sexta-feira, março 18, 2011

Lista de Campeões... Campeonatos do Mundo de Futebol de Praia


O primeiro Campeonato do Mundo de futebol de praia ocorreu em 1995, no Brasil, a grande potência desta emocionante e espetacular variante do belo jogo. Até 2004 o certame foi organizado pela Beach Soccer World Wide, tendo como palco - na maioria das vezes - as escaldantes areias de Copacabana (Rio de Janeiro), onde a modalidade tem o seu berço. Entre 1995 e 2004 foram realizadas 10 edições do evento, tendo o Brasil conquistado o título por nove ocasiões, sendo a exceção o ano de 2001, altura em que Portugal subiu ao lugar mais alto do pódio. A partir de 2005 a FIFA chama a si a responsabilidade de organizar o torneio, validando, digamos assim, apenas os títulos conquistados de lá para cá, pese embora os brasileiros contabilizem as conquistas anteriores a 2005. 

RIO DE JANEIRO (BRASIL) 2005 - VENCEDOR: FRANÇARIO DE JANEIRO (BRASIL) 2006 - VENCEDOR: BRASILRIO DE JANEIRO (BRASIL) 2007 - VENCEDOR: BRASILMARSELHA (FRANÇA) 2008 - VENCEDOR: BRASILDUBAI (E.A.U.) 2009 - VENCEDOR: BRASILRAVENNA (ITÁLIA) 2011 - VENCEDOR: RÚSSIA
PAPEETE (TAHITI) 2013 - VENCEDOR: RÚSSIA
ESPINHO (PORTUGAL) 2015 - VENCEDOR: PORTUGAL
NASSAU (BAHAMAS) 2017 - VENCEDOR: BRASIL

Lista de Campeões... Copa Sul-Americana

Está para o continente americano como a Liga Europa está para o "Velho Continente". Visitamos hoje as memórias fotográficas daquela que é a segunda maior competição de clubes da América do Sul (atrás da Copa Libertadores), em termos mais precisos a Copa Sul-Americana (CS), ou no seu baptismo original... Copa Sudamericana. Criada pela Confederação Sul-Americana de Futebol (CONMEBOL) em 2002 a CS veio substituir as taças Mercosul e Merconorte numa tentativa de substituir a frustrada Copa Pan-Americana (entre equipas das américas do sul e do norte). O seu primeiro vencedor foi o San Lorenzo, da Argentina, país este que detém até à data o maior número de títulos nesta jovem competição que é disputada presentemente por equipas da CONMEBOL, embora nas primeiras edições tenha sido alargada às equipas da CONCACAF (América do Norte). O vencedor da CS disputa no ano seguinte com o vencedor da Copa Libertadores a Recopa Sul-Americana, uma espécie de Supertaça Europeia. Seguidamente deixamos com os visitantes as memórias fotográficas dos vencedores da CS.

2002: SAN LORENZO (ARGENTINA)2003: CIENCIANO (PERÚ)2004: BOCA JUNIORS (ARGENTINA)2005: BOCA JUNIORS (ARGENTINA)2006: PACHUCA (MÉXICO)2007: ARSENAL DE SARANDÍ (ARGENTINA)2008: INTERNACIONAL (BRASIL)2009: LIGA DE QUITO (EQUADOR)2010: INDEPENDIENTE (ARGENTINA)2011: UNIVERSIDAD DE CHILE (CHILE)
2012: SÃO PAULO (BRASIL)
2013: LANÚS (ARGENTINA)
2014: RIVER PLATE (ARGENTINA)
2015: SANTA FE (COLÔMBIA)
2016: CHAPECOENSE (BRASIL)*
2017: INDEPENDIENTE (ARGENTINA)

*NOTA: Em 2016 a CONMEBOL decidiu atribuir o título à Chapecoense. A final da competição (entre a turma brasileira e o Atlético Nacional) não se realizou devido à queda do avião que transportava a Chapecoense rumo à Colômbia onde iria disputar o encontro da primeira mão da decisão. O desastre tirou a vida a 71 passageiros, entre estes jogadores, treinadores e dirigentes da equipa brasileira. Num bonito gesto de fair-play o Atlético Nacional propôs à CONMEBOL que o título fosse entregue à Chapecoense. Assim foi.

quinta-feira, março 10, 2011

Lista de Campeões... Taça Latina

É a par da Taça Mitropa uma das progenitoras da Taça/Liga dos Campeões Europeus (TCE). Teve vida curta, é certo, mas a sua disputa despertou confrontos épicos entre algumas das maiores equipas do futebol da Europa latina. Viajamos no tempo para fazer uma visita à vitrina dos grandes vencedores da Taça Latina (bonito troféu exibido na imagem de cima), uma competição realizada entre 1949 e 1957 por equipas oriundas de Portugal, Espanha, França, e Itália. Durante o período em que viveu esta competição foi considerada a maior e melhor da Europa. Depois veio a TCE e tomou-lhe as rédeas do estrelato. A desaparecida competição que hoje recordamos era disputada num sistema de mini-torneio, um pouco à semelhança das primeiras edições do Campeonato da Europa de selecções, ou seja, por quatro equipas. Estas disputavam meias-finais, jogo de atribuição para os 3º e 4º lugares, e pois claro a grande final. À semelhança do que hoje acontece com as finais das competições europeias cada edição da Taça Latina era disputada numa única cidade. Em termos de títulos a Espanha é o país que mais vezes viu os seus emblemas trazer para o seu território este troféu, quatro na totalidade, repartidos pelos grandes rivais Barcelona (2) e Real Madrid (2). Estes dois clubes juntam-se ao Milan como os mais laureados na competição. Portugal por uma vez viu um clube seu erguer bem alto a Taça Latina, um facto ocorrido em 1950, altura em que o Benfica venceu no Estádio Nacional (em Lisboa) o Bordéus e assim conquistava o seu grande primeiro título internacional. Seguidamente os imortais campeões da saudosa competição:

1949: BARCELONA (ESPANHA)
1950: BENFICA (PORTUGAL)
1951: MILAN (ITÁLIA)
1952: BARCELONA (ESPANHA)
1953: STADE REIMS (FRANÇA)

1954: NÃO SE REALIZOU
1955: REAL MADRID (ESPANHA)
1956: MILAN (ITÁLIA)
1957: REAL MADRID (ESPANHA)

segunda-feira, março 07, 2011

Estrelas cintilantes (25)... Francisco dos Santos

Os futebolistas e treinadores portugueses são hoje em dia um “produto” cada vez mais desejado no panorama futebolístico internacional. Elevados à condição de estrelas em campeonatos mediáticos como Espanha, Inglaterra, França, Rússia ou Alemanha, ou descritos como “operários” incansáveis e fundamentais na manobra de equipas de ligas menos populares – além fronteiras – como Suíça, Escócia, Hungria, Roménia, Bulgária, Malta, Chipre, ou até mesmo na longínqua Austrália, a estrela dos portugueses brilha cada vez com mais intensidade no planeta da bola.
O fascínio pelo jogador, ou treinador, português por parte do estrangeiro não é de agora, vem de longe, muito longe, do início do século XX para ser mais preciso, altura em que o primeiro lusitano se aventurou com uma bola nos pés num rectângulo de jogo internacional. O ilustre “aventureiro” dava pelo nome de Franscico dos Santos, e diz quem o conheceu que foi um dos mais notáveis artistas portugueses tanto dentro como fora dos campos de futebol. Mas já lá vamos explicar esta dualidade de atributos, por assim dizer.
Francisco dos Santos nasceu em 1878, em Paiões, no Concelho de Sintra, e desde cedo revelaria dotes de grande pintor, escultor e... jogador de futebol. Iniciou o seu percurso académico na Casa Pia onde teve o primeiro contacto com uma novidade – em terras lusitanas – chamada “football” introduzida em Portugal em finais do século XIX. Modalidade que no fundo não era mais do que um passatempo para o jovem Francisco que aos 15 anos se havia matriculado na Escola de Belas Artes de onde sairia com alta distinção aos 20 anos de idade.
Era por esta altura era já um talento puro no que tocava à pintura e à escultura, não sendo por isso de admirar que em 1903 se “transferiu” para a Escola de Belas Artes... de Paris, umas das mais prestigiadas escolas artísticas do Mundo.
Na capital francesa frequentou o atelier do famoso escultor Charles Verlet. Contudo, a sobrevivência para um jovem estudante de artes em plena Cidade de Paris era tudo menos fácil, e Francisco dos Santos começaria a sentir enormes dificuldades financeiras para prosseguir os seus estudos. Nem mesmo o seu casamento com uma senhora francesa – por conveniência ou não, não se sabe – atenuaria essas mesmas dificuldades. Entretanto em 1906 obteve uma nova bolsa de estudos, desta feita para Roma, onde não só iria aprofundar os seus conhecimentos artísticos como também fazer história no futebol português e italiano.
E assim o futebol voltaria a surgir no horizonte de Francisco por uma questão de necessidade já que as dificuldades financeiras sentidas em Paris iriam repetir-se na capital transalpina. Em Roma os estudos eram pagos graças às aulas de francês que leccionava e ao futebol. Neste último emprego, por assim dizer, Francisco dos Santos jogou entre 1906 e 1908 pela Lázio de Roma, tornando-se desta forma no primeiro jogador português a actuar no estrangeiro. E não foi um jogador qualquer, foi na verdade um dos primeiros ídolos do popular emblema romano, tendo mesmo tido a honra de ter sido eleito capitão de equipa nos anos em que defendeu as cores “biancocelestis”.
Nas poucas crónicas que descrevem aquela época Francisco dos Santos foi um centro-campista brilhante, o primeiro jogador estrangeiro quer da Lázio quer do próprio futebol italiano! De aspecto franzino, com apenas 1,60m de altura e um peso de 55 kg, ele carregou a Lázio ao colo em diversos torneios importantes numa época em que nem o campeonato nem a taça de Itália haviam sido criados. Lendários ficaram dois jogos, um em Pisa onde actuou com duas costelas partidas e outro ante a Roma naquele que foi o primeiro derby entre os dois velhos inimgos da capital e em que o jogador português foi eleito como um dos melhores em campo.
Regressou a Portugal em 1909 ainda a tempo de jogar pelo Spor Lisboa e pelo Sporting Clube de Portugal, embora sem o sucesso granjeado em Roma.Ainda no universo futebolístico o seu nome fica ligado à fundação da Associação de Futebol de Lisboa. Contudo o “desporto rei” sempre esteve digamos que num segundo plano na lista de paixões de Francisco dos Santos, pois o seu grande amor foi sempre a arte. E foi o seu talento para a arte que com o passar dos anos lhe daria a merecida fama e reconhecimento de um país. Entre muitas obras da sua autoria destaca-se a do busto da República e a estatua do Marquês do Pombal. Francisco dos Santos morreria em 1930, com 52 anos.

Legendas das fotografias:
1- Francisco dos Santos
2- Um "onze" da Lázio nos tempos do escultor, pintor... e futebolista

quinta-feira, março 03, 2011

ENTREVISTA - André Portulez vive nova aventura na Hungria

A REVISTA FUTEBOLISTA fez-se de novo à estrada para seguir as pisadas de mais um jovem português nos caminhos do futebol além fronteiras. Hoje “viajamos” até à Hungria para falar com André Portulez, um médio de 24 anos que desde Janeiro último representa o Kaposvar Rákoczi, emblema da principal liga magiar.
Com passagens pelos escalões de formação de clubes como a Naval 1º de Maio, Boavista e Académica de Coimbra, Portulez está assim de regresso a um país onde viveu a sua primeira experiência internacional, sendo que esta nova aventura, por assim dizer, se apresenta como um desafio de maior dimensão. E André diz-se preparado para fazer história...


Revista Futebolista (RF): Regressou nesta reabertura de mercado à Hungria, um país que conhece bem na qualidade de futebolista. Que razões estiveram na origem deste regresso, e já agora quais as expectativas para esta nova aventura?
André Portulez (AP): As razões que me levaram a regressar não tiveram absolutamente nada a ver com o facto de já ter aqui jogado em 2007. Trata-se somente de uma oferta que me foi feita e que mediante a situação actual em que me encontrava pareceu-me ser adequado vir para aqui. Foi da Hungria como poderia ter sido de outro país, mas um factor que pesou muito foi o facto de o clube estar neste momento a lutar por um lugar que dê acesso às comeptições europeias na próxima época. O Rákoczi é um clube que normalmente faz um campeonato tranquilo, mas esta temporada tem possibilidade de fazer história, logo, quero ficar ligado a este feito; penso assim já ter abordado a questão das minhas expectativas para esta metade da época que ainda falta cumprir.

RF: O que conhece deste seu novo clube?
AP: Hoje em dia com a internet é possível ter acesso a muita informação, por isso informei-me bem antes de vir, não foi um tiro no escuro. No entanto já aqui no terreno constatei que estou num clube de gente simpática e com potencial para nos próximos anos fazer o que já está a fazer actualmente, ou seja, lutar por objectivos mais ambiciosos do que aqueles a que se propunha até aqui.

RF: Como já foi referido esta não é a sua primeira incursão no futebol húngaro. Em 2006/07 representou o Integral DAC, na altura na 2ª divisão. Fale-nos um pouco dessa experiência anterior?
AP: As circunstâncias em que me encontrei na Hungria em 2006/07 foram complemente diferentes das de hoje. Na altura vim ao abrigo do programa ERASMUS e conciliei os estudos com o futebol. Hoje não! Encontro-me num clube totalmente profissional e como tal com uma organização diferente da de há 4 anos. As responsabilidades são obviamente maiores também. Noto também uma certa evolução do futebol neste país, até ao nível económico, sendo já capaz de atrair jogadores estrangeiros de campeonatos com um nível superior a este. A participação do Debrecen na fase de grupos da Champions da época passada é um sinal dessa evolução, assim como a emigração de muitos jogadores magiares para campeonatos como o espanhol, o alemão e o italiano, entre outros. A matéria prima existe e estão a ser criadas infra-estruturas que permitem projectar um futuro mais risonho para o futuro futebolístico do país, desde que sejam devidamente potenciadas. A mentalidade que ainda existe é que pode não se coadunar com esse possível desenvolvimento, mas é preciso esperar para ver...

RF: No início da actual temporada conheceu uma nova realidade futebolística a nível internacional: Malta. No entanto poucas vezes actuou pelo Sliema, acabando por regressar à Hungria. O que correu mal em Malta?
AP: Em Malta assinei um contrato de risco, cujo términus estava directamente relacionado com a nossa qualificação ou não para a fase de grupos da Liga Europa. Disputámos a EuroCup, que é uma competição interna entre as 3 equipas maltesas que se qualificam para as competições europeias, competição esta que vencemos sem espinhas. Depois de um bom resultado no jogo da primeira mão (da Liga Europa) na Croácia contra o Sibenik acabámos por ser eliminados em casa e acabou a aventura, estando a equipa a fazer uma época decepcionante desde aí... No entanto guardo as melhores recordações da ilha, não só por me ter proporcionado a minha estreia europeia, mas também pelo estilo de vida que impera, assim como a fantástica amabilidade do povo maltês. É uma porta que ficou bem aberta para mim e um país onde gostaria de voltar a jogar.

RF: Em Portugal – na qualidade de sénior – passou maioritariamente por clubes da 3ª Divisão Nacional, mais concretamente pelo Marialvas, Tocha, Valonguense e Odivelas. Contudo teve uma passagem pela Académica (no escalão de júniores), onde fez jus à tradição de jogador/estudante. Que recordações guarda da estadia em Coimbra?
AP: As melhores recordações! Acho que é um período muito bonito na vida de todos aqueles que têm o privilégio de poderem frequentar o ensino superior. Para tornar essa fase mais especial fui júnior na Académica e obviamente que quem passa por aquela Instituição nunca lhe poderá ficar indiferente. Foi uma etapa que já passou e que fica guardada no álbum dos momentos positivos da minha vida.

RF: A conjugação entre futebol e estudos nem sempre é perfeita, mas no seu caso acabou por sê-lo já que conseguiu terminar a licenciatura (em Educação Física). Quer falar um pouco da experiência enquanto jogador/estudante?
AP: Este aspecto sempre foi muito importante, do meu ponto de vista. E hoje em dia com o cenário de crise que se nos depara há que atentar num aspecto: tem de ser combatida nos jovens a ideia de que não vale a pena estudar porque mesmo estudando não vão conseguir encontrar um emprego. Esta perspectiva da situação está completamente errada! A formação académica continua a ser muito importante senão corremos o risco de daqui a uns anos termos um país que não evoluí porque não há evolução/descoberta se não tivermos o princípio de estudarmos/investigarmos a fundo. O príncipio do facilitismo nunca me acompanhou... eu também poderia não ter estudado e ter passado mais horas no shopping com os meus amigos, mas achei que o meu tempo livre era ocupado com o horário dos treinos, porque para mim treinar sempre foi um prazer, logo, consegui conciliar futebol e escola. Quero com isto dizer que não foi nada de dramático esta conciliação, acima de tudo penso que depende da força de vontade de cada um...

RF: Está de regresso a um país onde foi feliz num passado não muito distante, mas... o que tem faltado para ser feliz no seu próprio país, em termos futebolísticos, claro está?
AP: Se soubesse a resposta a esta pergunta certamente ja teria corrigido algum erro que estivesse a travar a minha evolução em termos de carreira em Portugal. O que referiu na pergunta é obviamente um facto que não consigo refutar, no entanto continuo a ter como um dos meus objectivos jogar ao mais alto nível em Portugal. Não vou estar a referir que sejam problemas relacionados com as políticas erradas ao nível da tomada de decisão dos clubes na hora de contratarem, ou eventuais jogadas de bastidores, porque contra isso nada posso fazer. O que posso fazer é dar sempre o melhor de mim e ficar sempre de consciência tranquila na medida em que dei o máximo tendo em vista a obtenção dos meus objectivos pessoais.

Nota: Esta entrevista foi realizada pelo autor do Museu Virtual do Futebol (Miguel Barros) para a Revista Futebolista, tendo sido publicada no dia 3 de Março de 2011

sexta-feira, fevereiro 18, 2011

Estrelas cintilantes (24)... Correia Dias

Tempos houve em que o amor à camisola falava mais alto do que qualquer ordenado ou prémio de jogo chorudo. Nenhum dinheiro do Mundo pagava a honra e o prazer de jogar com o emblema do coração ao peito. Era o tempo do futebol romântico, puro, e sem os tiques de vedetismo e exploração que o belo jogo hoje em dia ostenta.
A nossa estrela de hoje foi um desses eternos apaixonados pelo clube dos seus olhos...
E dando continuidade na vitrina alusiva às “estrelas cintilantes” a jogadores de peso – recordámos que na nossa última passagem por esta vitrina visitámos o célebre Willy “Fatty” (gordo) Foulke – iremos sem mais demoras traçar umas breves linhas sobre o corpolento avançado do FC Porto na década de 40 Correia Dias.
Manuel Belo Correia Dias nasceu no longínquo ano de 1919, a 24 de Março, tendo como berço a Cidade de Ovar, bem próxima do Porto.
Seria nesta última urbe que Manuel daria os primeiros pontapés oficiais na bola... ao serviço do seu grande amor, o FC Porto. Seria como “dragão” que o jovem Manuel faria toda a sua formação de futebolista tendo chegado à equipa principal dos azuis-e-brancos na temporada de 1941/42. E logo na estreia deu nas vistas com dois golos ao Vitória de Guimarães!
O jovem Manuel passou então a popularizar-se nos rectângulos de jogo como o temido avançado Correia Dias. Temido não só pelo seu instinto natural para o golo como igualmente pelos seus 113 quilos de peso! É verdade. Ainda hoje é reconhecido como o avançado mais corpulento do futebol lusitano.
Tornou-se desde logo num ídolo para os adeptos portistas, não somente pelo seu aspecto físico e peculiar jeito para o pontapé na bola como também pelo facto de se ter tornado num dos maiores goleadores do clube portuense. Neste aspecto é de sublinhar que foi precisamente na sua temporada de estreia ao mais alto que Correia Dias se consagrou como o melhor marcador do Campeonato Nacional da 1ª Divisão com 34 remates certeiros.
Não venceu qualquer título colectivo de alto gabarito pelo seu FC Porto, contudo foi peça influente numa das mais célebres vitórias de uma equipa portuguesa sobre um combinado internacional. Tal efeméride deu-se a 6 de Maio de 1948 quando no mítico Estádio do Lima (Porto) o FC Porto recebeu o poderoso Arsenal de Londres. Ingleses que na época eram considerados a melhor equipa do planeta. Resultado final desse histórico encontro (do qual aqui já falámos na vitrina dedicada aos “grandes clássicos” da bola): 3-2 a favor os portugueses, tendo Correia Dias apontado dois golos aos pupilos do lendário mestre da táctica Herbert Chapman.
E Correia Dias podia muito bem não ter participado nesta epopeia portista, já que em 46/47 ele abandonou temporariamente o futebol alegando motivos de ordem pessoal. No entanto o FC Porto sentiu a sua falta e o treinador Eládio Vascheto convenceu-o a voltar à acção. O amor ao clube falou mais alto e Correia Dias não consegiu dizer não. Neste regresso sublinharia que jogaria de graça, que não queria um tostão do seu clube, mas por uma questão de igualdade e disciplina foi obrigado a aceitar um ordenado semelhante ao que o restante plantel auferia. Mas Correia Dias não precisava de dinheiro para defender a sua dama, jogava por amor.
E assim o fez até ao final da sua carreira, mais precisamente até à temporada de 48/49. Pelo seu FC Porto actuou por 114 ocasiões e fez balançar as redes em 110 ocasiões! Notável.

terça-feira, fevereiro 08, 2011

Grandes Mestres da Táctica (6)... Bora Milutinovic

Pode não ter os títulos, os prémios, e a consequente fama que deles advêm conquistados por mestres como José Mourinho ou Alex Ferguson –só para citar os actualmente mais mediáticos técnicos do Mundo – mas tem algo que dificilmente alguma destas duas lendas da táctica algum dia conseguirão: estar presente em CINCO Campeonantos do Mundo CONSECUTIVOS com CINCO equipas diferentes! Leram bem os prezados visitantes, não há qualquer tipo de engano. Um facto, ou melhor dizendo, um recorde no planeta da bola, que pertence a Bora Milutinovic, o nosso mestre da táctica de hoje. Uma pequeno parêntese para dizer que no último Mundial, realizado em 2010 na África do Sul, o brasileiro Carlos Alberto Parreira igualou Bora em termos de presenças em certames máximos da FIFA, pese embora não o tenha feita em campeonatos consecutivos.
Voltando ao ilustre visitado de hoje é de dizer antes do mais que ele é um filho da ex-Jugoslávia, país onde nasceu a 7 de Setembro de 1944. Enquanto jogador os seus desempenhos passam despercebidos à lupa dos mais atentos ao fenómeno da bola, visto que a sua carreira, pouco mais do que modesta, foi desenvolvida na Jugoslávia (ao serviço do FK Bor, OFK Belgrado e Partizan de Belgrado), França (Nice, Mónaco e Rouen), Suíça (Winterthur) e México (Pumas UNAM). Mesmo assim dava já para ver a tendência de “caixeiro viajante” do futebol, deambulando de país para país com a bola a “correr-lhe nas veias”.
E seria precisamente no México que Milutinovic daria o pontapé de saída numa invejável e “variada” carreira de treinador. Penduradas as chuteiras em 1977 inicia nesse mesmo ano uma caminhada de quatro anos ao serviço do Pumas UNAM. Uma caminhada com uma performance bastante positiva, facto que levou a federação mexicana a requisitar os seus serviços em 1983. O objectivo pedido de imediato ao treinador jugoslavo passava por levar a selecção principal dos “aztecas” o mais longe possível no Mundial de 1986, que iria decorrer precisamente no México (embora em 83 ainda estivesse atribuido à Colômbia, que mais tarde, e face aos graves problemas económicos que o país enfrenteva, abandonaria a organização a favor dos mexicanos).

Mundial 1986: Prova superada (1)

Para satisfazer o pedido dos responsáveis federativos mexicanos Bora construiu uma das melhores selecções mexicanas da história, formada por ícones como Negrete, Carlos Hermosillo, Quirarte, ou a estrela-mor da companhia Hugo Sanchez, na época um dos avançados mais temidos do planeta.
Na fase de grupos os mexicanos levaram a melhor sobre a concorrência, alguma dela de peso, diga-se de passagem, como é o caso da Bélgica, na época um dos melhores combinados do Mundo com estrelas como Pfaff, Gerets, Scifo, ou Ceulemans. E seriam precisamente os belgas (que neste Mundial terminariam no 4º lugar final) as primeiras vítimas da armada de Bora. Uma vitória por 2-1 num completamente lotado Estádio Azteca (110.000 pessoas) colocava o povo mexicano em delírio.
No jogo seguinte um precioso empate a uma bola com o não menos perigoso Paraguai de Romerito punha os anfitriões com um pé na fase seguinte da prova. E a confirmação deu-se na derradeira jornada do grupo B quando um golo solitário de Fernando Quirarte sobre o Iraque deu o definitivo passaporte ao México para os oitavos-de-final.
Pelo facto de ter conquistado o 1º lugar do seu grupo a selecção mexicana continuou a realizar os seus jogos no imperial e gigantesco Azteca, catedral que no primeiro jogo dos oitavos-de-final colocaria frente-a-frente a turma da casa e a Bulgária. E ai, perante 114.000 almas, na sequência de mais uma exibição muito positiva, o México subia mais um degrau do seu Mundial, já que eliminava os búlgaros com dois tentos sem resposta.
Desde logo estava igualada a melhor performance dos mexicanos em Campeonatos do Mundo: os quartos-de-final, um feito conquistado pela selecção de 1970 no Mundial que nesse mesmo ano decorreu curiosamente no México.
E nos quartos-de-final do Mundial 86 Bora tinha pela frente um difícil obstáculo chamado Alemanha Ocidental. O nome diz tudo. Era tão somente uma das mais poderosas equipas do Mundo. Os bravos mexicanos não se amedrontaram, muito longe disso, e fizeram a vida negra ao combinado orientado pela antiga lenda dos relvados Franz Beckenbauer. De tal maneira que o jogo chegou ao final do tempo extra empatado a zero bolas, tendo então a surgido a necessidade do desempate por grandes penalidades. Aqui a lotaria saiu aos germânicos, mas Bora e os seus pupilos foram apelaudidos de pé por um público orgulhoso do desempenho da sua pátria. A prova estava assim superada para Bora.
Depois deste Mundial o treinador voltou ao trabalho nos clubes, tendo em 1987 efectuado breves passagens – sem grande sucesso – pela Argentina (ao serviço do San Lorenzo) e por Itália (Udinese).

Mundial 1990: Aventura memorável com os “ticos”

Terminada a curta experiência ao serviço dos clubes atrás citados Bora voltaria a abraçar um projecto lançado por uma federação de futebol, neste caso a da Costa Rica, que o convidaria a dirigir o combinado principal daquele país nas eliminatórias para o Mundial de 1990, o qual iria decorrer em Itália.
Pegando em jogadores completamente desconhecidos o jugoslavo operou o primeiro grande milagre da sua carreira como técnico: levar os “ticos” (alcunha da selecção costa-riquenha) à fase final do Mundial. Um feito digno de um sublinhado mais carregado, tendo em conta que na primeira experiência de Milutinovic na fase final da prova máxima da FIFA o México na qualidade de país organizador já tinha um lugar garantido na dita fase, contrariamente à Costa Rica que teve de passar por um longo processo de qualificação. Só por isso se podia dizer que o trabalho de Bora à frente dos “ticos” tinha já sido coroado de sucesso.
No entanto a supresa ainda estava para vir. Chegados a Itália a Costa Rica era vista como o “bombo da festa” do grupo C que incluia ainda o colosso Brasil e as sempre temidas Suécia e Escócia.
E seria esta última selecção a primeira a provar do veneno letal dos “ticos”. Em Génova os pupilos de Bora puseram o Mundo de boca aberta depois de uma sensacional vitória por 1-0. E se muitos encaravam esta como uma mera lufada de sorte dos costa-riquenhos no seu jogo estreia numa fase final de um Mundial o jogo seguinte veio provar o contrário. Pela frente os “ticos” tinham o poderoso Brasil... que se viu grego para chegar ao final do encontro realizado em Turim com um magro triunfo por 1-0.
No derradeiro encontro do grupo foi a vez da Suécia vergar perante o futebol rendilhado dos caribenhos como expressa o score de 2-1 a favor destes últimos.
Perante isto o “bombo da festa” do Itália 90 estava na fase seguinte da competição. Quem diria! Acontecesse o que acontecesse nos oitavos-de-final diante da Checoslováquia os “ticos” tinham já assegurado o seu lugar na história deste campeonato como um das boas recordações. E o que aconteceu foi uma derrota por 1-4 que mandou Bora e companhia para casa com uma memorável campanha na bagagem.

Mundial 1994: Prova superada (2)

O nome de Bora Milutinovic era por estas alturas (início da década de 90) bastante badalado na alta roda do futebol internacional, não sendo pois de estranhar que a Federação Americana de Futebol tivesse lançado em primeiro lugar para cima da mesa o seu nome na hora de escolher o timoneiro que haveria de conduzir a selecção dos “states” no Mundial que em 1994 iria ser disputado precisamente em terras do “Tio Sam”.
Este era um desafio enorme para Bora, não pela falta de condições monetárias ou estruturais mas antes pelo facto de nos Estados Unidos da América (EUA) o futebol, ou soccer como por lá é baptizado, ser um completo desconhecido da maior parte dos nativos daquele país. Mais do que montar uma selecção capaz de não envergonhar a essência do belo jogo Bora tinha por missão uni-la ao país.
E a tarefa uma vez mais foi superada. Na hora do arranque do USA 94 eram muitos os teóricos que apontavam a selecção norte-americana como a primeira organizadora de um Mundial a falhar a qualificação para os oitavos-de-final, muito por culpa da condição de orfão que o soccer exercia nos EUA. Pois enganaram-se. Mesmo não sendo composta por génios da bola a selecção “yankee” encarou este como o desafio da sua vida, aparaltou-se, esmerou-se, uniu-se e a prova foi superada.
Fazendo parte do grupo A da competição os EUA começaram por calar os teóricos da bola no jogo inagural diante da Suíça – uma selecção que vinha patenteando um futebol de invejável qualidade – com uma igualdade a uma bola. Seguiu-se o embate com a Colômbia, selecção esta que antes do pontapé de saída do USA 94 era tida como uma das favoritas à conquista do título, com o Rose Bowl de Los Angeles a rebentar pelas costuras, numa clara demonstração que o povo analfabecto em linguagem futebolística estava ao lado da sua selecção. Um clima que catapultou os pupilos de Bora para uma histórica vitória por 2-1... e a fase seguinte estava ali tão perto. No derradeiro jogo do grupo derrota com a Roménia (0-1) mas o 3º lugar do grupo e a consequente qualificação para a fase seguinte já ninguém tirava aos inicialmente tidos como “toscos” americanos.
Nos oitavos-de-final Bora voltou a encontrar-se com o gigante Brasil, comandado soberbamente por Romário, selecção esta que voltou a sentir grandes dificuldades para bater um combinado orientado pelo treinador jugoslavo. 1-0, golo de Bebeto, sossegou os corações brasileiros que acabariam por entrar em delírio dias mais tarde com a conquista do “tetra-campeonato” do Mundo.
Bora tinha vencido mais um desafio, este um triplo desafio, ou seja, tinha formado uma boa selecção composta por nomes como Tony Meola, Alexi Lalas, Marcelo Balboa, Cobi Jones, ou Tab Ramos, havia unido a equipa nacional ao povo, e acima de tudo havia contribuido para que o soccer passasse a ser olhado com mais atenção e paixão por aquelas bandas.

Mundial 1998: De candidatos a desilusão

Depois de ter trilhado a sua carreira de técnico por caminhos do continente americano Bora Milutinovic aventurava-se agora em África. A Nigéria era o destino. Nigéria que era uma das pérolas daquele continente no que diz respeito a futebol, já que a sua selecção era composta por alguns dos diamantes mais preciosos do futebol planetário da época, casos de Yekini, Finidi, Rufai, Kanu, Okocha, Babangida, West, ou Ikpeba. Levá-los a França ao Mundial de 1998 foi por isso tarefa fácil para o mestre jugoslavo. Ai chegados começaram por encantar o Mundo com uma vitória (3-2) a todos os títulos sublime diante da Espanha de Raul, Zubizarreta, Hierro e companhia no jogo de abertura do grupo D do certame. A crítica rendeu-se ao colectivo nigeriano, começando a aparecer aqui e ali “recortes” atribuindo aos africanos estatuto de favoritos à conquista da prova! Exagero? Muito, como mais à frente se viria a confirmar.
O que é certo é que embalados pelo sonho os comandados de Bora bateriam (1-0) no jogo seguinte a poderosa Bulgária de Stoichkov, Kostadinov, Penev, Balakov, e companhia, e a fase seguinte era já uma certeza. Tanto assim é que os nigerianos se deram ao luxo de perder (1-3) o derradeiro encontro do grupo ante o Paraguai.
Do céu ao inferno o caminho seria curto nos oitavos-de-final perante a Dinamarca. No majestoso Stade de France (arredores de Paris) ficaria provado que ainda faltava à Nigéria percorrer um longo caminho até poder ser campeão do Mundo. Nesse encontro, os africanos não estiveram à altura dos jogos anteriores, em especial os dois primeiros, desprezando por completo a perigosa Dinamarca dos irmãos Laudrup. Consequência? Pesada derrota por 1-4 e adeus ao Mundial.
Depois desta nova aventura Bora voltou a sentar-se num banco de um clube. Em 1999 regressa aos EUA para orientar o Metrostars de Nova Iorque na recém criada Liga Norte-Americana (MLS).

Mundial 2002: Uma curta aventura

Contudo, o velho feiticeiro, assim era já conhecido por muitos devido ao seu dom de levar equipas pequenas a brilhar na grande montra do futebol global, sentia-se bem era a comandar selecções. Não foi pois de admirar que ao virar do milénio tenha surgido o convite da federação chinesa para que Bora tomasse as rédeas daquela selecção. Objectivo principal? Mundial 2002, que nesse ano se realizava pela primeira vez em solo oriental (Coreia do Sul e Japão).
O milagre foi alcançado, com Bora a entrar para a história daquela nação oriental que pela primeira vez iria jogar numa fase final de um campeonato do Mundo. A aventura seria porém curta, muito curta tendo em conta o passado do jugoslavo em Mundiais. A China não passaria da fase de grupos, depois de somar três derrotas em outros tantos encontros disputados (ante Costa Rica, Brasil, e Turquia). Mesmo assim Bora entrava para a história do futebol como o primeiro e único treinador a orientar cinco selecções diferentes em cinco Mundiais consecutivos.
Depois da China o feiticeiro voltou às américas, mais precisamente para as Honduras, com a intenção de participar com aquele país em mais uma fase final. Tentativa no entanto falhada já que seria despedido ainda durante as eliminatórias para o Mundial de 2006. Seguiram-se novas aventuras, primeiro ao serviço da Jamaica e por último como seleccionador do Iraque, país pelo qual falhou a qualificação para o Mundial 2010 em cima da meta.

Legenda das fotografias:
1- O "feiticeiro" Bora Milutinovic
2- Selecção do México no Mundial de 1986, a primeira experiência de Bora no grande certame da FIFA
3- A surpreendente Costa Rica no Itália 90
4- Milutinovic, o dono da bola do USA 94
5- A selecção nigeriana no França 98
6- Bora no banco da China naquela que foi a sua 5ª aventura consecutiva num Campeonato do Mundo

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

Grandes lendas do futebol mundial (11)... Pepe - O génio de Belém

Ele foi um dos primeiros génios do futebol português como consequência natural da sua veia artística com a bola. Cedo se tornou num ídolo para a massa adepta lusitana que ia tendo o primeiro contacto com o belo jogo. Com dribles diabolicamente desconcertantes, com passes magistrais, ou com golos inimagináveis ele ganhou por direito próprio um lugar no Olimpo dos Deuses do futebol.
Muito poucos são hoje os testemunhos vivos de quem teve a honra e o privilégio de o ver jogar, e para estes não parecem existir dúvidas de que se ele vivesse nos dias de hoje seria um verdadeiro assombro – no bom sentido – dos relvados mundiais!
Contudo, a sua história tem tanto de encanto como de tragédia... como mais à frente iremos poder constatar. Senhoras e senhores visitantes a nossa lenda de hoje é José Manuel Soares, imortalizado no futebol como Pepe.
A 30 de Janeiro de 1908 no seio de uma família pobre de Belém (Lisboa) nasce aquele que viria a ser o maior ídolo do futebol português na década de 20 do século passado.
O seu nascimento aconteceu numa altura conturbada para Portugal, quer a nível social quer político. O povo passava fome numa época em que a Monarquia estava muito perto de ser substituida pela República. Aliás, neste aspecto é importante dizer que dois dias após o nascimento de Pepe dá-se o regicídio na Praça do Comércio que resultou na morte do rei D. Carlos e do seu filho o príncipe D. Luís Filipe.
Posteriormente o país mergulhou numa crise profunda que nem mesmo o nascimento da República (1910) suprimiu.
A infância de José Manuel Soares foi pois de profunda miséria, sendo que a única alegria dos meninos daquele tempo era única e simplesmente a bola de futebol.

Os primeiros passos da lenda...

E foi a jogar futebol na rua com uma bola de trapos que Pepe – alcunha que surgiu numa época em que a sua condição no “desporto rei” era já a de um talento confirmado – descobriu a sua vocação. Como tal ainda com tenra idade ingressa no clube da sua zona, o Belenenses, o emblema gravado no seu coração, sendo que com apenas 15 anos (!) é inscrito no Campeonato de Lisboa.
Não demoraria muito a sua ascensão até à equipa principal, a qual se daria um ano depois (1926) num confronto ante o Benfica no Campo das Amoreiras, duelo que terminaria 5-4 a favor do Belenenses, tendo Pepe apontado o golo do triunfo do seu clube. A sua exímia técnica aliada à sua velocidade estonteante e ao seu poderoso remate patenteados dali em diante fizeram com que fosse aclamado como o rei do futebol português.
De um dia para o outro Pepe tornou-se na alegria do povo. Em Belém, a zona onde continuava a residir numa pobre casa situada na Rua do Embaixador, não havia um único dia em que o seu nome fosse pronunciado com entusismo e vaidade. Mesmo sendo por aquela altura o habitante mais famoso de Belém o menino Pepe continuava humilde e... pobre, sim, porque o futebol não passava de uma brincadeira. Para ajudar a sua família foi trabalhar ainda moço para uma oficina de torneiro, para mais tarde passar a laborar no Centro de Aviação Naval.
De aspecto franzino o menino que todos os dias levava para o emprego um triste caldo para retemperar forças fazia magia nos campos de futebol em cada fim-de-semana com as cores do seu Belenenses. Carregou os azuis de Lisboa às costas nas conquistas dos campeonatos de Portugal de 1927 e 1929, bem como noutros tantos campeonatos de Lisboa. Entre 1928 e 1931 sagra-se naturalmente o melhor marcador do campeonato lisboeta, sendo que na temporada de 30/31 estabelece um recorde de 36 golos apontados em 14 encontros disputados! É obra. Para a história, nessa mesma época, faz 10 dos 12 golos com que o Belenenses bate o Bom Sucesso.
Mas nem só o Belenenses tirou partido do génio de Pepe, a própria selecção nacional também lhe fica a dever muitas vitórias e momentos inolvidáveis. Por 12 ocasiões ele vestiu a camisola das quinas, tendo com ela apontado sete golos.
Ele foi um dos notáveis que integrou o seleccionado português na primeira grande aparição deste numa competição à escala mundial: os Jogos Olímpicos. 1928 é o ano que assinala esse feito, ano em que Portugal fica às portas de uma medalha nas Olímpiadas de Amesterdão.

Estranha morte...

Consagrado a nível nacional e internacional a estrela de Pepe deixou de brilhar cedo, cedo demais, diria mesmo. Num dia como tantos outros o astro de Belém carrega na fria manhã de 24 de Outubro de 1931 o almoço preparado por sua mãe. Almoço é maneira de dizer, pois no bolso levava somente uma triste sande de chouriço que tinha sobrado do jantar da véspera. Chegada a pausa para o repasto Pepe leva o alimento à boca e horas depois é dado como morto no Hospital da Marinha, local para onde foi transportado assim que começou a sentir violentas dores abdominais e a ter hemorragias. Morreria às 10h30 da manhã, com apenas 23 anos... e um futuro – com toda a certeza – risonho ficou por percorrer.
As causas da morte muita tinta fizeram correr nos dias seguintes. Houve quem tivesse apontado ao assassinato... por invejosos do seu valor e popularidade. O envenenamento contudo não ficou senão a dever-se a um lapso – fatal – de sua mãe, a qual em vez de colocar bicarbonato de sódio na refeição colocou potassa, substância que iria destruir por completo o estômago do atleta. Mãe e irmãs de Pepe que também haviam ingerido igual refeição, no entanto conseguiram escapar com vida, aparentemente por terem ingerido uma menor quantidade.
Pepe morreu e o país chorou dias a fio. O seu funeral foi uma prova colossal do carinho que o povo tinha por ele... 30.000 pessoas prestaram uma última homenagem ao rei do futebol português da década de 20.

Legenda das fotografias:
1- José Manuel Soares, futebolisticamente imortalizado como Pepe
2- Em acção - pelo seu Belenenses - contra o Sporting
3- Com as cores da Selecção Nacional
4- A multidão que marcou presença no funeral da lenda para um último adeus