam jogar. Numa altura em que o profissionalismo começava a aparecer Billy não resistiu à possibilidade de ganhar algum dinheiro fazendo aquilo que mais gostava, jogar futebol. Com 18 anos muda-se então para o poderoso Northwich Victoria, emblema que disputa a principal liga galesa, defendendo as cores do clube somente durante dois anos, voltando posteriormente para a sua cidade natal, e para o Chirk AAA, ao mesmo tempo em que regressa ao duro trabalho nas minas. A sua perícia apaixonou adeptos de vários cantos não só do País de Gales como do restante Reino Unido, tendo, com naturalidade, surgido inúmeros convites de clubes da Velha Albion para o seu concurso. E é aqui que o novo Manchester City entra em ação. Em 1894 o clube contrata Billy, que enquanto atleta amador viajava para Manchester ao fim de semana para atuar com o seu novo clube, ao passo que durante a semana exercia a dura profissão de mineiro. Foi assim durante dois anos. A estreia pelo City aconteceu em novembro desse ano de 1894, em casa do Newcastle United, sendo que uma semana mais tarde faz o debute ante os adeptos do clube numa partida diante do rival da cidade, o Newton Heath, dérbi que terminou com o triunfo desta última equipa por 5-2, sendo que os dois golos do City foram apontados por Meredith, que no final dessa temporada de estreia marcou 12 tentos em 18 aparições.

Meredith com as cores do United
Na época de 1898/99 ele guiou o clube no assalto à promoção ao principal escalão do futebol inglês, e pelo caminho deixou a marca pessoal de quatro hattricks (!), terminando a temporada com um total de 29 remates certeiros. Depois de uma certa instabilidade na First Division - o City foi relegado na temporada de 1901/02 - o clube de Manchester atinge a glória em 1903/04, altura em que vence o troféu mais prestigiado do país, e do Mundo por aqueles dias, a FA Cup (Taça de Inglaterra). Billy Meredith assinou exibições majestosas ao longo da caminhada triunfal até ao Crystal Palace Stadium - o principal estádio londrino da época - onde curiosamente o esperava o Bolton Wanderers, o primeiro clube que o quis levar para Inglaterra. Diante de 62.000 pessoas o City levou a melhor, graças a Billy Meredith, que aos 23 minutos fez o único golo da partida, oferecendo assim ao seu clube a primeira coroa de glória da sua história. Ao clube e à cidade de Manchester, que através do City vencia o primeiro de muitos e pomposos títulos que iria arrecadar ao longo da história. A época de 1903/04 fica ainda assinalada pela chegada à cidade de um homem que faz igualmente parte da história dos dois emblemas, Ernest Mangnall. Natural de Bolton (1866) ele foi o único homem que até aos dias de hoje treinou o City e o United. Depois de três temporadas no Burnley, onde iniciou a sua carreira de técnico, Magnall seria contratado pelo United em 1903, que na altura percorria os caminhos da Second Division. Três anos depois da sua chegada a Bank Street - a segunda casa do clube, após a saída de North Road em 1893 - o técnico conduziu o Manchester United ao principal escalão do futebol inglês, após 13 anos de ausência. Esta não seria contudo a primeira grande alegria do técnico, que em 1907/08 iria tornar-se no primeiro treinador a vencer um grande título ao serviço do United: a First Division. Magnall entrava assim para a história do clube, ao vencer o primeiro grande título da sua história, e o primeiro título de campeão nacional da própria história da cidade de Manchester.

Primeiro grande escândalo do futebol leva Meredith do City para... o United

Meredith com o manto
sagrado do País de Gales
Este êxito inicial do United foi alcançado muito graças à performance da grande estrela do futebol britânico - e não só - de então: Billy Meredith! Ao longo de décadas foram muitas as figuras do futebol apelidadas de traidores pelos adeptos dos dois emblemas, na sequência da troca de camisolas entre o City e o United, ou vice-versa. Também aqui Meredith entrou na história, por ter sido o primeiro jogador a atuar pelos dois emblemas da cidade, uma troca envolta em alguma polémica, já que resultou daquele que é considerado como o primeiro grande escândalo do futebol a nível mundial, e que envolveu a então grande estrela do jogo. Corria o ano de 1905 quando Meredith terá tentado subornar Alex Leake, o capitão do Aston Villa - com 10 libras -, para que este influencia-se os seus companheiros no sentido de facilitar uma vitória crucial do City na corrida ao título inglês desse ano. O caso foi descoberto e o City entrou em litígio com o seu capitão e principal referência da equipa, tendo este, em jeito de vingança, denunciado outros casos de corrupção no seio do clube, facto que levou à sua saída de Hyde Park. O astro galês deixava o City com um impressionante registo de 145 golos marcados em 338 jogos disputados ao longo dos oito anos em que envergou a camisola blue sky. O United viu a saída de Meredith do seu vizinho como a grande oportunidade para colocar o clube no caminho da glória. O emblema disponibilizou então 500 libras para pagar à Football Association a multa que levantava a suspensão do atleta. Dinheiro bem gasto, terão, por certo, pensado pouco depois os dirigentes do Manchester United, já que Meredith rapidamente assumiu o papel de estrela da companhia, conduzindo através do seu invulgar talento o clube a inúmeras conquistas. Fez a sua estreia pelo United a 1 de janeiro de 1907, ante o Aston Villa - o clube que o tramou no caso dos subornos - saindo dos seus pés de mago o cruzamento para Sandy Turnbull fazer o único golo com que clube de Manchester venceu a partida.

Imagem da final da Taça de Inglaterra
de 1909, vencida pelo United
Com as cores do Manchester United, Billy Meredith conquistou a esmagadora maioria dos títulos logrados na sua carreira, tendo o primeiro deles ocorrido na temporada de 1907/08, altura em que vence o já referido campeonato nacional. Feito repetido em 1910/11. Mas a jóia da coroa era mesma a FA Cup, competição que o galês iria vencer ao serviço do United em 1909, quando no Crystal Palace Stadium o United venceu por 1-0 a Bristol City, tendo o obreiro desse triunfo sido o príncipe dos pontas, como também era já conhecido Meredith. O jogador ficou eternizado na história do futebol não só pela sua talentosa forma de interpretar o belo jogo como também pelo facto de ter jogador até quase aos 50 anos de idade! É verdade. 49 anos e oito meses, era esta a idade precisa no dia em que o galês fez as suas despedidas dos relvados, fazendo-o com as cores do... Manchester City. Em 1921 ele abandona o United com 35 golos marcados em mais de 335 jogos disputados, e regressa ao vizinho City onde joga até quase aos 50 anos (em 1924). Em 1923 ele ainda leva o City às meias-finais da FA Cup, precisamente um ano depois de ter representado o País de Gales pela última vez, com 48 anos, tornando-se assim no jogador mais velho a vestir o manto sagrado galês. O seu derradeiro encontro pelo City aconteceu a 29 de março de 1924, num duelo diante do Newcastle United, precisamente o clube que apadrinhou a estreia de Meredith em 1894. 40 anos tinham passado desde então! Penduradas as chuteiras comprou um hotel em Manchester, dedicando-se à hotelaria, vindo a falecer a 19 de abril de 1958.

Ernest Mangnall, o único homem
que treinou os dois principais
clubes de Manchester
O galês foi a principal referência do United dentro do retângulo de jogo, mas o arquiteto destes êxitos - dois campeonatos e uma FA Cup - foi, sem margem para dúvida, Ernest Mangnall, o primeiro grande manager do clube. Após nove temporadas à frente dos destinos do United, Magnall choca a cidade ao atravessar a rua para a casa do vizinho, isto é, assumir o comando técnico do City. O treinador abandonava o Manchester United envolto num clima de alguma polémica, já que no confronto entre os dois vizinhos da cidade ocorrido em setembro de 1912, o qual foi ganho pelo City (1-0), Mangnall não conseguiu disfarçar a alegria pela vitória do adversário! Um sinal, por certo, da mudança que viria a acontecer na temporada de 1912/13. A estadia do técnico em Hyde Road não foi, contudo, tão feliz quanto havia sido em Bank Street, e muito por culpa da I Grande Guerra Mundial, que além de roubar alguns dos melhores jogadores britânicos de então, parou as competições futebolísticas entre 1916 e 1919. Ernest Mangnall orientou pela última vez o City em 1924, colocando um ponto final em oito temporadas sem a obtenção de qualquer coroa de glória. No total orientou os dois emblemas de Manchester em 821 ocasiões (471 pelo United e 350 pelo City), sendo até hoje o único treinador que trabalhou nos dois clubes, como já foi dito.

E eis que se ergue majestosamente o Teatro dos Sonhos

Um desenho de Old Trafford no início da sua existência
1910 é outro ano digno de registo na história do futebol de Manchester. Diríamos mesmo na história do futebol internacional. Ano este em que é oficialmente inaugurado aquele que é hoje um dos mais célebres estádios de futebol do Mundo, palco de centenas de inesquecíveis capítulos da história do jogo, a esmagadora maioria deles escritos em tons de vermelho, branco e preto, as cores adotadas pelo United: o Old Trafford. A obtenção dos títulos de campeão nacional (1908) e da FA Cup (1909) fez com que os dirigentes do Manchester United elevassem a fasquia da ambição. Queriam mais vitórias, mais títulos, e por consequência mais prestígio, mas para tal era preciso uma casa mais moderna e funcional do que Bank Street, e nesse sentido foi projetado o Old Trafford. Este recinto acabou por ser um sonho concretizado do homem que em 1902 salvou o Newton Heath da bancarrota, e que posteriormente mudou o nome do clube para Manchester United. Esse mesmo homem (John Henry Davies) que após as primeiras conquistas do reformulado emblema afirmou que Bank Street não se adequava à grandeza de uma equipa vencedora como a do United. Do seu próprio bolso doou uma grande parte da verba que seria usada para a construção de Old Trafford, um projeto da autoria do arquiteto Archibald Leitch. Com o passar das décadas o estádio, inicialmente projetado para aproximadamente 60.000 pessoas, tornar-se-ia num local de culto para os adeptos do United, que aqui testemunharam a ascensão global do clube.
Aspeto de uma das bancadas de Old Trafford após o bombardeamento de 1941
Old Trafford sofreu inúmeras mudanças ao longo de mais de 100 anos de vida. Mudanças consequentes de momentos de glória, mas também de momentos de tristeza. O primeiro momento de dor aconteceu no início da década de 40, altura em que deflagrava a Segunda Guerra Mundial. Em 1941, na sequência de bombardeamentos ao Reino Unido, Old Trafford é atingido, e quase é destruído. Esse facto obrigou a que o recinto fosse praticamente reconstruído, e até 1949 o City albergou no seu estádio - Maine Road - o seu eterno vizinho e rival United. Bonito gesto, sem dúvida. Na reconstrução o estádio foi ampliado, chegando em certos períodos da sua história a albergar 80.000 pessoas. Os grandes eventos desportivos planetários realizados em Inglaterra na segunda metade do século XX, mais concretamente o Campeonato do Mundo de 1966 e o Campeonato da Europa de 1996, usaram Old Trafford como palco, e nesse sentido, em cada um desses eventos, o estádio foi sofrendo melhorias (em 1973 foi totalmente coberto, por exemplo), que fizeram com que hoje - com uma lotação de 75.790 espectadores - este seja um dos recintos desportivos mais modernos e belos do Mundo. A juntar à componente visual, por assim dizer, esta catedral carrega consigo uma mística ímpar, muito devido ao trajeto que o United foi fazendo ao longo do século XX, em especial nas décadas de 50, 60, 80 e 90, onde atingiu a glória nacional e internacional, a qual faria de si um emblema amado em todo o planeta. Destacar um jogo emblemático da história deste recinto é uma tarefa árdua, pois foram muitos as noites e tardes de glória que o United aqui viveu, facto que um dia levou uma das maiores lendas do clube, Bobby Charlton, a apelidar o estádio de Teatro dos Sonhos. O nome ficou... para a eternidade. Old Trafford é ainda hoje o estádio com maior afluência de toda a Premier League, sendo que o Manchester United é dos poucos clubes a nível mundial que quase não vende bilhetes para os seus jogos caseiros, já que estes são adquiridos no início de cada temporada pelos seus sócios.

Da tragédia à glória, eis o caminho trilhado por Matt Busby ao serviço do United

Ironia do destino: depois de ter jogado no
City e no Liverpool (grandes rivais do United)
Matt Busby atingiu a glória em Old Trafford
1928 é outro ano vincado na vida futebolística de Manchester. Ali chegava um jovem escocês oriundo de uma família humilde de Orbiston, que haveria de dar o primeiro passo para que a cidade seja hoje vista como a capital do futebol internacional. Alexander Mattew Busby, de seu nome. Nasceu em maio de 1909, tendo cedo ficado órfão de pai, uma das muitas vítimas da Primeira Guerra Mundial. Para ajudar a mãe e as três irmãs, Matt, como era conhecido, seguiu as pisadas do progenitor, e com 16 anos foi trabalhar para as minas. Nos tempos livres, dedicava-se ao football, a sua grande paixão. Destacou-se enquanto centro-campista em clubes locais, facto que despertou o interesse do gigante escocês Rangers, clube ligado à comunidade protestante de Glasgow, que só não contratou Busby porque descobriu que este era católico! Viajou então para Manchester, onde assinou um vínculo profissional com o City. Tinha então 18 anos de idade. Com a camisola blue sky Matt Busby - o seu nome de guerra - disputou 227 jogos entre 1928 e 1936, sendo que esmagadora maioria destes encontros foi desenrolada no principal escalão do futebol inglês, a First Divison. Pelos citizens prova por uma única vez o sabor de uma grande conquista, no caso a FA Cup de 1934, quando em Wembley o City derrotou o Portsmouth por 2-1 e arrecadou o segundo troféu da sua história no seio da popular competição. Em 1936 é transferido por um valor de 8.000 libras para o Liverpool, onde esteve somente três temporadas, nas quais coletivamente não conheceu qualquer alegria. A Segunda Guerra Mundial colocou um ponto final na carreira de Busby, obrigado a alistar-se no Regimento Real de Liverpool. Em meados dos anos 40 Matt Busby é contactado pelo seu amigo Louis Rocca, então dirigente do Manchester United, que o convida a assumir o comando técnico do clube. Algo que acontece em fevereiro de 1945, sendo que dali para a frente nada seria como dantes. Busby, na altura com 36 anos, transformou por completo o United, fazendo deste um emblema competitivo, que proporcionava aos seus adeptos - e não só - grandiosos espetáculos, ou não fosse o escocês um fervoroso adepto do jogo bonito. Centrou em si as decisões importantes do clube, quer no que concerne ao treino, quer na política de contratações e vendas de jogadores.

Matt Busby ergue um dos muitos
troféus conquistados por si ao serviço dos red devils
O primeiro grande sucesso é obtido em 1948, ano em que guia o United à conquista da FA Cup - vitória em Wembley, por 4-2, sobre o Blackpool, onde então pontificava o lendário Stanley Matthews - que colocava o fim de um jejum de 37 anos (!) no diz que diz respeito a títulos para o clube de Manchester. Dirigindo um grupo de jogadores formado antes da Segunda Grande Guerra Mundial, Busby alcança um novo sucesso nacional quatro anos mais tarde, quando vence a First Division com 57 pontos. Este ceptro colocaria um ponto final numa geração onde sobressaiam nomes como Johnny Berry, John Downie, Stan Pearson, ou o goleador Jack Rowley (que ao serviço do United apontou 182 golos em 380 encontros disputados). E é a partir deste ponto que a revolução do escocês ao leme do clube conhece o seu ponto de viragem. Com o fim de uma geração de jogadores, Busby sentiu que tinha de começar do zero a construir uma equipa competitiva, brilhante sobre o ponto de vista técnico, e sobretudo capaz de ombrear com qualquer que fosse o adversário. É então que faz uma aposta vincada na formação do United, promovendo uma série de jovens jogadores oriundos das camadas jovens, casos de Dennis Viollet, Bobby Charlton, Roger Byrne, Jackie Blanchflower, Harry Gregg, ou Duncan Edwards, este último considerado um verdadeiro génio dos relvados. Matt Busby moldou à sua maneira este grupo, e transformaria o United numa das equipas mais temidas e brilhantes não só de Inglaterra como do resto do Velho Continente. E assim nasciam os Busby Babes. Os frutos desta mudança começaram a ser colhidos em 1956, quando o Manchester United venceu a liga com mais 11 pontos que o segundo colocado, o Blackpool. No ano seguinte os bebés do técnico escocês repetem a façanha, entrando assim para a história como a primeira equipa da cidade a alcançar dois títulos de campeão nacional consecutivos. Inglaterra estava já conquistada, e o próximo passo seria a Europa.
A última fotografia dos Busby Babes antes da tragédia de Munique
A Taça dos Clubes Campeões Europeus vivia em finais dos anos 50 os seus primeiros tempos de vida. O Real Madrid havia dominado as primeiras duas edições da prova, mas em 57/58 os espanhóis tinham um adversário de peso no assalto à reconquista do título, precisamente o Manchester United de Matt Busby. Os miúdos ingleses encantavam a Europa com o seu futebol virtuoso, até que a tragédia bateu-lhes à porta. No dia 6 de fevereiro de 1958 o United regressava de Belgrado, onde havia empatado a três bolas diante do Estrela Vermelha em partida da segunda mão dos quartos de final da competição organizada pela UEFA. A delegação do clube, que além de jogadores, treinadores, e dirigentes, era ainda composta por vários jornalistas, fez escala em Munique, para reabastecer a aeronave Airspeed AS-57 Ambassador que os iria levar de regresso a casa. Naquele dia a cidade alemã era coberta por um gélido manto branco (neve). O avião do United tentou, sem sucesso, levantar voo por duas ocasiões, mas o comandante e o co-piloto teimosamente recusaram-se a pernoitar em Munique, dadas as péssimas condições climatéricas para fazer a viagem até Manchester.

A imagem do Airspeed AS-57 que transportava
a comitiva do United após o acidente
Deram início então a uma terceira tentativa de levantar voo, a qual viria a revelar-se fatal. Numa pista de gelo o avião não consegue a velocidade suficiente para descolar e embate contra o gradeamento do aeroporto, incendiando-se quase logo de seguida. Duas dezenas de passageiros perderam a vida, entre eles oito jogadores do United, sendo que a grande estrela da equipa, Duncan Edwards, viria a falecer no hospital de Munique 15 dias depois do acidente. O próprio Matt Busby esteve vários dias internado, entre a vida e a morte. O escocês viria a recuperar, e no regresso a uma casa que ainda chorava a morte dos seus entes queridos lançou uma emocionada promessa: «Dêem-me cinco anos que eu irei construir a melhor equipa de sempre do United». Dito e feito. Com a ajuda de Bobby Charlton - um dos sobreviventes do acidente de Munique - em campo, Busby reconstruiu o clube. Formou novos talentos, uma espécie de segunda geração dos Busby Babes, onde pontificavam nomes como Nobby Stiles, Dennis Law, ou George Best - o filho pródigo de Belfast -, alcançando, de novo, o patamar da glória. O primeiro sucesso depois da tragédia de Munique ocorreu em 1963, na catedral do futebol britânico, Wembley, onde o United ao bater o Leicester City por 3-1 voltava a colocar as mãos da famosa FA Cup. Dois anos mais tarde reconduz o emblema ao topo da liga inglesa, terminando o campeonato com os mesmos pontos (61) do que o Leeds United, mas com melhor goal-avarege, facto que conferiu aos red devils - como entretanto começavam a ficar conhecidos os jogadores do United um pouco por todo o Velho Continente - o sexto título de campeão nacional da sua história.

Prisioneiro de guerra alemão torna-se herói do City

Bert Trautmann, uma lenda do City
Os anos 50 ficaram sublinhados na história de Manchester pelo aparecimento nos retângulos de jogo britânicos de uma das maiores lendas da história do City. Mais do que uma lenda este homem é um herói, e a sua história de vida é típica de um filme ao estilo de "Fuga para a Vitória". Bernhard Carl Trautmann, um cidadão alemão nascido (1923) em Bremen defendeu a baliza dos Citizens em mais de 500 ocasiões, entre 1949 e 1964, mas antes de calçar as luvas a sua vida conheceu capítulos peculiares que davam aso à realização do tal filme. Trautmann viveu uma juventude difícil, muito por culpa da Segunda Guerra Mundial, que o aprisionou na flor da idade. Durante o conflito bélico o jovem Trautmann foi paraquedista da Força Aérea Alemã, tendo combatido durante três anos na Frente Oriental, sendo que o seu desempenho enquanto soldado mereceu-lhe a atribuição de algumas mensões honrosas, entre outras a medalha da Cruz de Ferro. Na Frente Oriental foi capturado pelos britânicos e feito seu prisioneiro de guerra. Foi então transferido para um campo de prisioneiros de guerra em Ashton-in-Makerfield (Lancashire), onde acabaria por ser uma das principais atrações dos habitantes locais devido aos seus dotes... futebolísticos. Ante equipas amadoras locais, Trautmann revelou-se um brilhante guardião da baliza dos prisioneiros de guerra, acabando em 1948, ano em que foi libertado, por recusar a repatriação, optando por continuar em Inglaterra, onde abraçou um emprego na agricultura, ao mesmo tempo em que passou a defender as balizas do emblema amdor de St. Helens Town. No plano desportivo rapidamente Bernhard Trautmann, que em Lanchashire passou a ser conhecido como Bert, chamou a atenção de emblemas de maior projeção, entre eles o Manchester City, que em 1949 o contrata. No entanto, esta esteve longe de ser uma aquisição pacífica, já que os adeptos dos citizens não viam com bons olhos o facto de a sua equipa principal ser integrada por um descendente do império nazi. As feridas da guerra estavam ainda bem abertas, e os próprios jogadores do City fincaram o pé à contratação de Trautmann.

Jogadores do City amparam Bert Trautmann,
que jogou 17 minutos com o pescoço fraturado na
final da FA Cup de 1956
Fizeram-se abaixo assinados em toda a cidade contra a contratação do antigo prisioneiro de guerra alemão, as comunidades judaícas da cidadão fizeram manifestações nas ruas, mas a perícia do alemão na baliza acabou por silenciar as vozes de protesto, e com o tempo acabaria por tornar-se num dos jogadores mais queridos da massa adepta do City! É caso para dizer que o futebol curou as feridas da guerra. Em 1956 Bert Trautmann entra na história do próprio futebol inglês, não só porque foi eleito o melhor jogador da First Division desse ano ou por ter vencido a FA Cup ao serviço do City, mas porque o fez (neste último facto)... com o pescoço partido! A pouco mais de um quarto de hora do término da final disputada entre o Manchester City e o Birmingham City, Trautmann fratura o pescoço após uma saída aos pés de um avançado contrário. Visivelmente afetado o alemão decide continuar no jogo, em sofrimento, ajudando a sua equipa a conquistar aquela que era a terceira Taça de Inglaterra da história dos blue sky. No final, Trautmann foi levado em ombros pelos seus colegas de equipa, não só pela brilhante exibição que fez nessa tarde em Wembley, mas pelo ato heróico que o transformou em lenda do futebol inglês. Viria a falecer em 2013, aos 89 anos.

Manchester festeja a glória europeia em dose dupla!

Um jogo do City nos anos 40
Os finais dos anos 60 atraíram até Manchester os holofotes da fama, não só pelo encanto que a segunda geração dos Busby Babes provocava em todos os adeptos do belo jogo, mas igualmente pelo facto de o Manchester City viver então o melhor período da sua história. Recuando um pouco no tempo, os anos 30 e 40 poucas ou nenhumas alegrias futebolísticas conferiram à cidade de Manchester. As exceções foram as já referidas FA Cup's arrecadadas pelo City em 1934 e pelo United em 1948, bem como o título da First Division que os Citizens conquistaram em 1937, o primeiro - no âmbito deste competição - da história do clube cujo domicílio era já Maine Road, estádio inaugurado em 1923 e que foi durante oito décadas a fortaleza do City. O letal avançado irlandês Peter Doherty foi um dos principais obreiros do título de campeão nacional dos blue sky em 36/37, já que dos impressionantes 107 golos marcados pela equipa nessa temporada 30 foram da sua autoria. Na época seguinte o City não evitou a descida de divisão (!), sendo este um exemplo da inconstância - entre o êxito e o fracasso - exibida pelo clube ao longo da maior parte da sua existência, ficando assim, de certa forma, explicado o facto de ter caminhado quase sempre na sombra do vizinho United. Mas tal não aconteceu em 1967/68, temporada em que se assiste a uma intensa luta entre os dois emblemas de Manchester pela conquista do título nacional, tendo o City levado a melhor sobre os Busby Babes por apenas dois pontos de diferença (58 contra os 56 do United, que foi vice-campeão).

Bobby Charlton ajuda a carregar o troféu mais emblemático
do legado de Matt Busby no Manchester United
Porém, não foram apenas os Citizens a ter razões para sorrir na referida season, já que os Red Devils confirmaram o estatuto de gigantes do futebol continental após baterem em Wembley o Benfica de Eusébio e companhia na final da Taça dos Campeões Europeus. Uma vitória expressiva (4-1) do United, que assim se tornava no primeiro clube inglês a sagrar-se campeão europeu. Foi uma noite memorável para Charlton, Best, Kidd e Stiles, alguns dos Busby Babes que encantavam por aquela altura o Planeta da Bola. O título continental era como um prémio ao talento, ao trabalho e à crença demonstrados por Matt Busby ao longo das últimas duas décadas, onde nas quais catapultou o United para o patamar de grande equipa internacional. Hoje, olhando para trás, não será descabido dizer que foi com Busby - que nesse ano de 1968 seria armado cavaleiro britânico - que os red devils começaram a atingir a dimensão mundial de que atualmente goza. Dimensão esta que seria cimentada - ou até mesmo ampliada - cerca de duas décadas mais tarde, por intermédio de outro mestre da tática escocês: Alex Ferguson.
Não querendo continuar na sombra do seu vizinho e rival United, o City parte em 1969/70 rumo aquela que até hoje é a sua única proeza internacional: a conquista da Taça dos Vencedores das Taças, então a segunda prova mais importante da UEFA.


Jogadores do City erguem nos céus de Viena
o seu único (até à data) troféu europeu
 
Esta vitória surge na sequência do triunfo (1-0) obtido na final da FA Cup de 1969, diante do Leicester City. Uma dupla de treinadores arquitetou este êxito internacional: Joe Mercer e Malcom Allison. Durante cerca de oito anos estes dois homens proporcionaram aos adeptos do City vivenciar aquela que é hoje vista como a primeira era dourada da história do emblema, culminada com a subida ao segundo patamar mais importante do futebol continental, como consequência da conquista da referida Taça das Taças. Feito alcançado em Viena, no Estádio do Prater, onde o Manchester City bateu os polacos do Górnik Zabrze por 2-1. Neste grupo vencedor destacava-se um extremo de habilidade notável, capaz de rivalizar com uma das grandes estrelas do rival de Manchester, George Best, e a voz de comando da dupla Mercer/Allison dentro do retângulo de jogo. Mike Summerbee, de seu nome. 1969/70 fica ainda marcada pela primeira conquista da Taça da Liga por uma equipa de Manchester, neste caso o City - viveu uma temporada de glória, sem dúvida - que ao derrotar em Wembley o West Bromwich Albion por 2-1 arrecadou o terceiro troféu mais importante do futebol inglês.
Após terem alcançado a consagração internacional ambos os emblemas entraram numa crise de êxitos na década de 70, tendo as exceções ocorrido em 1976, ano em que o City trouxe para Manchester uma nova Taça da Liga (após ter batido em Wembley o Newcastle United por 2-1), e em 1977, quando um United muito longe da fama e glória alcançadas na década de 60 - em 74/75 passou mesmo pela Second Division - derrotou na final da FA Cup aquela que era não só a melhor equipa da Velha Albion mas também do futebol continental, o Liverpool, de Bob Paisley. O decréscimo de vitórias, e por consequência de títulos, dos dois combinados de Manchester muito se ficou a dever à saída dos arquitetos da glória nacional e internacional dos anos 60 e princípios dos 70.

Estátua de Sir Matt Busby
em Old Trafford
O United ficou órfão do homem que o tornou gigante à escala mundial, Matt Busby. Ao fim de 25 anos de trabalho de campo, Sir Matt Busby decide abandonar os bancos, passando a exercer o cargo de diretor-geral do clube, sendo que em 1980 chega mesmo à presidência dos red devils. Em 1994, aquele que ainda hoje é visto como o criador do Manchester United enquanto emblema de dimensão planetária falecia vítima de leucemia. A cidade e o clube jamais o esquecerão, sendo exemplo disso o facto de uma das ruas nas imediações de Old Trafford ter sido batizada com o seu nome, para além de junto ao mítico estádio existir a estátua de uma lenda da tática que enquanto jogador vestiu as camisolas dos dois grandes rivais do United, o City, no plano local, e o Liverpool, a nível nacional. Ironia do destino. E se em Old Trafford a saída do mentor do grande Manchester United da década de 60 trouxe aos adeptos do clube uma década e meia de sofrimento, em Maine Road a saída da dupla Mercer/Allison - em 1972 - deu aso a uma longa travessia no deserto de cerca de 40 anos! Quatro décadas onde o City foi caminhando de forma tímida na First Division - e algumas épocas na Second Division - na sequência de resultados modestos. Pior do que isso os adeptos citizens testemunharam o renascimento do United que pela mão de um outro génio escocês regressou ao topo do futebol planetário na década de 90. No verão de 1986 chega a Manchester um promissor treinador escocês proveniente do modesto Aberdeen. Modesto em termos de dimensão, em comparação com os dois gigantes da Escócia, isto é, o Rangers e o Celtic, já que no cenário desportivo da Escócia dos anos 80 os reds eram um verdadeiro tormento para os emblemas de Glasgow. O grande responsável pelo meteórico crescimento do Aberdeen foi um ex-jogador do Rangers que a meio dos anos 70 iniciou uma brilhante carreira de treinador que o haveria de conduzir à imortalidade. Alexander Chapman Ferguson, de seu nome completo.

Um outro cidadão escocês devolve a glória mundial ao United

Alex Ferguson celebra com o seu
capitão de equipa (Brian Robson) a conquista
do seu primeiro troféu ao serviço do United, a FA Cup
Depois de passagens pelos bancos do East Stirlingshire e do St. Mirren na segunda metade da década de 70, Alex Ferguson, como mundialmente se deu a conhecer ao Mundo, assumiu em 1978 os destinos do Aberdeen, levando este emblema não só ao topo do futebol escocês - com a conquista de três campeonatos nacionais, quatro Taças da Escócia e uma Taça da Liga - como do próprio desporto rei continental na sequência de um épico e surpreendente triunfo sobre o colosso Real Madrid na final da Taça das Taças de 1983. O trabalho realizado por Ferguson em Aberdeen chamou, naturalmente, à atenção dos grandes emblemas britânicos, e em 1986 o Manchester United contrata o promissor técnico, então com 45 anos, com o objetivo claro de recolocar o clube no topo do futebol e acabar com o domínio avassalador do grande rival - a nível nacional - Liverpool. Os primeiros anos de trabalho de Ferguson em Old Trafford não foram fáceis, muito pelo contrário. Os (bons) resultados tardavam em aparecer, o Liverpool continuava a colecionar títulos, soma esta que fazia com que os adeptos do United começassem a perder a paciência com o técnico, tendo muitos deles exigido à Direção a cabeça do escocês. Em boa hora os responsáveis do clube travarem este ímpeto dos supporters, pois em 1990 chegou o primeiro de muitos troféus (a FA Cup) que Ferguson iria dar ao United, e mais do que isso estava dado o primeiro passo para que os inquilinos de Old Trafford se tornassem nos anos seguintes num dos emblemas mais populares e poderosos do Mundo. Os anos 90 comprovaram a mestria de Ferguson enquanto formador e condutor de equipas, já que seis dos dez campeonatos - da Premier League - da citada década foram ganhos pelo United, enquanto que a FA Cup seria levada para o museu do clube em quatro ocasiões, e a Taça da Liga por uma ocasião. Contando com jogadores de craveira internacional como Brian Robson, Eric Cantona, Roy Keane, Peter Schmeichel, ou Mark Hughs, aos quais juntou alguns diamantes por si lapidados que haviam sido extraídos da formação do clube, tais como os irmãos Neville (Phil e Gary), Nicky Butt, Paul Scholes, Ryan Giggs, ou David Beckham, o escocês reconduziu o United à glória internacional.

Ferguson e os seus Fergie Babes viveram uma noite
louca em Barcelona
O primeiro passo foi dado em 1991, quando na Banheira de Roterdão os red devils derrotaram o Barcelona de Cruyff na final da Taça das Taças, fazendo desta forma que o regresso dos clubes ingleses às competições europeias - após cinco épocas de ausência devido ao castigo que lhes foi imposto pela UEFA na sequência da tragédia do Heysel, em 1985 -, enquanto que o segundo ocorreu já perto do final do século XX, numa noite épica vivida em Barcelona. Uma noite que encerrou uma temporada (98/99) de sonho para o Manchster United, que entrava para a restrita galeria mundial dos clubes que haviam vencido o treble, isto é, o campeonato nacional, a principal taça nacional e a mais famosa de todas as competições uefeiras, a Taça dos Campeões Europeus, então já denominada de Liga dos Campeões. Uma vitória lendária, ao nível de um conto de fadas, que teve como palco o Camp Nou de Barcelona, onde aos 90 minutos o United perdia por 1-0 diante do Bayern de Munique. Num ápice tudo mudou. No período de descontos os red devils deram a volta ao marcador e trouxeram de novo a taça das orelhas grandes para Manchester. Fergie tinha definitivamente conquistado o coração dos adeptos, tornando-se assim num digno sucessor do seu compatriota Matt Busby. Tal como este, Alex Ferguson recebeu da realeza inglesa o reconhecimento pelo seu majestoso trabalho, ao ser armado cavaleiro britânico. Estava contudo ainda muito longe de terminar a história do agora Sir Alex Ferguson ao serviço de um clube que já no novo milénio iria ser engolido pelo sistema capitalista que entretanto se começava a apoderar do futebol planetário.

Cristiano Ronaldo, o génio por detrás da terceira
Taça/Liga dos Campeões Europeus do United
Perante a partida de alguns dos seus melhores talentos para outras paragens, o escocês respondia com contratações cirúrgicas de novos génios, como por exemplo, Cristiano Ronaldo, em 2003. O português, formado nas escolas do Sporting, mostrou-se um digno herdeiro da mítica camisola número 7 do United, eternizada por lendas como George Best, Brian Robson, Eric Cantona, ou David Beckham. Com o astro luso no comando das operações, Ferguson fartou-se de ganhar na primeira década do século XXI, conforme atestam as sete Premier Leagues arrecadadas, as três Taças da Liga e uma outra FA Cup. Por esta altura, já o United era visto como o clube mais rico e famoso do Mundo - com mais de 330 milhões de seguidores -, e mais ficou quando numa noite chuvosa em Moscovo, Fergie deu ao clube - em 2008 - a sua terceira Taça/Liga dos Campeões Europeus após um triunfo nas grandes penalidades sobre o milionário Chelsea de Roman Abramovich. Após quase três décadas de glória Sir Alex Ferguson decide em 2013 afastar-se do campo de batalha, colocando um ponto final numa carreira ímpar. E tal como havia acontecido com Busby no início da década de 70 também o adeus de Fergie parece ter trazido alguma instabilidade ao clube, que de lá para cá tem andado arredado do caminho do êxito.
Em meados dos anos 90 do século passado o futebol passou a ser alvo da cobiça dos grandes grupos económicos mundiais, ou por multimilionários que viam no belo jogo uma forma de triunfar no que ao plano financeiro diz respeito. Foi, contudo, já no novo milénio que o futebol passou a ser visto como uma indústria, uma máquina de fazer muito, mas muito, dinheiro. Um pouco por todo o Mundo largas dezenas de clubes foram sendo comprados pelo sistema capitalista que tomou conta da modalidade, e transformados em novas potências da bola. Alguns desses clubes viviam na sombra dos grandes emblemas do planeta, mas com a chegada dos petrodólares do Oriente passaram a fazer parte da elite do futebol, ombreando com, e até superando, gigantes como o Barcelona, Real Madrid, Bayern de Munique, ou o próprio Manchester United.

Petrodólares permitem que o City passe a olhar olhos nos olhos o vizinho United

Roberto Mancini e Mansour Bin Zayed, a dupla
que devolveu a glória ao City já no novo Milénio
Um desses novos ricos foi precisamente o Manchester City, clube que em 2008 é comprado pelo multimilionário árabe Mansour Bin Zayed, que chega à cidade do condado de Lancashire com a ambição de fazer dos sky blues a melhor equipa do Mundo. Nesse sentido, foram desde então contratados diversos futebolistas de topo, casos de Carlos Tévez (ao rival United), Yaya Touré, Joe Hart, Patrick Vieira, Kun Aguero, ou David Silva, que sob a orientação de treinadores consagrados como Roberto Mancini, ou mais recentemente Manuel Pellegrini, devolveram a glória, pelo menos a nível interno, aos citizens, como compravam as duas Premier Leagues conquistadas (em 2011/12 e 2013/14), a FA Cup de 2010/11 e as Taças da Liga de 2013/14 e 2015/16. O City vive desta forma a segunda era dourada da sua centenária vida. Hoje, graças ao investimento de Mansour Bin Zayed, os citizens podem finalmente olhar olhos nos olhos o seu vizinho e grande rival da cidade, ambicionado por estes dias colocar as mãos no troféu mais desejado a nível mundial por clubes e jogadores, a Taça/Liga dos Campeões Europeus.
Porém, existem adeptos que não se revêem nesta política capitalista que impera no futebol atual. Adeptos que continuam enamorados pelo romantismo que durante décadas pairou sobre o futebol um pouco por todo o Mundo. Com a compra do United em 2005, pelo multimilionário Malcon Glazer, um grupo de adeptos dos red devils decidiu mostrar o seu descontentamento perante este facto, e fundaram o Football Club United of Manchester. Recusando a ideia de integrar o universo do futebol enquanto indústria manipulada pelo grande capital, este clube espelha o tal lado romântico e puro do football, sendo gerido pelos próprios associados, que fim-de-semana após fim-de-semana apoiam a equipa nas competições semi-profissionais do futebol britânico.
Um cumprimento antes
de um dérbi de Manchester
nos anos 40
Conforme o próprio nome faz referência o City sempre foi o clube com mais adeptos na cidade de Manchester, mas o United é um dos emblemas com mais supporters espalhados pelo Mundo! Ao longo da sua centenária história os dois vizinhos e rivais da cidade já se defrontaram em mais de 170 ocasiões - 171 para sermos mais precisos - até ao dia em que escrevemos estas linhas. Em termos de vitórias a balança pende claramente para os red devils, que venceram os citizens por 71 vezes, enquanto que o contrário ocorreu em 49 ocasiões. Registaram-se 51 empates entre os dois filhos pródigos de Manchester. Wayne Rooney, atual estrela do Manchester United, é o futebolista com mais golos (11) apontados no dérbi da cidade, enquanto que o galês Ryan Giggs é o jogador que mais vezes (36) entrou em campo para jogar o clássico de Manchester. Como já foi dito nas primeiras linhas desta visita virtual, esta cidade assumiu desde cedo um papel preponderante na popularização e cimentação do football na cultura britânica. Não é pois à toa que o Museu Nacional do Futebol inglês esteja situado em Manchester, sendo que nas suas vitrinas estão guardados centenas de capítulos não só do football local como de outros cantos do Mundo, factos que fazem com que quem o visita se sinta realmente na capital mundial do futebol.

Portugal dá-se a conhecer ao Mundo enquanto potência do futebol em Old Trafford 

Eusébio leva dois húngaros ao
tapete verde de Old Trafford
no Mundial de 1966
Conforme já foi dito nas últimas linhas, Manchester foi ao longo da sua história palco de centenas de lendárias batalhas futebolísticas, algumas delas integradas nas mais importantes competições do belo jogo à escala planetária. 1966 é um ano especial para o futebol inglês. É o ano em que os inventores do futebol moderno organizam e vencem a competição desportiva mais importante do globo, o Campeonato do Mundo da FIFA. Mas se Booby Charlton, Nobby Stiles, Martin Peters, ou Bobby Moore podem ter erguido a Jules Rimet Cup no final do certame, Portugal e um tal de Eusébio ficaram na retina dos entusiastas do futebol como as figuras maiores desse Mundial. Até a entrada para este evento a seleção portuguesa era uma quase desconhecida do planeta da bola, chegando à Velha Albion como um dos combinados menos cotados à vitória final da oitava edição do Campeonato do Mundo. Manchester iria provar o contrário. Foi nesta cidade que o selecionado luso mostrou o seu potencial futebolístico a nível internacional. Integrada no Grupo 3, juntamente com a Bulgária, a Hungria e o super favorito Brasil, onde pontificava o astro Pelé, a seleção de Portugal deu início a uma inesquecível aventura em Old Trafford, quando a 13 de julho de 66 enfrentou e bateu por 3-1 a favorita Hungria, graças a golos de José Augusto e José Torres. Para aqueles que olhavam para este como um mero golpe de sorte de principiante - uma vez que os lusos faziam a sua estreia na competição da FIFA - Eusébio contrariou no jogo seguinte esses mesmos olhares desconfiados, ao guiar a seleção portuguesa a uma nova vitória, desta feita diante da Bulgária, por 3-0 - com golos de Eusébio, Torres e Vutsov (na própria baliza). A epopeia lusa teve continuidade em Liverpool, que assistiu às históricas vitórias ante o Brasil e a Coreia do Norte, terminando em lágrimas na catedral do futebol - Wembley - aos pés dos donos da casa. Para além desses dois jogos iniciais da campanha lusa, Manchester e o seu mítico Old Trafford receberam um outro encontro nesse Mundial de 66, o qual colocou frente a frente a Hungria e a Bulgária (3-1).

Alemães voltam a fazer estragos no Teatro dos Sonhos

Moller, Scholl e Klinsmann iniciaram em Old Trafford
os festejos da conquista do Euro 96
Já aqui foi dito que o mítico estádio de Old Trafford viveu ao longo da sua história dezenas de tardes e noites memoráveis. Porém, outros episódios de profunda dor foram escritos na vida do recinto, como por exemplo os dias, meses e anos seguintes à tragédia de Munique em 1958, ou o bombardeamento pelos caças alemães em 1941. Mais de cinco décadas passadas deste triste momento que obrigou a uma profunda remodelação no estádio, eis que um grupo de alemães voltou a fazer estragos na catedral mais emblemática de Manchester. Desta feita não eram caças da Força Aérea germânica, mas um naipe de talentos futebolísticos que às ordens do mestre da tática Berti Vogts conduziu uma Alemanha (unificada) à glória continental. Nomes como Jurgen Klinsmann, Andy Moller, Matthias Sammer, ou Thomas Hassler iniciaram a caminhada vitoriosa em Old Trafford, onde realizaram quatro dos seis jogos disputados no Campeonato da Europa de 1996, que iria terminar da melhor forma em Wembley, onde após um triunfo por 2-1 sobre a República Checa - graças a um golo dourado de Oliver Bierhoff - coroou nesse ano os alemães como reis da Europa.
Manchester, e o seu Old Trafford mais precisamente, são locais onde os tiffosi italianos viveram bons e maus momentos da sua história. Neste último aspeto foi curiosamente no Europeu de 96 que a Itália - então vice-campeã do Mundo - disse adeus à possibilidade de seguir para os quartos-de-final da competição, após um nulo ante a futura campeã europeia, a Alemanha, no derradeiro e decisivo encontro do Grupo C - da primeira fase. Melhores memórias terão os adeptos do Milan, já que numa final 100 por cento italiana - ante a Juventus - somaram o seu sexto título da Taça/Liga dos Campeões após o ucraniano Andy Shevchenko ter convertido com êxito a última grande penalidade da série de tiros ao alvo com que a final foi decidida. Cinco anos volvidos, Manchester voltou a ser palco de decisões de uma competição uefeira, no caso a Taça UEFA, cuja decisão foi agendada para o novíssimo e moderno Estádio Cidade de Manchester, um recinto com capacidade para 55.000 pessoas inaugurado em 2002 para os Jogos da Commonwealth e que desde então passou a ser a casa do City. O batismo europeu do City of Manchester Stadium - hoje em dia por razões comerciais rebatizado como Etihad Stadium - ficou marcado pelo triunfo (2-0) dos russos do Zenit sobre os protestantes do Rangers nessa final da UEFA de 2008.

segunda-feira, abril 04, 2016

Museu Virtual do Futebol assinala 10 anos de existência!

Envergar a camisola número 10 é uma honra que por tradição está destinada aos grandes vultos do desporto rei. Por intermédio de Pelé, Maradona, Platini, Zidane, Francescoli, Gullit, Ronaldinho, Messi, Zico, Eusébio, entre muitos outros, o mítico dorsal ganhou ao longo de décadas fama global, fazendo com que todos os que pelo menos uma vez na vida a vestem se sintam de certa forma... especiais. É precisamente assim, especial, que o Museu Virtual do Futebol se sente no dia de hoje. Dia em que vestimos a mítica camisa 10 para entrar em campo e celebrar o nosso 10º aniversário! Pois é, uma década voou desde o dia em que as portas virtuais do Museu foram abertas ao Mundo. Sim, ao Mundo, já que ao longo destes 10 anos de atividade muitos têm sido aqueles que dos cinco continentes do globo nos visitam - já são mais de 500.000 - para connosco embarcar na máquina do tempo rumo ao passado deste modalidade pela qual nos sentimos cada vez mais apaixonados. Pensamos que 10 anos de atividade, seja no que for, é um feito de realçar, e perdoam-nos desde já aqui a existência de alguma falta de modéstia, mas num tempo em que o desânimo, a descrença e o sentimento de injustiça imperam em vários setores da sociedade, estar de portas abertas a fazer aquilo que mais gostamos é digno de registo. A fórmula desta inquebrável persistência? É simples: a desmedida paixão que temos pelo futebol, e pela sua extensa e valiosa história em particular. Paixão que foi crescendo ao longo desta década de vida, de tal maneira que nos sentimos preparados para enfrentar mais 10 anos... pelo menos. Falar do futuro é ainda idealizar novos projetos, novas rubricas, novos capítulos de uma história sem fim, consequentes de mais e profunda investigação, caminhos estes que percorremos com tanto, mas tanto, prazer. Resta-me - a mim, o comum mortal que está por detrás deste projeto - agradecer a todos aqueles que ao longo destes 10 anos aqui deram um salto, para recordar ou conhecer algum capítulo da centenária história do belo jogo, a todos os que me vão dando força para que o Museu continue de portas abertas ao... Mundo. Obrigado pelo apoio, obrigado pelos elogios, obrigado pela visita. 

segunda-feira, março 14, 2016

Flashes Biográficos (8)... Adolphe Cassaigne

Adolphe CASSAIGNE (França): As informações sobre as bases dos seus profundos - ao que reza a história - conhecimentos sobre futebol são escassas, quase possível de serem resumidas num parágrafo biográfico, mas nada que impeça o seu nome de figurar no Atlas do Futebol Português. Porquê? Porque estaremos perante aquele que foi o primeiro treinador - na verdadeira ascensão da palavra - a ser contratado por um clube em Portugal. Desconhece-se o dia, o mês, o ano e o local de nascimento deste cidadão francês, sabendo-se apenas que fazia do Porto o seu lar nos inícios do século XX, onde exibia os seus dotes de professor da tática ao serviço dos amadores da equipa de futebol da Escola de Alunos-Marinheiros da Corveta Estefânia. Conhecimentos técnico-táticos que se sabiam apenas terem sido adquiridos no seu país de origem, onde, ao que parece, havia sido treinador de algum renome. Adolphe Cassaigne era o seu nome. A entrada na história do futebol luso deste gaulês dá-se em 1907, ano em que a Cidade Invicta rejubilava com o (re)nascimento do seu Football Club do Porto, pela mão de José Monteiro da Costa. A popularidade do clube ia de vento em popa, e a testemunhar isso o facto do Campo da Rainha - a casa dos portistas - atrair por aqueles dias as atenções dos cidadãos locais sempre que os players entravam em ação para interpretar o famoso football que chegara de Inglaterra nos finais do século anterior. Um desses curiosos foi Adolphe Cassaigne, que, e segundo a lenda, certo dia apresenta-se formalmente a Monteiro da Costa, deixando elogios à organização e disciplina da equipa, ao mesmo tempo em que se propunha treina-la "obsequiosamente". Diz a história que Monteiro da Costa aceitou de pronto a candidatura, até porque a equipa não tinha um treinador específico, uma vez que o grupo era dirigido pelo atleta mais experiente e conhecedor das regras do jogo, jogador esse que em 1901 havia provado o sabor do sucesso ao serviço do Milan, na sequência da conquista do campeonato italiano, e que dava pelo nome de Catullo Gadda. O francês tornava-se assim no primeiro treinador contratado na história do futebol português, não se sabendo, porém, se essa ligação teve de pronto, ou nos anos à posteriori, contrapartidas económicas. O que se sabe sim é que os conhecimentos futebolísticos de Cassaigne provocaram efeitos imediatos, com os progressos no futebol praticado a serem visíveis. A primeira prova de fogo do renascido Porto dá-se, porventura, em janeiro de 1908, altura em que o clube recebe - pela segunda vez no espaço de dois meses, a primeira havia ocorrido em dezembro de 1907 - os galegos do Real Fortuna de Vigo, que saíram da Invicta vergados a uma goleada de 4-1, resultado que assinalou a primeira vitória de um clube português sobre um eleven internacional. A ligação de Cassaigne ao FC Porto estende-se até à década de 20, mais precisamente até 1924. Ao longo deste percurso o francês torna-se no arquiteto dos primeiros títulos alcançados pelos dragões, e foram muitos há que sublinha-lo. O primeiro deles vislumbra-se em 1911, ano em que os portistas vencem a primeira edição da Taça Monteiro da Costa, por muitos considerado o primeiro grande campeonato regional disputado no norte do país. Até 1916 leva a equipa à conquista de mais quatro edições da citada prova, saindo derrotado somente na edição de 1913 (ganha pela Académica de Coimbra). Em 1914 a Associação de Futebol do Porto lança a sua primeira competição oficial, o Campeonato Regional, o qual Adolphe Cassaigne vence por sete ocasiões no comando dos portistas, perdendo apenas as edições de 1913/14 e de 1917/18, respetivamente para o Boavista e para o Salgueiros. Em 1922 ele comandou a armada azul e branca na conquista do país, isto é, da primeira edição do Campeonato de Portugal.

quinta-feira, março 10, 2016

Grandes Mestres da Táctica (11)... Manuel Oliveira

Manuel Oliveira, uma eterna lenda viva da tática 
Génios há que nunca viram reconhecidas as suas obras nas (mais diversas) áreas em que se notabilizaram. No futebol, em concreto, foram muitas as figuras que imprimiram o seu cunho na história do jogo mas que por "esta ou aquela razão" - inveja, ausência de mediatismo, personalidade controversa, são algumas das razões que poderemos apontar para justificar o facto de não figurarem no hall of fame do futebol - passaram ao largo das (merecidas) vénias e da fama global. É o caso do nosso mestre da tática de hoje, uma personalidade singular, ou não tivesse reunidas em si características tão distintas como inovação, disciplina, sabedoria, polémica, ou frontalidade. Manuel Oliveira, a sua graça, indiscutivelmente uma dos maiores treinadores da história do futebol português, e porque não dizê-lo a esta distância do(s) tempo(s) em desempenhou com mestria a sua função... um dos maiores a nível internacional. Afirmação exagerada? Se calhar não, e já vamos ver porquê?
Manuel Oliveira Santos, nasceu a 29 de maio de 1932, na margem sul, Distrito de Setúbal, mais precisamente em Pinhal Novo. Oriundo de uma família pobre - o pai era ferroviário - foi de pé descalço, como tantos outros meninos da época, que se deixou enamorar, ali, ao lado do lar, pelos encantos do belo jogo. Travou-se de amores com o futebol enquanto arte, espetáculo, simplicidade, e não com o futebol negócio, jogo de interesses, povoado por vilões com que muitas vezes foi confrontado ao longo da sua ímpar carreira e contra quem sempre lutou. A sua entrada oficial no desporto rei dá-se em 1949 pela mão de outro lendário treinador que teve grande influência no percurso que Manuel Oliveira iria trilhar enquanto treinador, Fernando Vaz. Este ícone do futebol luso dirigia na altura os juniores B do Sporting, que defrontariam o Estrela, um combinado formado por jogadores da margem sul - um verdadeiro alfobre de grandes futebolistas ao longo da história -, onde pontificava o jovem Manuel - que até então havia tido uma curta passagem pelos escalões de formação do Barreirense - que nesse dia, na posição de interior/extremo direito, fez uma exibição de gala, culminada com dois golos que derrotaram os poderosos leões, facto que levaria Vaz a aproximar-se do jovem, lançando-lhe além dos merecidos elogios um convite: treinar no Sporting. Manuel Oliveira estava desta forma prestes a transpor a fronteira entre o sonho e a realidade, ele, que tinha como ídolo um vulto que atuava na principal equipa leonina, Carlos Canário. O jovem de Pinhal Novo convence Fernando Vaz, passa no teste, e efetua duas temporadas de grande nível na equipa júnior do gigante de Lisboa. Como o próprio Manuel Oliveira fez questão de confessar décadas mais tarde nas suas memórias, aqueles dois anos foram de extrema importância para a sua formação enquanto homem do futebol. Aprendeu imenso, não só com treinadores como também com os jogadores que formavam aquele poderoso Sporting Clube de Portugal, onde pontificavam os 5 Violinos (Peyroteo, Albano, Vasques, Travassos, e Jesus Correia).

Conduzindo a bola, nos tempos de jogador na CUF
Com naturalidade e merecimento Manuel Oliveira transita para os seniores do clube de Alvalade, onde convive com alguns destes vultos, que a bem dizer dificultaram a sua entrada no onze titular leonino ao longo das cinco épocas em que envergou a camisola verde-e-branca. Foi quase sempre escolha na equipa de reservas, e a espaços conheceu a titularidade na primeira categoria - ou equipa principal, como hoje é denominada - tendo atingido o topo da carreira de futebolista com a conquista do título de campeão nacional de 51/52. Nas épocas em que defendeu o leão conheceu inúmeros e sonantes treinadores, como, a título de exemplo, Joseph Szabo, Tavares da Silva, ou Randolph Galloway. Mas houve um que indiscutivelmente o marcou, ainda de acordo com as suas memórias: Fernando Vaz.
Ainda como jogador representou o Atlético, durante uma temporada. Pelo meio passou pela seleção nacional militar, a qual representou em oito ocasiões. Posteriormente veio a CUF, onde jogaria seis épocas, tendo neste emblema pendurado as chuteiras em 62/63 para substituir no banco o então treinador Anselmo Pisa. Manuel Oliveira tinha então 30 anos de idade. E é aqui que se dá início à verdadeira história desta lenda.

O início do percurso lendário

O mestre Manuel Oliveira na atualidade
Dezembro de 1962, um ano inesquecível para Manuel Oliveira, que por esta altura se vê diante da responsabilidade de pegar na equipa da CUF que ocupava uma posição perigosa no Campeonato Nacional da 1ª Divisão. Grupo Desportivo da CUF que foi o primeiro clube-empresa a nascer no nosso país, e muito provavelmente aquele que nesta condição mais notoriedade atingiu na história do futebol luso. Numa altura em que nem todos os futebolistas viviam única e exclusivamente da bola, Manuel Oliveira acumulava com a atividade desportiva a função de empregado de escritório na empresa do Barreiro. Após a 9ª jornada do Nacional do escalão maior do futebol português o capitão do emblema fabril é chamado a pegar na equipa de modo a evitar a catastrófica descida de divisão que estava então eminente. Nas declarações à imprensa da altura, Manuel Oliveira admitiu a sua inexperiência enquanto treinador, mas desde logo mostrou ambição e vincou o compromisso de que iria dar o seu melhor para que a equipa voltasse aos resultados positivos. Dito e feito. A CUF fez um resto de época imaculada, remodelou-se nos aspetos físicos e técnico-táticos sob orientação do seu ex-capitão de equipa - que passou então só a desempenhar o cargo de treinador - e acabou por escapar à temível despromoção ao alcançar um tranquilo 11º lugar. Estava assim dado o pontapé de saída de uma grande carreira para o jovem técnico. E quem pensasse que este pequeno grande feito poderia ter sido obra do acaso enganou-se redondamente na temporada seguinte, em que Manuel Oliveira conduziu a equipa do Barreiro a um inédito e inesperado - só para quem ainda não conhecia os métodos de trabalho e a sabedoria técnico-tática do cidadão de Pinhal Novo - 5º lugar. Mas a escalada do sucesso do jovem treinador estava longe de terminar. Em 64/65 a fasquia é elevada com a conquista do... 3º lugar! O prémio deste brilharete foi a qualificação inédita dos barreirenses para a edição seguinte da Taça das Cidades com Feira - antecessora da Taça UEFA. E se o futebol português começava a dar-se conta da mestria do técnico o resto da Europa iria conhecê-la em 65/66 quando o poderoso Milan caiu no Barreiro por 2-0, na primeira mão da segunda eliminatória da citada competição europeia. Manuel Oliveira tinha passado definitivamente de aprendiz a mestre.
A sua faceta de homem honesto e frontal iria, contudo, e a partir daqui, chocar de frente com o tal lado negro do futebol, o lado dos interesses, da intriga, do conflito e do oportunismo. Numa entrevista concedida ao jornal A Bola no regresso da partida de Milão, onde a CUF perdeu por igual resultado ao conseguido na primeira mão e obrigando assim os milanistas a uma partida de desempate, o treinador, em jeito de desabafo, enumerou as várias dificuldades que afetavam a sua equipa, desde logo a ausência de apoio - sobretudo vindo dos diretores da empresa. Esta entrevista acabaria por custar o lugar ao treinador, que a partir dali levaria o seu talento para outras paragens. E foram muitas ao longo das mais de três décadas que se seguiram. Tantas que seria de certa forma exaustivo para o leitor ter conhecimento dos contornos de cada uma delas (mas caso o leitor pretenda fazer esse exercício, aconselhamos vivamente a leitura das fascinantes Memórias de Manuel Oliveira, editadas em livro. De certo que não se irá arrepender). Leixões, Barreirense, Sanjoanense, Farense, Olhanense, Benfica de Nova Lisboa (Angola), Lusitano de Évora, Espinho, Beira-Mar (onde foi treinador de Eusébio da Silva Ferreira), Vila Real, Portimonense, União de Leiria, Marítimo, Vitória de Setúbal, Louletano, Seleção da Guiné Bissau, Fafe, Varzim, Nacional da Madeira, Sintrense, Desportivo de Beja, Gondomar, Imortal e Lusitanos de Saint-Maur (França) foram emblemas que beberam da sabedoria do mestre. Em quase todas elas fez história. Umas vezes evitava a temida descida de divisão, outras conduzia a nau desde os caminhos tortuosos das divisões secundárias até bom porto, isto é, à 1ª Divisão, noutras ainda criou grupos que combinavam arte, garra e inovação, batendo o pé a quem quer que fosse, grande ou pequeno, tombou vezes sem conta às mãos do mestre Oliveira. A sua já referida personalidade frontal - embora ainda hoje muitos preferem continuar a recorda-lo como polémico e controverso - valeu-lhe inúmeros dissabores, que, por várias ocasiões, barraram a sua continuidade ao leme dos notáveis projetos futebolísticos que foi construindo.

Inovador no plano tático

O 4-4-2 que o Brasil de 70 apresentou ao Mundo
e que foi criado por Manuel Oliveira em 1965? Eis a questão
Já escrevemos que Manuel Oliveira foi um treinador inovador, um homem que deixou marca no futebol. O Mundo inteiro, ou quase, ainda hoje atribui a autoria do 4-4-2 ao inesquecível Brasil de 1970, que no Mundial do México nesse ano alcançou o tri. Justo será dizer- que o resto do Mundo terá travado conhecimento com tal sistema tático através de Pelé e companhia, mas anos antes em Portugal já um certo treinador colocava - pela primeira vez - esta tática em ação. O seu nome? Manuel Oliveira. Facto ocorrido a 15 de fevereiro de 1965, quando a CUF defrontou em casa o poderoso Benfica de Eusébio, Coluna, José Augusto, Simões, Torres, entre outros vultos encarnados da década de 60. Oliveira surpreendeu todos ao colocar em campo uma tática nunca dantes vista, o tal 4-4-2, que viria a dar os seus frutos na sequência de uma vitória por 2-0. Espantado com este sistema o então técnico do Benfica, o romeno Elke Schwartz, queixou-se que os barreirenses haviam ganho o jogo com uma tática de... basquetebol! Pois, mas cinco depois o Brasil encantou e ganhou o Mundo com a mesma tática. Teria o escrete de Pelé, Jairzinho, Tostão, Rivelino, ou Carlos Alberto bebido da sabedoria de Manuel Oliveira? Ou simplesmente tudo não passou de uma coincidência? É uma questão para a qual ainda hoje não se encontra resposta.

O 3-5-2, outra inovação
tática do mestre
Mas não se ficou por aqui a criatividade tática do homem de Pinhal Novo. Ao leme do Barreirense apresenta na época de 69/70 um outro sistema tático então nunca dantes visto em Portugal, o 3-5-2. Capítulo histórico que foi escrito em dezembro de 1969, altura em que o emblema do Barreiro se deslocou à Póvoa de Varzim para defrontar a turma local em mais um jogo do Nacional da 1ª Divisão. Visionário, sábio e astuto Manuel Oliveira voltou a surpreender o Planeta da Bola. No plano internacional, este sistema atingiu o pico da fama no Mundial de 2002, altura em que o Brasil venceu o penta-campeonato. Mas como não há duas sem três, em 82/83, ao serviço do Vitória de Setúbal, o mestre da tática volta a inovar no plano tático, ao apresentar no Estádio do Bonfim, diante do FC Porto, a sua equipa disposta em 3-4-3, sistema também na época nunca dantes visto por estas bandas. A sua sabedoria foi ao longo de décadas não só colocada ao dispor das centenas de atletas (Jorge Jesus, por exemplo, foi um deles, e que mais tarde, e já na qualidade de treinador, confessou ter sido influenciado por Oliveira) como também por outros colegas de profissão. Com mais de 600 jogos no currículo este notável pensador de jogo ministrou inúmeros cursos de formação tática, moderou colóquios, palestras, foi comentador de rádio, fundou a Associação Nacional de Treinadores, sempre na vanguarda do conhecimento.

Assim como o 3-4-3, nunca
dantes visto em Portugal
Um verdadeiro génio da tática, homem de fortes convicções, intransigível, a quem faltou um reconhecimento maior por parte das altas instâncias do futebol lusitano. E quando nos referimos a este reconhecimentos falamos de um patamar maior, e amplamente merecido, que devia ter sido atingido pelo mestre Manuel Oliveira, Ter treinado um Benfica, um FC Porto, um Sporting, ou mesmo a seleção nacional, seria um prémio mais do que justo para uma figura que é indiscutivelmente um dos nomes mais sonantes - no que ao capítulo do treino diz respeito - da história do futebol em Portugal. Mas, e voltando ao início da nossa visita de hoje, nem sempre todos os génios deste Mundo foram aceites - talvez pela sua maneira diferente de ver e estar na sociedade - e reconhecidos por esse mesmo Mundo. Manuel Oliveira foi, talvez, um desses génios maldosamente ignorados. Injusto, muito injusto, é o que nos apraje dizer.

terça-feira, março 08, 2016

Flashes Biográficos (7)... Nettie Honeyball

Nattie HONEYBALL (Inglaterra): 8 de março, data em que em todo o planeta - ou pelo menos quase todo - assinala o Dia Internacional da Mulher. Também nós, Museu Virtual do Futebol, nos associamos a esta efeméride, recordando aquela que foi a pioneira da mulher no papel de... futebolista. Para isso será preciso recuar até ao século XIX, mais precisamente até aos anos 90 do referido século, tendo a pátria do futebol (Inglaterra) como cenário. Altura em que uma acérrima defensora dos direitos da Mulher decide atravessar a fronteira do preconceito e do machismo e assenta arraiais num terreno que até então era pisado unicamente por homens: o football. Falamos de Nettie Honeyball, uma cidadã londrina nascida em 1874 que entrou para a história como a pioneira do futebol... feminino. Corria o ano de 1894 quando a então desconhecida cidadã Nattie - cuja vida profissional e pessoal é ainda hoje para os historiadores desportivos um enigma - coloca um anúncio num jornal de Londres a solicitar cerca de 30 jovens do sexo feminino para formar um clube de futebol. Reunidas as tropas nasce o British Ladies Football Club, o primeiro emblema direcionado, única e exclusivamente, para o então inexistente futebol feminino. Os treinos decorrem nas zonas verdes do Alexandra Park e são ministrados por J.W. Julian, naqueles dias futebolista do Tottenham. Numa entrevista concedida em fevereiro do ano seguinte ao Daily Sketch, Honeyball explicou o porquê de ter dado tão arrojado passo: «Fundei o clube com o objetivo de provar ao Mundo que as mulheres não são essas criaturas ornamentais e inúteis que os homens "pintam". Devo confessar que é minha convicção de que em todos os assuntos os sexos estão profundamente divididos (...) e desejo a chegada de um tempo em que as mulheres se possam sentar no Parlamento e que tenham voz na gestão de todos os assuntos...».
O primeiro teste das futebolistas dá-se em março de 1895,  tendo sido presenciado por cerca de 10.000 pessoas, as quais se deslocaram ao Crouch End londrino para assistir a uma partida entre equipas representativas do norte e do sul da capital britânica. Abra-se aqui um parênteses para dizer que a História diz-nos que este não foi o primeiro match 100 por cento feminino, uma vez que cerca de três anos antes, em Glasgow, há notícias de um desafio entre senhoras, desconhecendo-se, no entanto, os contornos do mesmo. Mas voltando a Crouch End para recordar que as nortenhas - que no seu eleven integravam Nattie Honeyball - venceram por 7-1, um match que motivou uma chuva de crónicas machistas por parte dos jornais da época, os quais não disfarçaram os tiques desse mesmo machismo que estava enraizado na sociedade da época. O Daily Sketch, que um mês antes havia entrevista Nattie, escreveu que «os primeiros minutos foram suficientes para demonstrar que o futebol feminino (...) está totalmente fora de questão. Um futebolista requer velocidade, disciplina, habilidade e coragem. Nenhuma destas quatro qualidades se viram no sábado. Na maior parte do tempo as senhoras vaguearam sem rumo pelo terreno de jogo num trote sem graça». Houve no entanto quem tivesse proferido palavras mais amáveis para as distintas senhoras que atuaram no recinto de Crouch End, como foi o caso do correspondente do diário The Sportsman, que sublinharia que: «É certo que os homens correm mais e rematam com mais força, (...) mas para além disso não acreditamos que a mulher futebolista desapareça na sequência de uns quantos artigos escritos por senhores sem qualquer simpatia pelo jogo nem pelas aspirações das jovens mulheres. Se a mulher futebolista morrer, morrerá a dar luta». Este último artigo estava certo. As British Ladies não se deixaram afetar pelas críticas e continuaram a percorrer caminhos até então exclusivos a homens, tendo realizado mais alguns jogos nos meses seguintes (um deles com cariz de beneficência, realizado em Brighton), antes de darem por terminada uma aventura que ficou na história, e que depois de ultrapassar dezenas de obstáculos no âmbito do preconceito e do machismo ao longo das décadas seguintes acabou por abrir - à semelhança do que aconteceu noutras áreas - o Mundo do futebol ao sexo feminino. Nada mais justo. 

segunda-feira, março 07, 2016

Histórias do Planeta da Bola (16)... "Il Grande Bologna" solta o primeiro grito de vitória do futebol italiano além fronteiras

Il Grande Bologna entra em campo para fazer história
Durante décadas o futebol italiano viu refletidos sobre si os holofotes da fama e do prestígio do Planeta da Bola. As suas equipas encantaram e dominaram o Mundo com dezenas conquistas e feitos inesquecíveis que fizeram - e fazem - desta uma das nações mais fortes da história do belo jogo. Sobretudo durante as décadas de 80 e 90 do século passado, em que o calcio comandou o pelotão futebolístico internacional. A Serie A - o principal escalão do futebol italiano - foi durante mais de 20 anos uma verdadeira passerelle de estrelas. Alguns dos maiores vultos da história do jogo passearam classe pelos relvados de Itália nas décadas de ouro do calcio, casos de Diego Maradona, Michel Platini, Zico, Roberto Mancini, Gianluca Vialli, Roberto Baggio, Paolo Rossi, Sócrates, Falcão, Lottar Matthaus, Ruud Gullit, Marco Van Basten, entre tantos outros. Jogar em Itália, no melhor campeonato nacional do globo, era a cereja no topo do bolo para qualquer futebolista. O poderio e mediatismo das squadras transalpinas no decorrer das duas referidas décadas refletia-se igualmente nas eurotaças da UEFA com a conquista de quase duas dezenas de títulos continentais e cerca de trinta presenças em finais.


O poderio do futebol italiano na Europa
durante as décadas de 80 e 90 é evidente nesta imagem
Para quem gosta de estatística estes factos podem ser facilmente atestados com números que impressionam à primeira vista. Vejamos. Na Taça dos Clubes Campeões Europeus a nação da bota arrecadou cinco títulos, três por intermédio do Milan (1989, 1990 e 1994) e dois pela Juventus (1985 e 1996), para além de ter marcado presença em mais sete finais (perdidas), três pela Juve (1983, 1997 e 1998), duas pelos milanistas (1993 e 1995), e uma por Roma e Sampdoria (respetivamente em 1984 e 1992). Naquela que foi durante anos a fio a segunda competição mais importante da UEFA, a Taça dos Vencedores das Taças, o futebol italiano subiu por quatro ocasiões ao lugar mais alto do pódio: Juventus (1984), Sampdoria (1990), Parma (1993) e Lázio (1999), tendo perdido ainda um par de finais, em 1989 (Sampdoria) e 1995 (Parma). Seria no entanto na terceira competição uefeira - a Taça UEFA - que o calcio exerceu nestes 20 anos um domínio quase absoluto, conforme expressam os oito títulos conquistados (o Nápoles em 1989; a Juventus em 1990 e 1993; o Inter em 1991, 1994 e 1998; e o Parma em 1995 e 1999) em dez finais disputadas. A prova mais evidente de que a Itália era rainha e senhora da Taça UEFA ocorreu nos anos de 1990, 1991, 1995 e 1998, altura em que as finais desta competição foram 100 por cento italianas, ou seja, disputadas por duas equipas do mesmo país. O poderio transalpino é traduzido noutros dados, como por exemplo o facto de a Juventus ter sido a primeira equipa do Velho Continente a conquistar os três troféus da UEFA, quando em 1985 juntou a Taça dos Campeões Europeus (TCE) à Taça dos Vencedores das Taças (TVT) de 1984 e à Taça UEFA de 1977; ou ainda a época de 1989/90, cujas finais europeias foram vencidas por equipas italianas: Milan (TCE), Sampdoria (TVT) e Juventus (Taça UEFA). Sem dúvidas que este foram anos de um domínio avassalador, que a juntar às conquistas das décadas de 60 e 70 (quatro TCE, duas TVT, uma Taça UEFA e uma Taça das Cidades com Feira) fazem da Itália um dos países mais laureados da Europa futebolística no que a clubes concerne, somente suplantado por Espanha e Inglaterra. Hoje em dia, o calcio vive na sombra do seu passado glorioso, quer no plano internacional, onde luta com dificuldades ante os emblemas das nações mais poderosas do continente (Espanha, Inglaterra e Alemanha), quer no aspeto interno, onde o seu campeonato perdeu brilho, emoção, e sobretudo glamour.

Il Grande Bologna coloca a Itália no mapa da Europa do futebol (ao nível de clubes)

Esta longa introdução remete-nos para a nossa história de hoje: o ponto de partida da gloriosa caminhada europeia das equipas italianas. Início esse que nos leva até um clube lendário, que hoje deambula entre a Serie A e a Serie B, mas que durante mais de uma década encantou os tiffosi de todo o... Mundo. Bologna Football Club, ou Il Grande Bologna dos anos 30, a primeira equipa transalpina a conhecer a glória internacional. Para muitos dos historiadores do belo jogo o legado desse mítico e longínquo Bologna rivaliza com o do Grande Torino da década de 40, da mágica equipa que se eclipsou tragicamente no desastre aéreo de Superga em 1949. Qual destas duas equipas foi a melhor é uma pergunta difícil de responder, sendo apenas certo que ambas tiveram um papel preponderante na dinamização e popularização do calcio a nível internacional.
No vale do Rio Pó ergue-se Bologna (ou Bolonha no idioma de Camões), cidade que no outono de 1909 vê nascer um dos principais baluartes da sua história, o Bologna Football Club.

A equipa do Bologna que em 1924/25 conquistou, sob a alçada do treinador austríaco Felsner,
o primeiro scudetto da história do clube
Emilio Arnstein, um cidadão oriundo da Boêmia (atual República Checa) é a principal figura que esteve na génese da criação do emblema rossoblú (azul e vermelho, as cores que os bolonheses adotaram desde a sua fundação), contando para isso com a cumplicidade dos italianos Arrigo Gradi e Leone Vicenzi, e do suíço Louis Rauch, sendo que este último seria o primeiro presidente da história do clube. Após uma primeira década de vida a competir ao nível regional, o Bologna entra nos anos 20 com a ambição de galgar os muros da sua região e conquistar a Itália. Os seus dirigentes sonham alto, aspiram ombrear com as melhores equipas do país, onde então se destacavam o Genoa e o Pro Vercelli, nomes que haviam dominado as duas primeiras décadas do calcio no plano nacional. Nesse sentido urge que o clube transponha a fronteira do amadorismo para o profissionalismo que começava a imperar no futebol transalpino, e o primeiro passo é dado na contratação de um homem oriundo da escola do Danúbio, para muitos a região do Velho Continente onde o futebol atingia a sua perfeição no plano técnico e tático. Do triângulo composto por Áustria, Hungria e Boêmia (mais tarde batizada de Checoslováquia) foram extraídos durante grande parte da primeira metade do século XX alguns diamantes raros no que ao desporto rei diz respeito. Jogadores, treinadores, ou simplesmente pensadores do jogo que o levaram para patamares da excelência e da beleza nunca dantes vistos no Velho Continente.



Hermann Felsner, o criador
d' Il Grande Bologna
Os dirigentes do Bologna estavam cientes de que para edificar o clube vencedor que tinham em mente era preciso trazer para a cidade que alberga a universidade mais antiga do Mundo um desses filósofos danubianos da bola. Decidem então colocar um anúncio num jornal de Viena, em busca de um timoneiro para o projeto de sucesso que idealizavam. Receberam várias respostas, e na sequência disso Arrigo Gradi, um dos co-fundadores do clube, decide viajar até à capital da Áustria para analisar in loco os candidatos selecionados. A escola final recaíu num antigo jogador do Wiener Sport Club, Hermann Felsner, de seu nome. Este cidadão austríaco chega a Itália em 1920 e de pronto revoluciona o modo de jogar e de pensar dos rossoblú. Felsner desde logo se revelou um profundo conhecedor do futebol, introduziu novos métodos de treino, ou não fosse ele um especialista no campo da preparação física, aos quais aliou os seus vastos conhecimentos no plano tático. Felsner reconstruiu o clube, criou as bases daquele que viria a ser Il Grande Bologna das décadas seguintes. Sob a sua batuta o Stadio Sterlino - uma das primeiras casas do Bologna - passou a ser palco de magistrais sinfonias futebolísticas interpretadas por uma orquestra formada por notáveis figuras moldadas pelo génio do treinador austríaco. Nomes como Giuseppe della Valle, Augusto Baldini, Gastoni Baldi, ou Cesare Alberti rapidamente se tornaram em futebolistas de renome em Itália, e mais do que isso em homens capazes de conduzir o Bologna à glória sonhada. Em 1920/21 é dado do primeiro sinal ambição dos rossoblú, com a conquista do primeiro lugar do Grupo Regional do Norte do Campeonato Italiano - que até meados dos finais dos anos 20 foi disputado em várias fases, sendo que os vencedores das etapas regionais disputavam mais à frente eliminatórias nacionais que apuravam o campeão. O talento de Felsner para moldar jogadores de inegável talento atinge, quiçá, o seu apogeu em 1923, altura em que descobre num modesto clube amador local, o Fortitudo, um artista que haveria de escrever o seu nome no livro de ouro do futebol italiano: Angelo Schiavio.


Angelo Schiavio, a estrela maior
d' Il Grande Bologna
Este astro atuou durante 16 temporadas (1922-1938) no Bologna, tendo apontado 242 golos em 348 encontros disputados. 109 desses golos foram apontados no principal escalão italiano, onde vestiu a maglia rossoblú em 179 ocasiões. Foi o melhor marcador do campeonato em 31/32, altura em que apontou 25 golos. Schiavio foi o nome sonante de um Bologna que tornou reais as aspirações de glória dos seus dirigentes em 1928/29, época em que venceu o primeiro dos seus sete scudettos - título nacional - que detém até hoje. A equipa do vale do Rio Pó venceu numa primeira fase a Liga do Norte, com 34 pontos, superando a então potência do calcio Pro Vercelli, e uma Juventus que dava os primeiros sinais do gigante internacional que viria a tornar-se nas décadas seguintes. Esta classificação permitiu ao Bologna disputar a final do campeonato com o vencedor do Grupo do Sul, o Alba Roma, tendo vencido os dois jogos do play-off de apuramento do campeão nacional. Estava dado o primeiro passo no caminho da glória. Nos anos seguintes os rossoblú ocuparam sempre a carruagem da frente do futebol transalpino, lutando taco a taco com os melhores pela reconquista do ceptro. Algo que viria a surgir no final da década (1929) quando o doutor Felsner - assim chamado pelos tiffosi bolonheses não só pelo facto de ser licenciado em Direito mas sobretudo pelos seus amplos conhecimentos futebolísticos - conduz o clube a um novo título nacional, depois de levar a melhor numa épica final ante o Torino - decidida apenas num terceiro jogo e quase em cima do apito final (minuto 82) por intermédio de Giuseppe Muzzioli. A Itália curvava-se diante do futebol tecnicamente e taticamente refinado do Bologna - assente na filosofia da escola danubiana com alguns traços do futebol inglês - idealizado por Felsner, um homem de personalidade forte, que tinha bebido grande parte da sua sabedoria na pátria do futebol, Inglaterra, onde havia aprendido com os melhores antes de deixar a sua marca no Planeta da Bola através da criação d' Il Grande Bologna. O austríaco abandonaria a sua obra de arte em 1931, abrindo caminho para que outros elevassem o clube a patamares mais altos e mais pomposos. Por esta altura não só a Itália fazia vénias ao emblema rossoblú, cuja lenda atravessava o (Oceano) Atlântico conforme ficou comprovado pelos convites que surgiram da Argentina e do Brasil no final da década, para que as duas equipas finalistas do campeonato transalpino de 28/29 enfrentassem as melhores equipas daqueles dois países.

Rossoblú fazem tremer a Europa do futebol


Bologna em ação contra o velho rival
Juventus, na luta pelo trono do futebol
  transalpino
Os finais da década de 20 conheceram aquela que é considerada como a progenitora das atuais competições europeias: a Taça Mitropa. Sobre esta hoje desaparecida prova já traçámos longas linhas em recentes viagens ao passado, e nela evoluíram algumas das primeiras lendas do futebol continental como Mathias Sindelar, Rudolf Hiden, Raymond Braine, Giuseppe Meazza, ou Frantisek Plánicka. Disputada pelos melhores conjuntos da Áustria, Hungria, Checoslováquia e Itália - no fundo as maiores potências futebolísticas da Europa de então - a Mitropa Cup era já a competição mais popular do Velho Continente no início da década de 30. Vencê-la era o equivalente a subir ao trono da Europa no que a clubes dizia respeito. Por esta altura Hermann Felsner havia dado o seu lugar ao húngaro Gyula Lelovics, outro profundo conhecedor da mítica escola danubiana que mais não fez do que seguir o trabalho deixado pelo austríaco. Entretanto, o grupo rossoblú era reforçado com nomes que haveriam de deixar a sua marca na história do clube e do próprio jogo, tais como o defesa uruguaio Francisco Fedullo, o guarda-redes Mario Gianni, ou o extremo Carlo Reguzzoni. Em 1932 o Bologna participa pela primeira vez na famosa competição continental, na qualidade de vice-campeão italiano - atrás do campeão Juventus - facto que entraria para a história, ou melhor, uma presença que haveria de iniciar a gloriosa história do futebol italiano nas competições europeias.
O principal campeonato italiano havia somente terminado somente há uma semana quando a squadra orientada por Gyula Lelovics entrou em campo para defrontar os campeões da Checoslováquia, o Sparta de Praga, em partida dos quartos-de-final. Checos que na primeira mão viajaram até Itália sem o patrão da sua defesa, Kada Pesek, para enfrentar Il Grande Bologna. Na baliza surgia Mario Gianni, a quem chamavam de gato mágico, assim apelidado pelas espetaculares e acrobáticas estiradas que marcavam a sua imagem de futebolista, enquanto no setor recuado brilhavam o futuro bi-campeão do Mundo Eraldo Monzeglio, Felice Gasperi, e o uruguaio Francisco Fedullo. No meio campo, dois jogadores comandavam majestosamente as operações: Gastoni Baldi, e Gastone Martelli. Estes dois jogadores serviam de forma sublime a linha avançada daquele memorável conjunto, linha essa formada por nomes como Bruno Maini, o uruguaio Raffaele Sansone, Carlo Reguzzoni e Angelo Schiavio, a estrela mais brilhante daquela lendária equipa. Este último jogador foi um dos destaques no embate ante o Sparta, que o Bologna venceu por claros e expressivos 5-0. Reguzzoni abriu o marcador nos minutos iniciais, seguido de dois golos de Maini e um de Schiavio, tendo a nota artística final sido assinada por Baldi na etapa complementar. 

A medalha que simboliza a conquista
da Mitropa Cup em 32
No encontro da segunda mão os checoslovacos ainda tentaram o impossível, e aos 30 minutos do primeiro tempo já haviam marcado dois golos - por Nejedly e por Donati, este último um auto-golo - que traziam esperança ao combinado orientado pelo lendário John Dick. Aos 15 minutos da segunda parte Podrazil fez o 3-0 final, resultado insuficiente para afastar o vice-campeão de Itália. Nas meias-finais, a squadra de Lelovics enfrentou o First Viena, conjunto que na primeira mão visitou o Stadio Littorale - a nova casa do Bologna, que hoje em dia é denominada de Estádio Renato Dall' Ara - tendo ali perdido por 2-0, com golos de Maini e Sansone, num jogo que fica marcado pelo facto de Schiavio ter atuado fisicamente limitado. Ele que havia sido o melhor marcador do campeonato italiano em 1931/32, com um total de 25 remates certeiros.
Uma semana mais tarde, no Hohe Warte Stadium, em Viena, os austríacos fizeram uma exibição de gala, um jogo perfeito, que mesmo assim não chegou para ir além de uma magra e insuficiente vitória por 1-0.

A edição de 1932 da Taça Mitropa ficou marcada pela polémica meia-final entre a Juventus e o Slavia de Praga, uma autêntica batalha campal que levou a organização da prova a afastar estes dois clubes e a entregar o título de campeão ao Bologna que assim soltava o primeiro grito de vitória além do futebol italiano no plano internacional. O Bologna tornava-se assim na primeira squadra transalpina a vencer uma competição europeia sob o signo da magia e criatividade técnico-tática que caracterizava o seu estilo de jogo.
Fotografia histórica: A equipa do Bologna que em 1932
conquistou o primeiro título europeu de clubes para Itália
Dois anos mais tarde, e sob a orientação do húngaro Lajos Kovács, Il Grande Bologna volta a mostrar a sua... grandeza no plano internacional. A equipa volta a conquistar a Europa na sequência de um novo triunfo na Mitropa Cup. Contudo, a campanha não começou de maneira fácil, já que na primeira ronda os húngaros do Bocskai foram um osso duro de roer. No jogo da primeira mão, no Stadio del Litorialle, o combinado magiar surgiu no relvado com uma defesa de ferro, só derrubada pela arte e força de Carlo Reguzzoni e da grande estrela da equipa, Angelo Schiavio. Na segunda mão foi a vez do setor defensivo dos italianos brilhar, segurando a avalanche ofensiva dos húngaros que tiveram em Jeno Vincze a sua maior figura, sendo dele um dos golos com que o Bocskai derrotou o Bologna, por 2-1. Resultado, contudo, insuficiente para passar aos quartos-de-final, já que o tento de Reguzzoni fez estalar a festa entre a comitiva transaplina.
Tranquila foi a passagem do Bologna às meias-finais, já que na primeira mão dos quartos-de-final, diante do seu público, o clube transalpino humilhou por completo o Rapid de Viena. 6-1 foi o resultado de uma partida onde os atacantes Reguzzoni e Schiavio estiveram em claro destaque ao apontarem os golos da sua equipa. Em Viena, o Rapid adiantou-se cedo no marcador, por intermédio de Binder, logo aos dois minutos, dando ideia de que o milagre poderia acontecer, mas Reguzzoni logo tratou de arrefecer o ímpeto dos locais com o golo do empate, de nada valendo os três golos de Binder no segundo tempo.

Final da Taça Mitropa de 1934
As meias-finais comprovaram que o Bologna era de facto uma das grandes equipas da Europa dos anos 30. Que o diga o (então) poderoso Ferencvaros, que na primeira mão não foi além de um empate caseiro antes os italianos, que por sua vez no jogo de volta esmagaram por completo os húngaros na sequência de um robusto triunfo por 5-1, com relevo para as exibições de Fedullo e Schiavio, este último autor de dois golos. Assim chegávamos a mais uma final, onde surgiu pela segunda vez - no espaço de três anos - Il Grande Bologna, que no entanto se viu a braços com o azar na partida da primeira mão da final da edição de 1934, já que por motivos de lesão a sua maior estrela, Angelo Schiavio, não pôde viajar para Viena. No entanto, e em contrário ao que se esperava, os italianos não ficariam fragilizados por esse facto, já que ao intervalo venciam o seu oponente por duas bolas a zero. No segundo tempo, e no curto espaço de seis minutos, o Admira - adversário da final - deu a volta ao marcador, o qual não mais viria a ser alterado até final, graças a uma magnífica exibição do gato mágico Mario Gianni. Na segunda mão, e já com o seu capitão e estrela-mor Schiavio em campo, o Bologna dominou por completo os acontecimentos. Jogada de baixo de um calor infernal a partida foi de sentido único, o da baliza forasteira, com sucessivos lances de perigo a ocorreram junto da baliza à guarda de Platzer. O perigo número um na área vienense dava pelo nome de Carlo Reguzzoni - jogador que o lendário mestre da tática Hugo Meisl classificou, na época, como o melhor extremo do futebol continental -, que neste encontro esteve verdadeiramente endiabrado. Apontou três dos cinco golos com que o Bologna venceu o seu oponente, mas poderia ter marcado muitos mais, tais foram as ocasiões em que assustou Platzer. Com este hattrick Reguzzoni elevaria para 10 o número de golos marcados na competição, facto que fez dele o melhor da edição de 1934 da Mitropa. Quando o árbitro inglês Arthur James Jewell apitou para o final do encontro os 25 000 espectadores presentes no Stadio del Littoriale explodiram de alegria: Il Grande Bologna era de novo campeão da Europa.
1934 foi de facto um ano inolvidável para o futebol italiano, pois à conquista do Campeonato do Mundo pela seleção nacional seguiu-se mais um capítulo da história triunfal d' Il Grande Bologna. Curioso é que nestes dois factos um homem esteve em destaque, Angelo Schiavio. Foi dele o golo da vitória da Squadra Azzurra na final de Roma ante a Checoslováquia e por sua influência o Bologna subia de novo ao trono do futebol continental.
O grupo que em 1934 voltou a subir ao trono do futebol europeu
A supremacia dos bolonheses continuou a fazer-se sentir no restantes anos da década de 30, sobretudo no plano interno onde sob a orientação de outro nome que ficou na história do clube, o húngaro Árpád Weisz, interromperam uma série de cinco títulos nacionais consecutivos da Juventus vencendo os scudettos de 1936 e 1937. A era dourada deste emblema estava longe de terminar, pois até 1941 Il Grande Bologna voltou a rugir bem alto no panorama nacional. Conduzido pelo homem que construi a lenda, Hermann Felsner, a equipa venceu os campeonatos de 39 e 41, antes de passar o testemunho artístico no que à interpretação do jogo alude a outro grande squadrone: Il Grande Torino.

segunda-feira, fevereiro 15, 2016

Europeu de Futsal/Sérvia 2016 (20)...

Final

Rússia - Espanha: 3-7

Golos: Rómulo, Robinho, Milovanov / Rivillos (2), Miguelín (2), Pola (2), Alex

La Roja esmaga russos e regresso ao trono do futsal europeu...

Europeu de Futsal/Sérvia 2016 (19)...

Jogo de apuramento dos 3º e 4º lugares

Sérvia - Cazaquistão: 2-5

Golos: Rakic, Rajcevic / Douglas Jr. (3), Zhamankulov, Higuita

Cazaques chegam ao pódio em ano de estreia...

sexta-feira, fevereiro 12, 2016

Europeu de Futsal/Sérvia 2016 (18)...

Meias-finais

Espanha - Cazaquistão: 5-3

Golos: Raul Campos (2), Miguelín, Bebé, Alex / Dovgan, Leo, Zhamankulov

Sonho cazaque esfumou-se diante da favorita Espanha...

Europeu de Futsal/Sérvia 2016 (17)...

Meias-finais

Sérvia - Rússia: 2-3 (após prolongamento)

Golos: Kocic, Simic / Éder Lima, Abramov, Rómulo

Poderosa armada russa sofreu para superar os guerreiros sérvios...

quarta-feira, fevereiro 10, 2016

Europeu de Futsal/Sérvia 2016 (16)...

Quartos-de-final

Itália - Cazaquistão: 2-5

Golos: Fortino, Canal / Leo (2), Zhamankulov, Yesenamanov, Nurgozhin

Estreante Cazaquistão protagoniza enorme suepresa ao derrubar a campeã em título...

Europeu de Futsal/Sérvia 2016 (15)...

Quartos-de-final

Rússia - Azerbaijão: 6-2

Golos: Éder Lima (3), Abramov (2), Rómulo / Augusto (2)

Segundo parte demolidora dos czars do futsal assegura presença entre as últimas quatro seleções do Euro...

Europeu de Futsal/Sérvia 2016 (14)...

Quartos-de-final

Espanha - Portugal: 6-2

Golos: Rivillos (2), Alex (2), Miguelín, Campos / Ricardinho (2)

Ter o melhor do Mundo (Ricardinho) não bastou para Portugal continuar a sonhar com o título...

Europeu de Futsal/Sérvia 2016 (13)...

Quartos-de-final

Sérvia - Ucrânia: 2-1

Golos: Kocic, Simic / Grytsyna

Simic fez história no último segundo do jogo!...

segunda-feira, fevereiro 08, 2016

Europeu de Futsal/Sérvia 2016 (12)...

Grupo D 

República Checa - Itália: 0-7

Golos: Fortino (2), Lima, Merlim, Honorio, Patias, Koudelka (a.g.)

Squadra Azzurra esmaga checos e continua no caminho da revalidação do título...

Europeu de Futsal/Sérvia 2016 (11)...

Grupo C

Croácia - Rússia: 2-2

Golos: Novak, Robinho (a.g.) / Abramov, Pereverzev

Meia surpresa croata não chegou para garantir passagem aos quartos-de-final...

Europeu de Futsal/Sérvia 2016 (10)...

Grupo B

Ucrânia - Espanha: 1-4

Golos: Grytsyna / Alex (2), Rivillos (2)

La Roja provou o porquê de ser uma das principais candidatas à sucessão da Itália no trono Europeu...

Europeu de Futsal/Sérvia 2016 (9)...

Grupo A 

Portugal - Sérvia: 1-3

Golos: Ricardinho / Kocic, Rajcevic, Simic

Magia de Ricardinho não foi suficiente para evitar um surpreendente amargo de boca para os favoritos lusos...

sábado, fevereiro 06, 2016

Europeu de Futsal/Sérvia 2016 (8)...

Grupo D

Azerbaijão - República Checa: 6-5

Golos: Farzaliyev, Borisov, Araújo, Eduardo, Augusto, Rafael / Záruba, Holy, Resetár, Novotny, Kovács

Ao ritmo do samba Azeris dão passo de gigante rumo aos quartos-de-final na sequência de uma vitória emocionante...

Europeu de Futsal/Sérvia 2016 (7)...

Grupo C

Cazaquistão - Croácia: 4-2

Golos: Zhamankulov (2), Douglas Jr., Suleimenov / Matosevic, Suton

Caloiros do Cazaquistão selam apuramento para a fase seguinte...

sexta-feira, fevereiro 05, 2016

Europeu de Futsal/Sérvia 2016 (6)...

Grupo B 

Hungria - Ucrânia: 3-6

Golos: Dróth (2), Trencsényi / Bondar (2), Sorokin, Ovsyannikov, Valenko, Grytsyna

Ucranianos garantem apuramento para os quartos-de-final à primeira tentativa...

Europeu de Futsal/Sérvia 2016 (5)...

Grupo A

Portugal - Eslovénia: 6-2

Golos: Ricardinho (3), Fábio Cecílio (2), Cary / Cujec, Vrhovec

Melhor do Mundo (Ricardinho) resolveu a questão que ditou o adeus esloveno ao Euro...

quinta-feira, fevereiro 04, 2016

Europeu de Futsal/Sérvia 2016 (4)...

Grupo D 

Itália - Azerbaijão: 3-0

Golos: Merlim (2), Giasson

Campeões da Europa em título embalados pela magia de Merlim...

Europeu de Futsal/Sérvia 2016 (3)...

Grupo C

Rússia - Cazaquistão: 2-1

Golos: Rómulo (2) / Zhamankulov

Favorita Rússia tremeu frente aos estreantes cazaques...

quarta-feira, fevereiro 03, 2016

Europeu de Futsal/Sérvia 2016 (2)...

Grupo B

Espanha - Hungria: 5-2

Golos: Miguelín (2), Bebe, Andrezito, Németh (a.g.) / Dróth (2)

Espanha puxa dos galões no início da caminhada rumo à (projetada) reconquista da Europa...

Europeu de Futsal/Sérvia 2016 (1)...

Grupo A

Sérvia - Eslovénia: 5-1

Golos: Kocic (2), Janjic, Rajcevic, Prsic / Osredkar

Susto inicial não inibiu anfitriões de chegarem à goleada...

terça-feira, fevereiro 02, 2016

Flashes Biográficos (6)... Amancio Mereles

AMANCIO Mereles (Paraguai): Ao recordar as jogadas, os golos, as equipas e os craques do principal campeonato português da década de 80 um nome em particular saltou do meu baú de memórias futebolísticas em relação a esses saudosos anos em que o belo jogo me foi formalmente apresentado. Amancio Mereles, ou simplesmente Amâncio, como se pronuncia na língua de Camões, foi um dos mais letais avançados da segunda metade dos anos 80 do futebol luso, uma faceta exibida, sobretudo, ao serviço do Futebol Clube de Penafiel, emblema duriense que este cidadão de nacionalidade paraguaia representou entre 1986 e 1990, quiçá, e a julgar pela estatística - já lá vamos - o melhor período da carreira deste futebolista. Nasceu a 10 de fevereiro de 1964, em Gaaguazú, e os poucos registos biográficos alusivos aos anos iniciais da sua carreira dão conta de que o primeiro lampejo de glória aconteceu em 1984, altura em que com 20 anos se sagra o melhor marcador (com 12 golos) do campeonato paraguaio com as cores do seu clube de então, o River Plate de Asunción. Este cartão de visita valeu-lhe a chamada à seleção de sub-20 do Paraguai que um ano mais tarde viajou até à ex-União Soviética para disputar a 5ª edição do Campeonato do Mundo da categoria. Com o dorsal dos matadores - o 9 - estampado nas costas foi titular do combinado guarani nos três encontros que este disputou no leste europeu. Apontou um golo, ante a China, o qual se viria a revelar insuficiente nas intenções dos sul-americanos em passar à fase seguinte da competição. No ano seguinte Amancio faz a longa travessia do Atlântico rumo ao Velho Continente, mais concretamente para o norte de Portugal, onde o esperava uma equipa que militava na 2ª Divisão daquele país, o Penafiel. Sob as ordens do então jovem técnico José Romão o paraguaio foi um dos operários que devolveram o clube duriense ao principal escalão do futebol português, após a obtenção de um segundo lugar na Zona Norte do Nacional da 2ª Divisão. E quem inicialmente pensasse que o regresso dos penafidelenses à 1ª Divisão iria ser passageiro enganou-se redondamente, pois José Romão continuou a orquestrar um conjunto que jogava um futebol alegre, vistoso, e extremamente perigoso no plano ofensivo. Sobretudo nos jogos em que atuava na condição de visitado, partidas essas em que aquele Penafiel fazia a vida negra a quem quer fosse. Uma das principais armas dos durienses era precisamente Amancio, o pequeno avançado que importunava as defesas contrárias com a sua rapidez de movimentos e, sobretudo, com o seu instinto predador, o mesmo é dizer, de goleador. Nesse ano de estreia na 1ª Divisão Amancio fez sete dos 36 golos marcados pelo Penafiel nessa temporada de 87/88, sendo apenas superado pelo seu parceiro de ataque, César, que apontou 15. Com a partida do brasileiro Amancio passou a ser a principal referência do ataque penafidelense nas épocas que seguiram. Em 88/89 o paraguaio viveu mesmo a sua temporada mais produtiva vestido com as cores rubro-negras. Fez o gosto ao pé em 15 ocasiões (em 37 jogos), ajudando o Penafiel a sobreviver um ano mais entre os grandes do futebol português. Na temporada seguinte, e já sem José Romão no comando técnico da equipa, o Penafiel venceu mais uma vez a árdua batalha da manutenção, tendo, no entanto, o instinto predador de Amancio sido mais brando, como comprova o facto de apenas por quatro ocasiões ter violado as redes adversárias em 29 jogos realizados. Após quatro temporadas de sucesso, em que indiscutivelmente se tornou numa das principais figuras da equipa, o avançado paraguaio decide mudar de ares, e parte rumo a Setúbal. Ali, onde o esperava o homem que o havia lançado no futebol português, José Romão, não foi feliz nas duas temporadas em que vestiu a camisola do Vitória, sendo que na primeira delas não evitou a queda do histórico clube sadino à 2ª Divisão. Em 1992/93 decide regressar ao norte do país, para representar o Tirsense, clube onde voltou a sentir alegria e prazer em jogar, e acima de tudo em fazer aquilo que mais gostava: golos. Em 27 encontros apontou seis tentos que o tornaram no melhor artilheiro da equipa nessa época, insuficientes, no entanto, para manter o clube jesuíta na 1ª Divisão. O Tirsense foi para a 2ª Divisão, mas Amancio não. O seu faro para o golo ainda despertava o interesse de muitos clubes do escalão maior, e o derradeiro capítulo escrito por si na aventura europeia ocorreu em Barcelos, ao serviço do Gil Vicente. Outro clube de pequena dimensão onde Amancio deixou marca, embora esta fosse uma marca pequena, é certo, como comprovam o parco par de golos que apontou em 19 encontros. Finda a aventura europeia de oito anos o jogador regressou a casa, e para trás deixou um registo de 160 jogos disputados na 1ª Divisão portuguesa e 35 golos apontados. Nada mau para um atleta que representou sempre clubes de pequena dimensão. Mas foi sem dúvida em Penafiel que Amancio alcançou a imortalidade na memória dos adeptos que o viram atuar. Ainda hoje o seu nome reluz na história do clube e da própria cidade, já que o "título" de maior goleador da história do FC Penafiel na 1ª Divisão pertence-lhe - com 26 remates certeiros.