Mostrando postagens com marcador Campeonato de Portugal. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Campeonato de Portugal. Mostrar todas as postagens

terça-feira, dezembro 03, 2013

Histórias do Futebol em Portugal (14)... A revolta dos operários de Alcântara!


A revolta dos operários de Alcântara, bem que podia ser o nome de um filme da autoria do malogrado João César Monteiro, ou o título de uma notícia sensacionalista aludindo ao corte de salários ou a uma ação de despedimento coletivo - situações tão comuns no Portugal dos dias de hoje! - de uma qualquer empresa do popular bairro lisboeta. Mas não, não se trata de qualquer notícia bombástica ou de uma obra de ficção cinematográfica, mas antes de um facto - ainda que metaforizado - que surpreendeu o Portugal futebolístico no ano de 1928, e que ainda hoje é encarada como uma das vitórias mais sensacionais - e sobretudo inesperadas - alcançadas por um modesto emblema na centenária história do desporto rei lusitano. Fazemos alusão ao triunfo do Carcavelinhos Futebol Clube na primeira grande competição de nível nacional - vulgo, o Campeonato de Portugal - na temporada de 1927/28. Fundado em 1912 o Carcavelinhos vivia na sombra dos grandes do futebol lisboeta, o mesmo será dizer, do Sporting, do Benfica, e do Belenenses, sendo apoiado entusiasticamente por um pequeno grupo de operários do emblemático bairro de Alcântara. A popularidade do Carcavelinhos estava porém longe de significar que este pequeno clube pudesse alcançar a glória na exigente prova que era já o Campeonato de Portugal. Mas o que é certo, é que pé ante pé, os operários de Alcântara chegaram ao topo, escrevendo quiçá o capítulo mais entusiasmante da fábula David vence Golias da Grande Enciclopédia do Futebol Português.

Este Campeonato de Portugal fica ainda marcado pelos números expressivos, não só o elevado números de clubes participantes - além dos seus campeões regionais algumas associações, casos de Lisboa e Porto, inscreveram na prova os segundo, terceiro, e quarto classificados dos seus respetivos campeonatos - mas também pelo avolumado número de golos marcados. Uma nota de rodapé também para dizer que à semelhança da temporada transata voltou a instituir-se a Competição de Classificação, uma prova disputada à margem dos campeonatos regionais que servia para apurar mais um leque de clubes para o Campeonato de Portugal.

Vendaval de golos em Lisboa e no Porto

Campeonato de Portugal cuja primeira eliminatória decorreu no dia 4 de março de 1928, e logo com uma série de goleadas que fizeram com que este fosse o certame mais produtivo - no que a golos concerne - da história desta competição que em 1938/39 encerrou portas para dar lugar à atual Taça de Portugal. A maior avalanche de golos ocorreu em Lisboa, no Campo Grande, recinto que acolheu o desnivelado duelo entre o gigante Sporting e o Torres Novas, o respresentante da Associação de Futebol de Santarém saído da Competição de Classificação. Encontro que não teve grande história, ou melhor, a história foi escrita somente em tons de verde e branco, como comprova o pesado resultado de 18-0 (!), a maior goleada de sempre do Campeonato de Portugal. Jurado foi o leão mais feroz apontado à baliza do modesto Torres Novas, já que na sua conta pessoal registou cinco golos, seguido de muito perto por José Manuel Martins e Abrantes Mendes, ambos com quatro tentos.
A norte, no Porto, o emblema mais representativo da cidade, o Futebol Clube do Porto não quis ficar atrás do rival de Lisboa, e na receção - no Campo do Bessa - ao Vila Real alcançou um triunfo por 13-1, com o destaque individual a ir para os hattricks de Freire, Valdemar Mota, e Acácio Mesquita, sendo que este último iria sair deste campeonato consagrado como o melhor marcador dos dragões, com quatro tentos.

Campo do Bessa que nesse dia teve sessão tripla, ou seja, após o vendaval portista seguiu-se um novo vendaval, desta feita protagonizado pelos donos do recinto, o
Boavista, que esmagaram o Lusitano de Vildemoinhos - o representante da Associação de Futebol de Viseu que fazia a estreia na prova - por 8-0, ao passo que para encerrar a maratona futebolística do Bessa o também caloiro Leça Futebol Clube derrotava o experiente - nestas andanças - Sporting de Braga por 2-1, graças à veia goleadora do avançado João da Costa, o autor dos dois tentos leceiros.
Na cidade conhecida como a Princesa do Lima, isto é, Viana do Castelo, o emblema local, o Vianense, caiu aos pés de outra das equipas sensação deste campeonato, o Salgueiros, por 2-1.
Estreia auspiciosa teve também o Fafe - um dos dois representantes da Associação de Futebol de Braga - que em casa, no Campo de S. Jorge, derrotou também por 2-1 a Académica, graças a dois golos de Freitas. Vitória curta seria igualmente alcançada pelo Beira-Mar, de Aveiro, que no seu Campo de S. Domingos bateu os portuenses do Sport Progresso por 3-2. Quanto aos campeões de Portugal em título, o Belenenses, receberam no Campo Grande o Luso Beja, tendo uma tarde inspirada do avançado azul Severo Tiago, autor de três golos, ajudado os pupilos de Artur José Pereira a vencer o combinado alentejano - que até esteve a ganhar - por 7-1.

Também no Campo Grande, que à semelhança do Campo do Bessa foi palco de mais do que um jogo nesse dia, o Casa Pia - cuja estrela-mor era o guarda-redes António Roquete, jogador este que no verão de 1928 defendeu a baliza da seleção nacional portuguesa nos Jogos Olímpicos de Amesterdão - derrotou por 2-1 os setubalenses do Comércio e Indústria. No Barreiro, Bento de Almeida, José Correia, e Agrípio Cardoso, desenharam um triunfo por 3-0 do Barreirense orientado por Augusto Sabbo sobre o União de Lisboa.
Por fim, em Setúbal, o finalista vencido da edição anterior, o Vitória Futebol Clube, não dava hipótese aos representantes do Algarve, o Lusitano de Vila Real de Santo António, que saiu do Campo dos Arcos vergado a uma derrota por 6-1. Vitória de Setúbal que nessa temporada tinha nas suas fileiras um atleta chamado António Palhinhas, que anos mais tarde haveria de se distinguir como...árbitro de futebol, tendo sido ele o juíz da primeira final da Taça de Portugal, disputada em 1939, entre a Académica e o Benfica.

Salgueiristas de alma grande eliminam o poderoso vizinho FC Porto

Quase dois meses depois da realização da ronda inaugural foi dada luz verde para que entrasse em cena a ronda dos oitavos-de-final, e logo com uma enorme supresa a norte. No Campo do Ameal - recinto dos portuenses do Progresso - a balança do favoritismo pendia para o lado do FC Porto na antecâmara do duelo com os vizinhos do Salgueiros. Partida que começou a um ritmo elevado, sendo que logo ao minuto cinco os salgueiristas presentes no Ameal foram ao delírio na sequência de um golpe fatal de Fernando Castro, talentoso extremo-esquerdo de Paranhos que na época posterior a esta histórica campanha da sua equipa iria transferir-se para... o FC Porto, onde jogaria nas oito temporadas seguintes. Festa do Salgueiros que no entanto iria durar apenas um minuto, já que pouco depois da bola ter ido ao centro do terreno Acácio Mesquita restabeleceu o empate. O pequeno - grande - Sport Comércio e Salgueiros não se amedrontou com esta recuperação do gigante da Invicta, e ainda antes do intervalo voltou para a frente do marcador no seguimento de um lance infeliz do portista Augusto Freire, médio que introduziu o esférico na baliza à guarda do seu colega de equipa Mihaly Siska. 2-1 para o Salgueiros, que na etapa complementar segurou heroicamente aquela que seria uma vitória histórica, e para a qual muito contribuiram Soares, Faísca, Sousa, Coentro Faria, Francisco Castro, Evaristo, Ventura, Teixeira, Américo Marques Teixeira, Reis, e Alberto Augusto (este jogador foi, recorde-se, o autor do primeiro golo da história da seleção nacional), os onze magníficos salgueiristas de alma imensa...
Quiçá envergonhados pela derrota ante o modesto vizinho de Paranhos os portistas desafiaram - mês e meio depois - os salgueiristas para um novo duelo - particular, desta feita - para tentar vingar a humilhante derrota, mas aquele não era de facto um bom ano para o FC Porto defrontar o Salgueiros, que na Constituição arrancaria um empate a duas bolas.

Nesta ronda entraria em ação o Benfica - orientado pelo lendário Ribeiro dos Reis, clube cuja estrela principal era Raul Tamanqueiro -, que na deslocação ao terreno do Fafe venceu facilmente a equipa local por 6-1. Fácil também foi o triunfo dos leões - Sporting - sobre os vizinhos do Império, por 4-1. No recém inaugurado Campo do Restelo - propriedade do Belenenses - um bis de José Correia dava a vitória (2-0) do Barreirense sobre os gansos do Casa Pia, enquanto que a norte - no Porto - o Boavista socumbia aos pés do Vitória de Setúbal por 2-4, enquanto que a aventura do Leça terminava diante de um avassalador Belenenses, que no Ameal venceu os leceiros por 8-1. Por fim, em Aveiro, sob a arbitragem do portuense Armando Moura, o futuro campeão de Portugal vencia a equipa da casa, o Beira-Mar, por 3-0, e mal passava pela cabeça dos quase desconhecidos jogadores do emblema de Alcântara que esta seria o início de uma odisseia memorável.

Agressões, insultos, e expulsões na reedição da final de 1927

A 13 de maio deu-se o pontapé de saída nos quartos-de-final da prova, e quis o sorteio que Belenenses e Vitória de Setúbal reeditassem a final da época anterior, que recorde-se havia sorrido aos azuis do Restelo. Só que este foi tudo menos um jogo de futebol, mais se assemelhando a uma batalha campal entre jogadores dos dois lados, travada no Campo das Amoreiras. Pautado por uma constante troca de insultos e agressões que levaram o árbitro do encontro, Armando Moura, a ter de dar ordem de expulsão a alguns atletas, entre outros o internacional belenense César de Matos, que estava já selecionado por Cândido de Oliveira para representar as cores nacionais no Torneio Olímpico de Amesterdão dali a poucas semanas. Pelo facto de ser um lemento fundamental na equipa das quinas a Federação Portuguesa de Futebol perdoou o castigo ao jogador belenense, que assim embarcou na aventura olímpica. Ah, quanto ao resultado desportivo desta final antecipada - assim foi denominado por muitos dos especialistas da bola daquela época - saldou-se numa vitória setubalense por 4-1, com golos de Nazaré (2), Armando Martins, e Luís Xavier, para os rapazes do Sado, enquanto que o lendário Pepe fez o tento de honra dos campeões em título, que assim caiam por terra.

Também nas Amoreiras, mas sem problemas e de forma tranquila, o Sporting batia o Barreirense por 5-0, com tentos de José Manuel Martins, Jurado, João Francisco, Abrantes Mendes, e Agostinho Cervantes.
Épico e emotivo até final foi o Benfica - União da Madeira. Aos 18 minutos os insulares colocaram as Amoreiras em silêncio, na sequência do golo de João Tomás de Sousa. A cinco minutos do descanso Pedro Sousa amplia a vantagem madeirense, e o público da casa teme o pior.
Porém, na etapa complementar apareceu Mário de Carvalho, virtuoso avançado benfiquista, que logo aos dois minutos reduziu para 1-2. O União - que teria nesta a sua única aparição no Campeonato de Portugal - não se acanhou, e três minutos volvidos fez o 3-1, de novo por intermédio de João Tomás de Sousa. A partir daqui Ribeiro dos Reis deu ordem aos seus jogadores para atacarem de todas as formas e feitios a baliza de Manuel de Sousa - de facto esta equipa do União tinha muitos Sousa's! - e ao minuto 63 Jorge Tavares encurta para 2-3 a desvantagem encarnada. O último quarto de hora foi diabólico, muito por culpa de um autêntico diabo à solta no retângulo das Amoreiras, Mário de Caravalho, de seu nome. Com dois golos - aos minutos 75 e 80 - ofereceu ao seu Benfica a passagem à meia-final frente a um União que até final lutou por um resultado positivo.

No Porto, mais precisamente no Campo do Covelo, um confronto de outsiders. Salgueiros e Carcavelinhos, lutavam pela última vaga nas meias-finais. E se contra o FC Porto os salgueiristas haviam sido heróis, ante o conjunto da capital foram uma sombra de si próprios. Os rapazes de Alcântara fizeram o que quiseram dos portuenses, chegando com facilidade à goleada (8-1), com destaque para os três golos de José Domingos e de Carlos Canuto, sendo que este último acumulava as funções de treinador e jogador. Reis foi o autor do tento solitário dos salgueiristas que assim saiam de cena mais cedo do que imaginariam, ainda para mais depois de terem posto fora do comboio um dos favoritos a chegar à estação final.

O sonho começa a transformar-se em realidade

Face ao enquadramento das meias-finais poucos seriam aqueles que não visionavam já um duelo Sporting - Benfica na final do campeonato. Os leões tinham pela frente o Vitória sadino, enquanto que as águias mediam forças com o Carcavelinhos. Favoritos eram pois os grandes de Lisboa. Mas nem sempre a teoria se confirma na prática, pelo menos no caso do Benfica. Nas Amoreiras, a 24 de junho, o Carcavelinhos fez história, Com um futebol dinâmico e artístico o emblema de Alcântara trocou as voltas ao poderoso Benfica, tendo vencido por 3-0 - todos os golos foram apontados na segunda parte. José Domingos, por duas ocasiões, e Carlos Canuto fizeram o gosto ao pé. Acontecesse o que quer que fosse este campeonato já tinha sido marcado pela surpresa chamada Carcavelinhos. Mas a história ainda não estava toda contada.
No outro jogo, também no mítico Campo das Amoreiras, o Sporting derrotava o Vitória de Setúbal por 3-1, com golos de Abrantes Mendes, José Manuel Martins, e Agostinho Cervantes, alcançando assim a desejada final.

Sporting tinha o pensamento no Brasil... e acabou por viver um pesadelo na Palhavã

No dia 30 de junho de 1928 o Campo da Palhavã (Lisboa) era pela primeira vez na sua história palco de uma final do Campeonato de Portugal. Tudo estava preparado para que a festa final fosse pintada em tons de verde e branco, as cores do super-favorito Sporting, que teria como missão provar que o surpreendente trajeto vitorioso do pequeno clube de Alcântara não tinha sido senão um mero golpe de sorte. Como estavam enganados os leões orientados por Filipe dos Santos. Além disso a equipa leonina queria rapidamente decidir aquela final, pois já tinha as malas feitas para no dia seguinte à final fazer uma longa viagem até ao Brasil, país onde iria realizar uma digressão a convite do Fluminense. O passeio até Terras de Vera Cruz terá subido em demasia à cabeça dos jogadores sportinguistas, que não querendo de maneira alguma perder o bilhete de embarque no paquete que os haveria de levar até ao Rio de Janeiro logo trataram de tirar o pé de acelerador na final do campeonato, de modo a evitar lesões que os impedisse de ir passear até ao outro lado do Atlântico. Ousadia que haveria de sair cara ao Sporting.
Até porque do outro lado estava o Carcavelinbos, equipa que para o treinador/jornalista Ribeiro dos Reis, o qual nas meias-finais havia visto o seu Benfica ser eliminado pelo clube de Alcântara, jogava de fato macaco, à operário, pois claro. «Uma equipa que possuí um sistema de ataque verdadeiramente sui generis: eram simulações a passar a bola, simulações a recebê-la, jogadores em corrida para o esférico dando a impressão de o irem dominar mas deixando-o seguir para um companheiro que já previa a manha do movimento, era, enfim, toda uma série de lances em que imaginação se aguçava, rasgava, encantava», escrevia Ribeiro dos Reis na sua análise aos campeões de Portugal de 1928.

Bom, quanto ao jogo propriamente dito - rico ao nível da qualidade técnica, de parte a parte -, o Sporting até entrou melhor, com duas oportunidades flagrantes no primeiro quarto de hora, primeiro por José Manuel Martins, que com um remate forte levou o esférico a sair a escassos centímetros do poste da baliza de Gabriel Santos, e posteriormente por Abrantes Mendes, que isolado perante o guardião de Alcântara permitiu que este num ato de bravura lhe saisse aos pés e ficasse com a posse da bola. Depois disto só deu Carcavelinhos. A magia dos operários de Alcântara entrou em campo, e aos 20 minutos na sequência de uma boa jogada de entendimento José Domingos inaugurou o marcador.
No segundo tempo o Sporting correu atrás do prejuízo, e com apenas sete minutos jogados Abrantes Mendes repõe a igualdade. Pouco depois o árbitro lisboeta Silvestre Rosmaninho é obrigado a interromper o encontro devido aos confrontos físicos que jogadores de ambos os lados da barricada levavam a efeito. Durante alguns minutos a magia do futebol - do Carcavelinhos - deu lugar a tristes cenas de pugilato, na sequência de uma entrada violenta de José Manuel Martins sobre o guarda-redes Gabriel Santos. Serenados os ânimos voltou-se ao futebol, e à magia do Carcavelinhos, traduzida em mais um golo de José Domingos. Depois disto os pupilos de Carlos Canuto tomaram as devidas precauções defensivas, abrandando um pouco o ritmo frenético do seu peculiar estilo de jogar futebol. Mas nem assim o Sporting - com a cabeça no Brasil? Ainda? - aproveitou, muito por culpa da desinspiração do seu setor ofensivo. A machadada final foi dada por Manuel Rodrigues, aos 75 minutos, com o 3-1, e este mesmo jogar ainda viria a desperdiçar uma grande penalidade já perto do final. No cair do pano a festa estalou para os lados de Alcântara, bairro popular que nesse ano viveu uma segunda noite de Santo António, devido à carreira memorável de uma equipa de artistas operários.

A figura: Carlos Alves

Até à conquista do título de campeão de Portugal a maioria dos jogadores do Carcavelinhos era totalmente desconhecida do grande público afeto ao futebol lusitano. A excessão a este quase total anonimato era Carlos Alves, o defesa-direito daquela célebre equipa de operários, e para muitos o melhor jogador português de sempre nesta posição! Carlos Alves nasceu em Lisboa, a 10 de outubro de 1903, e o Carcavelinhos foi o seu primeiro grande amor no futebol. Estreou-se no combinado de Alcântara nessa temporada de 27/28, e logo com o título de campeão de Portugal. As suas soberbas exibições nessa epopeia convenceram o selecionador nacional da altura, Cândido de Oliveira, a convocá-lo para o Torneio Olímpico de Futebol de Amesterdão, na época o maior evento futebolístico a nível global. Era além disso a primeira vez que Portugal surgia na alta roda do futebol internacional. Talvez por isso 1928 tenha sido o ano dourado da carreira de Alves: campeão de Portugal e titular do onze nacional nos Jogos Olímpicos, onde a seleção haveria somente de cair nos quartos-de-final aos pés do Egito. Portugal fez uma campanha memorável, para a qual muito contribuiu o talento de lendas como Pepe, Valdemar Mota, Vítor Silva, Raul Tamanqueiro, Jorge Vieira, Augusto Silva, César de Matos, e claro, Carlos Alves, o luvas pretas! Assim ficou eternizado o defesa direito. A razão desta alcunha? Porque jogava sempre de luvas pretas. Mas porquê? Ao que parece antes da final do Campeonato de Portugal de 1928 uma admiradora dele se abeirou e disse que se as utilizasse seria campeão. Carlos assim o fez, e de facto foi campeão. Dali em diante nunca mais deixou de usar as luvas, fosse em que jogo fosse. Deram sorte. Ainda em relação aos Jogos Olímpicos de 1928 os críticos da altura nomearam Carlos Alves como o melhor defesa-direito do torneio em parceria com o espanhol Jacinto Quincoces. Um luxo, e uma honra. Quem o viu jogar disse que era um jogador diferente, um homem que refinou a posição de defesa-direito, priveligiando a classe no toque de bola em simultâneo com a destreza do desarme, em vez do habitual - até então - estilo duro - e quase violento - dos defesas de roubar a bola ao adversário. Tinha um pé direito fortíssimo, e foi autor de muitos golos ao longo da sua carreira, muitos deles de livre direto, arte da qual era mestre.

Defendeu com brio a camisola do Carcavelinhos até 1933, altura em que viaja para o Porto para defender as cores do Académico Futebol Clube, entre 1934 e 1936. Ao serviço dos academistas participa na primeira edição do Campeonato Nacional da 1ª Divisão (34/35), ganho pelo FC Porto, emblema que em 35/66 contrata o valoroso jogador. De azul e branco vestido o luvas pretas não foi feliz, já que problemas pulmonares o atiraram para um sanatório onde ficou internado durante dois anos, e como consequência colocou um ponto final numa carreira formidável.
Depois, foi para Faro, onde treinou o Farense, criando ai a famosa equipa "o 8º Exército" - assim apelidada pela larga invencibilidade em todo o Algarve -, mas devido ao seu feitio - dizem - conflituoso abriu guerra a muitos jogadores do clube algarvio, o que levou à sua saída.
Veio depois para Albergaria-a-Velha, para treinar o modesto emblema local, o Alba, o clube onde começou a despontar o seu neto, João (Alves), que haveria de abraçar a fama na década de 70 ao serviço de clubes como o Benfica, o Paris Saint-Germain, ou o Salamanca.
Carlos Alves - que foi internacional por Portugal em 18 ocasiões - viria a falecer a 12 de novembro de 1970.

Nomes e números do Campeonato de Portugal de 1928

1ª eliminatória

Vianense - Salgueiros: 1-2

FC Porto - Vila Real: 13-1

Boavista - Lusitano Vildemoinhos: 8-0

Leça - Sp. Braga: 2-1

Fafe - Académica: 2-1

Beira-Mar - Progresso: 3-2

Sporting - Torres Novas: 18-0

Casa Pia - Comércio e Indústria: 2-1

Belenenses - Luso Beja: 7-1

Barreirense - União Lisboa: 3-0

Vitória de Setúbal - Lusitano VRSA: 6-1

Oitavos-de-final

Beira-Mar - Carcavelinhos: 0-3

Leça - Belenenses: 1-8

Sporting - Império: 4-1

Casa Pia - Barreirense: 0-2

Salgueiros - FC Porto: 2-1

Fafe - Benfica: 1-6

Quartos-de-final

Belenenses - Vitória de Setúbal: 1-4

Sporting - Barreirense: 5-0

Salgueiros - Carcavelinhos: 1-8

Benfica - União da Madeira: 4-3

Meias-finais

Benfica - Carcavelinhos: 0-3

Sporting - Vitória de Setúbal: 3-1

Final

Carcavelinhos - Sporting: 3-1

Data: 30 de junho de 1928

Árbitro: Silvestre Rosmaninho (Lisboa)

Estádio: Campo da Palhavã, em Lisboa

Carcavelinhos: Gabriel Santos, Carlos Alves, Abreu, Artur Pereira, Daniel Vicente, Carlos Domingues, Manuel Abrantes, Armando Silva, Carlos Canuto, José Domingos, e Manuel Rodrigues. Treinador: Carlos Canuto.

Sporting: Cipriano Santos, António Penafiel, Jorge Vieira, Martinho de Oliveira, Serra e Moura, Matias Lopes, João Francisco, Abrantes Mendes, João Jurado, Agostinho Cervantes, e José Manuel Martins. Treinador: Filipe dos Santos

Golos: 1-0 (José Domingos, aos 20m), 1-1 (Abrantes Mendes, aos 52m), 2-1 (José Domingos, aos 53m), 3-1 (Manuel Rodrigues, aos 75m)

Legenda das fotografias:
1-O poster do Carcavelinhos, campeão de Portugal em 1928
2-Acácio Mesquita, o melhor marcador do FC Porto nesta edição
3-Belenense Severo Tiago espreita mais uma oportunidade de golo durante o encontro com o Luso Beja
4-O guarda-redes internacional do Casa Pia, António Roquete
5-Fase do emblemático jogo entre FC Porto e Salgueiros
6-A equipa do Benfica
7-Jogadores do Carcavelinhos em ação
8-Mário de carvalho, o herói do Benfica nos quartos-de-final
9-Carlos Canuto, jogador/treinador do Carcavelinhos, e mais tarde árbitro internacional
10-O conjunto do Sporting
11-Carlos Alves disputa um lance na final do campeonato
12-Mais um lance da final do Campo da Palhavã
13-Carlos Alves, com a camisola do Carcavelinhos...
14-... e com a do Académico do Porto

quarta-feira, maio 22, 2013

Histórias do Futebol em Portugal (13)... Nau de Belém chega à terra prometida

Depois de em 1926 ter estado muito perto de lá atracar, a nau de Belém alcançou um ano mais tarde a terra prometida do futebol português. Fundado precisamente oito anos antes (1919) por Artur José Pereira o Belenenses conquistava em 1927 o primeiro grande título de uma história que nas décadas seguintes haveria de ter (outros) inúmeros momentos de glória, os quais haveriam de fazer deste um dos mais populares e laureados emblemas de Portugal. Clube de Futebol "Os Belenenses" que levou então para casa o título de campeão de Portugal num ano (1927) em que aquela que já era a mais importante e querida competição lusitana conheceu profundas remodelações. O certame foi avolumado, isto é, alargado a mais clubes que não os campeões regionais. Inspirados no sucesso da FA Cup inglesa um trio de ilustres figuras do futebol (e do jornalismo desportivo) português daquele tempo, nomeadamente Ribeiro dos Reis, Ricardo Ornelas, e Cândido de Oliveira, propuseram então que mais clubes pudessem competir no Campeonato de Portugal, constituindo para isso uma comissão que traçou o novo regulamento da prova. Regulamento esse que propunha a edificação de um Torneio de Classificação a anteceder o campeonato, torneio esse dividido em 14 grupos espalhados um pouco por todo o país, sendo que os vencedores desses grupos iriam juntar-se a 15 clubes isentos - isenção que era concedida em face da classificação obtida por esses clubes no seio das respetivas associações distritais - e com lugar desde logo garantido na 6ª edição do Campeonato de Portugal. Nestes moldes um dado estava desde logo garantido: a prova nacional iria ter mais jogos, mais cidades envolvidas, e desde logo mais emoção. E assim foi.
A Federação Portuguesa de Futebol (FPF) - que assim passou a chamar-se desde 28 de maio de 1926, deixando para trás a designação de União Portuguesa de Futebol - deu luz verde à ideia dos três jornalistas/dirigentes desportivos e o campeonato arrancou a 6 de março de 1927.
Porém, falar do certame ganho pelo Belenenses obriga também a evocar a palavra polémica. Mais uma vez assistiu-se a uma dura batalha da guerra norte-sul... como iremos recordar lá mais para a frente desta viagem ao passado.

Sob a arbitragem de José Simões, os lisboetas do Império - estreantes na competição, fruto de terem sido um dos 14 vencedores dos grupos do Torneio de Classificação - esmagaram diante do seu público os alentejanos do Luso Beja, por 4-0. Este encontro foi disputado no Campo da Palhavã, recinto que neste mesmo dia assistiu a uma segunda partida da 1ª eliminatória do Campeonato de Portugal de 1927, entre o estreante Barreirense e o campeão de Portugal de 1924, o Olhanense. Barreirenses que foram uma das grandes surpresas do certame, ao apresentarem um futebol alegre e vistoso ministrado por um mestre da tática que havia feito furor num passado recente nos então retângulos lusos de terra batida. Augusto Sabbo, engenheiro luso-alemão profundo entendido dos meandros do belo jogo que em 1923 havia conduzido o Sporting à vitória final do Campeonato de Portugal, mas que problemas financeiros leoninos desviaram em meados de 1926 para o Barreiro, onde reunindo um grupo de operários construiu uma das mais belas equipas da história do emblema da margem sul do Tejo.

Voltando ao duelo entre Barreirense e Olhanense o que se assistiu na Palhavã foi um verdadeiro espetáculo de futebol ofensivo, de parte a parte, com os pupilos de Sabbo a levarem a melhor por 9-4! No plano individual deste hino de ataque às balizas destaque para o olhanense José Belo - um dos artistas do título nacional de 24 - que à sua conta apontou os quatro tentos da sua equipa, e para os operários do Barreiro José Correia, e João Pireza, respetivamente autores de quatro e três dos nove tentos barreirenses.
Mais a norte, em Viana do Castelo, o Campo de Monserrate chorou ao ver os portuenses do Progresso saírem da Princesa do Lima com um magro triunfo de 1-0 no bolso sobre o combinado local, o experiente - nestas andanças - Vianense.
Em Braga, no Campo do Raio, dois estreantes mediram forças, o Boavista e o Clube Galitos (de Aveiro). Fizeram a festa os portuenses graças a um triunfo por três golos sem resposta, com José Rodrigues Chelas a vestir o fato de herói após apontar dois tentos.
Outro histórico emblema da cidade do Porto participou pela primeira vez na mais popular competição nacional, de seu nome Sport Comércio e Salgueiros. A jogar em casa (Campo do Covelo) os salgueiristas golearam o representante da Associação de Vila Real, o Sport Clube Vila Real, por 4-0. Arbitrado pelo guarda-redes do Boavista (!), Manuel Sousa, conhecido no planeta da bola por Casoto, o Salgueiros entrou praticamente a vencer no encontro, quando à passagem do minuto três Fontes deu colorido ao marcador. Na segunda parte brilhou a grande altura Reis, autor dos restantes três golos da tarde (aos 55, 60, e 90m).
No Campo da Quinta Agrícola, em Coimbra, a Briosa - popular alcunha pela qual é conhecida a Académica coimbrã - despachou o Sporting de Espinho por 3-1, com a particularidade de dois dos três tentos academistas terem sido apontados por Albano Paulo, o homem que em 1939 iria conduzir - na condição de treinador - a Académica à vitória na edição de estreia da prova sucessora deste Campeonato de Portugal, a Taça de Portugal.

Pior sorte teve a outra equipa de Coimbra, o União, que em Lisboa saiu da prova vergado a uma pesada derrota aos pés do Casa Pia, por 5-0, tendo Gustavo Teixeira apontado quatro golos! E no Porto o popular Leixões também dava os primeiros passos no Campeonato de Portugal. No (campo do) Covelo os matosinhenses enfrentavam o Sporting de Braga, um habitual combatente nestas frentes, conjunto que levaria para a capital minhota um saboroso triunfo por 3-0, construido durante a etapa inicial, com golos de Cruz (aos cinco minutos) e Gumercindo (aos 20 e aos 42m). E por falar nas cidades de Braga e do Porto dois outros combinados oriundos destas urbes mediram forças entre si nesta ronda inicial. FC Porto e Estrela de Braga, assim se chamavam, tendo os portistas vencido com naturalidade os bracarenses por 11-0! Naturalidade porque a diferença - a diversos níveis - entre ambos os conjuntos era abismal.

No entanto a goleada mais dilatada desta 1ª eliminatória foi alcançada por outra das equipas sensação da prova, o Vitória de Setúbal, o surpreendente campeão regional de Lisboa (!) deste ano de 1927. No Campo dos Arcos (em Setúbal) os sadinos afastaram o Despertar Sport Clube de Beja por expressivos 12-0 (!), sim, uma dúzia de golos, cinco deles apontados por uma das estrelas do combinado orientado pelo inglês Arthur John, de sua graça Octávio Cambalacho.
E em Portalegre entrava em campo um leão financeiramente... moribundo. O gigante Sporting Clube de Portugal passava por uma crise financeira aguda, que - entre outros aspetos - levou à saída do treinador campeão Augusto Sabbo rumo ao Barreirense. A razão desta surpreendente dispensa alude ao elevado ordenado que Sabbo usufruia em Lisboa, 12 contos, que segundo a Direção leonina era incompatível com as finanças de um clube cujo orçamento era de 29 contos. Mesmo debilitado financeiramente o leão - agora treinado pelo seu carismático capitão Jorge Vieira - era ainda aguerrido no plano desportivo, conforme explica o resultado de 7-1 a seu favor sobre o SC Portalegre.
No derradeiro encontro desta eliminatória o futuro campeão entrou em campo. E fê-lo em Santarém, diante dos Leões locais, que por sua vez não tiveram armas para contrariar a superioridade da equipa-maravilha criada por Artur José Pereira, o fundador do clube e agora seu treinador, e onde pontificavam lendas como Eduardo Azevedo, César Matos, Augusto Silva, e um tal de Pepe. No Campo de São Lázaro um festival de futebol de ataque originou um triunfo merecido dos rapazes de Belém, por 9-1. Estava dado o primeiro passo de uma caminhada que iria ser triunfal.

Estreia do Benfica

Concluída a 1ª eliminatória a prova rumou aos oitavos-de-final, que tiveram a sua entrada em cena a 3 de abril. Dia em que entrou em ação o popular Benfica, um dos clubes mais afamados da capital, que fazia a sua estreia na competição. Treinados pelo lendário Ribeiro dos Reis - homem dos 7 ofícios dentro do futebol - os benfiquistas reuniram um bom grupo para atacar o campeonato, e levar o troféu de campeão para o... Montepio Geral! É verdade. Não tendo ainda um espaço para guardar os troféus conquistados os benfiquistas guardavam as suas relíquias no banco Montepio Geral! Outros tempos. No que concerne a nomes sonantes o Benfica de 1927 tinha vários, desde Mário Carvalho, passando por Ralph Bailão, até Raul Tamanqueiro, a grande estrela do Olhanense campeão de Portugal em 1924. No Campo do Raio, em Braga, o Benfica de Tamanqueiro e companhia sofreu a bom sofrer para vencer o Sporting local por 4-3, com os tentos benfiquistas a pertencerem a Pereira Nunes, António Gonçalves, Vítor Hugo, e José Simões.

E foi precisamente nos oitavos-de-final que a polémica vistou o Campeonato de Portugal, envolvendo, curiosamente, dois clubes da cidade do Porto. O primeiro caso aconteceu no Covelo, onde o Salgueiros bateu com a porta após graves erros do árbitro Ramon Folch (de Viana do Castelo) no encontro diante do Vitória de Setúbal. O duelo terminou com o triunfo sadino por 2-0 - golos de Octávio Cambalacho e Soares - mas iria ser mandado repetir após ter-se concluído que o árbitro prejudicou seriamente os salgueiristas. Estes, em forma de protesto, decidiram não comparecer no segundo encontro, pelo que a FPF não teve outro remédio senão atribuir a passagem de eliminatória ao Vitória. A guerra norte-sul, que havia despoletado logo na primeira edição da prova, conhecia aqui mais uma ardente batalha, com os nortenhos a queixarem-se de descriminação em relação aos sulistas.
Mas os combates entre o norte e o sul não se resumiram ao Salgueiros - Vitória de Setúbal. Muito longe disso. A grande polémica do campeonato envolveu o FC Porto e o Belenenses, equipas que se defrontaram no Campo da Palhavã nesta eliminatória, um jogo que para muitos era digno de uma final antecipada. Arbitrado pelo juíz da Associação de Futebol de Beja Doroteo Flecha Rodrigues, o jogo começou de feição aos portistas, que sem se deixarem impressionar pelo ambiente - mais uma vez - hostil que encontraram na capital rapidamente chegaram ao 2-0, com golos de Acácio Mesquita e de um tal de Fridolf Resberg. Último jogador este de nacionalidade norueguesa, e que viera para Portugal para abraçar a carreira de diplomata no Consulado da Noruega no Porto. Reza a lenda que Resberg certo dia passou pelo Campo da Constituição, apresentou-se ao treinador Akos Teszler e pediu para treinar com o clube. Pedido aceite Resberg convenceu os responsáveis azuis-e-brancos, que rapidamente o colocaram na frente de ataque da sua equipa principal, onde fez furor durante algum tempo, até ser chamado de volta para a sua longínqua e gélida Noruega.


Mas voltando aos (tristes) acontecimentos da Palhavã o diabólico Pepe pôs a cabeça em água aos defesas portistas, ao fazer dois golos. Um deles deu mesmo o triunfo ao Belenenses (3-2), uma vitória muito protestada pelos portistas que se queixaram da atuação tendenciosa do árbitro alentejano. Triunfo belenense que só foi alcançado no prolongamento depois de um 2-2 no final do tempo regulamentar. Tento do empate dos rapazes de Belém que surgiu em cima do minuto 90... em claro fora de jogo. Assim evocaram os responsáveis do FC Porto. O árbitro fez vista grossa e surgiu a necessidade de mais 30 minutos de batalha. Não satisfeito com esta pequena ajuda - na voz dos portistas - o árbitro decidiu aplicar o mesmo critério no golo da vitória lisboeta, apontado por Pepe... mais uma vez em nítido fora de jogo. Doroteo Flecha Rodrigues admitiu no final da partida ter errado a favor dos azuis de Belém no que diz respeito a este último tento!
Porém, em resposta às críticas do Porto as gentes de Lisboa - com FPF à cabeça - acusaram o clube nortenho de não cumprir os regulamentos, já que se havia apresentado em campo com três atletas estrangeiros (Mihaly Siska, Norman Hall, e Fridolf Resberg) quando a lei dizia que apenas podiam ser utilizados dois.

Os portistas não calaram a sua revolta e logo após a eliminação tornavam pública carta feroz, a qual dizia o seguinte: «Este campeonato serviu apenas para demonstrar as competências tacanhas a quem o futebol português está entregue. Segundo o seu regulamento nenhum grupo pode alinhar com mais de dois jogadores estrangeiros, mas como entendêssemos que o senhor Norman Hall é moralmente um jogador português, fizemos por intermédio da nossa associação uma exposição à FPF, citando que Norman Hall há 15 anos vem disputando pelo nosso clube os campeonatos do norte e tem sido incluído no grupo representativo da cidade desde 1918, isto é, muito antes da formação da FPF, acrescendo ainda a circunstância de residir em Portugal desde a idade de oito anos. Esta exposição, apreciada e discutida numa reunião do Comité Executivo do Campeonato de Portugal, teve resolução favorável, sendo qualificado o referido senhor Norman Hall como jogador português. Depois de termos jogado e vencido o Estrela de Braga, fomos indicados adversários do Belenenses, para os oitavos-de-final, a realizar em Lisboa. Alinhámos com Norman Hall e depois de uma exibição superior ao nosso adversário e em que o resultado deveria ser de dois golos a um, a nosso favor, o árbitro. senhor Flecha, de Beja, conseguiu, no final do tempo regulamentar, um empate a 2-2. Jogada a meia hora do desempate, fomos mais uma vez prejudicados com uma bola "off-side", que deu o resultado de 3-2 a favor do Belenenses. A arbitragem deste desafio levou-nos a um protesto junto da FPF, protesto que foi acompanhado de 500 escudos e sobre o qual a mesma federação até hoje nenhuma resposta deu, parecendo-nos que nenhuma resolução tomou, visto reconhecer que teria de anular o jogo, em face das declarações do árbitro, que involuntariamente nos tinha tirado uma vitória bem justa». 
Da FPF veio resposta a dizer simplesmente que o FC Porto não havia cumprido a lei ao alinhar com três estrangeiros. Sobre os 500 escudos nem uma palavra!!! E ponto final.

Alguns quarteirões mais à frente, isto é, no Campo Grande, o Sporting Clube de Portugal, do jogador/treinador Jorge Vieira, humilhava a Académica de Coimbra por 9-1, com destaque para os cinco golos de Filipe dos Santos. Mais a norte, no Porto, o Barreirense de Augusto Sabbo continuava a sua caminhada triunfal, sendo que desta feita a vítima deu pelo nome de Boavista Futebol Clube, clube este que no seu reduto - Campo do Bessa - perdeu por 0-2.
A 24 de abril disputou-se no Campo Grande o derradeiro desafio destes oitavos-de-final, o qual colocou frente a frente o Carcavelinhos ao Casa Pia, tendo vencido os primeiros por 3-1. Isento desta eliminatória ficou o detentor do título de campeão de Portugal e crónico campeão da Madeira, o Clube Sport Marítimo.

Campeões em título provam do próprio veneno


E por falar em Marítimo quis o destino que a defesa do título tivesse início com uma reedição da final do ano anterior, ante o Belenenses, que recorde-se, havia sido derrotado pelos madeirenses no Campo do Ameal por 0-2. Este reencontro foi digamos que uma vingança dos pupilos de Artur José Pereira, que diante do seu público, que lotou por completo o Campo do Lumiar, esmagou os campeões da Madeira e de Portugal por claros 8-1! Deram cor à goleada azul Silva Marques (3 golos), Pepe (2), Alfredo Ramos (2), e Augusto Silva. Este jogo fez ainda com que o Marítimo provasse do próprio veneno dado ao FC Porto um ano antes, quando nas meias-finais humilhou os portistas por 7-1. Desta feita foram os madeirenses a saborear uma amarga e pesada derrota!
Nas Amoreiras o Vitória de Setúbal ultrapassava mais um duro obstáculo rumo à final que iria alcançar muito justamente. O Sporting foi um osso duro de roer, mas Octávio Cambalacho, mais uma vez, fez estoirar a festa à beira do (rio) Sado graças a um único golo que derrotou os aparentemente falidos mas aguerridos leões.
Quanto ao eterno rival do Sporting, o Benfica, beneficiou de uma tarde verdadeiramente inspirada do seu avançado Jorge Tavares, autor de três dos cinco golos com que os pupilos de Ribeiro dos Reis afastaram os operários do Carcavelinhos. Por último, o Barreirense, que afastou o Império por 3-1.


Nova polémica nas meias-finais!

Como não há duas sem três polémica voltou a gritar-se a viva voz nas meias-finais do campeonato, disputadas no dia 15 de maio. Ambos os jogos realizaram-se no Campo do Lumiar, em Lisboa, sendo que no primeiro confronto o Vitória de Setubal garantiu o passaporte para a final num encontro que só durou 44 minutos! Aníbal José fez o único golo do jogo a favor dos sadinos, que na voz do treinador barreirense, Augusto Sabbo, usaram e abusaram das entradas duras. Comportamento violento a juntar ao aparente golo irregular dos setubalenses ao cair do pano sobre a primeira parte que fez com que Sabbo ao minuto 44 ordenasse que os seus pupilos abandonassem o terreno de jogo em sinal de protesto, pelo que o árbitro lisboeta Ilídio Nogueira não teve outra hipótese senão dar por terminada a partida nomear os sadinos como os primeiros finalistas do campeonato. Horas mais tarde foi a vez do Belenenses assegurar a presença no jogo mais desejado do ano. No entanto, para o conseguir os pupilos de Artur José Pereira tiveram de sofrer a bom sofrer para eliminar um combativo Benfica. Com uma igualdade a zero golos no final dos 90 minutos o árbitro Silvestre Rosmaninho viu-se na necessidade de indicar mais 30 minutos de prolongamento, sendo que aqui, os azuis de Belém levariam a melhor, com golos de Silva Marques (minuto 102) e Pepe (minuto 115). 

Belenenses é o novo rei do futebol português em véspera de Santo António!


E foi precisamente no Lumiar que praticamente um mês depois foi disputada a grande final. Jogo decisivo que foi realizado a 12 de junho, a véspera da mais importante festa popular da capital portuguesa, Santo António, a quem - por certo - ambos os intervenientes terão solicitado ajuda divina na entrada para o retângulo de jogo. Tarde ventosa brindava a capital em dia de festa, e seria precisamente o vento um aliado - e um inimigo também - para os dois conjuntos envolvidos na final. Durante o primeiro tempo foi o Vitória de Setúbal a beneficiar da ajuda do vento, embora sem tirar proveito desse fator. Com um futebol apoiado, de passes curtos e desmarcações rápidas, os sadinos foram uma dor de cabeça para o guarda-redes belenense Francisco Assis na etapa inicial. João Santos foi o principal protagonista dos assaltos à baliza azul, desperdiçando de forma incrível - dizem as crónicas da época - um golo feito aos 27 minutos. E como quem não marca por norma sofre o Belenenses - agora jogando com o vento a seu favor - dominou por completo a segunda parte, domínio esse traduzido em golos. O primeiro surgiu por Augusto Silva, aos 63 minutos, a aproveitar da melhor maneira um cruzamento de César Matos, sendo que a machadada final foi dada na entrada para os derradeiros cinco minutos da contenda, graças a um bis de Silva Marques (aos 86 e aos 89 minutos).
O futebol cintilante do Belenenses era assim premiado com o ambicionado título de campeão de Portugal. Era caso para dizer que essa noite de Santo António iria ser duplamente festejada pelos apaixonados adeptos belenenses que na tarde de 12 de junho de 1927 lotaram por completo o Lumiar.

A figura: Pepe


Se tivessemos de escolher os 10 melhores futebolistas portugueses da primeira metade do século XX o seu nome inevitavelmente estaria lá. José Manuel Soares, eternizado no planeta da bola como Pepe, foi a grande figura do Campeonato de Portugal de 1927. A sua genialidade criativa e técnica ficaram bem patentes na caminhada triunfal do Belenenses. Sobre ele já traçámos noutras viagens ao passado longas linhas, e a sua memória repousa na vitrina das lendas deste Museu Virtual do Futebol. Aproveitando a vitória do Clube de Futebol "Os Belenenses" na principal prova portuguesa repescamos para este texto algumas das linhas biográficas por nós desenhadas aquando dessa visita a um menino que morreu cedo demais!
Ele foi um dos primeiros génios do futebol português como consequência natural da sua veia artística com a bola. Cedo se tornou num ídolo para a massa adepta lusitana que ia tendo o primeiro contacto com o belo jogo. Com dribles diabolicamente desconcertantes, com passes magistrais, ou com golos inimagináveis ele ganhou por direito próprio um lugar no Olimpo dos Deuses do futebol. A 30 de janeiro de 1908 no seio de uma família pobre de Belém (Lisboa) nasce aquele que viria a ser um dos maiores ídolos do futebol português na década de 20 do século passado.

A infância de José Manuel Soares foi pois de profunda miséria, sendo que a única alegria dos meninos daquele tempo era única e simplesmente a bola de futebol. E foi a jogar futebol na rua com uma bola de trapos que Pepe – alcunha que surgiu numa época em que a sua condição no desporto rei era já a de um talento confirmado – descobriu a sua vocação. Como tal ainda com tenra idade ingressa no clube da sua zona, o Belenenses, o emblema gravado no seu coração, sendo que com apenas 15 anos (!) é inscrito no Campeonato de Lisboa.
Não demoraria muito a sua ascensão até à equipa principal, a qual se daria um ano depois (1926) num confronto ante o Benfica no Campo das Amoreiras, duelo que terminaria 5-4 a favor do Belenenses, tendo Pepe apontado o golo do triunfo do seu clube. A sua exímia técnica aliada à sua velocidade estonteante e ao seu poderoso remate patenteados dali em diante fizeram com que fosse aclamado como o rei do futebol português.

De um dia para o outro Pepe tornou-se na alegria do povo. Em Belém, a zona onde continuava a residir numa pobre casa situada na Rua do Embaixador, não havia um único dia em que o seu nome fosse pronunciado com entusismo e vaidade. Mesmo sendo por aquela altura o habitante mais famoso de Belém o menino Pepe continuava humilde e... pobre, sim, porque o futebol não passava de uma brincadeira. Para ajudar a sua família foi trabalhar ainda moço para uma oficina de torneiro, para mais tarde passar a laborar no Centro de Aviação Naval. De aspecto franzino o menino que todos os dias levava para o emprego um triste caldo para retemperar forças fazia magia nos campos de futebol em cada fim-de-semana com as cores do seu Belenenses. Carregou os azuis de Lisboa às costas nas conquistas dos campeonatos de Portugal de 1927 e 1929, bem como noutros tantos campeonatos de Lisboa. Entre 1928 e 1931 sagra-se naturalmente o melhor marcador do campeonato lisboeta, sendo que na temporada de 30/31 estabelece um recorde de 36 golos apontados em 14 encontros disputados! Para a história, nessa mesma época, faz 10 dos 12 golos com que o Belenenses bate o Bom Sucesso.



Ele foi um dos notáveis que integrou o selecionado português na primeira grande aparição deste numa competição à escala mundial: os Jogos Olímpicos. 1928 é o ano que assinala esse feito, ano em que Portugal fica às portas de uma medalha nas Olímpiadas de Amesterdão.
Mas nem só o Belenenses tirou partido do génio de Pepe, a própria seleção nacional também lhe fica a dever muitas vitórias e momentos inolvidáveis. Por 12 ocasiões ele vestiu a camisola das quinas, tendo com ela apontado sete golos.

Consagrado a nível nacional e internacional a estrela de Pepe deixou de brilhar cedo, cedo demais, diria mesmo. Num dia como tantos outros o astro de Belém carrega na fria manhã de 24 de outubro de 1931 o almoço preparado por sua mãe. Almoço é maneira de dizer, pois no bolso levava somente uma triste sande de chouriço que tinha sobrado do jantar da véspera. Chegada a pausa para o repasto Pepe leva o alimento à boca e horas depois é dado como morto no Hospital da Marinha, local para onde foi transportado assim que começou a sentir violentas dores abdominais e a ter hemorragias. Morreria às 10h30 da manhã, com apenas 23 anos... e um futuro – com toda a certeza – risonho ficou por percorrer.

As causas da morte muita tinta fizeram correr nos dias seguintes. Houve quem tivesse apontado ao assassinato... por invejosos do seu valor e popularidade. O envenenamento contudo não ficou senão a dever-se a um lapso – fatal – de sua mãe, a qual em vez de colocar bicarbonato de sódio na refeição colocou potassa, substância que iria destruir por completo o estômago do atleta. Mãe e irmãs de Pepe que também haviam ingerido igual refeição, no entanto conseguiram escapar com vida, aparentemente por terem ingerido uma menor quantidade.
Pepe morreu e o país chorou dias a fio. O seu funeral foi uma prova colossal do carinho que o povo tinha por ele... 30.000 pessoas prestare-lhe uma última homenagem.

Nomes e números do Campeonato de Portugal de 1927

1ª eliminatória

Império - Luso Beja: 4-0

Vianense - Progresso: 0-1

Barreirense - Olhanense: 9-4

Boavista - Galitos: 3-0

Salgueiros - Vila Real: 4-0

Vitória de Setúbal - Despertar: 12-0

Académica - Sp. Espinho: 3-1

SC Portalegre - Sporting: 1-7

Leixões - Braga: 0-3

Casa Pia - União de Coimbra: 5-0

Leões de Santarém - Belenenses: 1-9

Estrela de Braga - FC Porto: 0-11

Oitavos-de-final

Império - Progresso: 7-0

Boavista - Barreirense: 0-2

Salgueiros - Vitória de Setúbal: 0-2

Sporting - Académica: 9-1

Braga - Benfica: 3-4

Carcavelinhos - Casa Pia: 3-1

Belenenses - FC Porto: 3-2

Quartos-de-final

Barreirense - Império: 3-1

Vitória de Setúbal - Sporting: 1-0

Benfica - Carcavelinhos: 5-0

Belenenses - Marítimo: 8-1

Meias-finais

Vitória de Setúbal - Barreirense: 1-0

Belenenses - Benfica: 2-0

Final

Belenenses - Vitória de Setúbal: 3-0

Data: 12 de junho de 1927

Estádio: Campo do Lumiar, em Lisboa

Árbitro: João dos Santos Júnior (lLisboa)

Belenenses: Assis, Eduardo Azevedo, Júlio Marques, Joaquim Almeida, Augusto Silva, César Matos, Fernando António, Alfredo Ramos, Silva Marques, Pepe, e José Luís. Treinador: Artur José Pereira

Vitória de Setúbal: Artur Augusto, Francisco Silva, Isidoro Rufino, Augusto José, Aníbal José, Matias Carlos, Eduardo Augusto, João dos Santos, Octávio Cambalacho, Armando Martins, e Nazaré. Treinador: Arthur John

Golos: 1-0 (Augusto Silva, aos 63m), 2-0 (Silva Marques, aos 86m), 3-0 (Silva Marques, aos 89m)

Legenda das fotografias:
1-Belenenses, o campeão de Portugal em 1927
2-Lance do jogo entre Barreirense e Olhanense
3-João Pireza, uma das estrelas do Barreiro
4-Sporting de Braga
5-Octávio Cambalacho, o goleador do Vitória de Setúbal em 1927
6-Equipa do Benfica, que fez a estreia no Campeonato de Portugal
7-O norueguês do FC Porto, Fridolf Resberg
8-Pepe tenta bater o guarda-redes portista Siska
9-Norman Hall, o seu nome haveria de causar polémica neste campeonato
10-O treinador Augusto Sabbo
11-Fase do jogo entre Vitória de Setúbal e Sporting
12-Artur José Pereira
13-Primeira página do Eco dos Sports a noticiar o triunfo belenense na final
14-Pepe, a estrela de Belém...
15-...em ação...
16... e levado em ombros pela multidão

quarta-feira, janeiro 23, 2013

Histórias do Futebol em Portugal (11)... Bailinho da Madeira

Surpresa foi - indiscutivelmente - a palavra de ordem da 5ª edição do Campeonato de Portugal, ocorrida em 1926, na sequência do glorioso trajeto percorrido pelo Marítimo, o crónico campeão da Associação de Futebol da Madeira que mais do que vencer o título foi o responsável por uma das maiores humilhações da história do gigante FC Porto! Mas já lá iremos.
Esta edição fica ainda vincada pela acesa - e crescente - rivalidade entre as cidades do Porto e de Lisboa, rivalidade essa nem sempre bonita de se ver em espetáculos desportivos...
Campeonato de Portugal de 1926 que teve mais uma estreia em termos de aderentes, digamos assim, mais concretamente a Associação de Futebol de Vila Real, que se fez representar pelo seu campeão, o Sport Clube Vila Real. Equipa esta cuja sorte nada quis consigo, já que na 1ª eliminatória o azar bateu à porta dos vilarealenses ao colocar-lhes no caminho nada mais nada menos do que o campeão de Portugal em título, o poderoso FC Porto. No Campo do Covelo, a 5 de maio desse ano, os portistas esmagaram os transmontanos por 10-0 (!), sendo de destacar a veia goleadora do capitão de equipa Norman Hall, autor de oito tentos! Balbino da Silva encarregou-se de apontar os outros dois.
Nesse mesmo dia, mas em Lisboa, mediram forças no Campo Grande (recinto do Sporting) os campeões das associações de futebol de Aveiro e de Coimbra, respetivamente o Sporting de Espinho e o União de Coimbra, o vencedor surpresa do regional da cidade dos estudantes. Foi um duelo intenso e de vencedor incerto até bem perto do fim, onde os espinhenses estiveram grande parte do tempo em desvantagem no marcador, acabando, no entanto, já perto do fim, por dar a volta e vencer por 4-3.
Quanto ao Sporting de Braga o destino voltou a colocar-lhe no caminho o seu carrasco das duas edições anteriores, ou seja, o Vianense. Campeões de Viana do Castelo que em 1924 e 1925 haviam - curiosamente - então afastado os bracarenses na 1ª ronda da prova, só que há terceira veio a vingança dos homens da Cidade dos Arcebispos.Um golo solitário de Chelas selou a tal vingança bracarense sobre os vizinhos da Princesa do Lima, que desta forma superavam pela primeira vez a barreira da ronda inaugural.

Em Lisboa, e novamente no Campo Grande, assistiu-se a um dérbi alentejano, entre os campeões das associações de Portalegre e de Beja, respetivamente o Estrela e o Luso. Com arbitragem do lisboeta Ilídio Nogueira foi mais forte o conjunto do Baixo Alentejo, que graças a dois golos de Fausto e Martins avançava para os quartos-de-final.
Por último, entrou em campo o Belenenses, que poucas semanas havia angariado o direito de participar no Campeonato de Portugal em virtude da conquista do seu primeiro título de campeão da Associação de Futebol de Lisboa. Orientados tecnicamente pelo fundador do clube da Cruz de Cristo, Artur José Pereira, os jogadores belenenses não sentiram grandes dificuldades para afastar os Leões de Santarém, conforme traduz a expressiva vitória por 7-2, com destaque para os bis (dois golos) das grandes estrelas dos lisboetas daquela altura, Pepe e Rodolfo Faroleiro.

Belenenses que nos quartos-de-final, disputados no dia 16 de maio, voltou a mostrar o porquê de ter vencido com mérito o dificil Campeonato de Lisboa, onde superrou duros obstáculos, como por exemplo Sporting e Benfica! Não é para todos. Mas voltando ao Campeonato de Portugal, os azuis de Belém aplicaram uma nova goleada, desta feita ao Sporting de Espinho, que saiu do Campo Grande vergado a uma derrota de 1-4.
Mais a norte, no Porto, o crónico campeão local despachava o Sporting de Braga por 3-0, com golos de Balbino da Silva (dois) e Hall, o inglês que haveria de se sagrar o melhor marcador desta edição da prova. E por falar em campeões crónicos, em Setúbal (no Campo dos Arcos) entrou em campo o campeão do Algarve, o Olhanense - isento da 1ª eliminatória -, que iria golear por 5-0 o Luso Beja.

Marítimo humilha o FC Porto!

E chegavámos assim às meias-finais. Eliminatória esta onde de acordo com os regulamentos da União Portuguesa de Futebol (UPF) estava já o campeão da Madeira, o Marítimo, que tal como nas edições anteriores havia escapado às primeiras eliminatórias. Estranha foi a decisão do organismo que tutelava o futebol português em fazer com que o campeão da Associação de Futebol do Porto disputasse a sua meia final em Lisboa, e o campeão da associação da capital lutasse pelo acesso à final em terrenos portuenses! Sem se compreender esta caricata decisão da UPF o FC Porto lá teve de viajar para Lisboa para enfrentar o Marítimo... num ambiente para lá de hostil. No Campo Grande os portistas lutaram contra dois adversários, o conjunto oriundo da Madeira, e o público, afeto aos clubes da capital, que não se cansou de apupar e insultar os jogadores azuis-e-brancos ao longo da partida. Era visível o ódio de estimação que começava a crescer entre os adeptos dos clubes das duas maiores cidades do país, sendo que na memória dos lisboetas estava ainda bem fresca a final do Campeonato de Portugal de 1925, entre o FC Porto e o Sporting, último clube este que segundo a imprensa lisboeta - claro está - saíra prejudicado pela atuação do árbitro galego Rafael Nuñez.
Mas voltando ao duelo do Campo Grande - que estava cheio como um ovo - o que se assistiu ao longo de 90 minutos foi um autêntico vendaval madeirense! Quiçá afetados pela hostilidade do público local os portistas viveram uma tarde de pesadelo, um dos piores momentos da sua história, há que dizê-lo. Foram esmagados - a palavra mais simpática que encontramos para descrever os acontecimentos vividos naquela tarde - pelos madeirenses por 7-1! Sim, sete, e mais poderiam ter sido caso o melhor elementos dos desnorteados portistas não tivesse sido o seu lendário guarda-redes Mihaly Siska. Este resultado impensável causou delírio entre o público da capital, que festejou a vitória do Marítimo como se esta tivesse sido alcançada por um dos seus clubes de eleição.

A imprensa lisboeta também não perdeu - mais uma vez - a oportunidade de empolar este histórico acontecimento desportivo, ou melhor, a celébre tragédia portista. O Ecos do Sport - que deu grande destaque à partida - escrevia: «Esta é a verdade: Siska não foi batido só pelo ataque do Marítimo, mas, sobretudo, pela sua própria defesa. Siska foi o único no grupo do Porto que jogou. Ele teve, na realidade, um trabalho extenuante, porque os avançados da Madeira atiraram ao goal (baliza) quase quando e como quiseram. Assim desajudado qualquer guarda-redes sucumbia. A arbitragem de Ilídio Nogueira (de Lisboa) foi, quanto a nós, muito acertada, não se perturbando ante as ruidosas manifestações do público que, a todo o transe, queria fouls (faltas) contra o Porto».
Na cidade do Porto o resultado foi recebido com choque entre os adeptos do emblema azul-e-branco. Com a vergonha - diante de tamanha derrota - dezenas de sócios portistas rasgaram os seus cartões de associados, calcaram emblemas, queimaram bandeiras, e não pouparam críticas aos seus jogadores, dirigentes, e claro, ao treinador. O elo mais fraco acabou mesmo por ser o húngaro Akos Tezler, que um ano antes havia conduzido os portistas ao título de campeão de Portugal, acabando por ser despedido pouco depois desta trágica eliminatória, ao que parece por ter pedido um... aumento de ordenado após ter sido humilhado pelos rapazes da Madeira!
O rescaldo do jogo ante o Marítimo prolongou-se por mais alguns dias mais, tendo o presidente da Direção do clube da Invicta, Domingos Almeida Soares, saido a terreiro para não só lamentar tamanha derrota mas sobretudo para criticar a hostilidade com que o seu clube foi recebido em Lisboa, lamentando profundamente «a antipatia formidável que o sul mantém pelo norte».

Fundado no ano (1910) da implantação da República o Marítimo construía assim o momento mais sublime da sua ainda curta história de vida. Um momento presenciado por um jovem rapaz de 14 anos, que à socapa havia viajado incógnito no paquete Lima, o barco que transportou os madeirenses até ao continente. Vasco Nunes, o nome deste aventureiro de palmo e meio, que posteriormente contou à imprensa a sua recambulesca história. «Comprei um quilo de bolachas e uma garrafa de groga numa venda onde a minha mãe tem confiança, agarrei nos embrulhos e na trouxa, deitei a correr para o cais, meti-me numa lancha e fui para bordo, onde me escondi debaixo de um beliche. Já o barco tinha levantado ferro, senti-me agarrado pela grenha e pus-me a chorar. Era um criado, um malandro, que me bateu e levou ao comandante. Já o barco ia nas laturas de Porto Santo. Depois levaram-me para 3ª classe, onde os rapazes do Marítimo, sabendo do meu caso, me iam levar de comer. Quando chguei a Lisboa é que foi o diabo. Queríam entregar-me à polícia marítima e chegaram a meter-me no porão, onde tive medo de umas vacas muito grandes que lá estavam. Quem me salvou foi o José Ramos e o Domingos, o capitão do Marítimo. Foram ao comandante e pediram a minha liberdade, dizendo que se responsabilizavam por mim...». De pronto Vasco tornou-se na mascote da equipa, acompanhado de perto a caminhada gloriosa dos verde-rubros no campeonato, em cuja final encontraram os rapazes de Belém, que na meia-final haviam derrotado o Olhanense por uns curtos 2-1.

Final só durou 60 minutos!

A comitiva madeirense teve de fazer um esforço financeiro para permanecer no continente por mais duas semanas (!) até ao jogo da final. Jogo decisivo que a UPF agendou para o Porto, mais precisamente para o Campo do Ameal, propriedade do Progresso. Decisão que fez estalar o verniz entre jogadores e dirigentes belenenses. Cientes da intensa rivalidade entre Lisboa e Porto os homens da Cruz de Cristo receavam ser... mal recebidos na Invicta, e como tal protestaram o palco da final. A UPF fez ouvidos moucos e os belenenses lá foram contrariados para o Porto onde - tal como haviam previsto - foram recebidos com uma cruel hostilidade pelo público portuense. Adeptos estes que, esquecendo a humilhação que o Marítimo havia aplicado ao FC Porto semanas antes, tomaram partido do conjunto da Madeira do príncipio ao fim do jogo ocorrido a 6 de junho.
Os jogadores de Belém entraram no Ameal debaixo de um coro ruidoso de assobios e apupos, ambiente que desde logo os enervou, e condicionaria em grande parte do encontro. O portuense José Guimarães foi o árbitro de um jogo que até começou equilibrado, com luta intensa a meio campo. Com o avançar do relógio, e com os gritos de incentivo ao Marítimo como som de fundo, a partida foi endurecendo, o que favorecia os rapazes da ilha da Madeira, mais resistentes do ponto de vista físico. Madeirenses que aos 35 minutos dispuseram de uma oportunidade sublime para chegar à vantagem, na sequência de uma grande penalidade assinalada a castigar uma falta belenense. Oportunidade que seria desperdiçada, e o encontro lá continuou com o nulo no marcador até ao intervalo. Na etapa complementar o Belenenses entrou melhor, mas seria o Marítimo a chegar ao golo à passagem do minuto 55 por intermédio de José Fernandes, na cobrança de um livre direto.

Cinco minutos volvidos Ramos faria o 2-0, e o Campo do Ameal explodiu de alegria, ao mesmo tempo em que os jogadores lisboetas eram provocados e ridicularizados pelo público ali presente. Belenenses que protestaram vincadamente o segundo golo insular, alegando irregularidades. Augusto Silva, um dos melhores jogadores dos azuis, terá mesmo puxado o braço do árbitro, pedindo-lhe satisfações, ao que este sem mais demora deu ordem de expulsão ao belenense. Augusto Silva recusou-se a sair do campo, e a desordem instalou-se no Ameal. O público continuava a insultar os lisboetas, agora mais do que nunca, e só a intervenção pronta da polícia a cavalo terá evitado males maiores. Augusto Silva continuava a recusar sair do campo, e assim sendo, o árbitro, após consultar os dirigentes da UPF ali presentes, decidiu por encerrar o jogo, e consequentemente atribuir o título de campeão ao Marítimo.
A festa estalou de pronto. Era como se os madeirenses estivessem a jogar em casa! Os lisboetas não calaram a sua revolta, e no dia seguinte a imprensa da capital saia mais uma vez em defesa dos seus: «Caído o verniz da compustura, os facciosos portuenses deram largas ao seu despeito e ao seu rancor a Lisboa, os jogadores do Belenenses tiveram de passar por entre alas de público que os cobriu de vaias, dirigindo-lhes  os insultos mais soazes. Estiveram iminentes vários conflitos...», assim escrevia Ribeiro dos Reis no Sport de Lisboa.
No dia 10 de junho, a comitiva do Marítimo chega finalmente a casa. A ilha da Madeira parou por completo nesse dia para receber de forma apoteótica os seus heróis.

A figura: Norman Hall

O FC Porto pode até ter saído humilhado deste Campeonato de Portugal, mas o seu lendário capitão de equipa da época, Normal Hall, foi a figura da competição. Nasceu em Inglaterra, em finais do século XIX (12 de outubro de 1897), tendo aos oito anos de idade vindo com os seus pais para Portugal, onde iniciaria, tempos mais tarde, a sua brilhante carreira de futebolista no clube do seu coração, o FC Porto. Avançado habilidoso e eficaz Hall cedo se tornou num ídolo da fervorosa massa adepta do clube nortenho.
Em finais de 1919 passou a integrar a equipa principal do clube, sendo que para além de um notável jogador era um verdadeiro cavalheiro. Um gentleman, um exemplo de fair-play, sempre amável com os seus companheiros e cordeal com os adversários. Esta tornar-se-ia na sua imagem de marca. A sua estreia com a camisola do Porto foi histórica. Aconteceu a 4 de abril de 1920, em Lisboa, diante do Benfica, um jogo que os portistas venceram por 3-2, sendo esta a primeira vitória azul-e-branca alcançada no reduto do inimigo do sul.
Era um goleador nato, e a prova disso foram os seus 10 golos apontados neste Campeonato de Portugal de 1926, sendo oito deles no jogo diante do Vila Real. Foi capitão do FC Porto durante várias épocas, e no seu palmarés constam 12 títulos de campeão regional e um de campeão de Portugal (24/25). Despediu-se dos campos de futebol no início da década de 30, e dele ficou a memória de um grande desportista, de um homem honesto, um cavalheiro, portador de uma paixão desmedida pelo seu FC Porto.

Nomes e números do Campeonato de Portugal de 1925/26

1ª eliminatória

Sporting de Espinho - União de Coimbra: 4-3

FC Porto - Vila Real: 10-0

Braga - Vianense: 1-0

Luso Beja - Estrela de Portalegre: 2-0

Belenenses - Leões de Santarém: 7-2

Quartos-de-final

Belenenses - Sporting de Espinho: 4-1

FC Porto - Braga: 3-0

Olhanense - Luso Beja: 5-0

Meias-finais

Marítimo - FC Porto: 7-1

Belenenses - Olhanense: 2-1

Final

Marítimo - Belenenses: 2-0 (final dada por terminada aos 60 minutos)

Data: 6 de junho de 1926

Estádio: Campo do Ameal, no Porto

Árbitro: José Guimarães (do Porto)

Marítimo: Ângelo Ortega Fernandes; António Sousa e José Correia; Domingos Vasconcelos cap, Francisco Lopes e José de Sousa; José Ramos, António Alves, António Teixeira “Camarão”, Manuel Ramos e José Fernandes.Treinador: Ekker

Belenenses: Francisco Assis; Eduardo Azevedo e Júlio Marques; José Almeida, Augusto Silva cap e César Matos; Fernando António, Rodolfo Faroleiro, Silva Marques, José Manuel Soares “Pepe” e Alfredo Ramos. Treinador: Artur José Pereira

 Golos: 1-0 (Fernandes, aos 55m), 2-0 (Ramos, aos 60m)


Legenda das fotografias:
1-Equipa do Marítimo campeã de Portugal
2-Belenenses
3-Lance do jogo entre Marítimo e FC Porto
4-Página do jornal Ecos dos Sports, noticiando a tarde negra dos portistas
5-A capa do citado jornal, ilustrando o quinto golo madeirense
6-Lance do primeiro golo madeirense
7-Lance do segundo tento dos campeões de Portugal de 1926
8-Norman Hall
9-A festa madeirense aquando da chegada do Marítimo à ilha