quarta-feira, novembro 18, 2015
quinta-feira, novembro 12, 2015
Arquivos do Futebol Português (7)
Os dedos de uma só mão bastariam para contar o número de capítulos futebolísticos que foram escritos em Portugal nos dois derradeiros anos do século XIX! Por outras palavras, os jogos de futebol eram uma raridade, pelo menos a julgar pelas parcas notícias vindas a lume na imprensa da época. Em 1899 há uma única referência no jornais - mais concretamente no Diário Ilustrado - a um match de football, jogado nos terrenos anexos ao Campo Pequeno entre os teams do Club Campo de Ourique e o Clubde Santos, tendo os primeiros vencido por 1-0. No ano seguinte há relatos - também nas páginas do Diário Ilustrado - de um jogo entre o Carcavelos Club e o Lisbon, ocorrido a 1 de novembro, enquanto que no dia 15 deste mesmo mês há a referência na revista Tiro Civil de uma derrota deste mesmo Carcavelos Club diante de Lisbon Cricket por 2-0, em partida realizada no Campo da Quinta Nova. E assim, de forma muito modesta, terminou o século do jovem futebol português, que iria conhecer uma nova dinâmica no início do século XX.
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1890 - 1899,
Época 1899/00
terça-feira, novembro 10, 2015
Arquivos do Futebol Português (6)
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| O famoso team do Casa Pia que em 1898 derrotou os mestres ingleses do Carcavelos Club |
Como foi
dito no último capítulo dos "Arquivos do Futebol Português (5)" até
final do século XIX o futebol em Portugal viveu um período de acalmia. Os
clubes nasciam quase para logo de seguida morrerem sem deixar rasto, o mesmo é
dizer, uma história para contar. 1896 é um deserto em termos de acontecimentos
futebolísticos, e os anos seguintes só não lhe tomaram o rasto porque eis que
(finalmente) os mestres ingleses sucumbiram ante os aprendizes lusitanos. Esta
de facto foi a principal novidade de dois anos pouco noticiosos no que a
futebol dizia respeito, por outras palavras, a quebra de invencibilidade por
parte do team inglês do Carcavelos Club, e logo em duas ocasiões. Uma
invencibilidade que durava há já cinco anos (!) e que seria quebrada então pela
primeira vez a 12 de fevereiro de 1897 por um grupo composto por jogadores
oriundos de diversos clubes antigos de Lisboa. A partida foi disputada no
reduto dos ingleses, isto é, no Campo da Quinta Nova, um dos primeiros palcos
notáveis do futebol português que viu então os duros e enérgicos lusos - assim
foram descritos os portugueses pelo jornal Sport - aplicarem a
primeira derrota - em cinco anos - aos de Carcavelos. 1-0 foi o resultado
final.
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| Francisco dos Santos |
De sublinhar
que entre os casapianos figurava Francisco dos Santos, de quem o Museu
Virtual do Futebol já falou noutras andanças, tratando-se do primeiro
futebolista português a atuar no estrangeiro.
Em 1897 há
ainda relato de no Porto ter sido efetuado um match entre os teams do
Ginásio Aveirense - capitaneado pelo seu fundador Mário Duarte - e do Real Velo
Club do Porto, que integrava alguns elementos que haviam atuado na célebre
partida a Cup D'El Rei, em 1894, entre eles os britânicos McMillan,
Arthur Nugent ou Alberto Kendall. Vitória dos portuenses por 4-0.
Arquivos do Futebol Português (5)
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| Januário Barreto |
Com a descentralização do futebol dos terrenos do Campo Pequeno para outras zonas da cidade de Lisboa o futebol começa nesta altura a ser abraçado pelas classes mais baixas da sociedade. O que até então era um jogo elitista é agora praticado pelo povo. Há por isso notícias da fundação de vários grupos oriundos de bairros lisboetas - como Alcântara, Campo de Ourique, ou Benfica. Porém, as parcas e deficientes infraestruturas existentes para a prática da modalidade acabam por esfriar o entusiasmo, e até final do século o futebol é jogado de forma... intermitente. O futebol era contudo ainda um mero divertimento, uma brincadeira de rapazes, e talvez isso ajude igualmente a justificar o facto de não haver competições oficiais de forma regular, como foi o caso da Cup d'El Rei - jogada em 1984 entre combinados do Porto e de Lisboa - que teve vida efémera. Quem parece que levava o football a sério era a comunidade britânica instalada em terras lusas, sobretudo a de Carcavelos, onde os trabalhadores do Cabo Submarino davam vida a uma das primeiras potências futebolísticas nacionais, o team do Carcavelos Club. Uma equipa poderosa e durante anos imbatível, sendo que em 1895 há alguns registos de resultados avolumados obtidos pelo Carcavelos, destacando-se na imprensa da época as goleadas aplicadas ao Ginásio Club Português - 4-0 e 6-1, e ao Lisbonense, por 7-0, última equipa esta que no andamento do referido ano parece vir a perder algum fulgor futebolístico... Aliás, esta apatia estende-se ao resto da cidade de Lisboa, de forma inexplicável, pois como referimos no início deste capítulo os primeiros anos da década de 90 foram de expansão, com o surgimento de novos grupos, sobretudo de âmbito escolar. Mas o que é certo é que até final do século a modalidade decresce em termos de prática. São poucos ou quase nenhuns os jogos de que a imprensa faz eco nestes últimos anos de século XIX!!! As exceções continuam a ser o Carcavelos Club, os grupos escolares, e alguns ilustres resistentes - como os irmãos Pinto Basto, por exemplo - que não deixam morrer o jogo na sociedade lisboeta, realizando aqui e acolá um ou outro match. O resto do país estava como Lisboa, ou seja, o jogo encontrava-se em banho maria.
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Época 1894/95
segunda-feira, novembro 09, 2015
Arquivos do Futebol Português (4)
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| O team de Lisboa que em 1894 conquistou o primeiro troféu da história do futebol português |
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| A carta de António Nicolau d'Almeida a Guilherme Pinto Basto |
O Campo do Inglês (na zona do Campo Alegre) era propriedade de um dos grupos mais populares da Cidade Invicta daquele tempo, o Oporto Cricket Club, emblema que cedeu alguns dos seus melhores jogadores ao team representativo do Porto, aos quais se juntariam alguns elementos do Football Club do Porto. Quanto ao team de Lisboa esse era capitaneado por Guilherme Pinto Basto, e reza a história que a viagem entre a capital e o Porto terá sido feita durante a madrugada que antecedeu o jogo e cuja duração chegou às 14 horas! Após o desembarque na Estação de Campanhã os lisboetas partiram de imediato para a zona do Campo Alegre onde de Sua Majestade o rei e restante família real... nem sinal! Mesmo sem a presença dos ilustres convidados o pontapé de saída foi dado quando passavam 15 minutos das três da tarde, tendo o encontro sido arbitrado por Eduardo Pinto Basto. Os jornais da época ressalvaram o facto de o terreno de jogo não ser dos melhores para a prática do futebol, referindo que a zona das balizas descaiam bastante, além de que os postes não se encontrariam à distância regulamentada! Quanto à família real essa chegou bastante atrasada ao espetáculo, quando passavam já 15 minutos das quatro da tarde, sendo que a pedido de Sua Majestade a Rainha D. Amélia os 22 players tiveram de fazer um esforço suplementar em prolongar a partida por mais 10 minutos para que os ilustres espectadores pudessem apreciar, devidamente, o espetáculo que terminou com a vitória da equipa mais experiente nestas andanças, isto é, a turma de Lisboa, por 1-0.
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| A bonita Cup d'el Rei, o primeiro troféu futebolístico instituído em Portugal, tendo sido disputado pelos grupos de Lisboa e Porto, em 1894 |
A notícia deste jogo teve eco além fronteiras, tendo os jornais ingleses publicado uma breve nota sobre o acontecimento ocorrido no Campo Alegre. Quanto ao troféu, o capitão e guarda-redes da equipa de Lisboa, Guilherme Pinto Basto, recebeu-o no final do encontro das mãos do rei D. Carlos, monarca que havia mandado executar esta peça banhada em prata na Casa Leitão & Irmão, joalheiros da Casa Real.
Para a eternidade ficam as lines desse histórico embate: Porto - Hugh Ponsonly (c), MacGeock, A. Nugent, Guimarães, Arthur Dagge, MacMillen, Albert Kendall, Adolfo Ramos, MacKenie, Ray e Alfredo Kendall. Lisboa - Guilherme Pinto Basto (c), Keating, Locke, Barley, Artur Raposo, Rankin, Afonso Vilar, Pittuck, Thomson, Palmers e Carlos Vilar.
1893 e 1894 são anos repletos de matchs, não só nas duas principais urbes do país como noutras regiões de um Portugal que começava a abraçar nos seus quatro cantos o jovem football. Os jornais dão conta de desafios em Coimbra, Faro, Portalegre e Madeira, embora continue a ser na capital que a bola rola com mais frequência. O emblema com mais encontros disputados é o Football Club Lisbonense, que a par dos ingleses do Carcavelos Club é tido como o emblema mais forte do império. Há, aliás, em 1893 um duelo curioso entre estes dois clubes, disputado a 2 de fevereiro, no Campo das Salésias, e segundo as crónicas de então o Carcavelos, integrado por jogadores de outros teams lisboetas, como o Braço de Prata e o Club de Lisboa, derrotou por 1-0 o até então invencível Lisbonense, onde pontificavam três jogadores de origem negra - os primeiros negros do futebol português, segundo se sabe - Pascoal, Alfredo Silva e Valentim Machado.
Vídeo: Reportagem do Canal História sobre o primeiro troféu disputado em Portugal
sexta-feira, novembro 06, 2015
Arquivos do Futebol Português (3)
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| Um jogo no Campo da Quinta Nova, em Carcavelos |
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| António Nicolau d' Almeida, fundador do Football Club do Porto |
Em Aveiro há o registo da fundação do Ginásio Aveirense, por intermédio de Mário Duarte.
Com a conclusão da construção da praça de touros do Campo Pequeno, em 1892, o futebol na capital é obrigado a deslocar-se para outras zonas da cidade, como Belém, por exemplo, onde se viria a escrever alguns dos primeiros capítulos dourados do pontapé da bola lusitano. Lisboa que continua por estas alturas rendidas aos encantos do football, com a imprensa local a dar cada vez mais destaque aos jogos efetuados entre o cada vez maior número de emblemas nascidos na capital. Até o próprio rei, D. Carlos I, era uma presença assídua em jogos de futebol. Os clubes lisboetas multiplicavam-se nesta temporada de 1892/93 como cogumelos, destacando-se a fundação do Club Braço de Prata, o Club Tauromáquico, o Estrela Football Club, o Club Lisboa, ou o Football Club Esperança.
Com a nação futebolística a expandir-se foi com naturalidade que foi disputada uma primeiro competição regional entre alguns destes emblemas. Um mini campeonato integrado pelo Braço de Prata, pelo Carcavelos Club, pelo Foot-ball Club Lisbonense e pelo Ginásio Clube. Infelizmente, a classificação desta primeira competição regional é por completo desconhecida.
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1890 - 1899,
Época 1892/93
Arquivos do Futebol Português (2)
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| Futebol jogado nos terrenos do Campo Pequeno |
Esta onda de entusiasmo arrefeceu no início de 1890. O confronto diplomático levado a cabo pelos governos de Portugal e Inglaterra travou, de certa forma, esse entusiasmo pelo belo jogo na nação lusa, já que os portugueses começaram a marginalizar tudo aquilo que fosse oriundo das ilhas britânicas, e como o football era um produto tipicamente inglês... Desta forma, e até 1892, praticamente não existem relatos de jogos de futebol em Portugal, a não ser algumas peladinhas organizadas pelos associados do Ginásio Clube Português que aos domingos davam um colorido diferente aos terrenos do Campo Pequeno, na capital do império.
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1890 - 1899,
Época 1889/90
Arquivos do Futebol Português (1)
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| O grupo de 23 aristocratas que em outubro de 1888 deu o pontapé de saída na história do futebol em Portugal |
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| Guilherme Pinto Basto |
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| O grupo português que em 1889 defrontou os ingleses do Cabo Submarino de Carcavelos |
A este encontro entre os fidalgos portugueses e os operários ingleses ocorre um vasto número de personagens possuídas por ávida curiosidade em presenciar o ato bárbaro de pontapear uma bola protagonizado por 22 homens. Eternizados ficaram pois os seus nomes, sendo que pelos portugueses se apresentaram em campo: Guilherme Pinto Basto (sabe-se na qualidade de guarda redes), João Saldanha Pinto Basto, João Bregaro, Eduardo Romero, Eduardo Pinto Basto, Afonso Vilar, D. Simão de Sousa Coutinho (Borba), Duarte Pinto Basto, Frederico Pinto Basto, Fernando Pinto Basto, Augusto Moller e Henrique Vilar. 12 nomes do lado lusitano, presumindo-se que um deles tivesse sido suplente. Pela armada britânica entraram em campo: J. Frazer, J. Mason, C. Anderson. Wray. R. W. Watson, Rawstron, Govan, Briggs, F. Palmer, C. Cox e um outro jogador não identificado.
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| A equipa inglesa composta por operários do Cabo Submarino que em 1889 jogou nos terrenos do atual Campo Pequeno |
Desse histórico momento daquela tarde ventosa há no entanto uma relíquia ainda hoje guardada. Uma deliciosa e – muito – peculiar crónica publicada no “Jornal do Comércio” de 23 de janeiro de 1889. De autor desconhecido este é tido como o primeiro texto escrito em Portugal retratando os acontecimentos de um match de football, o qual foi ilustrado por uma não menos peculiar ilustração que também aqui hoje recordamos. Sem mais demoras aqui fica o “retrato escrito” daquele momento cujo título é senão mais do que uma curiosa combinação de palavras das emoções ali vividas:
«O “Match” no Campo Pequeno – A mulher peluda no Jardim Zoológico
Uma quantidade enorme de pessoas foi hoje ao Campo Pequeno assistir ao desafio, entre ingleses e portugueses, de futebol. Grande número de carruagens com elegantes senhoras, entre as quais se destacavam mademoiselle Ida Blanc, governando galhardamente, ao lado de sua mãe, uma soberba parelha de cavalos pretos. O resultado do jogo foi muito lisongeiro para os nossos compatriotas que conseguiram ganhar. Não faltaram os trambolhões e os rebolões do próprio jogo, mostrando todos os fortes mancebos, que nele tomaram parte, quão exímios são no “manejo” do pontapé, como disse uma elegante que, por casualidade, ficou ao pé de nós. Quase toda a gente, findo o futebol, foi passear ao Jardim Zoológico, onde se exibia a persa Mirra, a mulher peluda».
Uma crónica pituresca de um acontecimento que nas décadas seguintes do novo século que se aproximava haveria de se tornar num ritual comum das tardes domingueiras para as gentes da brava nação lusitana.
terça-feira, novembro 03, 2015
Lista de Campeões... Ucrânia
Campeões Nacionais
2014/15: Dinamo Kiev
2013/14: Shakhtar Donetsk
2012/13: Shakhtar Donetsk
2011/12: Shakhtar Donetsk
2010/11: Shakhtar Donetsk
2009/10: Shakhtar Donetsk
2008/09: Dinamo Kiev
2007/08: Shakhtar Donetsk
2006/07: Dinamo Kiev
2005/06: Shakhtar Donetsk
2004/05: Shakhtar Donetsk
2003/04: Dinamo Kiev
2002/03: Dinamo Kiev
2001/02: Shakhtar Donetsk
2000/01: Dinamo Kiev
1999/00: Dinamo Kiev
1998/99: Dinamo Kiev
1997/98: Dinamo Kiev
1996/97: Dinamo Kiev
1995/96: Dinamo Kiev
1994/95: Dinamo Kiev
1993/94: Dinamo Kiev
1992/93: Dinamo Kiev
1992: Tavriya Simferopol
quinta-feira, outubro 22, 2015
Histórias do Futebol em Portugal (15)... A epopeia do primeiro título internacional de Portugal
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| O cartaz do Europeu de juniores de 61 |
O
nascimento da Primavera de 1961 trouxe consigo a primeira grande
conquista do futebol português no plano internacional: o título de
campeão europeu de juniores. Um êxito consumado em território
luso, que entre 28 de março e 9 de abril desse longínquo ano foi
palco da 14ª edição do Torneio Internacional de Juniores da UEFA,
a prova que antecedeu ao atual Campeonato da Europa de Sub-21. Treze
seleções marcaram presença num certame que foi desenrolado nas
cidades de Braga, Porto, Coimbra, Leiria, Évora e Lisboa. Entre
esses 13 combinados nacionais encontrava-se o talentoso grupo
português, formado por excelentes executantes, sendo que grande
parte deles havia sido responsável pelo brilhante 3º lugar
conquistado um ano antes no Europeu da categoria realizado na
Áustria. Selecionado lusitano que em 1961 foi arquitetado por uma
talentosa dupla de profundos conhecedores do desporto rei que então
davam os primeiros passos nas suas notáveis carreiras. Um deles dava pelo
nome de David Sequerra, jovem jornalista do Mundo Desportivo que com
apenas 26 anos assumia as funções de selecionador nacional,
enquanto que o outro era nem mais nem menos do que José Maria
Pedroto, figura que após encerrar uma estupenda carreira de
futebolista iniciava um não menos estupendo - e inigualável -
percurso como mestre da tática - vulgo treinador. Dois homens que
abriram então o caminho da glória do futebol lusitano no plano
internacional, sobretudo ao nível dos escalões de formação, onde
Portugal criou uma imagem vencedora nas décadas que se seguiram. Mas
em 1961 seria porventura impensável ver a nação ibérica subir ao
lugar mais alto do pódio fosse em que competição fosse. De tal
modo que um misto de surpresa e alegria pairou sobre o Estádio da
Luz a 8 de abril desse ano, dia em que os putos portugueses esmagaram
a Polónia por 4-0 e sagraram-se campeões da Europa. Um sonho real
que teve início cerca de duas semanas antes, quando no Porto, no
Estádio das Antas, a seleção lusa alcançou um difícil empate a
zero bolas diante de uma das grandes favoritas a vencer a competição,
a Itália, em jogo a contar para o Grupo A. Em 2 de abril Portugal
jogava o tudo ou nada no Estádio de Alvalade ante a Inglaterra.
Sabendo da importância de uma vitória para seguir em frente os
jovens portugueses colocaram em campo todo o seu talento, e munidos
ainda de um forte espírito de união cilindraram a armada britânica
por 4-0, com golos de António Simões, Mário Nunes e Serafim, este
último com dois tentos na conta pessoal. Face a este pesado score de
nada valeu a sofrida vitória dos italianos dois dias depois, em
Braga, ante os ingleses, por 3-2, já que face à diferença entre
golos marcados e sofridos os lusos ficaram com o primeiro lugar do
grupo e o consequente passaporte para as meias-finais.
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| A Colónia Balnear Infantil "O Século", nos inícios da década de 60 |
No
início dos anos 60 Portugal ainda era um país com muitas carências: ao nível de infraestruturas, vias de comunicação, ou
transportes, por exemplo. Não foi pois de admirar que o torneio se tivesse
desenrolado sob diversos constrangimentos, sobretudo ao nível de
alojamento das 13 equipas e do transporte das mesmas. Com parcos
recursos financeiros para suportar as despesas inerentes ao torneio a
Federação Portuguesa de Futebol (FPF) optou por alojar as seleções
participantes na Colónia Balnear Infantil "O Século", em
São João do Estoril. Um alojamento modesto, sem grandes condições,
onde os jogadores dormiam com os pés de fora, visto que as camas ali
existentes eram destinadas a crianças! Descontente com esta situação
a seleção italiana logo tratou de custear um hotel melhor para os
seus atletas, escolhendo uma das melhores unidades hoteleiras da
costa do Estoril. A juntar a estas condições o facto de as seleções
viajarem de cidade em cidade em velhos comboios poeirentos... Era
assim o Portugal de então. Apesar de todas estas barreiras
estruturais a seleção nacional continuava o seu trajeto imaculado
na prova, sendo que nas meias-finais defrontou a vizinha Espanha no
Estádio José de Alvalade. Partida onde Serafim, avançado
corpulento que pertencia aos quadros do FC Porto, voltou a ser o
abono de família, apontando três dos quatro golos - o outro foi do
capitão Crispim - com que a seleção afastou os espanhóis e
garantiu assim a presença na final.
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| David Sequerra e Pedroto, a dupla que arquitetou o título europeu de juniores em 1961 |
A
campanha dos jovens lusos despertou grande euforia numa nação
carente de vitórias desportivas. Diga-se em nota de rodapé que em
termos de historial Portugal somava quatro vitórias, outros tantos
empates, e igual número de derrotas nos 12 jogos que desde 1954 -
ano em que este torneio da UEFA conheceu a sua primeira edição -
havia disputado no Torneio Internacional de Juniores. Foi pois com
profundo entusiasmo e atenção que os portugueses encararam a grande
final de 8 de abril, no Estádio da Luz, protagonizada pelas seleções
de Portugal e da Polónia. Sob arbitragem do espanhol José Ortiz de
Mendibil os pupilos de José Maria Pedroto deram mais um recital de futebol,
chegando à vantagem logo ao minuto 9 pelo inevitável Serafim. Este
atleta haveria de ser a figura do dia, já que em mais três ocasiões
- aos minutos 27, 49 e 78 - faria o gosto ao pé, consumando assim o
primeiro grande título internacional do futebol português. Pelos
seus 9 golos - que o consagraram o melhor marcador do torneio -
Serafim foi naturalmente um dos rostos que viria a ganhar
notoriedade no palco principal do futebol, isto é, no patamar
sénior. Avançado possante e atlético ele tornar-se-ia nos anos
seguintes titular indiscutível do FC Porto, formando uma veloz ala
esquerda com Nóbrega. Em 1963 transferiu-se para o Benfica, naquela
que foi a transferência mais cara até então do futebol português.
Na Luz não deu seguimento ao seu potencial, visto que na equipa
titular dos lisboetas figuravam nomes como Eusébio, José Torres, ou
Simões.Ao serviço do Benfica só efetuou cinco jogos a contar para
as competições europeias, todos eles referentes à Taça dos
Campeões Europeus. A partir da época de 1966 / 67 passou a
representar a Associação Académica de Coimbra.
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| António Simões |
Outro dos nomes que viria a fazer furor nos anos seguintes foi o de António Simões, veloz e hábil extremo do Benfica, clube onde viria a atingir a glória juntamente com Eusébio, Mário Coluna, José Torres, ou José Augusto, nomes que fizeram do clube da Luz um dos gigantes do futebol continental da década de 60. Fernando Peres, Oliveira Duarte, ou o guarda-redes Rui Teixeira, foram outros dos jovens campeões da Europa de 61 que vingaram no patamar sénior, edificando carreiras notáveis quer ao serviço dos seus respetivos clubes quer na principal seleção nacional. Neste último combinado o jogador daquela equipa de 1961 que mais se distinguiu foi talvez António Simões, que de quinas ao peito foi um dos protagonistas da epopeia portuguesa vivida no Campeonato do Mundo de 1966, realizado em Inglaterra, onde Portugal conquistou, como se sabe, um inesquecível 3º lugar. Terá pois algum cabimento dizer que a vitória da seleção de juniores em 61 abriu o caminho das vitórias internacionais do futebol português, o qual na década de 60 viu o Benfica sagra-se bi-campeão da Europa de clubes, o Sporting vencer a Taça dos Vencedores das Taças, e a já citada e formidável campanha de Portugal no Inglaterra 66.
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| Serafim, o goleador do torneio |
Onda vitoriosa internacional que teve continuidade nas décadas seguintes, com as seleções jovens de Portugal a triunfarem em diversas competições organizadas pela UEFA e pela FIFA - destacando-se aqui os títulos de campeões mundiais de sub-20 em 1989 e 1991.
É pois justo dizer-se que tudo começou na Primavera de 61, graças à brilhante vitória alcançada por Rui Teixeira (FC Porto), João Melo (Benfica), Armelim Viegas (Académica), Amândio Gonçalves (Benfica), Santos Nogueira (Benfica), Valdemar Pacheco (FC Porto), Tito (Leões de Santarém), Faria (FC Porto), Calhau (Sanjoanense), Manuel Carriço (Vitória de Setúbal), Manuel Moreira (Leixões), Manuel Rodrigues (Belenenses), Oliveira Duarte (Sporting), José Crispim (Académica), Rebelo (Académica), Mário Nunes (Académica), Jorge Lopes (Benfica), José António (Barreirense), Serafim Pereira (FC Porto), Fernando Peres (Belenenses), Luís Mira (Barreirense) e António Simões (Benfica), os 22 atletas que sob o comando da jovem dupla David Sequerra e José Mania Pedroto venceram este Torneio Internacional de Juniores da UEFA.
Os arquitetos do êxito: David Sequerra e Pedroto
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| David Sequerra em 1961 |
Naturalmente que o talento dos 22 futebolistas selecionados para este Europeu de juniores foi fator fundamental para que a seleção alcançasse o título, mas a responsabilidade da descoberta e exploração desse talento deve ser repartida por dois homens: David Sequerra e José Maria Pedroto. O primeiro era, como já referimos, um jovem jornalista, especializado no futebol jovem. Este brilhante homem das letras - que integra a seleção de grandes mestres do jornalismo desportivo nacional (de todos os tempos), ao lado de Cândido de Oliveira, Homero Serpa, Cruz dos Santos, Aurélio Márcio, Neves de Sousa, ou Tavares da Silva - iniciou o seu percurso aos 20 anos, no Mundo Desportivo, jornal de referência da época onde dedicou especial atenção ao futebol de formação, criando para isso uma coluna no citado jornal intitulada "Acompanhando os Jovens". Os seus vastos conhecimentos no futebol de formação valeram-lhe então o convite da FPF para o cargo de selecionador nacional das equipas mais jovens de Portugal. E para o treino de campo David Sequerra escolheu em 1961 outro jovem, um homem que havia dado por encerrada uma notável carreira de futebolista - ao serviço de clubes como o Leixões, Lusitano de Vila Real de Santo António, Belenenses e FC Porto - precisamente um ano antes, de seu nome José Maria Pedroto.
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| O mestre Pedroto |
Natural de Lamego, onde nasceu a 21 de outubro de 1928, Pedroto abraçava na seleção de juniores a sua primeira experiência como treinador principal. E desde logo vincou a sua veia de mestre, de revolucionário - no bom sentido -, de exímio líder que aliava profundos conhecimentos futebolísticos a um poder notável de motivação. Estes foram alguns dos condimentos que fizeram de Pedroto um mestre da tática, um dos melhores de todos os tempos do futebol português. Um vencedor, acima de tudo. Depois das seleções jovens o Zé do Boné - como ficou eternizado graças à peculiar indumentária habitual que usava no seu dia-a-dia - colocou a sua inteligência e visão avançada no tempo ao serviço de emblemas como a Académica, o Leixões, o Varzim, o Vitória de Setúbal, e o Boavista - sendo que nestes dois clubes alcançou êxitos nunca dantes vividos por estes emblemas. Mas seria ao serviço do clube do seu coração, o FC Porto, que atingiu o topo da montanha da glória. Para os portistas Pedroto significou a viragem. Pedroto fez do FC Porto um clube vencedor, criou uma mística que perdura até hoje na Invicta, um mística de conquistas, uma mística de glória. Pedroto abriu o caminho dos títulos ao clube azul e branco, um caminho que idealizado juntamente com o seu grande amigo Jorge Nuno Pinto da Costa, o homem que há mais de três décadas se mantém no comando do clube. É justo dizer-se que Pedroto foi um dos arquitetos do FC Porto dos dias de hoje, um clube de dimensão mundial.
Números do Torneio Internacional de Juniores da UEFA de 1961
| O capitão Crispim recebe a taça de campeão da Europa de 1961 |
Grupo
A
Porto (Estádio das Antas): Portugal-Itália
0-0
Lisboa (Estádio de Alvalade): Portugal-Inglaterra 4-0
Braga (Estádio 28 de Maio): Itália-Inglaterra 3-2
Lisboa (Estádio de Alvalade): Portugal-Inglaterra 4-0
Braga (Estádio 28 de Maio): Itália-Inglaterra 3-2
Classificação:
1. Portugal – 3 pontos
2. Itália – 3 pontos
3. Inglaterra – 0 pontos
Grupo B
Lisboa (Estádio do Restelo): Turquia-Áustria 6-3
Lisboa (Estádio do Restelo): Turquia-Espanha 2-2
Coimbra (Estádio Municipal): Espanha-Áustria 6-1
1. Portugal – 3 pontos
2. Itália – 3 pontos
3. Inglaterra – 0 pontos
Grupo B
Lisboa (Estádio do Restelo): Turquia-Áustria 6-3
Lisboa (Estádio do Restelo): Turquia-Espanha 2-2
Coimbra (Estádio Municipal): Espanha-Áustria 6-1
Classificação:
1. Espanha – 3 pontos
2. Turquia – 3 pontos
3. Áustria – 0 pontos
Grupo C
Leiria (Estádio Municipal): Alemanha-Bélgica 4-0
Braga (Estádio 28 de Maio): Roménia-Holanda 3-1
Lisboa (Estádio do Restelo): Bélgica-Holanda 1-1
Lisboa (Estádio de Alvalade): Alemanha-Roménia 0-0
Lisboa (Estádio da Luz): Alemanha-Holanda 3-0
Coimbra (Estádio Municipal): Roménia-Bélgica 1-0
Classificação:
1. Espanha – 3 pontos
2. Turquia – 3 pontos
3. Áustria – 0 pontos
| Fase do Bélgica-Holanda jogado no Restelo |
Leiria (Estádio Municipal): Alemanha-Bélgica 4-0
Braga (Estádio 28 de Maio): Roménia-Holanda 3-1
Lisboa (Estádio do Restelo): Bélgica-Holanda 1-1
Lisboa (Estádio de Alvalade): Alemanha-Roménia 0-0
Lisboa (Estádio da Luz): Alemanha-Holanda 3-0
Coimbra (Estádio Municipal): Roménia-Bélgica 1-0
Classificação:
1. Alemanha Ocidental – 5 pontos
2. Roménia – 5 pontos
3. Holanda – 1 ponto
4. Bélgica – 1 ponto
Grupo D
Leiria (Estádio Municipal): Polónia-França 4-1
Évora (Campo da Estrela): França-Grécia 3-2
Lisboa (Estádio da Luz): Polónia-Grécia 2-2
Classificação:
2. Roménia – 5 pontos
3. Holanda – 1 ponto
4. Bélgica – 1 ponto
Grupo D
Leiria (Estádio Municipal): Polónia-França 4-1
Évora (Campo da Estrela): França-Grécia 3-2
Lisboa (Estádio da Luz): Polónia-Grécia 2-2
Classificação:
1. Polónia – 3 pontos
2. França – 2 pontos
3. Grécia – 1 ponto
Meias-finais
Lisboa (Estádio de Alvalade): Portugal-Espanha 4-1
Porto (Estádio das Antas): Polónia-Alemanha 2-1
3º/4º lugar
Lisboa (Estádio Nacional): Alemanha-Espanha 2-1
Final
Lisboa (Estádio da Luz): Portugal - Polónia 4-0
2. França – 2 pontos
3. Grécia – 1 ponto
Meias-finais
Lisboa (Estádio de Alvalade): Portugal-Espanha 4-1
Porto (Estádio das Antas): Polónia-Alemanha 2-1
3º/4º lugar
Lisboa (Estádio Nacional): Alemanha-Espanha 2-1
| Um lance da grande final jogada no Estádio da Luz |
Lisboa (Estádio da Luz): Portugal - Polónia 4-0
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| A seleção nacional de juniores que em 1961 venceu o título europeu da categoria |
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