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segunda-feira, novembro 26, 2012

Futebol nos Jogos Olímpicos (5)... Amesterdão 1928

O torneio de futebol das Olimpiadas de Amesterdão em 1928 não foi mais do que a confirmação daquilo que se visionara quatro anos antes em Paris, por outras palavras, o Uruguai enquanto a seleção mais poderosa do Mundo. Amesterdão 1928 foi pois como a segunda parte de uma das mais belas e poéticas histórias futebolísticas, a história de uma talentosa equipa que mostrou ao globo que o futebol poderia ser jogado de uma maneira artística e atraente, bem diferente do famoso kick and rush inglês interpretado pela esmagadora das seleções e/ou clubes do então planeta da bola.
E para tentar reconquistar o Mundo a seleção uruguaia voltou a reunir grande parte dos artistas que em Paris haviam entrado para a história, entre outros o lendário capitão Jose Nasazzi, Hector Scarone, Pedro Cea, ou a Maravilha Negra José Leandro Andrade, a primeira grande estrela do futebol a nível internacional, consagrada precisamente na capital francesa durante as célebres Olimpíadas de 24.
Poucas eram as equipas que apresentavam qualidade para impedir os magos uruguaios de (re)conquistar o ouro olímpico, sendo as exceções a Itália, que na década de 30 iria suceder precisamente ao Uruguai como a patrona do planeta futebolístico, ou a aguerrida e tecnicamente evoluída Argentina, que fazia a sua estreia naquele que era então considerado o maior evento desportivo do Mundo, e que nos duelos sul americanos vinha dando luta aos lendários uruguaios. A todas as outras seleções sonhar - com pelo menos uma vitória - era a ambição mais... realista.

Portugal faz a estreia na alta roda internacional

E entre os combinados que sonhavam pelo menos sair de Amestrdão com um resultado positivo na bagagem estava Portugal, uma seleção que a par de México e do Chile fazia a sua estreia na alta roda futebolística internacional. Presença nas Olimpíadas holandesas que foi o primeiro grande momento internacional do então jovem futebol português, foi como um prémio para aquela que muitos dos críticos dizem ser a primeira geração dourada da modalidade em terras lusas, na qual pontificavam lendas como Jorge Vieira, Vítor Silva, Augusto Silva, Raul Tamanqueiro, Valdemar Mota, Carlos Alves, ou o genial Pepe (cujo nome de batismo era José Manuel Soares).
Sob o comando do mestre Cândido de Oliveira - o responsável técnico pela equipa portuguesa em Amesterdão - o futebol português vivia uma fase de clara evolução. A seleção nacional deixara de ser aquele grupo de bons rapazes que na primeira metade dos anos 20 entrava para o campo de batalha com o espectro da derrota no horizonte, e dava agora lugar a um conjunto de habilidosos e criativos atletas cuja mentalidade vencedora desafiava, sem medo, fosse qual fosse o adversário. Prova desse atrevimento é que no início desse célebre ano de 1928 a seleção nacional empatou pela primeira vez ante a Espanha, seleção com quem até à data sempre havia perdido, e muitas vezes sido goleada, e já na fase de preparação para os Jogos Olímpicos esmagou a poderosa Itália por 4-1 e empatou com a talentosa Argentina a zero golos, resultados que fizeram crescer entre a nação um sentimento de orgulho e esperança de que finalmente Portugal podia fazer parte da elite do futebol internacional.
E coube precisamente à seleção portuguesa dar o pontapé de saída no quinto torneio olímpico de futebol da história. Facto ocorrido a 27 de maio, no Estádio Olímpico de Amesterdão, o anfiteatro onde decorreu a maior parte da ação da 8ª edição dos Jogos Olímpicos, onde os lusitanos enfrentaram os também estreantes do Chile, num encontro referente à única pré-eliminatória do evento. Os sul americanos cedo chegaram a uma vantagem de dois golos (Saavedra marcou aos 14 minutos e Carbonell ampliou aos 30). O acordar dos portugueses deu-se ainda durante a etapa inicial, quando aos 38 minutos o artista da linha avançada Vítor Silva reduziu para 1-2. Apercebendo-se do perigo que ali estava os chilenos logo trataram de inutilizar o avançado do Benfica, aplicando uma entrada mais dura que o levaria a abandonar o relvado até ao intervalo, e só voltar no reatamento. Com 10 - naquele tempo não eram permitidas as substituições - Portugal agigantou-se, e respondendo ao agressivo e desleal estilo chileno com um futebol tecnicamente refinado, criativo, e determinado, não foi de estrahar que ainda ante do descanso Pepe coloca-se todo o seu génio em campo e fizesse a igualdade. Enchendo o peito de coragem os bravos portugueses partiram com tudo para cima do Chile na etapa final, e logo a abrir a segunda parte Pepe opera a reviravolta no marcador, cabendo a Valdemar Mota a tarefa de carimbar de vez o passaporte luso para a a 1ª eliminatória do torneio. 4-2, o resultado final, e o Mundo ficava a conhecer a alma - guerreira - lusitana. Sobre esta histórica entrada em cena o cronista Fernando T. Pinto escreveu o seguinte texto no seu livro A História do Futebol em Portugal (publicado em 1956): «Em consequência da dureza que empregavam, Vítor Silva recebeu um toque violento no joelho e houve quer ser retirado, em braços, do campo, para só regressar depois do intervalo. Jogando com o coração, concentrando o pensamento na pátria distante, os nossos representantes apoiados por um grupo que se deslocara à Holanda, multiplicaram-se e num estrondoso alarde de valentia, ânimo, coragem e consciência técnica operámos a reviravolta».

Argentinos candidatam-se ao trono

No dia 29 de maio, também no Estádio Olímpico, a Argentina fez a sua estreia oficial no torneio olímpico de futebol, uma entrada onde deixou transparecer ao Mundo que estava ali para subir ao trono que era ocupado pelos vizinhos e velhos inimigos do Rio da Prata, o Uruguai. A apadrinhar a estreia da equipa das pampas estiveram os norte-americanos, um conjunto de bonz rapazes para quem o soccer era um verdadeiro enigma, a julgar pela pesada derrota que sofreram. 11-2, a favor os sul americanos, com destaque para o poker (quatro golos) do avançado Domingo Tarasconi, que no final do certame foi coroado como rei dos goleadores, com um total de 11 remates certeiros.
Antes desta goleada a Bélgica - ex-campeã olímpica - bateu com alguma dificuldade o frágil Luxemburgo por 5-3, ao passo que a Alemanha esmagou a Suíça por 4-0 - com três golos da autoria de Richard Hofmann -, e o experiente - em matéria de Olimpíadas - Egito goleava a Turquia por 7-1.
Quanto à França, bem, viveu mais uma desilusão. Depois das tentativas falhadas em 1908, 1920, e 1924, os franceses voltaram a não conseguir agarrar o sonho olímpico. Talento não lhes faltava, mas mais uma vez ficavam pelo caminho cedo demais. Mas desta feita, e ao contrário das edições de 1908 e 1920, sairam de cabeça erguida, e orgulhosos da sua prestação diante da Itália, uma potência que começava a aparecer nos relvados internacionais. No duelo ante a Squadra Azzura os franceses - que em Amesterdão foram novamente orientados por um inglês, desta feita Peter Farmer - estiveram prestes a espantar o Mundo e mandar para casa mais cedo um dos favoritos a destronar o mágico Uruguai. Juste Brouzes, por duas ocasiões, colocou os gauleses a vencer por 2-0 numa altura em que o relógio marcava apenas 17 minutos de jogo decorrido! Mas do outro lado estavam alguns jogadores que anos mais tarde iriam ascender ao Olimpo dos Deuses da Bola, casos de Angelo Schiavio, ou de Gino Rossetti, que guiariam à azzurra à reviravolta e a permanecer desta forma no trilho do título olímpico. 4-3, resultado apertado, mas justo de uma Itália que confirmou ter armas suficientes para lutar pelo ouro.
Sem grandes problemas a Espanha - que em Amesterdão se viu privada da sua grande estrela, Ricardo Zamora - despachou o México por 7-1, enquanto que Portugal vivia um novo momento histórico na sua primeira presença internacional. Ante a Jugoslávia nova vitória alcançada, desta feita por 2-1, e confirmada em cima da meta, isto é, aos 90 minutos por Augusto Silva, que desta forma ficou eternizado como o Tigre de Amesterdão. Antes disso Vítor Silva havia inaugurado o marcador aos 25 minutos, sendo que aos 40 Bonacic empatou. Sobre este triunfo Fernando T. Pinto escreveu: «Tivemos sorte e jogámos com nobreza e generosidade nos 15 minutos finais, merecendo destaque Augusto Silva, que recebeu nesse jogo o epíteto de tigre de Amesterdão. Foi tão pujante, tão portentosa a exibição do médio-centro lusitano que, no final, os próprios holandeses o passearam em triunfo».
No derradeiro encontro da ronda inicial o Estádio Olímpico engalanou-se para receber a deslumbrante seleção uruguaia. Quase 28 000 espetadores não quiseram perder a oportunidade de ver em ação José Leandro Andrade e companhia, que como primeiro obstáculo tiveram a turma da casa, a Holanda. E não foi uma barreira fácil de ultrapassar, diga-se em abono da verdade. Pese embora a sua superioridade nunca tivesse sido colocada em causa o Uruguai venceu somente por 2-0 a equipa orientada pelo inglês Robert Glendenning, sendo que o golo da tranquilidade chegou apenas aos 86 minutos, por intermédio de Santos Urdinaran (Scarone havia feito o 1-0 aos 20 minutos).

Squadra Azzurra esmaga Espanha à segunda tentativa

Assumia contornos de "prato principal" dos quartos de final do torneio olímpico de 28. Espanha e Itália, duas seleções com vitórias distintas na 1ª eliminatória protagonizaram um embate empolgante na tarde de 1 de junho. Nos italianos uma surpresa no "onze". Giampiero Combi, guarda redes da Juventus, fazia a sua estreia em competições internacionais, ele que seis anos depois haveria de erguer - na qualidade de capitão de equipa - a primeira taça de campeão do Mundo conquistada pela Squadra Azzurra. Aos 11 minutos o experiente defesa Domingo Zaldua colocou os espanhóis em vantagem no marcador, vantagem essa assegurada até meio da etapa final, altura (63 minutos) em que Baloncieri repós a igualdade e obrigou a que este duelo fosse repetido três dias depois.
A caminhada triunfal da Argentina continuou no dia seguinte (2 de junho) com uma nova goleada, desta feita imposta à Bélgica, por 6-3, com a particularidade de Tarasconi ter feito novamente quatro golos.
E no dia 3 o Uruguai espalhou magia pelo relvado do Olímpico de Amesterdão, que mais uma vez registava uma boa casa (25 000 pessoas) para ver os magos sul americanos em ação. Com uma exibição repleta de glamour o combinado celeste vulgarizou os alemães, que mais não conseguiram fazer do que evitar uma não muito pesada derrota por 1-4, e desta forma gabar-se de dizer que foram afastados da competição pela melhor equipa do Mundo, ou melhor, por um conjunto de jogadores do... outro Mundo!
E o sonho português conhecia um novo capítulo no dia 4 de junho. Novo e derradeiro capítulo, já que os faraós do Egito colocaram um ponto final na aventura dos pupilos de Cândido de Oliveira na sequência de um triunfo por 2-1. Até aos 75 minutos desse encontro os norte africanos estiveram a vencer por 2-0, altura em que Vítor Silva reacendeu a chama da esperança ao reduzir para 1-2. Os portugueses lutaram com alma até final pela hipótese de conquistar uma medalha, mas podem queixar-se sobretudo da sua falta de inspiração no aspeto da finalização para justificar o afastamento perante o teoricamente acessível Egito. Muitas oportunidades de golo foram desperdiçadas pelo conjunto luso, que no final se queixou... do árbitro italiano Giovanni Mauro. Eliminados, os jogadores lusos regressaram dias depois a solo lusitano - depois de 40 horas de comboio! - onde seriam recebidos como... heróis. E heróis ficaram para a eternidade.
E se o primeiro Itália - Espanha havia sido pautado pelo equilíbrio o jogo de desempate foi tudo menos equilibrado. Uma exibição de gala dos italianos, em contraposto com uma atuação paupérrima da Espanha, foi concluída com uma robusta vitória por 7-1 (!) dos transalpinos.

Celeste Olímpica vence final antecipada

Era grande a espetativa dos holandeses - e do resto do Mundo - em saber quem iria enfrentar a Argentina na final dos Jogos Olímpicos de 28. Argentinos que na primeira semi final haviam aplicado de novo a chapa seis, desta feita ao Egito (6-0), com três golos de Tarasconi.
Estranhamente apenas 15 000 espetadores marcaram presença no Estádio Olímpico para assistir ao embate que iria decidir o segundo finalista, a Itália ou o Uruguai. Duas grandes equipas em ação, e grande foi, com naturalidade, o duelo protagonizado por ambas. Baloncieri inaugurou o marcador para a azzurra logo aos nove minutos, mas comandada de forma magistral desde o setor recuado do terreno pela Maravilha Negra Andrade a Celeste Olímpica - assim ficou eternizada a seleção uruguaia após as Olimpíadas de 24 e 28 - chegaria ao empate aos 17 minutos por intermédio de Cea. Campolo, aos 28 minutos, e Scarone, aos 31, ampliaram a vantagem dos sul americanos pra 3-1, resultado com que se atingiu o descanso.
Na segunda etapa a Itália deu luta, e aos 60 minutos Levratto encurtou distâncias no marcador, mas até final de nada valeram os esforços dos europeus, já que quando o árbitro holandês Eijmers apitou pela última vez o marcador indicava um 3-2 a favor os lendários uruguaios.

Final em dois atos

E eis que chegávamos a 10 de junho, o dia mais esperado do torneio olímpico, o dia da grande final. E o cartaz era convidativo, frente a frente dois pesos pesados do futebol... sul americano. Os seus duelos - oficiais - remontavam a 1916, ano em que começou a ser disputado o Campeonato Sul-Americano - mais tarde rebatizado de Copa América -, e cujo domínio era repartido pelos dois velhos inimigos. Encontravam-se agora num patamar mais alto que não o da luta pelo trono de rei das américas. O que agora estava em jogo era o título de campeão do... Mundo.
Um dia antes da final a Itália tinha conquistado a medalha de bronze depois de esmagar o Egito por 11-3!
Pouco mais de 28 000 entusiastas encheram as bancadas do Olímpico de Amesterdão para ver quem sucederia ao Uruguai como dono do planeta. E aquilo a que assistiram foi uma épica jornada futebolística, protagonizada por duas equipas que se conheciam muito bem, e cujo futebol apresentava contornos mágicos, em especial o dos uruguaios. Pedro Petrone (melhor marcador do torneio de 1924) fez 1-0 para os uruguaios aos 23 minutos, enquanto que o empate seria restabelecido aos 50 por Manuel Ferreira. Para desilusão dos muitos entusiastas que presenciaram aquele histórico duelo 1-1 seria o resultado final, e como tal ditavam as leias que teria de haver um novo encontro três dias depois.
No dia 13 as bancadas do anfiteatro holandês apresentaram-se novamente cheias para ver o segundo ato desta inolvidável peça futebolística. E mais uma vez sob o signo do equilibrio ambos os conjuntos não defraudaram os espetadores. Num magnífico espetáculo Figueroa fez 1-0 aos 17, e Monti empataria aos 28. Estava escrito que só um golpe de génio, um ato de magia, poderia desempatar este encontro, e seria isso mesmo o que viria a acontecer aos 73 minutos, altura em que a lenda Hector Scarone bate o guardião Angel Bossio pela segunda vez e revalida desta forma o título de campeão olímpico para o Uruguai.
Após este torneio o futebol nos Jogos Olímpicos como que morreu! O sucesso das primeiras edições olímpicas fez com a FIFA - mais concretamente o seu presidente Jules Rimet - idealiza-se uma grande competição internacional, que reunisse as melhores equipas do Mundo à sua volta, uma competição independente do Comité Olímpico Internacional que teimava em não permitir que jogadores profissionais participassem nos Jogos. Assim, em 1930 surgia o primeiro Campeonato do Mundo de futebol, certame organizado pela FIFA, que com o passar dos anos haveria de ultrapassar os Jogos Olímpicos em termos de popularidade e mediatismo. E como espécie de presente pelas inolvidáveis campanhas levadas a cabo em 1924 e 1928 a FIFA atribuiu a organização do primeiro Mundial da história precisamente ao Uruguai, país que sem qualquer surpresa haveria de se tornar no primeiro campeão do Mundo... oficial.

A figura: José Leandro Andrade

Mais uma vez o Uruguai foi guiado até à glória desde a sua defesa, pelo homem qué é ainda hoje considerado como a primeira grande estrela do futebol internacional: José Leandro Andrade.
Ágil, elegante, e combativa a Maravilha Negra foi o centro das atenções durante a estadia dos uruguaios em Amesterdão, foi o responsável pelo elevado número de público que se deslocava ao Estádio Olímpico sempre que o Uruguai entrava em ação, adeptos esses que procuravam assim ver de perto o primeiro ícone do futebol internacional.
Se em Paris Andrade foi decisivo para a conquista do título, em Amesterdão o seu papel foi fundamental, servindo de bandeja de ouro os seus companheiros mais adiantados no terreno no ataque às redes adversárias.
(Nota: Sobre a biografia de Andrade o Museu Virtual de Futebol já traçou inúmeras linhas ao longo da sua história, tanto na vitrina dedicada às grandes lendas, como na visita efetuada às Olimpíadas de 1924, onde a Maravilha Negra foi considerada a grande figura, tal como em Amesterdão)

Resultados

Pré-eliminatória

27 de maio de 1928
Portugal - Chile: 4-2
(Pepe, aos 40m, 50m, Vítor Silva, aos 38m, Valdemar Mota, aos 63m)
(Saavedra, aos 14m, Carbonell, aos 30m)

1ª Eliminatória

Luxemburgo - Bélgica: 3-5
(Schutz, aos 31m, Weisgerber, aos 42m, Theissen, aos 44m)
(Braine, aos 9m, aos 72m, Moeschal, aos 23m, aos 67m, Versyp, aos 20m)

28 de maio de 1928

Suíça - Alemanha: 0-4
(Hofmann, aos 17m, aos 75m, aos 85m, Hornauer, aos 42m)

Turquia - Egito: 1-7
(Refet, aos 71m)
(Moukhtar, aos 46m, aos 50m, aos 63m, El Hassany, aos 20m, Riad, aos 27m, Hooda, aos 53m, Zobeir, aos 86m)

29 de maio de 1928


França - Itália: 3-4
(Brouzes, aos 15m, aos 17m, Dauphin, aos 61m)
(Rossetti, aos 19m, Levratto, aso 39m, Banchero, aos 43m, Baloncieri, aos 60m)

Jugoslávia - Portugal: 1-2
(Bonacic, aos 40m)
(Vitor Silva, aos 25m, Augusto Silva, aos 90m)

Argentina - Estados Unidos da América: 11-2
(Tarasconi, aos 24m, aos 63m, aos 66m, aos 89m, Manuel Ferreira, aos 9m, aos 29m, Cerro, aos 47m, aos 49m, aos 57m, Orsi, aos 41m, aos 73m)
(Kuntner, aos 55m, Carroll, aos 75m)

30 de maio de 1928

Espanha - México: 7-1
(Regueiro, aos 13m, aos 27m, Yermo, aos 43m, aos 63m, aos 85m, Marculeta, aos 66m, Marsical, aos 70m)
(Carreno, aos 76m)

Holanda - Uruguai: 0-2
(Scarone, aos 20m, Urdinaran, aos 86m)

Vídeo: HOLANDA - URUGUAI


Quartos de final

1 de junho de 1928

Itália - Espanha: 1-1
(Baloncieri, aos 63m)
(Zaldua, aos 11m)

2 de junho de 1928

Argentina - Bélgica: 6-3
(Tarasconi, aos 1m, aos 10m, aos 75m, aos 89m, Manuel ferreira, aos 4m, Orsi, aos 81m)
(Braine, aos 24m, Van Halme, aos 28m, Moeschal, aos 53m)

3 de junho de 1928

Alemanha - Uruguai: 1-4
(Hofmann, aos 81m)
(Petrone, aos 35m, aos 39m, aos 84m, Scarone, aos 63m)

Vídeo: ALEMANHA - URUGUAI
 
4 de junho de 1928

Portugal - Egito: 1-2
(Vítor Silva, aos 76m)
(Moukhtar, aos 15m, Riad, aos 48m)

Itália - Espanha: 7-1 (desempate)
(Levratto, aos 76m, aos 77m, Magnozzi, aos 14m, Schiavio, aos 15m, Baloncieri, aos 18m, Bernardini, aos 40m, Rivolta, aos 72m)
(Yermo, aos 47m)

Meias finais

6 de junho de 1928

Argentina - Egito: 6-0
(Tarasconi, aos 37m, aos 54m, aos 61m, Manuel Ferreira, aos 32m, aos 82m, Cerro, aos 10m)

7 de junho de 1928

Itália - Uruguai: 2-3
(Baloncieri, aos 9m, Levratto, aos 60m)
(Cea, aos 17m, campolo, aos 28m, Scarone, aos 31m)

Jogo de atribuição da medalha de bronze

9 de junho de 1928
Itália - Egito: 11-3
(Schiavio, aos 6m, aos 42m, Banchero, aos 19m, aos 39m, aos 44m, Magnozzi, aos 72m, aos 80m, aos 88m, Baloncieri, aos 14m, aos 52m)
(Riad, aos 12m, aos 16m, El Ezam, aos 60m)

Final

10 de junho de 1928

Uruguai - Argentina: 1-1
(Petrone, aos 23m)
(Manuel Ferreira, aos 50m)

Finalissima

13 de junho de 1928

Uruguai - Argentina: 2-1

Estádio: Olímpico de Amesterdão

Árbitro: Mutters (Holanda)

Uruguai: Mazali, Nasazzi, Arispe, Jose Leandro Andrade, Piriz, Gestido, Arremon, Scarone, Borjas, Cea, e Figueroa. Treinador: Primo Gianotti

Argentina. Bossio, Bidoglio, Paternoster, Medici, Monti, Evaristo, Carricaberry, Tarasconi, Ferreira, Perducca, e Orsi. Treinador: José Lago

Golos: 1-0 (Figueroa, aos 17m), 1-1 (Monti, aos 28m), 2-1 (Scarone, aos 73m)

Vídeo: URUGUAI - ARGENTINA
 
Legenda das fotografias:
1-Cartaz oficial dos Jogos Olímpicos de 1928
2-A seleção de Portugal, que fez a esteria em provas de âmbito internacional
3-Os mágicos uruguaios entram em campo, com o capitão Nazassi na frente
4-Momento do encontro entre Uruguai e Alemanha
5-Um lance do Egito - Portugal
6-A empolgante meia final entre a Celeste Olímpica e a Squadra Azzurra
7-Lance do empolgante duelo final
8-Os dois capitães de equipa e o trio de arbitragem antes da grande final
9-A Maravilha Negra
10-Portugueses e chilenos

11-A seleção da Alemanha
12-A forte Itália...
13-... que humilhou a Espanha nos quartos de final
14-A temível Argentina
15-Lance entre italianos e espanhóis
16-Panorámica do estádio olímpico durante o massacre italiano ao Egito
17-E os bi-campeões olímpicos, o Uruguai

quarta-feira, setembro 05, 2012

Futebol nos Jogos Olímpicos (4)... Paris 1924

Paris, a deslumbrante capital francesa assistiu em 1924 a um dos mais belos capítulos da história do futebol mundial, orquestrado por um virtuoso conjunto de futebolistas oriundos de um pequeno país sul americano de apenas 3 milhões de habitantes que conferiram ao jogo um misto de arte e fantasia nunca dantes interpretado por nenhum outro artista do pontapé da bola. Um facto ocorrido debaixo dos holofotes dos Jogos Olímpicos do citado ano, numa cidade à qual foi dada uma espécie de segunda oportunidade para mostrar ao restante globo terrestre a sua eficiência - e merecimento - em dar vida àquele que era já de forma indiscutível um dos maiores eventos planetários. Nunca será demais relembrar que 24 anos antes Paris tinha sedeado a II edição das Olímpiadas da Era Moderna, certame inserido no programa da Exposição Universal que em 1900 teve lugar na "cidade luz" e que seria rotulado como um profundo fracasso, desde logo pela razão de que não tinha sido mais do que um mero apontamento de entretenimento paralelo da dita exposição. Querendo apagar essa - má - imagem o recriador dos Jogos Olímpicos, e na época presidente do Comité Olímpico Internacional, o barão Pierre de Coubertin, fez de tudo - fazendo frente a inúmeras vozes de oposição - para que a sua cidade natal pudesse voltar a sedear os Jogos. A batalha seria ganha, e Paris tratou desde logo de se preparar para não repetir os erros cometidos em 1900. Foram construídas diversas infraestruturas desportivas, sendo a mais vistosa de todas elas o magnífico Estádio des Colombes, o local idealizado para acolher a esmagadora maioria das modalidades dos Jogos de 1924. Novidade seria a edificação de uma aldeia olímpica, uma espécie de complexo habitacional onde os atletas das nações participantes ficariam instalados. Atletas que seriam aproximadante 3100, em representação de 44 países, um número recorde na história da competição até então. E recorde seria igualmente o número de participantes no torneio olímpico de futebol, 22 em termos exatos, mais 8 que aqueles que tinham marcado presença quatro anos antes em Antuérpia, numa demonstração clara da popularidade que o torneio ia angariando de edição para edição entre as nações. A corrida ao título mundial - não será demais recordar que era desta forma que o torneio olímpico era encarado pela família do futebol - teve início a 25 de junho de 1924, quando no Stade des Colombes mediram forças duas potências futebolísticas da época - e cujo poder continua a ser bem evidente nos dias de hoje -, mais precisamente a Espanha e a Itália. Espanhóis que continuavam a ter como grande estrela o guarda-redes Ricardo Zamora, o qual 4 anos antes havia tido um papel fundamental na conquista da medalha de prata pelo combinado ibérico nos Jogos Olímpicos de Antuérpia. Do lado transalpino as luzes da ribalta focavam-se sobretudo no treinador Vittorio Pozzo, lendário mestre da tática que procurava apagar a má imagem deixada pela "squadra azzurra" no Torneio Olímpico de 1912, em Estocolmo, onde havia caído de forma prematura e surpreendente aos pés da frágil Finlândia. Em Paris a Itália mostrou outra atitude, e essencialmente talento futebolístico, pese embora tivesse de suar a camisola para afastar a forte e aguerrida seleção espanhola da 1ª eliminatória dos Jogos de 1924. Numa partida marcada pelo equilíbrio valeu à Itália o infortúnio do defesa espanhol Pedro Vallana, que aos 84 minutos do duelo traiu o seu companheiro Zamora ao introduzir o esférico na sua baliza e desta forma apontar o único golo da contenda, o qual garantia aos pupilos de Pozzo o passaporte para a ronda seguinte. Ainda no dia 25 deu-se a estreia de duas seleções em andanças olímpicas, nomeadamente a Suíça e a Lituânia. Foram mais felizes, muito mais na verdade, os helvéticos, que comandados pela sua estrela-mor Max Abegglen esmagariam a equipa do leste europeu por 9-0 (!), com destaque para o próprio Abegglen, autor de 3 golos, e de Paolo Sturzenegger, autor de 4 remates certeiros. Mas a epopeia suíça não se ficaria por aqui, como mais à frente iremos ver.
Sem dificuldades a Checoslováquia - uma das surpresas das Olímpiadas de 1920 - derrotou a estreante Turquia por 5-2, enquanto que no derradeiro jogo do dia os Estados Unidos da América - também eles a fazerem a sua estreia em matéria de Torneio Olímpico - batiam a Estónia por 1-0, graças a um golo de Andrew Stradan.

Mágicos uruguaios entram em ação

E no dia 26 de junho de 1924 o mundo do futebol iria sofrer uma verdadeira revolução... no bom sentido. Neste dia, que haveria de ter contornos célebres, entrou em ação o estreante Uruguai, pequeno país da América do Sul cujo futebol era uma verdadeira incógnita para as restantes seleções presentes. Dizer que com a entrada em cena dos uruguaios e dos norte-americanos, na véspera, o Torneio Olímpico abria assim as suas portas a países de fora da Europa e de África, tornando-se assim e agora num verdadeiro Campeonato do Mundo. Conforme já foi referido pouco ou quase nada se sabia dos uruguaios, sabendo-se somente que eram os reis do desconhecido reino futebolístico da América do Sul a julgar pelas 4 Copas América - em 7 edições disputadas até à data - que ostentavam no seu currículo. Mas isso não significava nada para os europeus, cientes da sua mestria da arte de manusear a bola.
Assim terão pensado inicialmente os jugoslavos, os oponentes do Uruguai na 1ª eliminatória dos Jogos de Paris, conforme recordou anos mais tarde o mítico jornalista uruguaio Eduardo Galeano, ao contar que aquando do visionamento de um treino da seleção sul-americana os espiões jugoslavos - jogadores e equipa técnica - terão desatado à gargalhada após verem in loco a falta de jeito dos seus adversário para com a bola. Bolas chutadas para as bancadas, choques atabalhoados entre os jogadores e dezenas de passes errados fizeram crer ao conjunto europeu que passar à fase seguinte seria uma tarefa mais do que fácil peramte os aparentemente toscos uruguaios. Mas só aparentemente, porque na realidade esta fraca performance patenteada no treino não foi mais do que uma tática para enganar os jugoslavos, na tentativa de os fazer acreditar que a vitória era mais do que certa perante tamanha falta de jeito. Tática essa que resultou em pleno, tendo a Jugoslávia entrado em campo totalmente relaxada e mais do que convencida que este não seria mais que um mero jogo-treino. Como que num ápice de magia os toscos uruguaios tranformaram-se em magistrais intérpretes do futebol, apresentando ao público parisiense um jogo alegre, solto, e tecnicamente atrativo, mais parecendo que o "onze" proveniente da América do Sul bailava ao som de um tango de Carlos Gardel. Resultado final: 7-0 a favor do Uruguai diante dos destruídos e pasmados fanfarrões jugoslavos, que por certo nunca mais iriam esquecer aquela lição. De imediato as atenções do torneio olímpico recairam no Uruguai, naquele pequeno país cujo desconhecido futebol havia de imediato apaixonado os parisienses que na tarde de 26 de junho se deslocaram ao Stade des Colombes. Na retina dos presentes ficaram sobretudo os bailados futebolísticos de nomes como Pedro Cea, Hector Scarone, José Nasazzi, Pedro Petrone, e de um tal Jose Leandro Andrade, um negro que haveria de sair destes Jogos Olímpicos endeusado pelo povo da capital francesa.
No último jogo da eliminatória a Hungria bateu sem dificuldades a estreante Polónia por 5-0.

Campeões olímpicos humilhados!

No dia 27 de junho arrancou a 2ª eliminatória da competição, com a entrada em campo da medalha de bronze das três primeiras edições do Torneio Olímpico, a Holanda, ante a estreante Roménia. Duelo sem história conforme traduz o resultado de 6-0 a favor dos holandeses, com destaque para o poker (4 golos) apontado por Cornelis Pijl. No outro jogo do dia o Stade de Paris (um dos quatro estádios da capital gaulesa onde foram disputados os encontros do Torneio Olímpico) engalanou-se para receber a seleção da casa, a França, que partia com a ambição de dar uma alegria ao seu povo, apresentando na competição alguns dos seus melhores atletas de então, casos de Paul Nicolas, Henri Bard, ou Jean Boyer. E a caminhada gaulesa até nem começou mal, muito pelo contrário, com a estreante Letónia a ser esmagada por 7 golos sem resposta. No dia seguinte mais duas seleções fizeram a sua estreia, casos da Bulgária e da República da Irlanda, as quais mediram forças entre si, acabando o triunfo por pender para os irlandeses por 1-0. Equilibrado seria o confronto entre a Suiça e a Checoslováquia, uma antevisão impensável à partida para este encontro, mesmo tendo em conta a veia goleadora dos helvéticos na 1ª eliminatória, uma vez que os checoslovacos eram tidos como uma das grandes equipas do futebol de então. Os suíços não se amedrontaram, e no final dos 90 minutos o resultado era de 1-1, para espanto dos presentes, tendo havido a necessidade de ser disputado um jogo de desempate a acontecer dois dias mais tarde.
Antes disso, e no dia 29, escândalo foi a palavra que pairou com maior intensidade sobre o Torneio Olímpico. A campeã olímpica em título, a Bélgica, entrava em campo determinada a repetir o feito conquistado quatro anos antes, contando para isso com a maior parte dos heróis de Antuérpia. O oponente até nem era dos mais poderosos, já que dava pelo nome de Suécia. Porém, da teoria à prática o caminho é distante e muitas vezes sinuoso... como traduz o impensável resultado de 8-1 a favor dos suecos! Os campeões haviam sido humilhados e nem a sua estrela principal, o temível avançado Robert "canhão" Coppée, lhes valeu. Pela segunda vez consecutiva aparecia no evento o Egito, o único representante do continente africano, que em Paris alcançava a sua primeira vitória olímpica depois de ter batido a Hungria por 3-0. No Stade Pershing, situado no famoso bosque de Vincennes, a Itália de Vittorio Pozzo despachava o modesto Luxemburgo por 2-0, com destaque para a exibição do célebre avançado do Bolonha Giuseppe Della Valle, autor de um dos tentos da azzurra. E no derradeiro encontro do dia 29 de junho a magia voltou a estar à solta em Paris. Com uma curiosidade redobrada na sequência dos ecos lançados pela imprensa francesa após a deslumbrante exibição diante da Jugoslávia, 10 000 espetadores deslocaram-se ao Stade Bergeyre para ver in loco os artistas vindos do Uruguai. O entusiasmo em torno do conjunto sul-americano era enorme por parte dos parisienses, e em especial sobre o negrito Andrade, o homem que bailava com a bola nos pés. E quem teve o privilégio de marcar presença em Bergeyer não se terá arrependido, muito longe disso, já que os mágicos uruguaios realizariam mais uma exibição de luxo ante os Estados Unidos da América, culminada com uma inequivoca vitória por 3-0, com dois tentos do goleador Pedro Petrone e um do polivalente - atuava em qualquer zona do terreno ! - Hector Scarone, um homem cuja lenda diz que cantava enquanto jogava! Neste mesmo estádio, e no dia seguinte, a Suíça voltava a surpreender os amantes do futebol. Graças a mais uma ótima atuação voltou a fazer a vida negra aos favoritos checoslovacos no jogo de desempate entre as duas equipas, acabando por vencer por 1-0 e seguir desta forma para os quartos-de-final... contra todas as previsões iniciais.

Gauleses rendidos ao encanto uruguaio... mais uma vez

Após um dia de descanso a bola voltou a rolar no dia 1 de junho para o pontapé de saída dos quartos-de-final, e logo com uma espécie de final antecipada, um encontro que colocou frente a frente a seleção da casa a um dos conjuntos sensação do torneio, o Uruguai. A espetativa em torno do duelo era enorme, podendo mesmo dizer-se que Paris parou nessa tarde, tendo os Colombes registado a sua maior enchente até então: 30 000 espetadores! 30 000 almas divididas entre o patriotismo francês e o fascínio pelo jogo sul-americano. A habilidade uruguaia levaria a melhor conforme explica o expressivo resultado de 5-1 a seu favor na sequência de mais um memorável bailado futebolístico de jogadores como Scarone, Petrone (ambos com 2 golos cada na conta pessoal deste encontro) Romano, Cea, ou Andrade, último jogador este que despertava cada vez mais paixões dentro e fora do campo, neste último aspeto pelas damas parisienses, cujos suspiros pelo invulgar corpo musculado "pintado" em tons de negro subiam de intensidade sempre que com ele se cruzavam nas míticas e encantadoras artérias da "cidade luz". No mesmo dia a Suécia voltava a evidenciar o seu poder de fogo, após aplicar uma nova goleada, desta feita ao Egito por 5-0. No dia 2 de junho a experiente - em andanças olímpicas - Holanda sentiu grandes dificuldades para derrotar o exêrcito irlandês. Seria só no prolongamento que Ocker Formanoij carimbaria o passaporte das tulipas - ao fazer o 2-1 final - para a 4ª meia final consecutiva em torneios olímpicos. E como não há duas sem três a Suíça voltou a fazer das suas no derradeiro encontro dos quartos-de-final. Desta feita as vitimas foram os italianos, os quais sucumbiam por 1-2 ante Max Abegglen - autor de um golo - e companhia.

Vitórias suadas das duas surpresas do torneio

Um jogo intenso e deveras duro, assim pode ser caracterizado o último obstáculo do Uruguai rumo à final olímpica. A Holanda fez o que pôde para contrariar o talento dos sul-americanos, jogando nos limites da dureza, em alguns momentos do encontro, para impedir o óbvio: a passagem uruguaia ao jogo decisivo. Facto que acabaria por acontecer a 6 de junho, graças a um golo apontado por Scarone na conversão de uma grande penalidade aos 81 minutos. Isto depois de as tulipas terem estado em vantagem no marcador! Pedro Cea empatou aos 62 e Scarone fez então o 2-1 final a menos de 10 minutos do apito final do francês Georges Vallat. Após o encontro os holandeses protestaram contra a grande penalidade que deu o triunfo aos sul-americanos, protesto esse que no entanto de nada valeu.
Intenso e equilibrado havia sido igualmente o encontro da véspera, que opôs os surpreendentes suíços aos mortíferos suecos. O resultado foi idêntico, 2-1, a favor dos helvéticos, que bem puderam agradecer à sua estrela-mor Max Abegglen, autor dos dois remates certeiros da sua equipa. O que é certo é que as duas equipas surpresa do torneio estavam na final... contra todas as previsões iniciais, inclusive as dos próprios suíços, cuja viagem de regresso a casa havia sido marcada para alguns dias antes da final! Não acreditando que a sua equipa podia avançar mais do que uma eliminatória, na melhor das hipóteses, os dirigentes helvéticos prepararam o seu orçamento para apenas 10 dias de estadia, precisamente o tempo de validade da passagem de comboio adquirida antes da partida para Paris. Ora, como a aventura do país neutral em terras gaulesas demorou bem mais do que esse período o jornal Sport efetuou uma petição junto dos seus leitores para que pudessem ajudar a custear as despesas da delegação suíça por mais alguns dias, uma vez que federação daquele país há muito que havia esgotado os seus parcos recursos financeiros. A dita petição foi concluída com sucesso, e os pupilos do inglês Edward Duckworth puderam sonhar por mais alguns dias com o título de campeões... do Mundo.

Uruguai sobe ao trono do futebol mundial com naturalidade

No futebol o amor e ódio são dois sentimentos que caminham muitas vezes de mãos dadas, e na final olímpica de 9 de junho de 1924 esta "parelha" esteve bem vincada. O futebol arte dos uruguaios podia despertar os corações de muito boa gente, mas também não é menos certo que a campanha triunfal dos suíços havia granjeado a simpatia de muitos parisienses. Era pois com um sentimento dividido que muitos dos mais de 40 000 espetadores que lotaram as bancadas do Stade des Colombes - diz-se que cerca de 10 000 pessoas ficaram às portas do estádio sem terem conseguido bilhete ! - visionaram a final dos Jogos Olímpicos de 1924. Os sul-americanos cedo impuseram o seu futebol-arte sobre o bem tratado relvado parisiense, colocando em ação um sufucante ritmo ofensivo suportado por uma sedutora combinação de passes a meio campo e uma eficaz segurança defensiva, no fundo a essência do invulgar estilo que os uruguaios haviam apresentado à Velha Europa, um continente habituado ao jogo físico e bolas pelo ar! Com um toque de bola rápido e de beleza ímpar acompanhado de dribles mágicos, rapidamente a multidão parisiense ficou rendida - uma vez mais - à arte uruguaia, que com toda a naturalidade do Mundo chegou à vantagem logo aos 6 minutos, por intermédio de Petrone, jogador que com este tento aumentava para 8 o número total de remates certeiros em todo o Torneio Olímpico, selando difinitivamente a conquista do título de rei dos goleadores. Na segunda parte Pedro Cea ampliou a vantagem ao minuto 65, e El Loco Romano fecharia a contagem aos 82. 3-0, resultado final que permitia ao Uruguai ascender ao trono do futebol mundial pela primeira vez. O futebol arte havia triunfado com justiça, um novo estilo de interpretar o jogo que faria escola dali em diante, e que seria adotado por muitas outras seleções, pese embora sem o perfume dos uruguaios. Após a histórica conquista a festa estoirou entre a comitiva sul-americana, tendo a modesta unidade hoteleira onde os charrúas estavam instalados oferecido um jantar aos novos campeões... mundiais. Tal como nos relvados José Leandro Andrade foi o centro das atenções na festa de consagração, das atenções e dos olhares femininos que seguiam com precisão os dotes de exímio bailarino do primeiro grande jogador negro da história do futebol.
Quanto à medalha de bronze essa ficou na posse dos suecos, que foram obrigados a horas extras para retirar aos holandeses uma medalha que estes ostentavam há já três Olimpiadas consecutivas. Depois de um empate a uma bola no primeiro jogo os suecos venceram por 3-1 no encontro de desempate, subindo desta forma ao último lugar do pódio de um torneio histórico, um torneio que revelou ao Mundo uma das mais brilhantes e vibrantes equipas de todos os tempos: os magos do Uruguai.

A figura: José Leandro Andrade

Paris vivia sob a influência dos loucos anos 20, no rescaldo da Belle Époque, que atraiu à "cidade luz" um elevado número de artistas de diferentes áreas, na procura de um estilo de vida desprendido assente na cultura e no devertimento sem barreiras. Em Paris não havia limites, viver, no verdadeiro significado da palavra, era a única regra. O estilo de vida mundano era adotado sem limites pelos parisienses em geral, que procuravam o prazer - visual, pelo menos para a maior parte deles - nas curvas sensuais da bela Josephine Baker, uma negra norte-americana que fazia as delícias dos frequentadores dos cabarets do Pigale graças aos seus sensuais espetáculos de striptease. Josephine Baker foi de facto a primeira negra a seduzir Paris, mas não seria a única. Em 1924 a "cidade luz" rendeu-se a um outro negro, um talentoso futebolista que brilhou no Torneio Olímpico desse ano, José Leandro Andrade era o seu nome. Sobre ele o Museu Virtual do Futebol já dedicou um capítulo mais detalhado aquando de uma visita à vitrina onde repousam as grandes lendas do futebol, pelo que neste capítulo dedicado aos Jogos de 1924 iremos apenas recordar em linhas gerais quem foi o primeiro astro negro do futebol planetário.
José Leandro Andrade nasceu a 3 de Outubro de 1901 em Salto, começando a dar os primeiros pontapés na bola no bairro de Palermo. Atuava tanto como médio defensivo como defesa (direito ou esquerdo) e cativou o mundo com a sua eficácia, elegância, inteligência e técnica de jogar futebol. Mais parecendo um felino com a bola nos pés iniciou a sua carreira no Misiones, passando depois pelo Bella Vista, Nacional, Penharol e Wanderers, todos emblemas uruguaios. Seria no Nacional que viveria alguns dos anos mais felizes da sua carreira, vencendo os campeonatos do seu país de 1922 e 1924. Pelo emblema de Montevideu participou em várias digressões pela Europa e pelos Estados Unidos da América, e reza a lenda que o famoso intérprete de jazz norte-americano Louis Armstrong ter-se-á inspirado no “Pelé dos anos 20” (como Andrade foi um dia apelidado) para criar o seu estilo artístico. Seria no entanto ao serviço da seleção do Uruguai que Andrade atingiu a fama planetária que fez dele um dos maiores jogadores de futebol da história. História que começou precisamente nas Olimpiadas de 1924, o certame onde se daria a conhecer ao Mundo. No meio dos artistas uruguaios ele foi a atração principal, com o seu estilo muito próprio e sedutor de acariciar e conduzir a bola. Nunca a Europa havia visto um negro jogar futebol, muito menos com a qualidade patenteada por Andrade. Na sequência das suas épicas exibições os jornalistas franceses logo o trataram de batizar de... Maravilha Negra. E assim nascia oficialmente a lenda. Mesmo não sendo fervorosos adeptos do futebol os franceses de então renderam-se por completo ao artista sul-americano, que nas ruas parisienses era tratado como um rei pelos homens que viam, ou liam, as suas façanhas no Torneio Olímpico e desejado pelas mais finas damas que perdiam os seus olhares nas curvas do seu atlético corpo.
Em 1930 o Uruguai organizou o primeiro Campeonato do Mundo da história. Uma espécie de presente da FIFA ao país que praticava o melhor futebol do planeta. Na qualidade de bi-campeã olímpica - o Uruguai venceria ainda os Jogos Olímpicos de 1928 - a equipa da casa partia assim como favorita a levantar a primeira taça do Mundo da FIFA. Já em final de carreira, e castigo por lesões crónicas, Andrade foi mesmo assim chamado para integrar a equipa uruguaia que disputou esse Mundial. A sua experiência e qualidade eram fundamentais para o triunfo da celeste. Ao lado de jogadores como Cea, Castro, Nasazzi e Scarone, Andrade venceria o Campeonato do Mundo, após a sua seleção ter derrotado na final os grandes rivais da Argentina por 4-2. Pelo Uruguai alinhou 43 vezes (só perdeu três jogos) e marcou um golo. Além de um fabuloso futebolista José Leandro Andrade era um não menos fabuloso bailarino, sendo que por diversas vezes integrou cortejos carnavalescos no seu país. Após a sua retirada dos relvados partiu (na década de 30) para Paris, a cidade que o corou no reino futebolísitco, onde se tornou um célebre bailarino de cabarets, partilhando as luzes da ribalta da sociedade cultural parisiense com nomes como Ernest Hemingway, Scott Fitzgerald, James Joyce, Pablo Picasso, Salvador Dali, ou a adorada Josephine Baker. Adorava a folia e a vida boémia. Regressou anos mais tarde a Montevideu, onde morreu só e na miséria em 1957.

Resultados

1ª Eliminatória

25 de maio de 1924

Itália - Espanha: 1-0
(Vallana, na própria baliza aos 84m)

Suíça - Lituânia: 9-0
(Sturzenegger, aos 2m, 43m, 68m, 85m; Abegglen, aos 41m, 50m, 58m; Dietrich, aos 14m; Ramseyer, aos 63m)

Turquia - Checoslováquia: 2-5
(Refet, aos 63m, 82m)
(Sedlacek, aos 28m, 37m; Sloup, aos 21m; Novak, aos 64m; Capek, aos 74m)

Estados Unidos da América - Estónia: 1-0
(Stradan, aos 15m)

26 de maio de 1924

Jugoslávia - Uruguai: 0-7
(Petrone, aos 35m, 61m; Cea, aos 50m, 80m; Scarone, aos 23m; Vidal, aos 20m; Romano, aos 58m)

Hungria - Polónia: 5-0
(Hires, aos 51m, 58m; Opata, aos 70m, 87m; Eisenhoffer, aos 14m)

2ª Eliminatória

27 de maio de 1924

Holanda - Roménia: 6-0
(Pijl, aos 32m, 52m, 66m, 68m; Hungronje, aos 8m; De Natris, aos 69m)

França - Letónia: 7-0
(Crut, aos 17m, 28m, 55m; Boyer, aos 71m, 87m; Nicolas, aos 25m, 50m)

28 de maio de 1924

Bulgária - Irlanda: 0-1
(Duncan, aos 75m)

Suíça - Checoslováquia: 1-1
(Dietrich, aos 79m)
(Sloup, aos 21m)

29 de maio de 1924

Suécia - Bélgica: 8-1
(Kock, aos 8m, 24m, 77m; Rydell, aos 20m, 61m, 83m; Brommesson, aos 30m; Keller, aos 46m)
(Larnoe, aos 67m)

Itália - Luxemburgo: 2-0
(Baloncieri, aos 20m; Della Valle, aos 38m)

Uruguai - Estados Unidos da América: 3-0
(Petrone, aos 10m, 44m; Scarone, aos 15m)

Egito - Hungria: 3-0
(Yakan, aos 4m, 58m; Hegazi, aos 40m)

30 de maio de 1924

Suiça - Checolováquia: 1-0 (desempate)
(Pache, aos 87m)

Quartos-de-final

1 de junho de 1924

França - Uruguai: 1-5
(Nicolas, aos 12m)
(Scarone, aos 2m, 24m; Petrone, aos 58m, 68m; Romano, aos 83m)

Suécia - Egito: 5-0
(Brommesson, aos 31m, 34m; kaufeldt, aos 5m, 71m; Rydell, aos 49m)

2 de junho de 1924

Holanda - Irlanda: 2-1
(Formanoij, aos 7m, 104m)
(Farrell, aos 33m)

Suíça - Itália: 2-1
(Sturzenegger, aos 47m; Abegglen, aos 60m)
(Della Valle, aos 52m)

Meias-finais

5 de junho

Suíça - Suécia: 2-1
(Abegglen, aos 15m, 77m)
(Kock, aos 41m)

6 de junho

Holanda - Uruguai: 1-2
(Pijl, aos 32m)
(Cea, aos 62m; Scarone, aos 81m)

Jogo de atribuição da medalha de bronze

8 de junho

Holanda - Suécia: 1-1
(Le Fevre, aos 77m)
(Kaufeldt, aos 44m)

9 de junho

Holanda - Suécia: 1-3 (desempate)
(Formanoij, aos 43m)
(Rydell, aos 34m, 77m; Lundquist, aos 42m)

Final

9 de junho de 1924

Uruguai - Suíça: 3-0

Estádio: des Colombes

Árbitro: Marcel Slawick (França)

Uruguai: Mazzali, José Nasazzi, Arispe, José Leandro Andrade, Vidal, Ghierra, Urdinaran, Héctor Scarone, Petrone, Cea, Ángel Romano.

Suíça: Pulver, Reymond, Ramseyer, Oberhauser, Schmiedlin, Pollitz, Ehrenbolger, Pache, Dietrich, Abegglen, Fassler.

Golos: 1-0 (Peteone, aos 6m), 2-0 (Cea, aos 65m), 3-0 (Romano, aos 82m)



 Vídeo: URUGUAI - SUÍÇA


Legenda das fotografias:
1-Cartaz ofiacial dos Jogos Olímpicos de Paris em 1924
2-Jogadores do Uruguai posam para a fotografia com as bandeiras do seu país e da França após o triunfo final sobre a Suíça
3-Fase do encontro entre suíços e checoslovacos
4-O mítico Stade des Colombes, construído propositadamente para as Olimpiadas de 1924
5-A estrela suíça, Max Abegglen
6-Imagem da final entre Uruguai e Suíça
7-A figura do torneio: José Leandro Andrade
8-Lance do equilibrado encontro inaugural do certame entre Espanha e Itália
9-A estreante seleção dos Estados Unidos da América...
10-A equipa jugoslava que foi esmagada pelos futuros campeões olímpicos de 1924
11-... e a talentosa "squadra azzurra" de Vittorio Pozzo
12-Imagem do duro jogo entre Estados Unidos da América e Uruguai
13-O artilheiro da competição: Pedro Petrone
14-Seleção da Irlanda
15-Uruguaios dão a volta ao relvado após a conquista do título, um gesto que ficaria conhecido para sempre como a volta olímpica, e que seria repetido dali em diante por centenas de equipas
16-A histórica seleção do Uruguai, campeã dos Jogos Olímpicos de 1924, uma das melhores equipas da história do futebol

segunda-feira, março 26, 2012

Estrelas cintilantes (30)... Isabelino Gradín

Aproveitando a viagem da “Máquina do Tempo” a terras sul americanas vamos hoje fazer uma pequena visita a uma das primeiras lendas da gloriosa história do futebol uruguaio. Um talentoso “pintor” que deu vida a alguns dos mais belos quadros do belo jogo num tempo em que este vivia ainda longe dos holofotes do mediatismo que o circundam nos dias de hoje, mas que carregava consigo uma inocente e desmedida paixão difícil de encontrar atualmente.
Isabelino Gradín, um nome, um mito melhor dizendo, que deixou atrás de si um rasto de saudade nos que tiveram a honra e o privilégio de o ver atuar e... uma enorme tristeza para todos aqueles que – como eu próprio – nunca puderam rasgar um sorriso de felicidade após visionarem uma jogada sua. Mais parecendo animados desfiles carnavalescos as “jugaditas” deste avançado inspiraram as gerações seguintes de um pequeno país que é descrito por muitos como o primeiro grande alfobre de magos da arte de conduzir a bola. Isabelino veio ao Mundo a 8 de julho de 1897, tendo a bela Montevideu como berço. Nasceu pobre, muito pobre, num dos bairros mais carenciados da capital uruguaia, Palermo. Era bisneto de escravos africanos (oriundos do Lesotho) e cedo obteve o respeito de um povo numa época em que o racismo atacava ferozmente em cada esquina.
O reinado de Gradín começa em 1915, ano que o também (já) lendário Peñarol atraía a “pérola negra” para os seus quadros, e não perdeu tempo a maravilhar os ferverosos adeptos do clube de Montevideu.
A forma veloz e serpenteada como conduzia o mágico objeto esférico, deixando para trás adversários em catadupa, fazia as pessoas levantarem-se como uma mola esboçando olhares de encantamento perante aquela espécie de magia negra que brotava nas “canchas” de Montevideu.
Os seus dotes não passaram despercebidos a ninguém, muito menos aos responsáveis da seleção uruguaia, que de imediato quiseram ter aquele diamante nas suas mãos. 1915 é então um ano inolvidável para Isabelino: estreia ao serviço do colosso Peñarol onde de imediato ascende ao patamar de estrela-mor, e veste pela primeira vez a mágica camisola (azul) celeste do Uruguai.
Mas este era apenas o primeiro apontamento de uma história que haveria de ter muitos outros capítulos memoráveis. Um ano depois (1916) integra o combinado uruguaio que disputa na Argentina a 1ª edição do Campeonato Sul Americano de Futebol, mais tarde rebatizado como Copa América. Em casa dos vizinhos – e inimigos – argentinos Isabelino e companhia levariam a melhor sobre a concorrência, oferecendo ao Uruguai o primeiro título de campeão das américa da história. Gradín foi uma das principais – senão mesmo a principal – personagens desta fábula uruguaia, atraindo até si as luzes – da ribalta – de um torneio onde foi o melhor marcador com 3 golos.
História curiosa – ou talvez não atendendo ao teor da mesma – dessa primeira Copa América alude ao facto de o Chile ter protestado o jogo em que foi goleado pelos magos uruguaios, por 0-4, pela razão de que estes haviam jogado com dois atletas... negros! Eram eles Isabelino Gradín e Juan Delgado (também ele descendente de escravos africanos). Uma nota sobre o racismo – e também de impotência, porque não dizê-lo, para anular a invulgar arte africana de “acariciar” a bola transposta para o campo de batalha por aqueles dois descendentes de escravos – que imperava numa época em que o futebol era de forma esmagadora praticada por “brancos”. O Uruguai era mesmo, na altura, o único país do Mundo que tinha jogadores negros na sua seleção. Em 1922 Gradín abandona o Peñarol, emblema com o qual conquistou dois títulos de campeão uruguaio (1918 e 1921) para ajudar à fundação do Olimpia (mais tarde rebatizado de River Plate), clube onde jogou até ao final da sua carreira (em 1929).
A lenda de Gradín vai mais longe quando à sua ímpar interpretação técnica do futebol se junta o seu talento para o atletismo! A sua abismal velocidade não foi apenas aplicada nos dribles e escapadas pelos retangulos do belo jogo senão também nas pistas sul americanas. Ali bateu inúmeros recordes e conquistou diversos títulos continentais, entre outros os 400m (em 1918 ,1920 e1922), ou os 200m (em 1919 e 1920). Era uma força da natureza. Lamentavelmente não fez parte daquela que é talvez a maior seleção uruguaia de sempre, a mítica equipa que venceu dois títulos olímpicos (1924 e 1928) e o primeiro Campeonato do Mundo da história (1930), comandada por outro negro, esse rotulado como o primeiro grande jogador negro da modalidade, José Leandro Andrade, de quem aliás já aqui falámos noutras visitas ao passado.
Gradín nasceu pobre e pobre morreu em 1944.

Legenda das fotografias:
1-Isabelino com a camisola do Uruguai
2-Seleção uruguaia que venceu a 1ª Copa América (1916)
3-Com as cores do seu Peñarol

terça-feira, setembro 28, 2010

Catedrais Históricas (9)... Stade des Colombes

Na sua relva foram escritos alguns dos factos mais relevantes da história do futebol global. As suas bancadas guardam saudosas memórias de épicos momentos que marcaram a primeira metade do século passado deste desporto. Por isto e por muito mais, certamente, este é um dos maiores museus ainda "vivos" – embora sem o fulgor de outros tempos – do futebol a nível planetário.
A nossa viagem de hoje remete-nos para Paris, a bela capital francesa, mais concretamente para o mítico Stade des Colombes. Erguido em 1907 transformou-se desde logo na sala de visitas do desporto francês. Importantes jogos de futebol e rugby, célebres provas de atletismo e ciclismo aqui ocorridas preencheram dezenas de páginas de ouro inseridas no Atlas do Desporto gaulês. A sua multiculturalidade desportiva, por assim dizer, seria levada ao extremo em 1924, ano em que Paris acolheu os Jogos Olímpicos, tendo os Colombes acolhido a maior parte das modalidades desse importante evento. Os seus 45.000 lugares (a sua capacidade na época) testemunharam nesse longínquo ano de 1924 um dos primeiros momentos de ouro do futebol: a estreia em solo europeu daquela que é considerada a primeira grande selecção nacional do Mundo, o Uruguai. Apresentando um futebol mágico, nunca visto até àquela data pelos europeus, os uruguaios aniquilaram todos os seus oponentes até à conquista do ouro olímpico (vitória na final ante a Suíça por 3-0) tornando-se desta forma... campeões do Mundo. Sim, campeões mundiais, isto porque numa altura em que o Campeonato do Mundo ainda não vira a luz do dia (algo que só iria acontecer em 1930) os campeões olímpicos do futebol eram reconhecidos como donos do Mundo.
E se os Colombes presenciaram o primeiro capítulo da história dourada da primeira grande potência futebolística do Mundo seriam ainda testemunhas do nascimento do primeiro grande jogador negro do belo jogo: José Leandro Andrade (de quem aqui já falámos na “vitrina” dedicada às lendas), o mago uruguaio que depois destes Jogos Olímpicos de 24 teve o Mundo a seus pés, tendo regressado ao seu país com a alcunha de Maravilha Negra.
Posteriormente as estas célebres Olímpiadas o estádio passaou a chamar-se Stade Olympique des Colombes. E seria já com este nome que outro momento de ouro do futebol foi aqui vivenciado: o Mundial de 1938. O na altura líder da FIFA e grande mentor do Campeonato do Mundo, Jules Rimet, cumpria assim o sonho pessoal de trazer o maior evento futebolístico do Mundo ao seu país, tendo os Colombes tido o privilégio de acolher três encontros desse certame, inclusive o da grande final disputada entre a Itália e a Hungria (ambos os conjuntos posam para a fotografia antes do início do grande e decisivo jogo, conforme pode ser visionado na imagem de baixo), o qual terminaria com o triunfo dos primeiros por 4-2.
Com o aparecimento do Parque dos Príncipes (em 1972) o Colombes foi perdendo fulgor com o passar dos anos. Os grandes jogos da selecção francesa e as finais da taça deste país foram transferidas para o novo e portador de maior capacidade estádio que anos mais tarde seria a casa do Paris Saint-Germain. Em termos futebolísticos o Colombes começaria a ser apenas usado para os jogos domésticos do Racing Club de Paris, clube este que com a construção do seu novo estádio irá em breve abondonar este sagrado espaço.
Com a perda de protagonismo internacional – e mesmo a nível interno – o Colombes sofreria novas mudanças num passado recente, a começar desde logo pelo próprio nome, uma vez que foi re-baptizado para Stade Olympique Yves-du-Manoir, sendo no entanto a maior mudança a redução da sua capacidade para uns modestos 7.000 lugares. Uma nota final para dizer que o filme “Fuga para a Vitória”, protagonizado por Sylvester Stallone e que contou com a participação de Pelé, Osvaldo Ardiles, ou Bobby Moore, teve o Colombes como cenário principal.

segunda-feira, abril 07, 2008

Grandes lendas do futebol mundial (6)... José Nasazzi - O general de uma geração de ouro

Vamos hoje dar um pulinho à vitrina destinada às grandes lendas do futebol para conhecer um pouco do perfil de um dos magos do futebol uruguaio. Um homem que ficará eternamente ligado às gloriosas décadas de 20 e 30 do futebol charrúa, tempos onde os uruguaios dominaram o mundo da bola, domínio esse expresso na conquista de dois títulos olímpicos (1924 e 1928) e um mundial (1930). Esse homem foi o líder e capitão dessas mágicas selecções uruguaias e dá pelo nome de José Nasazzi.
Nasceu a 24 de Maio de 1901, em Montevideo, e foi um dos maiores defesas centrais da história do desporto rei. O seu futebol de raça e vontade encantou o povo uruguaio. Era um jogador muito forte fisicamente, tenho muitas vezes sido acusado de ser um jogador violento pela forma como encarava o jogo.
Era conhecido entre os colegas como o Marechal, e entre os adversários, como el terrible. Tornou-se num dos mais laureados jogadores do seu país, sendo juntamente com Pedro Cea, Héctor Scarone e José Leandro Andrade o jogador que esteve em todas as conquistas da selecção uruguaia de futebol nos anos 20 e 30.
Iniciou a sua carreira desportiva em pequenos clubes como o Lito e o Roland Moor, até que em 1921 chegou aos quadros do recém-fundado Bella Vista onde cumpriu uma década em grande. Em 1925 envergou as cores do Nacional de Montevideo numa digressão que esta equipa fez pela Europa. Pelos nacionalistas Nasazzi actuaria definitivamente a partir de 1932, defendendo as suas cores até 1936, ano em que colocou um ponto final na carreira. Com esta equipa ganhou os campeonatos uruguaios de 1933 e 1934.
Cortador de mármore na época que o futebol era amador em quase todo o mundo, Nasazzi teve reconhecimento internacional em Paris,em 1924, e em Amesterdão, em 1928, quando os uruguaios encantaram os europeus nas competições de futebol nos Jogos Olímpicos, e na já citada excursão do Nacional.
Mas o momento mais importante da sua carreira ocorreu em 1930, quando o seu país acolheu o primeiro Campeonato do Mundo da história. Mundial que seria vencido – como já aqui frisámos em várias ocasiões - pelos uruguaios capitaniados pelo mago Nasazzi.
Actuou 39 vezes pela Celeste Olímpica.Chegou a jogar como avançado na histórica excursão que o Nacional fez na Europa, tendo marcando em 10 ocasiões.
Depois de terminada a carreira desportiva foi líder sindical. O estádio do Club Atlético Bella Vista tem o seu nome. José Nasazzi morreria na sua cidade natal em 17 de Junho de 1968.

sexta-feira, janeiro 11, 2008

Grandes lendas do futebol mundial (4)... Enzo Francescoli - O príncipe herdeiro da garra charrúa

Sabe quem foi o ídolo do francês Zinedine Zidane? O jogador que inspirou este famoso gaulês a tornar-se no grande futebolista que todos o conhecemos? A resposta é... Enzo Francescoli.
Isso mesmo, el príncipe do futebol uruguaio, é o génio que hoje vamos visitar na vitrina das grandes lendas do futebol mundial.
Nasceu em Montevideu, no dia 12 de Novembro de 1961, e foi um dos mais brilhantes futebolistas da década de 80 do século passado. Ele foi o sucessor de outros génios uruguaios, como as lendas das décadas de 20 e 30 José Leandro Andrade (de quem aqui já falámos), Scarone, ou Nasazzi, ou os heróis da década de 50 Varela, Maspoli, Ghiggia e Schiaffino.
Foi uma lenda não só no seu país como também na Argentina, onde jogou grande parte da sua carreira. Este é aliás um facto curioso, ou seja, o povo argentino idolatrar um uruguaio, sabendo nós da rivalidade quase de morte existente entre os dois países.
Embora sempre se tenha declarado como adepto incondicional do Peñarol, revelou-se no modesto Wanderers, o único clube que representou no seu país. Neste emblema da capital uruguaia Enzo disputou 74 jogos e apontou 20 golos entre 1980 e 1882. No ano de 1981 ele ajudou a selecção de júniores do Uruguai a conquistar o campeonato sul-americano da categoria, realizado no Equador, tendo sido eleito o melhor jogador da competição.

O futebol elegante, habilidoso e clássico deste avançado (posição onde actuou em grande parte da sua carreira) chamou à atenção dos grandes clubes sul-americanos, e em 1983 o River Plate, da Argentina, contratou-o por 360 mil dólares, naquele que ainda hoje é considerado como um dos melhores negócios da história do clube de Buenos Aires.
Nesta sua primeira passagem pelo River Francescoli jogou até 1986, tendo vencido o Campeonato Nacional Argentino de 1986. No River Plate atingiu um estatuto e reconhecimento quase sem paralelo, sendo respeitado por todo um país, independentemente das cores clubísticas, muito por força do seu perfil de caballero.
A Europa chamou então por si, e o primeiro emblema a contar com os seus préstimos foi o Matra Racing de Paris, na altura orientado pelo português Artur Jorge, onde jogaria até 1989. Considerado como um dos melhores futebolistas do campeonato francês não foi com estranheza que Enzo se mudaria na temporada de 1989/90 para o gigante Olympique de Marselha, onde na altura pontificavam estrelas como o inglês Chris Waddle, o francês Jean Tigana e as então promessas do futebol gaulês Didier Deschamps e Jean-Pierre Papin. Esteve somente uma temporada no poderoso e popular clube do sul de França, o suficiente para se tronar também ali num ídolo, tendo ajudado a equipa a vencer o campeonato dessa época. Ao serviço do Marselha foi considerado o melhor jogador estrangeiro a actuar em França. Neste país realizou 117 jogos e apontou 43 golos.
Mas o paraíso dos melhores futebolistas do planeta nestas décadas era a Itália. País cujo poderoso campeonato ficou enriquecido com a chegada de Enzo Francescoli, em 1990/91, para defender as cores do Cagliari onde esteve três anos. Mudaria-se em seguida para o Torino, em 1993/94, onde não seria feliz. Em Itália disputou 122 jogos e marcou 20 golos, uma prestação menos feliz do que aquela que havia tido em França.
Em 1994 regressaria à Argentina para voltar a defender as cores do seu River Plate, tendo ajudado o clube a vencer o Torneio Abertura de 1994, 1996 e 97, o Torneio Clausura de 1997, e o título mais importante da sua carreira ao nível de clubes a Taça Libertadores da América de 1996 (a primeira da história do River). Venceria ainda em 1997 a Supercopa Libertadores. Com a camisola do River efectuou um total de 197 jogos e apontou 115 golos.
Cada vez que ele entrava em campo, a claque do River Plate cantava: "U-ru-guayo!". Vindo de argentinos, não podia haver maior homenagem. Ao deixar o futebol, no início de 1998 (ano em que recusou uma proposta de 1 milhão de dólares para continuar), Francescoli já estava consagrado como o maior jogador do Uruguai da sua geração.
Quando deixou de jogar o seu rosto foi estampado numa bandeira da claque do River, ao lado de lendas como Di Stefano e Labruna, entre outros. Depois de ter abandonado o futebol, o River deixou de ser temido como antes...


A excepção de uma geração perdida

Apelidado de El Príncipe, Francescoli foi o ídolo do seu país numa época em que o futebol uruguaio estava em nítida decadência. Nesta época a selecção do Uruguai estava muito, mas mesmo muito, longe das poderosas equipas que venceram os Mundiais de 30 e 50. Era uma selecção algo fraca, mas que no entanto alcançou três Copas Américas no espaço de 12 anos! O grande responsável por este feito? Pois claro, Enzo Francescoli. Envergando a mítica camisola 10 azul celeste Enzo carregou a equipa às costas nas grandes competições em que participou. As principais vitórias foram, como já vimos, as conquistas da Copa América de 1983, 1987 e 1995 (cujas fases finais foram realizadas respectivamente no Uruguai, Argentina, e Uruguai). Na de 1987, brilhou na meia.final contra a Argentina, em pleno Monumental de Núñez, em Buenos Aires. Das quatro Copas Américas que disputou perdeu apenas uma, a de 1989, ante o Brasil.
Contudo, não seria feliz nas suas duas únicas participações em fases finais de Campeonatos do Mundo, no fundo o principal sonho de qualquer jogador do planeta. Não teve boas prestações e consequentemente o Uruguai seria eliminado nos oitavos-de-final em ambas as ocasiões, mais precisamente no México 86 e no Itália 90. Marcou um golo em fases finais do Mundiais, mais concretamente em 1986, diante da Dinamarca. Com a camisa do Uruguai disputou 68 jogos e marcou 17 golos.

O ídolo de Zidane
Durante a sua breve passagem por Marselha Francescoli tinha nas bancadas do Estádio Vélodrome ( o recinto deste clube do sul de França) um pequeno adepto marselhês que o idolatrava. Um jovem que se deslocava ao Vélodrome apenas para ver a magia do futebol de Enzo. Esse jovem chamava-se Zinedine Zidene, e anos mais tarde seria ele próprio um génio do futebol mundial. Francescoli foi o ídolo, a inspiração, de Zidane como o francês um dia confessou. Diz a lenda que Zidane, nos idos tempos em que jogava no Marselha, usava uma camisa do River Plate (que havia pertencido a Enzo) por baixo da sua camisola. Quando nasceu o seu primeiro filho, Zidane colocou-lhe o nome de Enzo, em jeito de homenagem ao seu ídolo.

Legenda das fotografias:
1- Enzo Francescoli com a camisola do seu país
2- Actuando pelo seu clube de sempre, o River Plate
3- Oferecendo a camisola do River a Bono aquando da passagem dos U2 por Buenos Aires para um concerto no Estádio Monumental no ano de 2005
4- Erguendo a Copa América de 95, conquistada ao Brasil no Estádio Centenário, em Montevideo
5- A poderosa equipa do Marselha de que Enzo fez parte na época 1989/90

sábado, outubro 06, 2007

Grandes lendas do futebol mundial (2)... José Leandro Andrade - No trilho da Maravilha Negra

Estamos hoje de volta a uma das vitrinas mais procuradas do nosso museu, a das Grandes lendas do futebol mundial. Depois do nosso Eusébio a ter inaugurado chegou a altura de lá voltarmos para relembrar outro mago imortal do futebol. Senhoras e senhores visitantes vamos hoje falar do uruguaio José Leandro Andrade.
Considerado o primeiro grande jogador negro da história do futebol, e um dos maiores de sempre (segundo uma recente votação da revista francesa France Football para designar o melhor futebolista de todos os tempos Andrade ficou em sexto lugar), José Leandro Andrade nasceu a 3 de Outubro de 1901 em Salto, começando a dar os primeiros pontapés na bola no bairro de Palermo. Actuava tanto como médio defensivo como defesa (direito ou esquerdo) e cativou o mundo com a sua eficácia, elegância, inteligência e técnica de jogar futebol, o que o tornou num dos futebolistas mais brilhantes da história.
Iniciou a sua carreira no Misiones, passando depois pelo Bella Vista, Nacional, Penharol e Wanderers, todos emblemas uruguaios. Seria no Nacional que viveria alguns dos anos mais felizes da sua carreira, vencendo os campeonatos do seu país de 1922 e 1924. Pelo Nacional participou em várias digressões pela Europa e pelos Estados Unidos da América, e reza a lenda que o famoso intérprete de jazz norte-americano Louis Armstrong ter-se-á inspirado no “Pelé dos anos 20” (como Andrade foi um dia apelidado) para criar o seu estilo artístico.
Além de um fabuloso futebolista Andrade era um não menos fabuloso bailarino, sendo que por diversas vezes integrou cortejos carnavalescos no seu país. Após a sua retirada dos relvados partiu para Paris, onde se tornou um célebre bailarino de cabarets. Adorava a folia e a vida boémia.

O nascimento do mito Maravilha Negra
Seria no entanto ao serviço da selecção do Uruguai que Andrade atingiu a fama planetária que fizeram dele um dos maiores jogadores de futebol da história.
Numa altura (anos 20) em que o Campeonato do Mundo ainda não havia surgido cabia aos jogos olímpicos a tarefa de reunir as melhores selecções do Mundo de quatro em quatro anos para apurar... o campeão do Mundo. É verdade! Naquela época os torneios olímpicos de futebol tinham a dimensão e importância daquilo que é hoje em dia o Campeonato do Mundo da FIFA.
Em 1924 coube à cidade de Paris organizar as olimpíadas de Verão desse ano. O torneio de futebol viria a ser amplamente dominado pela selecção do Uruguai, uma equipa que com a sua beleza e arte futebolística encantou os europeus. Dúvidas não existiam: o Uruguai era a melhor e mais poderosa equipa do Mundo da altura.
Na final do torneio olímpico os sul-americanos venceram no Stade des Colombes a Suíça por 3-0. O maestro, o craque, dessa equipa era um negro (o primeiro negro a pisar um relvado da Europa) com movimentos felinos de encantar, de seu nome José Leandro Andrade. Cedo, os jornalistas e adeptos franceses trataram de o rebaptizar, chamado-o de A Maravilha Negra. E assim nascia um mito do futebol.
Quatro anos mais tarde seria novamente peça fundamental na revalidação do título olímpico (ou Mundial, como era considerado na altura) da celeste (nome pelo qual é conhecida mundialmente a selecção do Uruguai), desta feita nos Jogos Olímpicos de Amesterdão, tendo na final derrotado a Argentina por 2-1. Andrade era na altura o melhor jogador do Mundo.

Vencedor do primeiro Mundial da FIFA... em casa
Em 1930, como os senhores visitantes já devem saber, o Uruguai organizou o primeiro Mundial da história. Uma espécie de presente da FIFA ao país que praticava o melhor futebol do planeta. Na qualidade de bi-campeã olímpica a equipa da casa partia assim como favorita a levantar a primeira taça do Mundo da FIFA. Já em final de carreira, e castigo por lesões crónicas, Andrade foi mesmo assim chamado para integrar a equipa uruguaia que disputou esse Mundial. A sua experiência e qualidade eram fundamentais para o triunfo da celeste. Ao lado de jogadores como Cea, Castro, Nazazzi e Scarone, Andrade venceria o Campeonato do Mundo, após a sua selecção ter derrotado na final os grandes rivais da Argentina por 4-2 (ver último post dos Grandes Clássicos da Bola).
Pelo Uruguai alinhou 43 vezes (só perdeu três jogos) e marcou um golo. Morreu só e na miséria em 1957 um homem que é tão grande como Eusébio, Pelé, Garrincha, Maradona ou Di Stéfano.
Um Deus da bola.
Seguidamente apresentamos um texto de Luís Freitas Lobo extraído do seu livro Os Magos do Futebol, um belo texto que descreve o ídolo que visitamos hoje.
No trilho da Maravilha Negra

Entrelaçado pelo cacimbo da noite que caíra sob a Cidade das Luzes, El Loco Romano desembrulhou mais uma vez o papel já amarrotado para confirmar a morada que o seu amigo José Leandro Andrade, companheiro de dribles e tijeras nas canchas de Montevideo , lhe dera tempos atrás para que quando fosse ao Velho Continente não se esquecesse de o visitar. Vivia-se no início da década de 30. Eram tempo de magia na brilhante noite de Paris, ainda levitada pela aura dos loucos anos 20, enebriada pelo esplendor excêntrico, negro e hipnotizante de Jossephine Baker, mito da Bélle Époque, rainha dos cabarets onde dançava e seduzia ao ritmo da Revue Negre. Ninguém imaginava que um outro negro, vindo do outro lado do oceano, nascido no bairro pobre de Cachimba, tornado célebre nos estádios de fútbol, fosse capaz de ofuscar o seu brilho.
Quando chegou à morada que Andrade lhe indicara, Romano abriu os olhos de espanto. Na sua frente estava um sumptuoso apartamento. Pensou: devo ter-me enganado. Mesmo assim, tocou à campainha, surgindo uma bela donzela que só falava francês, e do que Romano lhe disse só percebera a mágica frase: mesié Andrade. E eis que a Maravilha Negra, como lhe chamaram os jornalistas gauleses que o viram nos Jogos Olímpicos de 1924, surge vestindo um longo quimono de seda, por entre uma luxuosa habitação decorada por peles, estatuetas em ouro, cheiro a perfume caro e abat-jours milionários.
Durante a época de futebolista, num tempo em que atravessar o oceano durava meses, nunca quisera sair do Uruguai onde sempre jogou. Depois de abandonar o futebol, rumou à mágica capital francesa, onde alternou uma vida de boémia com a de artista de variedades, no qual era exímio bailarino, dançando e deslumbrando com o seu corpo alto, moreno e musculoso, tornando-se desejado por muitas mulheres, da mais fina sociedade, que o admiravam quase como um amuleto.
Entre os homens, apesar de, no início do século, o football ainda não cativar grandes paixões, nenhum esquecera a sua deslumbrante aparição com a fantástica selecção uruguaia nos Jogos Olímpicos de Paris, em 1924. Nesse tempo nunca a Europa vira um negro a jogar futebol. Ele fora o primeiro. Poucos dos que o viram jogar estarão hoje vivos, mas para a história fica o registo de um defesa com fôlego e talento infinito, que marcava o avançado e depois, acariciando a bola, subia pelo seu flanco com a elegância de um bailarino, driblando num jogo de cintura que parecia dança. Conta-se que num jogo atravessara meio-campo com a bola dominada na cabeça. Quando na postura defensiva, roubava a bola, pela terra e pelo ar, guardando-a nos labirintos de músculos das suas pernas de dançarino, com um estilo que, naquela época, era algo nunca visto, sobretudo se executado com a beleza plástica de Andrade.
Já nesse tempo era um amante da boémia que sonhava conhecer a bela e provocante Josephine Baker. No carnaval saía bailando com um tamborim, nos relvados, dançava com uma bola presa aos pés, alheio aos conselhos dos seus pais que insistiam em dizer-lhe para estudar, como fizera o seu dedicado irmão Nicasio. Mas Andrade vivia noutro mundo. Sublime, forte como uma árvore centenária, ágil como um felino deslumbrou o mundo com o seu futebol de encantar serpentes.
Anos depois, sob as estrelas de Paris, manteve a mesma personalidade feita de grandezas e tristezas. Apesar de venerado pelos mais finos olhares femininos, nas noites do Pigalle, Andrade era um homem impossível de prender. O amor pelas mulheres, para ele, ia e vinha em cada noite. Anos depois, regressaria à sua Montevideo, a bordo do Valdivia, célebre navio, vestindo uma gabardina cruzada, chapéu de galã, e cachecol de fina seda. Mais do que às essências perfumadas da douce France, Andrade pertencia à maresia rude da costa uruguaia, onde o sol queima e a noite se ilumina nos tangos de Gardel. Com o passar do tempo foi ficando, no entanto, cada vez mais isolado. Os seus olhos foram escurecendo e com o silêncio a sua alegria desvaneceu-se. Acabaria por morrer tuberculoso, só, em 1957, na mais profunda miséria, mas sem nunca pedir nada, nem esperar que o auxiliassem, apesar de desde há tempos a doença o ter começado a minar.

Legandas das fotografias:

1- José Leandro Andrade
2- A equipa do Uruguai que venceu os Jogos Olímpicos de Paris em 1924
3. Os jogadores da Celeste entrando em campo para disputar o jogo decisivo dos Jogos Olímpicos de 1928
4. Uruguai: a equipa que venceu o primeiro Campeonato do Mundo da FIFA
5. O imortal José Leandro Andrade
6. Envergando a camisola do Uruguai