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quarta-feira, julho 29, 2015

Histórias do Planeta da Bola (13)... A Taça Latina (parte II)

Gre-No-Li, o trio sueco que conduziu o Milan
à glória na terceira edição da Taça Latina
Depois de Espanha e Portugal terem acolhido as duas primeiras edições da Taça Latina foi a vez de Itália abrir as portas a uma competição que havia já subido ao patamar internacional da fama futebolística. Turim e Milão foram as duas cidades que sedearam um certame que na sua terceira edição contou com os campeões nacionais de Itália, Portugal, e Espanha, respetivamente o Milan, o Sporting, e o Atlético de Madrid. Os campeões de França, o Nice, não marcaram presença, tendo a nação gaulesa sido representada pelo Lille. A primeira meia-final teve lugar em Milão, a 20 de junho, tendo o Estádio de San Siro como palco de um confronto que colocou frente a frente a turma da casa, o Milan, e o Atlético de Madrid. Milanistas em cuja formação brilhava um trio de craques nórdicos, três jogadores que marcaram uma geração – uma grande geração, há que sublinhá-lo – do futebol da Suécia, o país de onde eram originários Gunnar Gren, Gunnar Nordhal, e Nils Liedholm, os três artistas em questão. A sintonia entre os três era perfeita, tendo sido traduzida em épicos momentos futebolísticos, tanto ao serviço da seleção sueca como do Milan, emblema onde o trio Gre-No-Li – como seria batizado – encantou os tiffosi ao longo de seis temporadas. E na meia-final ante o Atlético os três suecos foram peças fundamentais para a conquista de um triunfo expressivo por parte do Milan, que inaugurou o marcador à passagem do minuto 18 por intermédio de Renosto. Quatro minutos volvidos foi a vez de Nordhal dilatar o marcador. No segundo tempo os campeões de Itália, que como curiosidade neste jogo vestiram uma camisola azul, contrariando assim a tradicional maglia rossenera – camisola negra e encarnada –, chegaram ao 3-0 de novo por intermédio de Renosto, aos 53 minutos. Com o jogo praticamente ganho o Milan abrandou e permitiu a Carlsson reduzir – aos 70 minutos – e dar alguma esperança aos espanhóis. Porém, e de modo a não sofrer uma desilusão, os italianos voltaram à carga, e aos 74 minutos Renosto fez o seu terceiro golo da tarde, selando assim o marcador em 4-1 a favor da sua equipa que assim avançava para a final.

O "violino" Vasques
No dia seguinte, no Stadio Comunale de Turim, Sporting e Lille deram vida a uma partida que terminou empatada por falta de... iluminação! No final do tempo regulamentar as equipas empatavam a uma bola – o tento dos portugueses foi marcado pelo violino Vasques, aos 56 minutos – sendo que com a noite a cair sobre Turim e o facto de o estádio não ter iluminação artificial fez com que a organização agendasse uma partida de desempate para o dia seguinte. Jogo este onde a festa do golo foi uma constante. Por uma dezena de ocasiões a bola beijou as malhas das duas balizas, seis por intermédio dos franceses e quatro pelos portugueses, que assim eram afastados da final. Vasques foi mais uma vez o leão em destaque, já que três dos quatro tentos sportinguistas foram da sua autoria, sendo o outro apontado por Caldeira.
Treinado pelo inglês Randolph Galloway o Sporting chegou a Itália em cima do encontro com o Lille, facto que a juntar ao aspeto de ter de disputar com os franceses dois jogos no período de 24 horas colocou os leões fisicamente... de rastos. O cansaço físico foi pois o principal adversário do Sporting na partida de apuramento dos 3º e 4º lugares diante dos madrilenos, ocorrida em San Siro, diante de 10.000 espetadores e apitada pelo italiano Giuseppe Carpani. Travassos ainda disfarçou o desgaste leonino quando aos oito minutos bateu Dauder e abriu o marcador. Sol de pouca dura, já que cinco minutos passados Carlsson repôs a igualdade com que atingiu o intervalo. No segundo tempo os portugueses caíram de produção, facto aproveitado pelos campeões de Espanha – orientados pelo mago Helenio Herrera – para fazer dois golos na reta final da partida que lhes concederam o lugar mais baixo do pódio.

O trio de arbitragem com os capitães do Milan e do Atlético de Madrid
antes do pontapé de saída da meia-final
O mesmo San Siro foi a 24 de junho o palco da grande final da prova, uma final sem grande história, já que o emblema da casa, o Milan atropelou autenticamente um Lille que pouca ou nenhuma resistência ofereceu ao longo dos 90 minutos. Ao intervalo a vantagem (3-0) milanista pecava por escassa, dado o caudal ofensivo que os pupilos de Lajos Czeizler evidenciavam. Nordhal, aos 32 e 37 minutos, e Burino, aos 40 minutos, foram os marcadores do Milan. Na segunda metade os italianos mantiveram a toada ofensiva, quase asfixiante sobre a baliza de Pierre Angel, postura premiada com a obtenção de mais dois golos – um por intermédio de Gunnar Nordhal e outro de Annovazzi. Com o apito final do suíço Eugen Scherz chegou a natural explosão de alegria dos tiffosi que lotaram as bancadas de San Siro. O Milan vencia assim de forma inquestionável a primeira das suas duas Taças Latinas.

Nomes e números:

Foto de jornal que retrata o primeiro golo milanista diante dos madrilenos
Meias-finais

Milan (Itália) – Atlético de Madrid (Espanha): 4-1
Sporting (Portugal) – Lille (França): 1-1/4-6 (desempate)

Jogo de atribuição dos 3º e 4º lugares

Atlético de Madrid (Espanha) – Sporting (Portugal): 3-1

Final

Milan (Itália) – Lille (França): 5-0

Data: 24 de junho de 1951
Estádio: San Siro, em Milão (Itália)
Árbitro: Eugen Scherz (Suíça)

Milan: Lorenzo Buffon, Arturo Silvestri, Andrea Bonomi, Carlo Annovazzi, Omero Tognon, Benigno De Grandi, Renzo Burini, Gunnar Gren, Gunnar Nordahl, Nils Liedholm, e Albano Vicariotto. Treinador: Lajos Czeizler.

Lille: Pierre Angel, Jacques Van Cappelen, Guy Poitevin, Albert Dubreucq, Marceau Somerlinck, Cor van der Hart, Erik Kuld Jensen, Bolek Tempowski, André Strappe, Jean Vincent, e Jean Lechantre. Treinador: André Cheuva.

Golos: 1-0 (Nordhal, aos 32m), 2-0 (Burini, aos 40m), 3-0 (Nordhal, aos 37m), 4-0 (Nordhal, aos 67m), 5-0 (Annovazzi, aos 70m).
A famosa squadra do Milan que triunfou na Taça Latina de 1951

1952: Visca el Barça!

Fase do jogo entre Barça e Juve
Dando seguimento ao sistema de rotatividade no que concerne ao acolhimento da Taça Latina por parte das quatro nações que integravam a competição, em 1952 foi a vez da França, e mais em concreto a deslumbrante cidade de Paris, servir de palco para receber os campeões nacionais de Itália, Portugal, Espanha, e claro, França, respetivamente, a Juventus, o Sporting, o Barcelona, e o Nice. Seria precisamente esta última equipa abrir as cerimónias, juntamente com os campeões de Portugal, no dia 25 de junho. A particularidade nesta quarta edição prendeu-se com o facto de que pela primeira vez se jogou à noite, com iluminação artificial. Assim foi pois desenrolado o duelo entre franceses e portugueses no Parque dos Príncipes, o qual teve início praticamente com o golo dos rapazes da Côte d' Azur, logo ao minuto oito, por intermédio de Carré. A iluminação parece ter encadeado os jogadores do Sporting que ao intervalo perdiam por 3-0! Na segunda parte os leões ainda reagiram, e no espaço de três minutos – entre os 62 e os 64 minutos – reduziram a desvantagem por intermédio de Veríssimo e Albano, mas logo depois Carré aplicava o golpe de morte ao fazer o 4-2 final.

O cartaz da grande final
No dia seguinte foi a vez do Barça e da Juve subirem ao relvado da catedral do futebol gaulês, para protagonizarem um encontro emotivo e cheio de golos. O Barcelona entrou ao ataque e logo ao minuto três Manchón fez o primeiro da noite, para à passagem dos 20 minutos Basora ampliar a vantagem catalã. À beira do descanso o inspirado Boniperti reduziu a desvantagem, mas no reatamento o mágico húngaro Kubala voltou a distanciar o Barça no marcador. O ataque dos campeões de Espanha estava endiabrado, e quatro minutos volvidos Basora fez o 4-1. A Vecchia Signora não baixou os braços e de novo Boniperti fez o gosto ao pé a dez minutos do apito final do francês Vincenti. Dois minutos antes do segundo tento transalpino Hansen desperdiçou uma grande penalidade a favor da Juve, ao permitir a defesa do mítico guardião Ramallets. 4-2 a favor do Barça que assim lograva atingir a sua segunda final da Taça Latina.
No encontro de atribuição dos terceiro e quarto lugares o Sporting voltou a andar à deriva no relvado do Parque dos Princípes. Com apenas 15 minutos de jogo disputados os lisboetas já perdiam por 3-0 (!) ante a Juventus – com golos de Boniperti (5m), Hansen (7m), e Vivolo (15m). Ainda antes do descanso João Martins – o tal que alguns anos mais tarde viria a apontar o primeiro golo da história das competições europeias organizadas pela UEFA – reduziu, e já na segunda parte o mesmo jogador fez de novo o gosto ao pé para selar o resultado final em 2-3. Treinados pela antiga lenda do futebol húngaro Gyorgy Sarosi – que havia brilhado em diversas edições da Taça Mitropa ao serviço do Ferencvaros – a Juve levava para casa o prémio de consolação, o terceiro lugar.

A loucura na chegada dos campeões à Catalunha
No dia 29 de junho e sob a arbitragem do português Rui dos Santos os holofotes do Parque dos Princípes centraram-se nas estrelas do Barcelona e do Nice, os dois finalistas da quarta edição da Taça Latina. Assistiu-se a uma partida equilibrada, em que o nulo teimava em não sair do marcador, um jogo em que os catalães encontraram pela frente uma equipa que contrariamente ao que havia feito a Juve na meia-final se opôs com vigor às investidas do perigoso ataque dos campeões de Espanha. Foi preciso esperar até ao minuto 79, altura em que o capitão César apontou o único golo do encontro a favor do Barça que assim arrecadava a sua segunda coroa de glória continental. Esta foi aliás uma temporada muito especial para o Barcelona, eternizada como a época das “5 Copas”. Cinco vitórias noutras tantas competições disputadas, um saldo que conferiu a imortalidade à equipa treinada pelo checoslovaco Ferdinand Daucik. À Taça Latina juntavam-se os títulos de campeão de Espanha, o de vencedor da Copa del Rey (Taça de Espanha), da Copa Eva Duarte (antecessora da atual supertaça espanhola), e da Copa Martini & Rossi (na época um torneio muito afamado em terras espanholas). Rezam as crónicas que a viagem dos catalães de Paris até Barcelona foi feita em clima de apoteose, com uma verdadeira caravana de carros e de motos a acompanhar os novos campeões da... Europa. A loucursa subiu de tom assim que a equipa chegou à Cidade Condal, onde a esperavam milhares de adeptos, orgulhosos dos seus rapazes. Com a taça nas mãos o capitão César subiu até à varanda do ayuntamiento – câmara municipal – para partilhar a doce conquista com o povo catalão.

Nomes e números:

Meias-finais

Nice (França) – Sporting (Portugal): 4-2
Barcelona (Espanha) – Juventus (Itália): 4-2

Jogo de atribuição dos 3º e 4º lugares

Juventus (Itália) – Sporting (Portugal): 3-2

Final

Barcelona (Espanha) – Nice (França): 1-0

Data: 29 de junho de 1952
Estádio: Parque dos Princípes, em Paris (França)
Árbitro: Rui dos Santos (Portugal)

Barcelona: Antoni Ramallets, Cheché Martín, Gustavo Biosca, Josep Seguer, Andreu Bosch Pujol, Jaime Escudero, Estanislao Basora, César Rodríguez, Ladislao Kubala, Emilio Aldecoa, e Eduardo Manchón. Treinador: Ferdinand Daucik.

Nice: Marcel Domingo, Mohamed Firoud, Alphonse Martinez, Pancho Gonzales, Guy Poitevin, Jean Belver, Jean Courteaux, Victor Nurenberg, Désiré Carré, Antoine Bonifaci, e Abdelaziz Ben Tifour. Treinador: Numa Andoire.

Golo: 1-0 (César, aos 79m).
Foi de camisola branca (ironia do destino) que o Barcelona somou
o seu segundo triunfo na Taça Latina

1953: Triunfo do futebol champanhe

Albert Batteux assiste do banco à exibição
da sua obra de arte
França, nação aristocrata, repleta de glamour, apaixonada pelas artes, e que olhou - durante várias décadas - com indiferença, e algum desprezo, o futebol, modalidade tão popular noutros pontos do globo mas que em terras gaulesas demorou a criar raízes. Foi preciso esperar até à década de 50 para ver o futebol despertar nos franceses uma ponta de curiosidade e ao mesmo tempo de fascínio! Tudo graças a Albert Batteux, uma ilustre figura considerada como o pai do futebol francês. O homem que lançou as sementes das gerações vencedoras do futebol gaulês, de Platini a Zidane, o criador de um estilo de jogo tecnicamente elegante eternizado como... o futebol champanhe. Foi precisamente este o estilo que imperou na quinta edição da Taça Latina, que pela segunda vez decorreu em solo português, desta feita, e para além de Lisboa, também na cidade do Porto. A capital engalanou-se no dia 4 de junho de 1953 para ver o seu Sporting – campeão nacional em título – iniciar uma campanha que se sonhava ser de glória. Na verdade, toda a nação sportinguista suspirava pelo título que faltava conquistar aos leões, precisamente a prova internacional. No entanto, no Estádio Nacional as coisas não correram de feição aos pupilos de Randolph Galloway na meia-final diante do Milan, equipa que marcou presença no evento em substituição do campeão italiano de então, o Inter. A partida não começou da melhor forma para os portugueses, os quais cedo se viram privados de Joaquim Pacheco que teve de abandonar o campo por lesão. Ora, como na altura não eram permitidas substituições os lisboetas tiveram de jogar o resto do encontro com menos um jogador. Mesmo assim, Vasques, a um minuto do intervalo, inaugurou o marcador, que seria igualado aos 66 minutos por intermédio de um dos três suecos dos milanistas, neste caso Gunnar Nordhal. A jogar com mais um elemento os italianos intensificaram a pressão sobre os rapazes de Galloway e volvidos quatro minutos o mesmo Nordhal colocaria o Milan na liderança do marcador. Oito minutos depois o guardião Carlos Gomes tornou-se herói ao defender uma grande penalidade apontada por Nils Liedholm, mantendo desta forma o Sporting vivo em campo. Este lance galvanizou os portugueses, e eis que a um minuto dos 90 João Martins fez explodir de alegria as bancadas ao restabelecer a igualdade. Perante isto houve então a necessidade de um prolongamento, período este onde os locais começaram melhor, já que o endiabrado Martins voltou a festejar um golo. Porém, a quatro minutos do término do tempo extra, e quando os leões já pensavam na final, eis que Liedholm aparece em off-side para... fazer o empate. De nada valeram os protestos leoninos, que assim eram obrigados a um novo prolongamento, este mais curto, de 10 minutos. E no derradeiro minuto deste segundo tempo extra Frignani despejou um verdadeiro balde de água gelada sobre os lisboetas ao fazer o golo do triunfo milanista, o 4-3 final.

O Napoleão do futebol francês:
Raymond Kopa
Na outra meia-final, disputada no Porto, eis que surgiu o tal futebol champanhe protagonizado pelos campeões de França, o Stade Reims. Idealizado por Albert Batteux este estilo futebolístico encantou a Europa graças à sua beleza técnico-tática. No retângulo de jogo onze monsieurs davam vida ao inovador esquema de Batteux, mas um particular destacava-se dos demais, Raymond Kopa, de seu nome. O Napoleão do futebol gaulês, como ficou eternizado na história, era a grande estrela daquele pequeno clube que conquistou os franceses – e o resto do Velho Continente – na década de 50. Ele foi um dos principais responsáveis pela passagem do Reims à final da Taça Latina de 1953 após bater o Valência – representante espanhol na ausência do campeão Barcelona – por 2-1.
Valência que no jogo de atribuição dos terceiro e quartos lugares não teve garras para travar um aguerrido Sporting, que de orgulho ferido esmagou os espanhóis por 4-1, com golos de Vasques e Martins, cada um deles com dois tentos na conta pessoal.
A final, arbitrada pelo portuense Viera da Costa, foi mais um recital de bem jogar do Stade Reims. Logo aos 31 minutos Kopa abriu o marcador perante um Milan a quem nem o talentoso trio de suecos – Gunnar Gren, Gunnar Nordhal, e Nils Liedholm – valeria para evitar uma concludente derrota por 3-0. Méano, aos 53 minutos, e de novo Raymond Kopa, à passagem do minuto 75, derão expressão ao merecido triunfo do... futebol champanhe do Stade Reims.

Números e nomes:

Meias-finais

Sporting (Portugal) – Milan (Itália): 3-4
Stade Reims (França) – Valência (Espanha): 2-1

Jogo de atribuição dos terceiro e quarto lugares

Sporting (Portugal) – Valência (Espanha): 4-1

Final

Stade Reims (França) – Milan (Itália): 3-0

Data: 7 de junho de 1953
Árbitro: Vieira da Costa (Portugal)
Estádio: Nacional, em Lisboa (Portugal)

Stade Reims: Paul Sinibaldi, Simon Zimny, Roger Marche, Armand Penverne, Robert Jonquet, Raymond Cicci, Abraham Appel, Léon Glovacki, Raymond Kopa, Jean Templin, e Francis Méano: Treinador: Albert Batteux.

Milan: Lorenzo Buffon, Arturo Silvestri, Francesco Zagatti, Carlo Annovazzi, Omero Tognon, Celestino Celio, Renzo Burini, Gunnar Gren, Gunnar Nordahl, Nils Liedholm, e Amleto Frignani. Treinador: Mario Sperone.

Golos: 1-0 (Kopa, aos 31m), 2-0 (Méano, aos 53m), 3-0 (Kopa, aos 75m).
Stade Reims posa com a Taça Latina de 53

DEDICADO À MEMÓRIA DO MEU PAI...



quarta-feira, julho 08, 2015

Histórias do Planeta da Bola (12)... A Taça Latina (parte I)

A Taça Latina
O sucesso obtido pela Taça Mitropa na década de 30 do século passado reacendeu o interesse dos povos do sul da Europa no sentido de erguer uma competição internacional ao nível de clubes. A primeira tentativa surgiu mesmo na época em que a competição idealizada pelo austríaco Hugo Meisl vivia a sua era dourada (1927-1939). Tentativa essa que foi feita pelo espanhol Alberto Fernàndez, um jornalista que na altura apresentou a ideia de criar uma competição extra-muros que agregasse a si as seleções do sul do Velho Continente, proposta que na época foi recebida com profundo desinteresse pelas federações, acabando por ficar metida na gaveta por mais de duas décadas. Altura em que outro espanhol voltaria à carga, agora com argumentos de maior peso, desde logo porque na memória da cada vez mais numerosa família futebolística europeia estava o êxito que havia sido gerado em torno da Taça Mitropa. Foi pois olhando para o sucesso angariado pela lendária competição da Europa Central que o presidente da Real Frederación Española de Fútbol, Alberto Muñoz Calero, colocou em cima da mesa o projeto de criar uma grande competição que reunisse os campeões nacionais de Espanha, França, Itália, e Portugal. Competição essa que seria então batizada de Taça Latina. Abra-se no entanto aqui uma parêntese para referir que muitos historiadores desportivos defendem que a ideia de criar a competição nasceu em Portugal, e cujo progenitor da ideia seria o histórico jogador, dirigente e jornalista Ribeiro dos Reis, figura que terá proposto aos jornais Os Sports e A Bola a criação de um torneio anual disputado entre os campeões dos dois países ibéricos – Portugal e Espanha.

São pois diferentes as versões sobre o nascimento de uma prova que iria ver a luz do dia em 1949, tendo ficado definido pelo comité organizador – numa reunião realizada em Barcelona a 2 de janeiro de 1949 – que o torneio seria disputado num único país e que o formato do mesmo seria composto por um sistema de eliminatórias, ou seja, meias-finais, jogo de apuramento dos 3º e 4º lugares, e final.



Alberto Muñoz Calero
Madrid e Barcelona foram então as cidades escolhidas para dar vida à 1ª edição da Taça Latina, que foi integrada pelo Barcelona, Stade Reims, Sporting, e Torino, campeões nacionais dos seus respetivos países. Os italianos surgiam em Espanha vestidos de luto, em consequência da tragédia ocorrida a 4 de maio desse ano de 1949, altura em que depois de um jogo amigável realizado em Lisboa, diante do Benfica, o avião que transportava a comitiva do Toro de regresso a casa embateu contra uma das torres da Basílica de Superga, vitimando todos os que seguiam a bordo. A tragédia chocou o Mundo, em especial o Planeta da Bola, já que aquele acidente fazia desaparecer a mais talentosa equipa italiana da época, e uma das mais fortes do Velho Continente, eternizada como Il Grande Torino. Órfão dos seus maiores craques foi com uma equipa constituída à base de jovens jogadores oriundos dos escalões de formação – com uma média de 17 anos de idade – que o Torino se apresentou em campo no dia 26 de junho, no Estádio Metropolitano, na capital espanhola, para defrontar os campeões de Portugal, o Sporting. Equipa esta onde brilhava um famoso quinteto avançado, conhecido como os Cinco Violinos. Fernando Peyroteo, Jesus Correia, Albano, Vasques, e Travassos formavam então o famoso quinteto que atuando no setor ofensivo do terreno de jogo ofereceu ao clube de Alvalade a glória na sequência de centenas de golos, saborosos títulos, e acima de tudo momentos deslumbrantes de futebol baseados num exímio entrosamento aliado a um elevado grau de qualidade futebolística de todos os seus elementos nunca dantes visto no desporto rei. Quem teve o privilégio de assistir aos recitais desta orquestra afirmava não ter dúvidas em rotular este como um dos períodos mais dourados do futebol português, e do Sporting em particular, lamentando apenas que estes cinco artistas não tenham tido a oportunidade de atuar juntos mais do que as três épocas em que fizeram furor de leão ao peito.

O famoso quinteto avançado do Sporting eternizado como os Cinco Violinos
Em Madrid os lisboetas encontraram um público hostil, que durante os 90 minutos mostrou uma vincada simpatia pelos jovens jogadores italianos, em claro sinal de solidariedade pelo que havia acontecido meses antes. Transalpinos que apesar da sua inexperiência venderam cara a derrota frente aos portugueses. 3-1 foi o resultado final deste duelo, sendo de destacar a exibição individual de Fernando Peyroteo, o temível matador dos leões, autor dos três golos da sua equipa, apontados aos 15, 26, e 48 minutos. Este último foi mesmo o último golo de Peyroteo com a camisola leonina, já que na temporada seguinte o famoso jogador decidiu deixar o clube após 12 gloriosas temporadas. 
 

Estanislao Basora
Na outra partida das meias-finais, disputada no Camp de Les Corts, em Barcelona, a equipa da casa não teve dificuldades em despachar os campeões de França, o Stade Reims, por 5-0. O resultado traduziu a superioridade evindenciada pelos catalães ao longo dos 90 minutos, sendo que ao intervalo o resultado até pecava por ser curto (2-0) em virtude da avalanche ofensiva que até então se havia verificado da parte dos campeões de Espanha. Seguer, aos seis minutos abriu, de cabeça, o marcador, e Nicolau, aos 25 minutos, aproveitou um erro do guardião Paul Sinibaldi para ampliar o score. Na etapa complementar César fez o gosto ao pé por duas ocasiões no espaço de 10 minutos e desde logo sentenciou a questão. Tempo houve ainda para os adeptos catalães vibrarem com mais um golo da sua equipa, da autoria de Canal, após um passe magistral de Seguer. No final do encontro o treinador dos franceses, Henri Roessier, lamentou o pesado resultado averbado pela sua equipa: «o 4-1 tinha sido melhor do que o 5-0». disse.

Uma semana mais tarde disputaram-se os dois últimos jogos desta primeira edição da Taça Latina. O primeiro colocou frente a frente em Les Corts (Barcelona) os derrotados das meias-finais, o Torino e o Stade Reims. Tal como haviam feito diante do Sporting os jovens italianos lutaram com bravura, apesar da sua inexperiência, postura que seria premiada com um triunfo por 5-3, garantindo assim o terceiro lugar.



O jornal A Marca titulando
o triunfo dos catalães
Em Madrid o Estádio de Chamartin acolheu 30.000 espetadores – onde entre os quais se destacou a presença do presidente da FIFA, Jules Rimet – que ali acorreram para assistir à grande final da competição. O Barça enfrentava aquela que muitos dos especialistas em matéria futebolística apontavam como a grande favorita ao triunfo final, a equipa do Sporting. A magnífica exibição coletiva dos leões – orientados pelo mestre Cândido de Oliveira – uma semana antes diante do Torino – sobretudo do seu quinteto ofensivo – havia deixado os espanhóis literalmente de boca aberta! Porém, e contrariamente ao sucedido ante o Torino, os portugueses encontraram muitas dificuldades para travar o ímpeto ofensivo do Barcelona. E não fosse uma soberba performance do guarda-redes Azevedo o Sporting teria saído de Chamartín humilhado. Logo aos 10 minutos do encontro Seguer abriu o marcador para os catalães, dando o melhor seguimento a um cruzamento de Basora. À passagem do minuto 26 Jesus Correia empatou a contenda após passe de Albano, repondo a igualdade com que se atingiu o descanso. Aos quatro minutos da segunda parte Basora recolocou o Barça na frente do marcador, o qual até final não mais se iria alterar, pese embora Jesus Correia tenha, já perto do final, desperdiçado uma ocasião soberana para voltar a igualar o encontro.

Na verdade, também o Barcelona teve algumas oportunidades para ampliar a sua vantagem, esbarrando sempre na verdadeira muralha em que se transformou Azevedo. De tal maneira que no rescaldo do jogo o herói da final, Basora, disse: «Azevedo tornou possível o equilíbrio de jogo a que o Sporting logrou chegar, mercê da confiança que as suas magníficas defesas lhe deu. Com outro guarda-redes, os portugueses ter-se-iam afundado na primeira meia-hora». Mesmo tendo conquistado o seu primeiro título internacional em casa do velho e eterno inimigo Real Madrid os jogadores do Barcelona seriam aplaudidos de pé pelo público, enquanto que os portugueses foram recebidos em Lisboa em apoteose pelos seus adeptos.



Nomes e números:



Meias-finais



Sporting (Portugal) – Torino (Itália): 3-1

Barcelona (Espanha) – Stade Reims (França): 5-0



Jogo de atribuição dos 3º e 4º lugares



Torino (Itália) – Stade Reims (França): 5-3



O onze do Barcelona que em Madrid conquistou a 1ª edição da Taça Latina
Final



Barcelona (Espanha) – Sporting (Portugal): 2-1



Data: 3 de julho de 1949

Árbitro: Victor Sdez (França)

Estádio: Chamartin, em Madrid (Espanha)



Barcelona: Juan Zambudio Velasco, Francisco Calvet, Curta, Calo, Gonzalvo III, Gonzalvo II, Estanislao Basora, Josep Seguer, Josep Canal Viñas, César Rodríguez, e Alfonso Navarro. Treinador: Enrique Fernández Viola.



Sporting: João Azevedo, Octávio Barrosa, Manecas, Juvenal, Carlos Canário, Veríssimo, Jesus Correia, Manuel Vasques, Fernando Peyroteo, José Travassos, e Albano. Treinador: Cândido de Oliveira.



Golos: 1-0 (Seguer, aos 10m), 1-1 (Jesus Correia, aos 27m), 2-1 (Basora, aos 59m).



1950: Benfica vence a longa maratona de Lisboa



Rogério Pipi ergue
na tribuna do Estádio Nacional
a Taça Latina
Em 1950 foi a vez de Portugal, e a cidade de Lisboa, mais concretamente, receber a competição internacional. A capital lusa engalanou-se para receber os campeões nacionais de França, Espanha, e Portugal, respetivamente, o Bordéus, o Atlético de Madrid, e o Benfica, equipas às quais se juntou a Lazio, conjunto italiano que viajou para território luso em substituição do campeão de Itália de 49/50, a Juventus, que declinou o convite da organização. O Estádio Nacional, inaugurado seis anos antes, foi o palco escolhido para o desenrolar do certame. De referir que esta segunda edição ficou marcada pelo facto de alguns dos melhores jogadores dos combinados participantes, mais concretamente os das equipas espanhola e italiana, terem estado ausentes, uma vez que na mesma altura decorria do outro lado do Atlântico – no Brasil, mais precisamente – o Campeonato do Mundo da FIFA. Perante este facto a organização da Taça Latina abriu um precedente ao permitir que as equipas mais despidas de craques se reforçassem com jogadores de outros conjuntos.

E no dia 10 de junho, feriado em Portugal, as equipas do Benfica e da Lazio de Roma sobem ao bem tratado relvado da "sala de visitas" do futebol lusitano, o Estádio Nacional, para dar o pontapé de saída da 2ª edição da competição. Nesse dia, e mercê de uma magnífica exibição, os benfiquistas batem a squadra transalpina por expressivos 3-0, com golos de Carmona, Arsénio, e Rogério, todos apontados durante os primeiros 45 minutos. Vitória indiscutível, escreveram os analistas desportivos da época, ante uma Lazio visivelmente afetada pela ausência de alguns dos seus melhores atletas, que, como já referimos, se encontravam no Brasil ao serviço da seleção de Itália. Indiscutível seria também o triunfo dos franceses do Bordéus ante os espanhóis do Atlético de Madrid, por 4-2, duelo ocorrido nesse mesmo dia 10 de junho.

Benfica e Bordéus lutam pela posse do esférico na final de 50
Ao contrário do que se havia verificado na edição de estreia o jogo de atribuição dos terceiro e quarto lugares e a final foram disputados no dia seguinte!!! Esse dia 11 de junho começava com os madrilenos do Atlético a levarem para casa o 3º lugar depois de vencerem uma desoladora Lazio por 2-1.

E eis que finalmente Benfica e Bordéus entraram em cena para travar a primeira metade de uma batalha que haveria de ter contornos emocionantes. Os portugueses chegaram facilmente ao 2-0 nos instantes iniciais da contenda, graças à pontaria certeira de Arsénio e Corona, respetivamente aos 4 e 17 minutos. Porém, do outro lado da barricada estava um conjunto de fino recorte técnico que ainda antes do intervalo daria a volta ao marcador, graças a um bis de André Doye e a um remate certeiro de René Persillon a dois minutos dos 45. Seria então na condição de derrotado (2-3) que o Benfica voltaria ao campo para disputar a etapa final da empolgante batalha. Pegando nas rédeas do encontro os benfiquistas dominaram a seu bel-prazer os segundos 45 minutos, acabando por chegar ao justo golo do empate por intermédio de Rogério à passagem do 55. Face a esta igualdade as duas equipas tiveram de enfrentar um prolongamento de 30 minutos, tempo extra onde nada de novo surgiu, pelo que a organização agendou uma finalíssima para uma semana mais tarde.



A alegria dos benfiquistas
contrasta com
a tristeza de um francês
18 de junho foi então o dia do novo confronto, tendo o Estádio Nacional registado uma afluência de 20 000 espetadores, um número estranho para aqueles dias, já que a média de assistências do campeonato português não ultrapassava os 5 000 espetadores. Mas talvez "enfeitiçados" pelo espetáculo que Benfica e Bordéus haviam proporcionado uma semana estes 20 000 entusiastas terão pensado que as duas equipas pudessem prolongar aquela magia futebolística por mais 90 minutos... no mínimo. E não se enganariam, muito pelo contrário. Os lusos entraram melhor numa finalíssima que iria ficar gravada na Grande Enciclopédia do Futebol como um dos jogos mais dramáticos da história, enviando uma bola aos ferros da baliza francesa. Não marcaram os encarnados... marcaram os azuis de Bordéus quando o relógio marcava apenas 11 minutos de jogo, por intermédio de Kargu. A perder, os pupilos de Ted Smith partiram para cima do Bordéus com todas as suas forças e alma, valendo ao emblema gaulês uma soberba exibição do guardião do seu templo, o guarda-redes Astresses. O Benfica ia tentando sem êxito chegar ao golo, e além dos franceses enfrentava agora outro rival de peso, o relógio, que galgava a linha do tempo a um ritmo alucinante. Perante este cenário o público afeto ao Benfica ia perdendo a esperança de ver o seu clube triunfar na (já) prestigiada competição internacional... e quando muitos, com um ar cabisbaixo, já se encaminhavam para fora da catedral do futebol lusitano, Arsénio faz o golo do empate aos 89 minutos, provocando uma imediata explosão de alegria nos que teimaram em ficar sentados nas bancadas de pedra do Jamor até ao apito final. 
A equipa do Benfica que no relvado do Estádio Nacional conquistou o primeiro título internacional para o futebol português
O relógio marcava 90 minutos! Um golo apontado em cima da linha de meta que levaria as equipas para mais um prolongamento. 30 minutos onde nada se alterou, sendo que segundo os regulamentos da prova teria de ser jogado em seguida um pequeno prolongamento de 10 minutos para se encontrar o vencedor. Teimosamente as equipas permaneceriam empatadas nestes 10 minutos suplementares, pelo que tiveram se de jogar... mais 10 minutos! Também durante este novo período nada de relevante ocorreu no relvado do Jamor que aos poucos ia deixando de ser iluminado pelo sol. A noite espreitava sobre Lisboa numa época em que o principal estádio português não tinha iluminação artificial! E eis que no terceiro período de 10 minutos (!), numa altura em que os jogadores dos dois conjuntos há muito que tinham ficado sem forças, muitos já nem se mexiam (!), em que jogavam já quase sem luz solar, Julinho apareceu do nada para fazer o 2-1 e acabar de vez com aquela longa maratona futebolística.

Já tinham passado 143 minutos (!) desde que o árbitro dera início à finalíssima. Com o apito final a festa estalou. 265 minutos - no total dos dois jogos - haviam sido precisos para coroar o Benfica como a primeira equipa portuguesa a vencer uma competição internacional. O público invadiu o relvado para abraçar os jogadores que já não tinham forças para sequer erguer os braços em sinal de vitória. Um pouco a custo Rogério de Carvalho - também conhecido por Rogério Pipi - subiu a longa escadaria até à tribuna do Jamor para receber a Taça Latina de 1950. No fim o treinador inglês do Benfica, Ted Smith, disse que «em 20 anos de futebol nunca vi nada assim!».



Nomes e números



Meias-finais



Benfica (Portugal) – Lazio (Itália): 3-0

Bordéus (França) – Atlético de Madrid (Espanha): 4-2



Jogo de atribuição dos 3º e 4º lugares



Atlético de Madrid (Espanha) – Lazio (Itália): 2-1



Final



Benfica (Portugal) – Bordéus (França): 3-3



Data: 11 de julho de 1950

Estádio: Nacional, em Lisboa (Portugal)

Árbitro: ?



Benfica: José Bastos, Jacinto, Joaquim Fernandes, Félix, Francisco Moreira, José da Costa, Rogério Pipi, Eduardo José Corona, Arsénio, Julinho, e Pascoal. Treinador: Ted Smith.



Bordéus: Jean-Guy Astresses, Manuel Garriga, Mérignac, Ben Kaddour M'Barek, Jean Swiatek, René Gallice, René Persillon, Mustapha Ben M'Barek, Édouard Kargu, Guy Meynieu, André Doye. Treinador: André Gérard.



Golos: 1-0 (Arsénio, aos 4m), 2-0 (Corona, aos 17m), 2-1 (Doye, aos 21m), 2-2 (Doye, aos 36m), 2-3 (Pesillon, aos 43m), 3-3 (Rogério, aos 55m).



Finalíssima



Benfica (Portugal) – Bordéus (França): 2-1



Data: 18 de julho de 1950

Estádio: Nacional, em Lisboa (Portugal)

Árbitro: Giacomo Bertolio (Itália)



Benfica: José Bastos, Jacinto, Joaquim Fernandes, Félix, Francisco Moreira, José da Costa, Rogério Pipi, Eduardo José Corona, Arsénio, Julinho, Rosário. Treinador: Ted Smith.



Bordéus: Jean-Guy Astresses, Manuel Garriga, Mérignac, Ben Kaddour M'Barek, Jean Swiatek, René Gallice, René Persillon, Mustapha Ben M'Barek, Édouard Kargu, Guy Meynieu, André Doye. Treinador: André Gérard.



Golos: 0-1 (Kargu, aos 11m), 1-1 (Arsénio, aos 89m), 2-1 (Julinho, aos 143m).