MVF:
Para além de espectativas, por certo que pela sua cabeça passavam outras questões, ou receios, na altura em que aceitou atravessar o Atlântico,
isto é, sabia alguma coisa sobre o futebol português e muito em
particular sobre o clube que vinha representar?
C:
Sobre o futebol português em particular sim, conhecia o vosso
futebol. Agora, sobre o Águeda não sabia nada. Na altura pela minha
cabeça passavam as questões normais que um emigrante tem quando vai
para um país novo, isto é, quais os costumes de lá, saber se nos
vamos adaptar a esses mesmos costumes, etc. Mas eu levava uma vantagem comigo: o idioma.
Falamos a mesma língua, e isso facilitou a minha adaptação.
MVF:
Sendo um carioca de gema, habituado à grande cidade do Rio de
Janeiro, a chegada a uma pequena e pacata cidade como Águeda deve
tê-lo impressionado, resta saber se pela positiva ou negativa...
C:
O primeiro impacto foi de surpresa pelas dimensões (reduzidas) da
cidade, além de que havia ruas "em cima, outras em baixo", ou seja, as
ruas não eram todas planas! E esse foi um facto curioso que me
chamou à atenção. Mas de um modo geral eu sempre tive a capacidade
de me adaptar bem a situações novas, e em Águeda não foi exceção.
O facto de a cidade ter dimensões reduzidas também era positivo a
meu ver, já que as pessoas conheciam-se melhor umas às outras,
havia mais convívio entre as pessoas da cidade, e esse acolhimento
próximo ajudou-me na integração naquela nova realidade. Tive na
verdade uma adaptação rápida e muito positiva. A única e pequena
dificuldade inicial de adaptação foi ao nível do estilo tático que aqui se
utilizava, ou seja, o facto de aqui se jogar (na época) com dois
avançados centro, enquanto que no Brasil jogava-se com apenas um avançado e
dois pontas ofensivos. Mas essa pequena dificuldade inicial foi cedo
superada, como disse.
 |
| O plantel do Recreio de Águeda que disputou pela primeira e única vez - até hoje - a 1ª Divisão Nacional |
MVF:
E o clube, que impressões teve do Recreio de Águeda assim que
chegou, isto em comparação, por exemplo, ao que estava habituado no
Brasil. Que realidade encontrou?
C:
Olha, na realidade o que mais me surpreendeu foi o piso do estádio
do Águeda ser pelado! Eu nunca havia disputado campeonatos nesse
tipo de piso. Mas isso acabou por não ser problemático para mim, já
que me adaptei muito rápido. Os clubes aqui no Brasil, além do
futebol, têm mais atividades sociais e o Recreio de Águeda não
tinha nada disso quando lá cheguei. Agora, tinha uma massa adepta
muito acolhedora, algo que acabou por me ajudar bastante na integração.
Recordo-me que os adeptos do clube compareciam sempre nos jogos,
incentivavam a equipa, e um pormenor curioso é que nunca nos vaiaram...
MVF:
Na estreia na 1ª Divisão Nacional o Águeda era treinado por José
Carlos, um ex-Magriço da seleção nacional que disputou o Mundial
de 1966. O que recorda da relação profissional que com ele manteve
durante uma época?
C:
Confesso que a primeira impressão não foi boa, pois no primeiro
diálogo que tivemos ele disse na frente de todos que não gostava de
brasileiros. Isso magoou-me. Mas à medida que nos fomos conhecendo
melhor o respeito passou a existir entre nós.
MVF:
E o grupo de trabalho...
C:
...Excelente. Aliás, ainda hoje mantenho contacto com alguns, através
das redes sociais.
 |
Tibi, um dos mais experientes do plantel do Recreio |
MVF:
Tal como o clube poucos eram os jogadores que tinham experiência
do principal escalão do futebol em Portugal. As exceções eram
talvez o guarda-redes, Tibi, o defesa-central brasileiro Paulo César
e o médio Nogueira, que tinha sido campeão no Sporting. Acha que
essa inexperiência acabou por pesar na curta aventura do clube na 1ª
Divisão, uma vez que este acabou por descer?
(Nota: o Águeda foi penúltimo
classificado, contabilizando apenas 19 pontos, fruto de 7 vitórias
alcançadas, 5 empates e 18 derrotas).
C:
Não. Eu hoje em dia sou profissional na área da Educação Física, e na
minha opinião o erro (do Águeda) passou pela organização da
preparação. Alcançámos o pico de forma no meio da primeira volta,
quando o deveríamos ter alcançado no meio do campeonato. Isso, deu
origem a que quando chegou a reta final do campeonato o time já estava na fase
descendente em termos de forma física. Veja bem, não estou a
atribuir a responsabilidade ao treinador, mas a falta de um
profissional da área – um preparador físico – era fundamental,
para no momento exato programar a intensidade dos treinos. Mas na
época, preparador físico era privilégio de poucos clubes.
MVF:
Acha então que com uma melhor preparação física o Águeda talvez
se tivesse aguentado na 1ª Divisão?
C:
Melhor preparação não. A preparação física da equipa era excelente, faltou
apenas conhecimento técnico e teórico da área para dosá-la no
momento certo. A título de curiosidade, naquela época atingi a
melhor forma física de toda a minha carreira!
MVF:
Dos 25 golos marcados pelo Águeda nesse campeonato 10 foram da
autoria do César, que foi o melhor marcador da equipa. Algum golo
especial dessa dezena?
C:
Talvez o meu primeiro golo em Portugal, contra o Farense (1-1) e o
da primeira vitória (1-0) do Águeda na prova, contra o Varzim.
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O onze do Recreio que no pelado do Municipal de Águeda recebeu o Benfica em jogo da 19ª jornada, e em que César apontou o tento de honra dos locais |
MVF:
E o seu golo ao Benfica, apontado ao eterno guarda-redes Manuel Bento, em Águeda, na 19ª
jornada, em que o Recreio perdeu por 4-1...
C:
O que me lembro desse jogo é que o estádio tinha mais público do
que a sua capacidade real. Havia pessoas dentro do pelado; a guarda da GNR a cavalo atrás das balizas e diga-se de passagem que o (árbitro)
Carlos Valente foi corajoso em autorizar a partida naquelas
condições. Mas o público deu um show de educação e cordialidade,
há que dizê-lo.
MVF:
A época de 83/84 foi mesmo a mais brilhante da vida do Recreio de
Águeda. Com a descida à 2ª Divisão Nacional o clube foi desaparecendo com
o passar dos anos, e hoje milita nos escalões distritais...
C:
Sim, vejo isso com tristeza, pois gostaria muito de ver o Recreio de
novo no mais alto escalão do futebol português.
MVF:
E recordações da única época que passou em Águeda, algum momento
que tenha sido mais curioso ou marcante – pela positiva ou pela
negativa – e que queira partilhar nesta visita ao Museu Virtual do Futebol?
C:
Descer de divisão foi talvez o momento mais frustrante. Mas bons
momentos tive muitos, e seria injusto apontar apenas um. Quanto a
histórias curiosas há uma que não esqueço. Quando cheguei a Águeda o
presidente do clube disse-me que eu iria morar no “sítio tal” e
eu respondi-lhe que não queria morar num sítio, mas sim numa vivenda
ou num apartamento. Explicando isto: Sítio no Brasil é mais ou
menos o equivalente a uma quinta em Portugal (risos). Só que eu não sabia o
significado da palavra sítio em Portugal.
 |
| Manuel Oliveira |
MVF:
Águeda foi a sua porta de entrada no futebol português. Depois
disso ficou por cá mais seis temporadas. As duas seguintes num
histórico do futebol português, o Vitória de Setúbal. Que
recordações tem dessas duas temporadas no Bonfim?
C:
Novos ares, novos objetivos. Os individuais foram alcançados, ou
seja, mantive a minha média de golos. Agora, em termos coletivos não
alcançámos as competições europeias na primeira época e na
segunda não conseguimos permanecer na 1ª Divisão.
MVF:
Ainda no Estádio do Bonfim conviveu com grandes nomes do futebol português, entre
outros o treinador Manuel Oliveira, que lembranças e opinião
guarda deste mestre da tática?
C:
Bom estratega, armava bem a equipa, mas até hoje não sei se para
ele eu era um bom ou mau jogador, pois num dia ele dizia-me que eu era
o melhor estrangeiro no futebol português, no outro eu não jogava
na equipa titular! Mas apesar de tudo, fui o melhor marcador da
equipa na primeira época – com 10 golos – , e na segunda fiquei
um golo atrás do Fernando Cruz, que marcou 11 golos. Mas podia ter
feito muitos mais golos, se tivesse jogado com maior frequência.
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| O cromo de César em Penafiel |
MVF:
Depois de Setúbal ainda passou uma temporada por Famalicão (2ª
Divisão), outra em Penafiel e duas épocas no Olhanense (na 2ª
Divisão), antes de voltar ao seu Brasil. Destaco a passagem por
Penafiel, onde fez 15 golos, o seu melhor registo em Portugal numa só época, tendo
ficado entre os 10 melhores marcadores do campeonato dessa temporada de 87/88.
Que memórias regista dessa temporada em Penafiel?
C:
Foi o grupo mais unido do qual eu fiz parte em Portugal. Éramos uma
família, dentro e fora de campo, estávamos sempre juntos. As nossas
famílias conviviam. Vivemos em festa durante um ano, dentro e fora
de campo.
MVF:
Nessa época ao serviço dos penafidelenses marcou dois golos ao
Sporting em Penafiel, numa célebre goleada por 4-0. Lembra-se desse
jogo?
C:
Eu acho que esse jogo deve ter sido o maior feito do
Penafiel na 1ª Divisão até hoje. Foi uma tarde inesquecível.
MVF:
Em modo de despedidas. Que memórias - e desculpem desde já os eventuais leitores desta entrevista o uso e abuso de palavras como "memórias", "lembranças" ou "recordações", mas a nosso ver a sua aplicação torna-se obrigatória sempre que antigos artistas da bola visitam o Museu - ficaram de Portugal?
C:
Saudades da terra, dos amigos, da comida, mas não tenho saudades do
frio (risos). Os piores momentos, talvez as saudades dos familiares
que deixei aqui no Brasil. Mas, espero em breve poder retornar a esse
maravilhoso país que é Portugal, e que me acolheu como um filho.
 |
| César no presente |
MVF:
E qual o clube que mais o marcou na sua passagem por terras
portuguesas?
C:
Todos me marcaram de uma ou de outra maneira. De todos trago algo
dentro de mim e mesmo nos momentos difíceis, agradeço-lhes, por me
terem ajudado a crescer como homem.
MVF:
E o futebolista que mais o impressionou na sua passagem pelo futebol
português...
C:
Paulo Futre, pela qualidade, iniciativa e coragem, e ainda o Carlos
Manuel, por ser um jogador quase completo...
MVF:
Apontou mais de 40 golos no Campeonato Nacional da 1ª Divisão.
Algum que recorde com mais nostalgia?
C:
É difícil escolher um, pois cada golo é sempre especial, mas
talvez o primeiro contra o Farense, na 5ª jornada, pois vai ficar na
história como o primeiro golo do Recreio de Águeda na sua passagem
pela 1ª Divisão.