sábado, outubro 30, 2010

Don Diego chega ao meio século de vida

Há quem lhe chame Deus... outros mágico... outros ainda um fenómeno da Natureza... eu simplesmente classifico-o como um misto das três, e é a ele que hoje tiro especialmente o meu "chapéu" para lhe endereçar os mais sinceros parabéns pelos seus ímpares 50 anos de vida.

quarta-feira, outubro 27, 2010

Grandes lendas do futebol mundial (9)... Matateu - O terror dos guarda-redes


É com enorme prazer que hoje regressamos à vitrina dedicada às grandes lendas do futebol mundial para falarmos sobre um dos maiores jogadores portugueses de todos os tempos, de seu nome Sebastião Lucas da Fonseca, ou simplesmente Matateu. Diz quem o viu jogador que foi um verdadeiro fenómeno, um jogador de uma classe ímpar mas que viveu um tudo ou nada adiantado no tempo, ou seja, viveu fora das épocas das grandes conquistas do futebol português. Faltou-lhe jogar a fase final de um Mundial, de um Europeu, discutir uma final da Taça dos Campeões Europeus, e quem sabe ter jogado num grande do futebol lusitano, coisa que nunca fez, pois se assim não fosse talvez estaríamos hoje aqui a discutir quem tinha sido o melhor jogador lusitano de todos os tempos, se Eusébio, se Figo, se Cristiano Ronaldo, ou se Matateu. Por aqui já dá para ver que este homem foi um gigante do mundo da bola. Vamos também falar de um ser humano cujo nome se confunde com o de um clube, o Belenenses, o emblema do seu coração, o emblema que o tornou célebre e... que ele também ajudou a tornar célebre. Devo confessar aos ilustres visitantes que escrever sobre Matateu me deu enorme prazer, pois sempre ouvi maravilhas deste homem, e sinto uma profunda tristeza em não o ter visto actuar pelo menos uma única vez na vida. Este mito do futebol luso nasceu a 26 de Julho de 1927, em Lourenço Marques, Moçambique, a mesma terra que anos mais tarde via nascer outros génios da bola como Eusébio ou Coluna. Filho de Lucas Matambo e de Margarida Heliodoro o menino Sebastião nasceu no bairro de Alto Mahé, onde como tantos outros ficou enfeitiçado pela bola desde cedo, começando a jogar de pé descalço na terra batida e de tronco nu ao frio ou calor do clima tropical do país de onde veio ao Mundo. Sebastião foi o terceiro filho do casal Lucas e Margarida, tendo depois de si nascido mais cinco irmãos, entre os quais Vicente, um rapazinho que um dia haveria de ser considerado como o único homem que conseguiu travar Pelé. Menino Sebastião viveu uma infância pobre, como a maior parte das crianças daquele tempo. A tristeza da pobreza era porém eclipsada pela paixão pelo futebol. No Alto de Mahé não havia uma só alma que não conhecesse o menino hábil e gingão com a bola nos pés. Por aquela altura Matateu era já o seu nome de guerra. Uma alcunha que segundo o próprio Sebastião Lucas dizia derivar da sua infância, ou seja, que "tateu" em landim significava pele a cair, ou crosta, e que a verdadeira origem desta alcunha residia no facto de «em criança quando me magoava, não tinha paciência para aguardar que a ferida secasse, arrancava a crosta antes de tempo». Menino Sebastião que desde cedo torceu o nariz aos estudos para grande desgosto – e arrelia, por vezes – de sua mãe, a qual não teve outro remédio senão conformar-se com o caminho traçado por este diamante que despontava nas ruas de Moçambique.

O início da aventura

Aos 16 anos Matateu deu o pontapé de saída de uma carreira fabulosa quando ingressou no João Albasini, clube este onde despontava o seu irmão mais velho. O seu talento fez com que estivesse por pouco tempo por estas paragens, já que tempos mais tarde foi contratado pelo 1º de Maio, o clube filial do Belenenses naquele país africano. Dali transitou para o Manjacaze, emblema este que lhe ofereceu um emprego como contrapartida para defender a sua camisola. E a estreia ao serviço daquele colectivo moçambicano foi de tal forma coroada de êxito que no final desse primeiro encontro o lendário Matateu seria abordado pelo árbitro do jogo, João Pedro Belo, um homem que enquanto jogador defendeu com brilho as cores do Belenenses e da própria Selecção Nacional, que lhe perguntaria se estaria disposto a ir para Lisboa. Embora Matateu ficasse surpreso perante tal convite o que é certo é que muito poucos naquela metrópole portuguesa acreditavam que seria possível segurar por muito mais tempo o astro da bola, não sendo de estranhar que à cidade de Lourenço Marques (actual Maputo) tivessem chegado propostas de clubes como o Benfica, o FC Porto, e o União de Coimbra. As notícias dos feitos extraordinários do diamante negro em terras africanas continuavam a chegar em catadupa a Portugal, e tomando conhecimento das mesmas o Belenenses não perdeu tempo em enviar um telegrama para Lourenço Marques pedindo à pérola africana que esquecesse a proposta de João Pedro Belo e ao invés disso apanhasse o primeiro avião para Lisboa onde à sua espera estariam responsáveis pelo emblema da Cruz de Crsito. «Tratar tudo urgentemente stop Matateu embarque Lisboa primeiro avião stop», assim ditava o famoso telegrama.

Chegada a Lisboa... e estreia de sonho

E assim foi, Matateu fez as malas e partiria rumo ao estrelato. Aterrou na capital portuguesa a 4 de Setembro de 1951 para assinar um contrato de 30 contos de luvas com o Belenenses, clube no qual passaria a usufruir de um ordenado mensal de 1600 escudos. A estreia com a camisola azul deu-se ante o FC Porto, no Estádio Nacional, num desafio a contar para a Taça Maia Loureiro. Nesse dia as ímpares qualidades do artista moçambicano ficariam desde logo vincadas, mas a consagração ocorreria uma semana mais tarde num jogo alusivo ao Campeonato Nacional da 1ª Divisão diante do Sporting. Nesse dia Matateu foi o diabo à solta, no bom sentido, colocando os “leões” em absoluto pânico perante a sua genialidade. O país pasmou ao ver aquele rapaz negro espalhar magia com a bola nos pés. Senhor de um drible curto “diabólico” e desconcertante, possuidor de um arranque notável e de um poderoso remate esta força da Natureza foi sem sombra para dúvida o destaque daquele célebre jogo que terminaria com a vitória dos azuis de Belém por 4-3. O génio marcaria dois golos, sendo que no final da partida os entusiastas adeptos belenenses invadiram o campo para carregar Matateu em ombros numa imagem que ficaria célebre. Naquele dia nascia o novo rei do futebol português. Dali em diante escusado será dizer que Matateu seria a estrela maior do Belenenses e do próprio futebol português, pelo menos até à chegada de outro génio oriundo de Moçambique, Eusébio.

Bolas de Prata e Selecção Nacional

Na sua segunda época em Portugal, 52/53, venceria a Bola de Prata, prestigiado troféu atribuido ao melhor marcador do principal campeonato nacional fruto dos seus 29 golos. Nessa mesma época os responsáveis da selecção portuguesa não hesitaram em chamar o novo mago da bola lusitana para defender as cores da equipa nacional. Um facto ocorrido a 23 de Novembro de 1952 diante da Áustria, no Estádio das Antas (Porto). O primeiro golo com as quinas ao peito deu-se um ano mais tarde num jogo amigável diante da África do Sul realizado no Estádio Nacional. Ao todo foram 13 os tentos que Matateu apontou nas 27 ocasiões que representou Portugal, tendo a última delas ocorrido a 22 de Maio de 1960 perante a Jugoslávia numa partida de apuramento para a Taça das Nações Europeias (prova que anos mais tarde seria rebaptizada de Campeonato da Europa). O instinto matador do astro voltaria a ser premiado na temporada de 54/55, altura em que arrecadou a sua segunda Bola de Prata como consequência dos seus 32 remates certeiros no Nacional da 1ª Divisão. Curiosamente, nesta mesma temporada, o Belenenses escrevia aquela que muitos consideram como a página mais triste da sua glorisosa história, a época em que perderia o título nacional no derradeiro jogo do campeonato. Um facto ocorrido a 24 de Abril de 1955, com o desaparecido Campo das Salésias como palco do famigerado episódio. Os intervenientes do duelo davam pelo nome de Belenenses e Sporting e caso os primeiros vencessem sagravam-se pela segunda vez na sua vida campeões de Portugal. A quatro minutos do final os azuis de Belém venciam por 2-1 o seu rival de Lisboa e os foguetes da festa começavam a ser preparados. No entanto, o sportinguista Martins tratou de estragar os festejos ao apontar o golo da igualdade que desta forma retirava o título ao Belenenses e oferecia-o ao Benfica. Matateu chorou nesse dia. Um dos seus maiores sonhos – que anos mais tarde confessaria – havia sido eclipsado a quatro minutos do final de um jogo de futebol. Nunca conseguiria ser campeão nacional ao serviço do seu Belenenses. Assim como nunca conseguiu bater o recorde de golos na Selecção Nacional – outro sonho particular – nem abrir a tão desejada cervejaria na zona de Belém.

Paixão pela cervejinha

Este último sonho é como que um derivado de outra das grandes paixões do astro: a cerveja. Diz quem com ele de perto conviveu que bebia 30 cervejas por dia! Fosse que dia fosse, dia de jogo incluido. Aliás, há uma história contraditória sobre este facto, já que uns dizem que sabendo deste particular vício de Matateu os responsáveis do Belenenses autorizavam-no a beber a cervejinha da prache no intervalo dos jogos, sendo que apenas ele o podia fazer, ao passo que a restante equipa bebia o habital cházinho. Outros porém, dizem que ele desafiava as ordens dos treinadores e dirigentes azuis e ingeria mais do que uma cerveja por jogo, já que alguém lhas escondia atrás das sanitas dos balneários! Voltando aos títulos, o único que conquistou ao serviço do Belenenses foi a Taça de Portugal de 1960 diante do... Sporting. É verdade, os “leões” sempre no caminho de Matateu, no melhor e no pior. Neste caso no melhor, já que uma vitória por 2-1, com o tento da vitória a ser apontado por menino Sebastião, daria a segunda taça da história ao emblema azul. Outra história curiosa retrata o nascimento da única filha de Matateu, fruto do seu primeiro casamento. Jogava-se um Portugal – Argentina no Estádio Nacional e no desenrolar do encontro a instalação sonora do recinto dá conta do nascimento do primeiro rebento do craque nacional que na hora de escolher um nome para a sua menina optou por... Argentina. Original, no mínimo. Por falar em partidas internacionais não é demais sublinhar que o reconhecimento além-fronteiras pelo génio tivesse começado bem cedo. Na edição de 1955 da Taça Latina (a antecessora da Taça dos Campeões Europeus) a imprensa internacional rendeu-se a Matateu em consequência das suas sublimes exibições nos relvados parisienses (Paris acolheu a fase final dessa Taça Latina) que ofuscaram génios como Di Stéfano e Kopa.

O declínio? Não para Matateu

Os anos foram-se passando e pessoas existiram no universo futebolístico que começaram a duvidar das capacidades do génio. Caso de Fernando Vaz, célebre treinador que na altura de assumir os destinos do Belenenses colocou de imediato em causa a utilidade do jogador ao clube. Em Novembro de 1964 os responsáveis do Belenenses prometem-lhe uma grande festa de homenagem... quase em jeito de despedida, para no mês seguinte o terem dispensado! Um dos poucos a opor-se a esta precipitada decisão foi o histórico dirigente azul Acácio Rosa, para o qual Matateu ainda poderia ser muito útil ao Belenenses. Clube pelo qual contabilizou números impressionantes: 217 golos em 291 jogos realizados na 1ª Divisão! Só na 1ª Divisão, pois se juntarmos os apontados na Taça de Portugal, nas competições europeias (Taça Latina e Taça das Cidades com Feira), e noutras provas secundárias a marca assume proporções assombrosas. Mas o que é certo é que o génio oriundo de Lourenço Marques abandonou o clube do seu coração, mas não o fez em relação ao futebol. A sua carreira estava ainda muito longe de terminar, tal como se viria a verificar. Em 1965/66 ajudou o Atlético a subir à 1ª Divisão Nacional, e aos 41 anos assinou pelo Amora, que na altura se encontrava nos campeonatos distritais, e também aí fez história já que ajudou o pequeno clube a subir e a cimentar-se nos campeonatos nacionais. Antes do Amora uma fugaz passagem pelo Gouveia veio provar que Matateu ainda estava bem vivo. Foi então que decidiu emigrar, mais concretamente para o Canadá, onde encantaria um povo carente de grandes momentos de futebol. Foi estrela num país onde o futebol assume um papel secundário. Ali jogaria no First Portuguese para pouco depois regressar a Portugal para uma nova aventura em Chaves no Desportivo local. No entanto, em 1969 regressa ao Canadá para vestir a camisola do Sagres de Vitória onde jogaria até aos 55 anos! E naquele país da América do Norte viveria até ao final da sua vida, ali casaria uma segunda vez, ali viria a falecer a 27 de Janeiro de 2000 com 72 anos com o seu Belenenses sempre no coração. Viajando pelo mundo virtual em busca de testemunhos capazes de abrilhantar as modestas linhas por mim acabadas de elaborar em torno deste génio encontrei duas pérolas jornalísticas de grande interesse que descrevem um pouco da vida desta lenda do futebol mundial. Uma é da autoria de um homem que muito admiro enquanto jornalista, Rui Miguel Tovar, que por alturas do 10º aniversário da morte de Matateu entrevistou para o jornal “I” um homem que teve o privilégio de treinar o astro africano. Outra é senão mais do que uma compliação de relatos feitos na primeira pessoa – pelo próprio Matateu – ao jornal “A Bola” aquando da sua passagem pelo Amora. Aqui ficam:

Por: Rui Miguel Tovar
«Maputo, capital de Moçambique e antigamente conhecida como Lourenço Marques, é a terceira cidade com mais internacionais na selecção portuguesa, depois de Lisboa e Porto. Ao todo, são 16 e há de quase tudo, menos guarda-redes (Costa Pereira nasceu lá perto, em Nacala). Nomes clássicos como Eusébio, Coluna, Hilário, Juca, Vicente, Matine, os gémeos Pedro e Carlos Xavier saltam à vista mas só um foi apelidado pelos ingleses de oitava maravilha do mundo: Sebastião Lucas da Fonseca, ou Matateu. O i faz-lhe aqui a homenagem, precisamente no dia em que se celebra o 10.o aniversário da sua morte. Artur Quaresma, tio-avô de Ricardo (o do Inter), hoje com 93 anos, que treinou o avançado no Belenenses confirma-nos: "Matateu era uma maravilha." Para já, a pergunta sacramental: quem foi Matateu? "Isso agora, pfff. Bem, vou tentar ser prático. Era um fenómeno que, infelizmente, nunca foi campeão, embora andasse lá perto [em 1954-55, o Sporting empatou 2-2 nas Salésias, na última jornada, com um golo aos 86', e roubou o título ao Belenenses, a favor do Benfica]. Era grande, musculoso e encorpado. Impunha-se facilmente pelo físico e destacava-se pelo arranque, pelas passadas com a bola controlada, pelo remate forte ou em jeito, pelo drible. Era uma força da natureza." E que fez Matateu? "Além de marcar golos a torto e a direito [218 em 289 jogos na 1.a divisão], muitos deles impossíveis, outros banais, que lhe garantiram o título de melhor marcador da 1.ª divisão [29 golos em 26 jogos na época 1952-53 e 32 em 26 na de 1954-55], era um autêntico quebra-cabeças. Equipas como Sporting, FC Porto e Benfica marcavam-no homem a homem, num tempo em que nem se pensava nessas modernices. Ele chegou a Portugal [4 de Setembro de 1951] com um contrato de fazer rir e ao mesmo tempo de fazer corar de vergonha os actuais jogadores [30 contos de luvas e 1600 escudos de salário por mês], três meses depois de eu abandonar o futebol. Não nos cruzámos por pouco, mas fiquei feliz por ver a estreia ao vivo, num Belenenses-Sporting numa 1.ª jornada. Ganhámos 4-3, com dois golos dele, o último dos quais aos 88 minutos, e ele foi carregado em ombros pelos adeptos até aos balneários. Logo aí ficou conhecido como astro pela imprensa portuguesa." A alcunha da oitava maravilha do mundo veio mais tarde. Em Maio de 1955, a Inglaterra perdeu pela primeira vez com Portugal (3-1 no Jamor) e os jornalistas britânicos, sobretudo o enviado do "Daily Sketch", um tablóide nascido em Manchester nos anos 20 e que foi sugado na década de 70 pelo "Daily Mail", descreveu Matateu da seguinte forma: "Um negro sempre sorridente, de Moçambique, é, esta noite, o rei do futebol português. Lá foi-lhe dado o nome de Lucas, mas há muito tempo que já ninguém se preocupa com isso. Passaram-lhe a chamar Matateu - um cognome que significa oitava maravilha do mundo - desde que começou a driblar como um mago e a chutar como um canhão. Fomos derrotados por essa oitava maravilha que rebaixou e humilhou uma Inglaterra destroçada e inebriada. E não há justificação porque, com excepção do maravilhoso Matateu, o grupo português é uma equipa de passeantes, com apenas uma vitória nos últimos 19 jogos." A coisa não se fica por aqui. Nesse mesmo ano, Matateu foi eleito pela imprensa como o melhor jogador da Taça Latina-55, precursora da Taça dos Campeões, à frente de Di Stéfano e Puskas, ambos do Real Madrid. Como titulava a revista "Miroir Sprint", "Di Stéfano perdeu o sorriso frente a Matateu". Em 1957, o Belenenses fez uma digressão pelo Brasil e jogou no Maracanã, onde Matateu atirou três à barra antes de Pelé marcar os primeiros golos internacionais no misto Vasco/Santos. Só para acabar, em 1959, num RDA-Portugal de qualificação para o Europeu, em Berlim, o nome de Matateu é entoado por militares alemães que o rodeiam no final do jogo, ao ponto de ele perguntar ao jornalista Aurélio Márcio: "Vistes os russos a chamar pelo meu nome?" Tudo em nome do futebol. E sempre com uma cervejinha ao intervalo, a sua imagem de marca. E lá voltamos ao Artur Quaresma. "Comigo a treiná-lo, nunca bebeu. Pedi-lhe com bons modos e ele acatou. Ficava no balneário a ouvir-me e a motivar os mais novos. Naquela altura a gente entendia-se mais facilmente que agora, em que um futebolista ganha mais que um treinador, o manda passear, faz o que lhe apetece." Depois do Belenenses, onde ganha a Taça de Portugal-60 ao Sporting, Matateu ainda joga no Atlético, que ajuda a subir à 1ª divisão em 1966. No posterior pingue-pongue entre Américas (First Portugueses e Sagres da Vitória) e Portugal (Gouveia, Amora e Chaves), só acaba a carreira aos 55 anos.
Excerto da entrevista ao Jornal "A BOLA" 18/01/69 . E foi então que na época 1968/69, que Lucas Sebastião da Fonseca, mais conhecido por Matateu, ingressou no AMORA FUTEBOL CLUBE . Talvez numa das épocas mais lindas do clube, e ele contava com 41 anos de idade, mas parecia que tinha 19. Foi no dia 20/10/68 pelas 15 horas, e a contar para a 1ª. Jornada do Campeonato Distrital da 1ªDivisão da Associação de Futebol de Setúbal, que Matateu reapareceu para o futebol. O Amora F.C. recebeu o Monte - Caparica, e venceu por 3-1, marcando Matateu o segundo golo.

Na primeira página do Jornal "A BOLA" lia-se. AMORA CEMITÉRIO ADIADO. MATATEU A TRÊS CONTOS POR MÊS. «O Angenja, que era o treinador do Amora, perguntou-me se eu estava interessado, e eu perguntei quais eram as condições e depois aceitei. Muita gente me tem dito, então Lucas, tu foste internacional tantas vezes, aceitas ir jogar para um clube assim que nem é da 3ª. Divisão? «Mas eu respondi sempre que isso não me interessava, futebol é futebol e é igual em toda a parte, isso de divisões tanto me faz, a primeira como a segunda ou a terceira, são só números e nada mais. O futebol é só um e é sempre o mesmo, o que importa é que eu me dê bem com os colegas e com toda a gente e que o dinheiro não falte no fim do mês...»

Excerto da entrevista ao Jornal "A BOLA" 18/01/69 O Campo da Medideira registava na altura enchentes e muitos dos adeptos eram do Belenenses, que preferiam ir ver o Matateu a jogar pelo Amora. As receitas na altura aumentaram, mas isso não chegava. O Amora F.C. teve na altura grandes despesas. Foi a electrificação do campo, foi a construção de novos balneários, o treinador Angenja ganhava 3.500 escudos por mês e Matateu 3.000 escudos. Era muito dinheiro para um clube como o Amora F.C. Para ultrapassar isso, alguns amigos do Amora, conseguiram arranjar um grupo de sócios especiais, cujas quotas se destinavam especialmente a custear o ordenado de Matateu. A resposta de Matateu, para além de meter o clube nos nacionais de futebol, do qual ainda permanece, pois o Amora F.C. subiu à 3ª Divisão Nacional e nunca mais, até hoje voltou aos distritais, foi: «Em Amora, o ambiente é maravilhoso. É um clube pequeno que têm grandes despesas, mas em pagamentos, nunca falha, no fim do mês, recebemos o ordenado, depois de quinze em quinze dias, pagam-nos os prémios. Assim, nunca é preciso meter vales, a gente já sabe, é só esperar por esses dias»

Excerto da entrevista ao Jornal "A BOLA" 18/01/69 Na Amora, Matateu foi tratado carinhosamente por toda a gente, conseguindo ser pela primeira vez na sua longa e gloriosa carreira, CAMPEÃO. Não foi nacional, mas sim distrital, obtendo 21 golos, através da sua magnifica experiência garantindo o título de Rei dos Marcadores da Ass. Fut. Setúbal. Para além desses títulos, Matateu e o Amora F.C. conseguiram ganhar a TAÇA SOCER. Na final derrotaram o Seixal F.C. por 1-0, numa dessas jogadas geniais, Matateu após várias fintas correu à linha de fundo, centrou primorosamente para Toni Brito, que à vontade marcou o único golo da partida. Iam decorridos 35 minutos. A cerveja sempre foi a bebida preferida de Matateu. Em entrevista ao Jornal "A BOLA" no dia 18/01/69 disse: «Tenho 41 anos, mas parece que tenho 19, porque estou conservado em cerveja». «Acredite, quando não bebo cerveja, não sou o mesmo, sinto-me mal e o meu rendimento é sempre inferior» . « É verdade, se eu não bebesse cerveja, já teria arrumado as botas há muito tempo». Assim, enquanto o resto da equipa se contentava com o cházinho do costume, Matateu bebia a sua cervejinha.

Legenda das fotografias:
1- Sebastião Lucas da Fonseca... o popular Matateu
2- O pequeno Sebastião ladeado pelas mulheres da sua família
3- O estilo inconfundível do astro moçambicano
4- Levado em ombros pelos adeptos do Belenenses após a uma estreia de sonho diante do Sporting no Nacional da 1ª Divisão
5- Com Travassos na Selecção Nacional
6- O director do jornal "A Bola", Ribeiro dos Reis, entrega a Matateu uma das duas Bolas de Prata conquistadas pelo craque
7- Num desafio diante do Sporting
8- O cantinho de Matateu no Museu do Belenenses
9- É goooolooooo!!!!!!!!!... de Matateu
10-Matateu envergando as cores do Atlético, em 1966

sábado, outubro 23, 2010

Os 70 anos de um rei...


Considerado por muitos como o melhor jogador de futebol de todos os tempos Pelé cumpre hoje a bonita idade de 70 anos. O Museu Virtual do Futebol endereça ao astro brasileiro os mais sinceros parabéns.

quinta-feira, outubro 21, 2010

Grandes Mestres da Táctica (5)... Anselmo Fernandez

Nunca uma passagem tão fugaz pelo comando técnico de uma equipa gerou tanto sucesso como aquele angariado pelo nosso “mestre da táctica” de hoje. Pelo seu punho ajudou o Sporting Clube de Portugal – o seu clube do coração – a escrever uma das páginas mais reluzentes da sua gloriosa história. O seu amor ao futebol era puro e desinteressado, tão desinteressado que nunca quis viver às custas desta nobre modalidade. Assim não o tivesse feito - por outras palavras, se tivesse abraçado a bola como profissão a tempo inteiro - e hoje estariamos aqui a recordar os feitos de uma lenda mundial das tácticas como foram Herbert Chapman, Hugo Meisl, Vittorio Pozzo, Sepp Herberger, Bobby Robson, Alf Ramsey, Rinus Michels, entre outros, muitos outros homens que mais do que terem conquistado títulos de grande prestígio internacional ao longo das suas carreiras ajudaram o desporto rei a evoluir. Foram os cientistas da bola, imaginando e aplicando novos conceitos tácticos que revolucionaram o jogo ao longo de décadas. A ilustre personalidade de hoje andou muito perto do caminho da imortalidade no que concerne aos “mestres da táctica” já que também ele era um visionista, um homem que vivia adiantado no tempo.
Sem mais demoras apresentamos Anselmo Fernandez, o arquitecto, o homem que conduziu o Sporting à conquista da Taça dos Vencedores das Taças em 1964. Mas já lá vamos.
Anselmo Fernandez nasceu em Lisboa a 21 de Agosto de 1918 e desde cedo – como tantos outros – se deixou enfeitiçar pelo bichinho da bola. Aos 16 anos iniciou a sua curta carreira de futebolista no emblema da sua paixão, o Sporting. E curta porque uma apendicite o afastaria de uma possível carreira promissora. Desistiu do futebol mas não do desporto, enquanto praticante, sendo que tempos mais tarde iniciaria uma aventura no râguebi. Numa altura em que o profissionalismo no desporto estava ainda a léguas de ver a luz do dia Anselmo Fernandez nunca perdeu os estudos de vista, pelo que na hora de eleger uma profissão optou pela arquitectura.
Uma área onde foi mestre, não só nos edifícios que criou – entre outros foi responsável pela construção do Hotel Tivoli, e da Reitoria da Universidade, ambos em Lisboa, e com Sá da Costa foi também um dos mentores do projecto do antigo Estádio José de Alvalade – mas também nos projectos tácticos que haveria de desenhar de leão ao peito na década de 60.
Possuidor de um estilo de treino muito particular – entre outros aspectos foi o primeiro treinador português a recorrer ao vídeo para analisar os adversários – Anselmo Fernandez é chamado em 1962 a substituir o mítico treinador húngaro Joseph Szabo no comando do seu Sporting. Faria cinco jogos, e nos cinco obteve outras tantas vitórias. Desta primeira passagem pelo banco leonino encontrei recentemete um relato que o próprio Anselmo Fernandez fez ao jornal “A Bola”, o qual passo a reproduzir na integra:

Em 1962, dirigentes do Sporting pediram-lhe que se tornasse supervisor técnico do futebol do clube, para apoiar Szabo, que era já treinador com a estrela empalidecida. «As coisas
estavam a correr mal, chamaram-me a dar um jeito, em cinco jogos cinco vitórias, uma delas, sensacional, sobre o F. C. Porto, no Porto. Os portistas, depois de terem empatado na Luz, ficaram com o título quase garantido, mas nós acabámos por tramá-los...»
Foi nesse jogo do Porto que Anselmo Fernandez trouxe à colação os primeiros indícios da sua argúcia. E da sua personalidade. «Para esse jogo, não viajara com a equipa. Quando chegaram ao Porto, já eu estava no Hotel Batalha. Disseram-me que o Carvalho se portara
mal e que o Lúcio decidira, por si, comer três pregos e beber três cervejas em Aveiro, onde parámos para comer uma sande de fiambre e beber um sumo. Disse logo ao Juca, que era o treinador de campo, que não jogariam. Ficou em pânico! Quem poderia substituí-los? Disse-lhe que o Libânio e o Morato. Houve logo quem pensasse que eu
endoidecera. Mais convencidos disso ficaram quando me recusei a ir para o banco e quando vibrei com o golo do empate do... F. C. Porto! Manuel Nazaré, que me acompanhara para um recanto do relvado, perguntou-me, então, o que se passara. Disselhe
que aquele golo do F. C. Porto, pouco antes do intervalo era uma... leitaria, que, assim, ganharíamos pela certa. Assim foi, vencemos por 3-1. O Campeonato acabou, ofereceram-me uma fortuna, não quis, não era parvo e como era arquitecto...»


Posto isto um interregno de dois anos surgiu no caminho do arquitecto no que concerne ao trabalho directo com o futebol. Regressaria na temporada de 1963/64 e de novo ao comando do clube que tanto amava, o Sporting. Desta feita para substituir o brasileiro Gentil Cardoso, uma troca que não poderia ter um final mais feliz. Gentil Cardoso saira do clube pela porta pequena após ter sido goleado em Manchester por 4-1 pelo United local num encontro a contar para a 1ª mão dos quartos-de-final da Taça dos Vencedores da Taças (TVT), na altura já a segunda prova europeia mais importante ao nível de clubes da UEFA. Recorrendo uma vez mais aos arquivos históricos do jornal “A Bola” recordemos então o que se passou a seguir à terrível noite de Old Trafford.

Ao jantar, depois do jogo maldito, os directores estavam desolados. Aparentemente resignados. «Manuel Nazaré afirmou-me que nada haveria a fazer, que estávamos lixados. Gracejando, disse-lhe que comigo como treinador talvez não... O desabafo passou como ironia. Nem eu queria que fosse outra coisa. No domingo seguinte, contra o Olhanense, estava o Sporting empatado,
1-1, deixei o camarote, 15 minutos antes de o jogo terminar, cheguei a casa, disse à minha mulher que não tardaria a tocar o telefone. Assim foi. Era o Nazaré a convidar-me para treinador. Aceitei e chamei o Francisco Reboredo, que estava nos juniores do F. C. Porto, para treinador de campo. Na estreia, contra o Benfica, na Luz, empate a 2-2. E quarta-feira, aquele jogo mágico dos 5-0 ao Manchetser, a caminhada fulgurante para a conquista da Taça das Taças...»


Pois é, a epopeia começa aqui a escrever-se no célebre jogo da 2ª mão em Alvalade ante o Manchester United treinado por outra lenda da táctica, Matt Busby. Missão impossível para muitos, incluindo grande parte da família sportinguitsa, o que é certo é que naquela noite o futebol português viveu um dos momentos mais felizes e épicos da sua longa e gloriosa história, muito à custa do Sporting e em particular do homem que comandava os seus destinos desde então: o “arquitecto”. 5-0 e a eliminatória estava virada e o Sporting alcançado as meias-finais da prova europeia. O poderoso Manchester tinha sido vergado face a uma exibição do... outro mundo de 11 leões indomáveis. Mas a viagem de sonho não iria ficar-se por ali, muito longe disso. Antuérpia, bela cidade belga, seria o porto de destino – final – da nau leonina. Localidade onde foi realizada a finalissíma da TVT dessa temporada na sequência de um empate a três golos na final de Bruxelas. Em Antuérpia Morais deu aso ao sonho de trazer para Portugal a primeira e única TVT. E tudo aconteceu graças a um golo de canto directo... o cantinho do Morais como ficou eternizado. O Sporting vencia assim o seu único – até à data – troféu internacional. Um vitória arquitectada por Anselmo Fernandez, um homem que durante essa gloriosa campanha europeia não quis receber um único tostão que fosse do clube. Fez tudo por amor... amor ao futebol e ao Sporting.
“A Bola” recordou então que...

No entanto, quando Brás Medeiros tomou a presidência do Sporting, Jaime Duarte decidiu propor-lhe um verdadeiro contrato de treinador, oficializando uma situação que não era
justo continuar assim. «Ofereceram-me 15 contos por mês, valor que, naquela altura, era baixo para um treinador, sobretudo depois da vitória na Taça das Taças. Aceitei. Só recebi um mês, porque, já na época seguinte, depois de ganharmos 4-0 ao Bordéus, demiti-me simplesmente porque, antes do jogo, o vice-presidente Pereira da Silva decidiu enviar aos emigrantes em França uma carta de captação de simpatias, com as assinaturas de 11
jogadores. Leu a carta, ao almoço, embevecido, perguntou-me a opinião, disse-lhe que a ideia era gira, mas que achava que, por enquanto, ainda era eu o treinador, não percebendo, por isso, porque estavam lá aqueles 11 nomes e não outros. Ganhámos e...
em Lisboa, demiti-me. Nunca mais voltei ao Sporting...»


Anos mais tarde quando treinava a CUF – conjunto que levou à Taça UEFA – um terrível acidente de viação na ponte sobre o Tejo (Lisboa) colocou-o às portas da morte. Foi submetido a uma delicada operação ao cérebro, passando vários meses em coma. Driblou a morte e remeteu desde então o futebol para o baú das recordações. À “A Bola” recordaria anos mais tarde que «as luzes e a glória pertubaram-me. Por isso não me magoa que 99% dos sportinguistas possam não saber que o treinador do Sporting que ganhou a TVT foi um arquitecto de profissão, filho de espanhóis de Zamora, mas que nasceu em Lisboa e fez do Sporting a sua mais apaixonante ligação a Portugal».
Morreria a 19 de Janeiro de 2000, em Madrid.

Legenda das fotografias:
1- Anselmo Fernandez
2- A célebre equipa do Sporting que conquistou a TVT

quarta-feira, outubro 13, 2010

Grandes Clássicos da Bola (7)... Espanha - Itália

Os célebres duelos travados ao longo de décadas fazem com que hoje sejam encarados como verdadeiros clássicos. Daqueles jogos emblemáticos que enfeitam qualquer Campeonato do Mundo ou da Europa. A partir de hoje vamos então desfiar um pouco do novelo dos grandes clássicos que tiveram lugar nas duas maiores competições de futebol do planeta, começando esta nossa viagem no tempo pela sempre escaldante batalha entre Espanha e Itália.
Dois países que já se defrontaram nos relvados por mais em mais de uma vintena de ocasiões, contudo em jogos a doer, isto é, em palcos de fases finais de Mundiais e Europeus somente por cinco vezes o fizeram.

1934
A primeira delas foi talvez a mais épica, traduzida numa dura batalha lavrada em dois actos levados à cena em Florença, em 1934. Foi o ano em que a Itália organizou a segunda edição do Mundial da FIFA, um campeonato manchado pelo fascismo de Benito Mussolini. Para muitos este foi o Mundial da vergonha, da falta de verdade desportiva em grande parte dos jogos, em especial os da equipa da casa, a qual seria à vista de todos levada ao colo até ao título. Em 1934 o fascismo venceu... e não o futebol como teria razão de ser. Exemplos puros da falta de ética desportiva foram os confrontos entre espanhóis e italianos nos quartos-de-final da prova.
Em 31 de Maio desse longínquo ano subiram ao relvado do Estádio de Florença alguns homens que mais tarde haveriam de se tornar mitos do belo jogo, casos de Meazza, Schiavio, Combi, ou Zamora. Debaixo de um calor tórrido 38.000 almas assistiram a uma luta diabólica de 120 minutos entre duas das maiores potências futebolísticas da altura. Duas horas de futebol de um tremendo desgaste físico que em diversas ocasiões atingiu o limite das forças humanas. E assim o foi não só pela entrega apaixonada com que os atletas de ambas as selecções tiveram ao longo do jogo mas sobretudo pela violência extrema que nele vigorou. Em particular por parte dos italianos para quem tudo valia para travar os seus rivais, desde entradas violentíssimas, pontapés, ou socos. Tudo nas barbas do complacente árbitro belga Baert que fazia vista grossa aos bárbaros ataques dos italianos aos espanhóis. Apesar do massacre de que estava a ser alvo a Espanha inaugurou o marcador, por intermédio de Regueiro, aos 31 minutos. Ferrari igualaria aos 45 minutos, num lance irregular, já que o mítico guardião Zamora foi agarrado por um jogador da casa e desta forma impedido de disputar o lance. Roubo, gritaram os espanhóis, um grito de revolta que de nada valeria, pois Baert mais uma vez faria vista grossa e permitia à Itália ter uma nova oportunidade no dia seguinte de passar às meias-finais. Sim, porque no final dos 120 minutos o resultado teimosamente permanecia numa injusta – para “nuestros hermanos, não só pela superioridade patenteada como também pela actuação tendenciosa do juíz da partida – igualdade a um golo.
Como na época as grandes penalidades ainda não vigoravam como sistema de desempate marcou-se novo duelo para o dia seguinte. A violência da véspera tinha deixado profundas marcas nos dois combinados, em especial para o lado da Espanha que viu sete (!) dos seus craques impedidos – por lesão – de dar novo contributo à equipa, entre outros o “divino” Zamora. Mesmo assim as suas reservas voltaram a resistir heroicamente não só a mais uma sessão de pugilato por parte dos italianos como igualmente a uma actuação tendenciosa do árbitro. Neste último ponto há a sublinhar que se Baert prejudicou seriamente a Espanha o suíço Rene Mercet fê-lo a triplicar na partida de desempate. Mercet deu à Itália o passaporte para a fase seguinte, ignorando a violência de italianos, em especial de Monti que enviou o extremo da “roja” Bosh mais cedo para os balneários na sequência de uma monumental agressão a pontapé, e na anulação de dois golos limpos da selecção espanhola. Giuseppe Meazza como não quer a coisa apontou o único golo desta partida (aos 12 minutos) e a Itália seguia de forma rídicula para a meia-final. Aquando do seu regresso à Suíça Mercet foi irradeado pela federação de futebol deste país. Outra coisa não seria de esperar de um país que sempre se definiu em tudo como... neutral.
Vídeo: ITÁLIA - ESPANHA (1934) 

1980
Seria preciso esperar 46 anos para ver novamente Espanha e Itália esgrimirem argumentos em campo numa partida de uma fase final de uma grande competição. Tal facto ocorreu em 1980, e mais uma vez em solo transalpino, desta feita em Milão, num encontro da 1ª fase do Campeonato da Europa. Bem mais calmas do que em 34 as duas equipas empataram a zero no jogo de estreia do grupo B da fase final do Euro. Competição onde seriam os italianos a cavalgar mais além, já que chegariam às meias-finais, ao passo que a Espanha ficaria pela 1ª fase. Um Europeu onde a República Federal da Alemanha faria a festa final com a conquista do seu segundo ceptro continental.

Vídeo: ITÁLIA - ESPANHA (1980)

1988
E foi de novo numa fase final de um Europeu que os dois velhos inimigos se voltariam a cruzar, desta feita na Alemanha, mais concretamente em Frankfurt no dia 14 de Junho de 1988. Ambos lutavam por um lugar nas meias-finais do Euro 88, vindo os dois combinados de bons resultados na 1ª jornada do grupo A da citada competição. A Espanha havia saído de uma vitória sobre a Dinamarca (3-2) ao passo que a “squadra azzurra” havia empatado com a poderosa equipa da casa a uma bola. Poderosa era também a Itália daquela altura, que se apresentava no Euro com um misto de experiência (Bergomi, Baresi, e Altobelli) e juventude (Maldini, Vialli, e Mancini). Uma senhora selecção. Na Espanha começava a despontar a “Quinta del Buitre” formada por notáveis jogadores como Butragueño, Michel, Zubizarreta, Bakero ou Julio Salinas. Num encontro equilibrado Gianluca Vialli... desequilibrou. Estavam decorridos 73 minutos quando o então avançado da Sampdória fez o único golo do jogo e deu os dois pontos à sua selecção. Esta derrota seria fatal para a Espanha, equipa que no derradeiro jogo do grupo perdeu com a Alemanha e ficou arredada da fase seguinte. A Itália essa ficaria-se pelas meias-finais caindo aos pés de uma forte União Soviética. A Holanda de Van Basten e Gullit venceria a competição.
Vídeo: ITÁLIA - ESPANHA (1988)

1994
Após dois confrontos pacíficos, de certa forma, o sangue voltou a ser derramado num Espanha – Itália. Cenário traçado em Boston, nos Estados Unidos da América, durante o Mundial de 1994. Curiosamente, e tal como em 1934, este seria um duelo alusivo aos quartos-de-final do certame, e à semelhança do ocorrido nos anos 30 este seria igualmente um jogo marcado pelos nervos à flor da pele. Os agressores? Uma vez mais os transalpinos, ou melhor, o transalpino Mauro Tassotti. A cena fatal acontece já muito perto do fim do clássico, e numa altura em que a Espanha procurava com intensidade o empate a dois. A “fúria” (espanhola) beneficia de um pontapé de canto, e quando a bola pingava na área Tassotti dá uma cotovelda no rosto de Luis Enrique. Grande penalidade e consequente expulsão que o húngaro Sandor Puhl deixou passar em branco para espanto de todos os presentes no Estádio Foxboro naquela tarde de 9 de Julho. O agressor parece não entender – ou fingir não saber – o que se passa aquando da paragem do encontro, enquanto a vítima chora de raiva enquanto o sangue jorra pelo seu nariz. A Itália mais uma vez leva a melhor no que concerne a resultado final: 2-1, com golos dos Baggio (sem qualquer grau de parentesco entre si)... o Dino (aos 25 minutos) e o Roberto (aos 87), este último a grande estrela da “Azzurra” da época. Caminero marcara pelo caminho para a Espanha, quando o relógio registava 58 minutos.
O gozo – de mais uma vitória obtida – dos italianos sobre os velhos rivais terminaria dias mais tarde, altura em que sairam derrotados pelo Brasil na grande final do “USA 94”. Tassotti também não teve razões para voltar a sorrir, já que a agressão a Luis Enrique valeu-lhe a posterior suspensão de seis jogos.

Vídeo: ITÁLIA - ESPANHA (1994)

2008
Já diz o ditado que “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”, e à quinta foi de vez. A Espanha vencia a Itália pela primeira numa fase final de uma grande competição. Feito ocorrido há pouco mais de dois anos durante o Europeu organizado em conjunto pela Suíça e pela Áustria. E mais uma vez... nos quartos-de-final. Este jogo é encarado como a transição de poderes de um país para o outro. Por outras palavras, a Itália, campeã do Mundo em título (alcançado dois anos antes na Alemanha) apresenta-se neste Euro cansada e com um combinado muito perto da sua reforma, em contraste com uma jovem e excitante Espanha que dali para a frente iria dominar o planeta. O local da passagem de testemunho? O mítico Ernst Happel (também mundialmente conhecido como Estádio do Prater), em Viena. 22 de Junho foi a data da célebre cimeira latina.
Desde o apito inicial que os transalpinos esperavam um erro espanhol para chegar ao golo, enquanto a “armada espanhola” comandada pelo experiente técnico Luis Aragonés desenhava o seu jogo com passes curtos no seu meio-campo para ir ganhando metros até à baliza defendida pelo mago Buffon. Muito a custo a defesa “azzurra” foi sempre aguentando as investidas espanholas e só na segunda parte se assistiu a um verdadeiro lance de perigo da Itália junto da baliza contrária, o qual seria prontamente anulado pelo (já) lendário Casillas. A genial dupla de avançados da Espanha (Torres e Villa) estava presa à teia defensiva armada pelo treinador Donadoni pelo que o prolongamento chegou sem surpresa. Ai, ambos os conjuntos quiseram marcar, contudo a ansiedade aliada ao desgaste físico acabariam por aniquiliar os objectivos comuns. Seguiram-se as terríveis grandes penalidades para desempatar tudo. A lotaria saiu então à Espanha, que muito ficou a dever à inspiração do seu guardião Iker Casillas, o qual parou dois remates transalpinos. 4-2 no final, um resultado que ainda bafejado pela sorte dos penaltis consolidou de vez a “armada espanhola” de Fernando “El niño” Torres, David Villa, Casillas, David Silva, Puyol, Xavi, e Fabregas como a nova potência do futebol. A prova dos nove seria tirada alguns dias depois, também no Ernst Happel, onde um tento solitário de Torres (ante a Alemanha) deu o segundo título europeu a “nuestros hermanos”.
  
Vídeo: ITÁLIA - ESPANHA (2008)

2012
Tal como em 1934 o duelo entre italianos e espanhóis teve "dose dupla", ou seja, as duas equipas encontraram-se por duas ocasiões na mesma competição. Facto ocorrido no Euro 2012, disputado pela primeira vez no leste europeu, mais precisamente na Ucrânia e na Polónia. Espanha que partia para este Campeonato da Europa como a principal candidata à (re)conquista do título, não apenas porque era a detentora dos ceptros Europeu e Mundial, mas essencialmente porque continuava a ser a mais poderosa seleção do planeta. No entanto, a "máquina espanhola" seria travada no dia 10 de junho, em Gdansk (Polónia), quando no jogo inaugural do Grupo C do Euro 2012 a Itália ao realizar uma magnífica exibição
arrancou um empate a um golo, deixando no ar a ideia de que afinal o futebol da "roja" não era invencível. Di Natale, veterano goleador da Udinese, saltou do banco no início da 2ª parte para aos 60m colocar a armada espanhola em sentido, apontando o primeiro golo do encontro. A alegria transalpina durou apenas 4 minutos, já que o genial Cesc Fàbregas restabeleceria o empate na sequência de um passe magistral do não menos genial David Silva. As duas equipas voltariam a encontrar-se quase 3 semanas depois... na final desse Europeu. Kiev e o seu estádio olímpico acolheriam a grande final da competição, um duelo que pelo o que as duas equipas vinham fazendo se antevia equilibrado, mas tal previsão não viria a ser traduzida para a realidade. Exibindo o seu magistral futebol, o célebre "Tiki-taka", a Espanha arrasou por completo a Itália, ao construir uma pesada goleada de 4-0 (!) - a maior goleada numa final de um Campeonato da Europa - e renovar desta forma o título de "rainha da Europa". David Silva, Jordi Alba, Fernando Torres, e Juan Mata foram os autores dos golos da "roja" orientada por Vicente del Bosque. Ao revalidar o ceptro europeu os espanhóis faziam desde logo história no planeta da bola, pois tornavam-se na primeira seleção a ganhar 3 grandes competições planetárias consecutivas: Euro 2008, Mundial 2010, e Euro 2012. Para muitos a Espanha era de longe a melhor equipa da história do belo jogo (!), e jogadores como Casillas, Xavi, Xavi Alonzo, Iniesta, Sergio Ramos, Fàbregas, ou Torres, ascendiam definitivamente ao Olimpo dos Deuses do Futebol. (*)
(*) Texto escrito em julho de 2012
 Vídeo: ITÁLIA - ESPANHA (2012)

Legenda das fotografias:
1- Duas lendas das balizas: Combi e Zamora. Os capitães de Itália e Espanha, respectivamente, apertam as mãos de forma amistosa antes do primeiro duelo da história entre ambas as selecções. O pior estava para acontecer nas horas que se seguiram no relvado de Florença.
2- O golo irregular da Itália no primeiro jogo com a Espanha em 1934. Ferrari marca mas Zamora é agarrado e impedido de disputar o lance.
3- A Itália sempre produziu grandes guarda-redes ao longo da sua história, nesta foto aparece Dino Zoff, o capitão e comandante da Azzurra no Euro 80
4- Novo duelo entre os velhos rivais, desta feita em Frankfurt, durante o Euro 88
5- Polémico seria também o jogo de 1994, a contar para o Mundial. Aqui o italiano Maldini luta pela posse do esférico com o espanhol Goikotxea.
6- A começo do reinado da Espanha no trono do futebol mundial é bem capaz de ter começado neste jogo do Euro 2008 contra a Itália.
7-Imagem da final do Euro 2012, onde a Espanha esmagou por completo a Itália

terça-feira, outubro 12, 2010

Efemérides do Futebol (7)...

Um golo por espectador

Durante o início da segunda volta do campeonato belga alusivo à temporada de 1898/99 o Racing Club enfrentou o Athletic and Running Club em inferiodade numérica (10 jogadores) desde... o apito inicial do árbitro. Resultado final: 3-0 a favor desta última equipa. Mas o facto mais caricato desse encontro disputado debaixo de condições meteorológicas péssimas assentou em que ao recinto apenas se deslocaram... três espectadores! É verdade. Ora, sendo assim as estatísticas apontam que a partida teve um golo por espectador! Outros tempos...

quarta-feira, setembro 29, 2010

Estrelas cintilantes (22)... Soares dos Reis

Substituir um ídolo é sempre uma tarefa deveras complicada para qualquer jogador que surge pela primeira vez debaixo das luzes da ribalta no seio de um clube. E ainda mais espinhosa se torna a missão se esse clube for um gigante dos rectângulos de jogo. Foi um pouco este o cenário vivido por Soares dos Reis, lendário guarda-redes do Futebol Clube do Porto da primeira metade do século XX. Nascido em Paredes a 11 de Março de 1911 Soares dos Reis teve a missão – para muitos impossível, naquela altura – de substituir na baliza dos “dragões” um mito chamado Mihaly Siska (de quem já aqui falámos há uns meses atrás), um húngaro considerado por muitos como o primeiro grande “keeper” do futebol lusitano. A missão não só seria superada como a nossa “estrela cintilante” de hoje haveria de se tornar igualmente numa lenda do clube da “Cidade Invicta”.
E assim o é graças às suas célebres e seguras exibições na baliza azul-e-branca durante os princípios da década de 30, altura em que foi um dos actores principais dos portistas nos triunfos dos primeiros capítulos do escalão maior do futebol português. Neste particular episódio destaca-se o título nacional referente à época de 1934/35, altura em que o Campeonato Nacional da 1ª Divisão teve a sua estreia. Soares dos Reis seria novamente campeão nacional em 38/39, sendo aqui de sublinhar que este título seria ganho sob o comando técnico de Mihaly Siska, o antecessor de Soares dos Reis, como já foi dito. Dono da baliza do FC Porto durante cinco temporadas Soares dos Reis figura ainda na história do clube por ter sido o seu primeiro guarda-redes internacional. Com as quinas ao peito actuou por quatro ocasiões, tendo a estreia não corrido lá muito bem, já que em Madrid, a 11 de Março de 1934 (dia em que completou 23 anos de idade), sofreria nove golos (!) de uma poderosa Espanha que a guardar a sua baliza tinha um mito – este de âmbito mundial – que dava pelo nome de Ricardo Zamora. A excentricidade era uma característica muito particular de Soares dos Reis, um homem que treinava a sua agilidade a... apanhar coelhos (!) e que tinha por mania – diziam alguns – bordar as suas iniciais nas camisolas como forma de dar – ainda mais – nas vistas dentro de campo.
Após abandonar o futebol continuou ligado ao clube do coração na qualidade de dirigente, e foi graças a si que dois nomes que mais tarde haveriam de se tornar mitos deste clube chegaram às Antas, nomeadamente Vírgilio e Hernâni.

terça-feira, setembro 28, 2010

Catedrais Históricas (9)... Stade des Colombes

Na sua relva foram escritos alguns dos factos mais relevantes da história do futebol global. As suas bancadas guardam saudosas memórias de épicos momentos que marcaram a primeira metade do século passado deste desporto. Por isto e por muito mais, certamente, este é um dos maiores museus ainda "vivos" – embora sem o fulgor de outros tempos – do futebol a nível planetário.
A nossa viagem de hoje remete-nos para Paris, a bela capital francesa, mais concretamente para o mítico Stade des Colombes. Erguido em 1907 transformou-se desde logo na sala de visitas do desporto francês. Importantes jogos de futebol e rugby, célebres provas de atletismo e ciclismo aqui ocorridas preencheram dezenas de páginas de ouro inseridas no Atlas do Desporto gaulês. A sua multiculturalidade desportiva, por assim dizer, seria levada ao extremo em 1924, ano em que Paris acolheu os Jogos Olímpicos, tendo os Colombes acolhido a maior parte das modalidades desse importante evento. Os seus 45.000 lugares (a sua capacidade na época) testemunharam nesse longínquo ano de 1924 um dos primeiros momentos de ouro do futebol: a estreia em solo europeu daquela que é considerada a primeira grande selecção nacional do Mundo, o Uruguai. Apresentando um futebol mágico, nunca visto até àquela data pelos europeus, os uruguaios aniquilaram todos os seus oponentes até à conquista do ouro olímpico (vitória na final ante a Suíça por 3-0) tornando-se desta forma... campeões do Mundo. Sim, campeões mundiais, isto porque numa altura em que o Campeonato do Mundo ainda não vira a luz do dia (algo que só iria acontecer em 1930) os campeões olímpicos do futebol eram reconhecidos como donos do Mundo.
E se os Colombes presenciaram o primeiro capítulo da história dourada da primeira grande potência futebolística do Mundo seriam ainda testemunhas do nascimento do primeiro grande jogador negro do belo jogo: José Leandro Andrade (de quem aqui já falámos na “vitrina” dedicada às lendas), o mago uruguaio que depois destes Jogos Olímpicos de 24 teve o Mundo a seus pés, tendo regressado ao seu país com a alcunha de Maravilha Negra.
Posteriormente as estas célebres Olímpiadas o estádio passaou a chamar-se Stade Olympique des Colombes. E seria já com este nome que outro momento de ouro do futebol foi aqui vivenciado: o Mundial de 1938. O na altura líder da FIFA e grande mentor do Campeonato do Mundo, Jules Rimet, cumpria assim o sonho pessoal de trazer o maior evento futebolístico do Mundo ao seu país, tendo os Colombes tido o privilégio de acolher três encontros desse certame, inclusive o da grande final disputada entre a Itália e a Hungria (ambos os conjuntos posam para a fotografia antes do início do grande e decisivo jogo, conforme pode ser visionado na imagem de baixo), o qual terminaria com o triunfo dos primeiros por 4-2.
Com o aparecimento do Parque dos Príncipes (em 1972) o Colombes foi perdendo fulgor com o passar dos anos. Os grandes jogos da selecção francesa e as finais da taça deste país foram transferidas para o novo e portador de maior capacidade estádio que anos mais tarde seria a casa do Paris Saint-Germain. Em termos futebolísticos o Colombes começaria a ser apenas usado para os jogos domésticos do Racing Club de Paris, clube este que com a construção do seu novo estádio irá em breve abondonar este sagrado espaço.
Com a perda de protagonismo internacional – e mesmo a nível interno – o Colombes sofreria novas mudanças num passado recente, a começar desde logo pelo próprio nome, uma vez que foi re-baptizado para Stade Olympique Yves-du-Manoir, sendo no entanto a maior mudança a redução da sua capacidade para uns modestos 7.000 lugares. Uma nota final para dizer que o filme “Fuga para a Vitória”, protagonizado por Sylvester Stallone e que contou com a participação de Pelé, Osvaldo Ardiles, ou Bobby Moore, teve o Colombes como cenário principal.

quinta-feira, setembro 23, 2010

Grandes Mestres da Táctica (4)... Guy Roux

Poucos são os artesões da bola que com o seu invulgar talento fizeram com que pequenos – e por vezes quase desconhecidos – clubes se transformassem em gigantes emblemas do panorama futebolístico plantetário. Num rápido exercício de memória nomes como o de Diego Maradona ou de Pelé fazem parte dessa minoritária lista de magos. O astro argentino fez do Nápoles um dos clubes mais temidos da Europa nos finais da década de 80 e princípios dos anos 90 do século passado quando até então os napolitanos não passavam apenas de um grupo de bons rapazes habituados a frequentar os patamares secundários do “calcio”. O génio brasileiro tirou o Santos do anonimato, catapultando-o de uma simples cidade situada na periferia de São Paulo para o topo do Mundo na década de 60.
O génio da lâmpada que hoje iremos visitar fez algo de muito semelhante a estes dois nomes que acabámos de frisar, pese embora o tenha feito na qualidade de mestre da táctica, o mesmo é dizer, enquanto treinador. Esse nome é Guy Roux, lendário treinador francês que fez do Auxerre um pequeno grande clube europeu.
Nascido em Colmar a 18 de Outubro de 1938 Roux foi enquanto futebolista um vulgar intérprete do belo jogo, tendo a sua carreira ao serviço do Auxerre, entre 1952 e 1961, passado quase despercebida aos olhos dos amantes mais atentos da modalidade.
E seria precisamente no ano em que pendurou as chuteiras que a sua boa estrela começou a fazer-se notar na constelação do futebol. 1961 é de facto um ano mágico para o modesto A.J. Auxerre, um clube de província habituado a percorrer os escalões secundários do futebol gaulês que ganhou vida com a entrada de Guy Roux para seu treinador principal. Mais do que levar este pequeno clube até à alta roda do futebol europeu através de uma série de títulos e consecutivas participações em provas europeias Roux fez do Auxerre uma das maiores escolas de formação de todo o Mundo. Uma escola que começou a ser edificada assim que este cidadão assumiu os comandos do clube enquanto responsável técnico. Sem dinheiro para grandes investimentos logo tratou de montar uma escola para captar e formar jogadores capazes de honrar e glorificar a até então modesta camisola do Auxerre. Com Roux ao leme o clube foi a pouco e pouco galgando divisões no futebol francês e paralelamente formando nomes que viriam a dar cartas tanto a nível interno como externo.
Em termos concretos, e começando pelo primeiro ponto, a primeira grande coroa de glória de Guy Roux deu-se na temporada de 1979/80, altura em que o Auxerre subiu pela primeira vez na sua história à 1ª Divisão Nacional. Um feito enorme atendendo ao facto de que quando este homem pegou no clube este estava nos escalões regionais! E maior relevância ganha quando esta foi uma promoção conseguida com a “prata da casa”, isto é com os jogadores saídos da escola de formação do clube que Roux criara aquando da sua entrada para o departamento técnico. No ano anterior a este notável feito o Auxerre este muito perto da glória depois de ter perdido a final da Taça de França para o então poderoso Nantes.
Chegado ao escalão maior do futebol francês o clube de Roux jamais deixou de fazer parte desta ilustre elite, o mesmo é dizer que não mais voltou para as divisões secundárias. Homem duro e disciplinador por natureza pode dizer-se que Roux foi o construtor do Auxerre.
O primeiro grande título surgiu em 1994 com a vitória na Taça de França. No entanto, o seu maior feito, em termos de conquistas, como é óbvio, foi conseguido dois anos mais tarde quando o Auxerre conquistou a dobradinha, isto é o campeonato e a taça de 1996. Parecia um conto de fadas, o outrora desconhecido Auxerre era agora um dos mais poderosos emblemas de França. A vitrina de troféus seria ainda enriquecida com mais duas taças de França (2003 e 2005) e uma Taça Intertoto (1993).
Para chegar ao êxito Guy Roux usou sempre a “prata da casa”, como já foi aqui dito, gabando-se sempre de nunca investir grandes somas monetárias na aquisição de jogadores ao longo das épocas. Nas suas mãos foram moldados nomes – mais tarde – consagrados como os de Eric Cantona, Laurent Blanc, Basile Boli, Alain Goma, Corentin Martins, Djibril Cissé, ou Philippe Méxes.
Guy Roux foi o patrão, o símbolo se preferirem, do Auxerre durante 44 anos (1961- 2005) consecutivos! Um recorde de permanência de um homem à frente dos destinos de uma equipa. Posto isto teve uma curta experiência como treinador do Lens em 2007 antes de se reformar de vez das lides futebolísitcas. Hoje é um consagrado crítico de futebol em diversos meios de comunicação social francesa. Ao contrário de outros mestres da táctica Roux pode não ter contribuido para a evolução técnico-táctica do jogo mas foi um dos maiores mestres no que concerne à formação de novos atletas.

terça-feira, setembro 14, 2010

Grandes Mestres do Jornalismo Desportivo (7)... Tavares da Silva

O seu nome figura com distinção entre a elite dos jornalistas desportivos de Portugal. Nome que deu uma forte contribuição para o nascimento da época dourada do jornalismo desportivo luso na qual se encontram milhares das mais belas prosas futebolísticas guardadas a letras de ouro nos arquivos de inúmeras publicações do nosso país. Foi além de tudo um multifacetado do “Desporto Rei”, sendo de sublinhar o seu contributo a este como treinador, dirigente, e até mesmo árbitro. Não parecem existir dúvidas que o futebol deve muito a Tavares da Silva, a lenda das letras que hoje visitamos.
Nasceu em Estarreja bem no início do século passado, mais precisamente em 1903, tendo na hora de escolher um futuro profissional optado pelo Direito. Advogado de créditos firmados seria então, mas... dentro de si algo mais forte se pronunciava em detrimento do Direito: o futebol. Uma paixão avassaladora a quem deu sempre o que tinha e o que não tinha de si, foi jogador, treinador, árbitro, dirigente, mas seria como “artista das letras” que enalteceria o desporto que tanto amava. Nos idos anos 40 foi um dos fundadores do primeiro jornal “A Bola”, desaparecido posteriormente e “re-fundado” - entre outros – pelo mestre Cândido de Oliveira. Ligação ao jornalismo que havia iniciado na década de 30, altura em que as suas deliciosas metáforas para “pintar os mais belos cenários futebolísticos” começaram a ser impressos em diversos jornais nacionais. Os seus inigualáveis escritos estão guardados em publicações como a (revista) “Stadium”, o “Diário de Lisboa” (ambos já desaparecidos), ou o “Norte Desportivo”, para além da mítica “A Bola”, claro está.

Criador dos “Cinco Violinos”

Um dos maiores legados de Tavares da Silva ao futebol terá sido possivelmente a designação que “rotulou” uma das linhas avançadas mais famosas de todos os tempos do futebol planetário. Uma linha que actuava no Sporting Clube de Portugal e que era composta pelos magos Peyroteo, Travassos, Jesus Correia, Albano, e Vasques, e que ficou mundialmente conhecida como os “Cinco Violinos”. O autor desta designação? Tavares da Silva.
Mas não seria só desta forma que este homem do futebol ficaria ligado eternamente ao clube lisboeta, pois na temporada de 1953/54 ele seria o treinador que conduziria os “leões” à célebre conquista do “treta-campeonato” (quatro campeonatos nacionais consecutivos). Ainda como técnico passou pelos bancos do Belenenses, Sporting da Covilhã, Lusitano de Évora, Académica, e da própria Selecção Nacional, na qual o seu nome ficou igualmente gravado a letras de ouro já que seria sob a sua batuta que Portugal venceria pela primeira vez na história (corria o ano de 1947) a vizinha e rival Espanha. Seria ainda o obreiro do triunfo inaugural da nossa selecção no estrangeiro, mais concretamente na Irlanda.
Com a máquina de escrever à sua frente foi ainda autor, juntamente com outros dois vultos do jornalismo desportivo, nomeadamente Ricardo Ornelas e Ribeiro dos Reis, da História dos Desportos em Portugal, uma obra importante sobre esta temática. Morreu em 1958 numa altura em que era redactor principal do “Norte Desportivo” e chefe da secção de desporto do “Diário de Notícias”.

sexta-feira, setembro 10, 2010

Estrelas cintilantes (21)... Varallo

A sua morte eclipsou a última estrela que restava no céu que paira sobre os encantadores e saudosos caminhos do primeiro Campeonato do Mundo de futebol. A sua existência estava para o “Desporto Rei” como a Mona Lisa guardada a “sete chaves” no Louvre parisiense para a humanidade. O seu adeus ao mundo dos vivos significou o desaparecimento da única recordação viva do mágico Mundial de 1930. Francisco Varallo, “El Cañoncito” do futebol argentino deixou-nos no passado dia 30 de Agosto com a mágica idade de 100 anos e é sobre ele que o MVF abre hoje prepositadamente as suas portas.
Nascido em La Plata (província de Buenos Aires) a 5 de Fevereiro de 1910 “Pancho” Varallo cedo começou a evidenciar os seus dotes futebolísticos nas “canchas” imaginárias das artérias do país da pampas. Aos 14 anos era já uma das estrelas do clube da sua terra, o 12 de Octubre, onde seria rotulado de “El Cañoncito” (o pequeno canhão) devido ao seu forte e habilidoso poder de remate. Com 18 anos foi chamado pelo “gigante” Estudiantes para um treino experimental, um treino que acabaria por prolongar-se por três jogos particulares efectuados com a camisola do clube de La Plata nos quais “Pancho” apontaria 11 golos! Posicionando-se no rectângulo mágico como avançado seria no entanto no rival do Estudiantes, o Gimnasia y Esgrima, que Varallo faria em 1929 a sua estreia oficial numa principal equipa sénior. E a estreia de “El Cañoncito” no futebol sénior não poderia ter corrido melhor, pois nesse mesmo ano o Gimnasia sagrava-se campeão argentino depois de derrotar o Boca Juniors na final. E seria curiosamente no mítico clube de “La Bombonera” que “Pancho” Varallo actuaria nas seguintes nove temporadas, o mesmo será dizer também até ao final da sua carreira. Com a camisola do Boca venceria mais três campeonatos argentinos (1931, 1934, e 1935), tendo-se tornado até há muito pouco tempo no maior goleador de sempre do clube de Buenos Aires com 180 golos em 210 encontros realizados, um célebre recorde só batido por Martín Palermo em 2008.
A transferência do Gimnasia para o Boca ficou a dever-se em grande parte às magníficas exibições de Varallo com as cores da selecção da Argentina durante o Mundial de 30, o primeiro da FIFA, e realizado como se sabe no Uruguai. “Pancho” era o elemento mais novo de uma equipa que viria a sagrar-se vice-campeã do Mundo depois de cair aos pés da fabulosa selecção do Uruguai (por 4-2) numa épica final ocorrido no “sagrado” Estádio Centenário, em Montevideu.
Um desfecho que poderia muito bem ter sido outro não fosse uma bola enviada à baliza uruguaia ter embatido na trave da mesma quando o resultado era de 2-1 a favor dos argentinos. O autor desse azarado remate? Francisco Varallo, o elemento mais novo em campo da primeira final de um Campeonato do Mundo da FIFA. Neste primeiro grande certame futebolístico de âmbito Mundial Varallo apontou um golo (ante o México na 1ª fase).
“Pancho” retirou-se dos campos com apenas 29 anos, na sequência de uma grave lesão no joelho. Estavámos no ano de 1939, dois anos depois de “Pancho” ter vencido a sua única competição com a camisola da Argentina (a qual representou em 16 ocasiões) vestida: a Copa América.
Seguidamente o MVF apresenta um precioso texto encontrado – e esquecido – nas “profundezas do báu das histórias de encantar da bola”, da autoria do jornalista Jorg Wolfrum, publicado há pouco mais de quatro anos na revista Kicker, texto esse traduzido posteriormente para a revista Trivela (Brasil) e que retrata uma entrevista feita ao único homem – na altura – vivo que jogou o primeiro Campeonato do Mundo. Aqui fica transcrita na integra esta “pérola literária da bola”...

Este senhor jogou a final de 30

Aos 95 anos, o ex-atacante argentino Francisco Varallo é o último sobrevivente da final do primeiro Mundial. O “Pequeno Canhão” recorda à revista Copa’06 (nota: posteriormente viria a chamar-se Trivela) como foi aquela partida em Montevidéu vencida por 4 a 2 pelos uruguaios

por Jorg Wolfrum

“Palo borracho” floresce com beleza na praça Brandsen, em La Plata. Tudo é muito bonito, em branco e rosa, mas a memória da bola salva por (José Leandro) Andrade em cima da linha, na final da Copa de 30, permanece viva.

Já dá para enxergar, em uma das esquinas onde cruzam as ruas 60 e 25, a Lotérica Francisco “Pancho” Varallo, localizada ali há mais de 30 anos. Em Outubro, um apostador ganhou ali um milhão de pesos (pouco menos do que o mesmo valor em reais). A casa dos fundos foi construída por Don Pancho em 1932 com os 8 mil pesos de seu primeiro salário recebido como jogador do Boca Juniors. “Uma quantia astronômica”, recorda-se o último sobrevivente da final da primeira Copa do Mundo, em 1930, no Uruguai. Antes disso, ele recebia 20 pesos por semana, para jogar pelo Gimnasia y Esgrima de La Plata.

Os tempos eram outros. No “superclássico” de 1933, contra o River Plate, por exemplo, um policial queria prender Varallo porque um adversário segurou seu braço numa disputa de bola. E ele o quebrou. “Imagine só a situação”: um baixinho de 1,65 m de altura, com chuteiras tamanho 37, no meio dos grandalhões raivosos do River. Enquanto se lembra, suas rugas profundas formam um sorriso de orelha a orelha e fazem parecer menor seu grande nariz e quebram a rigidez de seu rosto.

Os tempos eram outros. Mas se aquela maldita bola tivesse entrado quando ele defendia a seleção Argentina... Num instante desaparece seu sorriso. Nesse momento, as rugas ficam ainda mais profundas em sua testa e Francisco Varallo parece irritado consigo mesmo. Mesmo com os 181 gols que marcou em 210 jogos como atacante do Boca. Uma média de 0,86 gol por partida, até hoje um recorde -e um pouco melhor até que a média de Gerd Müller na Bundesliga (365 gols em 427 partidas). Mas aquela maldita bola não queria entrar. “Nós teríamos sido campeões do mundo”.

Foi em 30 de julho de 1930, no Estádio Centenário de Montevidéu, então o maior da América Latina. Contra o Uruguai, então o melhor time do mundo. Varallo bate a mão na mesa. Não que essa lembrança o deixe irritado o tempo todo. Para isso, o homem chamado de “Pequeno Canhão” já havia vivido o bastante.

Em 1929, tornou-se campeão com o Gimnasia y Esgrima, ainda na era do amadorismo. Como profissional, conquistou três títulos com o Boca. E, com a seleção argentina, o Campeonato Sul-Americano de 1937. Ele construiu a casa onde vive até hoje e também uma para seus pais. Mas a lembrança desse momento contra o Uruguai insiste em não desaparecer de sua memória.

Depois do 1 a 0 de Dorados, Peucelle e Stabile, os artilheiros do primeiro Mundial, colocaram os visitantes na frente antes do intervalo. “Éramos claramente superiores no primeiro tempo e tínhamos de marcar pelo menos uns quatro ou cinco gols antes do intervalo”, recorda-se Varallo, que com dez minutos do segundo tempo chutou uma bola na trave. “Você tem de acreditar em mim”, ele insiste. E ele é o último dos jogadores que esteve em campo naquela partida. Nem mesmo ele consegue acreditar.

Para fugir dessa lembrança, ele muda o assunto para a comemoração do centenário de seu Boca Juniors, quando foi ovacionado. Mais aplausos do que Varallo só Diego Maradona recebeu. “De repente vieram crianças pedir para tirar uma foto comigo e que eu lhes desse autógrafos. Sabe o que eu respondi a eles?”

O que, Don Pancho?
Que eles haviam me dado o melhor presente da minha vida. “Mas vocês nunca me viram jogar”. E eles me responderam: “Por causa do senhor, Don Pancho, meu avô virou torcedor do Boca Juniors. E por isso, eu também sou”. Então contei um pouco aos garotos a respeito dessa final.

Também da sua chance desperdiçada?
Claro, mas ainda pior. Pois o Fernandez baixou o sarrafo em mim e voltei a sentir uma contusão no joelho que já me havia tirado da semifinal. Mas, naquela altura, o jogo já era uma guerra.

E havia mesmo ameaças de morte?
Levamos isso muito a sério. Cinco, seis de nós estavam se borrando de medo e nem queriam entrar em campo. Mas fui ao treinador e falei que já estava recuperado e pronto para jogar.

E não era verdade?
Era uma mentirinha, mas eu precisava fazê-lo. Mesmo eu sendo castigado no segundo tempo. Mas eu estava lá! Um moleque de 20 anos, que conseguiu realizar sua vontade.

Qual era o clima no estádio?
Inacreditável. Na época, todos os estádios eram menores. Só construíram aquele monstro (o Centenário) para a Copa do Mundo no Uruguai. Nunca havíamos visto nada igual. Era uma loucura aquele ambiente.

Você pode se explicar melhor?
Era bárbaro, uma insanidade. Meu pai mesmo precisou comprar uma bandeira uruguaia, senão teria sido morto. Na época, em Buenos Aires, existiam rumores de que o vencedor já estava certo antes do jogo. Tudo bobagem. No final das contas, ganharam da gente só porque tiveram mais culhões. Com força, brutalidade e também com astúcia. Com isso, eles conseguiram nos intimidar. E isso me deixa até hoje com raiva. Foi uma vergonha.

Por que isso aconteceu?
Eles eram mais experientes e nós, apenas uns moleques. E mesmo assim não poderíamos ter deixado isso acontecer. Quando Monti e Suarez se machucaram, aí já era. A bola pesava uma tonelada e não podíamos substituí-los. Com oito jogadores, não tínhamos chance e por isso eles marcaram três vezes e fizeram 4 a 2.

Mas a vitória foi merecida?
Claro, eles não eram bandidos, vilões. Poderiam ter ganho por até 8 a 2. Mas tínhamos prometido a vitória para Gardel.

Carlos Gardel, o rei do tango?
Ele foi à nossa concentração. Ficamos tão emocionados que até choramos. Mas depois de cantarmos um tango juntos. Então Gardel falou: “Muchachos, deixem a canção comigo. Vocês, tratem de se concentrar na final”.

A medalha do vice-campeonato lhe foi roubada anos atrás. O que resta é o tango em sua homenagem: “Varallo, Varallito, querido Varallo”. Mas o homenageado ainda espera por um bisneto. “Alguém na família tem de jogar futebol”, diz. “Mas só tivemos meninas”.

Em Fevereiro, ele foi homenageado mais uma vez, agora pela Conmebol, no Paraguai. Mas ele preferia ter ficado em La Plata e tomar uma taça de vinho, como fazia 65 anos atrás, na Copa do Mundo. “Não que a gente estivesse lá apenas para se divertir”, explica. Afinal, o melhor futebol foi jogado nas margens do rio da Prata. “Não podíamos nos acabar na farra”. E o boato de que Lucien Laurent, autor do primeiro gol da história das Copas do Mundo, teria comemorado seu feito num bordel? “Pura lenda”.

O presidente da AFA, Julio Grondona, convidou Varallo para ir à Alemanha acompanhar a Copa do Mundo. E ele quer muito ir com sua filha Maria Teresa, que toma conta da lotérica –isso quando sua artrose permite. “Não há nada mais lindo do que o futebol”. E chutes no travessão fazem
parte, infelizmente.

Legenda das fotografias:
1- Francisco Varallo com a camisola do seu Boca
2- Exibindo classe com as cores do clube de La Bombonera
3- Jogando pela Argentina diante do México no Mundial de 1930

Vídeo: PANCHO VARALLO RELEMBRA, EM ENTREVISTA, AS MEMÓRIAS DO PRIMEIRO CAMPEONATO DO MUNDO

quinta-feira, setembro 09, 2010

Grandes lendas do futebol mundial (8)... Combi - O muro intransponível da Squadra Azzura

Pronunciar o seu nome remete-nos para a magia da era do futebol romântico da primeira metade do século passado. Recorda-lo é também sinónimo de veneração a um dos maiores futebolistas da história centenária do jogo da bola. Senhoras e senhores visitantes a lenda em destaque hoje no MVF é Giampiero Combi, o primeiro grande astro das balizas do futebol italiano.
Nascido em Turim a 20 de Novembro de 1902 Combi desenvolveu toda a sua carreira ao serviça da Juventus, clube por onde percorreu todos os escalões de formação até chegar à formação sénior em 1922. Aí chegado nunca mais largou a baliza da “Velha Senhora” até à data da sua retirada, tendo-se tornado num dos futebolistas de referência do gigante emblema italiano. Durante as 12 temporadas em que defendeu com brilho as cores da Juve venceu 5 “scudettos”, sendo que o primeiro deles surgiu na época de 1925/26. Os restantes quatro títulos nacionais seriam alcançados na sequência de um “poker” efectuado pela Juve entre 1930 e 1934.
Apesar de não ser um guarda-redes muito alto – media 1,71m – Combi primava por uma robustez física impressionante que aliada à sua garra e determinação em jogar futebol, por vezes nas condições mais adversas, fizeram dele um dos atletas mais venerados pelos “tiffosi” daquela altura. Recorde-se neste aspecto uma partida contra o Modena onde actuou com três costelas partidas e um outro encontro ante a Cremonese onde jogou com várias vértebras danificadas.
Possuindo na época um dos conjuntos mais fortes do Calcio não era de estranhar que a Juventus fosse um dos principais fornecedores de jogadores às selecções italianas dos anos 30. Uma década de extrema glória para os “azzurri” que como se sabe arrecadariam dois títulos mundias (1934 e 1938). E no primeiro deles Combi assumiu-se como um dos actores principais da épica conquista italiana. A jogar em casa a “squadra azzurra” do lendário treinador Pozzo foi capitaniada e comanda desde a baliza, o mesmo é dizer por Giampiero Combi que nos céus de Roma teve a honra de erguer a primeira Taça do Mundo arrecadada pela Itália. Nesse Mundial foi titular indiscutível de uma equipa que tinha astros como Meazza, Monti, Orsi, ou Schiavio e que começou a sua cavalgada triunfal por uma goleada sobre os Estados Unidos da América por 7-1. Seguiu-se a épica partida ante outra potência mundial daquela época, a Espanha, selecção que tinha na baliza a sua principal estrela, Ricardo Zamora. Dizer a propósito deste facto que Combi viveu numa era onde abundavam grandes magos da baliza, sendo que para além dele e de Don Zamora há ainda que sublinhar o nome do “monstro” checoslovaco Planicka. Voltando ao Mundial de 34 e ao célebre e polémico Itália – Espanha dos quartos-de final para recordar que Combi foi um dos grandes heróis desse duelo ocorrido em Florença, que seria decidido após um segundo e decisivo jogo. Isto porque no primeiro confronto o resultado cifraria-se num renhido 1-1, renhido e injusto para os espanhóis, pois segundo rezam as crónicas da altura a Espanha foi “assaltada” pelo árbitro do encontro que tudo fez para que a aventura da equipa italiana não terminasse naquela tarde. No segundo encontro a Espanha orfã dos seus principais futebolistas, vítimas das duras entradas italianas no primeiro jogo, vendeu cara a derrota por 0-1, muito valendo novamente a magnífica exibição de Combi.
Nas meias-finais a Itália teve novamente que sofrer a bom sofrer para levar de vencida a “equipa-maravilha” da Áustria liderada pelo astro Sindelar. 1-0 em Milão foi suficiente para os pupilos de Pozzo garantirem o bilhete para Roma onde iriam jogar a grande final desse Mundial tendo Combi mais uma vez dado uma forte contribuição para que esta passagem fosse uma realidade já que efectuou um par de defesas miraculosas já bem perto do final do jogo.
E como não há duas sem três a Itália teve novamente de puxar dos seus galões para vencer a poderosa Checoslováquia por 2-1 na final e desta forma inscrever pela primeira vez o seu nome na restrista galeria dos vencedores do Mundial de futebol e Combi o primeiro transalpino a ter o privilégio de pegar na Taça Jules Rimet.
Pela “squadra azzurra” actuou por 47 ocasiões, tendo-se estreado em 1924 num jogo ante a Hungria, em Budapeste. Para além do título Mundial conquistaria ainda pela equipa nacional a medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de 1928 (Amesterdão).
Abandonou a carreira de futebolista aos 32 anos com um total de 367 jogos no currículo disputados com as cores da sua Juventus. Penduradas as chuteiras Combi continuou ao serviço da Juve por vários anos quer como olheiro quer como colaborador técnico. Morreu em 1956 devido a um enfarte, numa altura em que colaborava com o recém eleito presidente da Juve Umberto Agnelii que procurava recolocar a “Velha Senhora” no caminho do sucesso depois de uma fase menos boa do nobre emblema transalpino.

Legenda das fotografias:
1- Giampiero Combi vestido com as cores da Squadra Azzurra
2- Duas lendas das balizas na final do Mundial de 1934: Combi e Planicka

sexta-feira, setembro 03, 2010

Morreu um mago da bola...

É com profunda tristeza que o MVF abre hoje as suas portas para evocar a morte de um dos maiores jogadores de todos os tempos: José Torres. O “Bom Gigante” como era popularmente conhecido por esse Mundo fora devido à sua elevada estatura física faleceu hoje de madrugada num hospital de Lisboa. Foi o final de uma longa batalha travada contra o Alzheimer, doença que afectava Torres há já longos anos e que o haveria de vitimar agora aos 71 anos de idade. É um dos maiores Deuses do futebol português e internacional, tendo vivido o seu melhor período na década de 60 quer ao serviço do Benfica quer da Selecção Nacional portuguesa. Pelos primeiros conquistou – entre outros títulos mais – 9 campeonatos nacionais e marcou presença em três finais da Taça dos Campeões Europeus, ao passo que com as quinas ao peito tornou-se num dos principais obreiros da página mais bela da equipa nacional, por outras palavras a conquista do 3º lugar no Mundial de Inglaterra. Para além destas duas camisolas Torres vestiu ainda as do Torres Novas (clube da sua terra natal), do Vitória de Setúbal e do Estoril. Penduradas as botas seguiu a carreira de treinador, função na qual também brilharia a grande altura, com o ponto alto a ser atingido com a qualificação da Selecção de Portugal para o Mundial do México de 1986. O MVF endereça à família e amigos deste mago da bola as suas mais sinceras condolências.

Efemérides do Futebol (6)...

34 jogos sem perder... e 25 sem ganhar!

O Preston North End (Inglaterra) estabeleceu o primeiro recorde mundial de vitórias consecutivas numa prova oficial ao permanecer invicto durante 23 jogos consecutivos na Liga Inglesa. Três anos mais tarde esta mesma equipa mateve-se invicta durante 15 encontros seguidos, sendo que em 1896 foi supreado pelo campeão argentino, o Lomas Athletic Club, que esteve sem conhecer a derrota durante 29 jogos consecutivos. O recorde dos argentinos foi superado em 1899 pelo Glasgow Rangers (Escócia) que obteve a façanha de permanecer invicto durante 34 partidas consecutivas no escalão maior escocês. Por outro lado o recorde negativo do século XIX é pertença dos também escoceses do Dumbarton que em 25 encontros seguidos contabilizaram outras tantas derrotas, corria a temporada de 1891/92.

segunda-feira, julho 12, 2010

Flashes do África do Sul 2010 (64)...

FINAL

Holanda - Espanha: 0-1

Golo: Iniesta

ESPANHA ENTRA PARA A HISTÓRIA DA HUMANIDADE... PELA PRIMEIRA VEZ SOBE AO TOPO DO MUNDO...



Flashes do África do Sul 2010 (63)...

Jogo de atribuição dos 3º e 4º lugares

Uruguai - Alemanha: 2-3

Golos: Cavani, Forlán; Muller, Jansen, Khedira

Sul-americanos saem de cabeça erguida no dia em que a Alemanha fica com o bronze pelo segundo Mundial consecutivo...



sexta-feira, julho 09, 2010

Flashes do África do Sul 2010 (62)...

Meias-finais

Espanha - Alemanha: 1-0

Golo: Puyol

Espanha encanta e está a um pequeno passo de escrever a página mais bela da sua história...


Flashes do África do Sul 2010 (61)...

Meias-finais

Uruguai - Holanda: 2-3

Golos: Forlán, Maxi Pereira; Van Bronckhorst, Sneijder, Robben

Holandeses tiveram de suar a camisola para voltar a colocar a "Laranja Mecânica" de novo no jogo mais desejado do Mundial...


Flashes do África do Sul 2010 (60)...

Quartos-de-final

Paraguai - Espanha: 0-1

Golo: Villa

Mais uma vez Villa resolveu...


Flashes do África do Sul 2010 (59)...

Quartos-de-final

Argentina - Alemanha: 0-4

Golos: Klose (2), Muller, Friedrich

Alemães continuam a trucidar adversários: depois dos ingleses foi a vez dos argentinos sofrerem uma tremenda humilhação...