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terça-feira, janeiro 08, 2019

Flashes Biográficos (13)... Algoth Niska

Algoth Niska

Algoth NISKA (Finlândia): A par das Ilhas Faroé, a Finlândia carrega o estatuto de parente pobre do futebol escandinavo.
Do país dos mil lagos – o território finlandês tem aproximadamente 188 000 lagos – pouco reza a história do belo jogo, não reservando mais, talvez, do que pouco mais do que um par de capítulos onde (na maior parte deles) a personagem principal dá pelo nome de Jari Litmanen, considerado o melhor futebolista da História da Finlândia, o qual durante duas décadas (1990-2010) brilhou não só com a camisola da frágil seleção escandinava como também assumiu papéis preponderantes em equipas de renome mundial como o Ajax, Liverpool ou Barcelona.
Porém, o talento de Kuningas (Rei) – como ficou eternizado Litmanen no desporto do seu país – não foi suficiente para conduzir a nação finlandesa a uma fase final de um Mundial ou de um Europeu, estando neste ponto ao mesmo nível das Ilhas Faroé, como os dois únicos países nórdicos que nunca disputaram qualquer uma das referidas competições internacionais.

Houve, no entanto, um período da sua história (desportiva) que a Finlândia teve a honra – e o privilégio – de partilhar o palco principal do futebol a nível planetário com as melhores seleções mundiais. Facto ocorrido numa época em que tanto o Mundial como o Europeu ainda não haviam visto a luz do dia, e que a nata do futebol mundial se reunia de quatro em quatro anos nos torneios olímpicos, para muitos, o embrião do atual Campeonato do Mundo FIFA. Estávamos em 1912, ano em que Estocolmo é palco da 5.ª edição dos Jogos Olímpicos da Era Moderna, tendo a competição futebolística, cujo vencedor era endeusado como o campeão do Mundo, sido integrada por 11 combinados nacionais, entre eles a estreante Finlândia, ou melhor o Grão Ducado da Finlândia, na altura um Estado que integrava o Império Russo, mas que nestes Jogos competiu como nação autónoma!
Teoricamente olhada como um outsider neste torneio olímpico de 1912, em comparação com os então pesos-pesados do Planeta da Bola, Itália, Áustria, Dinamarca, Hungria ou a Grã-Bretanha (campeã olímpica em título), a Finlândia partia para esta missão com o intuito de aprender com os melhores no palco mais imponente do desporto rei planetário.
Só que... o aluno superou o mestre, e no fim os gélidos rapazes do norte da Europa alcançaram um impensável quarto lugar, ficando muito perto de uma histórica medalha. O memorável trajeto dos nórdicos começou com o derrube da potência Itália, liderada (tecnicamente) pelo então emergente génio da tática Vittorio Pozzo (que duas décadas mais tarde levaria a Squadra Azzurra ao topo do Mundo com a conquista de dois Campeonatos do Mundo consecutivos), seleção esta que caiu no prolongamento aos pés dos nórdicos por 2-3. A surpresa estava instalada. Mas iria ganhar contornos maiores quando nos quartos-de-final o sorteio ditou que o Grão Ducado da Finlândia enfrentasse a... Rússia! No Tranebergs Idrottsplats Stadium (um dos três recintos que acolheu o torneio olímpico desse ano) os súbitos do Império Russo levaram ao tapete os czars graças a um triunfo por 2-1. Que atrevimento (!) terão pensado algumas figuras do Poder localizado em Moscovo.
Sem querer entrar em pormenores daquele que é considerado o maior feito do futebol finlandês em mais de um século de história, até porque sobre o torneio olímpico de 1912 já aqui falámos (https://bit.ly/2Cbo4cg), resta dizer que o sonho de chegar ao título mundial acabou nas mãos dos favoritos britânicos, que nas meias-finais da competição vergaram os finlandeses a quatro golos sem resposta. A mais bela página do futebol da nação nórdica terminou às mãos da Holanda, que sob a batuta de um endiabrado Jan Bos (autor de cinco golos nesse encontro) arrecadou a medalha de bronze na sequência de uma estrondosa vitória por 9-0.

Esta breve resenha leva-nos à história de vida de uma das principais figuras dessa mítica caminhada olímpica por parte da Finlândia. Talvez, para muitos conhecedores da história do belo jogo finlandês, ele foi a primeira superstar daquele país. E com uma boa dose de loucura e rebeldia à mistura, como já iremos perceber.

Algoth Niska, a sua graça. Este nativo de Viipuri, nascido em 1888, desenvolveu ao longo da sua vida duas paixões, o futebol e o mar.
A morte de seu pai fez com que ainda adolescente, com 15 anos, se mudasse com a restante família para Helsínquia, tendo ali seguido os passos do seu desaparecido progenitor, no que às aventuras marítimas dizia respeito. O pai de Algoth fora capitão da marinha.
Ainda jovem, a nossa figura lançou-se em aventuras pelo imenso oceano, tornando-se com o passar dos anos um marinheiro experiente: conheceu países e adquiriu o conhecimento de vários idiomas.
Quando não estava em alto mar, Niska dava azo à sua outra paixão: o futebol. Neste ponto não existem muitos documentos sobre a sua carreira futebolística, apenas que era esquerdino, atuando como extremo no ataque das equipas por onde passou.

A primeira coroa de glória nos gélidos retângulos nórdicos do navegador/futebolista foi alcançada em 1908, ano em que é disputado o primeiro campeonato nacional da Finlândia, tendo o Unitas Sports Club sagrado-se o primeiro campeão da história daquela nação. Uma das estrelas desse conjunto era Algoth Niska, que se havia juntado ao Unitas dois anos após se ter mudado para Helsínquia. Ali esteve até 1909, altura em que troca de camisola. Muda-se então para o Helsingfors, por aquela altura já um dos mais populares emblemas da capital finlandesa.

É já na década seguinte que Niska alcança a fama que ainda hoje detém na História do seu país. E esse estatuto pode ser dividido em três atos: as Olimpíadas de 1912, a desobediência à lei que proibia a venda de bebidas alcoólicas na Finlândia - que entrou em vigor em 1919 – e o salvamento de judeus das mãos dos nazis no arranque da II Guerra Mundial.

Niska, ao meio,
em Estocolmo 1912
O primeiro ato já foi esmiuçado na introdução desta viagem ao passado, tendo Niska sido um dos 15 jogadores que em Estocolmo escreveram a página mais brilhante da seleção nacional finlandesa.
O extremo-esquerdo nascido em Viipuri jogou nas quatro partidas que o combinado nórdico efetuou naquele que era então o evento mais importante do calendário futebolístico planetário.
No plano futebolístico a estrela de Niska praticamente se eclipsou após a olimpíada, sendo apenas de realçar a conquista do seu segundo título de campeão nacional, em 1916, ao serviço do Kiffen, o último emblema que se lhe conhece.

Algoth continuava paralelamente cada vez mais ligado ao mar e quando a I Guerra Mundial terminou ele obtém uma formação académica na Escola de Navegação de Helsínquia. E eis que chegamos a 1919, ano em que entra em vigor na Finlândia a Lei da Proibição, uma legislação que proíbe a venda de bebidas alcoólicas naquele país, sendo que na Suécia, embora essa venda não fosse proibida, havia regras rígidas quanto à comercialização de bebidas alcoólicas.
Com a entrada da lei os lojistas/vendedores de bebidas alcoólicas de Helsínquia logo trataram de despachar a mercadoria por 3 reis de mel coado, já que as bebidas teriam de ser eliminadas de circulação com a entrada da lei.
Um desses comerciantes vendeu todo o seu vastíssimo stock de álcool a Niska, que a partir daqui abraçava uma nova profissão: a de contrabandista. Fazendo jus à sua condição de marinheiro experiente, ele aventurou-se nos mares escandinavos vestindo a pele de pirata do contrabando (de bebidas alcoólicas).

Viajando entre a Finlândia e a Suécia - e em algumas ocasiões também para a Alemanha - Niska enfrentou nos anos que se seguiram o perigo dos mares, e este perigo em duplo sentido, isto é, à turbulência dos mares nórdicos ele também tinha de driblar a atenta vigilância da polícia marítima.
Da sua clientela constava a aristocracia sueca e finlandesa, e a certa altura do negócio quando o stock começava a faltar, Niska já conhecia de cor e salteado os armazéns clandestinos onde podia abastecer a sua embarcação.

Algoth Niska era na década de 20 do século passado um afamado pirata do contrabando de álcool e talvez por isso a marcação serrada da polícia marítima fosse cada vez mais intensa. Até à Lei da Proibição ser revogada, em 1932, Niska não saiu sempre vencedor dos confrontos com as autoridades, tendo sido detido e preso algumas vezes, quer na Finlândia, quer na Suécia.

Niska, os barcos e o mar,
uma ligação aventureira
Com a revogação da lei o contrabando de bebidas alcoólicas deixou de ser produtivo e o pirata dos mares nórdicos com queda para a bola teve de se dedicar a outro negócio: salvar judeus das garras dos nazis na Alemanha.
Tornou-se numa espécie de Aristides de Sousa Mendes da Finlândia, mas no seu caso fê-lo para ganhar a vida. Com o início da II Guerra Mundial, Niska começou a forjar e contrabandear passaportes finlandeses para que os judeus pudessem abandonar o território alemão rumo à Finlândia, no sentido de fugirem do Holocausto. Esta sua atividade clandestina terminou quando um dos judeus contrabandeados foi descoberto na fronteira finlandesa e Niska passou a estar debaixo de olho das autoridades policiais. Conta-se que terá salvo cerca de meia centenas de judeus da morte com esta sua atividade comercial, por assim dizer.
Depois disto, pouco ou nada se ouviu falar deste homem, a não ser a 28 de maio de 1954, dia em que foi noticiada a sua morte após uma batalha perdida contra um tumor cerebral que lhe havia sido diagnosticado um ano antes.    

sexta-feira, outubro 13, 2017

Flashes Biográficos (12)... Tommy Ross

Tommy ROSS (Escócia): Há dias quando regressava ao conforto do lar após mais uma jornada de batalha laboral, não pude ficar indiferente à alegre algazarra que um punhado de miúdos fazia num rinque ali próximo. Por alguns minutos fixei o olhar naquele relvado de cimento, quiçá na esperança de ver alguma jogada maradoniana que me fizesse despertar do cansaço mental de mais um dia de labuta. Não vi, vi antes um petiz com o pé quente na hora de fuzilar a baliza improvisada com duas pedras à guarda de um dos seus companheiros da bola. Um, dois, três golos... no curto espaço de dois, três minutos, mais coisa menos coisa. O rapaz explodia de alegria cada vez que faturava mais um (golo), chamando a si as luzes da ribalta, em que por momentos o faziam sentir um Cristiano Ronaldo... Não, Cristiano Ronaldo não, pensei cá para mim naquele instante, esta veia goleadora repentina é mais ao estilo de... Tommy Ross. E foi nesse preciso momento que o minuto de fama deste cidadão escocês me veio à memória. Devo confessar que o nome de Tommy Ross é recente na minha memória futebolística, onde surgiu apenas por volta de maio deste ano (de 2017), altura em que uma notícia de um qualquer site britânico alusivo ao belo jogo titulava algo do género: "morreu hoje o autor do hattrick mais rápido da história". Naturalmente que aquele título me despertou curiosidade imediata, sendo então que conheci o feito de Thomas Ross. Nascido a 27 de fevereiro de 1946 na localidade de Tain, Ross entrou para a história 18 anos depois de ter vindo ao Mundo, mais precisamente no dia 28 de novembro de 1964, uma data que hoje figura no restrito Guinness Book (livro dos recordes).
Nesse dia Tommy, com apenas 18 anos de idade, defendia as cores do Ross County, emblema pelo qual tinha começado a jogar cerca de três anos antes e que deambulava então pelos escalões mais baixos do futebol escocês. Nessa jornada histórica, o Ross County atuava diante do rival (da região de Ross and Cromarty) Nairn County, numa partida alusiva à Highland Football League, uma espécie de campeonato distrital. E é precisamente aqui que começa a epopeia de Tommy. O árbitro apita para o pontapé de saída e o jovem avançado precisa apenas de 90 segundos para apontar... três golos!!! Um hattrick em minuto e meio!!! Claro que a façanha correu os quatro cantos da ilha de Sua Majestade, tendo recebido no final da época alguns convites do atrativo futebol inglês, um deles proveniente de um peso pesado britânico, no caso o Newcastle United, clube que entrou na corrida pela contratação do jovem bombardeiro das highlands (terras altas da Escócia) juntamente com o Millwall, o Cardiff City e o Aberdeen. A cobiça destes emblemas pelo jogador não ter-se-á ficado a dever exclusivamente ao histórico e super-rápido hattrick, dizemos nós, mas também muito por influência do impressionante número de golos que Tommy apontou nessa temporada de 1964/65: 44 remates certeiros, para sermos mais precisos. Desconhecidas as razões, o que é certo é que o destino de Ross no final dessa época acabou por ser o modesto Peterborough United, de Inglaterra, uma aventura que passou quase despercebida ao longo dos dois anos seguintes. Seguiram-se passagens igualmente modestas por York (City), Wigan (Athletic) - provavelmente o emblema de maior nomeada pelo qual Tommy Ross atuou (sem grande relevo) durante um par de anos - e por Newchurch - onde jogou pelo Rossendale United -, antes de regressar às highlands escoceses em 1977... pela porta pequena, o mesmo será dizer, para defender as cores dos semi-profissionais do Brora Rangers. Ali esteve até ao fim de uma carreira que passou praticamente despercebida (!),em que o minuto de fama, ou melhor, o minuto e meio de fama, aconteceu naquele histórico dia 28 de novembro de 1964. Penduradas as chuteiras, enveredou por outros caminhos profissionais: foi vendedor de automóveis, criou uma empresa de construção civil... tendo em paralelo mantido o vício pelo futebol, isto é, orientou várias equipas amadoras da sua região natal. O mundo (do futebol, sobretudo) só voltou a ouvir falar dele em maio deste ano, no dia 19, quando foi anunciada a sua morte.

segunda-feira, março 13, 2017

Flashes Biográficos (11)... Paulo Innocenti

Paulo INNOCENTI (Brasil): O futebolista brasileiro é visto globalmente como um diamante raro alvo de desejo generalizado. Poucos serão os países dos cinco continentes que não veneram hoje em dia nos seus retângulos de jogo um artista proveniente de Terras de Vera Cruz. A esse propósito abrimos hoje as portas do Museu para recordar aquele que foi o primeiro futebolista nascido no Brasil a transpor as fronteiras do seu país rumo a outras paragens, por outras palavras, o primeiro emigrante do futebol brasileiro a atuar no estrangeiro. Paulo Innocenti é o seu nome. Descendente de imigrantes italiano, Paulo veio ao Mundo a 11 de março de 1902, tendo como berço o Rio Grande do Sul, mas seria na grande cidade de São Paulo que se projetou no então muito jovem futebol brasileiro. Foi com a camisola do Paulistano, o então gigante do futebol paulista onde pontificava o lendário Arthur Friedenreich, que Innocenti deu os primeiros passos mais a sério na modalidade, tendo integrado a equipa que venceu o campeonato paulista de 1921, precisamente o ano em que este descendente de italianos vestiu pela primeira vez a camisola do emblema de São Paulo. Ali permaneceu até 1923, altura em que decide atravessar o Atlântico rumo à pátria da sua família, e mais concretamente até Bologna, para defender as cores do modesto Virtus durante a temporada de 1923/24. Quiçá sem se aperceber na altura, Paulo Innocenti entrava na história, ao tornar-se no primeiro jogador nascido no Brasil a atuar além fronteiras. Posicionando-se no terreno de jogo como defesa (na maior parte das vezes lateral) Innocenti destacou-se pelas suas qualidades desde pronto, e não seria de estranhar que o lendário mestre da tática Hermann Felsner, o arquiteto d' Il Grande Bologna, o chamasse para representar o emblema mais popular da cidade e um dos mais poderosos do calcio daquela época, precisamente o Bologna FC, onde sobressaiam nomes como Mario Gianni, Della Valle, ou o astro Angelo Schiavio. Nas duas temporadas (24/25 e 25/26) que envergou a maglia rosso blu o ítalo-brasileiro contribuiu para a conquista do scudetto de 1924/25, participando em 13 jogos dessa campanha vitoriosa. Posto isto decide em 1926 abraçar um novo projeto que acabava de ver a luz do dia no sul de Itália: a Sociatà Sportiva Calcio Napoli, fundada a 1 de agosto desse ano. Pippone, alcunha que entretanto arrecadou no país da bota devido ao formato pontiagudo do seu nariz, faz parte da história do Napoli, não só por ter tido a honra de ser o capitão de equipa no primeiro jogo oficial que os napolitanos efetuaram - ante o Inter de Milão - como também por ter sido o autor do primeiro golo da vida daquele emblema - ante o Genoa. Nas dez temporadas que jogou em Nápoles, Innocenti fez mais de 200 jogos com o clube, tendo inclusive sido neste período que atuou pela seleção nacional B italiana - já que ele um oriundi (descendente) - em quatro ocasiões. Após abandonar a carreira de futebolista em 1937, Paulo - ou Paolo para os italianos - Innocenti desapareceu praticamente do mapa futebolístico, continuando no entanto a viver em Nápoles, cidade a que passou a chamar de casa. Até que em 1943 é convidado pelo Napoli a substituir o então treinador Antonio Vojak, numa altura em que o clube se encontrava a competir na Serie B - segundo escalão do calcio. A aventura no banco seria curta, e pouco depois Pippone voltaria à sua condição de habitante anónimo de Nápoles até à hora da sua morte - devido a um ataque cardíaco - em 1983, curiosamente um ano antes de a cidade começar a viver sob os desígnios de D10S - Diego Armando Maradona.

quinta-feira, junho 09, 2016

Flashes Biográficos (10)... Anatoli Ilyin

Anatoli ILYIN (União Soviética): Na antecâmara do Campeonato da Europa de 2016 fazemos eco de uma figura que - talvez - para a esmagadora maioria dos (atuais) adeptos do Desporto Rei pouco, ou mesmo nada, diz, mas que na verdade é uma peça importante na história da competição mais importante da UEFA ao nível de seleções. Anatoli Ilyin de sua graça, sendo que um dos seus minutos de fama à escala internacional acabou por abrir as portas da realidade ao sonho de Henry Delauny. Bom, passemos à explicação deste enigma metafórico. Na primeira metade dos anos 50 do século passado o francês Henri Delauny, então secretário-geral da UEFA, propôs a criação de um campeonato que agregasse todas as nações europeias, uma ideia que no entanto, e inicialmente, não seria muito bem acolhida por muitos dos países integrantes do organismo que tutela o futebol do Velho Continente. Após muitas batalhas, e já depois do falecimento de Delauny, em 1955, a ideia ganha finalmente asas, e no Congresso da UEFA em 1957 é criada oficialmente a Taça da Europa das Nações, hoje denominado de Campeonato da Europa. 17 países abraçaram a nova competição, que teve o seu pontapé de saída um ano mais tarde, quando a 28 de setembro de 1958 a então União Soviética recebia no Estádio Luzhniki (Moscovo) a Hungria na primeira ronda a eliminar rumo às meias-finais, última fase esta que seria concentrada num só país. O sonho de Delauny era por fim realidade, o Campeonato da Europa estava em marcha. E quando estavam apenas decorridos quatro minutos desse (hoje) histórico desafio entre soviéticos e húngaros eis que Ilyin (que no terreno de jogo atuava como avançado) dispara o primeiro remate que teve como destino o fundo das redes magiares. Estava feito um golo... histórico. O primeiro golo da vida do Campeonato da Europa. Mais do que abrir caminho à vitória soviética nessa tarde, aquele golo desbravou o caminho até à consagração europeia da antiga União Soviética, o mesmo será dizer até à vitória final do primeiro Europeu da história, cujas meias-finais, ou fase final, como era encarada naquela altura, decorreram em França, precisamente o país que irá acolher o Euro 2016. Curiosamente, Anatoli Ilyin não fez parte do grupo que na noite de 10 de julho de 1960 foi coroado como Campeão da Europa no relvado do Parque dos Príncipes, em Paris. Nascido em Moscovo, a 27 de junho de 1931, Ilyin era um um homem talhado para os grandes momentos. Foi ele que em 1956 apontou o golo que deu a medalha de ouro à nação de leste nos Jogos Olímpicos de 1956, disputados em Melbourne. Dois mais tarde, na primeira aparição da União Soviética numa fase final de um Campeonato do Mundo, ele marcou o golo solitário no play off do Grupo 4 diante da Inglaterra que permitiu aos soviéticos avançarem para os quartos-de-final da competição. Ao lado de lendas como Lev Yashin, Igor Netto, ou Aleksei Paramonov, Anatoli Ilyin viveu a era dourada do futebol da antiga URSS no plano internacional. Defendeu a seleção do seu país em 31 ocasiões e apontou 16 golos. Curiosamente, a outra camisola que Ilyin vestiu com paixão e dedicação também era de cor encarnada, no caso a do Spartak de Moscovo, o clube do seu coração, o qual enquanto atleta defendeu em mais de duas centenas de ocasiões, tendo apontado 83 golos e vencido cinco ligas soviéticas e uma taça da antiga nação de leste. O homem que apontou o primeiro golo da história do Campeonato da Europa (nota: e não o irlandês Liam Tuohy, como durante muitos anos se pensou) faleceu a 10 de fevereiro deste ano de 2016.

sexta-feira, junho 03, 2016

Flashes Biográficos (9)... Tony Barton

TONY BARTON (Inglaterra): A história do futebol está repleta de treinadores que um dia saíram da sombra dos seus mentores – o mesmo será dizer outros treinadores que tiveram um papel fundamental na formação da sua mentalidade enquanto mestres da tática – e decidiram percorrer sozinhos os caminhos do futebol rumo à glória. Porém, poucos serão aqueles que o fizeram quase numa operação relâmpago, isto é, tão depressa abandonaram o papel de atores secundários para assumir o estatuto de protagonistas num guião de sucesso, como voltaram ao anonimato logo em seguida. É aqui se que encaixamos a figura de Tony Barton, um cidadão inglês que em 1982 atingiu quase de forma acidental o Olimpo do Futebol na sequência da épica conquista da Taça dos Clubes Campeões Europeus ao serviço do Aston Villa.

Anthony Edward Barton nasceu a 8 de abril de 1937 nos arredores de Londres – em Sutton, mais concretamente – e a sua carreira de futebolista foi quase tão modesta quanto a de treinador. Com apenas 17 anos torna-se profissional do Fulham, emblema que defende até 1959, altura em que se mudou para Nottingham no sentido de defender as cores do Forest por duas temporadas. Defesa-direito de posição, Barton transferiu-se posteriormente para o Portsmouth, emblema cujas cores ostentou ao longo de seis temporadas e onde teve a sua primeira experiência enquanto treinador-jogador. Penduradas as chuteiras juntou-se em 1980 à equipa técnica do Aston Villa, liderada então por Ron Saunders, o homem que nos anos 70 havia resgatado os Villans de um longo e penso inverno – de quase duas décadas – sem títulos de relevo. A conquista das taças da liga de 1975 e 1977 quebraram o enguiço do mais popular clube da cidade de Birmingham. Mas a obra de Saunders teria contornos mais vincados no início da década seguinte. Na temporada de 1980/81, e contra todas as espectativas, o Villa sagra-se campeão inglês, algo que já não acontecia desde 1910! Para este sucesso muito contribuíram as performances de Peter Withe (goleador que no verão de 1980 chegou de Newcastle e que logo na primeira temporada com o emblema dos Villans ao peito sagrou-se o melhor marcador do principal campeonato inglês), Gary Shaw, Dennis Mortimer, ou Tony Morley. Jogadores que na temporada de 81/82 haveriam de ajudar a equipa a conquistar a... Europa. Exibindo no tabuleiro de jogo um sistema tático de 4-4-2 vincado através de um futebol direto (tipicamente britânico) e fisicamente forte, o Villa de Ron Saunders iniciou a caminhada rumo à glória com a fácil eliminação do frágil campeão da Islândia, o Valor, por um total (no conjunto das duas mãos) de 7-0. Seguiu-se o primeiro osso duro de roer no percurso até Roterdão (palco da final da Taça dos Campeões Europeus dessa temporada), o Dínamo de Berlim. Na Alemanha de Leste o Villa venceu por 2-1, com um bis de Morley, mas no jogo de volta, no Villa Park, os ingleses não ganharam para o susto quando Frank Terletzki colocou ao minuto 15 o Dínamo na frente do marcador. O Villa teve de suar até ao apito final para impedir que a baliza de Jimmy Rimmer fosse de novo violada, e desse modo garantir a passagem aos quartos-de-final pelo facto de ter marcado mais golos no terreno do adversário.

Contra todas as previsões o início do ano civil de 1982 trouxe nuvens negras para os lados de Villa Park. Ron Saunders entrou em litígio com a Direção do clube – ao que se diz devido a pormenores relativos ao seu contrato – e bate com a porta! E é aqui que começa verdadeiramente o efémero sucesso de Tony Barton. Ao invés de procurar no exterior um nome de peso para assumir a responsabilidade de continuar a conduzir o Aston Villa na mais importante competição de clubes a nível continental, os dirigentes do histórico emblema de Birmingham preferem uma solução interna, isto é, entregar essa mesma responsabilidade ao “número 2” de Saunders. Apesar da sua curta experiência enquanto treinador principal Barton não se assustou, e mantendo-se fiel ao estilo de jogo implementado pelo seu mestre superou com classe a primeira barreira europeia. O poderoso campeão da então União Soviética, o Dínamo de Kiev, caiu nos quartos-de-final aos pés do elenco agora comandado por Barton, depois de um nulo na atual capital da Ucrânia e de um triunfo por 2-0 em Villa Park. O derradeiro obstáculo antes da final dava pelo nome de Anderlecht, tão só um dos melhores e mais temidos conjuntos do futebol europeu de então. Um simples golo de Morley no encontro da primeira mão em solo britânico garantiu o histórico passaporte para a final de Roterdão, já que um nulo em Bruxelas, na segunda mão (jogo marcado por violentos confrontos entre adeptos das duas equipas), assim o ditou. 
Apesar de naquele tempo o futebol inglês, no que diz respeito a clubes, reinar na Europa – desde 1977 que a Taça dos Campeões Europeus era propriedade exclusiva dos emblemas britânicos – o Aston Villa chegava a Roterdão como mero figurante de uma festa que se antevia destinada aos jogadores do Bayern de Munique, o adversário dos Villans na grande final. E se o Villa não era favorito no papel, pior ficou quando nos minutos iniciais da partida viu o seu guarda-redes, Rimmer, abandonar o terreno por lesão, tendo sido substituído pelo inexperiente Nigel Spink. Porém, ficaria provado que a inexperiência era tudo menos um obstáculo para que o Villa pudesse alcançar o sucesso. E Barton que o diga. Quanto ao encontro de Roterdão o Bayern até foi mais ofensivo, criou as melhores oportunidades de golo, mas já no segundo tempo (ao minuto 67) o goleador Peter Withe passou à condição de imortal ao apontar o único golo daquela tarde/noite, um remate coroado de êxito que deu origem à página mais brilhante da centenária história do Aston Villa. Contra todas as espectativas o inexperiente Tony Barton levava o Villa ao topo da Europa, e também a partir daquele momento tornava-se imortal, sentando-se ao lado de outros imortais como Brian Clough, Matt Busby, Jock Stein, Bob Paisley, Joe Fagan e Alex Ferguson, os únicos cidadãos de origem britânica que um dia colocaram as mãos na orelhuda (alcunha que é dada à Taça/Liga dos Campeões Europeus) no desempenho do papel de mestres da tática
Já em 2012, quase três décadas após a morte (1983) de Tony Barton, devido a um ataque cardíaco, a então viúva do treinador revelou à imprensa qual teria sido, por ventura, o segredo do sucesso do seu marido naquela memorável tarde/noite em Roterdão. Rose Barton disse então que dias antes da final havia sido procurada por uma cigana que lhe teria dito que se Tony Barton utilizasse um pedaço de pano rendado no dia da final a vitória seria inglesa. Rose aceitou a oferta e contou a história ao seu marido, que pouco ou nada crente neste género de superstições recusou o “lucky lace”. Porém, Rose Barton não fez caso da descrença do seu esposo, e secretamente colocou o amuleto num dos bolsos do casaco que o treinador iria usar no dia do jogo. Bom, o resto é história, e a história prefere olhar para este capítulo glorioso como um raro rasgo de génio de Barton, que ao serviço do Villa iria ainda vencer a Supertaça Europeia – à custa do Barcelona – antes de ser demitido do cargo em 1984. Depois disso a estrela de Tony Barton quase que se eclipsou nos céus do futebol, dado o facto de nunca mais ter abraçado o sucesso.

segunda-feira, março 14, 2016

Flashes Biográficos (8)... Adolphe Cassaigne

Adolphe CASSAIGNE (França): As informações sobre as bases dos seus profundos - ao que reza a história - conhecimentos sobre futebol são escassas, quase possível de serem resumidas num parágrafo biográfico, mas nada que impeça o seu nome de figurar no Atlas do Futebol Português. Porquê? Porque estaremos perante aquele que foi o primeiro treinador - na verdadeira ascensão da palavra - a ser contratado por um clube em Portugal. Desconhece-se o dia, o mês, o ano e o local de nascimento deste cidadão francês, sabendo-se apenas que fazia do Porto o seu lar nos inícios do século XX, onde exibia os seus dotes de professor da tática ao serviço dos amadores da equipa de futebol da Escola de Alunos-Marinheiros da Corveta Estefânia. Conhecimentos técnico-táticos que se sabiam apenas terem sido adquiridos no seu país de origem, onde, ao que parece, havia sido treinador de algum renome. Adolphe Cassaigne era o seu nome. A entrada na história do futebol luso deste gaulês dá-se em 1907, ano em que a Cidade Invicta rejubilava com o (re)nascimento do seu Football Club do Porto, pela mão de José Monteiro da Costa. A popularidade do clube ia de vento em popa, e a testemunhar isso o facto do Campo da Rainha - a casa dos portistas - atrair por aqueles dias as atenções dos cidadãos locais sempre que os players entravam em ação para interpretar o famoso football que chegara de Inglaterra nos finais do século anterior. Um desses curiosos foi Adolphe Cassaigne, que, e segundo a lenda, certo dia apresenta-se formalmente a Monteiro da Costa, deixando elogios à organização e disciplina da equipa, ao mesmo tempo em que se propunha treina-la "obsequiosamente". Diz a história que Monteiro da Costa aceitou de pronto a candidatura, até porque a equipa não tinha um treinador específico, uma vez que o grupo era dirigido pelo atleta mais experiente e conhecedor das regras do jogo, jogador esse que em 1901 havia provado o sabor do sucesso ao serviço do Milan, na sequência da conquista do campeonato italiano, e que dava pelo nome de Catullo Gadda. O francês tornava-se assim no primeiro treinador contratado na história do futebol português, não se sabendo, porém, se essa ligação teve de pronto, ou nos anos à posteriori, contrapartidas económicas. O que se sabe sim é que os conhecimentos futebolísticos de Cassaigne provocaram efeitos imediatos, com os progressos no futebol praticado a serem visíveis. A primeira prova de fogo do renascido Porto dá-se, porventura, em janeiro de 1908, altura em que o clube recebe - pela segunda vez no espaço de dois meses, a primeira havia ocorrido em dezembro de 1907 - os galegos do Real Fortuna de Vigo, que saíram da Invicta vergados a uma goleada de 4-1, resultado que assinalou a primeira vitória de um clube português sobre um eleven internacional. A ligação de Cassaigne ao FC Porto estende-se até à década de 20, mais precisamente até 1924. Ao longo deste percurso o francês torna-se no arquiteto dos primeiros títulos alcançados pelos dragões, e foram muitos há que sublinha-lo. O primeiro deles vislumbra-se em 1911, ano em que os portistas vencem a primeira edição da Taça Monteiro da Costa, por muitos considerado o primeiro grande campeonato regional disputado no norte do país. Até 1916 leva a equipa à conquista de mais quatro edições da citada prova, saindo derrotado somente na edição de 1913 (ganha pela Académica de Coimbra). Em 1914 a Associação de Futebol do Porto lança a sua primeira competição oficial, o Campeonato Regional, o qual Adolphe Cassaigne vence por sete ocasiões no comando dos portistas, perdendo apenas as edições de 1913/14 e de 1917/18, respetivamente para o Boavista e para o Salgueiros. Em 1922 ele comandou a armada azul e branca na conquista do país, isto é, da primeira edição do Campeonato de Portugal.

terça-feira, março 08, 2016

Flashes Biográficos (7)... Nettie Honeyball

Nattie HONEYBALL (Inglaterra): 8 de março, data em que em todo o planeta - ou pelo menos quase todo - assinala o Dia Internacional da Mulher. Também nós, Museu Virtual do Futebol, nos associamos a esta efeméride, recordando aquela que foi a pioneira da mulher no papel de... futebolista. Para isso será preciso recuar até ao século XIX, mais precisamente até aos anos 90 do referido século, tendo a pátria do futebol (Inglaterra) como cenário. Altura em que uma acérrima defensora dos direitos da Mulher decide atravessar a fronteira do preconceito e do machismo e assenta arraiais num terreno que até então era pisado unicamente por homens: o football. Falamos de Nettie Honeyball, uma cidadã londrina nascida em 1874 que entrou para a história como a pioneira do futebol... feminino. Corria o ano de 1894 quando a então desconhecida cidadã Nattie - cuja vida profissional e pessoal é ainda hoje para os historiadores desportivos um enigma - coloca um anúncio num jornal de Londres a solicitar cerca de 30 jovens do sexo feminino para formar um clube de futebol. Reunidas as tropas nasce o British Ladies Football Club, o primeiro emblema direcionado, única e exclusivamente, para o então inexistente futebol feminino. Os treinos decorrem nas zonas verdes do Alexandra Park e são ministrados por J.W. Julian, naqueles dias futebolista do Tottenham. Numa entrevista concedida em fevereiro do ano seguinte ao Daily Sketch, Honeyball explicou o porquê de ter dado tão arrojado passo: «Fundei o clube com o objetivo de provar ao Mundo que as mulheres não são essas criaturas ornamentais e inúteis que os homens "pintam". Devo confessar que é minha convicção de que em todos os assuntos os sexos estão profundamente divididos (...) e desejo a chegada de um tempo em que as mulheres se possam sentar no Parlamento e que tenham voz na gestão de todos os assuntos...».
O primeiro teste das futebolistas dá-se em março de 1895,  tendo sido presenciado por cerca de 10.000 pessoas, as quais se deslocaram ao Crouch End londrino para assistir a uma partida entre equipas representativas do norte e do sul da capital britânica. Abra-se aqui um parênteses para dizer que a História diz-nos que este não foi o primeiro match 100 por cento feminino, uma vez que cerca de três anos antes, em Glasgow, há notícias de um desafio entre senhoras, desconhecendo-se, no entanto, os contornos do mesmo. Mas voltando a Crouch End para recordar que as nortenhas - que no seu eleven integravam Nattie Honeyball - venceram por 7-1, um match que motivou uma chuva de crónicas machistas por parte dos jornais da época, os quais não disfarçaram os tiques desse mesmo machismo que estava enraizado na sociedade da época. O Daily Sketch, que um mês antes havia entrevista Nattie, escreveu que «os primeiros minutos foram suficientes para demonstrar que o futebol feminino (...) está totalmente fora de questão. Um futebolista requer velocidade, disciplina, habilidade e coragem. Nenhuma destas quatro qualidades se viram no sábado. Na maior parte do tempo as senhoras vaguearam sem rumo pelo terreno de jogo num trote sem graça». Houve no entanto quem tivesse proferido palavras mais amáveis para as distintas senhoras que atuaram no recinto de Crouch End, como foi o caso do correspondente do diário The Sportsman, que sublinharia que: «É certo que os homens correm mais e rematam com mais força, (...) mas para além disso não acreditamos que a mulher futebolista desapareça na sequência de uns quantos artigos escritos por senhores sem qualquer simpatia pelo jogo nem pelas aspirações das jovens mulheres. Se a mulher futebolista morrer, morrerá a dar luta». Este último artigo estava certo. As British Ladies não se deixaram afetar pelas críticas e continuaram a percorrer caminhos até então exclusivos a homens, tendo realizado mais alguns jogos nos meses seguintes (um deles com cariz de beneficência, realizado em Brighton), antes de darem por terminada uma aventura que ficou na história, e que depois de ultrapassar dezenas de obstáculos no âmbito do preconceito e do machismo ao longo das décadas seguintes acabou por abrir - à semelhança do que aconteceu noutras áreas - o Mundo do futebol ao sexo feminino. Nada mais justo. 

terça-feira, fevereiro 02, 2016

Flashes Biográficos (6)... Amancio Mereles

AMANCIO Mereles (Paraguai): Ao recordar as jogadas, os golos, as equipas e os craques do principal campeonato português da década de 80 um nome em particular saltou do meu baú de memórias futebolísticas em relação a esses saudosos anos em que o belo jogo me foi formalmente apresentado. Amancio Mereles, ou simplesmente Amâncio, como se pronuncia na língua de Camões, foi um dos mais letais avançados da segunda metade dos anos 80 do futebol luso, uma faceta exibida, sobretudo, ao serviço do Futebol Clube de Penafiel, emblema duriense que este cidadão de nacionalidade paraguaia representou entre 1986 e 1990, quiçá, e a julgar pela estatística - já lá vamos - o melhor período da carreira deste futebolista. Nasceu a 10 de fevereiro de 1964, em Gaaguazú, e os poucos registos biográficos alusivos aos anos iniciais da sua carreira dão conta de que o primeiro lampejo de glória aconteceu em 1984, altura em que com 20 anos se sagra o melhor marcador (com 12 golos) do campeonato paraguaio com as cores do seu clube de então, o River Plate de Asunción. Este cartão de visita valeu-lhe a chamada à seleção de sub-20 do Paraguai que um ano mais tarde viajou até à ex-União Soviética para disputar a 5ª edição do Campeonato do Mundo da categoria. Com o dorsal dos matadores - o 9 - estampado nas costas foi titular do combinado guarani nos três encontros que este disputou no leste europeu. Apontou um golo, ante a China, o qual se viria a revelar insuficiente nas intenções dos sul-americanos em passar à fase seguinte da competição. No ano seguinte Amancio faz a longa travessia do Atlântico rumo ao Velho Continente, mais concretamente para o norte de Portugal, onde o esperava uma equipa que militava na 2ª Divisão daquele país, o Penafiel. Sob as ordens do então jovem técnico José Romão o paraguaio foi um dos operários que devolveram o clube duriense ao principal escalão do futebol português, após a obtenção de um segundo lugar na Zona Norte do Nacional da 2ª Divisão. E quem inicialmente pensasse que o regresso dos penafidelenses à 1ª Divisão iria ser passageiro enganou-se redondamente, pois José Romão continuou a orquestrar um conjunto que jogava um futebol alegre, vistoso, e extremamente perigoso no plano ofensivo. Sobretudo nos jogos em que atuava na condição de visitado, partidas essas em que aquele Penafiel fazia a vida negra a quem quer fosse. Uma das principais armas dos durienses era precisamente Amancio, o pequeno avançado que importunava as defesas contrárias com a sua rapidez de movimentos e, sobretudo, com o seu instinto predador, o mesmo é dizer, de goleador. Nesse ano de estreia na 1ª Divisão Amancio fez sete dos 36 golos marcados pelo Penafiel nessa temporada de 87/88, sendo apenas superado pelo seu parceiro de ataque, César, que apontou 15. Com a partida do brasileiro Amancio passou a ser a principal referência do ataque penafidelense nas épocas que seguiram. Em 88/89 o paraguaio viveu mesmo a sua temporada mais produtiva vestido com as cores rubro-negras. Fez o gosto ao pé em 15 ocasiões (em 37 jogos), ajudando o Penafiel a sobreviver um ano mais entre os grandes do futebol português. Na temporada seguinte, e já sem José Romão no comando técnico da equipa, o Penafiel venceu mais uma vez a árdua batalha da manutenção, tendo, no entanto, o instinto predador de Amancio sido mais brando, como comprova o facto de apenas por quatro ocasiões ter violado as redes adversárias em 29 jogos realizados. Após quatro temporadas de sucesso, em que indiscutivelmente se tornou numa das principais figuras da equipa, o avançado paraguaio decide mudar de ares, e parte rumo a Setúbal. Ali, onde o esperava o homem que o havia lançado no futebol português, José Romão, não foi feliz nas duas temporadas em que vestiu a camisola do Vitória, sendo que na primeira delas não evitou a queda do histórico clube sadino à 2ª Divisão. Em 1992/93 decide regressar ao norte do país, para representar o Tirsense, clube onde voltou a sentir alegria e prazer em jogar, e acima de tudo em fazer aquilo que mais gostava: golos. Em 27 encontros apontou seis tentos que o tornaram no melhor artilheiro da equipa nessa época, insuficientes, no entanto, para manter o clube jesuíta na 1ª Divisão. O Tirsense foi para a 2ª Divisão, mas Amancio não. O seu faro para o golo ainda despertava o interesse de muitos clubes do escalão maior, e o derradeiro capítulo escrito por si na aventura europeia ocorreu em Barcelos, ao serviço do Gil Vicente. Outro clube de pequena dimensão onde Amancio deixou marca, embora esta fosse uma marca pequena, é certo, como comprovam o parco par de golos que apontou em 19 encontros. Finda a aventura europeia de oito anos o jogador regressou a casa, e para trás deixou um registo de 160 jogos disputados na 1ª Divisão portuguesa e 35 golos apontados. Nada mau para um atleta que representou sempre clubes de pequena dimensão. Mas foi sem dúvida em Penafiel que Amancio alcançou a imortalidade na memória dos adeptos que o viram atuar. Ainda hoje o seu nome reluz na história do clube e da própria cidade, já que o "título" de maior goleador da história do FC Penafiel na 1ª Divisão pertence-lhe - com 26 remates certeiros. 

terça-feira, outubro 13, 2015

Flashes Biográficos (5)... Slavko Kordnya

SLAVKO KORDNYA (Jugoslávia): Apesar de curta a passagem do cidadão de nacionalidade jugoslava Slavko Kordnya por Portugal teve contornos históricos. Porquê? Simples: ele foi o primeiro matador estrangeiro no futebol luso, por outras palavras, o primeiro não português a usar a coroa de rei dos goleadores do campeonato nacional. Facto ocorrido na temporada de 1939/40, precisamente aquela em que este avançado nascido em Zagreb - cidade croata que na altura estava sob o domínio da antiga Jugoslávia - em 1911 fez a sua estreia nos retângulos lusos com a camisola do FC Porto. Ao recuar um pouco mais no tempo é de constatar que Kordnya iniciou a sua carreira nos inícios da década de 30, num dos emblemas mais laureados de então da sua cidade natal, o Concordia. Campeão jugoslavo em 1932 Kordnya iria tornar-se a partir de 1936 num verdadeiro globetrotter do futebol, ao deixar a sua marca em três países distintos no curto espaço de três anos. Primeiro na Suíça, ao serviço do Young Boys de Berna, onde permaneceu uma época (36/37), depois em França, onde durante os dois anos de residência defendeu as cores do Saint-Étienne e do Antibes, e por último em Portugal, para onde se transferiu em 1936 para representar o campeão nacional em título, o FC Porto. Chegou à Cidade Invicta acompanhado de outro jugoslavo, no caso Franjo Petrak, e estes dois atletas haveriam de ter um papel fundamental para a reconquista do ceptro de campeões por parte dos dragões. Juntos foram responsáveis por 44 dos 76 golos que os portistas marcaram no campeonato, sendo que Kordnya apontou 29, facto que o tornaria a par do sportinguista Fernando Peyroteo no melhor marcador da competição dessa longínqua temporada. Ainda em termos estatísticos é de sublinhar que sete desses 29 remates certeiros de Slavko Kordnya foram obtidos diante dos rivais de Lisboa dos azuis e brancos, Benfica e Sporting. Nessa primeira temporada o atacante de Zagreb apontou um total de 64 golos, repartidos pelo campeonato nacional, Taça de Portugal e Campeonato do Porto. Número impressionante de remates certeiros que se iria repetir na temporada seguinte, embora sem direito a qualquer título coletivo. Kordnya ainda iniciou a época de 1941/42 ao serviço do FC Porto, mas viria apenas a realizar um único jogo, já que por decisão sua decidiu regressar a Zagreb para voltar a vestir a camisola do Concordia, onde viria a terminar a carreira em 1943. Foi internacional jugoslavo em quatro ocasiões - tendo apontado quatro tentos, três deles num único encontro, e logo na estreia, diante da Grécia - o homem que deixou Portugal com um notável registo de 128 golos apontados em apenas dois anos de atividade! Números que atestam com clareza que Slavko Kordnya foi muito provavelmente o primeiro grande matador forasteiro da história do futebol português.

segunda-feira, setembro 14, 2015

Flashes Biográficos (4)... João Morais

João MORAIS (Portugal): Um herói acidental cuja figura será eterna, é desta forma que pode ser apresentado João Morais, um nome pronunciado com sotaque de glória no universo do Sporting Clube de Portugal, o emblema onde este homem nascido em Cascais a 6 de março de 1935 desenvolveu a maior parte da sua carreira futebolística. Atuando sobre a ala esquerda do terreno, umas vezes como lateral outras como extremo, Morais iniciou o seu percurso profissional em Torres Vedras, na temporada de 55/56, ao serviço do Torreense, onde as suas excelentes exibições chamaram à atenção de emblemas de outro porte, entre eles o Sporting, que em 1958 o contrata para as suas fileiras. Nas primeiras três épocas pega de estaca no onze leonino, tendo tido um papel preponderante na conquista do campeonato nacional de 61/62 e na Taça de Portugal da temporada seguinte, último feito este que haveria de dar origem a uma inolvidável aventura dos leões na Europa do futebol. Na qualidade de vencedor da taça o Sporting foi o representante português na edição de 63/64 da Taça dos Vencedores das Taças, competição da UEFA onde os sportinguista tiveram um trajeto glorioso, alcançando a final. E se para o Sporting a época - de 63/64 - era de sonho para Morais nem por isso, já que depois de três boas temporadas o defesa/extremo passava por uma fase menos positiva, alternando entre a titularidade e a bancada! E para a final europeia, ocorrida em Bruxelas, Morais nem sequer estava inicialmente convocado pelo treinador Anselmo Fernandez. Porém, uma lesão inesperada de Hilário, o habitual dono da posição de lateral-esquerdo do Sporting, fez soar o sinal de alarme, tendo Morais sido chamado à última da hora pelos altifalantes do Estádio de Alvalade para substituir o seu azarado colega. E assim, sem contar, João Morais seguia na comitiva para a Bélgica. Em Bruxelas a final diante do MTK de Budapeste terminou empatada a três bolas, tendo a UEFA marcado uma finalíssima para dois dias depois em Antuérpia. Antes deste novo e decisivo encontro, e quiçá prevendo que estaria prestes a escrever a página mais bela da sua carreira Morais pediu ao treinador que o deixasse apontar um pontapé de canto de forma direta caso surgisse a oportunidade. Pedido aceite e eis que ao minuto 19 da finalíssima o Sporting ganha o seu primeiro pontapé de canto e Morais lá se encaminha para a marcação do mesmo. Pegou na bola, beijou-a, dirigiu-lhe umas palavras de ternura e colocou-a na marca. E eis como que num ápice de magia o pontapé que se seguiu só parou no fundo da baliza húngara! Um canto direto que deu origem ao único golo desse encontro, e consequentemente ofereceu o título europeu ao Sporting. Esse momento inesquecível ficou eternizado como o "cantinho do Morais" e até deu azo a que músicas se escrevessem sobre ele. De não convocado a herói, eis o trajeto de Morais na campanha europeia gloriosa do Sporting. Dois anos mais tarde o jogador iria viver um novo capítulo dourado na sua carreira quando foi um dos convocados para representar a seleção portuguesa no Campeonato do Mundo que decorreu em Inglaterra. Ao lado de Eusébio e companhia Morais alcançou um brilhante terceiro lugar, ainda hoje a melhor classificação de Portugal num Mundial. Em 1969 despediu-se do Sporting, deixando para trás um registo de 268 jogos disputados com a camisola do leões nas onze temporadas em que a vestiu e 68 golos marcados. Ainda fez mais duas épocas ao serviço do Rio Ave e uma em África do Sul antes de pendurar as chuteiras. Faleceu precisamente em Vila do Conde, em 2010.

Flashes Biográficos (3)... Sidney Pullen

SIDNEY PULLEN (Inglaterra): Venerada em todo o globo a arte natural do futebolista brasileiro tem levado milhares de jogadores nascidos em Terras de Vera Cruz a exibir o seu talento nos mais variados cantos dos Cinco Continentes. Não só clubes como também diversas seleções nacionais têm ao longo da história importado a mestria do futebolista brasileiro no sentido de dar o tal toque artístico às suas equipas. É comum vermos grandes seleções mundiais, como Espanha, Portugal, ou Itália incorporarem nos seus onzes atletas de origem brasileira, mas... e o contrário, seria possível vermos ao lado de Neymar na seleção canarinha um jogador de outra nacionalidade? Impensável. O Brasil é quiçá o maior produtor planetário de diamantes futebolísticos e provavelmente nunca teria a necessidade de naturalizar jogadores de outros cantos do globo para dar força às suas seleções. Mas nem sempre foi assim. Nos inícios do século XX, mais concretamente na década de 10, quando tudo começou, quando a seleção brasileira dava os primeiros passos na sua - hoje - gloriosa caminhada dois estrangeiros tiveram a honra de envergar o manto sagrado do Brasil, um era português, de seu nome Casemiro do Amaral - e de quem já aqui falámos - e o outro inglês, Sidney Pullen de seu nome. Dos dois Pullen foi o primeiro a representar oficialmente a seleção brasileira, facto ocorrido na primeira edição do Campeonato Sul-Americano de Futebol, em 1916. Nascido em Southampton a 14 de julho de 1895, Sidney era filho de um inglês e de uma brasileira, tendo viajado para a América do Sul - mais precisamente para o Rio de Janeiro - ainda muito jovem na companhia de seus pais. E consigo trouxe a paixão pelo futebol - tão popular em terras britânicas por aqueles dias - tendo iniciado uma promissora carreira no Paysandu com apenas 17 anos de idade. Com as cores deste emblema venceu um Campeonato Carioca, sendo que com o extinção deste clube em 1915 Pullen transferiu-se para o Flamengo, cuja camisola envergou em 130 ocasiões até 1923, ano em que deixou a competição. Pelos rubro-negros Sidney apontou cerca de meia centena de golos e venceu inúmeros títulos, sendo que entre os mais pomposos destacam-se os campeonatos cariocas de 1920 e de 1921. 
As boas atuações do britânico no meio campo flamenguista - Pullen atuava como médio centro - fizeram com que fosse chamado a representar a seleção brasileira na primeira grande competição disputada na América do Sul, o Campeonato Sul-Americano - hoje denominado de Copa América - que em 1916 conheceu então a sua edição inaugural, ocorrida na Argentina. Pullen atuou nos três jogos que a seleção disputou em Buenos Aires, tendo o primeiro ocorrido a 8 de julho desse ano, diante do Chile. Nos dois encontros seguintes a seleção brasileira atuou com outro estrangeiro, o já falado guarda-redes português Casemiro do Amaral, mas já ninguém tirava Pullen da história, já que ele havia sido o primeiro estrangeiro a jogar oficialmente pelo Brasil. Nesse mesmo campeonato outro facto histórico ocorreu envolvendo o nome de Sidney Pullen. A partida entre Chile e Argentina esteve a um passo de não se realizar pelo facto de não ter sido encontrado um árbitro para a dirigir! No entanto, e face a uma sugestão da organização as duas seleções concordaram que o jogo fosse arbitrado por Sidney Pullen! 1916 seria mesmo um ano marcante na vida do jogador, já que além da presença na primeira edição da copa - onde o Brasil terminou em terceiro lugar - e de ter sido o primeiro estrangeiro a vestir a camisola da seleção foi obrigado a regressar à Europa para combater pelo seu país na I Guerra Mundial, facto que o levou a interromper a sua carreira desportiva até 1917, altura em que regressou ao Rio de Janeiro, onde viria a falecer em 1950. 

quinta-feira, junho 11, 2015

Flashes Biográficos (2)... Jurgen Croy

Jurgen CROY (República Democrática Alemã): Nas suas quatro décadas de vida como nação independente a República Democrática Alemã (RDA) poucas ou nenhumas alegrias vivenciou dentro dos retângulos de jogo, contrariamente à sua vizinha e irmã República Federal da Alemanha (RFA), que enquanto país logrou vencer três títulos mundiais e dois Campeonatos da Europa. Passando de forma rápida os olhos pela história do futebol saltam-nos à vista um par de acontecimentos memoráveis para o futebol da hoje extinta RDA. E em ambos um homem esteve em destaque: Jurgen Croy. Guarda-redes de posição, Croy nasceu a 19 de outubro de 1946, em Zwickau, tendo ao longo de toda a sua carreira profissional – que durou mais de duas décadas, mais precisamente entre 1967 e 1985 – sido fiel ao emblema da sua cidade natal, o BSG Sachsenring Zwickau – hoje denominado de FSV Zwickau. Croy defendeu em mais de 370 jogos a baliza do BSG, tendo como pontos altos a conquista de duas taças da RDA (em 1967 e 1975). O amor ao clube da sua terra fez com que tivesse passado ao largo de uma grande carreira internacional, no que a clubes diz respeito, pois não foi por falta de qualidades que não defendeu as balizas de emblemas de maior nomeada da então RDA, casos do Dynamo Dresden, do Magdeburg, ou do Carl Zeiss Jena.
Denotando mestria entre os postes Croy foi por diversas vezes elogiado pela imprensa do seu país, que o chegou a comprar aos melhores guarda-redes internacionais de então, casos de Dino Zoff, ou Sepp Meier. Mas seria ao serviço da seleção da RDA que Jurgen Croy viveu os seus cinco minutos de fama no plano internacional. O primeiro dá-se em 1974, altura em que a RFA organizou o Campeonato do Mundo da FIFA, tendo o sorteio da fase de grupos ditado que as duas Alemanhas ficassem no mesmo grupo! Ironia do destino. Croy foi um dos selecionados pelo técnico Georg Buschner para esse certame, e mais do que isso um dos heróis que no dia 22 de junho de 74 subiram ao relvado (molhado) do Volksparkstadium, em Hamburgo, para participar no embate entre a RFA e a RDA. Um duelo de irmãos, ou inimigos, que terminou com o triunfo dos alemães de leste por 1-0, naquela que mais do que uma das maiores surpresas ocorridas em fases finais de Mundiais – já que pelo seu poderio a RFA era teoricamente favorita a vencer esta partida – constituiu-se como um dos dois momentos mais sublimes da história do futebol da RDA. O outro aconteceu dois anos mais tarde (1976), quando Georg Buschner comandou a seleção germânica de leste nos Jogos Olímpicos de Montreal. A caminhada dos alemães no torneio olímpico seria de glória, já que o ouro olímpico foi conquistado após um triunfo (3-1) sobre a Polónia numa final onde Croy esteve em grande destaque. Com um vasto leque de grandes defesas Jurgen Croy deu um forte contributo para que a RDA conquistasse o seu único título internacional.
Croy defendeu a baliza da RDA em 86 ocasiões, tendo sido ainda eleito futebolista do ano da Alemanha de Leste em três ocasiões (1972, 1976, e 1978).