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quarta-feira, outubro 11, 2017

Histórias do Planeta da Bola (19)... O ÁS do volante com queda para a "pelota"

Juan Manuel Fangio com a camisola
do Rivadavia
O futebol arrebata corações um pouco por todos os pontos da nossa Aldeia Global, sendo indiferente a credos, religiões, raças, ou estatutos. O futebol é de todos e para todos... inclusive estrelas de outras modalidades. Bom, é partindo deste facto - verídico, com centenas de exemplos - que iremos esmiuçar a nossa história de hoje, uma história sobre rodas e que vai ser desenrolada a alta velocidade, há que sublinhá-lo, ou não fosse a nossa personagem principal de hoje uma das maiores lendas do automobilismo mundial: Juan Manuel Fangio, de seu nome.
Nascido na Argentina em 1911, em Balcarce para sermos mais precisos, Fangio é visto como a primeira grande superstar da Fórmula 1, tendo colecionado nesta categoria cinco títulos mundiais (1951, 1954, 1955, 1956 e 1957), fasquia apenas superada já no novo milénio pelo alemão Michael Schumacher (que ostenta no seu currículo sete ceptros mundiais). Fangio marcou uma era do desporto automóvel planetário, é um facto, o que o torna num verdadeiro Deus para o povo argentino, quiçá apenas ultrapassado em termos de devoção, passe a expressão, por outro Deus, ou D10S, vulgo Diego Armando Maradona. Mas o que terá Fangio a ver com futebol? Alguma coisa. Antes de se tornar num Ás do volante, o jovem oriundo de Balcarce (província de Buenos Aires) foi um talento da pelota (bola). Na sua meninice era comum vê-lo correr atrás de uma bola nas canchas da sua terra natal, não sendo de estranhar que tenha sido convidado para integrar as equipas de formação do Rivadavia, o pequeno clube de Balcarce, hoje rebatizado de Ferroviários de Balcarce. Com apenas dezasseis anos o jovem Juan Manuel é chamado a integrar a principal equipa do Rivadavia, uma oportunidade que não desperdiçou, agarrando de pronto o lugar de extremo-direito do conjunto serrano. Em 1931 tem quiçá um dos seus pontos altos da sua carreira de futebolista ao ser um dos principais protagonistas do título alcançado pelo Rivadavia na Liga Balcarceña, uma espécie de campeonato distrital lá do sítio. Mas não se ficou por aqui a aventura de Fangio nas canchas argentinas.
Uma equipa do Rivadavia nos anos 20.
Fangio é o segundo jogador da fila de baixo a contar da esquerda para a direita
Meses mais tarde a este feito é chamado pela seleção distrital de Balcarce para participar num torneio em Mar del Plata, onde foi elogiado pela sua extraordinária velocidade pelo corredor direito da sua equipa. Pois é, o que é certo é que Fangio viria a aplicar essa velocidade noutros campos, ou melhor, noutras pistas, algo que viria a cimentar-se em 1936, quando El Chueco (manco, traduzido na língua portuguesa) fez a sua estreia como piloto com o pseudónimo de... Rivadavia, numa espécie de homenagem ao clube de futebol da sua terra onde conquistou os seus minutos de fama enquanto futebolista. E porquê El Chueco, ou manco, perguntar-se-ão os visitantes do Museu. Bom, também a alcunha que acompanhou Fangio ao longo da sua carreira teve origem nos campos de futebol, já que o facto de ter as pernas arqueadas lhe valeram o dito rótulo, mas de manco, segundo reza a lenda, não tinha nada sempre que pegava na pelota.
Juan Manuel Fangio não foi, nem será, o único piloto de automóveis, no caso de Fórmula 1, a fazer uma perninha nos campos de futebol. Quem não se lembra dos célebres jogos anuais com carácter de beneficência que Michael Schumacher organizava? E para os quais convidava não só a nata do futebol da época (Ronaldo, Figo, Zidane, foram apenas alguns dos craques que participaram nesses encontros organizados por Schumi) como outros parceiros das pistas do Grande Circo. Certamente que muitos de nós se lembram dessas efemérides, mas o que é certo nenhum deles calçou de forma oficial as chuteiras como fez El Chueco Fangio antes de se tornar numa das maiores lendas da Fórmula 1, senão mesmo na maior de todos os tempos.

segunda-feira, março 07, 2016

Histórias do Planeta da Bola (16)... "Il Grande Bologna" solta o primeiro grito de vitória do futebol italiano além fronteiras

Il Grande Bologna entra em campo para fazer história
Durante décadas o futebol italiano viu refletidos sobre si os holofotes da fama e do prestígio do Planeta da Bola. As suas equipas encantaram e dominaram o Mundo com dezenas conquistas e feitos inesquecíveis que fizeram - e fazem - desta uma das nações mais fortes da história do belo jogo. Sobretudo durante as décadas de 80 e 90 do século passado, em que o calcio comandou o pelotão futebolístico internacional. A Serie A - o principal escalão do futebol italiano - foi durante mais de 20 anos uma verdadeira passerelle de estrelas. Alguns dos maiores vultos da história do jogo passearam classe pelos relvados de Itália nas décadas de ouro do calcio, casos de Diego Maradona, Michel Platini, Zico, Roberto Mancini, Gianluca Vialli, Roberto Baggio, Paolo Rossi, Sócrates, Falcão, Lottar Matthaus, Ruud Gullit, Marco Van Basten, entre tantos outros. Jogar em Itália, no melhor campeonato nacional do globo, era a cereja no topo do bolo para qualquer futebolista. O poderio e mediatismo das squadras transalpinas no decorrer das duas referidas décadas refletia-se igualmente nas eurotaças da UEFA com a conquista de quase duas dezenas de títulos continentais e cerca de trinta presenças em finais.


O poderio do futebol italiano na Europa
durante as décadas de 80 e 90 é evidente nesta imagem
Para quem gosta de estatística estes factos podem ser facilmente atestados com números que impressionam à primeira vista. Vejamos. Na Taça dos Clubes Campeões Europeus a nação da bota arrecadou cinco títulos, três por intermédio do Milan (1989, 1990 e 1994) e dois pela Juventus (1985 e 1996), para além de ter marcado presença em mais sete finais (perdidas), três pela Juve (1983, 1997 e 1998), duas pelos milanistas (1993 e 1995), e uma por Roma e Sampdoria (respetivamente em 1984 e 1992). Naquela que foi durante anos a fio a segunda competição mais importante da UEFA, a Taça dos Vencedores das Taças, o futebol italiano subiu por quatro ocasiões ao lugar mais alto do pódio: Juventus (1984), Sampdoria (1990), Parma (1993) e Lázio (1999), tendo perdido ainda um par de finais, em 1989 (Sampdoria) e 1995 (Parma). Seria no entanto na terceira competição uefeira - a Taça UEFA - que o calcio exerceu nestes 20 anos um domínio quase absoluto, conforme expressam os oito títulos conquistados (o Nápoles em 1989; a Juventus em 1990 e 1993; o Inter em 1991, 1994 e 1998; e o Parma em 1995 e 1999) em dez finais disputadas. A prova mais evidente de que a Itália era rainha e senhora da Taça UEFA ocorreu nos anos de 1990, 1991, 1995 e 1998, altura em que as finais desta competição foram 100 por cento italianas, ou seja, disputadas por duas equipas do mesmo país. O poderio transalpino é traduzido noutros dados, como por exemplo o facto de a Juventus ter sido a primeira equipa do Velho Continente a conquistar os três troféus da UEFA, quando em 1985 juntou a Taça dos Campeões Europeus (TCE) à Taça dos Vencedores das Taças (TVT) de 1984 e à Taça UEFA de 1977; ou ainda a época de 1989/90, cujas finais europeias foram vencidas por equipas italianas: Milan (TCE), Sampdoria (TVT) e Juventus (Taça UEFA). Sem dúvidas que este foram anos de um domínio avassalador, que a juntar às conquistas das décadas de 60 e 70 (quatro TCE, duas TVT, uma Taça UEFA e uma Taça das Cidades com Feira) fazem da Itália um dos países mais laureados da Europa futebolística no que a clubes concerne, somente suplantado por Espanha e Inglaterra. Hoje em dia, o calcio vive na sombra do seu passado glorioso, quer no plano internacional, onde luta com dificuldades ante os emblemas das nações mais poderosas do continente (Espanha, Inglaterra e Alemanha), quer no aspeto interno, onde o seu campeonato perdeu brilho, emoção, e sobretudo glamour.

Il Grande Bologna coloca a Itália no mapa da Europa do futebol (ao nível de clubes)

Esta longa introdução remete-nos para a nossa história de hoje: o ponto de partida da gloriosa caminhada europeia das equipas italianas. Início esse que nos leva até um clube lendário, que hoje deambula entre a Serie A e a Serie B, mas que durante mais de uma década encantou os tiffosi de todo o... Mundo. Bologna Football Club, ou Il Grande Bologna dos anos 30, a primeira equipa transalpina a conhecer a glória internacional. Para muitos dos historiadores do belo jogo o legado desse mítico e longínquo Bologna rivaliza com o do Grande Torino da década de 40, da mágica equipa que se eclipsou tragicamente no desastre aéreo de Superga em 1949. Qual destas duas equipas foi a melhor é uma pergunta difícil de responder, sendo apenas certo que ambas tiveram um papel preponderante na dinamização e popularização do calcio a nível internacional.
No vale do Rio Pó ergue-se Bologna (ou Bolonha no idioma de Camões), cidade que no outono de 1909 vê nascer um dos principais baluartes da sua história, o Bologna Football Club.

A equipa do Bologna que em 1924/25 conquistou, sob a alçada do treinador austríaco Felsner,
o primeiro scudetto da história do clube
Emilio Arnstein, um cidadão oriundo da Boêmia (atual República Checa) é a principal figura que esteve na génese da criação do emblema rossoblú (azul e vermelho, as cores que os bolonheses adotaram desde a sua fundação), contando para isso com a cumplicidade dos italianos Arrigo Gradi e Leone Vicenzi, e do suíço Louis Rauch, sendo que este último seria o primeiro presidente da história do clube. Após uma primeira década de vida a competir ao nível regional, o Bologna entra nos anos 20 com a ambição de galgar os muros da sua região e conquistar a Itália. Os seus dirigentes sonham alto, aspiram ombrear com as melhores equipas do país, onde então se destacavam o Genoa e o Pro Vercelli, nomes que haviam dominado as duas primeiras décadas do calcio no plano nacional. Nesse sentido urge que o clube transponha a fronteira do amadorismo para o profissionalismo que começava a imperar no futebol transalpino, e o primeiro passo é dado na contratação de um homem oriundo da escola do Danúbio, para muitos a região do Velho Continente onde o futebol atingia a sua perfeição no plano técnico e tático. Do triângulo composto por Áustria, Hungria e Boêmia (mais tarde batizada de Checoslováquia) foram extraídos durante grande parte da primeira metade do século XX alguns diamantes raros no que ao desporto rei diz respeito. Jogadores, treinadores, ou simplesmente pensadores do jogo que o levaram para patamares da excelência e da beleza nunca dantes vistos no Velho Continente.



Hermann Felsner, o criador
d' Il Grande Bologna
Os dirigentes do Bologna estavam cientes de que para edificar o clube vencedor que tinham em mente era preciso trazer para a cidade que alberga a universidade mais antiga do Mundo um desses filósofos danubianos da bola. Decidem então colocar um anúncio num jornal de Viena, em busca de um timoneiro para o projeto de sucesso que idealizavam. Receberam várias respostas, e na sequência disso Arrigo Gradi, um dos co-fundadores do clube, decide viajar até à capital da Áustria para analisar in loco os candidatos selecionados. A escola final recaíu num antigo jogador do Wiener Sport Club, Hermann Felsner, de seu nome. Este cidadão austríaco chega a Itália em 1920 e de pronto revoluciona o modo de jogar e de pensar dos rossoblú. Felsner desde logo se revelou um profundo conhecedor do futebol, introduziu novos métodos de treino, ou não fosse ele um especialista no campo da preparação física, aos quais aliou os seus vastos conhecimentos no plano tático. Felsner reconstruiu o clube, criou as bases daquele que viria a ser Il Grande Bologna das décadas seguintes. Sob a sua batuta o Stadio Sterlino - uma das primeiras casas do Bologna - passou a ser palco de magistrais sinfonias futebolísticas interpretadas por uma orquestra formada por notáveis figuras moldadas pelo génio do treinador austríaco. Nomes como Giuseppe della Valle, Augusto Baldini, Gastoni Baldi, ou Cesare Alberti rapidamente se tornaram em futebolistas de renome em Itália, e mais do que isso em homens capazes de conduzir o Bologna à glória sonhada. Em 1920/21 é dado do primeiro sinal ambição dos rossoblú, com a conquista do primeiro lugar do Grupo Regional do Norte do Campeonato Italiano - que até meados dos finais dos anos 20 foi disputado em várias fases, sendo que os vencedores das etapas regionais disputavam mais à frente eliminatórias nacionais que apuravam o campeão. O talento de Felsner para moldar jogadores de inegável talento atinge, quiçá, o seu apogeu em 1923, altura em que descobre num modesto clube amador local, o Fortitudo, um artista que haveria de escrever o seu nome no livro de ouro do futebol italiano: Angelo Schiavio.


Angelo Schiavio, a estrela maior
d' Il Grande Bologna
Este astro atuou durante 16 temporadas (1922-1938) no Bologna, tendo apontado 242 golos em 348 encontros disputados. 109 desses golos foram apontados no principal escalão italiano, onde vestiu a maglia rossoblú em 179 ocasiões. Foi o melhor marcador do campeonato em 31/32, altura em que apontou 25 golos. Schiavio foi o nome sonante de um Bologna que tornou reais as aspirações de glória dos seus dirigentes em 1928/29, época em que venceu o primeiro dos seus sete scudettos - título nacional - que detém até hoje. A equipa do vale do Rio Pó venceu numa primeira fase a Liga do Norte, com 34 pontos, superando a então potência do calcio Pro Vercelli, e uma Juventus que dava os primeiros sinais do gigante internacional que viria a tornar-se nas décadas seguintes. Esta classificação permitiu ao Bologna disputar a final do campeonato com o vencedor do Grupo do Sul, o Alba Roma, tendo vencido os dois jogos do play-off de apuramento do campeão nacional. Estava dado o primeiro passo no caminho da glória. Nos anos seguintes os rossoblú ocuparam sempre a carruagem da frente do futebol transalpino, lutando taco a taco com os melhores pela reconquista do ceptro. Algo que viria a surgir no final da década (1929) quando o doutor Felsner - assim chamado pelos tiffosi bolonheses não só pelo facto de ser licenciado em Direito mas sobretudo pelos seus amplos conhecimentos futebolísticos - conduz o clube a um novo título nacional, depois de levar a melhor numa épica final ante o Torino - decidida apenas num terceiro jogo e quase em cima do apito final (minuto 82) por intermédio de Giuseppe Muzzioli. A Itália curvava-se diante do futebol tecnicamente e taticamente refinado do Bologna - assente na filosofia da escola danubiana com alguns traços do futebol inglês - idealizado por Felsner, um homem de personalidade forte, que tinha bebido grande parte da sua sabedoria na pátria do futebol, Inglaterra, onde havia aprendido com os melhores antes de deixar a sua marca no Planeta da Bola através da criação d' Il Grande Bologna. O austríaco abandonaria a sua obra de arte em 1931, abrindo caminho para que outros elevassem o clube a patamares mais altos e mais pomposos. Por esta altura não só a Itália fazia vénias ao emblema rossoblú, cuja lenda atravessava o (Oceano) Atlântico conforme ficou comprovado pelos convites que surgiram da Argentina e do Brasil no final da década, para que as duas equipas finalistas do campeonato transalpino de 28/29 enfrentassem as melhores equipas daqueles dois países.

Rossoblú fazem tremer a Europa do futebol


Bologna em ação contra o velho rival
Juventus, na luta pelo trono do futebol
  transalpino
Os finais da década de 20 conheceram aquela que é considerada como a progenitora das atuais competições europeias: a Taça Mitropa. Sobre esta hoje desaparecida prova já traçámos longas linhas em recentes viagens ao passado, e nela evoluíram algumas das primeiras lendas do futebol continental como Mathias Sindelar, Rudolf Hiden, Raymond Braine, Giuseppe Meazza, ou Frantisek Plánicka. Disputada pelos melhores conjuntos da Áustria, Hungria, Checoslováquia e Itália - no fundo as maiores potências futebolísticas da Europa de então - a Mitropa Cup era já a competição mais popular do Velho Continente no início da década de 30. Vencê-la era o equivalente a subir ao trono da Europa no que a clubes dizia respeito. Por esta altura Hermann Felsner havia dado o seu lugar ao húngaro Gyula Lelovics, outro profundo conhecedor da mítica escola danubiana que mais não fez do que seguir o trabalho deixado pelo austríaco. Entretanto, o grupo rossoblú era reforçado com nomes que haveriam de deixar a sua marca na história do clube e do próprio jogo, tais como o defesa uruguaio Francisco Fedullo, o guarda-redes Mario Gianni, ou o extremo Carlo Reguzzoni. Em 1932 o Bologna participa pela primeira vez na famosa competição continental, na qualidade de vice-campeão italiano - atrás do campeão Juventus - facto que entraria para a história, ou melhor, uma presença que haveria de iniciar a gloriosa história do futebol italiano nas competições europeias.
O principal campeonato italiano havia somente terminado somente há uma semana quando a squadra orientada por Gyula Lelovics entrou em campo para defrontar os campeões da Checoslováquia, o Sparta de Praga, em partida dos quartos-de-final. Checos que na primeira mão viajaram até Itália sem o patrão da sua defesa, Kada Pesek, para enfrentar Il Grande Bologna. Na baliza surgia Mario Gianni, a quem chamavam de gato mágico, assim apelidado pelas espetaculares e acrobáticas estiradas que marcavam a sua imagem de futebolista, enquanto no setor recuado brilhavam o futuro bi-campeão do Mundo Eraldo Monzeglio, Felice Gasperi, e o uruguaio Francisco Fedullo. No meio campo, dois jogadores comandavam majestosamente as operações: Gastoni Baldi, e Gastone Martelli. Estes dois jogadores serviam de forma sublime a linha avançada daquele memorável conjunto, linha essa formada por nomes como Bruno Maini, o uruguaio Raffaele Sansone, Carlo Reguzzoni e Angelo Schiavio, a estrela mais brilhante daquela lendária equipa. Este último jogador foi um dos destaques no embate ante o Sparta, que o Bologna venceu por claros e expressivos 5-0. Reguzzoni abriu o marcador nos minutos iniciais, seguido de dois golos de Maini e um de Schiavio, tendo a nota artística final sido assinada por Baldi na etapa complementar. 

A medalha que simboliza a conquista
da Mitropa Cup em 32
No encontro da segunda mão os checoslovacos ainda tentaram o impossível, e aos 30 minutos do primeiro tempo já haviam marcado dois golos - por Nejedly e por Donati, este último um auto-golo - que traziam esperança ao combinado orientado pelo lendário John Dick. Aos 15 minutos da segunda parte Podrazil fez o 3-0 final, resultado insuficiente para afastar o vice-campeão de Itália. Nas meias-finais, a squadra de Lelovics enfrentou o First Viena, conjunto que na primeira mão visitou o Stadio Littorale - a nova casa do Bologna, que hoje em dia é denominada de Estádio Renato Dall' Ara - tendo ali perdido por 2-0, com golos de Maini e Sansone, num jogo que fica marcado pelo facto de Schiavio ter atuado fisicamente limitado. Ele que havia sido o melhor marcador do campeonato italiano em 1931/32, com um total de 25 remates certeiros.
Uma semana mais tarde, no Hohe Warte Stadium, em Viena, os austríacos fizeram uma exibição de gala, um jogo perfeito, que mesmo assim não chegou para ir além de uma magra e insuficiente vitória por 1-0.

A edição de 1932 da Taça Mitropa ficou marcada pela polémica meia-final entre a Juventus e o Slavia de Praga, uma autêntica batalha campal que levou a organização da prova a afastar estes dois clubes e a entregar o título de campeão ao Bologna que assim soltava o primeiro grito de vitória além do futebol italiano no plano internacional. O Bologna tornava-se assim na primeira squadra transalpina a vencer uma competição europeia sob o signo da magia e criatividade técnico-tática que caracterizava o seu estilo de jogo.
Fotografia histórica: A equipa do Bologna que em 1932
conquistou o primeiro título europeu de clubes para Itália
Dois anos mais tarde, e sob a orientação do húngaro Lajos Kovács, Il Grande Bologna volta a mostrar a sua... grandeza no plano internacional. A equipa volta a conquistar a Europa na sequência de um novo triunfo na Mitropa Cup. Contudo, a campanha não começou de maneira fácil, já que na primeira ronda os húngaros do Bocskai foram um osso duro de roer. No jogo da primeira mão, no Stadio del Litorialle, o combinado magiar surgiu no relvado com uma defesa de ferro, só derrubada pela arte e força de Carlo Reguzzoni e da grande estrela da equipa, Angelo Schiavio. Na segunda mão foi a vez do setor defensivo dos italianos brilhar, segurando a avalanche ofensiva dos húngaros que tiveram em Jeno Vincze a sua maior figura, sendo dele um dos golos com que o Bocskai derrotou o Bologna, por 2-1. Resultado, contudo, insuficiente para passar aos quartos-de-final, já que o tento de Reguzzoni fez estalar a festa entre a comitiva transaplina.
Tranquila foi a passagem do Bologna às meias-finais, já que na primeira mão dos quartos-de-final, diante do seu público, o clube transalpino humilhou por completo o Rapid de Viena. 6-1 foi o resultado de uma partida onde os atacantes Reguzzoni e Schiavio estiveram em claro destaque ao apontarem os golos da sua equipa. Em Viena, o Rapid adiantou-se cedo no marcador, por intermédio de Binder, logo aos dois minutos, dando ideia de que o milagre poderia acontecer, mas Reguzzoni logo tratou de arrefecer o ímpeto dos locais com o golo do empate, de nada valendo os três golos de Binder no segundo tempo.

Final da Taça Mitropa de 1934
As meias-finais comprovaram que o Bologna era de facto uma das grandes equipas da Europa dos anos 30. Que o diga o (então) poderoso Ferencvaros, que na primeira mão não foi além de um empate caseiro antes os italianos, que por sua vez no jogo de volta esmagaram por completo os húngaros na sequência de um robusto triunfo por 5-1, com relevo para as exibições de Fedullo e Schiavio, este último autor de dois golos. Assim chegávamos a mais uma final, onde surgiu pela segunda vez - no espaço de três anos - Il Grande Bologna, que no entanto se viu a braços com o azar na partida da primeira mão da final da edição de 1934, já que por motivos de lesão a sua maior estrela, Angelo Schiavio, não pôde viajar para Viena. No entanto, e em contrário ao que se esperava, os italianos não ficariam fragilizados por esse facto, já que ao intervalo venciam o seu oponente por duas bolas a zero. No segundo tempo, e no curto espaço de seis minutos, o Admira - adversário da final - deu a volta ao marcador, o qual não mais viria a ser alterado até final, graças a uma magnífica exibição do gato mágico Mario Gianni. Na segunda mão, e já com o seu capitão e estrela-mor Schiavio em campo, o Bologna dominou por completo os acontecimentos. Jogada de baixo de um calor infernal a partida foi de sentido único, o da baliza forasteira, com sucessivos lances de perigo a ocorreram junto da baliza à guarda de Platzer. O perigo número um na área vienense dava pelo nome de Carlo Reguzzoni - jogador que o lendário mestre da tática Hugo Meisl classificou, na época, como o melhor extremo do futebol continental -, que neste encontro esteve verdadeiramente endiabrado. Apontou três dos cinco golos com que o Bologna venceu o seu oponente, mas poderia ter marcado muitos mais, tais foram as ocasiões em que assustou Platzer. Com este hattrick Reguzzoni elevaria para 10 o número de golos marcados na competição, facto que fez dele o melhor da edição de 1934 da Mitropa. Quando o árbitro inglês Arthur James Jewell apitou para o final do encontro os 25 000 espectadores presentes no Stadio del Littoriale explodiram de alegria: Il Grande Bologna era de novo campeão da Europa.
1934 foi de facto um ano inolvidável para o futebol italiano, pois à conquista do Campeonato do Mundo pela seleção nacional seguiu-se mais um capítulo da história triunfal d' Il Grande Bologna. Curioso é que nestes dois factos um homem esteve em destaque, Angelo Schiavio. Foi dele o golo da vitória da Squadra Azzurra na final de Roma ante a Checoslováquia e por sua influência o Bologna subia de novo ao trono do futebol continental.
O grupo que em 1934 voltou a subir ao trono do futebol europeu
A supremacia dos bolonheses continuou a fazer-se sentir no restantes anos da década de 30, sobretudo no plano interno onde sob a orientação de outro nome que ficou na história do clube, o húngaro Árpád Weisz, interromperam uma série de cinco títulos nacionais consecutivos da Juventus vencendo os scudettos de 1936 e 1937. A era dourada deste emblema estava longe de terminar, pois até 1941 Il Grande Bologna voltou a rugir bem alto no panorama nacional. Conduzido pelo homem que construi a lenda, Hermann Felsner, a equipa venceu os campeonatos de 39 e 41, antes de passar o testemunho artístico no que à interpretação do jogo alude a outro grande squadrone: Il Grande Torino.

quinta-feira, maio 28, 2015

Histórias do Planeta da Bola (10)... Os anos dourados (1927-1939) da Taça Mitropa - A primeira montra de estrelas do futebol europeu (parte V)

Matthias Sindelar, uma das maiores figuras da história
da Taça Mitropa tenta aqui passar pelos

defesas do Ferencvaros na meia-final de 1935
Iniciamos hoje a penúltima de uma série de seis viagens pela era dourada (1927-1939) da Mitropa Cup, a competição progenitora das atuais eurotaças. E a nossa primeira paragem nesta nova incursão ao passado da prova idealizada por Hugo Meisl dá-se em 1935, ano em que um célebre cidadão belga centrou em si as luzes da ribalta da 9ª edição da competição continental.O seu nome? Raymond Braine, foi ele o general que conduziu o exército do Sparta de Praga à conquista da Europa do futebol pela segunda vez na história do mítico clube checoslovaco. Com uma técnica sublime aliada a um apurado faro para o golo, ele foi o ás de trunfo do Sparta de Ferro para dizimar a feroz concorrência. Sparta que apareceu nesta edição da Mitropa na condição de vice-campeão da Checoslováquia, tendo na primeira ronda enfrentado outro antigo campeão do certame continental, os austríacos do First Viena. O primeiro embate deu-se na Áustria, tendo o Sparta oferecido o jogo ao inimigo, isto é, permitiu que o First controlasse do princípio ao fim o rumo dos acontecimentos, optando por jogar apenas em contra-ataque, criando uma série de lances venenosos que semeavam o pânico no último reduto vienense. Num desses lances Nejedly marcou o golo que valeu um precioso empate (1-1) com que os checoslovacos deixaram a capital austríaca. Na segunda mão, tudo foi diferente. O Sparta assumiu o jogo, partindo com toda a sua armada para cima dos vienenses, que pouco puderam fazer para evitar a derrota (5-3) e a consequente eliminação. No plano individual Braine e Olidich Zajiek dividiram o protagonismo: o primeiro foi o cérebro da equipa, ao passo que o segundo assumiu o papel de goleador, ao apontar três dos cinco golos do emblema de Praga.
Raymond Braine, a grande figura
da 9ª edição da Taça Mitropa
E por falar na capital da então Checoslováquia, a outra equipa desta cidade, o Slavia, também entrou com o pé direito na edição de 1935 da Taça Mitropa, após vencer os estreantes do Szegedi, modesto clube húngaro que foi arrasado na primeira mão da eliminatória pelo endiabrado Kopecky, autor de três dos quatro golos com que os campeões da Checoslováquia bateram (4-1) o quarto classificado do campeonato húngaro na sua própria casa. Com a passagem à fase seguinte praticamente assegurada o Slavia relaxou na segunda mão, permitindo que o Szegedi saísse de Praga com uma vitória por 1-0. 
A grande surpresa desta primeira ronda foi protagonizada por outro caloiro nestas andanças, o Zidenice, que surgia na competição por via do terceiro posto conquistado no campeonato da Checoslováquia. Na entrada para a eliminatória o papel do Zidenice na prova não seria mais do que um mero participante, até porque o oponente dava pelo nome de Rapid de Viena, campeão da Áustria, e um dos grandes candidatos ao triunfo final. A surpresa começou a ser desenhada na primeira mão, quando diante do seu público o Zidenice chegou ao intervalo a vencer os austríacos por 3-0, com a particularidade destes três golos terem sido apontados por Vaclav Prusa. Na segunda parte o Rapid puxou dos seus galões e conseguiu reduzir para 2-3, resultado que encerrou o marcador, e que fazia sonhar o campeão da Áustria com uma reviravolta fácil no seu estádio. Como estavam enganados! Em Viena, o Zidenice alcançou um empate a duas bolas – ao intervalo vencia por 2-1 –, garantindo uma impensável qualificação para os quartos-de-final, colocando assim rostos de espanto na Europa do futebol.
A edição de 1935 da Mitropa Cup foi de má memória para a maioria dos conjuntos austríacos. Depois do Rapid e do First Viena terem dito adeus à competição logo na primeira eliminatória, o Admira foi pelo mesmo caminho, após cair com estrondo aos pés do MTK de Budapeste por um total de 9-4. Um desfecho que inicialmente até não era de todo previsível, já que em Viena o Admira venceu por 3-2 o seu adversário. Somente 3-2, há que sublinhá-lo, pois o desperdício foi uma característica evidente na performance do vice-campeão austríaco ao longo de toda a partida. Com muito menos oportunidades de golo mas tremendamente eficazes na hora de rematar à baliza os húngaros apontaram dois preciosos golos que lhes deram grandes esperanças para o embate da segunda mão, golos esses apontados por Heinrich Muller, jogador de nacionalidade... austríaca. O jogo de volta resumiu-se ao vendaval ofensivo do MTK, vendaval esse que demorou 45 minutos a surgir, já que ao intervalo o Admira vencia por 1-0. Os segundos 45 minutos foram então explosivos para a turma da casa, que apontou sete golos, três deles por intermédio de Cseh.
Ai está Sindelar em mais um ataque
às redes contrárias
A exceção ao pobre desempenho das equipas austríacas nesta 9ª edição da Mitropa foi o Austria de Viena, conjunto cuja estrela principal dava pelo nome de Matthias Sindelar, o Mozart do futebol, como ainda hoje é conhecido. O Austria, que aparecia nesta competição pelo facto de ter vencido a taça do seu país, mediu forças com os italianos da Ambrosiana-Inter, reeditando assim a final de 1933 da Taça Mitropa. Mais do que a reedição da citada final ocorrida dois anos antes este jogo marcou o reencontro de dois dos maiores génios do futebol internacional daqueles dias, Sindelar e Giuseppe Mezza. Levou a melhor o austríaco, que esteve envolvido nos cinco golos com que a sua equipa derrotou (5-2) os transalpinos. No encontro de volta, em Viena, Sindi realizou mais uma soberba exibição, culminada com a obtenção dos três golos com que o Austria derrotou, mais uma vez, os vice-campeões de Itália.
Quem também saiu humilhada da prova logo na primeira ronda foi a Roma, que depositava na sua estrela-mor, Enrique Guaita, as esperanças em afastar os húngaros do Ferencvaros. E a primeira mão, jogada na capital italiana, até nem correu mal, já que um triunfo por 3-1, com o destaque individual a ir para Scopelli, autor de dois golos. Em Budapeste o descalabro aconteceu. Uma exibição verdadeiramente assombrosa – no bom sentido – de Gyorgy Sarosi abriu caminho à goleada de 8-0 (!) oferecido pelo vice-campeão da Hungria à squadra orientada por Luigi Barbesino. Sarosi marcou por quatro vezes – três delas de grande penalidade – abrindo desta forma o caminho até... à grande final.
O onze da Fiorentina que em 1935 fez a estreia do emblema viola nas competições europeias
Estreia absoluta nestas andanças europeias teve a Fiorentina, que a 16 de junho de 1935 media forças com o campeão da Hungria, o Ujpest, em território inimigo. Mas nem este facto amedrontou os ragazzi de Florença, sobretudo os dois extremos da equipa viola, Comini e Gringa, os quais além de terem feito os dois únicos golos do jogo semearam inúmeras vezes o pânico no reduto defensivo dos locais. Em Florença o Ujpest arriscou tudo na tentativa de corrigir o resultado negativo averbado em casa, exibindo uma postura totalmente ofensiva. Porém, e uma vez mais, os italianos não baixaram a guarda, e responderam na mesma moeda. O resultado final deste duelo de parada e resposta foi um novo triunfo da Fiorentina, desta feita por 4-3, com três dos golos viola a serem da autoria de Cesare Augusto Fasanelli.
Passagem de eliminatória relativamente tranquila tiveram os penta campeões italianos, a Juventus, que se desenvencilhou dos checoslovacos do Viktoria Plzen por 8-4 – no total das duas mãos. Na Checoslováquia a Vecchia Signora empatou a três bolas, enquanto que em Turim o Viktoria foi autenticamente atropelado por 5-1, sendo aqui de sublinhar a magnífica exibição individual de Giovanni Ferrari.
Página do jornal que retatou o massacre
do Ferencvaros à Roma
A Taça Mitropa de 1935 foi farta em resultados avolumados. À semelhança do que havia ocorrido na primeira ronda, os quartos-de-final foram férteis em goleadas. A maior delas foi obtida pelos futuros campeões, o Sparta de Praga, cujo tridente ofensivo – Nejedly, Facsinek, e Braine – abateu o muro viola com sete tiros certeiros. A segunda mão foi pois um passeio para os checolosvacos, que jogando de forma descontraída – demasiado até – permitiram que a Fiorentina se despedisse do certame com uma vitória (3-1.) Melhor destino teve a outra equipa italiana por esta altura ainda em prova, a Juventus, que da viagem até Budapeste trouxe uma confortável vitória por 3-1. Uma vitória heróica há que referi-lo, já que a Juve jogou com menos um homem desde os 40 minutos. Neste jogo a linha da frente dos transalpinos esteve diabólica, em particular Ferrari, autor de um golo e de uma belíssima exibição. Na segunda mão Ferrari voltou a fazer o gosto ao pé, e depois disso foi a vez da defesa – edificada por Foni, Rosetta, Bertolini, e Monti – da Juve brilhar a grande altura ao travar a esmagadora maioria dos venenosos ataques dos contrários, que só por uma vez conseguiram bater o guardião Valinasso.
Quem continuou a surpreender a Europa futebolística foi o Zidenice, cujo futebol mais físico causou mossa ao Ferencvaros, uma equipa tecnicamente mais evoluída que os checoslovacos. 4-2 a favor do surpreendente Zidencie, foi o score final da primeira mão. Em Budapeste os vice-campeões húngaros deram a volta à eliminatória, e que volta (!), conforme expressa o pesado marcador de 6-1 a seu favor, com Toldi e Sarosi em evidência ao apontarem, cada um deles, dois golos. Mais equilibrado foi o duelo entre o Austria de Viena e o Slavia de Praga, resolvido num jogo extra. Mas já lá vamos. Na primeira mão, ocorrida em Praga, o Slavia venceu por 1-0, enquanto que na volta, em Viena, o Austria derrotou o seu oponente por 2-1. Surgiu então a necessidade de um play-off, jogo decisivo este em que Sindelar voltou a estar magnífico. Jogou (muito) e fez jogar todos os seus companheiros, uma estupenda exibição coletiva que foi concluída com uma robusta vitória por 5-2. Sindi fez um dos golos.
Gyorgy Sarosi, estrela do Ferencvaros
e melhor marcador (9 golos)
da Taça Mitropa de 1935
Necessidade de um jogo de desempate voltou a surgir nas meias-finais, mais concretamente no braço de ferro entre Sparta de Praga e Juventus. Na primeira mão, realizada na capital da então Checoslováquia, o setor recuado dos anfitriões exibiu-se a um nível perfeito, impedido com classe que a temível linha avançada dos transalpinos causasse estragos na baliza à guarda de Klenovec. A Juve saiu de Praga derrotada por 2-0. E mais do que isso viu-se impedida de utilizar Monti na segunda mão, já que o ítalo-argentino recebeu ordem de expulsão no jogo do Estádio Strahov. A segunda mão teve contornos dramáticos. Com dois golos de Borel a Juventus igualou a eliminatória, mas à passagem do minuto 52 Nejedly gelou o tiffosi presentes no Stadio Benito Mussolini, em Turim, ao reduzir para 1-2 e recolocar o Sparta na frente do combate. Depois disto o jogo teve quase única e exclusivamente sentido único, o da baliza forasteira, e aos 85 minutos a Juve ganha uma grande penalidade a seu favor. Castigo máximo que no entanto seria salvo pelo guardião Klenovec, uma defesa festejada como se de um golo se tratasse, já que a passagem à final estava praticamente assegurada. No entanto, os jogos só terminam quando o árbitro apita, e em cima do minuto 90 Borel volta a faturar, levando a decisão para um play-off. No duelo decisivo voltou a brilhar a estrela de Raymond Braine, jogador que ao longo de 90 minutos causou enormes calafrios na defesa da Vecchia Signora. O avançado belga apontou dois golos e viu ainda os seus companheiros baterem Valinasso em mais três ocasiões, perfazendo desta forma um resultado final de 5-1 a favor dos checoslovacos.
Toldi remata para o fundo das redes e coloca
o Ferencvaros na final
Na outra meia-final o Ferencvaros voltou a mostrar que me casa era uma equipa imbatível e acima disso tremendamente eficaz no plano ofensivo. No entanto, a turma de Budapeste começou por sofrer às mãos do Mozart do futebol, ou melhor, aos pés de Sindelar, jogador este que abriu o marcador no Ulloi Ut Stadium. Depois disto o goleador e capitão de equipa Gyorgy Sarosi mostrou todo o seu talento finalizador, contribuindo com dois golos para a reviravolta no marcador. Sarosi que haveria de sagrar-se o melhor marcador desta edição, com nove remates certeiros. Sindelar ainda reduziu, mas a dez minutos do final Kiss fez o 4-2 final para os húngaros. Em Viena assistiu-se a um encontro de alto nível técnico, um jogaço de futebol, como se diz na gíria. Sindelar, quem mais poderia ser, abriu o marcador para o Austria, emblema que aos 58 minutos vencia por 3-1 e desta forma empatava a eliminatória. Porém, na reta final, apareceu Toldi, que fez o seu segundo golo da tarde e mais do que isso garantiu que o Ferencvaros iria marcar presença na final da Mitropa.
O bilhete da 1ª mão da final da Taça Mitropa de 1935
Final essa que começou por ser discutida em Budapeste, onde mais uma vez o Ferencvaros ditou leis. Com apenas 30 minutos jogados já os húngaros lideravam o marcador, e logo por dois golos de diferença! Pareciam assim encaminhados para a glória final. Mas, ainda faltava muito para que essa glória fosse alcançada. Faltava um segundo jogo, e ainda a segunda parte da primeira mão, 45 minutos estes que foram terríveis para o Ferencvaros. Em primeiro lugar, o emblema da capital da Hungria ficou privado do seu grande goleador, Sarosi, que abandonou o retângulo de jogo por lesão, e pior do que isso viu o matador do adversário, Raymond Braine, reduzir para 1-2 aos 71 minutos, selando assim o resultado final. Na segunda mão, e mesmo com Sarosi recuperado, o Ferencvaros não se conseguiu impor ao Sparta de ferro, que logo aos 26 minutos inaugurava o marcador por intermédio de Faczinek. A reviravolta na eliminatória foi conformada pela grande estrela desta edição da Mitropa Cup, Raymond Braine. Aos 34 minutos o belga fez o 2-0, e já no segundo tempo, aos 69 minutos, fez um novo golo, carimbando assim não só a vitória no jogo como na competição. O Sparta, primeiro vencedor da competição europeia, voltava a erguer o troféu, juntando-se assim – na altura – aos italianos do Bologna na condição de clube que em mais ocasiões triunfou na prova idealizada por Hugo Meisl.


Números e nomes:



1ª Eliminatória (1ª e 2ª mãos)

Admira Viena (Áustria) – MTK Budapeste (Hungria): 3-2/1-7
Viktoria Plzen (Checoslováquia) - Juventus (Itália): 3-3/1-5
First Viena (Áustria) - Sparta Praga (Checoslováquia): 1-1/3-5
Ujpest (Hungria) – Fiorentina (Itália): 0-2/3-4
Rapid Viena (Áustria) - Zidenice (Checoslováquia): 2-2/2-3
Roma (Itália) - Ferencvaros (Hungria): 3-1/0-8
Szegedi (Hungria) - Slavia Praga (Checoslováquia): 1-4/1-0
Ambrosiana-Inter (Itália) - Austria Viena (Áustria): 2-5/1-3

Quartos-de-final (1ª e 2ª mãos)

MTK Budapeste (Hungria) - Juventus (Itália): 1-3/1-1
Sparta Praga (Checoslováquia) – Fiorentina (Itália): 7-1/1-3
Zidenice (Checoslováquia) – Ferencvaros (Hungria): 4-2/1-6
Slavia Praga (Checoslováquia) - Austria Viena (Áustria): 1-0/1-2/2-5 (desempate)

Meias-finais (1ª e 2ª mãos)

Ferencvaros (Hungria) - Austria Viena (Áustria): 4-2/2-3
Sparta Praga (Checoslováquia) - Juventus (Itália): 2-0/1-3/5-1 (desempate)

Final (1ª mão)



Ferencvaros (Hungria) – Sparta Praga (Checoslováquia): 2-1

Data: 8 de setembro de 1935
Estádio: Ulloi Ut, em Budapeste (Hungria)
Árbitro: William Walter Walden (Inglaterra)

Ferencvaros: Jozsef Háda, Gyula Polgár, Lajos Korányi, Károly Mikes, János Móré, Nándor Bán, Mihai Tanzer, Gyula Kiss, Gyorgy Sarosi (c), Géza Toldi, e Tibor Kemény. Treinador: Zoltan Blum.

Sparta Praga: Bohumil Klenovec, Jaroslav Burgr (c), Josef Ctyroky, Josef Kostalek, Jaroslav Boucek, Erich Srbek, Ferdinand Faczinek, Oldrich Zajucek, Raymond Braine, Oldrich Nejedly, e Geza Kalocsay. Treinador: Frantisek Sedlacek.

Golos: 1-0 (Toldi, aos 16m), 2-0 (Kiss, aos 27m), 2-1 (Braine, aos 71m).

Final (2ª mão)



Sparta Praga (Checoslováquia) – Ferencvaros (Hungria): 3-0

Data: 15 de setembro de 1935
Estádio: Strahov, em Praga (Checoslováquia)
Árbitro: Albert Foo (Inglaterra)

Sparta Praga: Bohumil Klenovec, Jaroslav Burgr (c), Josef Ctyroky, Josef Kostalek, Jaroslav Boucek, Erich Srbek, Ferdinand Faczinek, Oldrich Zajucek, Raymond Braine, Oldrich Nejedly, e Geza Kalocsay. Treinador: Frantisek Sedlacek.

Ferencvaros: Jozsef Háda, Gyula Polgár, Lajos Korányi, Károly Mikes, János Móré, Nándor Bán, Mihai Tanzer, Gyula Kiss, Gyorgy Sarosi (c), Géza Toldi, e Tibor Kemény. Treinador: Zoltan Blum.

Golos: 1-0 (Faczinek, aos 26m), 2-0 (Braine, aos 34m), 3-0 (Braine, aos 69m).
A turma do Sparta de Praga que em 1935 conquistou a segunda Taça Mitropa para o lendário clube

1936: Suíços entram em campo

Uma verdadeira relíquia: a medalha
atribuida aos campeões
da Taça Mitropa de 1936
A grande novidade da 10ª edição da Taça Mitropa foi a inclusão de uma nova nação na competição: a Suíça. Os helvéticos fizeram-se representar por quatro clubes que pouca ou nenhuma luta deram aos seus oponentes, numa demonstração clara de que no plano futebolístico a Suíça estava ainda muito longe de países como a Checoslováquia, a Hungria, a Áustria, e a Itália. Para acolher os emblemas suíços no certame o comité organizador da Mitropa teve a necessidade de incluir uma ronda pré-eliminar no calendário da edição de 1936, ronda essa disputada entre os quatro representantes da nação estreante e os quartos classificados dos campeonatos nacionais dos quatro países habituais da prova. E as memórias da estreia dos cavaleiros helvéticos nestas andanças europeias resume-se a uma palavra: goleada. Sem grandes dificuldades o Zidenice (Checoslováquia), o Phobus (Hungria), o Austria de Viena (Áustria), e o Torino (Itália) afastaram de forma concludente, isto é, na sequência de vitórias avolumadas, respetivamente o Lausanne-Sports, o Young Fellows, o FC Bern, e o Grasshopper de Zurique. 
 
Chegados à 1ª eliminatória um dos embates mais apetecíveis opunha os campeões húngaros, o MTK de Budapeste, aos vice-campeões da Áustria, o First Viena. Na primeira mão, ocorrida na capital da Hungria, esta última equipa mostrou o porquê de ter tido a defesa menos batida – apenas 25 golos consentidos – no campeonato austríaco de 35/36, ao barrar com êxito todas as investidas húngaras à sua baliza. Mais do que isso fizeram dois golos, por intermédio de Franz Erdl, que praticamente sentenciaram a eliminatória. Na segunda mão assistiu-se a mais uma grande exibição do First, e em particular de Gschweild, que além de ter apontado um dos cinco golos da sua equipa deu outros a marcar na sequência de belas jogadas individuais.
O First não foi a única equipa de Viena a fazer a festa da passagem aos quartos-de-final. O Austria, liderado pelo astro Matthias Sindelar, iniciou uma caminhada que seria de glória ante os campeões italianos de 1935/36, o Bologna, equipa esta que tinha colocado um ponto final num reinado de cinco anos consecutivos da Juventus no campeonato transalpino. Na primeira mão, jogada em Itália, os bolonheses exibiram-se a grande nível no plano defensivo, conseguindo anular os movimentos da grande estrela austríaca, Sindelar, pese embora ao nível atacante não tenham conseguido marcar mais do que dois golos, facto que a juntar ao golo sofrido fazia com que os detentores do scudetto levassem uma vantagem demasiado curta na bagagem para a segunda mão. Jogo este onde, e como seria de esperar, os austríacos entraram a todo o gás, chegando ao intervalo com uma vantagem de dois golos. Na segunda parte o Bologna surgiu mais atrevido no retângulo de jogo, mas foi o Austria, ou melhor, foi Sindelar, que deu a machadada final nas aspirações italianas. Duas jogadas magistrais do Homem de Papel culminaram na obtenção de dois golos – um deles da sua própria autoria e outro de Camillo Jerusalem – que selaram o resultado final em 4-0 a fazer dos austríacos, que desta forma continuavam em prova. 
 
Sindelar, sempre ele, a causar calafrios
na defesa do Bologna
Outra equipa italiana que ficou pelo caminho foi o Torino, que fazia a sua estreia nas competições europeias. A presença do emblema de Turim na Taça Mitropa de 36 é apontada por muitos historiadores desportivos como o início da lenda de Il Grande Torino, de um legado que iria durar até 1949, ano em que um trágico acidente aéreo eclipsou do mapa do futebol aquele que foi o conjunto mais brilhante do futebol italiano da segunda metade da década de 30 e dos anos 40 do século passado. Mas voltando à edição de 1936 da Mitropa, o Torino até nem entrou mal no duelo ante os húngaros do Ujpest, que do mítico recinto dos italianos, o Stadio Filadelfia, sairam derrotados por duas bolas a zero. Na segunda mão o Ujpest deu a volta à eliminatória, e muito devido à ação de uma jovem estrela que emergia então no emblema húngaro, estrela essa que dava pelo nome de Gyula Zsengeller, avançado que muito contribuiu para o robusto triunfo por 5-0 que abriu a porta dos quartos (-de-final) aos vice-campeões da Hungria.
Os campeões em título, o Sparta de Praga, chegavam à edição de 1936 da Taça Mitropa com a moral em alta, não só porque eram os detentores do troféu continental mas sobretudo porque haviam colocado um ponto final no domínio de três anos consecutivos dos vizinhos e rivais do Slavia no campeonato da Checoslováquia. No entanto, e contra todas as previsões iniciais, o Sparta enfrentou algumas dificuldades na eliminatória ante os estreantes do Phobus. De forma confortável os campões checoslovacos venceram, em casa, o encontro da primeira mão, por 5-2, com destaque para os dois golos de Nejedly, mas no jogo de volta foram surpreendentemente dominados pelos húngaros, que ao minuto 87 venciam por 4-1, e com este cenário impunha-se a necessidade de um play-off para desempatar a contenda. Contudo, nos segundos finais do jogo, surgiu o inspirado Nejedly, que com um remate fatal fez o 2-4 final que classificou o Sparta para a ronda seguinte. Foi por pouco que o campeão não caiu à primeira. 
 
Embate entre Roma e Rapid
Franz Binder foi o herói do Rapid de Viena no jogo da primeira ante os italianos da Roma. Com dois golos na conta pessoal o avançado austríaco contribiu assim para um triunfo de 3-1 da sua equipa, resultado que no entanto não foi suficiente para avançar na competição, já que na capital transalpina a turma local goleou por 5-1.
Outro dos grandes destaques individuais desta 10ª edição da Taça Mitropa foi o italiano Giuseppe Meazza, a grande estrela da Ambrosiana-Inter e da Squadra Azzura da década de 30. Peppino, como era carinhosamente tratado pelos companheiros de equipa e pelos adeptos da bola, foi a principal figura da eliminatória ante os checoslovacos do Zidenice, ao apontar sete (!) dos 11 golos com que os transalpinos afastaram sem dificuldade – com um resultado global de 11-3 – o quarto classificado do campeonato checoslovaco da temporada anterior. Meazza que seria o melhor marcador desta edição, com 10 tentos.
Pautado pelo equilíbrio foi o embate entre o Ferencvaros e o Slavia de Praga. Na primeira mão, em Budapeste, os vice-campeões da Mitropa da época anterior exerceram um domínio avassalador sobre o seu oponente, performance essa expressa numa vitória por 5-2, sendo que quatro dos cinco golos dos húngaros foram apontados pelo matador Gyorgy Sarosi. Na segunda mão inverteram-se os papéis, com o Slavia a cilindrar o seu oponente por 4-0 e a garantir desta forma a passagem à ronda seguinte. 
 
Por fim, a grande surpresa desta 1ª eliminatória, a eliminação do campeão austríaco, o Admira, diante dos estreantes checoslovacos do Prostejov. A surpresa, ou escândalo, como então foi descrita este embate, começou a ser desenhado em Viena, bela cidade de onde o Prostejov saiu com um triunfo de... 4-0!!! Drozd foi o grande herói dos novatos checoslovacos, ao apontar um hattrick nesta partida. Na segunda mão o Admira ainda tentou consertar os tremendos estragos feitos pelos checoslovacos em Viena, sendo que com apenas 10 minutos jogados já Bican e Hahnemann haviam colocado os campeões da Áustria a vencer por 2-0. No entanto, e depois desta entrada fulgurante do Admira, o Prostejov aguentou-se, foi travando os ataques do seu adversário, e aos 67 minutos reduziu para 1-2, sentenciando quase de imediato a eliminatória. O golo dos anfitriões despoletou a fúria dos vienenses, que até final viram cinco dos seus jogadores serem expulsos por comportamento violento. Que triste fim para o campeão da Áustria.

"Peppino" Meazza,
aqui a evidenciar toda a sua genialidade
O futebol italiano começava nos anos 30 a mostrar a sua tendência para a rigidez defensiva que hoje em dia o caracteriza. No duelo da primeira mão dos quartos-de-final a Ambrosiana-Inter abdicou por completo do seu setor atacante para passar 90 minutos a jogar... à defesa diante do First Viena. Perante o ferrolho italiano só por duas ocasiões os austríacos conseguiram marcar, garantindo assim uma vitória justa mas que se iria revelar demasiado curta na viagem para Milão. Aqui, a Ambrosiana-Inter mudou o chip e assumiu desde cedo o controlo do jogo, levando o perigo por diversas ocasiões à baliza contrária. A igualdade a uma bola registada ao intervalo não traduzia aquilo o que se havia passado no relvado durante os primeiros 45 minutos, onde os italianos foram nitidamente melhores. Porém, a justiça acabaria por chegar na etapa complementar, onde a Ambrosiana-Inter repetiu a dose e esmagou por completo o First, apontando três golos que selaram o marcador em 4-1 e acima de tudo garantiram a presença nas meias-finais.
A outra equipa italiana ainda em prova, a Roma, saiu de cena de forma inglória. Realizou uma magnífica exibição em Praga, diante do Sparta, na primeira mão da eliminatória, exibição essa que no entanto não ficou traduzida num resultado positivo muito por culpa do seu inexperiente guarda-redes de 17 anos, Fulvio Bernardini, que na hora h sucumbiu ao poder de fogo dos atacantes Braine e Nejedly. Seria pois com uma desvantagem de 0-3 que a Roma iria receber na segunda mão os detentores do ceptro, num jogo que começou de forma eletrizante com dois golos logo nos primeiros dois minutos! Os romanos abriram o marcador mal o árbitro deu início ao duelo, sendo que no minuto seguinte o Sparta empatou. Depois disto os checoslovacos remeteram-se à defesa, e até final o resultado não mais foi alterado.
A aventura dos estreantes do Prostejov terminou aos pés do Ujpest, última equipa esta que sob o comando da jovem estrela Gyula Zsengeller dominou ambas partidas da eliminatória, acabando por vencer com um total de 3-0.
Em Viena, o Austria precisou apenas de 45 minutos para garantir uma confortável vitória por 3-0 no encontro da primeira mão diante do Slavia de Praga. Sindelar, Sesta, e Nausch foram os homens golos dos austríacos, que na segunda mão exibiram-se de forma majestosa no plano defensivo, consentindo apenas um golo aos vice-campeões da Checoslováquia.

A talentosa squadra da Ambrosiana-Inter que chegou às meias-finais da Mitropa em 36
Milão testemunhou um grande jogo de futebol protagonizada pela Ambrosiana-Inter e pelo Sparta de Praga, a contar para a primeira mão das meias-finais. Os campeões da nação de leste beneficiaram de uma intervenção infeliz do defesa transalpino Ernesto Mascheroni para se colocarem em vantagem logo aos 9 minutos, vantagem essa que seria ampliada três minutos depois pelo temível dianteiro belga Braine. Os nerazzurri reagiram bem, e à passagem do quarto de hora Ferrari reduziu. Até ao intervalo a avalanche italiana iria causar mais estragos junto da baliza de Klenovec, primeiro por Meazza, aos 31 minutos, e posteriormente por intermédio de Ferraris, que ao minuto 35 colocou a Ambrosiana-Inter em vantagem. No entanto, do outro lado estavam dois dos maiores goleadores do futebol continental de então, Raymond Braine e Oldrich Nejedly. Este último empatou a partida a quatro minutos do descanso, ao passo que o belga recolocou o Sparta na liderança aos 72 minutos. Zaycek deu a machadada final aos 84 minutos, selando o marcador em 5-3 a favor do Sparta, que assim tinha caminho aberto para uma nova final. Em Praga, na segunda mão, os italianos ainda lutaram por um final feliz, mas do outro lado Braine teve uma nova tarde verdadeiramente diabólica, apontando dois dos três golos com que o Sparta obteve um novo triunfo e carimbou a passagem ao encontro decisivo.

E se Braine foi o herói da meia-final entre Sparta e Ambrosiana-Inter, Sindelar não quis ficar atrás do belga e vestiu também ele a capa de herói da eliminatória entre o Austria de Viena e o Ujpest. No entanto, a primeira mão, ocorrida na Hungria, ficou manchada pela violência, primeiro entre jogadores de ambas as equipas, e depois entre adeptos. De tal modo que a polícia foi chamada a intervir no sentido de evitar uma batalha campal. No plano desportivo, o Austria levou a melhor, por 2-1. Na segunda mão o talentoso Gyula Zsengeller ainda deu esperanças ao Ujpest, depois de inaugurar o marcador no Estádio do Prater. A entrada fulgurante dos húngaros seria no entanto sol de pouca dura, já que depois disto apareceu... Matthias Sindelar. O Mozart do futebol liderou o assalto do Austria à baliza húngara, apontando dois golos e dando outros a marcar, contribuindo, e muito, para que o Austria vencesse por claros 5-2 e garantisse a presença em mais uma final.
Liderado pelo Mozart do Futebol - Matthias Sindelar - o Austria de Viena
voltou em 1936 a subir ao topo da Europa do futebol
A 6 de setembro de 1936 o Estádio do Prater, em Viena, recebeu 42.000 espetadores ansiosos por ver aquele que se previa ser um hino ao futebol espetáculo, prevendo-se emoção e golos em catadupa. O Sparta chegava à capital da Áustria com um invejável registo de uma centena de golos apontados em 26 partidas disputadas – repartidas entre o campeonato checoslovaco e a Mitropa Cup!!! Porém, a veia goleadora dos rapazes de Praga não se fez notar, muito devido à soberba performance da defesa local, que anulou com mestria os perigosos avançados Braine e Nejedly. Não querendo ficar atrás do setor homólogo, também a defesa do Sparta esteve impecável na hora de travar... Sindelar. Resultado final: 0-0. Em Praga, uma semana mais tarde, o Estádio Strahov foi pequeno demais para o número de entusiastas que não quiseram perder o segundo assalto da grande final. Mais uma vez o Austria esteve intransponível no plano defensivo, sendo aqui de destacar a aexibição do defesa Mock que bloqueou com garra e arte todas as tentativas de Raymond Braine importunar o guardião Zohrer. Karl Sesta fez o mesmo com Nejedly. Do lado oposto do campo estava Sindelar, que aos 67 minutos pegou na bola e como que num ápice de magia colocou-a magistralmente nos pés de Jerusalem que fez o único golo do jogo, o golo da vitória, o golo do segundo título continental para o Austria de Viena.

Nomes e números:



Pré-Eliminatória (1ª e 2ª mãos)

Zidenice (Checoslováquia) - Lausanne-Sports (Suíça): 5-0/1-2
Young Fellows (Suíça) Phobus (Hungria): 0-3/2-6
FC Bern (Suíça) – Torino (Itália): 1-4/1-7
Austria Viena (Áustria) - Grasshopper (Suíça): 3-1/1-1

1ª Eliminatória (1ª e 2ª mãos)

MTK Budapeste (Hungria) - First Viena (Áustria): 0-2/1-5
Zidenice (Checoslováquia) – Ambrosiana-Inter (Itália): 2-3/1-8
Sparta Praga (Checoslováquia) - Phobus (Hungria): 5-2/2-4
Rapid Viena (Áustria) – Roma (Itália): 3-1/1-5
Admira (Áustria) - Prostejov (Checoslováquia): 0-4/3-2
Torino (Itália) – Ujpest (Hungria): 2-0/0-5
Bologna (Itália) - Austria Viena (Áustria): 2-1/0-4
Ferencvaros (Hungria) - Slavia Praga (Checoslováquia): 5-2/0-4

Quartos-de-final (1ª e 2ª mãos)

First Viena (Áustria) – Ambrosiana-Inter (Itália): 2-0/1-4
Austria Viena (Áustria) - Slavia Praga (Checoslováquia): 3-0/0-1
Sparta Praga (Checoslováquia) - Roma (Itália): 3-0/1-1
Prostejov (Checoslováquia) – Ujpest (Hungria): 0-1/0-2

Meias-finais (1ª e 2ª mãos)

Ambrosiana-Inter (Itália) - Sparta Praga (Checoslováquia): 3-5/2-3
Ujpest (Hungria) - Austria Viena (Áustria): 1-2/2-5

Final (1ª mão)



Austria Viena (Áustria) – Sparta Praga (Checoslováquia): 0-0

Data: 6 de setembro de 1936
Estádio: Prater, em Viena (Áustria)
Árbitro: Giuseppe Scarpi (Itália)

Austria Viena: Rudolf Zohrer, Karl Andritz, Karl Sesta, Karl Adamek, Johann Mock, Walter Nausch (c), Franz Riegler, Josef Stroh, Matthias Sindelar, Camillo Jerusalem, e Rudolf Viertl. Treinador: Jeno Konrad.

Sparta Praga: Bohumil Klenovec, Jaroslav Burgr (c), Josef Ctyroky, Josef Kostalek, Jaroslav Boucek, Ludovit Rado, Ferdinand Faczinek, Oldrich Zajucek, Raymond Braine, Oldrich Nejedly, e Geza Kalocsay. Treinador: Frantisek Sedlacek.

Final (2ª mão)



Sparta Praga (Checoslováquia) – Austria Viena (Áustria): 0-1

Data: 13 de setembro de 1936
Estádio: Strahov, em Praga (Checoslováquia)
Árbitro: Rinaldo Barlassina (Itália)

Sparta Praga: Bohumil Klenovec, Jaroslav Burgr (c), Josef Ctyroky, Josef Kostalek, Jaroslav Boucek, Ludovit Rado, Ferdinand Faczinek, Oldrich Zajucek, Raymond Braine, Oldrich Nejedly, e Geza Kalocsay. Treinador: Frantisek Sedlacek.

Austria Viena: Rudolf Zohrer, Karl Andritz, Karl Sesta, Karl Adamek, Johann Mock, Walter Nausch (c), Franz Riegler, Josef Stroh, Matthias Sindelar, Camillo Jerusalem, e Rudolf Viertl. Treinador: Jeno Konrad.

Golo: 0-1 (Jerusalem, aos 67m)