segunda-feira, dezembro 06, 2010

Estrelas cintilantes (23)... William Foulke

O “gordo vai à baliza” é uma expressão popularizada por todos nós – os que gostamos de bola – nas jogatanas de rua, ou do recreio da escola, alusivas à nossa infância sempre que aparecia um menino gordinho com pouco jeito para acariciar a bola. Vai dai o petiz era imediatamente mandado para debaixo dos postes para não atrapalhar os mais habilidosos na condução do esférico. Porém, nem só de “coxos” com peso a mais reza a história, já que um dos primeiros grandes nomes das balizas de âmbito mundial era um cavalheiro extremamente volumoso com quase dois metros de altura! O seu nome roça a lenda, pois na verdade ele foi “rei” numa época em que o belo jogo dava ainda os primeiros passos e como tal existe um pequeno leque de dados concretos acerca dos seus notáveis e muito particulares feitos. Daí ter usado a expressão lenda, pois muitas das histórias que hoje circulam a seu respeito “cheiram” a pura... lenda.
Sem mais demora a cortina sobe para apresentar a nossa estrela cintilante de hoje: William Foulke.
Veio ao Mundo no século XIX, mais precisamente no dia 12 de Abril de 1874, na pequena cidade inglesa de Dawley, onde conheceu os seus dois grandes amores no panorama desportivo: o críquete e o futebol, tendo sido um exímio praticante de ambos. Neste último “Fatty” (gordo) Foulke, como era carinhosamente conhecido por companheiros de equipa e adversários, deu o pontapé de saída da sua carreira no Sheffield United, emblema que representou entre 1894 e 1905. Aqui a lenda conheceu alguns dos seus capítulos mais empolgantes, do alto do seu 1,93m e dos seus intimidadores 165kg!!! Em capítulos mais suaves da história reza a lenda que o peso de “Fatty” rondava os 150kg, que mesmo assim chegavam não só para assustar os seus oponentes como também para o tornar no jogador profissional mais pesado da história do jogo. Ainda numa toada lendária conta-se que num jogo Foulke derrubou uma baliza depois de ter chocado contra os postes desta (!), ou das várias ocasiões em que a irritação o levava a pegar nos adversários com uma mão e a atirá-los para o fundo das redes (!). Outra lenda alude ao primeiro jogo da final da Taça de Inglaterra de 1902 jogada entre o Sheffield United de “Fatty” e o Southampton, quando a dada altura o pesado guarda-redes protesta com o árbitro do encontro sobre a irregularidade do golo do empate validado aos “Saints”, perseguindo com um ar ameaçador o pobre do juíz pelos corredores do estádio, tendo este respirado de alívio assim que viu um grupo de oficiais da FA (Federação Inglesa de Futebol) agarrar muito a esforço o furioso “Fatty”. .
Sobre este episódio dizer que o mau humor de Foulke seria eclipado dias depois aquando da repetição da final na sequência de uma vitória (2-1) do seu United. Esta seria aliás a segunda Taça de Inglaterra conquistada por “Fatty” ao longo dos seus 14 anos de profissional, tendo a primeira sido arrecadada em 1899.
Ao serviço do Sheffield United (emblema que defendeu por 299 vezes) o volumoso jogador conquistou ainda um título de campeão nacional da 1ª Divisão, em 1898. Um ano antes ele fez a sua única aparição com a camisola da selecção nacional de Inglaterra num encontro ante os vizinhos do País de Gales.
Terminada a ligação ao United a lenda rumou a Londres na temporada de 1905/06 para defender as cores do Chelsea. Aí o seu mau feitio conheceu novos episódios lendários, especialmente em jogos onde achava que os seus companheiros do sector defensivo não estavam a ser suficientemente duros nas marcações aos avançados contrários e assim sendo ele próprio tratava de sair da baliza para travar estes último com a sua força brutal para em seguida pegar neles pelos colarinhos e pontapeá-los para o fundo da sua baliza! “Fatty” era assim. Em Stamford Bridge esteve somente uma temporada, mas o suficiente para se tornar num ícone imortal do clube, e tanto assim é que hoje em dia quem entra pela porta principal do mítico recinto londrino depara-se com a fotografia de Foulke em primeiro plano no hall de entrada.
O seu derradeiro paradeiro futebolístico foi o Bradford City na época de 1906/07, tendo actuado por este emblema em 22 ocasiões. Nove anos mais tarde após o seu retiro dos campos de futebol... ou de batalha no seu caso, “Fatty” deixaria o Mundo dos vivos em consequência de uma cirrose, já que a bebida (em excesso) era para além do futebol e do críquete outra das suas paixões. Tinha somente 42 anos quando Inglaterra chorou no dia 1 de Maio de 1916 a sua morte. Uma morte meramente física, pois a lenda de “Fatty” Foulke continua bem viva nas novas gerações de adeptos do belo jogo.
E depois disto... mais respeito com os meninos gordinhos, pois quem disse que estes não sabem jogar à bola???

Legenda das fotografias:
1- William Foulke com as cores do Sheffield United
2- O perfil volumoso de "Fatty"
3- Na final da Taça de Inglaterra de 1901 Foulke atira um jogador do Tottenham para o chão

terça-feira, novembro 23, 2010

Pensamentos filosóficos em... "futebolês" (1)...

Se todas as batalhas dos homens se dessem apenas nos campos de futebol, quão belas seriam as guerras.

Augusto Branco

quarta-feira, novembro 03, 2010

Grandes Mestres do Jornalismo Desportivo (8)... Cruz dos Santos

A poucos dias do Natal de 1960 chega a Lisboa um rapazinho africano de semblante tímido e olhar um pouco perdido. Prontamente de si abeirou-se um jovem e talentoso artesão das letras que lhe arrancaria – um pouco a ferros – as primeiras palavras em terras alfacinhas.
Mais tarde estes dois homens ascenderiam ao Olimpo dos Deuses... o primeiro no futebol, e o segundo no jornalismo desportivo. Por palavras mais exactas... Eusébio da Silva Ferreira, e Fernando Cruz dos Santos. É precisamente sobre este último o motivo pelo qual o Museu Virtual do Futebol abre hoje as suas portas, para recordar um dos maiores vultos da comunicação social (desportiva) lusitana. Nascido a 10 de dezembro de 1931, em Lisboa, Fernando Cruz dos Santos calcarreou um caminho ímpar com a pena na mão. Um trajeto que começou a ser trilhado bem cedo, quando ainda jovem num belo dia de 1954, na companhia de seu pai, se deslocou ao Estádio Nacional a fim de usufruir de uma empolgante e deslumbrante hora e meia de futebol protagonizada pelo Benfica do seu coração. Um Benfica cujo futebol começava a ganhar contornos de obra de arte graças às pinceladas de génios como José Águas ou Mário Coluna. 11-0, pesado score que o azarado Boavista sofreria às mãos do mágico Benfica naquela tarde no sagrado relvado da grande sala de visitas do futebol português. Maravilhado com a exibição da armada encarnada Cruz do Santos não perderia tempo a escrevinhar uma crónica alusiva ao festival de bola que o seu Benfica havia dado no Vale do Jamor horas antes. Com um misto de audacidade e atrevimento – no bom sentido, claro está – envia a crónica para as grandes publicações desportivas da época, vulgo, A Bola, Record, e o Mundo Desportivo. Dias mais tarde o chefe de redação do primeiro órgão de comunicação responde-lhe com um lugar de colaborador! E assim estava dado o empurrão para aquilo o que seria uma carreira brilhante ao serviço do mítico jornal da Travessa da Queimada (Lisboa). E sempre, sempre, defendendo as cores d' A Bola, a única camisola que veste desde o início da aventura. Em 1962 Cruz dos Santos passa a redator do jornal, tornando-se desde logo num dos grandes valores da célebre instituição de comunicação... e do próprio jornalismo desportivo português.
Hoje em dia Cruz dos Santos continua a ser uma lenda d' A Bola, digamos que um embaixador do jornal à semelhança do que representa Eusébio para o Benfica. Prestes a cumprir 80 primaveras Cruz dos Santos continua a deliciar leitores através das suas incomparáveis crónicas na coluna “Vivó Árbitro”.

Em seguida transcrevemos na integra a entrevista (acompanhada da foto que a ilustrou, onde se pode ver o jovem jornalista Cruz dos Santos a entrevistar o recém chegado Eusébio) da que mudou a vida de Fernando Cruz de Santos, as linhas que o tornaram célebre, a imortal entrevista ao então (quase) desconhecido Eusébio da Silva Ferreira, publicada no dia 17 de dezembro de 1960...
«De Lourenço Marques (Portugal de África) e com destino ao Benfica, chegou a Lisboa por via aérea. Eusébio da Silva Ferreira, de seu nome completo, tem uma aparência bastante robusta, com costas largas, boa altura e, pelo que o seu andar deixou perceber, flagrante ligeireza de movimentos. O que, em gíria, se pode chamar "boa pinta". É de cor, se bem que não negro retinto. Tipo Hilário, do Sporting, ou França, agora na Académica. 
Ao constar que o esperavam, mostrou-se naturalmente acanhado e pouco conversador. Ainda que os dois zelosos funcionários do seu novo clube se mostrassem um tanto preocupados com o cumprimento da ordem de silêncio que, desde logo, Eusébio deveria respeitar, sempre pudemos colher algumas informações do jovem futebolista:
-Qual o seu lugar habitual?
-Costumo jogar a interior-esquerdo, mas faço qualquer dos postos de ataque, menos o de avançado-centro.
-Porquê?
-Não sei porquê, mas é esse o de que menos gosto. Prefiro as zonas em que é mais fácil a desmarcação. Já tenho jogado a avançado-centro, mas prefiro jogar no interior ou extremo de qualquer dos lados...
-Remata com os dois pés?
-Sim, mais ao menos...
-Costuma marcar muitos golos?
-No último campeonato, que acabou há duas semanas e nós ganhámos com três pontos de avanço sobre o Desportivo e cinco sobre o Ferroviário, marquei 29 dos 54 golos da nossa equipa.
-Então, é bom rematador...
-Queria fazer mais golos sozinho do que todo o ataque do Desportivo, que foi segundo e só marcou 30, mas não consegui...
-Conhece alguns dos jogadores africanos que estão na Metrópole?
-Sim, conheço o Hilário e o Coluna, o Jambane, o Vicente, o Costa Pereira.
-Espera adaptar-se bem ao futebol da Metrópole?
-Venho com essas esperanças. Pelo menos, tenho a certeza de que vou trabalhar com afinco para isso no clube que, há 10 anos, vi jogar em Lourenço Marques e que, apesar de eu ser um garoto, logo me fez simpatizar com ele...

(Nota: Cruz dos Santos faleceu no dia 16 de maio de 2013)

Há dias descobri (desde já o meu muito obrigado aos "amigos" do http://uniaotomar.wordpress.com) neste "mar virtual" que é a internet alguns "tesouros literários" do mestre Cruz dos Santos eternizados nas páginas da "Bíblia Sagrada do Desporto", vulgo A Bola. Aqui ficam pois em honra ao grande mestre:

“EMPATE QUE PREMEIA A SUPERAÇÃO DOS LOCAIS”

Jogo sem golos sugere espectáculo de relativo interesse, mas não foi esse o caso verificado, ontem, no atraente Estádio Municipal de Tomar (onde nos disseram que não tarda a bem necessária cobertura dos camarotes – pelo menos), pois o encontro além da emoção que o seu desfecho reflecte, conheceu períodos de futebol de apreciável craveira técnica e foi caracterizado, sobretudo, por uma correcção que muito nos apraz assinalar – contribuindo tudo isso para que não possa ter ficado desapontada uma das maiores assistências ali registadas, nesta primeira e bem curiosa presença dos tomarenses entre os «maiores».

Boa parte do muito público presente foi constituída por setubalenses, que a bela carreira do Vitória e o bonito começo do dia levaram à formosa cidade do Nabão em muitos automóveis e em perto de setenta autocarros (porque não havia mais disponíveis – segundo nos informaram) e, se toda essa gente sadina regressou a Setúbal entristecida pelo resultado, ao invés dos tomarenses, que chegaram ao fim do jogo dando mostras de evidente satisfação, há que dizer que tal disparidade de sentimentos só pode atribuir-se à capacidade normal, ao prestígio e aos anseios das duas equipas em cotejo, já que nem os sadinos podem lamentar-se de não terem alcançado o triunfo, nem os tomarenses tiveram na igualdade um prémio que não mereciam.

Com efeito, se é certo que nunca esteve em dúvida – como não poderia estar – a superioridade individual da turma vitoriana, não é menos exacto que muito bem souberam os tomarenses compensar e, por vezes, até, superar essa sua mais do que legítima desvantagem, mercê de uma determinação e de um sentido de colectivismo que, superando a normal capacidade própria, frequentemente perturbou os categorizados adversários ou, pelo menos, os impediu de evidenciarem uma supremacia que, em jogo e em resultado, talvez, fosse de esperar.

Portanto, não se pense que, no empate de Tomar, houve menor inspiração do fortíssimo conjunto setubalense e nada mais. Ideia certa e justa será, sim, a de que o Vitória só não jogou mais e só não venceu porque a tanto se opôs, cremos que sensacionalmente, um União que realizou, apenas, a melhor de quantas exibições já lhe vimos fazer na temporada, e que foram, anteriormente, contra o mesmo Vitória, no Bonfim; contra a Cuf, em Tomar; contra o Atlético, na Tapadinha, e contra o Belenenses, em Tomar.

E mais: – não obstante o domínio territorial exercido pelos sadinos em quase todo o segundo tempo do encontro de ontem, os tomarenses estiveram longe de jogar «à defesa», antes formaram uma equipa que actuou de acordo com as circunstâncias de cada momento, isto é, defendendo e atacando conforme as possibilidades que o antagonista e o próprio jogo lhe ofereceram.

Sem dúvida de espécie alguma.

Menos credenciado, jogando em «casa» (e, para mais, em terreno pelado, que não pode deixar de oferecer maiores problemas para todos os actuais visitantes, por menos habituados) e sabendo que é no futebol raso e «trabalhado» que o Vitória tem o tipo de jogo com que se tem imposto e que melhor serve as características da quase totalidade dos seus magníficos jogadores, esperar-se-ia que os tomarenses se lançassem num futebol de pontapés largos e fortes, fazendo subir a bola e provocando, assim, um despique marcado por choques e cargas, com hipóteses de emperrarem o funcionamento normal da «máquina» setubalense.

Quem assim pensava (e nós confessamos, honestamente, que nos encontrávamos nesse número, com base no que havíamos visto aos nabantinos nos referidos jogos com a Cuf e com o Belenenses) cedo se certificou de que se enganara redondamente, pois o que se viu, logo desde o começo do encontro, foi os tomarenses enveredarem por processo de jogo semelhante ao dos sadinos, ou seja, fazerem baixar a bola e tentarem a progressão no terreno em passes tanto quanto possível curtos e frequentes.

Com isso, ganhou o espectáculo, evidentemente, e se bem que, aqui e acolá, fosse manifesta e natural a vantagem sadina, devido à reconhecida maior valia técnica das suas unidades, a verdade é que houve ataques alternados, com o perigo a registar-se numa e noutra balizas.

Ao longo de todo o primeiro tempo, pode o Vitória recordar e lamentar dois ou três lances em que faltou uma aragem de felicidade a remates de cabeça desferidos, de muito perto, pelos seus dianteiros – especialmente, aquele em que Arcanjo, após bom trabalho de Figueiredo, executou um centro alto e largo e, sem ninguém a estorvar-lhe os movimentos, Guerreiro cabeceou ao lado do poste esquerdo.

Mas, em contrapartida, pertenceu a Vital a mais difícil das intervenções dos guarda-redes, em todo o desafio, quando teve de se lançar aos pés de Alberto, logo aos 3 minutos, e uma outra grande oportunidade de golo esteve ao alcance do mesmo Alberto, aos 25 minutos, quando se isolou, a passe de cabeça de Leitão, e visou o canto raso mais distante (o esquerdo), ficando Vital batido, mas saindo a bola a rasar a base de poste.

O Vitória, nos períodos de tempo em que dominou, fê-lo com mais insistência e maior autoridade, realmente, mas não conseguiu, ao contrário do que lhe é habitual, firmar vincada supremacia a meio do terreno, porque se Wagner esteve «em grande» e Vítor Baptista o acompanhou bem, já Jacinto João se mostrou infeliz (e, por isso, demasiado insistente) nos lances individuais em que costuma ser «mestre» e, do lado tomarense, o saber e a experiência de Ferreira Pinto e a actividade de Totoi puderam ir compensando e disfarçando o menor rendimento de Cláudio, a acusar certa debilitação resultante da gripe que o reteve no leito até sexta-feira e, a partir de determinada altura, também afectado pelo que nos pareceu ser uma rotura muscular, na coxa esquerda.

Por tudo isso e, ainda, porque toda a sua defensiva se revelou muito decidida e coesa, os tomarenses não só nunca se inferiorizaram, verdadeiramente, como até conseguiram ser algo superiores ao rondar da meia hora, chegando, pois, ao intervalo com muito mérito e justiça na igualdade e deixando a pairar a dúvida, apenas, sobre o ponto a que chegaria a sua resistência física, no segundo tempo.

…Segundo tempo que – já se disse – foi caracterizado por um muito maior domínio territorial dos sadinos, que apenas permitiram espaçados movimentos atacantes dos tomarenses e tiveram o seu ascendente reflectido num elevado número de «cantos» – por vezes, cedidos em momentos de grande apuro, pela defensiva de Tomar.

Mas, com Santos no lugar de Cláudio e, mais tarde, Vicente no de Lecas, puderam os nabantinos ir «segurando» o ascendente do Vitória, continuando a neutralizar, em boa dose, a sua acção a meio do campo e, sobretudo, «espartilhando-lhe» o ataque, onde Tomé (que rendera Figueiredo) e Guerreiro se mantiveram, até por isso, em dia de menor inspiração – do que se foi ressentindo, naturalmente, aos poucos Arcanjo (que tivera uma excelente primeira parte) e onde o perigo só se viu, de vez em quando, nos lances criados por Jacinto João, a entrar bem mais pela esquerda do que na metade inicial do jogo.

Mas, mesmo nesses lances, faltou sempre «qualquer coisa» ao «J J» dos grandes dias e o União de Tomar, mantendo-se muito firme na defesa, nunca enjeitou os ensejos que se lhe depararam para contra-atacar – não conseguindo, é certo, mais do que uma ocasião de «golo à vista»», em bola cruzada da esquerda e aliviada já perto da linha fatal, com Vital ultrapassado, mas também não permitindo que os dianteiros sadinos criassem uma única oportunidade flagrantemente desperdiçada.

No último quarto de hora, choveu com bastante intensidade, o que tornou o piso do terreno um tanto difícil. Ficou por se saber, no entanto, qual das equipas foi mais prejudicada pelo facto – ainda que a lógica leve a pensar que foi a dos setubalenses, porque era aquela que, então, mais buscava a vitória que, na verdade, correspondia a imerecida derrota do União.

Há que repetir a afirmação já feita: – foi esta a melhor das exibições que vimos fazer aos tomarenses.

Muita serenidade, muito discernimento, nada da fogosidade e do «descontrole» de outros dias. Calma semelhante, só a que lhe registámos e elogiámos, com inteira justificação, no jogo que lhe deu vitória na Tapadinha.

Desta vez, colectivismo foi a nota mais saliente da equipa, onde apenas Lecas e Cláudio (pelas razões expostas) estiveram um tanto abaixo dos companheiros.

Sem um único deslize, Arsénio igualou Caló, Faustino e Barnabé, numa defensiva que teve o mérito, nada acessível, de «segurar» um ataque da categoria do de Setúbal e onde Kiki só baixou um pouco, no segundo tempo, quando Jacinto João se adiantou mais.

Ferreira Pinto foi outro esteio da equipa, com especial relevo no primeiro tempo, mas o esforço de Totoi e de Alberto e a boa execução de Leitão (se bem que um pouco distante da «zona da verdade») também merecem referência – tal como foi vantajosa a entrada de Vicente e Santos.

Desilusão, talvez, para boa parte do público de Tomar, o Vitória não foi, para nós, mais do que vítima da inspiração do antagonista – um «pequeno pormenor» que muita gente nem sempre considera.

Foi um daqueles jogos em que tudo pode depender, apenas, de um golo que se marca. E, se os sadinos o conseguem, é bem possível que até acabassem em vencedores folgados.

Mas… e se o golo aparece ao contrário, como muito bem podia ter acontecido na primeira parte?…

De uma coisa há que não acusar a turma sadina: falta de combatividade. De modo algum. Lutou muito e sempre bem. Pode ter acontecido apenas, que essa necessidade de lutar, aliada às nada favoráveis características do terreno a impediram de jogar tanto quanto sabe.

Embora com pouco trabalho, Vital esteve firme e arrojado naquele lance aos pés de Alberto, assim assim como Conceição e Carriço foram «laterais» mais seguros do que os «centrais». Cardoso e Herculano – este, com a enorme atenuante de ter sido fustigado, recentemente, por rude golpe familiar, pelo qual jogou de braçadeira preta.

A meio do campo, tornou-se clara a ausência de José Maria, sendo Wagner o «maior», em nova manifestação de muita classe, enquanto Vítor Baptista apenas teve lampejos do seu grande valor, tal como «J J.».

Na frente, Arcanjo realizou uma bola primeira parte mas acabou por ser «arrastado» pela menor inspiração dos seus companheiros de sector, Guerreiro, Figueiredo e, depois, Tomé.

Mesmo as grandes equipas, como é o caso do Vitória, estão sujeitas a estes percalços – se é que pode chamar-se percalço a um empate num campo em que já perderam o Sporting, o Vitória de Guimarães e a Académica.

Em jogo sem problemas de maior, duas só palavras para a arbitragem do «trio» chefiado por Ilídio Cacho: – muito bem.»

(“A Bola”, 17.02.1969 – Crónica de Cruz dos Santos)



“GUARDA-REDES «AMÁVEIS» E EXPULSÃO INCRÍVEL”

O Farense foi o primeiro a marcar, por Farias, aos 14 minutos. Numa das suas frequentes descidas pela direita, Pena centrou por alto e, perante a pouca decisão dos defesas-centrais contrários, Farias elevou-se bem e cabeceou melhor – para a esquerda de Nascimento, que se lançou mal, (na direcção das próprias balizas) e, por isso mesmo, a bola seguiu-lhe das mãos para as malhas.

1-1 por Raul Águas, aos 35 minutos. De posse da bola, o guarda-redes Rui Paulino exagerou em batê-la no terreno, quer porque este tinha o piso irregular, quer porque Raul Águas o ameaçava de perto. Numa das vezes que o esférico foi ao solo, aconteceu o insólito: a bola a saltar para um lado e Rui Paulino a desequilibrar-se e a cair para o outro sem dificuldade. Raul Águas tomou conta do esférico, afastou-se mais do guarda-redes contrário e atirou para as balizas desertas.

No segundo tempo: 2-0.

2-1 por Raul Águas, aos 17 minutos. Tal como sucedeu várias vezes, Pavão fugiu bem pela direita e centrou. No meio da grande área do Farense, Almeida cortou, mas – talvez devido a irregular ressalto do esférico no terreno – bateu mal a bola, que foi ao corpo de Raul Águas (que lhe dificultava a acção) e ficou mesmo ali, mesmo à mercê do pé direito do «n.º 9» de Tomar – rápido e poderoso no disparo, rasteiro e cruzado.

Aos 20 minutos, Adilson (que acabara de substituir Jorge Félix) foi expulso – nas circunstâncias de que falaremos adiante.

3-1 por Caetano, aos 37 minutos. Novo excelente lance de Pavão, pela direita, de onde centrou, a meia-altura. A bola passou por dois ou três jogadores do Farense, Rui Paulino ficou à espera do corte de Almeida e, atrás de ambos, quem não vacilou foi Caetano, que desviou o esférico para as balizas, com o corpo.

Resultado: 3-1.

———-

Nada a obstar à vitória do União de Tomar, pois conseguiu-a com três golos «limpos» e justificou-a com o domínio territorial que exerceu quase sempre e, até, com as outras oportunidades que criou e não converteu (por isto ou aquilo e de que pode destacar-se um «tiro» de Pedro à barra, no último minuto) e que, a serem concretizadas, teriam dado ao encontro um desfecho bem mais desnivelado.

Isto é o que importa dizer, antes de tudo o mais, para que não se criem dúvidas ou ideias erradas, para que não se confunda aquela indicutível verdade com o que vamos afirmar àcerca de outros aspectos que o jogo conheceu.

Um golo que tudo transforma

Pouca gente, piso mau (escorregadio, pegajoso, lama sob a relva), uma tarde magnífica e uma meia-hora inicial interessante, já com o União a descer mais vezes ao meio-campo do Farense (em regra, por Pavão, a jogar muito bem), mas os algarvios mais serenos e mais objectivos – com o seu «líbero» (Atraca) a garantir uma certa tranquilidade na defensiva e os lances de contra-ataque a perturbarem com frequência, a defesa de Tomar.

Razão fulcral da superioridade (em calma, em ligação e em intencionalidade) dos algarvios: – desequilíbrio no meio do terreno, onde Jorge Félix, Sério e, em especial, Sobral se impunham, claramente, a Manuel José (sem «chama»), Pedro (lento e pouco codicioso) e Fernando (o melhor do «trio», pelo seu irrequietismo e espírito de luta).

Não houve, assim, surpresa no facto de ser do Farense o primeiro golo do desafio. Já aos 10 minutos, o golo só não aparecera nas redes de Nascimento (que saíu mal dos postes) porque a «cabeça» de Pena (a adiantar-se sempre muito bem, pelo lado direito) levou a bola a sair ao lado.
O União dominava, mas não «engrenava» em nenhum dos seus sectores – levando o público a excitar-se e a protestar, menos contra a sua equipa favorita, mais contra o árbitro (chegando a ouvir-se, na bancada, algumas alusões às tristes ocorrências acabadas de registar em Alvalade e que a Rádio levara até Tomar).

O escape de sempre, quando as coisas não correm bem. Mas se é verdade que Ismael Baltasar já naquela altura vinha tendo as suas «fífias» (por culpa própria ou do seu auxiliar António Rodrigues), não é menos certo que nem sempre os lapsos da arbitragem estavam a prejudicar a equipa tomarense – como fora, por exemplo, o caso de um lance em que Camolas puxou Caneira pela camisola (que até ficou rasgada) e aquele «bandeirinha» assinalou prontamente a falta, mas logo concordou (também sem vacilar) com a decisão do árbitro, que mandou marcar falta ao contrário.

Não se perturbou, no entanto, o Farense. De tal modo, que aos 28 minutos, até esteve à beira de fazer 2-0, quando Farias de adiantou a João Carlos e a Fernandes e atirou à rede lateral, talvez por ter rematado em desequilíbrio. E só já depois da meia-hora o União criou a sua primeira ocasião de «golo à vista», em belo remate (de cabeça) de Camolas, que saiu rasando o poste esquerdo das balizas de Rui Paulino.

…Rui Paulino que não teria hipóteses de deter aquele remate e que, pouco depois, pagou bem a «amabilidade» de Nascimento (e dos seus defesas centrais!) no golo de Farias, ao permitir a igualdade do modo (quase incrível) que deixámos descrito na abertura desta crónica.

Grandes responsabilidades do estado do terreno? Cremos que sim – tal como pensamos que só o Sol (de frente) terá levado Nascimento a mergulhar mal e a ser batido. De qualquer modo, é incontroverso que o 1-1 modificou tudo – dali em diante, não mais houve Farense, como equipa tranquila, organizada e esclarecida.

Até ao intervalo, ainda o União não foi capaz de tirar partido da manifesta quebra (psicológica e, reflexamente, de rendimento) da equipa de Faro – pelo que, dentro dos 45 minutos de abertura, apenas houve a assinalar um «cartão amarelo» para Pedro, por chutar a bola para longe, depois do jogo interrompido, em manifestação (deselegante) de discordância com uma decisão do árbitro.

Mas, depois do descanso, foi tudo quase só dos tomarenses, que quase não mais sairam do meio-campo antagonista e que podiam ter passado a vencedores muito mais cedo –tal como podiam ter ficado totalmente tranquilos antes do minuto 37 e vencedores mais folgados depois do 3-1.

Nem a «colaboração» dos homens de Faro (guarda-redes e defesas) nos lances do segundo e terceiro golos, é bastante para macular, portanto, o mérito do triunfo do União – que não precisava disso, realmente, para o conseguir, desde o momento em que a igualdade se registou. Isto, note-se, apesar de a turma de Faro continuar animosa até ao fim e, mesmo quase sobre a hora, ter podido fazer 2-3, quando Farias se atrasou no remate, a poucos metros das balizas.

Mas, sem embargo de nada do que fica escrito, outra verdade é que a definitiva machadada foi vibrada nos algarvios por quem menos se esperaria, por se tratar de um internacional: – o árbitro.

Dia para esquecer

Deixámos dito que já na primeira meia-hora Ismael Baltasar tivera alguns deslizes. E acrescentaremos (só nós sabemos com que mágoa) que, para além disso, o árbitro já impressionara e surpreendera, fundamentalmente, pela sua brandura, pela sua como que disposição de não criar problemas complicados – apesar de os jogadores nunca lhe terem criado (nem nunca virem a criar) dificuldades de maior, tal a inexcedível e louvável correcção com que sempre se bateram.

Mas foi no segundo tempo que Ismael Baltasar ainda mais se tornou na figura central do desafio. A mesma sensação de «distante» (sobranceria incompreensível e injustificada?), a mesma relutância em mostrar a sempre necessária «presença do árbitro» e uma série de lapsos (uns, indiscutíveis; outros, talvez só aparentes) que passamos a enunciar:

1. Exageradas demoras na marcação dos «livres», por «macieza» para com os jogadores que formavam a «barreira» e que não se colocavam (e acabaram por não se colocar, na maioria das vezes) à distância regulamentar);

2. Aos 8 minutos, empurrão de Almeida (pelas costas) a Raul Águas, junto às balizas do Farense («penalty» incontroverso) – para, logo a seguir, assinalar um muito discutível (quanto a ilegalidade) derrube do mesmo Almeida a Camolas, já fora da área de rigor dos algarvios;

3. Dúvidas (nossas) na forma como Farias foi derrubado, em desarme, perto da linha de cabeceira e dentro da grande área do União, aos 13 minutos («penalty» aparente – pelo menos);

4. Fernando foi derrubado (pelas costas e por três adversários) dentro da grande área do Farense («penalty» indiscutível);

5. A dois minutos do fim, «cartão amarelo» para Almeida, por ter feito, apenas, obstrução a Fernando – depois de, ao rondar do primeiro quarto de hora, o árbitro se ter limitado a conversar (duas vezes) com o «capitão» João Carlos, que discordou (por palavras e gestos) com uma decisão sua e lhe voltou, por fim, as costas deliberadamente;

6. A expulsão de Adilson, que foi uma autêntica «barbaridade», porque o jogador nada fez que justificasse, sequer, «cartão amarelo» – podemos garanti-lo, porque o lance desenrolou-se mesmo na nossa frente e a curta distância da linha lateral.

…Foi assim: Fernando entrou em falta (não maldosa) sobre Adilson, o árbitro apitou (e bem) e Fernando, talvez por admitir que o adversário reagisse (embora nós não lhe percebessemos tal intenção), pôs-lhe as mãos nos ombros, como que para evitar que ele se aproximasse, como que para o acalmar; a reacção de Adilson foi, única e exclusivamente, a de afastar as mãos de Fernando – e nem o fez com modos bruscos. Mas foi expulso, para surpresa geral.

Uma expulsão de bradar aos céus. E, para mais, imposta por um árbitro que, até ali, tão «macio» se mostrara. Que terá visto, no lance, Ismael Baltasar, que mais ninguém conseguiu ver?

Se acrescentarmos a tudo isto o facto de o jogo ter começado com três minutos de atraso, porque a equipa de arbitragem só quando ia a entrar em campo se apercebeu de que as camisolas dos jogadores do União eram iguais às suas (pretas), pelo que houve que voltar à cabina e envergar camisolas cinzentas – (só o árbitro e o «bandeirinha» António Rodrigues, porque José António vestiu uma camisola amarela, cremos de guarda-redes, porque tinha a gola e punhos encarnados, tal como se de um desafio de «solteiros e casados» se tratasse) – se acrescentarmos este facto, dizíamos nós, teremos de concluir que, realmente, «no melhor pano cai a nódoa» ou que «há dias em que não se deve sair de casa».

…Só que foi demais para a I Divisão e, sobretudo, para um árbitro internacional.

Poucas evidências

Voltando ao jogo, propriamente dito, temos que o União não jogou bem (embora ganhando bem) e só se «encontrou» (um bocadinho) consigo próprio quando fez o empate e o Farense perdeu a serenidade e o equilíbrio iniciais.

Ainda que a consideremos indiscutível, não percebemos a entrada de Bolota para o lugar de Raul Águas, que acabara de fazer o seu segundo golo consecutivo e vinha sendo (sobretudo por isso) um dos elementos mais em destaque na sua equipa – cuja defesa teve Kiki e Fernandes melhor do que João Carlos e Cardoso (pouco firmes, em posições tão importantes), enquanto que, no meio-campo, a «genica» de Fernando superou a «frieza» de Pedro e a falta de inspiração de Manuel José.

O melhor jogador dos tomarenses, porém foi Pavão, um extremo que [deu] seguimento adequado a quase todo o jogo que lhe chegou – ao contrário de Nascimento, que foi muito mal batido no golo e, no resto, ou não teve ensejos para se redimir ou evidenciou certa intranquilidade, pelo que o «1» que lhe atribuímos só se deve ao facto de a sua equipa ter ganho.

No que [se] refere ao Farense, gostámos francamente da sua actuação até ao tal grande primeiro lapso de Rui Paulino (também com largas culpas no terceiro golo) e só um estado psicológico menos forte pode justificar a acentuada quebra que veio depois.

Para o «capitão» Atraca, as honras da tarde (na função de «libero», desfeita após o 1-2, em que passou para defesa esquerdo, adiantando-se Pena para o meio terreno) – Pena que foi, depois de Atraca e a par de Caneira (este, baixando, a partir de certa altura) o melhor defesa (até pelas suas firmes incursões à frente), já que Assis (com aquele Pavão por adversário directo…) e, sobretudo, Almeida oscilaram bastante.

A meio do terreno, Sobral (grande intuição) foi o único que manteve quase sempre o ritmo da meia hora inicial (ao contrário de Jorge Félix e de Sério, que só continuaram a bater-se bem) e, no ataque, Farias fez um golo vistoso e evidenciou noutros lances o seu valor e o seu espírito de luta – extensivo a António Luís.

E – já analisada, de sobejo, a actuação do árbitro – é tudo.»

(“A Bola”, 30.10.1972 – Crónica de Cruz dos Santos)



“UM «SENHOR CAMOLAS» É MEIA-EXPLICAÇÃO”

Está na hora! – gritou alguém, nas bancadas, quando ainda só estavam jogados 22 minutos da segunda parte. O União vencia, então, por 2-1 e aquele brado (que provocou risos naturais) espelhou bem o que a vitória representava para os tomarenses.

Está na hora! – foi o grito que saiu das gargantas de muitos unionistas, ao longo dos três últimos minutos do desafio. O árbitro procedia, então, àquilo a que (incorrectamente) se chama «descontos» e aqueles brados já não tinham só o significado do tal mesmo grito de um só tomarense quando ainda faltavam 23 minutos para jogar, pois também já correspondiam a um estado de angústia compreensível, dada a forma como o Belenenses «pressionava» as balizas contrárias e punha no ar a perspectiva de um empate – pelo menos.

Nesses minutos finais, ninguém podia prever, realmente, o que viria a acontecer. Ninguém podia lembrar-se, nessa altura, daquilo que, afinal, faz o encanto do futebol – a sua permanente e maravilhosa incerteza: – num ápice, de novo a bola no fundo das balizas do Belenenses.

Um triunfo avolumado, os dois pontos assegurados, nos derradeiros instantes, quando a igualdade e a fuga de um ponto eram ameaças flagrantes.

Juntou-se a isso a beleza do golo da confirmação. E, daí, toda a festa que se lhe seguiu com responsáveis, jogadores (efectivos e suplentes) e público abraçados, dentro do campo.

Ganhou bem o União de Tomar? Pensamos, abertamente, que sim. Porque, embora podendo considerar-se feliz no momento em que passou de 1-1 para 2-1, teve duas «armas» que faltaram aos «azuis»: – uma defesa que não cometeu erros de vulto e um ataque que soube ser objectivo.

Emoção e bastante mais

Talvez, até, porque foi disputado sob chuva miúda, o jogo teve uma assistência apenas razoável, mas foi um espectáculo com interesse do primeiro ao último minuto. Interesse pela qualidade que o futebol chegou a atingir (pese ao estado do terreno, mui escorregadio), interesse pela forma como todos os jogadores se bateram (generosa e correctamente, apesar da inevitável frequência dos choques), interesse pela incerteza do resultado (como o ilustra, por si só, o que ficou descrito da sua parte final) e interesse, ainda, pelas várias mutações por que se passou, quanto à previsão do resultado.

Neste último aspecto, a hora e meia pode, na verdade, dividir-se em quatro períodos distintos e bem díspares: – o primeiro, englobando toda a primeira parte, com um manifesto equilíbrio no desenrolar das operações e com os tomarenses a chegarem ao intervalo numa posição de vencedores que tanto podia ter outros números como verificar-se ao contrário; no reatamento, o Belenenses no seu melhor período, a firmar grande supremacia, a atingir o empate com inteira justiça e a dar a sensação de que iria chamar a si a vitória; depois, o União a alcançar o 2-1, que «acalmou» o adversário e restituiu aos tomarenses as energias que haviam parecido faltarem-lhe; nos últimos dez minutos, o Belenenses a «carregar» com uma insistência igual (se bem que já menos lúcida, logicamente) à que se vira logo após o intervalo e a ver o seu «forcing» contrariado por uma defensiva «heróica» – até o ver desfeito pelo tal golo da tranquilidade nabantina.

Ainda que não tivesse havido tudo o mais que ficou apontado, apenas isto bastaria para dar ao espectáculo expressão e força futebolísticas.

Quatro golos foram poucos

Marcaram-se quatro golos e não houve golos a mais. Logo no primeiro minuto, só por acaso não apareceram dois, um para cada lado (desperdiçados por Ramalho e por Pavão) e, pelo tempo adiante, algumas outras ocasiões foram sendo «enjeitadas»: – Gonzalez, pouco antes do golo inicial dos tomarenses (cremos que por «falta» de pé direito); Caetano a rematar rente a um poste, de cabeça, mesmo em «cima» do intervalo (e junto a Quaresma e a Freitas, «colados» ao terreno); lances quase «de lotaria» junto das balizas dos tomarenses, nos dois períodos de «massacre» imposto pelos «azuis» – já que não há que incluir no «grupo» a espectacular forma como Silva Morais desviou por cima da barra um remate (em «voley») de Freitas, porque os guarda-redes estão no seu posto para isso, precisamente.

Não se esquece, tão claro está, que o desfecho de lances do tal tipo «de lotaria» depende, apenas do pé que aparece para chutar a bola. E o Belenenses talvez tenha razões para se lamentar de em nenhum daqueles momentos ter sido de um dos seus jogadores o pé que chutou o esférico. Há, porém, outros dois factos bem mais concretos do que esse: – mesmo incluída a «aflição» própria daquele instante, a defensiva de Tomar nunca transmitiu a sensação de tão perturbada e oscilante quanto a dos lisboetas; até por lógica influência desse factor e sem embargo de meia-dúzia de excelentes intervenções de Silva Morais, o perigo esteve quase sempre mais desenhado nas ofensivas dos tomarenses do que na dos lisboetas.

A defesa de Tomar jogou, em regra, na verdade, bastante bem. Com um guarda-redes arrojado e seguríssimo de mãos e com Kiki, Florival, Faustino e Zeca a formarem um «quarteto» decidido e coeso. Ao invés, há já muito tempo que não víamos tão mal a defesa belenense. Melo à parte (porque não teve culpas nos golos e esteve bem em tudo o resto), apenas Esmoriz se «salvou» de um «desastre» cujos «salpicos» atingiram Cardoso (em dificuldades diante de Pavão) e que teve o seu ponto máximo nos dois «centrais», Quaresma e Freitas, um e outro muito ligados aos golos [e] a algo mais do que eles – o que acontece a qualquer, mas foi para nós surpresa, sobretudo, no caso de Freitas, pela soberba «forma» que vem evidenciando.

Dali para a frente, houve as consequências até certo ponto naturais e com o maior contraste a registar-se entre os elementos mais fixos como «pontas-de-lança», porque Ramalho nada de positivo conseguiu (bem pelo contrário), Ernesto em pouco o superou e Camolas esteve, apenas, sensacional e não somente pelo magnífico golo que obteve e pelo outro que, com tanta visão, proporcionou a Caetano – que bem mereceu esse belo tento, ao situar-se a par de Pavão e dos quatro defesas.

A classe de Gonzalez, a progressiva melhoria de Leitão e o valor que Isidro e Vasques possuem não bastaram para evitar, mais do que a derrota, a desluzida imagem de um Belenenses que só no tal período inicial da segunda parte «explicou» a boa época que está fazendo.

Muito bem

Apesar das dificuldades oferecidas pelo terreno, o árbitro, Américo Borges (com bons auxiliares), teve uma actuação de muito mérito, mostrando serenidade, discernimento, segurança e (quando foi necessário) autoridade – caso do «cartão amarelo» bem exibido a Florival.

Assinalável a forma como «resistiu» aos pedidos do público e dos jogadores locais, quando entrou em linha de conta o tempo perdido, para só dar o jogo por findo quando estavam expirados, exactamente, os segundos 45 minutos de jogo autêntico. Aqui, um exemplo.»

(“A Bola”, 02.02.1976 – Crónica de Cruz dos Santos)

sábado, outubro 30, 2010

Don Diego chega ao meio século de vida

Há quem lhe chame Deus... outros mágico... outros ainda um fenómeno da Natureza... eu simplesmente classifico-o como um misto das três, e é a ele que hoje tiro especialmente o meu "chapéu" para lhe endereçar os mais sinceros parabéns pelos seus ímpares 50 anos de vida.

quarta-feira, outubro 27, 2010

Grandes lendas do futebol mundial (9)... Matateu - O terror dos guarda-redes


É com enorme prazer que hoje regressamos à vitrina dedicada às grandes lendas do futebol mundial para falarmos sobre um dos maiores jogadores portugueses de todos os tempos, de seu nome Sebastião Lucas da Fonseca, ou simplesmente Matateu. Diz quem o viu jogador que foi um verdadeiro fenómeno, um jogador de uma classe ímpar mas que viveu um tudo ou nada adiantado no tempo, ou seja, viveu fora das épocas das grandes conquistas do futebol português. Faltou-lhe jogar a fase final de um Mundial, de um Europeu, discutir uma final da Taça dos Campeões Europeus, e quem sabe ter jogado num grande do futebol lusitano, coisa que nunca fez, pois se assim não fosse talvez estaríamos hoje aqui a discutir quem tinha sido o melhor jogador lusitano de todos os tempos, se Eusébio, se Figo, se Cristiano Ronaldo, ou se Matateu. Por aqui já dá para ver que este homem foi um gigante do mundo da bola. Vamos também falar de um ser humano cujo nome se confunde com o de um clube, o Belenenses, o emblema do seu coração, o emblema que o tornou célebre e... que ele também ajudou a tornar célebre. Devo confessar aos ilustres visitantes que escrever sobre Matateu me deu enorme prazer, pois sempre ouvi maravilhas deste homem, e sinto uma profunda tristeza em não o ter visto actuar pelo menos uma única vez na vida. Este mito do futebol luso nasceu a 26 de Julho de 1927, em Lourenço Marques, Moçambique, a mesma terra que anos mais tarde via nascer outros génios da bola como Eusébio ou Coluna. Filho de Lucas Matambo e de Margarida Heliodoro o menino Sebastião nasceu no bairro de Alto Mahé, onde como tantos outros ficou enfeitiçado pela bola desde cedo, começando a jogar de pé descalço na terra batida e de tronco nu ao frio ou calor do clima tropical do país de onde veio ao Mundo. Sebastião foi o terceiro filho do casal Lucas e Margarida, tendo depois de si nascido mais cinco irmãos, entre os quais Vicente, um rapazinho que um dia haveria de ser considerado como o único homem que conseguiu travar Pelé. Menino Sebastião viveu uma infância pobre, como a maior parte das crianças daquele tempo. A tristeza da pobreza era porém eclipsada pela paixão pelo futebol. No Alto de Mahé não havia uma só alma que não conhecesse o menino hábil e gingão com a bola nos pés. Por aquela altura Matateu era já o seu nome de guerra. Uma alcunha que segundo o próprio Sebastião Lucas dizia derivar da sua infância, ou seja, que "tateu" em landim significava pele a cair, ou crosta, e que a verdadeira origem desta alcunha residia no facto de «em criança quando me magoava, não tinha paciência para aguardar que a ferida secasse, arrancava a crosta antes de tempo». Menino Sebastião que desde cedo torceu o nariz aos estudos para grande desgosto – e arrelia, por vezes – de sua mãe, a qual não teve outro remédio senão conformar-se com o caminho traçado por este diamante que despontava nas ruas de Moçambique.

O início da aventura

Aos 16 anos Matateu deu o pontapé de saída de uma carreira fabulosa quando ingressou no João Albasini, clube este onde despontava o seu irmão mais velho. O seu talento fez com que estivesse por pouco tempo por estas paragens, já que tempos mais tarde foi contratado pelo 1º de Maio, o clube filial do Belenenses naquele país africano. Dali transitou para o Manjacaze, emblema este que lhe ofereceu um emprego como contrapartida para defender a sua camisola. E a estreia ao serviço daquele colectivo moçambicano foi de tal forma coroada de êxito que no final desse primeiro encontro o lendário Matateu seria abordado pelo árbitro do jogo, João Pedro Belo, um homem que enquanto jogador defendeu com brilho as cores do Belenenses e da própria Selecção Nacional, que lhe perguntaria se estaria disposto a ir para Lisboa. Embora Matateu ficasse surpreso perante tal convite o que é certo é que muito poucos naquela metrópole portuguesa acreditavam que seria possível segurar por muito mais tempo o astro da bola, não sendo de estranhar que à cidade de Lourenço Marques (actual Maputo) tivessem chegado propostas de clubes como o Benfica, o FC Porto, e o União de Coimbra. As notícias dos feitos extraordinários do diamante negro em terras africanas continuavam a chegar em catadupa a Portugal, e tomando conhecimento das mesmas o Belenenses não perdeu tempo em enviar um telegrama para Lourenço Marques pedindo à pérola africana que esquecesse a proposta de João Pedro Belo e ao invés disso apanhasse o primeiro avião para Lisboa onde à sua espera estariam responsáveis pelo emblema da Cruz de Crsito. «Tratar tudo urgentemente stop Matateu embarque Lisboa primeiro avião stop», assim ditava o famoso telegrama.

Chegada a Lisboa... e estreia de sonho

E assim foi, Matateu fez as malas e partiria rumo ao estrelato. Aterrou na capital portuguesa a 4 de Setembro de 1951 para assinar um contrato de 30 contos de luvas com o Belenenses, clube no qual passaria a usufruir de um ordenado mensal de 1600 escudos. A estreia com a camisola azul deu-se ante o FC Porto, no Estádio Nacional, num desafio a contar para a Taça Maia Loureiro. Nesse dia as ímpares qualidades do artista moçambicano ficariam desde logo vincadas, mas a consagração ocorreria uma semana mais tarde num jogo alusivo ao Campeonato Nacional da 1ª Divisão diante do Sporting. Nesse dia Matateu foi o diabo à solta, no bom sentido, colocando os “leões” em absoluto pânico perante a sua genialidade. O país pasmou ao ver aquele rapaz negro espalhar magia com a bola nos pés. Senhor de um drible curto “diabólico” e desconcertante, possuidor de um arranque notável e de um poderoso remate esta força da Natureza foi sem sombra para dúvida o destaque daquele célebre jogo que terminaria com a vitória dos azuis de Belém por 4-3. O génio marcaria dois golos, sendo que no final da partida os entusiastas adeptos belenenses invadiram o campo para carregar Matateu em ombros numa imagem que ficaria célebre. Naquele dia nascia o novo rei do futebol português. Dali em diante escusado será dizer que Matateu seria a estrela maior do Belenenses e do próprio futebol português, pelo menos até à chegada de outro génio oriundo de Moçambique, Eusébio.

Bolas de Prata e Selecção Nacional

Na sua segunda época em Portugal, 52/53, venceria a Bola de Prata, prestigiado troféu atribuido ao melhor marcador do principal campeonato nacional fruto dos seus 29 golos. Nessa mesma época os responsáveis da selecção portuguesa não hesitaram em chamar o novo mago da bola lusitana para defender as cores da equipa nacional. Um facto ocorrido a 23 de Novembro de 1952 diante da Áustria, no Estádio das Antas (Porto). O primeiro golo com as quinas ao peito deu-se um ano mais tarde num jogo amigável diante da África do Sul realizado no Estádio Nacional. Ao todo foram 13 os tentos que Matateu apontou nas 27 ocasiões que representou Portugal, tendo a última delas ocorrido a 22 de Maio de 1960 perante a Jugoslávia numa partida de apuramento para a Taça das Nações Europeias (prova que anos mais tarde seria rebaptizada de Campeonato da Europa). O instinto matador do astro voltaria a ser premiado na temporada de 54/55, altura em que arrecadou a sua segunda Bola de Prata como consequência dos seus 32 remates certeiros no Nacional da 1ª Divisão. Curiosamente, nesta mesma temporada, o Belenenses escrevia aquela que muitos consideram como a página mais triste da sua glorisosa história, a época em que perderia o título nacional no derradeiro jogo do campeonato. Um facto ocorrido a 24 de Abril de 1955, com o desaparecido Campo das Salésias como palco do famigerado episódio. Os intervenientes do duelo davam pelo nome de Belenenses e Sporting e caso os primeiros vencessem sagravam-se pela segunda vez na sua vida campeões de Portugal. A quatro minutos do final os azuis de Belém venciam por 2-1 o seu rival de Lisboa e os foguetes da festa começavam a ser preparados. No entanto, o sportinguista Martins tratou de estragar os festejos ao apontar o golo da igualdade que desta forma retirava o título ao Belenenses e oferecia-o ao Benfica. Matateu chorou nesse dia. Um dos seus maiores sonhos – que anos mais tarde confessaria – havia sido eclipsado a quatro minutos do final de um jogo de futebol. Nunca conseguiria ser campeão nacional ao serviço do seu Belenenses. Assim como nunca conseguiu bater o recorde de golos na Selecção Nacional – outro sonho particular – nem abrir a tão desejada cervejaria na zona de Belém.

Paixão pela cervejinha

Este último sonho é como que um derivado de outra das grandes paixões do astro: a cerveja. Diz quem com ele de perto conviveu que bebia 30 cervejas por dia! Fosse que dia fosse, dia de jogo incluido. Aliás, há uma história contraditória sobre este facto, já que uns dizem que sabendo deste particular vício de Matateu os responsáveis do Belenenses autorizavam-no a beber a cervejinha da prache no intervalo dos jogos, sendo que apenas ele o podia fazer, ao passo que a restante equipa bebia o habital cházinho. Outros porém, dizem que ele desafiava as ordens dos treinadores e dirigentes azuis e ingeria mais do que uma cerveja por jogo, já que alguém lhas escondia atrás das sanitas dos balneários! Voltando aos títulos, o único que conquistou ao serviço do Belenenses foi a Taça de Portugal de 1960 diante do... Sporting. É verdade, os “leões” sempre no caminho de Matateu, no melhor e no pior. Neste caso no melhor, já que uma vitória por 2-1, com o tento da vitória a ser apontado por menino Sebastião, daria a segunda taça da história ao emblema azul. Outra história curiosa retrata o nascimento da única filha de Matateu, fruto do seu primeiro casamento. Jogava-se um Portugal – Argentina no Estádio Nacional e no desenrolar do encontro a instalação sonora do recinto dá conta do nascimento do primeiro rebento do craque nacional que na hora de escolher um nome para a sua menina optou por... Argentina. Original, no mínimo. Por falar em partidas internacionais não é demais sublinhar que o reconhecimento além-fronteiras pelo génio tivesse começado bem cedo. Na edição de 1955 da Taça Latina (a antecessora da Taça dos Campeões Europeus) a imprensa internacional rendeu-se a Matateu em consequência das suas sublimes exibições nos relvados parisienses (Paris acolheu a fase final dessa Taça Latina) que ofuscaram génios como Di Stéfano e Kopa.

O declínio? Não para Matateu

Os anos foram-se passando e pessoas existiram no universo futebolístico que começaram a duvidar das capacidades do génio. Caso de Fernando Vaz, célebre treinador que na altura de assumir os destinos do Belenenses colocou de imediato em causa a utilidade do jogador ao clube. Em Novembro de 1964 os responsáveis do Belenenses prometem-lhe uma grande festa de homenagem... quase em jeito de despedida, para no mês seguinte o terem dispensado! Um dos poucos a opor-se a esta precipitada decisão foi o histórico dirigente azul Acácio Rosa, para o qual Matateu ainda poderia ser muito útil ao Belenenses. Clube pelo qual contabilizou números impressionantes: 217 golos em 291 jogos realizados na 1ª Divisão! Só na 1ª Divisão, pois se juntarmos os apontados na Taça de Portugal, nas competições europeias (Taça Latina e Taça das Cidades com Feira), e noutras provas secundárias a marca assume proporções assombrosas. Mas o que é certo é que o génio oriundo de Lourenço Marques abandonou o clube do seu coração, mas não o fez em relação ao futebol. A sua carreira estava ainda muito longe de terminar, tal como se viria a verificar. Em 1965/66 ajudou o Atlético a subir à 1ª Divisão Nacional, e aos 41 anos assinou pelo Amora, que na altura se encontrava nos campeonatos distritais, e também aí fez história já que ajudou o pequeno clube a subir e a cimentar-se nos campeonatos nacionais. Antes do Amora uma fugaz passagem pelo Gouveia veio provar que Matateu ainda estava bem vivo. Foi então que decidiu emigrar, mais concretamente para o Canadá, onde encantaria um povo carente de grandes momentos de futebol. Foi estrela num país onde o futebol assume um papel secundário. Ali jogaria no First Portuguese para pouco depois regressar a Portugal para uma nova aventura em Chaves no Desportivo local. No entanto, em 1969 regressa ao Canadá para vestir a camisola do Sagres de Vitória onde jogaria até aos 55 anos! E naquele país da América do Norte viveria até ao final da sua vida, ali casaria uma segunda vez, ali viria a falecer a 27 de Janeiro de 2000 com 72 anos com o seu Belenenses sempre no coração. Viajando pelo mundo virtual em busca de testemunhos capazes de abrilhantar as modestas linhas por mim acabadas de elaborar em torno deste génio encontrei duas pérolas jornalísticas de grande interesse que descrevem um pouco da vida desta lenda do futebol mundial. Uma é da autoria de um homem que muito admiro enquanto jornalista, Rui Miguel Tovar, que por alturas do 10º aniversário da morte de Matateu entrevistou para o jornal “I” um homem que teve o privilégio de treinar o astro africano. Outra é senão mais do que uma compliação de relatos feitos na primeira pessoa – pelo próprio Matateu – ao jornal “A Bola” aquando da sua passagem pelo Amora. Aqui ficam:

Por: Rui Miguel Tovar
«Maputo, capital de Moçambique e antigamente conhecida como Lourenço Marques, é a terceira cidade com mais internacionais na selecção portuguesa, depois de Lisboa e Porto. Ao todo, são 16 e há de quase tudo, menos guarda-redes (Costa Pereira nasceu lá perto, em Nacala). Nomes clássicos como Eusébio, Coluna, Hilário, Juca, Vicente, Matine, os gémeos Pedro e Carlos Xavier saltam à vista mas só um foi apelidado pelos ingleses de oitava maravilha do mundo: Sebastião Lucas da Fonseca, ou Matateu. O i faz-lhe aqui a homenagem, precisamente no dia em que se celebra o 10.o aniversário da sua morte. Artur Quaresma, tio-avô de Ricardo (o do Inter), hoje com 93 anos, que treinou o avançado no Belenenses confirma-nos: "Matateu era uma maravilha." Para já, a pergunta sacramental: quem foi Matateu? "Isso agora, pfff. Bem, vou tentar ser prático. Era um fenómeno que, infelizmente, nunca foi campeão, embora andasse lá perto [em 1954-55, o Sporting empatou 2-2 nas Salésias, na última jornada, com um golo aos 86', e roubou o título ao Belenenses, a favor do Benfica]. Era grande, musculoso e encorpado. Impunha-se facilmente pelo físico e destacava-se pelo arranque, pelas passadas com a bola controlada, pelo remate forte ou em jeito, pelo drible. Era uma força da natureza." E que fez Matateu? "Além de marcar golos a torto e a direito [218 em 289 jogos na 1.a divisão], muitos deles impossíveis, outros banais, que lhe garantiram o título de melhor marcador da 1.ª divisão [29 golos em 26 jogos na época 1952-53 e 32 em 26 na de 1954-55], era um autêntico quebra-cabeças. Equipas como Sporting, FC Porto e Benfica marcavam-no homem a homem, num tempo em que nem se pensava nessas modernices. Ele chegou a Portugal [4 de Setembro de 1951] com um contrato de fazer rir e ao mesmo tempo de fazer corar de vergonha os actuais jogadores [30 contos de luvas e 1600 escudos de salário por mês], três meses depois de eu abandonar o futebol. Não nos cruzámos por pouco, mas fiquei feliz por ver a estreia ao vivo, num Belenenses-Sporting numa 1.ª jornada. Ganhámos 4-3, com dois golos dele, o último dos quais aos 88 minutos, e ele foi carregado em ombros pelos adeptos até aos balneários. Logo aí ficou conhecido como astro pela imprensa portuguesa." A alcunha da oitava maravilha do mundo veio mais tarde. Em Maio de 1955, a Inglaterra perdeu pela primeira vez com Portugal (3-1 no Jamor) e os jornalistas britânicos, sobretudo o enviado do "Daily Sketch", um tablóide nascido em Manchester nos anos 20 e que foi sugado na década de 70 pelo "Daily Mail", descreveu Matateu da seguinte forma: "Um negro sempre sorridente, de Moçambique, é, esta noite, o rei do futebol português. Lá foi-lhe dado o nome de Lucas, mas há muito tempo que já ninguém se preocupa com isso. Passaram-lhe a chamar Matateu - um cognome que significa oitava maravilha do mundo - desde que começou a driblar como um mago e a chutar como um canhão. Fomos derrotados por essa oitava maravilha que rebaixou e humilhou uma Inglaterra destroçada e inebriada. E não há justificação porque, com excepção do maravilhoso Matateu, o grupo português é uma equipa de passeantes, com apenas uma vitória nos últimos 19 jogos." A coisa não se fica por aqui. Nesse mesmo ano, Matateu foi eleito pela imprensa como o melhor jogador da Taça Latina-55, precursora da Taça dos Campeões, à frente de Di Stéfano e Puskas, ambos do Real Madrid. Como titulava a revista "Miroir Sprint", "Di Stéfano perdeu o sorriso frente a Matateu". Em 1957, o Belenenses fez uma digressão pelo Brasil e jogou no Maracanã, onde Matateu atirou três à barra antes de Pelé marcar os primeiros golos internacionais no misto Vasco/Santos. Só para acabar, em 1959, num RDA-Portugal de qualificação para o Europeu, em Berlim, o nome de Matateu é entoado por militares alemães que o rodeiam no final do jogo, ao ponto de ele perguntar ao jornalista Aurélio Márcio: "Vistes os russos a chamar pelo meu nome?" Tudo em nome do futebol. E sempre com uma cervejinha ao intervalo, a sua imagem de marca. E lá voltamos ao Artur Quaresma. "Comigo a treiná-lo, nunca bebeu. Pedi-lhe com bons modos e ele acatou. Ficava no balneário a ouvir-me e a motivar os mais novos. Naquela altura a gente entendia-se mais facilmente que agora, em que um futebolista ganha mais que um treinador, o manda passear, faz o que lhe apetece." Depois do Belenenses, onde ganha a Taça de Portugal-60 ao Sporting, Matateu ainda joga no Atlético, que ajuda a subir à 1ª divisão em 1966. No posterior pingue-pongue entre Américas (First Portugueses e Sagres da Vitória) e Portugal (Gouveia, Amora e Chaves), só acaba a carreira aos 55 anos.
Excerto da entrevista ao Jornal "A BOLA" 18/01/69 . E foi então que na época 1968/69, que Lucas Sebastião da Fonseca, mais conhecido por Matateu, ingressou no AMORA FUTEBOL CLUBE . Talvez numa das épocas mais lindas do clube, e ele contava com 41 anos de idade, mas parecia que tinha 19. Foi no dia 20/10/68 pelas 15 horas, e a contar para a 1ª. Jornada do Campeonato Distrital da 1ªDivisão da Associação de Futebol de Setúbal, que Matateu reapareceu para o futebol. O Amora F.C. recebeu o Monte - Caparica, e venceu por 3-1, marcando Matateu o segundo golo.

Na primeira página do Jornal "A BOLA" lia-se. AMORA CEMITÉRIO ADIADO. MATATEU A TRÊS CONTOS POR MÊS. «O Angenja, que era o treinador do Amora, perguntou-me se eu estava interessado, e eu perguntei quais eram as condições e depois aceitei. Muita gente me tem dito, então Lucas, tu foste internacional tantas vezes, aceitas ir jogar para um clube assim que nem é da 3ª. Divisão? «Mas eu respondi sempre que isso não me interessava, futebol é futebol e é igual em toda a parte, isso de divisões tanto me faz, a primeira como a segunda ou a terceira, são só números e nada mais. O futebol é só um e é sempre o mesmo, o que importa é que eu me dê bem com os colegas e com toda a gente e que o dinheiro não falte no fim do mês...»

Excerto da entrevista ao Jornal "A BOLA" 18/01/69 O Campo da Medideira registava na altura enchentes e muitos dos adeptos eram do Belenenses, que preferiam ir ver o Matateu a jogar pelo Amora. As receitas na altura aumentaram, mas isso não chegava. O Amora F.C. teve na altura grandes despesas. Foi a electrificação do campo, foi a construção de novos balneários, o treinador Angenja ganhava 3.500 escudos por mês e Matateu 3.000 escudos. Era muito dinheiro para um clube como o Amora F.C. Para ultrapassar isso, alguns amigos do Amora, conseguiram arranjar um grupo de sócios especiais, cujas quotas se destinavam especialmente a custear o ordenado de Matateu. A resposta de Matateu, para além de meter o clube nos nacionais de futebol, do qual ainda permanece, pois o Amora F.C. subiu à 3ª Divisão Nacional e nunca mais, até hoje voltou aos distritais, foi: «Em Amora, o ambiente é maravilhoso. É um clube pequeno que têm grandes despesas, mas em pagamentos, nunca falha, no fim do mês, recebemos o ordenado, depois de quinze em quinze dias, pagam-nos os prémios. Assim, nunca é preciso meter vales, a gente já sabe, é só esperar por esses dias»

Excerto da entrevista ao Jornal "A BOLA" 18/01/69 Na Amora, Matateu foi tratado carinhosamente por toda a gente, conseguindo ser pela primeira vez na sua longa e gloriosa carreira, CAMPEÃO. Não foi nacional, mas sim distrital, obtendo 21 golos, através da sua magnifica experiência garantindo o título de Rei dos Marcadores da Ass. Fut. Setúbal. Para além desses títulos, Matateu e o Amora F.C. conseguiram ganhar a TAÇA SOCER. Na final derrotaram o Seixal F.C. por 1-0, numa dessas jogadas geniais, Matateu após várias fintas correu à linha de fundo, centrou primorosamente para Toni Brito, que à vontade marcou o único golo da partida. Iam decorridos 35 minutos. A cerveja sempre foi a bebida preferida de Matateu. Em entrevista ao Jornal "A BOLA" no dia 18/01/69 disse: «Tenho 41 anos, mas parece que tenho 19, porque estou conservado em cerveja». «Acredite, quando não bebo cerveja, não sou o mesmo, sinto-me mal e o meu rendimento é sempre inferior» . « É verdade, se eu não bebesse cerveja, já teria arrumado as botas há muito tempo». Assim, enquanto o resto da equipa se contentava com o cházinho do costume, Matateu bebia a sua cervejinha.

Legenda das fotografias:
1- Sebastião Lucas da Fonseca... o popular Matateu
2- O pequeno Sebastião ladeado pelas mulheres da sua família
3- O estilo inconfundível do astro moçambicano
4- Levado em ombros pelos adeptos do Belenenses após a uma estreia de sonho diante do Sporting no Nacional da 1ª Divisão
5- Com Travassos na Selecção Nacional
6- O director do jornal "A Bola", Ribeiro dos Reis, entrega a Matateu uma das duas Bolas de Prata conquistadas pelo craque
7- Num desafio diante do Sporting
8- O cantinho de Matateu no Museu do Belenenses
9- É goooolooooo!!!!!!!!!... de Matateu
10-Matateu envergando as cores do Atlético, em 1966

sábado, outubro 23, 2010

Os 70 anos de um rei...


Considerado por muitos como o melhor jogador de futebol de todos os tempos Pelé cumpre hoje a bonita idade de 70 anos. O Museu Virtual do Futebol endereça ao astro brasileiro os mais sinceros parabéns.

quinta-feira, outubro 21, 2010

Grandes Mestres da Táctica (5)... Anselmo Fernandez

Nunca uma passagem tão fugaz pelo comando técnico de uma equipa gerou tanto sucesso como aquele angariado pelo nosso “mestre da táctica” de hoje. Pelo seu punho ajudou o Sporting Clube de Portugal – o seu clube do coração – a escrever uma das páginas mais reluzentes da sua gloriosa história. O seu amor ao futebol era puro e desinteressado, tão desinteressado que nunca quis viver às custas desta nobre modalidade. Assim não o tivesse feito - por outras palavras, se tivesse abraçado a bola como profissão a tempo inteiro - e hoje estariamos aqui a recordar os feitos de uma lenda mundial das tácticas como foram Herbert Chapman, Hugo Meisl, Vittorio Pozzo, Sepp Herberger, Bobby Robson, Alf Ramsey, Rinus Michels, entre outros, muitos outros homens que mais do que terem conquistado títulos de grande prestígio internacional ao longo das suas carreiras ajudaram o desporto rei a evoluir. Foram os cientistas da bola, imaginando e aplicando novos conceitos tácticos que revolucionaram o jogo ao longo de décadas. A ilustre personalidade de hoje andou muito perto do caminho da imortalidade no que concerne aos “mestres da táctica” já que também ele era um visionista, um homem que vivia adiantado no tempo.
Sem mais demoras apresentamos Anselmo Fernandez, o arquitecto, o homem que conduziu o Sporting à conquista da Taça dos Vencedores das Taças em 1964. Mas já lá vamos.
Anselmo Fernandez nasceu em Lisboa a 21 de Agosto de 1918 e desde cedo – como tantos outros – se deixou enfeitiçar pelo bichinho da bola. Aos 16 anos iniciou a sua curta carreira de futebolista no emblema da sua paixão, o Sporting. E curta porque uma apendicite o afastaria de uma possível carreira promissora. Desistiu do futebol mas não do desporto, enquanto praticante, sendo que tempos mais tarde iniciaria uma aventura no râguebi. Numa altura em que o profissionalismo no desporto estava ainda a léguas de ver a luz do dia Anselmo Fernandez nunca perdeu os estudos de vista, pelo que na hora de eleger uma profissão optou pela arquitectura.
Uma área onde foi mestre, não só nos edifícios que criou – entre outros foi responsável pela construção do Hotel Tivoli, e da Reitoria da Universidade, ambos em Lisboa, e com Sá da Costa foi também um dos mentores do projecto do antigo Estádio José de Alvalade – mas também nos projectos tácticos que haveria de desenhar de leão ao peito na década de 60.
Possuidor de um estilo de treino muito particular – entre outros aspectos foi o primeiro treinador português a recorrer ao vídeo para analisar os adversários – Anselmo Fernandez é chamado em 1962 a substituir o mítico treinador húngaro Joseph Szabo no comando do seu Sporting. Faria cinco jogos, e nos cinco obteve outras tantas vitórias. Desta primeira passagem pelo banco leonino encontrei recentemete um relato que o próprio Anselmo Fernandez fez ao jornal “A Bola”, o qual passo a reproduzir na integra:

Em 1962, dirigentes do Sporting pediram-lhe que se tornasse supervisor técnico do futebol do clube, para apoiar Szabo, que era já treinador com a estrela empalidecida. «As coisas
estavam a correr mal, chamaram-me a dar um jeito, em cinco jogos cinco vitórias, uma delas, sensacional, sobre o F. C. Porto, no Porto. Os portistas, depois de terem empatado na Luz, ficaram com o título quase garantido, mas nós acabámos por tramá-los...»
Foi nesse jogo do Porto que Anselmo Fernandez trouxe à colação os primeiros indícios da sua argúcia. E da sua personalidade. «Para esse jogo, não viajara com a equipa. Quando chegaram ao Porto, já eu estava no Hotel Batalha. Disseram-me que o Carvalho se portara
mal e que o Lúcio decidira, por si, comer três pregos e beber três cervejas em Aveiro, onde parámos para comer uma sande de fiambre e beber um sumo. Disse logo ao Juca, que era o treinador de campo, que não jogariam. Ficou em pânico! Quem poderia substituí-los? Disse-lhe que o Libânio e o Morato. Houve logo quem pensasse que eu
endoidecera. Mais convencidos disso ficaram quando me recusei a ir para o banco e quando vibrei com o golo do empate do... F. C. Porto! Manuel Nazaré, que me acompanhara para um recanto do relvado, perguntou-me, então, o que se passara. Disselhe
que aquele golo do F. C. Porto, pouco antes do intervalo era uma... leitaria, que, assim, ganharíamos pela certa. Assim foi, vencemos por 3-1. O Campeonato acabou, ofereceram-me uma fortuna, não quis, não era parvo e como era arquitecto...»


Posto isto um interregno de dois anos surgiu no caminho do arquitecto no que concerne ao trabalho directo com o futebol. Regressaria na temporada de 1963/64 e de novo ao comando do clube que tanto amava, o Sporting. Desta feita para substituir o brasileiro Gentil Cardoso, uma troca que não poderia ter um final mais feliz. Gentil Cardoso saira do clube pela porta pequena após ter sido goleado em Manchester por 4-1 pelo United local num encontro a contar para a 1ª mão dos quartos-de-final da Taça dos Vencedores da Taças (TVT), na altura já a segunda prova europeia mais importante ao nível de clubes da UEFA. Recorrendo uma vez mais aos arquivos históricos do jornal “A Bola” recordemos então o que se passou a seguir à terrível noite de Old Trafford.

Ao jantar, depois do jogo maldito, os directores estavam desolados. Aparentemente resignados. «Manuel Nazaré afirmou-me que nada haveria a fazer, que estávamos lixados. Gracejando, disse-lhe que comigo como treinador talvez não... O desabafo passou como ironia. Nem eu queria que fosse outra coisa. No domingo seguinte, contra o Olhanense, estava o Sporting empatado,
1-1, deixei o camarote, 15 minutos antes de o jogo terminar, cheguei a casa, disse à minha mulher que não tardaria a tocar o telefone. Assim foi. Era o Nazaré a convidar-me para treinador. Aceitei e chamei o Francisco Reboredo, que estava nos juniores do F. C. Porto, para treinador de campo. Na estreia, contra o Benfica, na Luz, empate a 2-2. E quarta-feira, aquele jogo mágico dos 5-0 ao Manchetser, a caminhada fulgurante para a conquista da Taça das Taças...»


Pois é, a epopeia começa aqui a escrever-se no célebre jogo da 2ª mão em Alvalade ante o Manchester United treinado por outra lenda da táctica, Matt Busby. Missão impossível para muitos, incluindo grande parte da família sportinguitsa, o que é certo é que naquela noite o futebol português viveu um dos momentos mais felizes e épicos da sua longa e gloriosa história, muito à custa do Sporting e em particular do homem que comandava os seus destinos desde então: o “arquitecto”. 5-0 e a eliminatória estava virada e o Sporting alcançado as meias-finais da prova europeia. O poderoso Manchester tinha sido vergado face a uma exibição do... outro mundo de 11 leões indomáveis. Mas a viagem de sonho não iria ficar-se por ali, muito longe disso. Antuérpia, bela cidade belga, seria o porto de destino – final – da nau leonina. Localidade onde foi realizada a finalissíma da TVT dessa temporada na sequência de um empate a três golos na final de Bruxelas. Em Antuérpia Morais deu aso ao sonho de trazer para Portugal a primeira e única TVT. E tudo aconteceu graças a um golo de canto directo... o cantinho do Morais como ficou eternizado. O Sporting vencia assim o seu único – até à data – troféu internacional. Um vitória arquitectada por Anselmo Fernandez, um homem que durante essa gloriosa campanha europeia não quis receber um único tostão que fosse do clube. Fez tudo por amor... amor ao futebol e ao Sporting.
“A Bola” recordou então que...

No entanto, quando Brás Medeiros tomou a presidência do Sporting, Jaime Duarte decidiu propor-lhe um verdadeiro contrato de treinador, oficializando uma situação que não era
justo continuar assim. «Ofereceram-me 15 contos por mês, valor que, naquela altura, era baixo para um treinador, sobretudo depois da vitória na Taça das Taças. Aceitei. Só recebi um mês, porque, já na época seguinte, depois de ganharmos 4-0 ao Bordéus, demiti-me simplesmente porque, antes do jogo, o vice-presidente Pereira da Silva decidiu enviar aos emigrantes em França uma carta de captação de simpatias, com as assinaturas de 11
jogadores. Leu a carta, ao almoço, embevecido, perguntou-me a opinião, disse-lhe que a ideia era gira, mas que achava que, por enquanto, ainda era eu o treinador, não percebendo, por isso, porque estavam lá aqueles 11 nomes e não outros. Ganhámos e...
em Lisboa, demiti-me. Nunca mais voltei ao Sporting...»


Anos mais tarde quando treinava a CUF – conjunto que levou à Taça UEFA – um terrível acidente de viação na ponte sobre o Tejo (Lisboa) colocou-o às portas da morte. Foi submetido a uma delicada operação ao cérebro, passando vários meses em coma. Driblou a morte e remeteu desde então o futebol para o baú das recordações. À “A Bola” recordaria anos mais tarde que «as luzes e a glória pertubaram-me. Por isso não me magoa que 99% dos sportinguistas possam não saber que o treinador do Sporting que ganhou a TVT foi um arquitecto de profissão, filho de espanhóis de Zamora, mas que nasceu em Lisboa e fez do Sporting a sua mais apaixonante ligação a Portugal».
Morreria a 19 de Janeiro de 2000, em Madrid.

Legenda das fotografias:
1- Anselmo Fernandez
2- A célebre equipa do Sporting que conquistou a TVT

quarta-feira, outubro 13, 2010

Grandes Clássicos da Bola (7)... Espanha - Itália

Os célebres duelos travados ao longo de décadas fazem com que hoje sejam encarados como verdadeiros clássicos. Daqueles jogos emblemáticos que enfeitam qualquer Campeonato do Mundo ou da Europa. A partir de hoje vamos então desfiar um pouco do novelo dos grandes clássicos que tiveram lugar nas duas maiores competições de futebol do planeta, começando esta nossa viagem no tempo pela sempre escaldante batalha entre Espanha e Itália.
Dois países que já se defrontaram nos relvados por mais em mais de uma vintena de ocasiões, contudo em jogos a doer, isto é, em palcos de fases finais de Mundiais e Europeus somente por cinco vezes o fizeram.

1934
A primeira delas foi talvez a mais épica, traduzida numa dura batalha lavrada em dois actos levados à cena em Florença, em 1934. Foi o ano em que a Itália organizou a segunda edição do Mundial da FIFA, um campeonato manchado pelo fascismo de Benito Mussolini. Para muitos este foi o Mundial da vergonha, da falta de verdade desportiva em grande parte dos jogos, em especial os da equipa da casa, a qual seria à vista de todos levada ao colo até ao título. Em 1934 o fascismo venceu... e não o futebol como teria razão de ser. Exemplos puros da falta de ética desportiva foram os confrontos entre espanhóis e italianos nos quartos-de-final da prova.
Em 31 de Maio desse longínquo ano subiram ao relvado do Estádio de Florença alguns homens que mais tarde haveriam de se tornar mitos do belo jogo, casos de Meazza, Schiavio, Combi, ou Zamora. Debaixo de um calor tórrido 38.000 almas assistiram a uma luta diabólica de 120 minutos entre duas das maiores potências futebolísticas da altura. Duas horas de futebol de um tremendo desgaste físico que em diversas ocasiões atingiu o limite das forças humanas. E assim o foi não só pela entrega apaixonada com que os atletas de ambas as selecções tiveram ao longo do jogo mas sobretudo pela violência extrema que nele vigorou. Em particular por parte dos italianos para quem tudo valia para travar os seus rivais, desde entradas violentíssimas, pontapés, ou socos. Tudo nas barbas do complacente árbitro belga Baert que fazia vista grossa aos bárbaros ataques dos italianos aos espanhóis. Apesar do massacre de que estava a ser alvo a Espanha inaugurou o marcador, por intermédio de Regueiro, aos 31 minutos. Ferrari igualaria aos 45 minutos, num lance irregular, já que o mítico guardião Zamora foi agarrado por um jogador da casa e desta forma impedido de disputar o lance. Roubo, gritaram os espanhóis, um grito de revolta que de nada valeria, pois Baert mais uma vez faria vista grossa e permitia à Itália ter uma nova oportunidade no dia seguinte de passar às meias-finais. Sim, porque no final dos 120 minutos o resultado teimosamente permanecia numa injusta – para “nuestros hermanos, não só pela superioridade patenteada como também pela actuação tendenciosa do juíz da partida – igualdade a um golo.
Como na época as grandes penalidades ainda não vigoravam como sistema de desempate marcou-se novo duelo para o dia seguinte. A violência da véspera tinha deixado profundas marcas nos dois combinados, em especial para o lado da Espanha que viu sete (!) dos seus craques impedidos – por lesão – de dar novo contributo à equipa, entre outros o “divino” Zamora. Mesmo assim as suas reservas voltaram a resistir heroicamente não só a mais uma sessão de pugilato por parte dos italianos como igualmente a uma actuação tendenciosa do árbitro. Neste último ponto há a sublinhar que se Baert prejudicou seriamente a Espanha o suíço Rene Mercet fê-lo a triplicar na partida de desempate. Mercet deu à Itália o passaporte para a fase seguinte, ignorando a violência de italianos, em especial de Monti que enviou o extremo da “roja” Bosh mais cedo para os balneários na sequência de uma monumental agressão a pontapé, e na anulação de dois golos limpos da selecção espanhola. Giuseppe Meazza como não quer a coisa apontou o único golo desta partida (aos 12 minutos) e a Itália seguia de forma rídicula para a meia-final. Aquando do seu regresso à Suíça Mercet foi irradeado pela federação de futebol deste país. Outra coisa não seria de esperar de um país que sempre se definiu em tudo como... neutral.
Vídeo: ITÁLIA - ESPANHA (1934) 

1980
Seria preciso esperar 46 anos para ver novamente Espanha e Itália esgrimirem argumentos em campo numa partida de uma fase final de uma grande competição. Tal facto ocorreu em 1980, e mais uma vez em solo transalpino, desta feita em Milão, num encontro da 1ª fase do Campeonato da Europa. Bem mais calmas do que em 34 as duas equipas empataram a zero no jogo de estreia do grupo B da fase final do Euro. Competição onde seriam os italianos a cavalgar mais além, já que chegariam às meias-finais, ao passo que a Espanha ficaria pela 1ª fase. Um Europeu onde a República Federal da Alemanha faria a festa final com a conquista do seu segundo ceptro continental.

Vídeo: ITÁLIA - ESPANHA (1980)

1988
E foi de novo numa fase final de um Europeu que os dois velhos inimigos se voltariam a cruzar, desta feita na Alemanha, mais concretamente em Frankfurt no dia 14 de Junho de 1988. Ambos lutavam por um lugar nas meias-finais do Euro 88, vindo os dois combinados de bons resultados na 1ª jornada do grupo A da citada competição. A Espanha havia saído de uma vitória sobre a Dinamarca (3-2) ao passo que a “squadra azzurra” havia empatado com a poderosa equipa da casa a uma bola. Poderosa era também a Itália daquela altura, que se apresentava no Euro com um misto de experiência (Bergomi, Baresi, e Altobelli) e juventude (Maldini, Vialli, e Mancini). Uma senhora selecção. Na Espanha começava a despontar a “Quinta del Buitre” formada por notáveis jogadores como Butragueño, Michel, Zubizarreta, Bakero ou Julio Salinas. Num encontro equilibrado Gianluca Vialli... desequilibrou. Estavam decorridos 73 minutos quando o então avançado da Sampdória fez o único golo do jogo e deu os dois pontos à sua selecção. Esta derrota seria fatal para a Espanha, equipa que no derradeiro jogo do grupo perdeu com a Alemanha e ficou arredada da fase seguinte. A Itália essa ficaria-se pelas meias-finais caindo aos pés de uma forte União Soviética. A Holanda de Van Basten e Gullit venceria a competição.
Vídeo: ITÁLIA - ESPANHA (1988)

1994
Após dois confrontos pacíficos, de certa forma, o sangue voltou a ser derramado num Espanha – Itália. Cenário traçado em Boston, nos Estados Unidos da América, durante o Mundial de 1994. Curiosamente, e tal como em 1934, este seria um duelo alusivo aos quartos-de-final do certame, e à semelhança do ocorrido nos anos 30 este seria igualmente um jogo marcado pelos nervos à flor da pele. Os agressores? Uma vez mais os transalpinos, ou melhor, o transalpino Mauro Tassotti. A cena fatal acontece já muito perto do fim do clássico, e numa altura em que a Espanha procurava com intensidade o empate a dois. A “fúria” (espanhola) beneficia de um pontapé de canto, e quando a bola pingava na área Tassotti dá uma cotovelda no rosto de Luis Enrique. Grande penalidade e consequente expulsão que o húngaro Sandor Puhl deixou passar em branco para espanto de todos os presentes no Estádio Foxboro naquela tarde de 9 de Julho. O agressor parece não entender – ou fingir não saber – o que se passa aquando da paragem do encontro, enquanto a vítima chora de raiva enquanto o sangue jorra pelo seu nariz. A Itália mais uma vez leva a melhor no que concerne a resultado final: 2-1, com golos dos Baggio (sem qualquer grau de parentesco entre si)... o Dino (aos 25 minutos) e o Roberto (aos 87), este último a grande estrela da “Azzurra” da época. Caminero marcara pelo caminho para a Espanha, quando o relógio registava 58 minutos.
O gozo – de mais uma vitória obtida – dos italianos sobre os velhos rivais terminaria dias mais tarde, altura em que sairam derrotados pelo Brasil na grande final do “USA 94”. Tassotti também não teve razões para voltar a sorrir, já que a agressão a Luis Enrique valeu-lhe a posterior suspensão de seis jogos.

Vídeo: ITÁLIA - ESPANHA (1994)

2008
Já diz o ditado que “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”, e à quinta foi de vez. A Espanha vencia a Itália pela primeira numa fase final de uma grande competição. Feito ocorrido há pouco mais de dois anos durante o Europeu organizado em conjunto pela Suíça e pela Áustria. E mais uma vez... nos quartos-de-final. Este jogo é encarado como a transição de poderes de um país para o outro. Por outras palavras, a Itália, campeã do Mundo em título (alcançado dois anos antes na Alemanha) apresenta-se neste Euro cansada e com um combinado muito perto da sua reforma, em contraste com uma jovem e excitante Espanha que dali para a frente iria dominar o planeta. O local da passagem de testemunho? O mítico Ernst Happel (também mundialmente conhecido como Estádio do Prater), em Viena. 22 de Junho foi a data da célebre cimeira latina.
Desde o apito inicial que os transalpinos esperavam um erro espanhol para chegar ao golo, enquanto a “armada espanhola” comandada pelo experiente técnico Luis Aragonés desenhava o seu jogo com passes curtos no seu meio-campo para ir ganhando metros até à baliza defendida pelo mago Buffon. Muito a custo a defesa “azzurra” foi sempre aguentando as investidas espanholas e só na segunda parte se assistiu a um verdadeiro lance de perigo da Itália junto da baliza contrária, o qual seria prontamente anulado pelo (já) lendário Casillas. A genial dupla de avançados da Espanha (Torres e Villa) estava presa à teia defensiva armada pelo treinador Donadoni pelo que o prolongamento chegou sem surpresa. Ai, ambos os conjuntos quiseram marcar, contudo a ansiedade aliada ao desgaste físico acabariam por aniquiliar os objectivos comuns. Seguiram-se as terríveis grandes penalidades para desempatar tudo. A lotaria saiu então à Espanha, que muito ficou a dever à inspiração do seu guardião Iker Casillas, o qual parou dois remates transalpinos. 4-2 no final, um resultado que ainda bafejado pela sorte dos penaltis consolidou de vez a “armada espanhola” de Fernando “El niño” Torres, David Villa, Casillas, David Silva, Puyol, Xavi, e Fabregas como a nova potência do futebol. A prova dos nove seria tirada alguns dias depois, também no Ernst Happel, onde um tento solitário de Torres (ante a Alemanha) deu o segundo título europeu a “nuestros hermanos”.
  
Vídeo: ITÁLIA - ESPANHA (2008)

2012
Tal como em 1934 o duelo entre italianos e espanhóis teve "dose dupla", ou seja, as duas equipas encontraram-se por duas ocasiões na mesma competição. Facto ocorrido no Euro 2012, disputado pela primeira vez no leste europeu, mais precisamente na Ucrânia e na Polónia. Espanha que partia para este Campeonato da Europa como a principal candidata à (re)conquista do título, não apenas porque era a detentora dos ceptros Europeu e Mundial, mas essencialmente porque continuava a ser a mais poderosa seleção do planeta. No entanto, a "máquina espanhola" seria travada no dia 10 de junho, em Gdansk (Polónia), quando no jogo inaugural do Grupo C do Euro 2012 a Itália ao realizar uma magnífica exibição
arrancou um empate a um golo, deixando no ar a ideia de que afinal o futebol da "roja" não era invencível. Di Natale, veterano goleador da Udinese, saltou do banco no início da 2ª parte para aos 60m colocar a armada espanhola em sentido, apontando o primeiro golo do encontro. A alegria transalpina durou apenas 4 minutos, já que o genial Cesc Fàbregas restabeleceria o empate na sequência de um passe magistral do não menos genial David Silva. As duas equipas voltariam a encontrar-se quase 3 semanas depois... na final desse Europeu. Kiev e o seu estádio olímpico acolheriam a grande final da competição, um duelo que pelo o que as duas equipas vinham fazendo se antevia equilibrado, mas tal previsão não viria a ser traduzida para a realidade. Exibindo o seu magistral futebol, o célebre "Tiki-taka", a Espanha arrasou por completo a Itália, ao construir uma pesada goleada de 4-0 (!) - a maior goleada numa final de um Campeonato da Europa - e renovar desta forma o título de "rainha da Europa". David Silva, Jordi Alba, Fernando Torres, e Juan Mata foram os autores dos golos da "roja" orientada por Vicente del Bosque. Ao revalidar o ceptro europeu os espanhóis faziam desde logo história no planeta da bola, pois tornavam-se na primeira seleção a ganhar 3 grandes competições planetárias consecutivas: Euro 2008, Mundial 2010, e Euro 2012. Para muitos a Espanha era de longe a melhor equipa da história do belo jogo (!), e jogadores como Casillas, Xavi, Xavi Alonzo, Iniesta, Sergio Ramos, Fàbregas, ou Torres, ascendiam definitivamente ao Olimpo dos Deuses do Futebol. (*)
(*) Texto escrito em julho de 2012
 Vídeo: ITÁLIA - ESPANHA (2012)

Legenda das fotografias:
1- Duas lendas das balizas: Combi e Zamora. Os capitães de Itália e Espanha, respectivamente, apertam as mãos de forma amistosa antes do primeiro duelo da história entre ambas as selecções. O pior estava para acontecer nas horas que se seguiram no relvado de Florença.
2- O golo irregular da Itália no primeiro jogo com a Espanha em 1934. Ferrari marca mas Zamora é agarrado e impedido de disputar o lance.
3- A Itália sempre produziu grandes guarda-redes ao longo da sua história, nesta foto aparece Dino Zoff, o capitão e comandante da Azzurra no Euro 80
4- Novo duelo entre os velhos rivais, desta feita em Frankfurt, durante o Euro 88
5- Polémico seria também o jogo de 1994, a contar para o Mundial. Aqui o italiano Maldini luta pela posse do esférico com o espanhol Goikotxea.
6- A começo do reinado da Espanha no trono do futebol mundial é bem capaz de ter começado neste jogo do Euro 2008 contra a Itália.
7-Imagem da final do Euro 2012, onde a Espanha esmagou por completo a Itália

terça-feira, outubro 12, 2010

Efemérides do Futebol (7)...

Um golo por espectador

Durante o início da segunda volta do campeonato belga alusivo à temporada de 1898/99 o Racing Club enfrentou o Athletic and Running Club em inferiodade numérica (10 jogadores) desde... o apito inicial do árbitro. Resultado final: 3-0 a favor desta última equipa. Mas o facto mais caricato desse encontro disputado debaixo de condições meteorológicas péssimas assentou em que ao recinto apenas se deslocaram... três espectadores! É verdade. Ora, sendo assim as estatísticas apontam que a partida teve um golo por espectador! Outros tempos...