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quarta-feira, abril 24, 2013

Figuras do apito (1)... John Langenus - O excêntrico belga com papel de destaque na história dos Mundiais

Na maioria das ocasiões eles dão vida ao lado mais polémico do futebol. As suas decisões nem sempre são encaradas com fair-play, e muitas vezes são apontadas como a causa de uma derrota, da perda de um título, ou mesmo da violência física tristemente portagonizada por artistas e adeptos do belo jogo. Quando se ganha ninguém se lembra deles, mas quando se perde toda a gente lhes aponta o dedo reprovador. Apesar de tudo eles fazem parte do espetáculo, são eles que o dirigem, para o bem... e para o mal. Eles são os árbitros de futebol, as figuras do apito, que de hoje em diante terão uma vitrina a eles reservada nos corredores do Museu Virtual do Futebol.
E a nossa primeira estrela - sim, eles também brilham no universo futebolístico - é quiçá a primeira figura mediática da arbitragem internacional. John Langenus, de seu nome, belga de nascimento que ficou célebre por ter dirigido a primeira final de um Campeonato do Mundo, no Uruguai, em 1930. Este terá sido um justo prémio para aquele que era na altura considerado o melhor juíz do planeta, que a nível internacional havia feito a sua estreia nos Jogos Olímpicos de Amesterdão, em 1928.
Nasceu a 8 de dezembro de 1891, em Berchem, próximo de Antuérpia, e descobriu a aptidão para o apito, digamos assim, depois de comprovar o seu pouco - ou mesmo nenhum - talento para a interpretação do jogo enquanto praticante. A este propósito uma vez disse Diego Armando Maradona: «Quem tem jeito (para a prática do futebol) vai para jogador, quem não tem vai para... jornalista desportivo»! Pois bem, longas décadas antes desta célebre teoria ter sido lançada a público pela lenda argentina já Langenus a punha em prática, já que além do talento para apitar jogos de futebol ele revelava-se igualmente um habilidoso artesão das palavras, o mesmo é dizer, um notável jornalista desportivo. Esta foi pois a (dulpa)forma que este cidadão belga encontrou para continuar ligado ao desporto que tanto amava. No entanto, a sua entrada na arbitragem também não foi fácil, já que ao desconhecer a resposta para a questão sobre "o que fazer quando a bola bater num avião que voasse a baixa altitude…" (!) fez com que reprovasse no primeiro exame de admissão para ser árbitro! Acontece aos melhores...

Homem culto - dominava quatro idiomas - Langenus, que profissionalmente desempenhava funções de chefe de gabinete do governador de Antuérpia, era, como já vimos, um apreciado jornalista, tendo escrito centenas de crónicas alusivas a encontros de futebol, grande parte delas guardadas nos arquivos da prestigiada revista alemã Kicker, com quem o belga colaborou durante muito tempo. Curioso é que grande parte dos jogos analisados jornalisticamente, por assim dizer, por John Langenus eram, ou tinham sido, dirigidos... por ele próprio! Reza a lenda que no final de cada jogo recolhia aos balneários onde redigia a crónica desse mesmo jogo para depois a enviar para a Kicker
Dentro do campo tinha pulso forte com os jogadores, onde o seu metro e noventa de altura impunha respeito. Ganhou pois a admiração de uma classe (futebolistas) que além de respeito para com ele olhava-o com algum espanto! É verdade. Além de dar nas vistas como árbitro Langenus atraia as atenções - quer dos jogadores, quer do público - pela forma exótica como se equipava. Usava sempre umas calças largas - à golfista! -, meias até ao joelho, jaqueta cumprida, e uma pequena gravata, que lhe conferiam um visual muito peculiar.

Batismo internacional

O dia 25 de fevereiro de 1923 fica marcado na carreira do primeiro grande nome da arbitragem planetária, o dia em que dirige o seu primeiro encontro internacional, facto ocorrido em Paris, onde a França venceu por 3-2 o Luxemburgo. Dali em diante visita mais algumas cidades europeias, onde arbitra sobretudo encontros internacionais de caráter particular. Os níveis da sua popularidade foram subindo de tom, não admirando que em 1928 fosse chamado ao torneio olímpico de futebol, na altura o maior evento futebolístico à escala planetária. Em Amesterdão, localidade onde decorreram as Olimpíadas de 28, Langenus vivenciou o seu primeiro momento de glória no mundo da arbitragem, ao apitar dois jogos na qualidade de árbitro principal, e atuado como linesman (fiscal de linha, ou árbitro assistente como agora são denominados) na grande final olímpica.
A 30 de maio de 1928, no Estádio Olímpico de Amesterdão, ele dirige a partida que colocou frente a frente a equipa da casa, a Holanda, aos futuros campeões olímpicos, ou melhor, bi-campeões olímpicos, o lendário conjunto do Uruguai. Uma oportunidade única para os adeptos holandeses verem na sua pátria algumas das estrelas do futebol daqueles anos 20, casos de José Nasazzi, Héctor Scarone, a Maravilha Negra José Leandro Andrade, ou... John Langenus, também ele já uma verdadeira estrela do futebol internacional. Ainda nessa histórica Olimpíada o belga dirigiu um novo encontro, também ocorrido no estádio olímpico, e que opôs a Itália ao Egito. Em jogo estava nada mais nada menos do que a medalha de bronze, a qual iria para o peito da squadra azzurra, depois de um categórico triunfo sobre os faraós por 11-3. Este facto ocorreu a 9 de junho, quatro dias antes da final, onde marcaram presença as duas potências do futebol sul-americano da época, tidas aliás para muitos como as seleções mais fortes do mundo, a Argentina e o Uruguai.
Para apitar o jogo mais aguardado do torneio - o qual seria ganho pelos uruguaios - foi chamado o holandês Johannes Mutters, o qual seria coadjuvado pelo italiano Achile Gama e o... belga John Langenus. Era já mais do que evidente o prestígio que angariava a nível internacional.

Momento de glória vivido em Montevidéu

De tal modo que aquando da realização do primeiro Campeonato do Mundo, dois anos mais tarde, em Montevidéu, capital do Uruguai, a FIFA não teve dúvidas em colocar Langenus na lista dos árbitros convidados a marcar presença naquele importante evento. Efetuou a longa viagem para Montevidéu no majestoso navio Conte Verde, o mesmo onde viajavam as delegações da FIFA, da Roménia, França, e Bélgica, três seleções que a par da Jugoslávia - que viajou noutro navio - representavam a Europa no primeiro Mundial da história. Em Montevidéu, onde decorreu toda a ação, Langenus apitou quatro jogos, o Uruguai - Perú (1-0), o Argentina - Chile (3-1), ambos alusivos à primeira fase do torneio, o Argentina - Estados Unidos da América (6-1), e o Uruguai - Argentina (4-2), este último a grande final do evento.
Na meia-final disputada entre argentinos e norte-americanos não se livrou de duras críticas dos soccer boys, que o acusaram de fazer vista grossa ao violento jogo praticado pelos sul-americanos, para quem ao que parece tudo valia, desde empurrões, pontapés, insultos... A fúria dos yankees para com o belga foi tão grande que a equipa médica do combinado da América do Norte chegou mesmo a agredir o árbitro com um estojo médico (!) arremessado para dentro do retângulo de jogo.

Após dirigir esse polémico jogo Langenus escreveu a habitual crónica para o Kicker, aproveitando posterirmente a sua estadia na América do Sul para conhecer outros locais daquele canto do Mundo. Atravessando então o rio de La Plata - que divide o Uruguai da Argentina - visita Buenos Aires, onde dias antes da grande final, precisamente entre os dois velhos inimigos, Argentina e Uruguai, recebe um telefonema dos dirigentes da FIFA que lhe pedem que regresse de imediato a Montevidéu para apitar a... final! Um pouco surpreendido o belga compra de imediato o bilhete para regressar de barco à capital uruguaia, e é aqui que conhece os primeiros contornos da fervorosa paixão que aquele jogo estava a provocar entre os adeptos dos dois países. Ainda em Buenos Aires ele percebe que aquela final era muito mais do que um jogo, era uma questão de vida ou de morte. E como se apercebeu que não iria agradar a gregos e a troianos ao mesmo tempo, isto é, algum dos países iria olha-lo com ódio (!) na conclusão do Mundial, ele decide fazer de imediato um acordo com a FIFA. Para garantir a sua segurança exigiu que logo após o apito final lhe fosse facultado um transporte que o tirasse do Estádio Centenário rumo ao porto de Montevidéu, e dali embarcar rapidamente rumo à Europa, a salvo da mais do que provável ira de um dos derrotados. Exigência aceite John Langenus regressou então a Montevidéu num barco apinhado de fanáticos adeptos argentinos, que nem sequer imaginavam que aquele gentleman de envergadura alta seria o árbitro da final!

No dia 30 de julho sobe ao relvado do majestoso Estádio Centenário, construído propositadamente para este Mundial, e ainda antes de dar início ao esperado duelo a polémica estoirou. Na escolha de campo os dois capitães (Nasazzi do lado uruguaio e Ferreira do lado argentino) discutiam. O uruguaio queria jogar com uma bola feita em seu país. O argentino, com uma bola feita na Argentina. Perante esta birra o árbitro belga decidiu que no primeiro tempo joga-se com a bola argentina e no segundo com a bola uruguaia. Com a bola argentina, os uruguaios conseguiram o primeiro golo, aos 12 minutos, marcado por Dorado. Oito minutos depois, Peucelle empatou. Aos 37 minutos, Stabile, o artilheiro do campeonato, marcou o segundo tento argentino. E a primeira parte chegou ao fim com os argentinos a vencer por 2-1. Foi espantosa a  reação uruguaia na etapa complementar, jogando com a bola feita em casa. Aos 12 minutos, Cea empatou. Aos 23, num remate de fora da área, Iriarte pôs o Uruguai em vantagem. O país vivia momentos de sofrida espera quando, num contra-ataque Dorado centrou da direita, pelo alto, e Castro com uma cabeçada fulminante mandou a bola para o fundo das redes. Era o quarto golo. Um minuto depois, o jogo acabava. E o Uruguai era assim o primeiro campeão do Mundo da história.
Terminada a final Langenus correu - pelo próprio pé, já que o transporte que lhe havia sido assegurado pela FIFA não estava lá! - rapidamente para fora de um estádio que estava em profundo delírio com o triunfo da celeste. Chegado ao porto de Montevidéu as notícias para o belga não eram nada boas. O cerrado nevoeiro que se abateu sobre o rio de La Plata fez com que as autoridades marítimas cancelassem a partida de qualquer tipo de embarcação. Os planos de Langenus tinham saído furados, não tendo outro remédio senão passar a noite escondido no seu camarote do navio Duilio que o levaria no dia seguinte de volta a terra segura, isto é, a Europa.

Como grande celebridade que já era no mundo da arbitragem não foi com surpresa que quatro anos mais tarde fosse de novo chamado à fase final de um Campeonato do Mundo, desta feita em Itália, embora aqui apenas tivesse dirigido um encontro, o Checolosváquia - Roménia, disputado em Trieste, e que terminou com a vitória da primeira seleção por 2-1. E como não há duas sem três foi chamado em 1938 para um novo Mundial, desta feita em França, onde apitou dois encontros. O primeiro, disputado no Parc des Princes, em Paris, foi histórico para Langenus. Suíça e Alemanha discutiam a passagem aos quartos-de-final, e eis que aos seis minutos do prolongamento o germânico Pesser tem uma entrada para lá de violenta sobre um adversário, recebendo ordem de expulsão do belga, a única sanção disciplinar deste género que aplicou a um jogador em toda a sua carreira. A despedida dos grandes palcos ocorreria ainda nesse Mundial, quando é nomeado pela FIFA para dirigir o jogo de atribuição dos terceiros e quartos lugares, entre Brasil e Suécia, vencido pelos primeiros.
Numa altura em que os jogos internacionais eram escassos, ao contrário do que hoje acontece, John Langenus apitou um total de 85 jogos! Retirou-se definitivamente da arbitragem em 1939, tendo passeado a sua classe por diversos países do Mundo, inclusive Portugal, pais que teve a honra de receber uma visita sua, a 23 de fevereiro de 1930, quando no Porto dirigiu um Portugal-França, concluído com um triunfo luso por 2-0. Depois de retirado dedicou-se à sua outra paixão, a escrita, tendo publico entre outros livros alusivos ao futebol o célebre "Whistling in the World", uma autobiografia onde eternizou as suas aventuras pelo Mundo da bola. Faleceu na sua cidade natal, a 1 de dezembro de 1952, com 60 anos de idade.

Legenda das fotografias:
1-John Langenus
2-Na escolha de campo com os capitães de Holanda e Uruguai, nos Jogos Olímpicos de 1928
3-Como árbitro assistente na final de Amesterdão
4-Na viagem para Montevidéu
5-Com os capitães do Uruguai e Argentina, antes da final do Mundial de 1930
6-Golo da Argentina, em pleno Centenário, com Langenus ao fundo a visionar o lance
7-A peculiar imagem do primeiro grande ícone da arbitragem internacional

segunda-feira, novembro 26, 2012

Futebol nos Jogos Olímpicos (5)... Amesterdão 1928

O torneio de futebol das Olimpiadas de Amesterdão em 1928 não foi mais do que a confirmação daquilo que se visionara quatro anos antes em Paris, por outras palavras, o Uruguai enquanto a seleção mais poderosa do Mundo. Amesterdão 1928 foi pois como a segunda parte de uma das mais belas e poéticas histórias futebolísticas, a história de uma talentosa equipa que mostrou ao globo que o futebol poderia ser jogado de uma maneira artística e atraente, bem diferente do famoso kick and rush inglês interpretado pela esmagadora das seleções e/ou clubes do então planeta da bola.
E para tentar reconquistar o Mundo a seleção uruguaia voltou a reunir grande parte dos artistas que em Paris haviam entrado para a história, entre outros o lendário capitão Jose Nasazzi, Hector Scarone, Pedro Cea, ou a Maravilha Negra José Leandro Andrade, a primeira grande estrela do futebol a nível internacional, consagrada precisamente na capital francesa durante as célebres Olimpíadas de 24.
Poucas eram as equipas que apresentavam qualidade para impedir os magos uruguaios de (re)conquistar o ouro olímpico, sendo as exceções a Itália, que na década de 30 iria suceder precisamente ao Uruguai como a patrona do planeta futebolístico, ou a aguerrida e tecnicamente evoluída Argentina, que fazia a sua estreia naquele que era então considerado o maior evento desportivo do Mundo, e que nos duelos sul americanos vinha dando luta aos lendários uruguaios. A todas as outras seleções sonhar - com pelo menos uma vitória - era a ambição mais... realista.

Portugal faz a estreia na alta roda internacional

E entre os combinados que sonhavam pelo menos sair de Amestrdão com um resultado positivo na bagagem estava Portugal, uma seleção que a par de México e do Chile fazia a sua estreia na alta roda futebolística internacional. Presença nas Olimpíadas holandesas que foi o primeiro grande momento internacional do então jovem futebol português, foi como um prémio para aquela que muitos dos críticos dizem ser a primeira geração dourada da modalidade em terras lusas, na qual pontificavam lendas como Jorge Vieira, Vítor Silva, Augusto Silva, Raul Tamanqueiro, Valdemar Mota, Carlos Alves, ou o genial Pepe (cujo nome de batismo era José Manuel Soares).
Sob o comando do mestre Cândido de Oliveira - o responsável técnico pela equipa portuguesa em Amesterdão - o futebol português vivia uma fase de clara evolução. A seleção nacional deixara de ser aquele grupo de bons rapazes que na primeira metade dos anos 20 entrava para o campo de batalha com o espectro da derrota no horizonte, e dava agora lugar a um conjunto de habilidosos e criativos atletas cuja mentalidade vencedora desafiava, sem medo, fosse qual fosse o adversário. Prova desse atrevimento é que no início desse célebre ano de 1928 a seleção nacional empatou pela primeira vez ante a Espanha, seleção com quem até à data sempre havia perdido, e muitas vezes sido goleada, e já na fase de preparação para os Jogos Olímpicos esmagou a poderosa Itália por 4-1 e empatou com a talentosa Argentina a zero golos, resultados que fizeram crescer entre a nação um sentimento de orgulho e esperança de que finalmente Portugal podia fazer parte da elite do futebol internacional.
E coube precisamente à seleção portuguesa dar o pontapé de saída no quinto torneio olímpico de futebol da história. Facto ocorrido a 27 de maio, no Estádio Olímpico de Amesterdão, o anfiteatro onde decorreu a maior parte da ação da 8ª edição dos Jogos Olímpicos, onde os lusitanos enfrentaram os também estreantes do Chile, num encontro referente à única pré-eliminatória do evento. Os sul americanos cedo chegaram a uma vantagem de dois golos (Saavedra marcou aos 14 minutos e Carbonell ampliou aos 30). O acordar dos portugueses deu-se ainda durante a etapa inicial, quando aos 38 minutos o artista da linha avançada Vítor Silva reduziu para 1-2. Apercebendo-se do perigo que ali estava os chilenos logo trataram de inutilizar o avançado do Benfica, aplicando uma entrada mais dura que o levaria a abandonar o relvado até ao intervalo, e só voltar no reatamento. Com 10 - naquele tempo não eram permitidas as substituições - Portugal agigantou-se, e respondendo ao agressivo e desleal estilo chileno com um futebol tecnicamente refinado, criativo, e determinado, não foi de estrahar que ainda ante do descanso Pepe coloca-se todo o seu génio em campo e fizesse a igualdade. Enchendo o peito de coragem os bravos portugueses partiram com tudo para cima do Chile na etapa final, e logo a abrir a segunda parte Pepe opera a reviravolta no marcador, cabendo a Valdemar Mota a tarefa de carimbar de vez o passaporte luso para a a 1ª eliminatória do torneio. 4-2, o resultado final, e o Mundo ficava a conhecer a alma - guerreira - lusitana. Sobre esta histórica entrada em cena o cronista Fernando T. Pinto escreveu o seguinte texto no seu livro A História do Futebol em Portugal (publicado em 1956): «Em consequência da dureza que empregavam, Vítor Silva recebeu um toque violento no joelho e houve quer ser retirado, em braços, do campo, para só regressar depois do intervalo. Jogando com o coração, concentrando o pensamento na pátria distante, os nossos representantes apoiados por um grupo que se deslocara à Holanda, multiplicaram-se e num estrondoso alarde de valentia, ânimo, coragem e consciência técnica operámos a reviravolta».

Argentinos candidatam-se ao trono

No dia 29 de maio, também no Estádio Olímpico, a Argentina fez a sua estreia oficial no torneio olímpico de futebol, uma entrada onde deixou transparecer ao Mundo que estava ali para subir ao trono que era ocupado pelos vizinhos e velhos inimigos do Rio da Prata, o Uruguai. A apadrinhar a estreia da equipa das pampas estiveram os norte-americanos, um conjunto de bonz rapazes para quem o soccer era um verdadeiro enigma, a julgar pela pesada derrota que sofreram. 11-2, a favor os sul americanos, com destaque para o poker (quatro golos) do avançado Domingo Tarasconi, que no final do certame foi coroado como rei dos goleadores, com um total de 11 remates certeiros.
Antes desta goleada a Bélgica - ex-campeã olímpica - bateu com alguma dificuldade o frágil Luxemburgo por 5-3, ao passo que a Alemanha esmagou a Suíça por 4-0 - com três golos da autoria de Richard Hofmann -, e o experiente - em matéria de Olimpíadas - Egito goleava a Turquia por 7-1.
Quanto à França, bem, viveu mais uma desilusão. Depois das tentativas falhadas em 1908, 1920, e 1924, os franceses voltaram a não conseguir agarrar o sonho olímpico. Talento não lhes faltava, mas mais uma vez ficavam pelo caminho cedo demais. Mas desta feita, e ao contrário das edições de 1908 e 1920, sairam de cabeça erguida, e orgulhosos da sua prestação diante da Itália, uma potência que começava a aparecer nos relvados internacionais. No duelo ante a Squadra Azzura os franceses - que em Amesterdão foram novamente orientados por um inglês, desta feita Peter Farmer - estiveram prestes a espantar o Mundo e mandar para casa mais cedo um dos favoritos a destronar o mágico Uruguai. Juste Brouzes, por duas ocasiões, colocou os gauleses a vencer por 2-0 numa altura em que o relógio marcava apenas 17 minutos de jogo decorrido! Mas do outro lado estavam alguns jogadores que anos mais tarde iriam ascender ao Olimpo dos Deuses da Bola, casos de Angelo Schiavio, ou de Gino Rossetti, que guiariam à azzurra à reviravolta e a permanecer desta forma no trilho do título olímpico. 4-3, resultado apertado, mas justo de uma Itália que confirmou ter armas suficientes para lutar pelo ouro.
Sem grandes problemas a Espanha - que em Amesterdão se viu privada da sua grande estrela, Ricardo Zamora - despachou o México por 7-1, enquanto que Portugal vivia um novo momento histórico na sua primeira presença internacional. Ante a Jugoslávia nova vitória alcançada, desta feita por 2-1, e confirmada em cima da meta, isto é, aos 90 minutos por Augusto Silva, que desta forma ficou eternizado como o Tigre de Amesterdão. Antes disso Vítor Silva havia inaugurado o marcador aos 25 minutos, sendo que aos 40 Bonacic empatou. Sobre este triunfo Fernando T. Pinto escreveu: «Tivemos sorte e jogámos com nobreza e generosidade nos 15 minutos finais, merecendo destaque Augusto Silva, que recebeu nesse jogo o epíteto de tigre de Amesterdão. Foi tão pujante, tão portentosa a exibição do médio-centro lusitano que, no final, os próprios holandeses o passearam em triunfo».
No derradeiro encontro da ronda inicial o Estádio Olímpico engalanou-se para receber a deslumbrante seleção uruguaia. Quase 28 000 espetadores não quiseram perder a oportunidade de ver em ação José Leandro Andrade e companhia, que como primeiro obstáculo tiveram a turma da casa, a Holanda. E não foi uma barreira fácil de ultrapassar, diga-se em abono da verdade. Pese embora a sua superioridade nunca tivesse sido colocada em causa o Uruguai venceu somente por 2-0 a equipa orientada pelo inglês Robert Glendenning, sendo que o golo da tranquilidade chegou apenas aos 86 minutos, por intermédio de Santos Urdinaran (Scarone havia feito o 1-0 aos 20 minutos).

Squadra Azzurra esmaga Espanha à segunda tentativa

Assumia contornos de "prato principal" dos quartos de final do torneio olímpico de 28. Espanha e Itália, duas seleções com vitórias distintas na 1ª eliminatória protagonizaram um embate empolgante na tarde de 1 de junho. Nos italianos uma surpresa no "onze". Giampiero Combi, guarda redes da Juventus, fazia a sua estreia em competições internacionais, ele que seis anos depois haveria de erguer - na qualidade de capitão de equipa - a primeira taça de campeão do Mundo conquistada pela Squadra Azzurra. Aos 11 minutos o experiente defesa Domingo Zaldua colocou os espanhóis em vantagem no marcador, vantagem essa assegurada até meio da etapa final, altura (63 minutos) em que Baloncieri repós a igualdade e obrigou a que este duelo fosse repetido três dias depois.
A caminhada triunfal da Argentina continuou no dia seguinte (2 de junho) com uma nova goleada, desta feita imposta à Bélgica, por 6-3, com a particularidade de Tarasconi ter feito novamente quatro golos.
E no dia 3 o Uruguai espalhou magia pelo relvado do Olímpico de Amesterdão, que mais uma vez registava uma boa casa (25 000 pessoas) para ver os magos sul americanos em ação. Com uma exibição repleta de glamour o combinado celeste vulgarizou os alemães, que mais não conseguiram fazer do que evitar uma não muito pesada derrota por 1-4, e desta forma gabar-se de dizer que foram afastados da competição pela melhor equipa do Mundo, ou melhor, por um conjunto de jogadores do... outro Mundo!
E o sonho português conhecia um novo capítulo no dia 4 de junho. Novo e derradeiro capítulo, já que os faraós do Egito colocaram um ponto final na aventura dos pupilos de Cândido de Oliveira na sequência de um triunfo por 2-1. Até aos 75 minutos desse encontro os norte africanos estiveram a vencer por 2-0, altura em que Vítor Silva reacendeu a chama da esperança ao reduzir para 1-2. Os portugueses lutaram com alma até final pela hipótese de conquistar uma medalha, mas podem queixar-se sobretudo da sua falta de inspiração no aspeto da finalização para justificar o afastamento perante o teoricamente acessível Egito. Muitas oportunidades de golo foram desperdiçadas pelo conjunto luso, que no final se queixou... do árbitro italiano Giovanni Mauro. Eliminados, os jogadores lusos regressaram dias depois a solo lusitano - depois de 40 horas de comboio! - onde seriam recebidos como... heróis. E heróis ficaram para a eternidade.
E se o primeiro Itália - Espanha havia sido pautado pelo equilíbrio o jogo de desempate foi tudo menos equilibrado. Uma exibição de gala dos italianos, em contraposto com uma atuação paupérrima da Espanha, foi concluída com uma robusta vitória por 7-1 (!) dos transalpinos.

Celeste Olímpica vence final antecipada

Era grande a espetativa dos holandeses - e do resto do Mundo - em saber quem iria enfrentar a Argentina na final dos Jogos Olímpicos de 28. Argentinos que na primeira semi final haviam aplicado de novo a chapa seis, desta feita ao Egito (6-0), com três golos de Tarasconi.
Estranhamente apenas 15 000 espetadores marcaram presença no Estádio Olímpico para assistir ao embate que iria decidir o segundo finalista, a Itália ou o Uruguai. Duas grandes equipas em ação, e grande foi, com naturalidade, o duelo protagonizado por ambas. Baloncieri inaugurou o marcador para a azzurra logo aos nove minutos, mas comandada de forma magistral desde o setor recuado do terreno pela Maravilha Negra Andrade a Celeste Olímpica - assim ficou eternizada a seleção uruguaia após as Olimpíadas de 24 e 28 - chegaria ao empate aos 17 minutos por intermédio de Cea. Campolo, aos 28 minutos, e Scarone, aos 31, ampliaram a vantagem dos sul americanos pra 3-1, resultado com que se atingiu o descanso.
Na segunda etapa a Itália deu luta, e aos 60 minutos Levratto encurtou distâncias no marcador, mas até final de nada valeram os esforços dos europeus, já que quando o árbitro holandês Eijmers apitou pela última vez o marcador indicava um 3-2 a favor os lendários uruguaios.

Final em dois atos

E eis que chegávamos a 10 de junho, o dia mais esperado do torneio olímpico, o dia da grande final. E o cartaz era convidativo, frente a frente dois pesos pesados do futebol... sul americano. Os seus duelos - oficiais - remontavam a 1916, ano em que começou a ser disputado o Campeonato Sul-Americano - mais tarde rebatizado de Copa América -, e cujo domínio era repartido pelos dois velhos inimigos. Encontravam-se agora num patamar mais alto que não o da luta pelo trono de rei das américas. O que agora estava em jogo era o título de campeão do... Mundo.
Um dia antes da final a Itália tinha conquistado a medalha de bronze depois de esmagar o Egito por 11-3!
Pouco mais de 28 000 entusiastas encheram as bancadas do Olímpico de Amesterdão para ver quem sucederia ao Uruguai como dono do planeta. E aquilo a que assistiram foi uma épica jornada futebolística, protagonizada por duas equipas que se conheciam muito bem, e cujo futebol apresentava contornos mágicos, em especial o dos uruguaios. Pedro Petrone (melhor marcador do torneio de 1924) fez 1-0 para os uruguaios aos 23 minutos, enquanto que o empate seria restabelecido aos 50 por Manuel Ferreira. Para desilusão dos muitos entusiastas que presenciaram aquele histórico duelo 1-1 seria o resultado final, e como tal ditavam as leias que teria de haver um novo encontro três dias depois.
No dia 13 as bancadas do anfiteatro holandês apresentaram-se novamente cheias para ver o segundo ato desta inolvidável peça futebolística. E mais uma vez sob o signo do equilibrio ambos os conjuntos não defraudaram os espetadores. Num magnífico espetáculo Figueroa fez 1-0 aos 17, e Monti empataria aos 28. Estava escrito que só um golpe de génio, um ato de magia, poderia desempatar este encontro, e seria isso mesmo o que viria a acontecer aos 73 minutos, altura em que a lenda Hector Scarone bate o guardião Angel Bossio pela segunda vez e revalida desta forma o título de campeão olímpico para o Uruguai.
Após este torneio o futebol nos Jogos Olímpicos como que morreu! O sucesso das primeiras edições olímpicas fez com a FIFA - mais concretamente o seu presidente Jules Rimet - idealiza-se uma grande competição internacional, que reunisse as melhores equipas do Mundo à sua volta, uma competição independente do Comité Olímpico Internacional que teimava em não permitir que jogadores profissionais participassem nos Jogos. Assim, em 1930 surgia o primeiro Campeonato do Mundo de futebol, certame organizado pela FIFA, que com o passar dos anos haveria de ultrapassar os Jogos Olímpicos em termos de popularidade e mediatismo. E como espécie de presente pelas inolvidáveis campanhas levadas a cabo em 1924 e 1928 a FIFA atribuiu a organização do primeiro Mundial da história precisamente ao Uruguai, país que sem qualquer surpresa haveria de se tornar no primeiro campeão do Mundo... oficial.

A figura: José Leandro Andrade

Mais uma vez o Uruguai foi guiado até à glória desde a sua defesa, pelo homem qué é ainda hoje considerado como a primeira grande estrela do futebol internacional: José Leandro Andrade.
Ágil, elegante, e combativa a Maravilha Negra foi o centro das atenções durante a estadia dos uruguaios em Amesterdão, foi o responsável pelo elevado número de público que se deslocava ao Estádio Olímpico sempre que o Uruguai entrava em ação, adeptos esses que procuravam assim ver de perto o primeiro ícone do futebol internacional.
Se em Paris Andrade foi decisivo para a conquista do título, em Amesterdão o seu papel foi fundamental, servindo de bandeja de ouro os seus companheiros mais adiantados no terreno no ataque às redes adversárias.
(Nota: Sobre a biografia de Andrade o Museu Virtual de Futebol já traçou inúmeras linhas ao longo da sua história, tanto na vitrina dedicada às grandes lendas, como na visita efetuada às Olimpíadas de 1924, onde a Maravilha Negra foi considerada a grande figura, tal como em Amesterdão)

Resultados

Pré-eliminatória

27 de maio de 1928
Portugal - Chile: 4-2
(Pepe, aos 40m, 50m, Vítor Silva, aos 38m, Valdemar Mota, aos 63m)
(Saavedra, aos 14m, Carbonell, aos 30m)

1ª Eliminatória

Luxemburgo - Bélgica: 3-5
(Schutz, aos 31m, Weisgerber, aos 42m, Theissen, aos 44m)
(Braine, aos 9m, aos 72m, Moeschal, aos 23m, aos 67m, Versyp, aos 20m)

28 de maio de 1928

Suíça - Alemanha: 0-4
(Hofmann, aos 17m, aos 75m, aos 85m, Hornauer, aos 42m)

Turquia - Egito: 1-7
(Refet, aos 71m)
(Moukhtar, aos 46m, aos 50m, aos 63m, El Hassany, aos 20m, Riad, aos 27m, Hooda, aos 53m, Zobeir, aos 86m)

29 de maio de 1928


França - Itália: 3-4
(Brouzes, aos 15m, aos 17m, Dauphin, aos 61m)
(Rossetti, aos 19m, Levratto, aso 39m, Banchero, aos 43m, Baloncieri, aos 60m)

Jugoslávia - Portugal: 1-2
(Bonacic, aos 40m)
(Vitor Silva, aos 25m, Augusto Silva, aos 90m)

Argentina - Estados Unidos da América: 11-2
(Tarasconi, aos 24m, aos 63m, aos 66m, aos 89m, Manuel Ferreira, aos 9m, aos 29m, Cerro, aos 47m, aos 49m, aos 57m, Orsi, aos 41m, aos 73m)
(Kuntner, aos 55m, Carroll, aos 75m)

30 de maio de 1928

Espanha - México: 7-1
(Regueiro, aos 13m, aos 27m, Yermo, aos 43m, aos 63m, aos 85m, Marculeta, aos 66m, Marsical, aos 70m)
(Carreno, aos 76m)

Holanda - Uruguai: 0-2
(Scarone, aos 20m, Urdinaran, aos 86m)

Vídeo: HOLANDA - URUGUAI


Quartos de final

1 de junho de 1928

Itália - Espanha: 1-1
(Baloncieri, aos 63m)
(Zaldua, aos 11m)

2 de junho de 1928

Argentina - Bélgica: 6-3
(Tarasconi, aos 1m, aos 10m, aos 75m, aos 89m, Manuel ferreira, aos 4m, Orsi, aos 81m)
(Braine, aos 24m, Van Halme, aos 28m, Moeschal, aos 53m)

3 de junho de 1928

Alemanha - Uruguai: 1-4
(Hofmann, aos 81m)
(Petrone, aos 35m, aos 39m, aos 84m, Scarone, aos 63m)

Vídeo: ALEMANHA - URUGUAI
 
4 de junho de 1928

Portugal - Egito: 1-2
(Vítor Silva, aos 76m)
(Moukhtar, aos 15m, Riad, aos 48m)

Itália - Espanha: 7-1 (desempate)
(Levratto, aos 76m, aos 77m, Magnozzi, aos 14m, Schiavio, aos 15m, Baloncieri, aos 18m, Bernardini, aos 40m, Rivolta, aos 72m)
(Yermo, aos 47m)

Meias finais

6 de junho de 1928

Argentina - Egito: 6-0
(Tarasconi, aos 37m, aos 54m, aos 61m, Manuel Ferreira, aos 32m, aos 82m, Cerro, aos 10m)

7 de junho de 1928

Itália - Uruguai: 2-3
(Baloncieri, aos 9m, Levratto, aos 60m)
(Cea, aos 17m, campolo, aos 28m, Scarone, aos 31m)

Jogo de atribuição da medalha de bronze

9 de junho de 1928
Itália - Egito: 11-3
(Schiavio, aos 6m, aos 42m, Banchero, aos 19m, aos 39m, aos 44m, Magnozzi, aos 72m, aos 80m, aos 88m, Baloncieri, aos 14m, aos 52m)
(Riad, aos 12m, aos 16m, El Ezam, aos 60m)

Final

10 de junho de 1928

Uruguai - Argentina: 1-1
(Petrone, aos 23m)
(Manuel Ferreira, aos 50m)

Finalissima

13 de junho de 1928

Uruguai - Argentina: 2-1

Estádio: Olímpico de Amesterdão

Árbitro: Mutters (Holanda)

Uruguai: Mazali, Nasazzi, Arispe, Jose Leandro Andrade, Piriz, Gestido, Arremon, Scarone, Borjas, Cea, e Figueroa. Treinador: Primo Gianotti

Argentina. Bossio, Bidoglio, Paternoster, Medici, Monti, Evaristo, Carricaberry, Tarasconi, Ferreira, Perducca, e Orsi. Treinador: José Lago

Golos: 1-0 (Figueroa, aos 17m), 1-1 (Monti, aos 28m), 2-1 (Scarone, aos 73m)

Vídeo: URUGUAI - ARGENTINA
 
Legenda das fotografias:
1-Cartaz oficial dos Jogos Olímpicos de 1928
2-A seleção de Portugal, que fez a esteria em provas de âmbito internacional
3-Os mágicos uruguaios entram em campo, com o capitão Nazassi na frente
4-Momento do encontro entre Uruguai e Alemanha
5-Um lance do Egito - Portugal
6-A empolgante meia final entre a Celeste Olímpica e a Squadra Azzurra
7-Lance do empolgante duelo final
8-Os dois capitães de equipa e o trio de arbitragem antes da grande final
9-A Maravilha Negra
10-Portugueses e chilenos

11-A seleção da Alemanha
12-A forte Itália...
13-... que humilhou a Espanha nos quartos de final
14-A temível Argentina
15-Lance entre italianos e espanhóis
16-Panorámica do estádio olímpico durante o massacre italiano ao Egito
17-E os bi-campeões olímpicos, o Uruguai

quarta-feira, setembro 05, 2012

Futebol nos Jogos Olímpicos (4)... Paris 1924

Paris, a deslumbrante capital francesa assistiu em 1924 a um dos mais belos capítulos da história do futebol mundial, orquestrado por um virtuoso conjunto de futebolistas oriundos de um pequeno país sul americano de apenas 3 milhões de habitantes que conferiram ao jogo um misto de arte e fantasia nunca dantes interpretado por nenhum outro artista do pontapé da bola. Um facto ocorrido debaixo dos holofotes dos Jogos Olímpicos do citado ano, numa cidade à qual foi dada uma espécie de segunda oportunidade para mostrar ao restante globo terrestre a sua eficiência - e merecimento - em dar vida àquele que era já de forma indiscutível um dos maiores eventos planetários. Nunca será demais relembrar que 24 anos antes Paris tinha sedeado a II edição das Olímpiadas da Era Moderna, certame inserido no programa da Exposição Universal que em 1900 teve lugar na "cidade luz" e que seria rotulado como um profundo fracasso, desde logo pela razão de que não tinha sido mais do que um mero apontamento de entretenimento paralelo da dita exposição. Querendo apagar essa - má - imagem o recriador dos Jogos Olímpicos, e na época presidente do Comité Olímpico Internacional, o barão Pierre de Coubertin, fez de tudo - fazendo frente a inúmeras vozes de oposição - para que a sua cidade natal pudesse voltar a sedear os Jogos. A batalha seria ganha, e Paris tratou desde logo de se preparar para não repetir os erros cometidos em 1900. Foram construídas diversas infraestruturas desportivas, sendo a mais vistosa de todas elas o magnífico Estádio des Colombes, o local idealizado para acolher a esmagadora maioria das modalidades dos Jogos de 1924. Novidade seria a edificação de uma aldeia olímpica, uma espécie de complexo habitacional onde os atletas das nações participantes ficariam instalados. Atletas que seriam aproximadante 3100, em representação de 44 países, um número recorde na história da competição até então. E recorde seria igualmente o número de participantes no torneio olímpico de futebol, 22 em termos exatos, mais 8 que aqueles que tinham marcado presença quatro anos antes em Antuérpia, numa demonstração clara da popularidade que o torneio ia angariando de edição para edição entre as nações. A corrida ao título mundial - não será demais recordar que era desta forma que o torneio olímpico era encarado pela família do futebol - teve início a 25 de junho de 1924, quando no Stade des Colombes mediram forças duas potências futebolísticas da época - e cujo poder continua a ser bem evidente nos dias de hoje -, mais precisamente a Espanha e a Itália. Espanhóis que continuavam a ter como grande estrela o guarda-redes Ricardo Zamora, o qual 4 anos antes havia tido um papel fundamental na conquista da medalha de prata pelo combinado ibérico nos Jogos Olímpicos de Antuérpia. Do lado transalpino as luzes da ribalta focavam-se sobretudo no treinador Vittorio Pozzo, lendário mestre da tática que procurava apagar a má imagem deixada pela "squadra azzurra" no Torneio Olímpico de 1912, em Estocolmo, onde havia caído de forma prematura e surpreendente aos pés da frágil Finlândia. Em Paris a Itália mostrou outra atitude, e essencialmente talento futebolístico, pese embora tivesse de suar a camisola para afastar a forte e aguerrida seleção espanhola da 1ª eliminatória dos Jogos de 1924. Numa partida marcada pelo equilíbrio valeu à Itália o infortúnio do defesa espanhol Pedro Vallana, que aos 84 minutos do duelo traiu o seu companheiro Zamora ao introduzir o esférico na sua baliza e desta forma apontar o único golo da contenda, o qual garantia aos pupilos de Pozzo o passaporte para a ronda seguinte. Ainda no dia 25 deu-se a estreia de duas seleções em andanças olímpicas, nomeadamente a Suíça e a Lituânia. Foram mais felizes, muito mais na verdade, os helvéticos, que comandados pela sua estrela-mor Max Abegglen esmagariam a equipa do leste europeu por 9-0 (!), com destaque para o próprio Abegglen, autor de 3 golos, e de Paolo Sturzenegger, autor de 4 remates certeiros. Mas a epopeia suíça não se ficaria por aqui, como mais à frente iremos ver.
Sem dificuldades a Checoslováquia - uma das surpresas das Olímpiadas de 1920 - derrotou a estreante Turquia por 5-2, enquanto que no derradeiro jogo do dia os Estados Unidos da América - também eles a fazerem a sua estreia em matéria de Torneio Olímpico - batiam a Estónia por 1-0, graças a um golo de Andrew Stradan.

Mágicos uruguaios entram em ação

E no dia 26 de junho de 1924 o mundo do futebol iria sofrer uma verdadeira revolução... no bom sentido. Neste dia, que haveria de ter contornos célebres, entrou em ação o estreante Uruguai, pequeno país da América do Sul cujo futebol era uma verdadeira incógnita para as restantes seleções presentes. Dizer que com a entrada em cena dos uruguaios e dos norte-americanos, na véspera, o Torneio Olímpico abria assim as suas portas a países de fora da Europa e de África, tornando-se assim e agora num verdadeiro Campeonato do Mundo. Conforme já foi referido pouco ou quase nada se sabia dos uruguaios, sabendo-se somente que eram os reis do desconhecido reino futebolístico da América do Sul a julgar pelas 4 Copas América - em 7 edições disputadas até à data - que ostentavam no seu currículo. Mas isso não significava nada para os europeus, cientes da sua mestria da arte de manusear a bola.
Assim terão pensado inicialmente os jugoslavos, os oponentes do Uruguai na 1ª eliminatória dos Jogos de Paris, conforme recordou anos mais tarde o mítico jornalista uruguaio Eduardo Galeano, ao contar que aquando do visionamento de um treino da seleção sul-americana os espiões jugoslavos - jogadores e equipa técnica - terão desatado à gargalhada após verem in loco a falta de jeito dos seus adversário para com a bola. Bolas chutadas para as bancadas, choques atabalhoados entre os jogadores e dezenas de passes errados fizeram crer ao conjunto europeu que passar à fase seguinte seria uma tarefa mais do que fácil peramte os aparentemente toscos uruguaios. Mas só aparentemente, porque na realidade esta fraca performance patenteada no treino não foi mais do que uma tática para enganar os jugoslavos, na tentativa de os fazer acreditar que a vitória era mais do que certa perante tamanha falta de jeito. Tática essa que resultou em pleno, tendo a Jugoslávia entrado em campo totalmente relaxada e mais do que convencida que este não seria mais que um mero jogo-treino. Como que num ápice de magia os toscos uruguaios tranformaram-se em magistrais intérpretes do futebol, apresentando ao público parisiense um jogo alegre, solto, e tecnicamente atrativo, mais parecendo que o "onze" proveniente da América do Sul bailava ao som de um tango de Carlos Gardel. Resultado final: 7-0 a favor do Uruguai diante dos destruídos e pasmados fanfarrões jugoslavos, que por certo nunca mais iriam esquecer aquela lição. De imediato as atenções do torneio olímpico recairam no Uruguai, naquele pequeno país cujo desconhecido futebol havia de imediato apaixonado os parisienses que na tarde de 26 de junho se deslocaram ao Stade des Colombes. Na retina dos presentes ficaram sobretudo os bailados futebolísticos de nomes como Pedro Cea, Hector Scarone, José Nasazzi, Pedro Petrone, e de um tal Jose Leandro Andrade, um negro que haveria de sair destes Jogos Olímpicos endeusado pelo povo da capital francesa.
No último jogo da eliminatória a Hungria bateu sem dificuldades a estreante Polónia por 5-0.

Campeões olímpicos humilhados!

No dia 27 de junho arrancou a 2ª eliminatória da competição, com a entrada em campo da medalha de bronze das três primeiras edições do Torneio Olímpico, a Holanda, ante a estreante Roménia. Duelo sem história conforme traduz o resultado de 6-0 a favor dos holandeses, com destaque para o poker (4 golos) apontado por Cornelis Pijl. No outro jogo do dia o Stade de Paris (um dos quatro estádios da capital gaulesa onde foram disputados os encontros do Torneio Olímpico) engalanou-se para receber a seleção da casa, a França, que partia com a ambição de dar uma alegria ao seu povo, apresentando na competição alguns dos seus melhores atletas de então, casos de Paul Nicolas, Henri Bard, ou Jean Boyer. E a caminhada gaulesa até nem começou mal, muito pelo contrário, com a estreante Letónia a ser esmagada por 7 golos sem resposta. No dia seguinte mais duas seleções fizeram a sua estreia, casos da Bulgária e da República da Irlanda, as quais mediram forças entre si, acabando o triunfo por pender para os irlandeses por 1-0. Equilibrado seria o confronto entre a Suiça e a Checoslováquia, uma antevisão impensável à partida para este encontro, mesmo tendo em conta a veia goleadora dos helvéticos na 1ª eliminatória, uma vez que os checoslovacos eram tidos como uma das grandes equipas do futebol de então. Os suíços não se amedrontaram, e no final dos 90 minutos o resultado era de 1-1, para espanto dos presentes, tendo havido a necessidade de ser disputado um jogo de desempate a acontecer dois dias mais tarde.
Antes disso, e no dia 29, escândalo foi a palavra que pairou com maior intensidade sobre o Torneio Olímpico. A campeã olímpica em título, a Bélgica, entrava em campo determinada a repetir o feito conquistado quatro anos antes, contando para isso com a maior parte dos heróis de Antuérpia. O oponente até nem era dos mais poderosos, já que dava pelo nome de Suécia. Porém, da teoria à prática o caminho é distante e muitas vezes sinuoso... como traduz o impensável resultado de 8-1 a favor dos suecos! Os campeões haviam sido humilhados e nem a sua estrela principal, o temível avançado Robert "canhão" Coppée, lhes valeu. Pela segunda vez consecutiva aparecia no evento o Egito, o único representante do continente africano, que em Paris alcançava a sua primeira vitória olímpica depois de ter batido a Hungria por 3-0. No Stade Pershing, situado no famoso bosque de Vincennes, a Itália de Vittorio Pozzo despachava o modesto Luxemburgo por 2-0, com destaque para a exibição do célebre avançado do Bolonha Giuseppe Della Valle, autor de um dos tentos da azzurra. E no derradeiro encontro do dia 29 de junho a magia voltou a estar à solta em Paris. Com uma curiosidade redobrada na sequência dos ecos lançados pela imprensa francesa após a deslumbrante exibição diante da Jugoslávia, 10 000 espetadores deslocaram-se ao Stade Bergeyre para ver in loco os artistas vindos do Uruguai. O entusiasmo em torno do conjunto sul-americano era enorme por parte dos parisienses, e em especial sobre o negrito Andrade, o homem que bailava com a bola nos pés. E quem teve o privilégio de marcar presença em Bergeyer não se terá arrependido, muito longe disso, já que os mágicos uruguaios realizariam mais uma exibição de luxo ante os Estados Unidos da América, culminada com uma inequivoca vitória por 3-0, com dois tentos do goleador Pedro Petrone e um do polivalente - atuava em qualquer zona do terreno ! - Hector Scarone, um homem cuja lenda diz que cantava enquanto jogava! Neste mesmo estádio, e no dia seguinte, a Suíça voltava a surpreender os amantes do futebol. Graças a mais uma ótima atuação voltou a fazer a vida negra aos favoritos checoslovacos no jogo de desempate entre as duas equipas, acabando por vencer por 1-0 e seguir desta forma para os quartos-de-final... contra todas as previsões iniciais.

Gauleses rendidos ao encanto uruguaio... mais uma vez

Após um dia de descanso a bola voltou a rolar no dia 1 de junho para o pontapé de saída dos quartos-de-final, e logo com uma espécie de final antecipada, um encontro que colocou frente a frente a seleção da casa a um dos conjuntos sensação do torneio, o Uruguai. A espetativa em torno do duelo era enorme, podendo mesmo dizer-se que Paris parou nessa tarde, tendo os Colombes registado a sua maior enchente até então: 30 000 espetadores! 30 000 almas divididas entre o patriotismo francês e o fascínio pelo jogo sul-americano. A habilidade uruguaia levaria a melhor conforme explica o expressivo resultado de 5-1 a seu favor na sequência de mais um memorável bailado futebolístico de jogadores como Scarone, Petrone (ambos com 2 golos cada na conta pessoal deste encontro) Romano, Cea, ou Andrade, último jogador este que despertava cada vez mais paixões dentro e fora do campo, neste último aspeto pelas damas parisienses, cujos suspiros pelo invulgar corpo musculado "pintado" em tons de negro subiam de intensidade sempre que com ele se cruzavam nas míticas e encantadoras artérias da "cidade luz". No mesmo dia a Suécia voltava a evidenciar o seu poder de fogo, após aplicar uma nova goleada, desta feita ao Egito por 5-0. No dia 2 de junho a experiente - em andanças olímpicas - Holanda sentiu grandes dificuldades para derrotar o exêrcito irlandês. Seria só no prolongamento que Ocker Formanoij carimbaria o passaporte das tulipas - ao fazer o 2-1 final - para a 4ª meia final consecutiva em torneios olímpicos. E como não há duas sem três a Suíça voltou a fazer das suas no derradeiro encontro dos quartos-de-final. Desta feita as vitimas foram os italianos, os quais sucumbiam por 1-2 ante Max Abegglen - autor de um golo - e companhia.

Vitórias suadas das duas surpresas do torneio

Um jogo intenso e deveras duro, assim pode ser caracterizado o último obstáculo do Uruguai rumo à final olímpica. A Holanda fez o que pôde para contrariar o talento dos sul-americanos, jogando nos limites da dureza, em alguns momentos do encontro, para impedir o óbvio: a passagem uruguaia ao jogo decisivo. Facto que acabaria por acontecer a 6 de junho, graças a um golo apontado por Scarone na conversão de uma grande penalidade aos 81 minutos. Isto depois de as tulipas terem estado em vantagem no marcador! Pedro Cea empatou aos 62 e Scarone fez então o 2-1 final a menos de 10 minutos do apito final do francês Georges Vallat. Após o encontro os holandeses protestaram contra a grande penalidade que deu o triunfo aos sul-americanos, protesto esse que no entanto de nada valeu.
Intenso e equilibrado havia sido igualmente o encontro da véspera, que opôs os surpreendentes suíços aos mortíferos suecos. O resultado foi idêntico, 2-1, a favor dos helvéticos, que bem puderam agradecer à sua estrela-mor Max Abegglen, autor dos dois remates certeiros da sua equipa. O que é certo é que as duas equipas surpresa do torneio estavam na final... contra todas as previsões iniciais, inclusive as dos próprios suíços, cuja viagem de regresso a casa havia sido marcada para alguns dias antes da final! Não acreditando que a sua equipa podia avançar mais do que uma eliminatória, na melhor das hipóteses, os dirigentes helvéticos prepararam o seu orçamento para apenas 10 dias de estadia, precisamente o tempo de validade da passagem de comboio adquirida antes da partida para Paris. Ora, como a aventura do país neutral em terras gaulesas demorou bem mais do que esse período o jornal Sport efetuou uma petição junto dos seus leitores para que pudessem ajudar a custear as despesas da delegação suíça por mais alguns dias, uma vez que federação daquele país há muito que havia esgotado os seus parcos recursos financeiros. A dita petição foi concluída com sucesso, e os pupilos do inglês Edward Duckworth puderam sonhar por mais alguns dias com o título de campeões... do Mundo.

Uruguai sobe ao trono do futebol mundial com naturalidade

No futebol o amor e ódio são dois sentimentos que caminham muitas vezes de mãos dadas, e na final olímpica de 9 de junho de 1924 esta "parelha" esteve bem vincada. O futebol arte dos uruguaios podia despertar os corações de muito boa gente, mas também não é menos certo que a campanha triunfal dos suíços havia granjeado a simpatia de muitos parisienses. Era pois com um sentimento dividido que muitos dos mais de 40 000 espetadores que lotaram as bancadas do Stade des Colombes - diz-se que cerca de 10 000 pessoas ficaram às portas do estádio sem terem conseguido bilhete ! - visionaram a final dos Jogos Olímpicos de 1924. Os sul-americanos cedo impuseram o seu futebol-arte sobre o bem tratado relvado parisiense, colocando em ação um sufucante ritmo ofensivo suportado por uma sedutora combinação de passes a meio campo e uma eficaz segurança defensiva, no fundo a essência do invulgar estilo que os uruguaios haviam apresentado à Velha Europa, um continente habituado ao jogo físico e bolas pelo ar! Com um toque de bola rápido e de beleza ímpar acompanhado de dribles mágicos, rapidamente a multidão parisiense ficou rendida - uma vez mais - à arte uruguaia, que com toda a naturalidade do Mundo chegou à vantagem logo aos 6 minutos, por intermédio de Petrone, jogador que com este tento aumentava para 8 o número total de remates certeiros em todo o Torneio Olímpico, selando difinitivamente a conquista do título de rei dos goleadores. Na segunda parte Pedro Cea ampliou a vantagem ao minuto 65, e El Loco Romano fecharia a contagem aos 82. 3-0, resultado final que permitia ao Uruguai ascender ao trono do futebol mundial pela primeira vez. O futebol arte havia triunfado com justiça, um novo estilo de interpretar o jogo que faria escola dali em diante, e que seria adotado por muitas outras seleções, pese embora sem o perfume dos uruguaios. Após a histórica conquista a festa estoirou entre a comitiva sul-americana, tendo a modesta unidade hoteleira onde os charrúas estavam instalados oferecido um jantar aos novos campeões... mundiais. Tal como nos relvados José Leandro Andrade foi o centro das atenções na festa de consagração, das atenções e dos olhares femininos que seguiam com precisão os dotes de exímio bailarino do primeiro grande jogador negro da história do futebol.
Quanto à medalha de bronze essa ficou na posse dos suecos, que foram obrigados a horas extras para retirar aos holandeses uma medalha que estes ostentavam há já três Olimpiadas consecutivas. Depois de um empate a uma bola no primeiro jogo os suecos venceram por 3-1 no encontro de desempate, subindo desta forma ao último lugar do pódio de um torneio histórico, um torneio que revelou ao Mundo uma das mais brilhantes e vibrantes equipas de todos os tempos: os magos do Uruguai.

A figura: José Leandro Andrade

Paris vivia sob a influência dos loucos anos 20, no rescaldo da Belle Époque, que atraiu à "cidade luz" um elevado número de artistas de diferentes áreas, na procura de um estilo de vida desprendido assente na cultura e no devertimento sem barreiras. Em Paris não havia limites, viver, no verdadeiro significado da palavra, era a única regra. O estilo de vida mundano era adotado sem limites pelos parisienses em geral, que procuravam o prazer - visual, pelo menos para a maior parte deles - nas curvas sensuais da bela Josephine Baker, uma negra norte-americana que fazia as delícias dos frequentadores dos cabarets do Pigale graças aos seus sensuais espetáculos de striptease. Josephine Baker foi de facto a primeira negra a seduzir Paris, mas não seria a única. Em 1924 a "cidade luz" rendeu-se a um outro negro, um talentoso futebolista que brilhou no Torneio Olímpico desse ano, José Leandro Andrade era o seu nome. Sobre ele o Museu Virtual do Futebol já dedicou um capítulo mais detalhado aquando de uma visita à vitrina onde repousam as grandes lendas do futebol, pelo que neste capítulo dedicado aos Jogos de 1924 iremos apenas recordar em linhas gerais quem foi o primeiro astro negro do futebol planetário.
José Leandro Andrade nasceu a 3 de Outubro de 1901 em Salto, começando a dar os primeiros pontapés na bola no bairro de Palermo. Atuava tanto como médio defensivo como defesa (direito ou esquerdo) e cativou o mundo com a sua eficácia, elegância, inteligência e técnica de jogar futebol. Mais parecendo um felino com a bola nos pés iniciou a sua carreira no Misiones, passando depois pelo Bella Vista, Nacional, Penharol e Wanderers, todos emblemas uruguaios. Seria no Nacional que viveria alguns dos anos mais felizes da sua carreira, vencendo os campeonatos do seu país de 1922 e 1924. Pelo emblema de Montevideu participou em várias digressões pela Europa e pelos Estados Unidos da América, e reza a lenda que o famoso intérprete de jazz norte-americano Louis Armstrong ter-se-á inspirado no “Pelé dos anos 20” (como Andrade foi um dia apelidado) para criar o seu estilo artístico. Seria no entanto ao serviço da seleção do Uruguai que Andrade atingiu a fama planetária que fez dele um dos maiores jogadores de futebol da história. História que começou precisamente nas Olimpiadas de 1924, o certame onde se daria a conhecer ao Mundo. No meio dos artistas uruguaios ele foi a atração principal, com o seu estilo muito próprio e sedutor de acariciar e conduzir a bola. Nunca a Europa havia visto um negro jogar futebol, muito menos com a qualidade patenteada por Andrade. Na sequência das suas épicas exibições os jornalistas franceses logo o trataram de batizar de... Maravilha Negra. E assim nascia oficialmente a lenda. Mesmo não sendo fervorosos adeptos do futebol os franceses de então renderam-se por completo ao artista sul-americano, que nas ruas parisienses era tratado como um rei pelos homens que viam, ou liam, as suas façanhas no Torneio Olímpico e desejado pelas mais finas damas que perdiam os seus olhares nas curvas do seu atlético corpo.
Em 1930 o Uruguai organizou o primeiro Campeonato do Mundo da história. Uma espécie de presente da FIFA ao país que praticava o melhor futebol do planeta. Na qualidade de bi-campeã olímpica - o Uruguai venceria ainda os Jogos Olímpicos de 1928 - a equipa da casa partia assim como favorita a levantar a primeira taça do Mundo da FIFA. Já em final de carreira, e castigo por lesões crónicas, Andrade foi mesmo assim chamado para integrar a equipa uruguaia que disputou esse Mundial. A sua experiência e qualidade eram fundamentais para o triunfo da celeste. Ao lado de jogadores como Cea, Castro, Nasazzi e Scarone, Andrade venceria o Campeonato do Mundo, após a sua seleção ter derrotado na final os grandes rivais da Argentina por 4-2. Pelo Uruguai alinhou 43 vezes (só perdeu três jogos) e marcou um golo. Além de um fabuloso futebolista José Leandro Andrade era um não menos fabuloso bailarino, sendo que por diversas vezes integrou cortejos carnavalescos no seu país. Após a sua retirada dos relvados partiu (na década de 30) para Paris, a cidade que o corou no reino futebolísitco, onde se tornou um célebre bailarino de cabarets, partilhando as luzes da ribalta da sociedade cultural parisiense com nomes como Ernest Hemingway, Scott Fitzgerald, James Joyce, Pablo Picasso, Salvador Dali, ou a adorada Josephine Baker. Adorava a folia e a vida boémia. Regressou anos mais tarde a Montevideu, onde morreu só e na miséria em 1957.

Resultados

1ª Eliminatória

25 de maio de 1924

Itália - Espanha: 1-0
(Vallana, na própria baliza aos 84m)

Suíça - Lituânia: 9-0
(Sturzenegger, aos 2m, 43m, 68m, 85m; Abegglen, aos 41m, 50m, 58m; Dietrich, aos 14m; Ramseyer, aos 63m)

Turquia - Checoslováquia: 2-5
(Refet, aos 63m, 82m)
(Sedlacek, aos 28m, 37m; Sloup, aos 21m; Novak, aos 64m; Capek, aos 74m)

Estados Unidos da América - Estónia: 1-0
(Stradan, aos 15m)

26 de maio de 1924

Jugoslávia - Uruguai: 0-7
(Petrone, aos 35m, 61m; Cea, aos 50m, 80m; Scarone, aos 23m; Vidal, aos 20m; Romano, aos 58m)

Hungria - Polónia: 5-0
(Hires, aos 51m, 58m; Opata, aos 70m, 87m; Eisenhoffer, aos 14m)

2ª Eliminatória

27 de maio de 1924

Holanda - Roménia: 6-0
(Pijl, aos 32m, 52m, 66m, 68m; Hungronje, aos 8m; De Natris, aos 69m)

França - Letónia: 7-0
(Crut, aos 17m, 28m, 55m; Boyer, aos 71m, 87m; Nicolas, aos 25m, 50m)

28 de maio de 1924

Bulgária - Irlanda: 0-1
(Duncan, aos 75m)

Suíça - Checoslováquia: 1-1
(Dietrich, aos 79m)
(Sloup, aos 21m)

29 de maio de 1924

Suécia - Bélgica: 8-1
(Kock, aos 8m, 24m, 77m; Rydell, aos 20m, 61m, 83m; Brommesson, aos 30m; Keller, aos 46m)
(Larnoe, aos 67m)

Itália - Luxemburgo: 2-0
(Baloncieri, aos 20m; Della Valle, aos 38m)

Uruguai - Estados Unidos da América: 3-0
(Petrone, aos 10m, 44m; Scarone, aos 15m)

Egito - Hungria: 3-0
(Yakan, aos 4m, 58m; Hegazi, aos 40m)

30 de maio de 1924

Suiça - Checolováquia: 1-0 (desempate)
(Pache, aos 87m)

Quartos-de-final

1 de junho de 1924

França - Uruguai: 1-5
(Nicolas, aos 12m)
(Scarone, aos 2m, 24m; Petrone, aos 58m, 68m; Romano, aos 83m)

Suécia - Egito: 5-0
(Brommesson, aos 31m, 34m; kaufeldt, aos 5m, 71m; Rydell, aos 49m)

2 de junho de 1924

Holanda - Irlanda: 2-1
(Formanoij, aos 7m, 104m)
(Farrell, aos 33m)

Suíça - Itália: 2-1
(Sturzenegger, aos 47m; Abegglen, aos 60m)
(Della Valle, aos 52m)

Meias-finais

5 de junho

Suíça - Suécia: 2-1
(Abegglen, aos 15m, 77m)
(Kock, aos 41m)

6 de junho

Holanda - Uruguai: 1-2
(Pijl, aos 32m)
(Cea, aos 62m; Scarone, aos 81m)

Jogo de atribuição da medalha de bronze

8 de junho

Holanda - Suécia: 1-1
(Le Fevre, aos 77m)
(Kaufeldt, aos 44m)

9 de junho

Holanda - Suécia: 1-3 (desempate)
(Formanoij, aos 43m)
(Rydell, aos 34m, 77m; Lundquist, aos 42m)

Final

9 de junho de 1924

Uruguai - Suíça: 3-0

Estádio: des Colombes

Árbitro: Marcel Slawick (França)

Uruguai: Mazzali, José Nasazzi, Arispe, José Leandro Andrade, Vidal, Ghierra, Urdinaran, Héctor Scarone, Petrone, Cea, Ángel Romano.

Suíça: Pulver, Reymond, Ramseyer, Oberhauser, Schmiedlin, Pollitz, Ehrenbolger, Pache, Dietrich, Abegglen, Fassler.

Golos: 1-0 (Peteone, aos 6m), 2-0 (Cea, aos 65m), 3-0 (Romano, aos 82m)



 Vídeo: URUGUAI - SUÍÇA


Legenda das fotografias:
1-Cartaz ofiacial dos Jogos Olímpicos de Paris em 1924
2-Jogadores do Uruguai posam para a fotografia com as bandeiras do seu país e da França após o triunfo final sobre a Suíça
3-Fase do encontro entre suíços e checoslovacos
4-O mítico Stade des Colombes, construído propositadamente para as Olimpiadas de 1924
5-A estrela suíça, Max Abegglen
6-Imagem da final entre Uruguai e Suíça
7-A figura do torneio: José Leandro Andrade
8-Lance do equilibrado encontro inaugural do certame entre Espanha e Itália
9-A estreante seleção dos Estados Unidos da América...
10-A equipa jugoslava que foi esmagada pelos futuros campeões olímpicos de 1924
11-... e a talentosa "squadra azzurra" de Vittorio Pozzo
12-Imagem do duro jogo entre Estados Unidos da América e Uruguai
13-O artilheiro da competição: Pedro Petrone
14-Seleção da Irlanda
15-Uruguaios dão a volta ao relvado após a conquista do título, um gesto que ficaria conhecido para sempre como a volta olímpica, e que seria repetido dali em diante por centenas de equipas
16-A histórica seleção do Uruguai, campeã dos Jogos Olímpicos de 1924, uma das melhores equipas da história do futebol

segunda-feira, abril 07, 2008

Grandes lendas do futebol mundial (6)... José Nasazzi - O general de uma geração de ouro

Vamos hoje dar um pulinho à vitrina destinada às grandes lendas do futebol para conhecer um pouco do perfil de um dos magos do futebol uruguaio. Um homem que ficará eternamente ligado às gloriosas décadas de 20 e 30 do futebol charrúa, tempos onde os uruguaios dominaram o mundo da bola, domínio esse expresso na conquista de dois títulos olímpicos (1924 e 1928) e um mundial (1930). Esse homem foi o líder e capitão dessas mágicas selecções uruguaias e dá pelo nome de José Nasazzi.
Nasceu a 24 de Maio de 1901, em Montevideo, e foi um dos maiores defesas centrais da história do desporto rei. O seu futebol de raça e vontade encantou o povo uruguaio. Era um jogador muito forte fisicamente, tenho muitas vezes sido acusado de ser um jogador violento pela forma como encarava o jogo.
Era conhecido entre os colegas como o Marechal, e entre os adversários, como el terrible. Tornou-se num dos mais laureados jogadores do seu país, sendo juntamente com Pedro Cea, Héctor Scarone e José Leandro Andrade o jogador que esteve em todas as conquistas da selecção uruguaia de futebol nos anos 20 e 30.
Iniciou a sua carreira desportiva em pequenos clubes como o Lito e o Roland Moor, até que em 1921 chegou aos quadros do recém-fundado Bella Vista onde cumpriu uma década em grande. Em 1925 envergou as cores do Nacional de Montevideo numa digressão que esta equipa fez pela Europa. Pelos nacionalistas Nasazzi actuaria definitivamente a partir de 1932, defendendo as suas cores até 1936, ano em que colocou um ponto final na carreira. Com esta equipa ganhou os campeonatos uruguaios de 1933 e 1934.
Cortador de mármore na época que o futebol era amador em quase todo o mundo, Nasazzi teve reconhecimento internacional em Paris,em 1924, e em Amesterdão, em 1928, quando os uruguaios encantaram os europeus nas competições de futebol nos Jogos Olímpicos, e na já citada excursão do Nacional.
Mas o momento mais importante da sua carreira ocorreu em 1930, quando o seu país acolheu o primeiro Campeonato do Mundo da história. Mundial que seria vencido – como já aqui frisámos em várias ocasiões - pelos uruguaios capitaniados pelo mago Nasazzi.
Actuou 39 vezes pela Celeste Olímpica.Chegou a jogar como avançado na histórica excursão que o Nacional fez na Europa, tendo marcando em 10 ocasiões.
Depois de terminada a carreira desportiva foi líder sindical. O estádio do Club Atlético Bella Vista tem o seu nome. José Nasazzi morreria na sua cidade natal em 17 de Junho de 1968.

quinta-feira, outubro 04, 2007

Grandes Clássicos da Bola (2)... Uruguai - Argentina (4-2)

Entrem senhores visitantes. Fiquem à vontade e disfrutem ao máximo de mais uma deliciosa memória do não menos delicioso mundo da bola. Hoje vamos fazer uma viagem até ao saudoso ano de 1930. Ano este em que teve lugar no Uruguai o primeiro Campeonato do Mundo de Futebol da FIFA, como se devem recordar.
A final desta competição foi decididida em Montevidéu entre os vizinhos, e eternos rivais, Uruguai e Argentina. Duas equipas que dois anos antes se haviam defrontado na final dos Jogos Olímpicos de Amesterdão, tendo a vitória sorrido aos primeiros por 2-1.
A Argentina procurava por isso uma desforra. Mas a tarefa não era fácil, já que pela frente tinha a melhor selecção do Mundo daquela época. Para chegar à grande final argentinos e uruguaios derrotaram por igual score (6-1) os Estados Unidos da América e a Jugoslávia, respectivamente. Nos dias que antecederam a final as cidades de Montevidéu e Buenos Aires viviam, pensavam e respiravam futebol. Na capital argentina milhares de adeptos levaram a cabo um autêntico motim exigindo mais barcos para atravessar o Rio da Prata (river plate) até Montevidéu para assistir à decisão das decisões. E nesta última cidade a confusão era ainda maior. Hotéis lotados, bilhetes na mão de candongueiros, discussões e até cenas de pancadaria surgiam aqui e ali. Tudo por um lugar nas bancadas do então recém construído Estádio Centenário. Recinto que no dia da final teve as suas bancadas completamente esgotadas. 80 mil pessoas presenciaram o nascimento da história dos Mundiais.
As equipas entram em campo recheadas das grandes estrelas do futebol mundial da altura. Nasazzi, Andrade, Scarone, Castro e Cea pelo lado uruguaio, Monti, Peucelle e Stabile do lado argentino eram nomes falados mundialmente pelas suas enormes qualidades futebolísticas.
O espectáculo estava garantido. Na escolha de campo os dois capitães discutiam. O uruguaio queria jogar com uma bola feita em seu país. O argentino, com uma bola feita Argentina. O árbitro belga, Langenus, decidiu: no 1º tempo joga-se com a bola argentina e no 2º com a bola uruguaia.
Com a bola argentina, os uruguaios conseguiram o primeiro golo, aos 12 minutos, marcado por Dorado. Oito minutos depois, Peucelle empatou. Aos 37 minutos, Stabile, o artilheiro do campeonato, marcou o segundo tento argentino. E a 1ª parte chegou ao fim com os argentinos a vencer por 2-1. Foi espantosa a reacção uruguaia na etapa complementar, jogando com a bola feita em casa. Aos 12 minutos, Cea empatou. Aos 23, num remate de fora da área, Iriarte pôs o Uruguai em vantagem. O país vivia momentos de sofrida espera quando, num contra-ataque. Dorado centrou da direita, pelo alto, e Castro com uma cabeçada fulminante mandou a bola para o fundo das redes. Era o quarto golo. Um minuto depois, o jogo acabava.
E o Uruguai era assim o primeiro CAMPEÃO DO MUNDO da história.
No Estádio Centenário sob a arbitragem do belga John Langenus as equipas alinharam com:
Uruguai: Ballesteros, Nasazzi, Mascheroni, Andrade, Fernandez, Gestido, Dorado, Scarone, Castro, Cea, Iriarte.
Argentina: Botasso, Della Torre, Paternoster, J.Evaristo, Monti, Suarez, Peucelle, Varallo, Stabile, Ferreira, M.Evaristo.
Marcadores: Dorado(12);Peucelle(20); Stábile(37);Cea(57);Iriarte(68);Castro(90).

Legendas das fotografias:

1- Capitães das duas equipas cumprimenta-se sob o olhar do árbitro belga Langenus
2- O "onze" uruguaio que entrou para a história...
3- A equipa da Argentina
4- Um dos golos uruguaios na grande final
5- O belo Estádio Centenário no dia da final... a arrebentar pelas costuras

Vídeo: HISTÓRICO RESUMO DA FINAL DO 1º MUNDIAL ENTRE URUGUAI E ARGENTINA