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quarta-feira, setembro 29, 2010

Estrelas cintilantes (22)... Soares dos Reis

Substituir um ídolo é sempre uma tarefa deveras complicada para qualquer jogador que surge pela primeira vez debaixo das luzes da ribalta no seio de um clube. E ainda mais espinhosa se torna a missão se esse clube for um gigante dos rectângulos de jogo. Foi um pouco este o cenário vivido por Soares dos Reis, lendário guarda-redes do Futebol Clube do Porto da primeira metade do século XX. Nascido em Paredes a 11 de Março de 1911 Soares dos Reis teve a missão – para muitos impossível, naquela altura – de substituir na baliza dos “dragões” um mito chamado Mihaly Siska (de quem já aqui falámos há uns meses atrás), um húngaro considerado por muitos como o primeiro grande “keeper” do futebol lusitano. A missão não só seria superada como a nossa “estrela cintilante” de hoje haveria de se tornar igualmente numa lenda do clube da “Cidade Invicta”.
E assim o é graças às suas célebres e seguras exibições na baliza azul-e-branca durante os princípios da década de 30, altura em que foi um dos actores principais dos portistas nos triunfos dos primeiros capítulos do escalão maior do futebol português. Neste particular episódio destaca-se o título nacional referente à época de 1934/35, altura em que o Campeonato Nacional da 1ª Divisão teve a sua estreia. Soares dos Reis seria novamente campeão nacional em 38/39, sendo aqui de sublinhar que este título seria ganho sob o comando técnico de Mihaly Siska, o antecessor de Soares dos Reis, como já foi dito. Dono da baliza do FC Porto durante cinco temporadas Soares dos Reis figura ainda na história do clube por ter sido o seu primeiro guarda-redes internacional. Com as quinas ao peito actuou por quatro ocasiões, tendo a estreia não corrido lá muito bem, já que em Madrid, a 11 de Março de 1934 (dia em que completou 23 anos de idade), sofreria nove golos (!) de uma poderosa Espanha que a guardar a sua baliza tinha um mito – este de âmbito mundial – que dava pelo nome de Ricardo Zamora. A excentricidade era uma característica muito particular de Soares dos Reis, um homem que treinava a sua agilidade a... apanhar coelhos (!) e que tinha por mania – diziam alguns – bordar as suas iniciais nas camisolas como forma de dar – ainda mais – nas vistas dentro de campo.
Após abandonar o futebol continuou ligado ao clube do coração na qualidade de dirigente, e foi graças a si que dois nomes que mais tarde haveriam de se tornar mitos deste clube chegaram às Antas, nomeadamente Vírgilio e Hernâni.

sexta-feira, março 05, 2010

Grandes lendas do futebol mundial (7)... Pinga - Diabo do Meio-Dia

Estava o Mundo ainda muito longe de se maravilhar com as fintas e sprints de Cristiano Ronaldo e já a ilha da Madeira produzia diamantes raros no que toca à arte de conduzir a bola. Esta é uma história que teve início há mais de 100 anos, altura em que esta imortal lenda do “desporto rei” veio ao Mundo. Estávamos em 1909, numa época em que futebol vivia a sua era romântica, simples, puro, e consequentemente apaixonante... sem os tiques do mediatismo económico em que hoje em dia se encontra mergulhado.
Na cidade do Funchal nascia no dia 30 de Setembro desse longínquo 1909 um menino, um menino que recebeu a graça de Artur... Artur de Sousa, o seu nome completo. Como tantos outros meninos da sua idade foi crescendo contagiado pelo fascínio do futebol, dando asas à sua paixão em alegres jogos de rua disputados com uma bola de trapos e com os pés descalços. Foi-se tornado homem, e a sua perícia com a bola nos pés foi-se fazendo notar cada vez com mais intensidade, sendo que ainda no período da adolescência começaria a mostrar os seus dotes ao serviço do Marítimo. Encantaria pequenos e graúdos com as cores verde-rubras dos insulares vestidas, não demorando muito a que o seu nome começasse a despertar interesse junto dos principais emblemas do continente.
Um desses interessados era o Futebol Clube do Porto, clube que em finais dos anos 20 do século passado era orientado pelo seu lendário antigo guarda-redes Mihaly “Miguel” Siska. Em busca de pérolas para o seu clube Siska desenvolve todos os esforços para trazer outro mestre da táctica para a capital do Norte do país para o auxiliar na tarefa de conduzir os “dragões” aos patamares mais altos do futebol lusitano. Esse homem encontrava-se na altura na Madeira e tinha como graça... Joseph Szabo. Numa conversa de húngaro para húngaro Szabo confidenciaria a Siska que na Madeira havia um diamante por lapidar, um avançado fora de série, e que o FC Porto tudo deveria fazer para o levar para os seus quadros. Esse diamante era Artur de Sousa, ou melhor... Pinga, este era o seu nome de guerra, uma alcunha que tinha qualquer coisa a ver com o seu pai, presume-se.



Transferência polémica


Szabo e Pinga rumariam então ao Porto, onde ai chegariam a dois dias do Natal de 1930. Contudo a chegada do promissor avançado ao clube da Invicta foi tudo menos pacífica, já que os dirigentes do clube que representava na sua ilha, o Marítimo, acusaram os portistas de terem feito umas falsificações na documentação que haveria de selar o vínculo do esplêndido jogador ao FC Porto. Troca de acusações para aqui e para acolá de parte a parte mas o que é certo é que Pinga era em finais dos anos 30 pertença do Porto.
Desde logo mostrou os seus atributos. A bola era como se fosse sua escrava, fazia tudo o que ele queria. Driblava de uma forma quase mágica e rematava com um poder quase humanamente impossível. Numa altura em que o profissionalismo estava ainda muito longe de chegar ao futebol Pinga iria receber do FC Porto um ordenado de 500 escudos... por baixo da mesa. Não era permitido na época os jogadores receberem salário fixo para jogar, e como tal, e para disfarçar, Pinga fingia que auferia esse salário através do seu emprego na Fábrica de Sebastão Ferreira Mendes, um homem que anos mais tarde chegaria à presidência dos portistas.
Muito rapidamente tornaria-se na principal referência do FC Porto de Szabo e Siska, a estrela da equipa, colocando para segundo plano jogadores como Valdemar Mota, por exemplo, o qual em 1928 havia sido o único atleta portista a ter a honra de representar a Selecção Nacional de Portugal nos Jogos Olímpicos de Amesterdão. E por falar em selecção das “quinas” é de sublinhar que ainda com as cores do Marítimo Pinga seria convocado para representar o combinado lusitano, num jogo contra a Espanha, velha inimiga da nação portuguesa que levaria (corria o ano de 1930) do Ameal um triunfo de 1-0.
Os espanhóis ficaram desde logo loucos com a mestria de Pinga, e elogios não faltaram na imprensa da época do país vizinho para com aquele jovem talento.
Envergando as cores do “dragão” Pinga foi coleccionando títulos atrás de títulos: 3 vezes campeão da Liga, 2 vezes campeão nacional da 1ª divisão, 1 campeonato de Portugal, e 13 títulos de campeão distrital (da Associação de Futebol do Porto). Isto a juntar aos 3 títulos de campeão do Funchal conquistados ao serviço do Marítimo. Palmarés impressionante, não há dúvida! De entre estas conquistas destacam-se a primeira edição do Campeonato Nacional da 1ª Divisão, corria a época de 1934/35, sob o comando técnico de Szabo. Título do escalão maior do futebol português que seria repetido em 1938/39, aqui já sob a batuta de Siska, uma vez que Joseph Szabo havia partido para o sul do país para orientar o Sporting.
Um dos “Três Diabos do Meio-Dia”

Com o passar dos anos Pinga tornara-se não só na estrela-mor do clube da Invicta como também o seu patrão, o seu estratega, o homem capaz de resolver um jogo num lance de génio. E o FC Porto deve-lhe muitas tardes de glória que compõem a sua prestigiada história. Num célebre encontro (ocorrido em 1933) entre os portistas e o First de Viena, da Áustria, uma das mais poderosas equipas do Mundo da época, Pinga fez uma exibição memorável. Ele e mais dois companheiros seus, nomeadamente Valdemar Mota e Acácio Mesquita. Um trio que compunha o mágico meio-campo do FC Porto que nessa partida realizada à hora de almoço fizera “gato-sapato” da equipa-maravilha do First com jogadas absolutamente encantadoras e... diabólicas. E assim foi de tal maneira que Rodrigues Teles os chamaria de “Os Três Diabos do Meio-Dia”, alcunha que ficou para sempre nos anais da história do futebol.
Anos mais tarde, por alturas da sua despedida dos rectângulos de jogo, e quando recoradava essa mítica partida (a qual terminou com a vitória portista por 3-0) Pinga opinaria que «Aquilo é que era jogar... Que me desculpem a vaidade, mas parece-me que nunca mais se arranjam três rapazes da bola tão intimamente ligados a acertar na borracha. Se até nós, às vezes, nem sabíamos como aquilo era...».
Mas nem tudo foram coroas de glória na carreira deste génio. Considerado durante anos a fio como o melhor futebolista português era pois com naturalidade que os adversários recorressem a todo o tipo de faltas para o travar em campo. Algumas bem duras. Como tal não era de estranhar a ocorrência de lesões graves. Neste aspecto foi dos primeiros jogadores em Portugal a sujeitar-se a uma operação ao menisco, correndo mesmo o risco de não poder voltar a jogar. Face a isto o desânimo de Pinga para com o futebol ia aumentando. A beleza do jogo ia-se esfumando na opinião do craque. Mas não era apenas pela violência imposta pelos adversários que o futebol começava a desagradar a Pinga, também pelas atitudes de certos dirigentes começavam a ter consigo. E neste último ponto é de recordar um episódio, ocorrido em 1933, ano em que os dirigentes do FC Porto doridos pela perda do Campeonato de Portugal decidem refrescar a sua equipa. E fazem-no indo contratar três jogadores ao vizinho Boavista, oferecendo a cada um deles 800 escudos. Injustiçado com esta atitude Pinga resolve fazer as malas e regressar à sua ilha da Madeira. Sabendo disto os dirigentes do Porto correm atrás dele na tentativa de o demover de tal decisão, e é já em plena Estação de S. Bento, onde o craque se preparava para apanhar o comboio para Lisboa e dali embarcar para o Funchal, que os responsáveis portistas o conseguiram convencer a permanecer na Invicta, acenando-lhe com um ordenado de... 800 escudos. Para evitar novas tentativas de “fuga” da sua estrela-mor o FC Porto foi-lhe aumentando gradualmente o salário com o avançar dos anos, e em 1937 era já o futebolista mais bem pago de Portugal, auferindo um vencimento de 1500 escudos. Mais de metade daquilo o que ganhava outra lenda do futebol português dos anos 30/40, o sportinguista Peyroteo.

O emocionado adeus

E em 1946 este conto de fadas futebolístico chegava ao fim, ano em que Pinga disse adeus aos campos, em que colocou um ponto final a uma carreira ímpar. Para assinalar este momento o FC Porto organizou uma festa de despedida, um jogo entre a sua equipa principal e uma selecção formada por jogadores do Sporting, Benfica, Belenenses, e Académica. O encontro realizou-se no mítico – e já desaparecido – Estádio do Lima, no Porto, e ao recinto ocorreu uma numerosa massa de apaixonados pela arte que Pinga criou ao longo de mais de uma década e meia pelos campos de futebol lusitanos.
O Lima estava cheio para dizer adeus ao seu ídolo. O público chorou de emoção quando Pinga abandonou o relvado. O seu nome foi gritado com uma tremenda emoção no meio de uma chuva de aplausos vindos das bancadas que tantas vezes o viram brilhar. E Pinga saiu do relvado, envolto em lágrimas, olhando para a multidão que dele se despedia, e com a voz trémula ia deixando “obrigados” aqui e ali. Deixou uma impressionante marca de 400 jogos realizados e 396 golos apontados (!!!), uma média de quase um golo por encontro. Em 35/36 foi mesmo o goleador-mor do Nacional da 1ª Divisão com 21 golos.
Deixou de jogar mas não deixou o vício do futebol. Penduradas as botas iniciou uma carreira de treinador, e embora com menos êxito do que fizera como jogador também nesta nova função fê-lo com um certo brilho. De recordar uma surpreendente vitória do Tirsense, por si orientado, diante do poderoso Sporting dos “Cinco Violinos”, em jogo da Taça de Portugal, que ditaria o afastamento dos “leões” da prova.
No seu FC Porto ainda foi treinador-adjunto de outro mestre do futebol, Cândido de Oliveira, e mais tarde seria treinador das camadas jovens azuis-e-brancas. Aliás, em 1945, numa crónica sua publicada no jornal que ajudou a fundar, “A Bola”, mestre Cândido confirmou a sua admiração profunda por Pinga, ao dizer que: «Artur de Sousa foi um jogador fulgurantíssimo, verdadeiramente genial. Talvez o maior talento de jogador do nosso futebol. Tudo nele era prodigioso: a concepção, como a execução; a imaginação viva e riquíssima marcada na escolha do lance ou do toque subtil, ou a finta intencional e preconcebida, ou no pormenor em que revelava a sua grande inteligência prática, o profundo e exacto conhecimento do jogo e dos jogadores e até sentido artístico - de verdadeiro artista do futebol.»
Por estas alturas o futebol não era o único vício da lenda. O vinho era outra das suas paixões, uma terrível paixão que o haveria de levar à morte em 1963. Vitimado por uma cirrose morreria a 12 de Julho desse ano de 63 na cidade que ainda hoje o recorda como um dos maiores génios de todos os tempos da arte de manusear a bola, a cidade do Porto.
 
Legenda das fotografias:
1- O genial Artur de Sousa, imortalizado no mundo do futebol como Pinga
2- A equipa do FC Porto campeã nacional em 1938/39
3- Os célebres "Três Diabos do Meio-Dia"
4- Pinga com as cores da Selecção Nacional, a qual representaria por 23 ocasiões, tendo apontado nove golos
5- Placa toponímica com o seu nome numa Rua do Funchal

quinta-feira, novembro 05, 2009

Estrelas cintilantes (18)... Mihaly Siska

É por muitos considerado como o primeiro grande guarda-redes do futebol português. Alto e de uma enorme envergadura física deixou atrás de si um rasto de pura classe e talento na arte de bem defender as balizas. Isto numa época em que o “desporto-rei” lusitano não era mais do que uma criança a dar os primeiros passos.
Falamos do lendário Mihaly Siska, o húngaro de nascença mas português de alma e coração que se notabilizou no primeiro quarto do século XX ao serviço do Futebol Clube do Porto.
Como já vimos nasceu na Hungria, em 1906, mas viveu a maior parte da sua vida no nosso país, para onde emigrou aos 18 anos de idade pela mão do seu compatriota Akos Tezler, um conceituado treinador de futebol daquela época.
E veio para jogar futebol ao serviço do popular clube nortenho, transferindo-se do “gigante” húngaro do Vasas de Budapeste. A sua contratação causou de imediato polémica cá no nosso burgo, uma vez que lhe havia sido atribuída uma verba mensal de 1000 escudos. Um escândalo, pois não podemos esquecer que na época o futebol português era totalmente amador. Como tal, Siska não se assumiu como profissional de futebol, tendo aceite então um emprego na Sociedade dos Vinhos Borges & Irmão como mecânico.
Paralelamente a este cargo executava com mestria aquilo que na verdade o havia trazido ao nosso país: jogar à bola. As suas exibições com a camisola dos dragões foram lendárias. Rezam as crónicas que foi por sua influência que o FC Porto conquistou inúmeros e importantes triunfos ao longo dos dez anos em que este homem defendeu as redes azuis-e-brancas. Uma dessas crónicas alude para a decisão do título de campeão de Portugal da temporada de 1924/25, entre o FC Porto e o Sporting, partida disputada em Viana do Castelo, onde uma memóravel – e para muitos do outro mundo – exibição de Siska valeu a vitória aos nortenhos por 2-1.
Pelo emblema da “Cidade Invicta” voltaria a vencer o Campeonato de Portugal (nota: prova antecessora da actual Taça de Portugal) em 1931/32 sob a orientação de outro “mago” húngaro que fez escola no nosso país, o treinador Joseph Szabo.
Amava o FC Porto, a cidade e o nosso país, não sendo pois de estranhar que se naturalizasse português, passando posteriormente a adoptar o nome de Miguel Siska. Com o passar dos anos foi reconhecido internacionalmente como um dos melhores guardiões da Europa. Era conhecido nos meandros da bola como o “meia equipa” pela importância já frisada que desde a sua chegada assumiu no jogo do FC Porto. Aos campeonatos de Portugal conquistados já aqui falados juntaria na sua vitrina pessoal inúmeros títulos regionais da Associação de Futebol do Porto.
Devido a problemas de saúde retirou-se dos campos em 1934, assumindo a função de treinador em 1938 quando orientou a equipa do Sport Progresso. Na época de 1938/39 o clube do seu coração chamou-o para orientar a equipa que iria disputar o Campeonato Nacional da 1ª Divisão. O resultado não poderia ser melhor: o FC Porto de Siska sagrou-se campeão nacional, um feito repetido uma temporada mais tarde.
Abandonado o comando técnico dos portistas Miguel Siska passou a desempenhar funções de funcionário da secretaria do clube até à sua morte, a qual ocorreu em 1947, quando somente contava com 41 anos de idade.