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quinta-feira, fevereiro 28, 2019

Histórias do Futebol em Portugal (25)... A geração de ouro do futebol português nasceu há 30 anos (2.ª parte)


O primeiro onze nacional em Riade
O avião da KLM que transportava oito das 16 seleções participantes – entre as quais Portugal – no Campeonato do Mundo de Sub-20 de 1989 chega a Dahran no dia 13 de fevereiro. As várias delegações foram recebidas em ambiente de festa e debaixo de uma temperatura incómoda de 17 graus. Porém, os flashes e as objetivas das máquinas fotográficas estavam centradas em duas ou três seleções: Nigéria, União Soviética e Brasil, os principais favoritos na bolsa de apostas a vencer prova.
Os próprios jogadores portugueses não eram unânimes na crença de ver Portugal chegar ao título! Só o guarda-redes Fernando Brassard arriscava em colocar a seleção lusa no lugar mais alto do pódio. Premunição? Viria a acertar em cheio!
Dez dos restantes jogadores portugueses colocava Portugal na final com... o Brasil! Era, de facto a final sonhada pela quase totalidade dos atletas, enquanto que cinco deles previam um duelo final entre portugueses e soviéticos, quiçá espreitando uma possível vingança da final do Euro de sub-19 perdida um ano antes. Nesta sondagem aos 18 selecionados portugueses apenas Hélio, Tozé e Xavier se inclinavam para uma final entre Brasil e União Soviética.  
Após a calorosa receção em Dahran a seleção portuguesa seguiu de autocarro até Riade, onde iria integrar juntamente com a seleção da casa, a Nigéria e a Checoslováquia o Grupo A da competição.

Dupla suspeita no arranque da competição

Os "elefantes" nigerianos em Riade
Ainda antes do arranque da competição, no dia 17, a polémica instalou-se em torno dos nigerianos, grandes favoritos à vitória no campeonato. E tudo por causa das idades dos seus atletas.
Suspeitas levantaram-se quanto à verdadeira idade dos africanos, na casa entre os 16 e os 19 anos, mas que na verdade... pareciam ter bem mais do que isso! Inclusive os nigerianos haviam inscrito um atleta, Peter Ogaba, que no Bilhete de Identidade dizia ter 14 anos (!), mas cuja aparência robusta indicava ter no mínimo o dobro!
Na tentativa de retirar os holofotes da suspeita da sua seleção, o treinador nigeriano, Olatunde Disu, questionou os jornalistas da seguinte forma: «Vocês já os viram (aos jogadores nigerianos) comer? São uns elefantes, comem comem, comem e estão sempre cheios de fome!».

Estádio King Fahd
Com a “pulga atrás da orelha” estavam também os portugueses relativamente ao árbitro brasileiro José Wright. Com fama de durão este professor do Rio de Janeiro havia sido nomeado pela FIFA para dirigir dois encontros (!) de Portugal nesta fase de grupos. Estaria o organismo máximo a preparar um cozinhado para afastar os portugueses da fase seguinte? A suspeita pairou no ar... mas não se veio a confirmar, como veremos mais à frente.
Mas nem tudo eram espinhos neste pontapé de saída do Mundial. As delegações que marcaram presença na Arábia ficaram desde logo deslumbradas com a imponência e beleza do Estádio King Fahd, em Riade, um recinto de fascinante arquitetura, inaugurado um ano antes e que se assemelhava... a um oásis no meio do deserto!
E eis que chega a hora de a seleção nacional pisar oficialmente o relvado desta maravilha arquitetónica perante a Checoslováquia.

Serviços mínimos chegaram para vencer na estreia

Talvez afetados pelo peso da responsabilidade da estreia na competição, Portugal e Checoslováquia não ofereceram um bom espetáculo ao público saudita. A juntar a esse nervosismo típico dos jogos de estreia em fases finais, os portugueses viram-se a braços com o azar, que lhes bateu à porta logo ao sexto minuto da partida, quando Jorge Couto é obrigado a sair do campo por lesão.
Depois deste infortúnio a seleção nacional levou tempo a soltar-se e a mostrar o seu real valor e a vitória só seria conquistada a dois minutos do fim graças a um soberbo golo de Paulo Alves. A Bola escrevia que «com alguns portugueses na bancada que juntamente com os sauditas apoiaram a seleção, esta foi em suma uma partida tática e conservadora que só conheceu fases de interesse na segunda parte».

Entrada com o pé direito festejada efusivamente
Na crónica de um jogo que teve muitas paragens, o enviado especial do jornal da Travessa da Queimada escrevia que «aos dois minutos Filipe teve a oportunidade de abrir o marcador, mas usou o pé frouxo, o direito. Estava dado o mote para o que seria a exibição portuguesa, marcada pelo fatalismo. Aos seis minutos lesão de Jorge Couto, facto que destabilizou um pouco a equipa (…) sobretudo em termos ofensivos. Numa primeira parte frouxa, Portugal viveu muito encolhido no seu meio campo (…) faltava quem explodisse e desse mais profundidade ao meio campo (…) Também a Checoslováquia arriscou muito pouco (…) tiveram muito respeito pelos portugueses, que tinham visto no ano transato no seu país (no âmbito do Campeonato da Europa de sub-19).
O facto de os checoslovacos terem jogado com cautelas serviu os interesses de Portugal. Queiroz percebe que não pode continuar no impasse. Portugal era uma equipa compacta mas pouco explosiva. Faz entrar João Pinto e o jogo mudou. Entrou para a posição intermédia, entre o meio campo e o ataque, e a equipa portuguesa ganhou maior mobilidade. Portugal passava a atacar com mais unidades: João Pinto, Sousa, Resende e Paulo Alves.
A seleção passou a jogar com mais uma unidade na frente o que fez aumentar consideravelmente a sua sedução pelo ataque. Os portugueses começavam a soltar-se e a dar uma ideia mais aproximada do seu valor. (Por sua vez) Os checoslovacos contra-atacavam com algum perigo mas sempre com pouca audácia. Os últimos 20 minutos dos portugueses foram muito aceitáveis (…) e veio o golão de Paulo Alves e a certeza de que Portugal mesmo sem ter feito uma exibição bonita acabou por cumprir a sua função.
O árbitro brasileiro Wright também a cumpriu: foi imparcial».

Quanto ao árbitro estavam, aparentemente dissipadas as suspeitas iniciais dos portugueses, que neste primeiro jogo se puderam dar por mais felizes com o resultado do que com a exibição.
Para recordar (eternamente) também o golaço milagroso de Paulo Alves: numa jogada desenvolvida no lado direito e protagonizada por Abel Silva em que este conseguiu, já numa zona já adiantada do terreno, vencer a oposição de um adversário, cruzando depois para o interior da área contrária, onde apareceu Paulo Alves que saltando muito bem arrancou um “tiro” de cabeça para o fundo da baliza de Juraka.
Para Carlos Queiroz, «as duas equipas devem sentir-se orgulhosas porque lutaram muito, com imensa coragem. Devo reconhecer que Portugal não jogou bem na 1.ª parte, não jogou um futebol bonito, mais de acordo com aquilo que lhe é habitual. No segundo tempo a equipa pôde jogar muito melhor», disse o técnico que não escondeu a felicidade de ver a sua equipa entrar com o pé direito no Mundial.
No plano individual, Bizarro fez esquecer Vítor Baía e Paulo Madeira esteve imperial na defesa. Notas soltas de uma exibição... assim assim.
Neste primeiro jogo a equipa lusa alinhou com: (12) Bizarro; (2) Abel Silva, (10) Paulo Madeira, (15) Valido e (5) Morgado; (7) Tozé (c), (8) Hélio e (11) Filipe ( (14) João Pinto, ao intervalo); (6) Jorge Couto ( (4) Paulo Sousa, aos 7m), (3) Paulo Alves e (13) Resende.

Magia de João Pinto eclipsou arrogância nigeriana

O onze inicial que venceu categoricamente a Nigéria
Três dias depois Portugal volta a entrar em ação neste Mundial de 89, desta feita ante a super favorita ao trono do futebol de formação, a Nigéria.
Vindos igualmente de uma vitória mínima (2-1) no jogo de estreia ante os anfitriões da Arábia Saudita, os nigerianos continuavam a espalhar excesso de... confiança de que o título mundial dificilmente lhes iria escapar.
Esta atitude, de certa maneira arrogante, acabou por beneficiar Portugal, que neste jogo realizou a melhor exibição na 1.ª fase. Enquanto os nigerianos desfilavam nas areias do deserto como se fossem as maiores estrelas deste Mundial, Carlos Queiroz preparava uma revolução tática na seleção nacional que... trocou às voltas aos africanos.
Desde logo alterou o esquema tático, passado do habitual 4-3-3 para um 4-4-2. Para fazer companhia a Paulo Alves na frente de ataque luso, Queiroz lançou João Pinto, uma aposta que se viria a revelar mais do que acertada! Mas as mexidas no tabuleiro nacional não se ficaram por aqui. Paulo Madeira foi colocado a lateral direito, Fernando Couto entrou para o eixo da defesa, Abel Silva passou para médio direito e Xavier entrou para a meia esquerda.
«Com isto, Portugal reforçou a sua capacidade defensiva e o seu poder de resistência ao choque», disse o jornalista Rui Santos na análise ao que seria a segunda vitória lusa no torneio.  

João Pinto prisioneiro de dois árabes
Mais do que o triunfo e o consequente apuramento para os quartos-de-final este jogo deu a Portugal uma estrela! João Pinto – ou João Viera Pinto, como viria a ser diferenciado anos mais tarde para não ser confundido com outros “joões pintos” desta vida.
Para A Bola, o jovem astro do Boavista «abria uma nova era no futebol português, através do seu futebol de grande qualidade que se plasma dentro e fora das grandes áreas». Estava encontrado o sucessor de Paulo Futre no trono de rei do futebol lusitano.
Na crónica do jogo, A Bola escrevia que «ao atirar para o campo uma formação robusta para poder suportar o primeiro impacto ditado pelos nigerianos, Queiroz e Vingada acertaram no 20,como se costuma dizer.
Bela lição de estratégia que deram. E não se ficou por aqui. Quando Paulo Alves se lesionou nos lances iniciais da partida, pensou-se que Portugal pudesse perder sedução pela finalização. Os professores tornearam a questão de forma inteligente, fazendo adiantar Xavier, jogador de grande porte, para a zona dos centrais contrários. Cumprida a missão de suster o impacto inicial dos africanos a missão de Portugal mudou no segundo tempo. Xavier recuou para o meio campo e Folha entrou para o ataque. A ideia era esta: já levaram com uma dose de músculo, agora levem com uma dose de imaginação. Folha foi a inteligência dinâmica dos portugueses. Ficou percetível que o futebol força dos africanos foi insuficiente perante a sólida estrutura de Portugal e do seu futebol imaginativo. E com as expulsões de dois nigerianos tudo ficou mais fácil (…) O caminho da vitória foi desbravado com muita inteligência».

Mas a nota artística foi mesmo para João Pinto, cuja mágica criatividade derrubou os nigerianos à passagem do minuto 80. Na sequência de um centro de Morgado, no lado esquerdo, Hélio cabeceou na direção do novo menino de ouro do futebol português, que por sua vez dominou o esférico com o peito e na sua trajetória descendente aplicou-lhe um pontapé forte e certeiro para o fundo da rede de Ikeji.
Portugal jogou com: (12) Bizarro; (15) Valido), (10) Paulo Madeira), (16) Fernando Couto e (5) Morgado; (7) Tozé (c), (8) Hélio, (2) Abel Silva ( (17) Folha, ao intervalo) e (9) Xavier; (14) João Pinto e (3) Paulo Alves ( (11) Filipe, aos 25m).    

Descontração geral acabou em goleada

João Pinto, Abel e Bizarro
Com o apuramento no bolso a seleção nacional entrou no relvado do King Fahd Stadium sem a pressão de ter de pontuar no derradeiro jogo do grupo, diante da frágil Arábia Saudita, que somava duas derrotas e já estava matematicamente eliminada.
Frágil nas aparências, porque na realidade a equipa orientada pelo brasileiro José Roberto Ávila foi um osso duro de roer para os pupilos de Queiroz. E assim o foi muito por culpa da postura demasiado desinibida dos tugas... e das areias do deserto que pairavam sobre o relvado. Uma forte rajada de vento que se fez sentir na hora do encontro, levou uma nuvem de areia do deserto para o interior do estádio, facto de que se queixaram os portugueses. Mas, na verdade, o que lhes atirou o maior volume de areia para os olhos foi mesmo a seleção local, conforme explicou o jornalista Rui Santos. «A equipa portuguesa convenceu-se de que após bater a Checoslováquia e a Nigéria tinha direito a um dia de folga (…) Os jogadores portugueses nem sequer tentaram resolvera a partida nos minutos iniciais para depois gerirem a vantagem (…) muita lentidão caraterizou toda a primeira parte, mas a equipa portuguesa podia ser lenta e ao mesmo tempo rigorosa, mas não foi. Durante muito tempo Portugal lá foi empastelando o jogo até ao meio campo, mas a partir daí parece que a equipa estava condenada a perder a bola.

A falta de rigor no passe foi quase escandalosa. Passes errados atrás de passes errados numa desafinação completa. Sousa esteve infeliz, quando tentava transportar a bola perdia-a sistematicamente para os adversários. Lenta e sem rigor no passe a equipa nacional foi perdendo o controlo do jogo. As areias do deserto parecem ter cegado a equipa que nunca fez uma jogada com cabeça, tronco e membros. Houve uma desertificação do conjunto nacional. Poucas bolas divididas foram ganhas, não houve um pique nem uma bola colocada nas costas da defesa saudita (…) Surgiu o primeiro golo, o jogador recebeu a bola na direita, disparou forte e também para o lado direito de bizarro que se encontrava mal posicionado entre os potes.
Portugal não tinha razões nenhumas para se queixar. Consentiu o agigantamento da Arábia. Queiroz decide colocar Folha na direita e o portista através do seu atrevimento transmitiu uma centelha de atrevimento ao futebol da equipa portuguesa. Até João Pinto não atinava. (…) Acontece então o segundo golo e Portugal revela-se impotente para reagir. (...) Em resumo, Portugal disse ontem um redondo não ao bom futebol depois de uma exibição inteligente e eloquente ante a Nigéria».

Nem João Pinto valeu a Portugal
diante dos árabes
No final da partida, em que a Arábia Saudita venceu por 3-0, Carlos Queiroz reconheceu que «entrámos a pensar que éramos os reis disto. A minha equipa não produziu um bom jogo, perdeu o controlo da partida na primeira parte, pareceu sempre cansada e perdeu mobilidade no ataque. Foi um dia negro para a nossa equipa mas experimentem respirar durante10 minutos aquela areia e verão (…) os meus jogadores não conseguiam respirar (…). Que esta derrota seja uma lição para os nossos jogadores».
Para o guarda-redes Bizarro, a seleção concedeu muitos espaços aos sauditas, ao passo que para Valido a culpa da derrota «foi de todos». Por seu turno, Folha queixou-se do vento forte que se fez sentir.
Como consequência da derrota, Portugal continuou instalado em Riade, já que no outro jogo do grupo o empate dos nigerianos a 18 minutos do fim ditou que os africanos iriam fazer as malas para Damman, onde iriam defrontar a União Soviética. Do mal o menos para o conjunto português, até porque Riade seria cidade talismã.
Ante a Arábia Saudita, os portugueses jogaram com: (12) Bizarro; (15) Valido), (10) Paulo Madeira), (16) Fernando Couto e (5) Morgado; (7) Tozé (c), (8) Hélio, (9) Xavier, (4) Paulo Sousa ( (17) Folha, aos 54m) e (13) Resende ( (3) Paulo Alves, ao intervalo); (14) João Pinto.

(continua)

Vídeos:


PORTUGAL - CHECOSLOVÁQUIA: 1-0


PORTUGAL - NIGÉRIA: 1-0


PORTUGAL - ARÁBIA SAUDITA: 0-3

segunda-feira, janeiro 11, 2016

Histórias do Futebol em Portugal (16)... Taça Império e Taça Estádio: As "sementes" da Supertaça Cândido de Oliveira

A vistosa Taça Império
1944 é um ano marcante não só na história do futebol português como na história do desporto lusitano de uma forma geral. A 10 de junho desse ano eram oficialmente abertas as portas daquela que ainda hoje é considerada a mais emblemática sala de visitas do desporto de Portugal, o Estádio Nacional. Uma obra - à época - majestosa, que colocava a nação lusa em pé de igualdade com as maiores potências europeias de então, no que dizia respeito a infraestruturas desportivas modernas e de grande dimensão. Uma obra que teve o cunho do Estado Novo, nascida no berço da ditadura salazarista e cuja idealização remontou a 1933, altura em que na sessão de encerramento do Congresso dos Clubes Desportivos o presidente do Conselho, Oliveira Salazar, vincaria a importância do desporto enquanto veículo de educação da juventude com vista «ao crescimento de uma raça forte e sã que pudesse vir a defender o seu país». Concluída essa sua visão deixaria no ar uma promessa aos desportistas lusos: a construção de um Estádio Nacional! Um ano depois foi lançado o concurso para a edificação da catedral do desporto português, ficando definindo que esta seria erguida no Vale do Jamor e iria contemplar não só um moderno estádio como também um vasto leque de outras infraestruturas desportivas. O pontapé de saída na empreitada - projetada por (Eng.) Duarte Pacheco - foi dado em 1939, sendo que o apito final ocorreu cinco anos volvidos. Para a inauguração da obra uma pomposa festa foi agendada então para o dia 10 de junho de 1944, naquela que se constituiu como uma das maiores manifestações populares promovidas pelo Estado Novo e onde na qual marcaram presença cerca de 80.000 pessoas. Densa massa humana que preencheu as bancadas do imponente recinto que ali se inaugurava e que testemunhou o vasto programa festivo desenhado para celebrar a efeméride, programa esse pautado - sobretudo - por inúmeros desfiles de desportistas oriundos de inúmeras representações nacionais da Mocidade Portuguesa. 
Um dos muitos desfiles que ocorreram no dia
da inauguração do Estádio Nacional
Porém, o ponto alto da cerimónia foi protagonizado pelos dois mais laureados clubes da capital, Sporting e Benfica, emblemas que disputaram um sempre animado e intenso duelo futebolístico. Os leões subiam ao recém inaugurado tapete verde do Estádio Nacional na qualidade de campeões nacionais, ao passo que as águias o faziam enquanto detentores da Taça de Portugal. O prémio para o vencedor deste capítulo do dérbi eterno seria atribuído em dobro, isto é, o clube que chegasse ao fim na frente do marcador levaria para casa dois troféus, a Taça Império, instituída pela Federação Portuguesa de Futebol, e a Taça Estádio, oferecida por Salazar para celebrar a ocasião. E eis que a bola começa a rolar perante o olhar das bancadas que fervilhavam de entusiasmo. O Benfica teve um ligeiro ascendente no iníco do encontro, mas seria o Sporting a abrir o marcador quando estavam decorridos 10 minutos por intermédio do feroz leão Fernando Peyroteo, que assim batia pela primeira vez naquela tarde festiva o guardião Martins, escrevendo desde logo uma página na história do desporto nacional, e muito em particular do futebol luso, já que dos seus pés havia saído o primeiro de muitos remates certeiros que seriam desenhados no mítico palco. Já no segundo tempo Espírito Santo empataria a contenda, oferecendo desta forma aos presentes mais 30 minutos suplementares de futebol. Quase logo após o pontapé de saída do prolongamento Peyroteo voltou a fazer estragos na área encarnada ao fazer o seu segundo golo da tarde. Tento que animou os leões, que embalados chegariam ao 3-1 por intermédio de Eliseu. Julinho ainda iria reduzir para o Benfica, um golo que seria insuficiente para impedir a vitória sportinguista por 3-2. Nesse encontro as equipas alinharam com: Sporting - Azevedo, Manecas, Canário, Álvaro Cardoso, Barrosa, Eliseu, Mourão, António Marques, Peyroteo, Cruz e Albano. Benfica - Martins, César Ferreira, Carvalho, Jacinto, Albino, Francisco Ferreira, Espírito Santo, Arsénio, Julinho, Jaime e Rogério. 
Uma vista panorâmica do duelo entre Sporting e Benfica no dia 10 de junho de 1944
O Sporting arrecadava os dois troféus em disputa e mostrava o porquê de ser a melhor equipa do futebol português daquele tempo. Este simples jogo de futebol - e apontamento principal do cartaz festivo de propaganda fascista daquela tarde de junho de 44 - acabaria por servir de inspiração aos responsáveis vindouros do futebol português, os quais cerca de três décadas mais tarde se basearam nele para criar a terceira competição futebolística de maior importância do futebol português: a supertaça. Prova esta que desde 1979 é disputada pelo campeão nacional e pelo vencedor da Taça de Portugal, e que desde 1981 passou a chamar-se Supertaça Cândido de Oliveira, em homenagem a um dos maiores vultos da história do futebol em Portugal, precisamente o mestre Cândido de Oliveira.
Vídeo: EXCERTO DE UM DOCUMENTÁRIO SOBRE A INAUGURAÇÃO DO ESTÁDIO NACIONAL EM QUE SURGE UM BREVE RESUMO DO JOGO ENTRE SPORTING E BENFICA 

terça-feira, dezembro 22, 2015

ENTREVISTA: O minuto de fama do Recreio de Águeda no palco principal do futebol português recordado pelo goleador César

César, com as cores
do Águeda em 83/84
Fundado no longínquo ano de 1924 o Recreio de Águeda vive hoje na sombra de um passado que teve os seus lampejos de glória – sobretudo – na década de 80. No presente, o clube deambula pelos sombrios caminhos do futebol distrital da Associação de Futebol de Aveiro, muito distante do momento de glória vivido na temporada de 1983/84, altura em que este emblema pisou o palco principal do desporto rei português, o mesmo será dizer o Campeonato Nacional da 1ª Divisão. Uma aventura curta que até aos dias atuais é recordada na pacata e vistosa cidade banhada pelo rio que lhe dá o nome como o minuto de fama da coletividade que a 10 de abril último completou a bonita idade de 91 anos. Para muitos dos atuais adeptos do belo jogo o Águeda na 1ª Divisão Nacional é uma imagem desconhecida, irreal até, olhando para o presente, e nesse sentido, para descrever – ou reavivar memórias, no caso de adeptos de outras gerações – essa dita imagem nada melhor do que trazer até ao Museu Virtual do Futebol uma das personagens principais dessa atuação no palco maior do futebol português, Paulo César Mello de Albuquerque, ou simplesmente César, o nome de guerra com que este avançado brasileiro nascido no Rio de Janeiro em 1957 se deu a conhecer nos retângulos de jogo lusitanos.
Até aterrar em Portugal, César evidenciou o seu instinto predador ao serviço – sobretudo – de emblemas cariocas: revelado para o futebol nos escalões de formação do Bonsucesso, passou posteriormente pelo América, São Cristóvão e Campo Grande, tendo no início da década de 80 breves passagens pelo futebol baiano – ao serviço do Bahia e do Vitória – e paranaense – onde defendeu as cores do Colorado. O seu apurado faro pelo golo atraiu atenções do outro lado do Atlântico, e aos 26 anos viaja para o Velho Continente para representar um emblema que acabava de se sagrar campeão da Zona Norte da 2ª Divisão Nacional de Portugal e com isso garantia o inédito bilhete de ingresso no escalão maior do futebol deste país. É neste ponto que se dá início ao nosso papo com o ex-atacante César... 


Museu Virtual do Futebol (MVF): No verão de 1984 o César chega a Portugal para representar um clube que pela primeira vez na sua história atingia o patamar mais alto do futebol luso, a 1ª Divisão. Como é que surgiu o convite do Recreio de Águeda e que espectativas trazia na bagagem um avançado maduro – contava já com 26 anos de idade – e conhecido no futebol brasileiro. 
César (C): Os dirigentes do Águeda vieram ao Brasil procurar um avançado, sendo que o intermediário deles aqui indicou o meu nome, e assim assinei pelo clube. Em relação às expectativas para aquele novo desafio da minha carreira, elas passavam sobretudo por vencer na Europa e mostrar a minha capacidade.

MVF: Para além de espectativas, por certo que pela sua cabeça passavam outras questões, ou receios, na altura em que aceitou atravessar o Atlântico, isto é, sabia alguma coisa sobre o futebol português e muito em particular sobre o clube que vinha representar?
C: Sobre o futebol português em particular sim, conhecia o vosso futebol. Agora, sobre o Águeda não sabia nada. Na altura pela minha cabeça passavam as questões normais que um emigrante tem quando vai para um país novo, isto é, quais os costumes de lá, saber se nos vamos adaptar a esses mesmos costumes, etc. Mas eu levava uma vantagem comigo: o idioma. Falamos a mesma língua, e isso facilitou a minha adaptação. 
 
MVF: Sendo um carioca de gema, habituado à grande cidade do Rio de Janeiro, a chegada a uma pequena e pacata cidade como Águeda deve tê-lo impressionado, resta saber se pela positiva ou negativa...
C: O primeiro impacto foi de surpresa pelas dimensões (reduzidas) da cidade, além de que havia ruas "em cima, outras em baixo", ou seja, as ruas não eram todas planas! E esse foi um facto curioso que me chamou à atenção. Mas de um modo geral eu sempre tive a capacidade de me adaptar bem a situações novas, e em Águeda não foi exceção. O facto de a cidade ter dimensões reduzidas também era positivo a meu ver, já que as pessoas conheciam-se melhor umas às outras, havia mais convívio entre as pessoas da cidade, e esse acolhimento próximo ajudou-me na integração naquela nova realidade. Tive na verdade uma adaptação rápida e muito positiva. A única e pequena dificuldade inicial de adaptação foi ao nível do estilo tático que aqui se utilizava, ou seja, o facto de aqui se jogar (na época) com dois avançados centro, enquanto que no Brasil jogava-se com apenas um avançado e dois pontas ofensivos. Mas essa pequena dificuldade inicial foi cedo superada, como disse.
O plantel do Recreio de Águeda que disputou pela primeira e única vez - até hoje - a 1ª Divisão Nacional

MVF: E o clube, que impressões teve do Recreio de Águeda assim que chegou, isto em comparação, por exemplo, ao que estava habituado no Brasil. Que realidade encontrou?
C: Olha, na realidade o que mais me surpreendeu foi o piso do estádio do Águeda ser pelado! Eu nunca havia disputado campeonatos nesse tipo de piso. Mas isso acabou por não ser problemático para mim, já que me adaptei muito rápido. Os clubes aqui no Brasil, além do futebol, têm mais atividades sociais e o Recreio de Águeda não tinha nada disso quando lá cheguei. Agora, tinha uma massa adepta muito acolhedora, algo que acabou por me ajudar bastante na integração. Recordo-me que os adeptos do clube compareciam sempre nos jogos, incentivavam a equipa, e um pormenor curioso é que nunca nos vaiaram...


MVF: Na estreia na 1ª Divisão Nacional o Águeda era treinado por José Carlos, um ex-Magriço da seleção nacional que disputou o Mundial de 1966. O que recorda da relação profissional que com ele manteve durante uma época?
C: Confesso que a primeira impressão não foi boa, pois no primeiro diálogo que tivemos ele disse na frente de todos que não gostava de brasileiros. Isso magoou-me. Mas à medida que nos fomos conhecendo melhor o respeito passou a existir entre nós.


MVF: E o grupo de trabalho...
C: ...Excelente. Aliás, ainda hoje mantenho contacto com alguns, através das redes sociais.

Tibi, um dos mais experientes
do plantel do Recreio
MVF: Tal como o clube poucos eram os jogadores que tinham experiência do principal escalão do futebol em Portugal. As exceções eram talvez o guarda-redes, Tibi, o defesa-central brasileiro Paulo César e o médio Nogueira, que tinha sido campeão no Sporting. Acha que essa inexperiência acabou por pesar na curta aventura do clube na 1ª Divisão, uma vez que este acabou por descer? 
(Nota: o Águeda foi penúltimo classificado, contabilizando apenas 19 pontos, fruto de 7 vitórias alcançadas, 5 empates e 18 derrotas).
C: Não. Eu hoje em dia sou profissional na área da Educação Física, e na minha opinião o erro (do Águeda) passou pela organização da preparação. Alcançámos o pico de forma no meio da primeira volta, quando o deveríamos ter alcançado no meio do campeonato. Isso, deu origem a que quando chegou a reta final do campeonato o time já estava na fase descendente em termos de forma física. Veja bem, não estou a atribuir a responsabilidade ao treinador, mas a falta de um profissional da área – um preparador físico – era fundamental, para no momento exato programar a intensidade dos treinos. Mas na época, preparador físico era privilégio de poucos clubes.

MVF: Acha então que com uma melhor preparação física o Águeda talvez se tivesse aguentado na 1ª Divisão?
C: Melhor preparação não. A preparação física da equipa era excelente, faltou apenas conhecimento técnico e teórico da área para dosá-la no momento certo. A título de curiosidade, naquela época atingi a melhor forma física de toda a minha carreira!


MVF: Dos 25 golos marcados pelo Águeda nesse campeonato 10 foram da autoria do César, que foi o melhor marcador da equipa. Algum golo especial dessa dezena?
C: Talvez o meu primeiro golo em Portugal, contra o Farense (1-1) e o da primeira vitória (1-0) do Águeda na prova, contra o Varzim.
O onze do Recreio que no pelado do Municipal de Águeda recebeu o Benfica em jogo da 19ª jornada,
e em que César apontou o tento de honra dos locais
MVF: E o seu golo ao Benfica, apontado ao eterno guarda-redes Manuel Bento, em Águeda, na 19ª jornada, em que o Recreio perdeu por 4-1...
C: O que me lembro desse jogo é que o estádio tinha mais público do que a sua capacidade real. Havia pessoas dentro do pelado; a guarda da GNR a cavalo atrás das balizas e diga-se de passagem que o (árbitro) Carlos Valente foi corajoso em autorizar a partida naquelas condições. Mas o público deu um show de educação e cordialidade, há que dizê-lo.

MVF: A época de 83/84 foi mesmo a mais brilhante da vida do Recreio de Águeda. Com a descida à 2ª Divisão Nacional o clube foi desaparecendo com o passar dos anos, e hoje milita nos escalões distritais...
C: Sim, vejo isso com tristeza, pois gostaria muito de ver o Recreio de novo no mais alto escalão do futebol português.

MVF: E recordações da única época que passou em Águeda, algum momento que tenha sido mais curioso ou marcante – pela positiva ou pela negativa – e que queira partilhar nesta visita ao Museu Virtual do Futebol?
C: Descer de divisão foi talvez o momento mais frustrante. Mas bons momentos tive muitos, e seria injusto apontar apenas um. Quanto a histórias curiosas há uma que não esqueço. Quando cheguei a Águeda o presidente do clube disse-me que eu iria morar no “sítio tal” e eu respondi-lhe que não queria morar num sítio, mas sim numa vivenda ou num apartamento. Explicando isto: Sítio no Brasil é mais ou menos o equivalente a uma quinta em Portugal (risos). Só que eu não sabia o significado da palavra sítio em Portugal.

Manuel Oliveira
MVF: Águeda foi a sua porta de entrada no futebol português. Depois disso ficou por cá mais seis temporadas. As duas seguintes num histórico do futebol português, o Vitória de Setúbal. Que recordações tem dessas duas temporadas no Bonfim?
C: Novos ares, novos objetivos. Os individuais foram alcançados, ou seja, mantive a minha média de golos. Agora, em termos coletivos não alcançámos as competições europeias na primeira época e na segunda não conseguimos permanecer na 1ª Divisão.

MVF: Ainda no Estádio do Bonfim conviveu com grandes nomes do futebol português, entre outros o treinador Manuel Oliveira, que lembranças e opinião guarda deste mestre da tática?
C: Bom estratega, armava bem a equipa, mas até hoje não sei se para ele eu era um bom ou mau jogador, pois num dia ele dizia-me que eu era o melhor estrangeiro no futebol português, no outro eu não jogava na equipa titular! Mas apesar de tudo, fui o melhor marcador da equipa na primeira época – com 10 golos – , e na segunda fiquei um golo atrás do Fernando Cruz, que marcou 11 golos. Mas podia ter feito muitos mais golos, se tivesse jogado com maior frequência.

O cromo de César em Penafiel
MVF: Depois de Setúbal ainda passou uma temporada por Famalicão (2ª Divisão), outra em Penafiel e duas épocas no Olhanense (na 2ª Divisão), antes de voltar ao seu Brasil. Destaco a passagem por Penafiel, onde fez 15 golos, o seu melhor registo em Portugal numa só época, tendo ficado entre os 10 melhores marcadores do campeonato dessa temporada de 87/88. Que memórias regista dessa temporada em Penafiel?
C: Foi o grupo mais unido do qual eu fiz parte em Portugal. Éramos uma família, dentro e fora de campo, estávamos sempre juntos. As nossas famílias conviviam. Vivemos em festa durante um ano, dentro e fora de campo.

MVF: Nessa época ao serviço dos penafidelenses marcou dois golos ao Sporting em Penafiel, numa célebre goleada por 4-0. Lembra-se desse jogo?
C: Eu acho que esse jogo deve ter sido o maior feito do Penafiel na 1ª Divisão até hoje. Foi uma tarde inesquecível.

MVF: Em modo de despedidas. Que memórias - e desculpem desde já os eventuais leitores desta entrevista o uso e abuso de palavras como "memórias", "lembranças" ou "recordações", mas a nosso ver a sua aplicação torna-se obrigatória sempre que  antigos artistas da bola visitam o Museu - ficaram de Portugal?
C: Saudades da terra, dos amigos, da comida, mas não tenho saudades do frio (risos). Os piores momentos, talvez as saudades dos familiares que deixei aqui no Brasil. Mas, espero em breve poder retornar a esse maravilhoso país que é Portugal, e que me acolheu como um filho.


César no presente
MVF: E qual o clube que mais o marcou na sua passagem por terras portuguesas?
C: Todos me marcaram de uma ou de outra maneira. De todos trago algo dentro de mim e mesmo nos momentos difíceis, agradeço-lhes, por me terem ajudado a crescer como homem.


MVF: E o futebolista que mais o impressionou na sua passagem pelo futebol português...
C: Paulo Futre, pela qualidade, iniciativa e coragem, e ainda o Carlos Manuel, por ser um jogador quase completo...
MVF: Apontou mais de 40 golos no Campeonato Nacional da 1ª Divisão. Algum que recorde com mais nostalgia?
C: É difícil escolher um, pois cada golo é sempre especial, mas talvez o primeiro contra o Farense, na 5ª jornada, pois vai ficar na história como o primeiro golo do Recreio de Águeda na sua passagem pela 1ª Divisão. 

Vídeos: ALGUNS MOMENTOS PROTAGONIZADOS POR CÉSAR NA SUA PASSAGEM POR PORTUGAL (com a devida vénia aos detentores dos direitos destas imagens)

ÁGUEDA - FC PORTO (83/84)
VITÓRIA DE SETÚBAL - VITÓRIA DE GUIMARÃES (84/85)
VITÓRIA DE SETÚBAL - PORTIMONENSE (84/85)

segunda-feira, novembro 09, 2015

Arquivos do Futebol Português (4)

O team de Lisboa que em 1894 conquistou o primeiro troféu da história do futebol português
A popularização do futebol em Portugal levou a que a modalidade ultrapassasse em 1894 pela primeira vez as fronteiras regionais. A 29 de outubro de 1893 o jornal Diário Ilustrado publica uma carta do presidente do Football Club do Porto, António Nicolau d' Almeida, endereçada ao presidente do Football Club Lisbonense, Guilherme Pinto Basto, onde na qual o team do Porto convidava o team lisboeta para um duelo futebolístico a realizar a 2 de novembro desse ano. A missiva rezava assim: «Desejando solenizar a definitiva instalação do Football Club do Porto resolvemos organizar um match quarta-feira próxima 2 de novembro, no qual tomasse parte um eleven do team do clube a que V.Exa. tão dignamente preside. Não temos, é certo, em virtude da pouca prática e nenhum training dos nossos jogadores um eleven de primeira ordem, capaz de fazer frente ao do Club Lisbonense. Como, no entanto, o nosso convite não representa um repto lançado pelos nossos jogadores aos jogadores de Lisboa, mas tão somente o vivo desejo de estreitar relações de franca camaradagem, esperamos que V.Exas. nos revelarão a nossa justificada imperícia. Cumpro, pois, na qualidade de presidente do Football Club do Porto, o honroso dever de convidar por intermédio de V. Exas. os valentes e adestrados jogadores do Club Lisbonense a tomarem parte no referido match. Na esperança de sermos honrados com a anuência do nosso pedido, aguardamos o favor de uma resposta rápida para nosso governo. Deus guarde V.Exas. Excelentíssimo Sr. Presidente do Football Club Lisbonense».
A carta de António Nicolau d'Almeida a Guilherme Pinto Basto
O repto é aceite, pese embora por motivo de impossibilidade de organizar de forma tão célere a equipa e a viagem para o norte os de Lisboa fazem com o match fosse jogado somente a 2 de março do ano seguinte! Na ânsia de fazer deste um encontro adornado com pompa e circunstância, Guilherme Pinto Basto convence o rei D. Carlos a patrocinar o evento. O monarca, um acérrimo apaixonado pelo desporto, aceita de pronto, e mais do que isso disponibiliza-se para oferecer um troféu ao vencedor do match, exigindo somente que esta partida fosse incluída no programa das comemorações do Centenário Henriquino, em homenagem ao Infante D. Henrique, e que pelo menos seis jogadores de cada equipa teriam de ser portugueses, embora esta última exigência não terá sido seguida à risca, conforme iria atestar a constituição das equipas. O famoso encontro seria batizado pela imprensa da época de Cup d'el Rei, tendo os dois combinados sido integrados por elementos pertencentes a outros grupos de football das duas principais urbes lusitanas, facto que de pronto fez deste um confronto entre... Lisboa e Porto, o primeiro embate entre as duas cidades que com o passar das décadas viria a dar aso a uma acesa rivalidade.
O Campo do Inglês (na zona do Campo Alegre) era propriedade de um dos grupos mais populares da Cidade Invicta daquele tempo, o Oporto Cricket Club, emblema que cedeu alguns dos seus melhores jogadores ao team representativo do Porto, aos quais se juntariam alguns elementos do Football Club do Porto. Quanto ao team de Lisboa esse era capitaneado por Guilherme Pinto Basto, e reza a história que a viagem entre a capital e o Porto terá sido feita durante a madrugada que antecedeu o jogo e cuja duração chegou às 14 horas! Após o desembarque na Estação de Campanhã os lisboetas partiram de imediato para a zona do Campo Alegre onde de Sua Majestade o rei e restante família real... nem sinal! Mesmo sem a presença dos ilustres convidados o pontapé de saída foi dado quando passavam 15 minutos das três da tarde, tendo o encontro sido arbitrado por Eduardo Pinto Basto. Os jornais da época ressalvaram o facto de o terreno de jogo não ser dos melhores para a prática do futebol, referindo que a zona das balizas descaiam bastante, além de que os postes não se encontrariam à distância regulamentada! Quanto à família real essa chegou bastante atrasada ao espetáculo, quando passavam já 15 minutos das quatro da tarde, sendo que a pedido de Sua Majestade a Rainha D. Amélia os 22 players tiveram de fazer um esforço suplementar em prolongar a partida por mais 10 minutos para que os ilustres espectadores pudessem apreciar, devidamente, o espetáculo que terminou com a vitória da equipa mais experiente nestas andanças, isto é, a turma de Lisboa, por 1-0.
A bonita Cup d'el Rei, o primeiro troféu futebolístico instituído em Portugal, tendo sido disputado pelos grupos de Lisboa e Porto, em 1894
Os relatos do célebre encontro dizem que o golo dos lisboetas foi marcado já com a presença de suas majestades, embora o seu autor fosse por completo desconhecido! Rezam ainda as crónicas que o match teve na verdade dois golos, tendo o primeiro ocorrido quando faltavam 14 minutos para o intervalo, mas o facto de a bola ter batido no braço de um defensor da equipa nortenha antes de se encaminhar para o fundo da baliza levou a que o juiz Eduardo Pinto Basto anulasse o lance com a justificação de que o esférico havia sido jogado com a mão. Ainda segundo os relatos da época para a vitória do team de Lisboa - cujo golo foi marcado no segundo tempo - muito contribuíram as esplêndidas exibições dos irmãos Vilar, Carlos e Afonso, do inglês Rankin e ainda de Paiva Raposo. Para os portuenses sobraram alguns elogios, tidos como um team de primeira ordem, sendo que no plano individual se destacou as exibições do experiente escocês MacGeock, de Arthur Dagge e de MacMillen, facto que levou o jornal Sport - um dos primeiros periódicos portugueses dedicados ao desporto - referir que «se o grupo de Lisboa que, para o ano de 1895, tiver de defender a taça, não se treinar e não tiver muito cuidado na escolha dos jogadores que dele devem fazer parte, decerto bem difícil lhe será poder vencer o match, pois que, à equipa que vimos jogar pelo Porto, a única coisa que lhe notámos foi a falta de treinos, que, no que, estamos certos, não descurarão de futuro, a fim de poderem ganhar a taça, para o ano».
A notícia deste jogo teve eco além fronteiras, tendo os jornais ingleses publicado uma breve nota sobre o acontecimento ocorrido no Campo Alegre. Quanto ao troféu, o capitão e guarda-redes da equipa de Lisboa, Guilherme Pinto Basto, recebeu-o no final do encontro das mãos do rei D. Carlos, monarca que havia mandado executar esta peça banhada em prata na Casa Leitão & Irmão, joalheiros da Casa Real.  
Para a eternidade ficam as lines desse histórico embate: Porto - Hugh Ponsonly (c), MacGeock, A. Nugent, Guimarães, Arthur Dagge, MacMillen, Albert Kendall, Adolfo Ramos, MacKenie, Ray e Alfredo Kendall. Lisboa - Guilherme Pinto Basto (c), Keating, Locke, Barley, Artur Raposo, Rankin, Afonso Vilar, Pittuck, Thomson, Palmers e Carlos Vilar.
1893 e 1894 são anos repletos de matchs, não só nas duas principais urbes do país como noutras regiões de um Portugal que começava a abraçar nos seus quatro cantos o jovem football. Os jornais dão conta de desafios em Coimbra, Faro, Portalegre e Madeira, embora continue a ser na capital que a bola rola com mais frequência. O emblema com mais encontros disputados é o Football Club Lisbonense, que a par dos ingleses do Carcavelos Club é tido como o emblema mais forte do império. Há, aliás, em 1893 um duelo curioso entre estes dois clubes, disputado a 2 de fevereiro, no Campo das Salésias, e segundo as crónicas de então o Carcavelos, integrado por jogadores de outros teams lisboetas, como o Braço de Prata e o Club de Lisboa, derrotou por 1-0 o até então invencível Lisbonense, onde pontificavam três jogadores de origem negra - os primeiros negros do futebol português, segundo se sabe - Pascoal, Alfredo Silva e Valentim Machado.

Vídeo: Reportagem do Canal História sobre o primeiro troféu disputado em Portugal